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POLÍCIA MILITAR DO ESTADO DE SÃO PAULO DIRETORIA DE ENSINO E CULTURA ESCOLA SUPERIOR DE SARGENTOS

CURSO DE APERFEIÇOAMENTO DE SARGENTOS

MATÉRIA 06: DIREITO PENAL

Divisão de Ensino e Administração Seção Técnica Setor de Planejamento

APOSTILA ELABORADA EM 01MAR04, PELO CAP PM FLÁVIO TADEU, DA ESSGT. ATUALIZADA EM 15DEZ11, PELO CAP PM RENÓ, DA CORREGEDORIA; E 1º TEN PM AKAMINE DA ESSGT.

APOSTILA EDITADA PARA O CAS - I / 2011

ÍNDICE:

DESCRIÇÃO

   

PÁG

DO CRIME: CONCEITO, TIPICIDADE E ANTIJURIDICIDADE

3

EXCLUSÃO DA ILICITUDE OU DA ANTIJURIDICIDADE OU DA CRIMINALIDADE

5

DA IMPUTABILIDADE PENAL, SEMI-IMPUTABILIDADE E INIMPUTABILIDADE

9

PARTE ESPECIAL - DOS CRIMES CONTRA A PESSOA

10

HOMICÍDIO

11

INDUZIMENTO, AUXÍLIO OU INSTIGAÇÃO AO SUICÍDIO

15

INFANTICÍDIO

16

ABORTO

17

LESÃO CORPORAL

19

DOS CRIMES CONTRA O PATRIMÔNIO

26

FURTO

26

ROUBO

31

EXTORSÃO e EXTORSÃO MEDIANTE SEQUESTRO

35

RECEPTAÇÃO

40

CRIMES CONTRA A DIGNIDADE SEXUAL

43

ESTUPRO

43

ESTUPRO DE VULNERÁVEL

45

MEDIAÇÃO PARA SATISFAZER A LASCÍVIA DE OUTREM COM PESSOA MENOR DE QUATORZE ANOS

46

SATISFAÇÃO DE LASCÍVIA MEDIANTE PRESENÇA DE CRIANÇA OU ADOLESCENTE

47

FAVORECIMENTO DA PROSTITUIÇÃO OU OUTRA FORMA DE EXPLORAÇÃO DE VULNERÁVEL

48

DOS CRIMES CONTRA A ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA

50

PECULATO

50

CONCUSSÃO

53

CORRUPÇÃO PASSIVA

55

PREVARICAÇÃO

56

DESOBEDIÊNCIA

57

DESACATO

58

RESISTÊNCIA

60

CORRUPÇÃO ATIVA

61

FALSO TESTEMUNHO OU FALSA PERÍCIA

63

CONDESCENDÊNCIA CRIMINOSA

64

ESTELIONATO

65

BIBLIOGRAFIA

72

Nota Esta apostila é um material de apoio. O seu conteúdo não esgota o assunto e desde que previsto curricularmente, poderá ser objeto de avaliação. Com isso, é essencial que você pesquise profundamente os assuntos, tomando por base as referências bibliográficas dispostas, bem como outras que achar por bem utilizar.

Teoria do crime. Tipicidade e Ilicitude; dolo e culpa. Excludentes de antijuridicidade: estado de necessidade; legítima defesa; estrito cumprimento do dever legal; exercício regular de direito.

03 h/a

DO CRIME: CONCEITO, TIPICIDADE E ANTIJURIDICIDADE

Conceito de Crime

Crime é um fato típico e antijurídico (Teoria Finalista da Ação). A culpabilidade constitui pressuposto da pena (Recai sob o agente e não sob o fato).

Ação, Tipicidade e antijuridicidade

Conceituamos o crime como sendo toda ação (positiva = fazer; ou negativa= omissão) típica (escrita, prevista, codificada no Código Penal ou em Leis Especiais) e antijurídica (significa contrariedade às normas). Para que haja crime, é preciso uma conduta humana positiva (um fazer) ou negativa (uma omissão). Nem todo comportamento do homem, porém, constitui delito, em face do princípio da reserva legal. Logo, somente aqueles previstos na lei penal (Código Penal ou leis especiais) é que podem configurar o delito (crime). Vale dizer, no Direito Penal, a pessoa só poderá ser punida se praticar uma conduta dolosa ou culposa, tendo esta última de haver previsibilidade legal.

Logo, a conduta humana passível de reprimenda estatal diante da violação da norma é a conduta voluntária, pois, atos involuntários, como por exemplo, tossir e bater com a mão em alguém, não são protegidas pelo Direito Penal. O primeiro requisito do crime é o fato típico, composto pela conduta humana voluntária, resultado, nexo causal e tipicidade. Não basta que o fato seja típico, pois é preciso que seja contrário ao direito: antijurídico. Isto porque, embora o fato seja típico, algumas vezes é considerado lícito (legítima defesa etc.). Logo, caracterizada a legalidade da conduta, esta passa a ser jurídica, portanto, deixa de ser antijurídica, fulminando assim os elementos básicos do crime, ocasionando a descaracterização do mesmo. Diante da existência de uma conduta típica é importante registrar que o Iter criminis, comumente conhecido como as fases ou os caminhos do crime, permite ao intérprete da norma penal aferir, por estudo de caso, de que forma ocorreu o delito, se ele se enquadra dentre os parâmetros de uma modalidade tentada ou consumada, ou se é um crime impossível.

- Claro, é só verificar as 4 fases: cogitação, preparação (duas fases via de regra não
- Claro, é só verificar as 4 fases: cogitação,
preparação (duas fases via de regra não puníveis),
execução (aqui começa o ataque ao bem jurídico
tutelado) e consumação (quando o agente pratica
todas as condutas descritas no tipo penal).
- Será que isso pode ser considerado crime consumado?
- Será que isso pode
ser considerado crime
consumado?
Teoria do crime. Tipicidade e Ilicitude; dolo e culpa. Excludentes de antijuridicidade: estado de necessidade; legítima
- Segundo os ensinamentos das aulas de Direito Penal, ministradas no Curso Superior de Tecnólogo de
- Segundo os ensinamentos das aulas
de Direito Penal, ministradas no
Curso Superior de Tecnólogo de
Polícia Ostensiva e Preservação da
Ordem Pública, há de se verificar as
fases do Iter criminis. Sargento o
senhor se recorda disso?

3

O Iter criminis significa o caminho do delito, permite descrever etapas por onde o crime geralmente deve passar desde o momento em que surgiu a idéia do delito até a sua consumação. O Iter criminis pode ser dividido em duas fases, denominadas interna e externa:

1) Fase interna:

Cogitação Refere-se ao plano intelectual acerca da prática criminosa. O delito está no pensamento do indivíduo. A cogitação não é punida, trata-se de uma fase irrelevante para o Direito Penal.

2) Fase externa:

Atos Preparatórios - Nesta fase os preparativos do crime são realizados, tais como a compra da arma no crime de homicídio, a confecção do mapa por onde vai passar o desafeto, etc.; Há delitos cuja consumação se verifica já nesta fase, como por exemplo, o delito do art. 291 do CP (Petrechos para a falsificação de moeda), que se consumam pelo fato do indivíduo ser surpreendido de posse desses petrechos, tais como: engrenagens, molas, etc.

Execução Esta fase é caracterizada quando o agente começa a dar início à realização do delito, como diz Fernando Capez, a conduta do agente começa a romper o lastro que o aprisiona. Cumpre observar que, iniciada a execução, o agente responderá por crime tentado ou por crime consumado, logo, é a partir dessa etapa que, via de regra, o Direito Penal se preocupa.

Consumação O iter criminis se encerra com a consumação, consuma-se o crime quando nele se reúnem todos os elementos de sua definição legal. A noção da consumação expressa total conformidade do fato praticado pelo agente com a hipótese abstrata descrita pela norma penal incriminadora.

Observação:

Consumação não se confunde com exaurimento, que ocorre quando, depois de consumado o crime, o agente leva o fato às conseqüências mais lesivas. Neste caso, embora as conseqüências sejam mais graves, o crime é o mesmo e o juiz deve levar em conta essa circunstância na aplicação da pena. Ex.: Recebimento do resgate no crime de extorsão mediante seqüestro.

Desse modo, um crime pode ser consumado, tentado ou impossível, senão vejamos:

1) CRIME CONSUMADO

Conceito: Quando nele se reúnem todos os elementos de sua definição legal. Art. 14. I CP.

Ex: Art. 121 homicídio matar alguém - consuma-se com a morte da vítima.

2) CRIME TENTADO

Conceito: Quando iniciada execução não se consuma por circunstâncias alheias à vontade do agente Art. 14. II CP.

Elementos:

a) início de execução; b) não consumação; c) circunstâncias alheias à vontade do agente.

