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CAPÍTULO I

OCEANO GLACIAL ANTÁRCTICO, NAVIO S.S. EXPEDITION


“Estamos na rota certa?”
“Sim, finalmente!”
O S.S. Expedition encontrava-se em pesquisas submarinas na
costa argentina, aquando de uma forte tempestade, soprando ventos
e cantando trovoadas. O bafejar das rajadas eriçou o mar, as ondas
revoltaram-se, a espuma branca vislumbrava-se, ao longe,
embatendo de encontro às rochas bicudas das falésias da Patagónia.
Poderia ter sido aquela a definitiva viagem do navio que durante anos
servira a agência Connor, Historical Research Inc., a agência de
Lumux Connor, um prestigiado arqueólogo que levara a cabo
expedições inacreditavelmente perigosas e inóspitas.
O vento cantava chorando simultaneamente lágrimas que não se
sabiam vindas do céu ou do mar revolto que berrava bem alto,
cuspindo milhões e milhões de pequenas partículas salgadas. O
navio, um autêntico brinquedo nas mãos do Adamastor Antárctico,
cambaleando como um alcoólico em plena noite boémia lisboeta,
cidade que parecia ser o paraíso em comparação ao inferno gelado. O
casco, alagado dos salpicos chorosos do céu patagónio argentino que
se parecia tornar a última morada da população aterrorizada.
Os aparelhos informáticos, todos os documentos adquiridos
através da pesquisa de largos meses num solo submarino sul
atlântico gelado, até mesmo os próprios informáticos, os próprios
geógrafos, os próprios meteorologistas que viram aquela tempestade
como uma borra de café numa previsão de um lindo dia de sol de
inverno, os próprios arqueólogos que estudavam as fontes históricas
de modo a orientar os mergulhadores que imergiam no gélido choro
do Atlante, tudo balançava, ao sabor do vento, ao sabor das águas,
ao sabor e má vontade da natureza inóspita.
O casco ficou danificado, o convés transformou-se numa piscina
tropical situada abaixo do Círculo Polar Antárctico (o que seria
considerado como uma anomalia geográfica pouco grave, tendo em
conta a temperatura da água), os cientistas tornaram-se marionetas
nas mãos das Mães de todas as mães, a Mãe Céu, a Mãe Terra, a Mãe
Água, deixando de sentir sequer o rumo que tomavam. E a
tempestade, acalmando, já não rugia, já não chorava
desalmadamente, já não se manifestava abruptamente, já não
embalava o simples navio nos braços carinhosos das suas ondas.
A intempérie desvanecera-se, tudo voltara ao normal, os
trabalhos de reconstituição do Expedition haviam começado, os
aparelhos informáticos, alagados até à motherboard, eram
descartados, os projectos e documentos voltavam à sua posição
inicial. Tudo voltava ao normal, tudo excepto a posição.
Estando extremamente perto do continente gelado aquando das
submersões na Patagónia argentina, estavam agora a um palmo e
meio de alcançar a placa de gelo mais próxima. Pelo mar escuro
denotavam-se pequenos icebergues que nas profundidades se
tornavam na força mais fantástica e poderosa alguma vez existente.
O céu verde, repleto de nuvens, parecia anunciar uma nova tormenta
mas era apenas a proximidade à última fronteira do sul que o tornava
invejoso.
Já parcialmente recuperados, a missão mudou: encontrar a rota
de regresso. Tal poderia ser complicado, demorar semanas,
possivelmente meses, ao que seriam dados como desaparecidos e
possivelmente como mortos. Os aparelhos eléctricos ou electrónicos
haviam deixado de ser uma opção. Até preparar as refeições em
rápidas Bimbis, se havia transformado numa impossibilidade. Desta
forma, pensar sequer em colocar aparelhos de GPS a funcionar, seria
uma loucura sem saída absolutamente nenhuma.
Viam-se presos numa expansão marítima austral, obrigados a
usar técnicas retrógradas de orientação ultramarina. Privados até de
quadrantes e astrolábios (ditos inúteis num barco tão bem aparelhado
como o Expedition), olhar os céus seria a mais plausível da única
opção de que dispunham. Arqueólogos? Informáticos?
Meteorologistas? Geógrafos? Ninguém no navio era realmente
especializado em Astronomia e observação celeste, o que tornava
tudo ainda mais complicada. Olhar os céus seria uma tarefa feita às
cegas, baseada em cultura geral.
Após tentativas consecutivas, a frustração ocupava-se das
mentes e dos corpos mal alimentados da dita tripulação inexperiente.
O céu nublado antárctico escondia as estrelas, a principal e talvez
única forma que todos no barco conheciam de orientação. Previsões
meteorológicas seriam possíveis, mas a informática tornava-se
essencial de qualquer das formas: inútil. Esperar: passivo, aborrecido,
a paciência é uma virtude.
As provisões estariam a terminar e o continente gélido na
parecia querer que aquele navio em particular voltasse a porto
seguro. Seria esta uma das especulações dos passageiros/tripulação
que, dotados de tempo e falta de assunto para falar para além da sua
desgraça pessoal, a bem ou a mal, iam aparecendo da cabeça de um
geógrafo, da cabeça de um arqueólogo e por vezes até da boca. Por
vezes a piada era geral, por vezes a veracidade do pensamento era
tal que a apatia se adensava.
Talvez uma noite, por pura sorte, por que Deus assim o quisera,
por que talvez assim tivesse que ser, as nuvens se afastassem,
dessem um passo ao lado na sua caminhada pelos céus e
mostrassem as tão aguardadas estrelas.
Duas semanas estavam decorridas desde a tempestade e do
afastamento do barco da costa argentina. A esperança desvanecera-
se, à mesma velocidade que os mantimentos. A morte parecia bater
às portas do navio que estava agora todo aparelhado e pronto a
partir. Mas para onde? Por várias vezes haviam pensado em fazer
uma paragem na Antárctida, esperando que uma equipa de bravos
exploradores polares os resgatasse. No entanto, esta tornava-se
também uma ideia rebuscada, visto que os agasalhos que
transportavam a bordo eram ideias para a América e não para o Pólo
Sul. Esperar deixara de parecer uma opção plausível. A vontade de
muitos era saltar para o mar frígido e esperar que o corpo reagisse da
forma mais dramática.
“Helicóptero! Helicóptero!”
Uma manhã, pela mais desconhecida razão deste mundo e do
próximo, um animal alado saiu dos céus, arranhando o vento pesado
e cortando as sebes das nuvens. Um helicóptero. Seria possível.
Durante duas semanas, duas semanas a fio havia aguardado um
milagre, uma ajuda divina que lhes mostrasse o caminho. E esse dia
havia chegado. Um mensageiro, um salvador, irrompia pelos céus
fora. Esforços não foram poupados, embora as forças restantes
fossem já muito poucas. Aquele helicóptero poderia não estar
destinado à salvação do barco mas a uma qualquer outra missão.
Havia que assinalar a posição. Very lights foram disparados, gritos
soltos das bocas mal nutridas, braços acenados num esforço incrível.
E lá vinha, descendo uma escada invisível, o salvador, o
helicóptero. Teriam sido forças desperdiçadas? Se fossem, que
importava. Estavam agora cientes da sua salvação, nada lhes poderia
demover da sua felicidade.
Aterrar no casco foi uma tarefa ligeiramente complicada mas
assim que o primeiro rosto foi vislumbrado, usando agasalhos as
ovações tornaram-se ensurdecedoras.
Era, realmente, o helicóptero em busca do navio e dos seus
passageiros, um helicóptero que estava a fazer o seu trabalho mais
por uma questão de descargo de consciência, visto que não era só no
meio do mar que as esperanças se tinham dizimado. Todos
especulavam o pior, agoiravam para o ar dizendo que seria maldição.
Ninguém tinha no pensamento que alguém naquele barco pudesse
estar vivo.
Talvez fosse aquele o final feliz de uma história de terror. No
entanto, a história estava apenas no início.
“Cinquenta e sete graus e quarenta e sete minutos a sul e
sessenta e oito graus e catorze minutos a oeste!”
A demarcação da rota nos aparelhos estava completa. Ushuaia, a
cidade mais a sul da Argentina, seria o destino.