Formas:

a) Tentativa Imperfeita ou Inacabada: Há interrupção do processo executório; o agente não chega a praticar todos os atos de execução do crime, por circunstâncias alheias à sua vontade, ou

seja, a execução é interrompida. Ex: Ao sacar sua arma para atirar contra desafeto, agente é impedido por Policial Militar, que o desarma e prende em flagrante delito.

  • b) Tentativa Perfeita ou Acabada (“Crime Falho”): Não há interrupção do processo

executório; o agente pratica todos os atos de execução, mas o crime não se consuma por circunstâncias alheias à sua vontade, nesta modalidade, o agente inicia e termina a execução do crime, contudo, sem obter o resultado desejado. Ex: Após descarregar seu revólver contra Pedro a fim de matá-lo, João retira-se calmamente do local, porém Pedro é socorrido imediatamente por um vizinho e sobrevive. Observações:

Para o CP não há diferença de tratamento entre as duas modalidades, mas o juiz leva em conta essas espécies no momento de dosar a pena da tentativa.

Infrações penais que não admitem tentativas:

  • a) Culposas. b) Contravenções Penais. c) Crimes de Mera Conduta. Ex.: Art. 150 do C.P.

Violação de Domicílio.

3) CRIME IMPOSSÍVEL Conceito: é aquele que jamais se verificará, ou acontecerá, nem mesmo na modalidade tentada, ocorre por duas modalidades: pela ineficácia absoluta do meio empregado ou pela impropriedade absoluta do objeto material, logo, o agente aqui não praticará crime algum.

  • a) Pela ineficácia absoluta do meio: o meio empregado para a prática do crime jamais o

levará à consumação. Ex: uma arma de fogo inapta a efetuar disparos, tentar matar uma pessoa sadia ministrando-lhe açúcar; cuidado, se a vítima tiver diabete elevada, poderá caracterizar lesões corporais grave, gravíssima ou até mesmo tentativa de homicídio, desde que tal circunstância seja de conhecimento do agente.

  • b) Pela impropriedade absoluta do objeto: a pessoa ou coisa sobre as quais recai a

conduta são absolutamente inidôneas à produção de algum resultado lesivo.

Ex: Matar um cadáver, ingerir substância abortiva imaginando-se grávida etc.

Quanto ao resultado o crime pode ser assim classificado:

  • 1. Crime material é aquele em que há necessidade de um resultado externo à ação, descrito

na lei, e que se destaca lógica e cronologicamente da conduta (Ex: homicídio-resultado: morte).

  • 2. Crime formal é aquele em que não há necessidade de realização daquilo que é

pretendido pelo agente e o resultado jurídico previsto no tipo ocorre em concomitância com o

desenrolar da conduta (Ex: Concussão - a consumação se dá com a exigência do funcionário público e independe do recebimento da vantagem indevida).

  • 3. Crime de mera conduta a lei não exige e nem prevê qualquer resultado naturalístico,

contentando-se com a ação ou omissão do agente. (Ex: violação de domicílio, ato obsceno).

Importante registrar que uma conduta delituosa, também pode ser classificada quanto ao elemento subjetivo, no seguinte aspecto:

  • 1. Doloso Ocorre quando o agente quer o resultado ou assume o risco de produzi-lo;

  • 2. Culposo Ocorre quando o agente deu causa ao resultado por imprudência, negligência

ou imperícia;

  • 3. Preterdoloso Ocorre quando o resultado vai além da intenção do agente, cuja ação se

inicia dolosamente e termina culposamente. Há dolo no crime antecedente e culpa no conseqüente.

EXCLUSÃO DA ILICITUDE OU DA ANTIJURIDICIDADE Art. 23 do CP - As causas legais gerais são:

  • a) Estado de Necessidade;

  • b) Legítima Defesa;

  • c) Estrito Cumprimento do Dever legal; e

  • d) Exercício Regular de Direito.

ESTADO DE NECESSIDADE - ART. 23, I DO CÓDIGO PENAL

Art. 24 do CP - Conceito: causa de exclusão da ilicitude da conduta de quem, não tendo o dever legal de enfrentar o perigo, sacrifica um bem jurídico para salvar outro, próprio ou alheio, ameaçado por situação de perigo atual (ou iminente, trazido pela doutrina e aplicado pela jurisprudência) não provocado dolosamente pelo agente, sendo que de outra forma não poderia ter sido evitado, cujo sacrifício não era razoável exigir-se.

REQUISITOS:

  • a) o perigo deve ser atual ou iminente.

    • - perigo atual: é o que está ocorrendo;

    • - (perigo iminente: é o que está para acontecer, em milésimos de segundos, se chegar a

minutos, o perigo será futuro, logo, não amparado pela mencionada conduta). O agente não precisa aguardar o perigo surgir efetivamente para só então agir.

Admite,

portanto, estado de necessidade quando o perigo for iminente;

  • b) o perigo deve ameaçar direito próprio ou alheio

    • - direito: a expressão abrange qualquer bem jurídico, como a vida, a liberdade, o patrimônio;

    • - não se exige a existência de qualquer relação jurídica entre o sujeito e o terceiro, nem

tampouco prévia autorização deste para que o primeiro aja;

  • - é imprescindível que o bem a ser salvo esteja protegido pelo ordenamento jurídico. Ex.:

Condenado à morte não pode alegar estado de necessidade contra o carrasco, no momento da execução; pois, perdeu o direito a vida; caso mate o carrasco (que tem a conduta legal), responderá por homicídio.

  • c) o perigo não pode ter sido causado dolosamente pelo agente:

    • - entende que somente o perigo causado dolosamente impede que seu autor alegue o estado

de necessidade, logo, observa-se que o perigo pode até ser praticado pelo agente a título de culpa,

que ainda sim estará presente este requisito.

  • d) inexistência do dever legal de enfrentar o perigo:

    • - se a lei impuser ao agente o dever de enfrentar o perigo, deve ele tentar salvar o bem

ameaçado sem destruir qualquer outro, mesmo que para isso tenha de correr os riscos inerentes à sua função. Ex.: Bombeiro que não souber nadar não deverá pular na piscina, lago, represa, rio e etc. para tentar salvar vítima de afogamento, pois, a lei fala em “correr riscos”, que é diferente de suicidar-se. Há que se observar que o Princípio da Proporcionalidade e o da Razoabilidade deve(m) sempre estar presente, ou seja, posso abdicar de um patrimônio em prol de uma vida, mas nunca posso abrir mão de uma vida em prol de um patrimônio, ao alegar esta excludente.

LEGÍTIMA DEFESA - ART. 23, II DO CÓDIGO PENAL Art. 25 do CP - Conceito: Causa de exclusão da ilicitude consistente em repelir injusta agressão, atual ou iminente, a direito próprio ou alheio, usando moderadamente dos meios necessários.

REQUISITOS:

Agressão: é todo ataque praticado por pessoa humana. Se o ataque é realizado por animais irracionais, desde que não tenham sido atiçados, não há legítima defesa e sim estado de necessidade, pois, neste caso a pessoa se defende de uma situação e não agressão. Injusta: no sentido de não ser devida, ou seja, não legal, não autorizada pelo direito.

Atual ou iminente: atual é a agressão que está acontecendo e iminente é a que está prestes a acontecer. Não cabe legítima defesa contra agressão passada ou futura nem quando há promessa de agressão. Não cabe Legítima Defesa Real de Legítima Defesa Real, pois, o policial militar quando usa moderadamente dos meios necessários vem a repelir a agressão injusta do marginal, logo, o marginal que lesionar o PM, não poderá alegar Legítima Defesa, pois o revide do PM é justo. A direito próprio ou de terceiro: há legítima defesa própria quando o sujeito está se defendendo e legítima defesa alheia quando defende terceiro. Pode-se alegar legítima defesa alheia mesmo agredindo o próprio terceiro (ex.: em caso de suicídio, pode-se agredir o terceiro para salvá- lo).

Meio necessário: é o meio eficaz e menos lesivo colocado à disposição do agente no momento da agressão, vale dizer, que o meio também deve ser o disponível no momento. Ex.: O agente pode utilizar uma metralhadora contra a agressão injusta advinda do uso de (um) revólver, desde que prove que, na hora da agressão injusta, era o que tinha às mãos para se defender. Moderação: é o emprego do meio necessário dentro dos limites para conter a agressão injusta. Somente quando ficar evidente a intenção de agredir e não a de se defender, caracterizar-se-á o excesso. Excesso é uma intensificação desnecessária, ou seja, quando se utiliza um meio que não é necessário, podendo ou tendo tempo de utilizar outro de menor potencialidade ou quando se utiliza meio necessário sem moderação. Se o excesso for doloso, desde que não descaracterize a legítima defesa, assim como o culposo, o agente responderá por estes, dependendo do caso.

Legítima Defesa Putativa: A injusta agressão só está na cabeça de quem vai praticar a conduta, na realidade, a injusta agressão é uma “presunção”, não existe no caso em análise. Esta modalidade de legítima defesa existe e é válida normalmente no ordenamento jurídico, no entanto, é de difícil comprovação na prática.

Ofendículos e defesa mecânica predisposta. Ofendículos são aparatos visíveis destinados à defesa da propriedade ou de qualquer outro bem jurídico. O que os caracteriza é a visibilidade, devendo ser detectados por qualquer pessoa (ex.:

lança no portão da casa, caco de vidro no muro, cerca elétrica etc.). Existem duas posições sobre o uso de ofendículos:

Legítima defesa preordenada, visto que só atuará no momento em que ocorre a efetiva agressão; Exercício regular do direito pois se constitui numa faculdade do agente.

Defesa mecânica predisposta: é aparato destinado à defesa da propriedade ou de qualquer outro bem jurídico, no entanto estão ocultos. Excepcionalmente caracterizará exercício regular do direito. Em regra, o sujeito que se utiliza de defesa mecânica preordenada responde pelo crime.

ESTRITO CUMPRIMENTO DO DEVER LEGAL (Regra excludente do exercício da função pública, decorrente do cumprimento de disposições legais e regulamentares) Art. 23, III primeira parte).

O dever deve constar da lei, decreto, regulamento ou qualquer ato administrativo, nestes dois últimos, desde que de caráter geral. Quem cumpre estritamente um dever legal não pode ao mesmo tempo praticar ilícito penal, uma vez que a lei não contém contradições. Ex: O policial que cumpre um mandado de prisão, evitar fuga em presídio, impedir a ação de pessoa armada; o fiscal sanitário que viola um domicílio; o soldado que executa por fuzilamento o condenado ou elimina o inimigo no campo de batalha.

Obs.: Estão excluídas da proteção as obrigações meramente morais, sociais ou religiosas. Ex: sacerdote forçar a entrada em um domicílio para ministrar a extrema-unção (Violação de Domicílio), se o policial forçar um passageiro de um coletivo a ceder seu lugar a uma pessoa idosa, não responderá por constrangimento ilegal, desde que o assento seja reservado por lei ou decreto a determinada pessoa, como é o caso, por exemplo, dos idosos.

Além de resistirem à prisão, agimos dentro do estrito cumprimento do dever legal, ao prendermos em
Além de resistirem à
prisão, agimos dentro do
estrito cumprimento do
dever legal, ao prendermos
em flagrante delito por
tráfico de entorpecente
Obs.: Estão excluídas da proteção as obrigações meramente morais, sociais ou religiosas. Ex: sacerdote forçar a
Obs.: Estão excluídas da proteção as obrigações meramente morais, sociais ou religiosas. Ex: sacerdote forçar a
Obs.: Estão excluídas da proteção as obrigações meramente morais, sociais ou religiosas. Ex: sacerdote forçar a

EXERCÍCIO REGULAR DIREITO (Art. 23, III, segunda parte)

A expressão direito é empregada em sentido amplo, abrangendo todas as formas de direito, como na correção moderada dos filhos pelos pais (se não for moderada, pode caracterizar o crime de “Maus Tratos, previsto no art. 136 do CP”), a prisão em flagrante por particular, intervenções médicas e cirúrgicas, desde que realizadas por médicos, lesões corporais advindas das práticas desportivas (desde que se verifiquem durante a prática do esporte, obedecidas às regras do esporte), e a montagem dos ofendículos.

Da Culpabilidade: imputabilidade, semi-imputabilidade e inimputabilidade; exigibilidade de conduta diversa e consciência potencial da ilicitude.

02 h/a

CULPABILIDADE E REQUISITOS

CULPABILIDADE

É a reprovação da ordem jurídica, em face de estar ligado o homem ao fato típico e antijurídico. Não se trata de requisito de crime, funciona como condição de imposição da pena, ou seja, se estiver presente o agente será punido, caso contrário, não. A culpabilidade, também chamada de juízo de reprovação, é a possibilidade de se declarar culpado o autor de um fato típico e ilícito, é a responsabilização de alguém pela prática de uma infração penal. A culpabilidade não é elemento do crime, não integra o conceito de crime (Teoria Finalista da Ação). Então, se há discussão sobre a culpabilidade é porque já se verificou a existência do fato típico e sua ilicitude. A culpabilidade é pressuposto de aplicação da pena, sua ausência não exclui o crime, afasta somente a punibilidade do autor da infração. Os requisitos para a culpabilidade são:

I- imputabilidade. II- consciência potencial da ilicitude. III- exigibilidade de conduta diversa.

I - IMPUTABILIDADE

É a capacidade de compreender o caráter criminoso do fato e de orientar-se de acordo com

esse entendimento. A imputabilidade possui dois elementos:

-intelectivo (capacidade de entender); -volitivo (capacidade de querer). Faltando um desses elementos, o agente não será imputável.

SEMI-IMPUTABILIDADE

Quando o indivíduo pratica a conduta não sendo considerado imputável e nem inimputável, ou seja, aqui perdeu parcialmente a capacidade de entender e querer. Nesta hipótese, o juiz poderá optar, calcado na Teoria do Sistema Vicariante, em aplicar uma pena ao agente, diminuída de um a 2/3, ou aplicar tão somente a Medida de Segurança, a qual poderá ser detentiva, aplicada aos crimes punidos com reclusão, onde o agente fica internado em Hospital ou Manicômio apropriado, ou ainda, uma sanção restritiva aplicada aos agentes que praticaram crimes apenados com detenção, cumprida em ambulatório, onde o agente apenas comparece para se tratar e vai embora.

INIMPUTABILIDADE O agente não tem capacidade de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento.

EMBRIAGUEZ:

É uma intoxicação aguda e transitória, provocada pelo álcool ou por substância de efeitos

análogos. A embriaguez divide-se em:

Não-acidental: decorre da própria conduta humana voluntária, subdivide-se em:

  • - voluntária ou dolosa: o agente quer se embriagar (o agente responde normalmente pelo

crime);

  • - culposa: o agente quer ingerir a substância, mas não quer entrar em situação de embriaguez (o agente responde normalmente pelo crime);

    • - Preordenada: o agente se embriaga para cometer o crime. A embriaguez preordenada,

além de não excluir a imputabilidade, é considerada agravante genérica (art. 61, II, “l”, do CP). Tanto uma quanto a outra pode ser completa (perda total da capacidade de avaliação) ou incompleta (perda parcial da capacidade de avaliação). A embriaguez não-acidental não exclui a imputabilidade em razão da Teoria da “Actio Libera in Causa” (ações livres na causa), o agente tinha plena liberdade para decidir se deveria ou não agir (ingerir a substância), portanto, se em razão de sua ação perdeu a capacidade de avaliação, responderá pelas conseqüências.

Acidental: é a que deriva de caso fortuito ou força maior. Pode ser completa ou incompleta.

Não se aplica a Teoria “Actio Libera in Causa” porque o agente não tinha a intenção de

ingerir a substância. A embriaguez completa exclui a imputabilidade e a incompleta reduz a pena de 1/3 a 2/3, caso o juiz entenda ser a medida mais viável ao agente, no entanto, se entender que o tratamento é medida mais conveniente, lhe dará uma Medida de Segurança (é a chamada Semi-imputabilidade, ou Responsabilidade Restringida, Mitigada ou ainda Diminuída).

Patológica: é a embriaguez do alcoólatra, do dependente de substância química. O agente é equiparado ao doente mental (exclui a imputabilidade), desde que provado por perícia médica.

Emoção e Paixão: A emoção é um sentimento súbito, repentino, passageiro e intenso. A paixão é duradoura, perene. Nem a emoção nem a paixão excluem a imputabilidade. Somente a emoção pode funcionar como redutor de pena (art. 121, § 1º, e art. 129 § 4º), ou ainda como circunstância atenuante (art. 65, III, c).

II-CONSCIÊNCIA POTENCIAL DA ILICITUDE

A ninguém é dado descumprir a lei alegando que a desconhece. O desconhecimento da lei é inescusável, ou seja, indesculpável. Essa é uma presunção que não admite prova em contrário. A consciência da ilicitude não se confunde com o desconhecimento da lei. Consciência potencial da ilicitude é o conhecimento profano do injusto. É saber que o fato é anti-normativo, ter a consciência de que se faz algo contrário ao sentimento de justiça da sociedade. A simples consciência da ilicitude não pode ser requisito da culpabilidade, porque o que se investiga é se o agente tinha ou não condições de saber o que era errado, e possibilidade de evitar o erro. Assim, o que constitui requisito da culpabilidade é a potencial consciência da ilicitude.

III-EXIGIBILIDADE DE CONDUTA DIVERSA

É a expectativa social de que o agente tenha outro comportamento e não aquele que se efetivou. Para dizer que alguém praticou uma conduta reprovável, é preciso que se possa exigir dessa pessoa, na situação em que se encontrava, uma conduta diversa. A ausência da censurabilidade acarreta a falta de culpabilidade e, desta forma isenta-o de pena (art. 22 do CP).