As mentes estavam mais calmas, a preocupação era agora
contactar os familiares, os estômagos continuavam vazios apesar da
alguma comida fornecida pelos pilotos do helicóptero. Reflectir sobre
aquela experiência seria o mais acertado a fazer mas nem a isso se
propunham. As horas passavam e os passageiros iam-se distribuindo
pelos seus quartos, procurando descansar do susto.
Lumux, isolado, procurava sozinho o sossego de um mar menos
escuro, de um céu menos esverdeado, de um ar que se tornava cada
vez mais quente e que lhe acariciava todos os sentidos. Respirava os
pensamentos da sua irmã que estaria agora a rejubilar, especulando
todo o mal que poderia ter acontecido ao seu irmão.
“A pensar na vida?”
Uma voz que ninguém naquele navio alguma vez esqueceria
irrompia por uma tão cinematográfica porta, questionando-o de uma
forma que não lhe pareceu de todo adequada à situação.
“Mais a pensar na quase morte?”, puxando a ironia do fundo do
seu ser e evitando responder de forma menos agradável.
“O que lá vai, lá vai! Se pensássemos constantemente no
‘poderia ter acontecido’ por certo que muita gente teria de ser
internada” continuando num tom um tanto apaziguado, uma voz
calma e doce que se diria talvez mais feminina que masculina. “Para
além do mais, está a salvo. Isso sim seria algo a louvar e não pensar
no que nem sequer chegou a acontecer.”
“Talvez tenha razão.”
O mar permanecia calmo, manifestando através de ligeiras
ondulações que bramavam ligeiramente ao bater na proa do navio.
Golfinhos ou baleias. Nem vê-los. Tal cenário seria demasiado final e
calmo, como se tentasse fechar um capítulo. Mas tudo apenas
começava.
Destoando-se das águas, o céu encontrava-se bastante
carrancudo, não verde mas cinzento, carregado e desejoso de libertar
uma pluviosidade que poderia cessar a acalmia que se verificava em
termos de mar.
A Antárctida seria agora algo a esquecer. Tal como o salvador
dissera, “o que lá vai, lá vai” e o continente gelado por certo que ia lá
bem longe, no fundo dos pensamentos revoltos dos passageiros.
“Sem querer parecer indelicado, tem família?”, numa tentativa
de puxar um novo tema de diálogo, tentando parar as observações ao
estado do tempo.
“Uma irmã”, abanando ligeiramente a cabeça num gesto de
confirmação, como que a eliminar a palavra “sim” do seu discurso.
“Os meus pais morreram há dois anos num acidente de automóvel
perto de Chicago.”
“Desculpe a pergunta. Lamento imenso!”, baixando ainda mais o
tom da sua voz ligeiramente fêmea, ao ponto de a tornar ligeiramente
assustadora.
“Não tem importância. Como disse ‘o que lá vai lá vai’”, voltando
ao recurso à ironia e esboçando um ténue sorriso no seu rosto pálido
e ensonado, com uma denotação incrível das olheiras e a barba por
aparar, podendo ser aquele considerado como o rosto - tipo de um
náufrago. “A princípio foi um pouco difícil. A minha irmã não queria
aceitar. Trancou-se em casa duas semanas a fio. Quando finalmente a
consegui persuadir a sair à rua, chorou ao ver a luz do dia.”
“Que horror!”
“Assim que a vi assim comovi-me e abracei-a a chorar também”
explicou, rodando um anel que utilizava no dedo indicador, dotado de
um olho egípcio em prata. “Foi… o momento em que me senti mais
unido à minha irmã. Desde esse dia nunca mais nos chateámos.
Temos uma relação incrível.”
“Mais uma vez sem querer parecer indelicado, esse anel foi um
presente da sua irmã?”, perguntou apontado para o pequeno objecto
dourado e prateado que continuava a girar de um lado para o outro
com o auxílio da mão esquerda de Lumux.
“Sim, foi um presente de Natal. Ela pediu-me para o usar no
dedo anular mas eu raramente o faço. Só quando estou com ela”, ao
mesmo tempo que erguia a mão, estendo o dedo ao salvador para
que pudesse observar minuciosamente.
Seguiram-se mais alguns momentos de apatia. Observar o mar e
os céus passou novamente a ser a actividade de eleição. Lá longe, o
sol punha-se, criando uma aurora avermelhada que destoava
completamente da paisagem branca que todos imaginavam.