Crimes contra a Pessoa: homicídio, induzimento ao suicídio, infanticídio, aborto, lesão corporal. 07 h/a Ah! Sgt
Crimes contra a Pessoa: homicídio, induzimento ao suicídio, infanticídio, aborto,
lesão corporal.
07 h/a
Ah!
Sgt
Stuart.
Trata-se
de
no
Mais uma morte
a esclarecer? Como você
classifica esse crime
colega?
mínimo, de um homicídio triplamente
qualificado, ou por motivo torpe ou fútil,
sem a possibilidade de defesa da vítima e
mediante emboscada ou traição?

PARTE ESPECIAL DO CÓDIGO PENAL

DOS CRIMES CONTRA A VIDA

Excluindo o homicídio culposo, todos os crimes contra a vida são dolosos e, portanto, julgados pelo Tribunal do Júri, com exceção da Justiça Militar (militar da ativa x militar da ativa).

HOMICÍDIO

Conceito: É a exterminação da vida humana extra-uterina, causada por uma pessoa em relação à outra. A corrente majoritária entende que a vida humana começa com o início do trabalho de parto e, a partir daí, o crime cometido, em caso de morte, é o homicídio. Outra corrente afirma que a vida começa após o parto, com a criança já fora do útero materno.

São três os tipos (espécies): homicídio simples, privilegiado e qualificado. Tipo ou preceito primário da norma penal: matar alguém. Pena ou preceito secundário da norma penal: reclusão de seis (seis) a 20 (vinte) anos.

HOMICÍDIO SIMPLES

Art. 121 do C.P. Matar alguém:

Pena - reclusão, de 06 (seis) a 20 (vinte) anos.

Objeto jurídico (bem jurídico tutelado)

Preservação da vida humana. É um crime simples, pois tem apenas um bem jurídico tutelado (protegido). Crimes complexos são aqueles em que a lei protege mais de um bem jurídico. Ex:

latrocínio (patrimônio e vida).

Sujeito ativo

Qualquer

pessoa (crime

comum). Os

crimes próprios

podem

ser praticados

por

determinadas pessoas (ex: auto-aborto, peculato etc.).

 

Sujeito passivo

 

Qualquer ser humano após seu nascimento e desde que esteja vivo.

 

Consumação

Dá-se no momento da morte (crime material). A morte ocorre quando cessa a atividade encefálica (Lei da Doação de Órgãos, lei nº 934/97, art. 3º). A prova da materialidade se faz por meio do laudo de exame necroscópico assinado por dois legistas, que devem atestar a ocorrência da morte e se possível as suas causas.

HOMICÍDIO PRIVILEGIADO ART. 121, § 1 , do CP.

º

§ 1º Se o agente comete o crime impelido por motivo de relevante valor social ou moral, ou sob o domínio de violenta emoção, logo em seguida a injusta provocação da vítima, o juiz pode reduzir a pena de um sexto a um terço (embora a Lei fale em “pode”, estando presentes os motivos que autorizem a concessão do privilégio, o juiz estará obrigado a conceder, por tratar-se de um direito público subjetivo do réu).

Natureza Jurídica

Causa de diminuição de pena. O privilégio é votado pelos jurados e, se reconhecido o privilégio, a redução da pena é obrigatória, pois do contrário estaria sendo ferido o princípio da soberania dos veredictos. As hipóteses são de natureza subjetiva porque estão ligadas aos motivos do crime:

Motivo de relevante valor moral (nobre): diz respeito a sentimentos do agente que demonstre que houve uma motivação ligada a uma compaixão ou algum outro sentimento nobre. É o caso da eutanásia. Diz respeito à própria pessoa. Ex.: Matar o estuprador da filha de dois anos de idade; surpreender uma situação de adultério da esposa com outro homem e matá-lo.

Motivo de relevante valor social: diz respeito ao sentimento da coletividade. Exemplo:

matar o traidor da Pátria. Diz respeito à coletividade.

Sob domínio de violenta emoção, logo em seguida à injusta provocação da vítima. Requisitos: Existência de uma injusta provocação (não é injusta agressão, senão seria legítima defesa). Ex.: adultério, xingamento, traição. Não é necessário que a vítima tenha tido a

intenção específica de provocar, bastando que o agente se sinta potencialmente provocado (se for mera provocação poderá caracterizar homicídio qualificado por motivo fútil). Que, em razão da provocação, o agente fique dominado por uma emoção extremamente

forte. Reação imediata (logo em seguida

...

):

não pode ficar evidenciado um lapso temporal entre a

provocação e a morte. Leva-se em conta o momento em que o sujeito ficou sabendo da provocação.

HOMICÍDIO QUALIFICADO ART. 121, § 2.º, DO CP Se o homicídio é cometido:

Inciso I - mediante paga ou promessa de recompensa, ou por outro motivo torpe Na paga ou promessa de recompensa, há a figura do mandante e do executor. Ambos respondem pela forma qualificada, conforme o artigo 30 do CP. No entanto, há divergência, pois existem autores que entendem que ao partícipe não se estende à qualificadora, pois não é elementar do tipo e sim uma circunstância. Também chamado de homicídio mercenário. A paga é prévia em relação à execução. Na promessa de recompensa, o pagamento é posterior à execução. Mesmo se o executante não a cumprir integralmente, existirá a qualificadora para os dois. Motivo torpe: demonstra a maldade do sujeito em relação ao motivo do delito. É o motivo vil, repugnante, aquele que ofende ao sentimento médio da sociedade Ex.: matar o pai para ficar com herança; matar a esposa porque ela não quer manter relação sexual. O ciúme não é considerado motivo torpe. A vingança será considerada, ou não, motivo torpe ou fútil dependendo do que a tenha originado, pois poderá caracterizar privilégio, exemplo: matar o estuprador da filha; ou, qualificadora, exemplo: matar o viciado porque ele não pagou a droga.

Inciso II - motivo fútil Matar por motivo de pequena importância, insignificante. Exemplo: matar por causa de uma fechada no trânsito, matar a pessoa por não ter pagado uma cerveja em razão de ter perdido uma partida de sinuca, etc.

Ciúme não caracteriza motivo fútil. A existência de uma discussão “forte”, precedente ao

crime, afasta o motivo fútil, ainda que a discussão tenha se iniciada por motivo de pequena importância, pois se entende que a causa do homicídio foi à discussão e não o motivo anterior que a havia originado.

Inciso III - emprego de veneno, fogo, explosivo, asfixia, tortura ou outro meio insidioso ou cruel, ou que possa representar perigo comum.

  • a) Emprego de veneno

É necessário que seja inoculado de forma que a vítima não perceba. Se o veneno for introduzido com violência ou grave ameaça, será aplicada a qualificadora do meio cruel. Certas substâncias que são inofensivas para a população em geral, poderão ser consideradas como veneno em razão de condições de saúde peculiares da vítima, como no caso do açúcar para o diabético, e

desde que o agente saiba que a vítima está em estágio avançado de diabetes, caso contrário, não incidirá a qualificadora.

  • b) Emprego de fogo

  • c) Emprego de explosivo

Exemplo de bombas caseiras em torcidas de futebol. Eventual dano ao patrimônio alheio

ficará absorvido pelo homicídio qualificado pelo fogo ou explosivo.

  • d) Emprego de asfixia

Causa o impedimento da função respiratória. Asfixia mecânica:

Esganadura: apertar o pescoço da vítima. Estrangulamento: passar fio, arame, no pescoço da vítima causando a morte. É a própria força do agente atuando, mas não com as mãos.

Enforcamento: há emprego de fio também, porém é a força da gravidade que faz com que o peso da vítima cause sua morte. Sufocação: é a utilização de algum objeto que impeça a entrada de ar nos pulmões da vítima (ex.: introduzir algodão na garganta da vítima). Afogamento: imersão em água. Soterramento: enterrar vivo. Imprensamento ou Sufocação Indireta: impedir o movimento respiratório colocando, por exemplo, um peso sobre o tórax da vítima. Asfixia tóxica:

Uso de gás asfixiante: monóxido de carbono, por exemplo. Confinamento: trancar alguém em lugar fechado de forma a impedir a troca de ar (ex.:

prender alguém vivo dentro de caixão).

  • e) Emprego de tortura ou qualquer meio insidioso ou cruel

Deve ser a causa direta da morte. Trata-se de meios que causam na vítima intenso sofrimento físico ou mental. A reiteração de golpes, dependendo da forma como ela é utilizada,

pode ou não caracterizar a qualificadora de meio cruel (ex.: apedrejamento, paulada, espancamento, etc.).

Eventual mutilação praticada após a morte caracteriza crime autônomo de destruição de cadáver (art. 211, do CP). Crime de tortura com resultado morte (pena: de 8 a 16 anos). A diferença entre homicídio qualificado e homicídio por tortura está no elemento subjetivo (dolo). No homicídio qualificado, há dolo na morte praticado através de tortura, e no crime tortura, há dolo de torturar e a morte ocorre culposamente. Trata-se neste caso de crime preterdoloso (dolo no antecedente e culpa no conseqüente, sendo que este resultado é agravador do primeiro art. 1.º, § 3.º, da Lei n. 9.455/97). Meio insidioso: uso de fraude, armadilha, parecendo não ter havido infração penal, e sim um acidente, como no caso de sabotagem nos freios do automóvel.

  • f) Emprego de qualquer meio do qual possa resultar perigo comum

Meio que possa provocar perigo comum que extrapola o resultado lesivo pretendido pelo autor (morte da vítima) e coloca em risco a integridade física e a vida de pessoas indeterminadas (por exemplo, colocar fogo no veículo para matar seu motorista em via movimentada).

Inciso IV à traição, de emboscada ou mediante dissimulação ou outro recurso que dificulte ou torne impossível a defesa do ofendido

Refere-se à maneira que o sujeito usou para executar o homicídio.

a)Traição

Aproveitar-se da prévia confiança que a vítima deposita no agente para alvejá-la ou pegá-la desprevenida (ex.: amizade, relação amorosa etc.). b)Emboscada (vem de aguardar no bosque) é a tocaia. Aguardar escondido a passagem da vítima por um determinado local para matá-la.

  • c) Dissimulação

É a simulação de uma situação inexistente com o fim de induzir a vítima a erro (por ex.:

fingir-se de funcionário de companhia elétrica para ingressar na residência da vítima e matá-la).

  • d) Qualquer outro recurso que dificulte ou torne impossível a defesa da vítima

Qualquer meio que torna a defesa da vítima mais difícil ou impossível. Não confundir com a traição, pois se matar o amigo pelas costas, é traição; ao passo que se matar o inimigo pelas costas,

será surpresa, que é recurso que impossibilitou ou tornou impossível a defesa da vítima.

Inciso V para assegurar a execução, a ocultação, a impunidade ou vantagem de outro

crime

O inciso se refere às qualificadoras por conexão, que podem ser:

Teleológica: quando o homicídio é praticado para assegurar a execução de outro crime. Exemplo: Um agente que mata o marido para estuprar a esposa; Matar um segurança para conseguir

seqüestrar o empresário. Consequencial: visa assegurar a ocultação, impunidade ou vantagem indevida de outro crime. Nesses casos, o agente primeiro comete o outro crime e depois pratica o homicídio. Pena: reclusão de 12 (doze) a 30 (trinta) anos.

HOMICÍDIO CULPOSO ART. 121, § 3 , DO CP Se o homicídio é culposo:

º

Pena: Detenção de 01 (um) a 03 (três) anos. A morte decorre de imprudência, negligência ou imperícia. Imprudência: consiste numa ação, excesso, criação de um perigo desnecessário (fazer para mais). Negligência: é uma omissão quando se deveria ter tomado certo cuidado (fazer para menos). Imperícia: ocorre quando uma pessoa técnica no assunto pensa que está fazendo certo, quando na realidade está adotando o procedimento errado ou ultrapassado, que deveria conhecer. Ex. Médico que adota um procedimento que ele pensa ser certo, quando na realidade, está errado ou ultrapassado, vindo a

causar lesão na vítima, responderá por crime culposo na modalidade “imperícia”. É o caso do

profissional ignorante.

AUMENTO DE PENA ART. 121, § 4 , DO CP - No homicídio culposo, a pena é aumentada de 1/3 (um terço), se o crime resulta de inobservância de regra técnica de profissão, arte ou ofício (conhece a regra, porém a ignora), ou se o agente deixa de prestar imediato socorro à vítima, não procura diminuir as conseqüências do seu ato, ou foge para evitar prisão em flagrante. Sendo doloso o homicídio, a pena é aumentada de 1/3 (um terço) se o crime é praticado contra pessoa menor de 14 (quatorze) ou maior de 60 (sessenta) anos.

º

Homicídio Culposo

A pena será aumentada de 1/3 (um terço):

Se o agente deixa de prestar imediato socorro à vítima

Só se aplica a quem agiu com culpa e não socorreu, podendo socorrer. Não se aplica o aumento:

1) se a vítima está evidentemente morta; 2) se a vítima foi socorrida de imediato por terceiro; 3) quando o socorro não era possível por questões materiais, ameaça de agressão, etc.

Se o agente foge para evitar a prisão em flagrante

Neste caso tem que haver provas de que o agente, caso não estivesse no local, estava realmente se dirigindo à presença da autoridade policial ou ao socorro da (s) vítima (s).

Se o agente não procurar diminuir as conseqüências de seu ato. Se o crime resulta da inobservância de regra técnica de arte, profissão ou ofício.

Como diferenciá-la da imperícia? A diferença é que na imperícia o profissional não possui aptidão técnica para a conduta, enquanto na causa de aumento em questão, o agente conhece a técnica, mas por descaso, desleixo, não a observa, provocando assim a morte da vítima.

No Homicídio Doloso

É aquele em que o agente quer o resultado ou assume o risco de produzi-lo. A pena será aumentada de 1/3, se a vítima for menor de 14 anos ou maior de 60 (sessenta) anos, por força do Estatuto do Idoso.

PERDÃO JUDICIAL ART. 121, § 5 , do CP - Na hipótese de homicídio culposo, o juiz poderá deixar de aplicar a pena, se as conseqüências da infração atingir o próprio agente de forma tão grave que a sanção

º

penal se torne desnecessária.

O Juiz poderá conceder o perdão judicial, deixando de aplicar a pena, quando as conseqüências do crime atingir o próprio agente de forma tão grave que a imposição da mesma se torne desnecessária. Só na sentença é que poderá ser concedido o perdão judicial. Pode ser concedido tanto a crimes dolosos quanto aos culposos, desde que haja previsibilidade, no entanto, no caso do homicídio e das lesões corporais, só poderá ser aplicado aos crimes culposos.

Embora considerado pelo art. 107, IX, do CP, como causa extintiva da punibilidade, o entendimento jurisprudencial tende a considerá-lo no sentido de que, além de extinguir a punibilidade do agente, também apaga o crime, logo, todos os efeitos secundários da pena desaparecem, tais como: não inclusão do nome do réu no livro de rol dos culpados, não gera reincidência.

INDUZIMENTO,

INSTIGAÇÃO

OU

AUXÍLIO

AO

CONHECIDO POR CRIME DE PARTICIPAÇÃO EM SUICÍDIO).

SUICÍDIO

(TAMBÉM

penal se torne desnecessária. O Juiz poderá conceder o perdão judicial, deixando de aplicar a pena,
penal se torne desnecessária. O Juiz poderá conceder o perdão judicial, deixando de aplicar a pena,

Art. 122 do CP - Induzir ou instigar alguém a suicidar-se ou prestar-lhe auxílio para que o faça: Pena - reclusão, de dois a seis anos, se o suicídio se consuma; ou reclusão, de um a três anos, se da tentativa de suicídio resulta lesão corporal de natureza grave.

Núcleos do Tipo Induzir: dar a idéia a alguém que ainda não tinha pensado em suicídio, ou seja, criar a idéia de suicídio na cabeça da vítima. Ex.: “A” após surpreender sua esposa na cama com outro homem, conta para um amigo o que viu, este também interessado na esposa de “A” o induz a praticar suicídio.

Instigar: reforçar a idéia suicida preexistente.

Ex.: No caso acima, além de contar para o

amigo o que viu “A” também manifesta a intenção de praticar suicídio, e o amigo reforça a idéia,

haja vista seu interesse na mulher.

Auxiliar: participação material, já que o agente colabora com a própria prática do suicídio. Ex.: emprestar corda, arma, veneno, etc. O auxílio deve ser acessório, ou seja, não poderá ser a causa direta da morte (execução).

O induzimento e a instigação são formas de participação moral, enquanto o auxílio é forma de participação material.

Induzir, instigar e prestar auxílio à mesma vítima: o crime será único quando o agente realizar mais de uma conduta, pois se trata de crime de ação múltipla ou de conteúdo variado, ou ainda, tipo misto alternativo.

Sujeito Passivo

Qualquer pessoa que tenha alguma capacidade de discernimento e resistência. Quem não pode ser vítima: criança e pessoas com desenvolvimento mental retardado. Esses casos caracterizarão homicídio. Não caracterizará o crime se os sujeitos passivos forem indeterminados, assim, se uma pessoa publicar um livro “Como se matar em cinco dias”, gerando uma situação de suicídio em massa, por exemplo, não irá responder pelo crime. Em caso de grupo, este deverá ser determinado, para a caracterização do delito. Porque a lei fala em “alguém”, logo este número tem que ser determinado.