Muitos dos passageiros acordavam agora, talvez um pretexto
para poderem festejar a sua chegada a Ushuaia. Esperando ver o
continente sul-americano, muitos distribuíam-se heterogeneamente
pelo convés, divididos em grupos como se quisessem festejar a
chegada do ano novo com uma taça de champanhe francês ou, mais
simples, observando o horizonte sozinho, esperando chorar de alegria
ao chegar a terra firme.
“Talvez o indicador signifique outra coisa…”, intercedeu
novamente o salvador, tentando reatar a conversa, desta vez talvez
numa vertente mais enciclopédica, simbólica.
“Desculpe!”, bramiu Lumux num tom de ligeira incompreensão.
“O Olho-que-tudo-vê… Uma boa alusão, sim senhor. Tenho que
tirar-vos o chapéu. Talvez um símbolo para exprimir a ingenuidade da
espécie humana perante o que está mesmo à sua frente!” soltou. O
diálogo tomara um rumo estranho, o tom do salvador mudara. A voz
carinhosa, tenuemente feminina, apaziguante dava lugar a um tom
grave, monstruoso, paranormal e ameaçador, bastante intimidador,
tornando o ambiente pesado e, de novo, antárctico.
“Não estou a compreendê-lo!”, a incredulidade estampada no
rosto de Lumux, ligeiramente acompanhada por uma sensação de
medo que lhe rompia as veias. O salvador tornara-se ameaçador. O
tema de conversa tinha mudado estranhamente depressa dos
assuntos familiares para uma discussão estranha, talvez relacionada
com simbologia.
“Pelo amor de Deus! Não se faça de desentendido. Pergunto-me
a mim mesmo há quanto tempo e por mais quanto tempo tencionam
vocês continuar com o vosso legado de clausura e esquecimento!”, o
salvador mexia as mão de forma ribombante, cerrando os punhos em
intervalos curtos, quase que ameaçando agredir Lumux.
“Está a tornar-se indelicado!”
“Vá para o caralho mais as indelicadezas! Explique-me. Só quero
saber o porquê de esconder algo assim tão afincadamente!”
“Você está a passar dos limites!”
O Lumux começava a sentir-se arrepiado, assustado com o
comportamento do salvador. Levar o assunto por um caminho menos
agressivo seria o ideal mas não parecia existir um acordo mútuo entre
as partes. Os insultos ouviam-se num tom anormal. O começara com
uma conversa amistosa estava a transformar-se numa discussão
acesa.
“Responda! Porquê?”, gritando aos ventos, espalhando o som por
todo o navio sem sequer captar a atenção dos passageiros no convés
que se preocupavam mais em olhar o nada em busca da salvação
argentina.
Lumux permaneceu calado, movendo-se em direcção à porta,
tentando acabar por ali a discussão.
“Responda, caralho!”
A mão direita do salvador tornara-se uma ameaça. Segurando de
forma decidida, mantendo a mesma expressão agressiva, estendendo
o braço na direcção de Lumux, uma pistola entrava no conflito.
“Está a passar largamente os limites!”
“Eu não o volto a avisar!”, puxando a patilha da arma de forma a
desimpedir o caminho da bala. “Responda!”
“Raciocine, por favor! Não é óbvio que não posso responder a
algo que não sei”, abanado as mãos nervosamente, de uma lado para
o outro e expressando no seu rosto o medo.
“Sempre fiéis!”
O salvador aplaudiu, deixando a arma pendurada no dedo
indicador da sua mão direita, até chegando a sorrir. Ironicamente
inclinou-se perante Lumux, colocando ao mesmo tempo uma mão
paralela à cabeça e afastando-a depois, tentando reproduzir a acção
de “tirar o chapéu”.
“Queira saber então que a fidelidade não foi, não é, nem nunca
será a salvação para ninguém!”. Voltou a estender o braço,
oferecendo à arma a sua posição normal. “Depois conta-me como as
coisas são lá em cima!”
Lá longe, nesse momento, a Antárctida ruiu, ouvindo o grito assassino
da arma do salvador. Bem perto, nesse momento, Ushuaia assistiu
incrédula, aparecendo pouco a pouco do mar ao mesmo tempo que
chorava aos céus.