Pena

No caso de morte, a pena será de dois a seis anos de reclusão; se a vítima sofrer lesão grave,

pena será de um a três anos de reclusão. Concluiu-se que o legislador não quis punir as outras hipóteses, como a lesão leve e a forma culposa, as quais não caracterizam o crime em estudo. Consuma-se quando a vítima morre ou sofre pelo menos lesões corporais de natureza grave. Consideram-se a lesão grave ou a morte elementar do crime (estas geralmente se encontram no tipo, mas, no crime do art. 122 do Código Penal, constam no quantum da pena). É o único crime material do Código Penal que não admite a tentativa, uma vez que, na hipótese em que a vítima sofre lesão grave, o crime se considera consumado, pois, como há pena autônoma na parte especial, não se utiliza o art. 14, inc. II, do Código Penal (tentativa). Não ocorrendo qualquer tipo de lesão, ou ocorrendo lesão leve, o fato será atípico.

Aumento de Pena Art. 122, parágrafo único, do Código Penal. A pena será duplicada: quando praticado o crime por motivo egoístico; se a vítima é menor ou tem diminuída, por qualquer causa, a capacidade de resistência.

INFANTICÍDIO ART. 123 DO CP Matar, sob a influência do estado puerperal, o próprio filho, durante o parto ou logo após. Pena: detenção de dois a seis anos.

Elementares do Crime:

Matar: aplicam-se as regras do homicídio quanto a esse verbo (consumação, tentativa etc.).

Estado puerperal: alteração psíquica que acontece em grande número de mulheres em razão de alterações orgânicas decorrentes do fenômeno do parto.

Pergunta: Deve ser provado o estado puerperal ou ele se presume? R: Tem de ser provado por perícia médica, mas, se os médicos ficarem em dúvida sobre sua existência e o laudo for inconclusivo, será presumido o estado puerperal, aplicando-se o “in dubio pro reo” responsabilizando a mãe pelo crime de infanticídio e não homicídio.

Próprio filho: é o sujeito passivo, nascente ou recém-nascido. Se a mulher, por erro, mata o filho de outra, supondo ser o dela, responderá por infanticídio putativo (art. 20, § 3º, do Código Penal erro quanto à pessoa). No entanto, se conscientemente mata o filho de outra mulher, durante ou logo após o parto, embora estando sob influência do estado puerperal, responderá por homicídio doloso, com causa de diminuição de pena, pois aqui o estado puerperal é circunstância, logo, diminui-se a pena do agente.

Durante ou logo após o parto: este é o elemento temporal, ou seja, o crime só poderá ser praticado em um determinado momento, ou seja, durante o estado puerperal, se a mãe praticar a conduta, independentemente do tempo decorrido, responderá por infanticídio, pois o estado puerperal é variável quanto a sua duração. Considera-se início do parto a dilatação do colo do útero (rompimento do saco amniótico) e fim do parto, o nascimento.

Sujeito Ativo

É a mãe que esteja sob estado puerperal (crime próprio). Na modalidade autoria, só a mãe; nas outras modalidades, ou seja, co-autoria e participação, admite-se o envolvimento de pessoas de ambos os sexos. O infanticídio não possui forma culposa. Assim, se a morte da criança resulta de culpa da mãe, mesmo que esta esteja sob a influência do estado puerperal, o crime será de homicídio culposo (HUNGRIA e MIRABETE), é a corrente que predomina na jurisprudência, no entanto, em caso de condenação em homicídio culposo, receberá o benefício do “Perdão Judicial”, extinguindo-se todos os efeitos do crime e da pena.

ABORTO

Durante ou logo após o parto : este é o elemento temporal, ou seja, o crime
Durante ou logo após o parto : este é o elemento temporal, ou seja, o crime
Durante ou logo após o parto : este é o elemento temporal, ou seja, o crime

É a interrupção da gravidez com a conseqüente morte do feto.

O aborto pode ser natural,

acidental ou provocado (que se subdivide em criminoso ou legal). O Aborto criminoso se divide em:

Art. 124 do CP Provocar aborto em si mesmo (AUTO-ABORTO) ou consentir que outrem lhe provoque (ABORTO CONSENTIDO). Pena: Detenção de 01 (um) a 03 (três) anos. Art. 125 do CP Provocar aborto sem o consentimento da gestante: Pena: Reclusão de 03 (três) a 10 (dez) anos. Art. 126 do CP Provocar aborto com o consentimento da gestante (ABORTO

CONSENTIDO): Pena: Reclusão de 01 (um) a 04 (quatro) anos.

Consumação: o aborto consuma-se com a morte do feto. Tentativa: é possível. Elemento subjetivo: só existe na forma dolosa. Não existe crime de aborto culposo. Quem, por imprudência, dá causa a um aborto responde por crime de lesão corporal culposa, sendo vítima a mulher (gestante). Porém, se foi a própria gestante que, por imprudência, deu causa ao aborto, o fato será atípico, já que a lei não pune a autolesão. Manobras abortivas em quem não está grávida constituem crime impossível por absoluta impropriedade do objeto. O aborto é um crime de ação livre (pode ser praticado por qualquer meio), mas desde que seja um meio apto a provocar a morte do feto, caso contrário, haverá crime impossível.

ABORTO QUALIFICADO Art. 127 do CP

Se a gestante sofre lesão grave, a pena é aumentada em um terço. Se a gestante morre, a pena é aumentada em dobro. Só vale para o aborto praticado por terceiro, consentido ou não pela gestante (artigos 125 e 126).

ABORTO LEGAL Art. 128 do CP - Prevê duas hipóteses em que a provocação do aborto é permitida. Natureza jurídica: causa de exclusão de ilicitude.

Inciso I: ABORTO NECESSÁRIO OU TERAPÊUTICO Requisitos:

1) Que seja feito por médico; 2) Que não haja outro meio para salvar a vida da gestante. Não se exige risco atual, como no estado de necessidade. Ante a simples constatação de que no futuro haverá perigo, poderá o aborto ser realizado desde logo. Havendo perigo atual, o aborto

pode ser praticado por médico, aplicando-se nesse caso o estado de necessidade, caso o perigo seja futuro, o médico estará acobertado pelo Exercício Regular de Direito.

Inciso II: ABORTO SENTIMENTAL OU HUMANITÁRIO

Requisitos:

1) Que seja feito por médico; 2) Que a gravidez tenha resultado de estupro; 3) Que haja o consentimento da gestante ou, se incapaz, de seu representante legal.

OBSERVAÇÃO IMPORTANTE: Não se exige a autorização judicial. Na prática, a lei diz que o médico tem que ter elementos de convicção para a realização do aborto tais como apresentação do boletim de ocorrência, testemunhas ou qualquer outro meio de prova que auxilie na formação do convencimento dos médicos. Aborto Eugênico ou Eugenésico É aquele em que o feto tem uma deformidade tal que inviabilize o seu nascimento pelo fato de não ter a mínima condição de sobreviver. Ex.: feto sem cérebro, sem coração, etc. Esta modalidade não existe em regra no nosso país, somente pela exceção, sendo imprescindível nestes casos a devida autorização judicial.

LESÃO CORPORAL

ABORTO QUALIFICADO Art. 127 do CP Se a gestante sofre lesão grave, a pena é aumentada
ABORTO QUALIFICADO Art. 127 do CP Se a gestante sofre lesão grave, a pena é aumentada

DAS LESÕES CORPORAIS

Art. 129, caput, do CP: Ofender a integridade corporal ou a saúde de outrem. Ofensa à integridade corporal consiste no dano anatômico prejudicial ao corpo humano. Exemplo: corte, queimadura, mutilações, etc. Ofensa à saúde é a provocação de perturbações de caráter psicológico e/ou fisiológico. Exemplo: transmitir intencionalmente uma doença, paralisia momentânea etc. A provocação de mais de uma lesão em um mesmo contexto caracteriza crime único.

Sujeito Ativo = Qualquer pessoa.

Sujeito Passivo = Qualquer pessoa, salvo no caso de autolesão que a lei não pune, já que a figura típica é ofender a outrem. A autolesão pode, entretanto, constituir crime de outra natureza autolesão para receber seguro (art. 171, § 2.º, inc. V, do CP), ou criação de incapacidade para frustrar a incorporação militar (art. 184 do CPM).

Consumação: No momento em que a vítima é atingida.

Tentativa: É possível. Difere da contravenção de vias de fato (art. 21 da LCP), pois na tentativa o agente quer lesionar a vítima, mas não consegue, ao passo que as vias de fato se caracterizam por ser uma agressão na qual não resulta lesão, pois o agente não tinha essa intenção. OBS.: Se o agente agride sem a intenção de lesionar, mas lesiona, ocorre a lesão corporal culposa, que afasta as vias de fato que é dolosa.

LESÃO COPORAL LEVE

Por exclusão, é toda lesão que não for grave e nem gravíssima. Pena: detenção de 3 (três) meses a 1 (um) ano. Ação penal: O art. 88 da Lei n. 9.099/95 transformou a lesão corporal dolosa leve em crime de ação penal pública, condicionada à representação. Lesão decorrente de esporte - Não há crime, desde que tenha havido respeito às regras do jogo (exercício regular de direito).

LESÃO CORPORAL GRAVE

§ 1º Se resulta:

  • I - Incapacidade para as ocupações habituais, por mais de trinta dias;

II - Perigo de vida; III - Debilidade permanente de membro, sentido ou função;

IV - Aceleração do parto:

Pena - reclusão, de um a cinco anos.

LESÃO CORPORAL GRAVE § 1º Se resulta:

  • I - Incapacidade para as ocupações habituais, por mais de trinta dias;

Atividade habitual é qualquer ocupação rotineira, do dia a dia da vítima, como andar, trabalhar, praticar esportes, etc. Assim, conclui-se que a lei não se refere apenas à incapacidade para o trabalho e, por isso, crianças e aposentados também podem ser sujeito passivo. O Código de Processo Penal exige, para a comprovação dessa espécie de lesão grave, a realização de um exame de corpo delito complementar, a ser realizado após o trigésimo dia, para constatar se a vítima continua impossibilitada (art. 168, § 2º, do CPP). Assim, não basta que o médico legista faça no dia do crime uma previsão de que a recuperação demorará mais de trinta dias. Se o médico vislumbra essa possibilidade, deve marcar data de retorno para a vítima para depois do trigésimo dia do crime. Dessa forma, no novo exame poderá verificar se a vítima continua

incapacitada, e somente se a resposta for positiva é que poderá considerar grave a lesão. Essa espécie de crime classifica-se como crime a prazo, porque sua caracterização depende do transcorrer de determinado lapso temporal. A atividade que a vítima ficou impossibilitada de realizar deve ser lícita, pouco importando se é ou não moral. Não é necessário para sua caracterização que o agente queira criar tal incapacitação. Abrange, portanto, hipóteses preterdolosas. A incapacitação pode ser física ou mental.

II - Perigo de vida;

Perigo de vida é a possibilidade grave e imediata de morte. Deve ser um perigo efetivo, concreto, comprovado por perícia médica, onde os médicos devem especificar qual o perigo de vida sofrido pela vítima. Não basta, pois, dizer que houve tal situação de perigo. O laudo deve dizer em que ele consistiu, como, por exemplo, que houve perigo de vida decorrente de grande perda de sangue, ferimento em órgão vital, de necessidade de cirurgia de emergência, etc. O perigo de vida a que a lei se refere é aquele decorrente da gravidade das lesões e não do fato em si. Por isso, se um soco causa um pequeno corte na boca da vítima (lesão leve), mas o impacto faz com que ela dê um passo para trás, quase sendo atropelada por um ônibus que passa pelo local, a lesão não é considerada grave pelo perigo de vida.

III - Debilidade permanente de membro, sentido ou função;

Debilidade consiste na redução ou enfraquecimento da capacidade funcional. Para que se caracterize essa hipótese de lesão grave é necessária a existência de prognóstico médico no sentido de que a debilidade é irreversível. É o que ocorre, por exemplo, quando se constata que um dedo foi extirpado e não foi reimplantado. Membros são os apêndices do corpo: braços e pernas. A perda de parte dos movimentos do braço é um exemplo. Sentidos são os mecanismos sensoriais através dos quais percebemos o mundo exterior. Tato, olfato, paladar, visão e audição. Ex.: uma lesão que provoque diminuição na capacidade auditiva ou visual da vítima. Função é a atividade de um órgão ou aparelho do corpo humano. Caracteriza-se, por exemplo, quando uma agressão causa alterações permanentes na função respiratória, circulatória e reprodutora, etc.

IV - Aceleração do parto.

O que se exige é uma antecipação do parto, ou seja, um nascimento prematuro. Só é aplicável quando o feto nasce com vida, pois, quando ocorre aborto, o agente responde por lesão gravíssima. É também necessário que o agente saiba que a mulher está grávida. Trata-se de hipótese preterdolosa, em que o agente quer apenas lesionar a mulher e acaba causando culposamente a aceleração do parto. Se o agente queria provocar o aborto e causou apenas antecipação do parto, tendo a criança sobrevivido, o crime é o de tentativa de aborto.

LESÃO CORPORAL GRAVÍSSIMA § 2º Se resulta:

I - Incapacidade permanente para o trabalho; II - Enfermidade incurável; III - Perda ou inutilização de membro, sentido ou função; IV - Deformidade permanente; V - Aborto; Pena reclusão, de dois a oito anos.

LESÃO CORPORAL GRAVÍSSIMA § 2º Se resulta:

I - Incapacidade permanente para o trabalho;

Prevalece o entendimento de que deve ser uma incapacidade genérica para o trabalho, ou seja, para qualquer tipo de labor, uma vez que a lei se refere à palavra "trabalho" sem fazer ressalvas. Assim, embora exista entendimento em sentido contrário, prevalece a interpretação no sentido de que, se uma agressão causar rompimento definitivo no tendão do dedo mínimo de um pianista profissional, de modo que ele não possa mais tocar piano no mesmo nível, a lesão não será tida como gravíssima porque a vítima continua podendo exercer qualquer outra profissão. No exemplo do pianista a lesão é considerada grave pela incapacitação para atividades habituais (tocar piano) por mais de trinta dias.

II - Enfermidade incurável;

É a alteração permanente da saúde por processo patológico, a transmissão intencional de uma doença para a qual não existe cura no atual estágio da medicina. Deve haver nos autos perícia médica declarando a inexistência de cura. A transmissão intencional de AIDS enquadra-se na hipótese de lesão gravíssima, pela transmissão de moléstia incurável. Existe, porém, entendimento de que se trata de tentativa de homicídio, corrente que, todavia, vem sofrendo críticas pelo fato de atualmente existirem medicamentos que têm evitado a instalação das doenças oportunistas que são as responsáveis pela morte da vítima acometida pela AIDS, não mais havendo certeza de que a morte seja uma decorrência inevitável.

III - Perda ou inutilização de membro, sentido ou função;

A perda pode se dar por mutilação ou por amputação. Em ambos os casos haverá a lesão gravíssima. Ocorre a mutilação no próprio momento da ação delituosa, e é provocada diretamente pelo agente que, por exemplo, se utiliza de serra elétrica, machado, para extirpar parte do corpo da vítima.

A amputação apresenta-se na intervenção cirúrgica imposta pela necessidade de salvar a vida da vítima ou impedir consequências mais graves. O autor do golpe responde pela perda do membro, desde que haja nexo causal entre a ação e a perda do membro. Na inutilização, o membro continua ligado ao corpo da vítima, mas incapacitado de realizar suas atividades próprias. Ocorre essa hipótese, por exemplo, quando a vítima passa a ter paralisia total de um braço ou perna.

OBSERVAÇÕES:

1) A perda de parte do movimento do braço é lesão grave pela debilidade do membro. A perda de todo movimento é lesão gravíssima pela inutilização. A perda de um dedo caracteriza lesão grave, exceto se for o polegar, hipótese em que a lesão é considerada inutilização de membro (lesão

gravíssima), por ficar a vítima impossibilitada de pegar e segurar objetos. A perda de uma mão é igualmente considerada lesão gravíssima por inutilização do membro. Por fim, a perda de todo o braço constitui lesão gravíssima pela perda de membro.

2) A extirpação do pênis é lesão gravíssima em face da perda da função reprodutora e, também, pela deformidade permanente.

3) o consentimento válido demonstrado pela vítima tem o condão de tornar atípicas as lesões corporais nela provocada, desde que tal comportamento não importe em diminuição permanente da integridade física ou contrarie os bons costumes (art. 13 do Código Civil). A vasectomia, a ligadura de trompas ou qualquer outra forma de esterilização não caracterizam crime de lesão gravíssima (perda da função reprodutora) por parte do médico que as realiza, desde que haja consentimento da pessoa, uma vez que a matéria está regulamentada pela Lei nº 9.263/96. Trata-se, pois, de exercício regular de direito.

4) A provocação de cegueira em um só olho ou surdez em um só ouvido caracteriza mera debilidade do sentido. É que, por se tratar de sentido que se opera através de dois órgãos, a lesão gravíssima pela sua perda somente ocorrerá quando ambos forem atingidos, pois só assim a vítima se torna efetivamente surda ou cega.

IV - Deformidade permanente;

É o dano estético, de certa monta, permanente, visível e capaz de provocar impressão vexatória. O dano estético pode ter sido causado por qualquer forma. As mais comuns são queimaduras com fogo ou com ácido, provocação de cicatrizes através de cortes profundos, arrancamento de orelha ou parte dela, etc. Exige-se que o dano seja de certa monta, ou seja, que ocorra perda razoável de estética, não o configurando, portanto, pequenas cicatrizes ou outros danos mínimos. Deve também ser permanente, isto é, irreparável pela própria força da natureza, pelo passar do tempo. A doutrina, em sua maioria, salienta que a correção por cirurgia plástica afasta a aplicação da qualificadora, mas, se a cirurgia for possível e a vítima se recusar a realizá-la, haverá a lesão gravíssima, uma vez que ela não está obrigada a se submeter à intervenção cirúrgica. Esse posicionamento é questionável porque deixa nas mãos da vítima a decisão acerca da forma de punição do réu. A correção através de prótese não afasta a aplicação do instituto. A deformidade deve ser visível, requisito atualmente interpretado com grande elasticidade para excluir apenas situações em que a lesão atinge parte do corpo rara ou praticamente nunca vista por outras pessoas. Não abrange apenas deformidades no rosto, mas também nas pernas, nos braços etc.

Somente terá aplicação o dispositivo em estudo se ele for capaz de causar má impressão nas pessoas que olham para a vítima, e esta, portanto, se sinta incomodada com deformidade. Em outras palavras, a deformidade deve causar impressão vexatória. Basta, porém, que seja uma marca considerada feia, antiestética, pelas pessoas em geral, não sendo necessário que a vítima tenha se tornado uma monstruosidade.

V - Aborto;

O aborto não pode ter sido provocado intencionalmente, pois, como já estudado, nesse caso haveria crime de aborto sem o consentimento da gestante, que tem pena maior. Conclui-se, assim, que o dispositivo é exclusivamente preterdoloso ou, em outras palavras, caracteriza-se nas hipóteses em que o agente quer agredir a vítima e não quer causar o aborto, mas o provoca de maneira culposa. O agente deve saber que a vítima está grávida, para que não ocorra punição decorrente de responsabilidade objetiva.

OBSERVAÇÃO:

Nas lesões graves (§ 1º) e gravíssimas (§ 2º) admite-se que o resultado agravador tenha sido causado dolosa ou culposamente, exceto no caso das lesões graves pelo perigo de vida ou aceleração do parto e nas lesões gravíssimas por provocação de aborto, que são preterdolosas.

LESÃO CORPORAL SEGUIDA DE MORTE (CRIME PRETERDOLOSO)

§ 3º Se resulta morte e as circunstâncias evidenciam que o agente não quis o resultado, nem

assumiu o risco de produzi-lo. Pena reclusão, de quatro a doze anos.

Trata-se de crime exclusivamente preterdoloso, em que o agente quer lesionar a vítima e acaba provocando sua morte de forma não intencional, mas culposa. Se o agente comete vias de fato (sem intenção de lesionar) e provoca culposamente a morte da vítima, responde por homicídio culposo, que absorve a contravenção penal. Se a forma de agressão demonstra que o agente assumiu o risco de provocar a morte, deve ser reconhecido o homicídio (com dolo eventual) e não as lesões corporais seguidas de morte. É o que ocorre, por exemplo, quando várias pessoas atiram litros de gasolina sobre alguém que se encontra dormindo em local público e nele ateiam fogo, provocando sua morte. No caso, houve homicídio doloso, no mínimo pelo dolo eventual. As lesões corporais seguidas de morte constituem delito exclusivamente preterdoloso e, por esse motivo, não admitem a tentativa.

Diminuição da Pena

§ 4º Se o agente comete o crime impelido por motivo de relevante valor social (diz respeito à coletividade) ou moral (respeito à própria pessoa) ou sob o domínio de violenta emoção, logo em seguida a injusta provocação da vítima, o juiz pode reduzir a pena de um sexto a um terço. Embora

a lei fale em pode, presentes todos os requisitos o juiz deverá conceder o privilégio por constituir direito público subjetivo do réu.

Aplicam-se aqui todos os comentários feitos em relação ao homicídio privilegiado. O privilégio, nas lesões corporais, aplica-se apenas às lesões dolosas, sendo, portanto, incabível nas lesões culposas. Nas lesões dolosas, por outro lado, a aplicação pode ser feita qualquer que seja sua natureza leve, grave, gravíssima ou seguida de morte.

Substituição da Pena

§ 5º O juiz, não sendo graves as lesões, pode ainda substituir a pena de detenção pela de

multa:

  • I - se ocorre qualquer das hipóteses do parágrafo anterior; II - se as lesões são recíprocas.

  • I - se ocorre qualquer das hipóteses do parágrafo anterior;

Assim, em se tratando de lesões leves, o juiz tem duas opções nas hipóteses de relevante valor social, moral ou de violenta emoção. Pode reduzir a pena de um sexto a um terço (§ 4º) ou

substituí-la por multa (§ 5º).

II - se as lesões são recíprocas.

Quando uma pessoa apenas se defende de uma agressão injusta anterior e provoca também lesões no agressor, há crime apenas por parte de quem iniciou a agressão, já que o outro agiu em

legitima defesa. Não se aplica, na hipótese, o instituto em análise. Assim, o dispositivo somente será aplicado quando uma pessoa agride outra e, cessada a agressão, ocorre a retorsão.

LESÃO CORPORAL CULPOSA

§ 6º Se a lesão é culposa:

Pena detenção, de dois meses a um ano. Lesão culposa é aquela que resulta de imprudência, negligência ou imperícia. Se for cometida na direção de veículo automotor constitui crime do artigo 303 do CTB.

§ 7º Aumenta-se a pena de um terço, se ocorrer qualquer das hipóteses do art. 121, § 4º.

O art. 129, § 7º, combinado com o art. 121, § 4º, do Código Penal, estabelece que a pena da lesão corporal dolosa, de qualquer espécie, sofrerá acréscimo de um terço se a vítima é menor de 14 anos ou maior de 60 anos de idade.

§ 8º Aplica-se à lesão culposa o disposto no § 5º do Art. 121.

Exemplos: autor da lesão culposa que fica gravemente ferido. Trata-se de causa extintiva da punibilidade e, de acordo com a Súmula nº 18 do STJ, a sentença em que o perdão é concedido é declaratória da extinção da punibilidade, não subsistindo qualquer outro efeito.

VIOLÊNCIA DOMÉSTICA (Incluído pela Lei nº. 10.886, 17de junho de 2004)

§ 9 o Se a lesão for praticada contra ascendente, descendente, irmão, cônjuge ou companheiro, ou com quem conviva ou tenha convivido, ou, ainda, prevalecendo-se o agente das relações domésticas, de coabitação ou de hospitalidade:

Pena - detenção, de 3 (três) meses a 3 (três) anos. (Redação dada pela Lei nº 11.340, de 2006)

§ 10. Nos casos previstos nos § 1 o a 3 o deste artigo, se as circunstâncias são as indicadas no § 9º deste artigo, aumenta-se a pena em 1/3 (um terço).

§ 11. Na hipótese do § 9 o deste artigo, a pena será aumentada de um terço se o crime for cometido contra pessoa portadora de deficiência.

LESÃO CORPORAL CULPOSA § 6º Se a lesão é culposa: Pena – detenção, de dois meses
LESÃO CORPORAL CULPOSA § 6º Se a lesão é culposa: Pena – detenção, de dois meses

Os parágrafos 9º, 10, 11 foram criados pela Lei n. 10.886/04, e não constituem tipos penais autônomos, já que não possuem núcleo, isto é, não têm nenhum verbo descrevendo uma conduta típica própria. Para criar um tipo penal autônomo não basta lhe dar um nome -"violência doméstica", por exemplo. Pela redação dos §§ 9º e 10, resta claro que o legislador quis acrescentar algumas

circunstâncias com o intuito de agravar o crime de lesão corporal. Tanto é assim que, como já mencionado, não descreveu uma conduta típica própria, mas sim fez remissão ao crime de lesão

corporal, iniciando o § 9º com a expressão "se a lesão ...

",

deixando evidente que ao acrescentar

circunstâncias (crime contra ascendente, descendente, irmão, cônjuge etc.) e prever novos limites de pena, acabou criando no § 9º o crime de lesão corporal dolosa leve qualificada pela violência doméstica. A pena que, originariamente, era de seis meses a um ano, foi alterada pela Lei nº 11.340/2006, passando a ser de três meses a três anos de detenção, pena esta que deverá sofrer acréscimo de um terço se a vítima da violência doméstica for portadora de deficiência, nos termos do art. 129, § 11, do Código Penal.

OBSERVAÇÃO

Na hipótese de lesão leve qualificada prevista no § 9º, como a nova pena máxima é de três anos, deixou o crime de ser de competência do Juizado Especial Criminal, estando, assim, afastadas as regras da Lei nº 9.099/95, que só se aplicam aos crimes cuja pena máxima não excede dois anos. De qualquer modo, o art. 16 da Lei nº. 11.340/2006 continua exigindo a representação do ofendido. No § 10 o legislador estabeleceu causas de aumento de pena de um terço para os crimes de lesão corporal grave, gravíssima ou seguida de morte, se cometidos contra ascendente, descendente, irmão, cônjuge etc. Com efeito, o § 10 faz expressa menção aos §§ 1º a 3º do art. 129, deixando claro que se refere a essas modalidades de lesão corporal, ficando evidenciado, por exclusão, que o § 9º se refere à lesão leve. O § 10 ajuda a demonstrar que não foram criados tipos autônomos, mas sim circunstâncias que agravam a pena do delito de lesão corporal dolosa, porque, expressamente, diz que as penas aumentam de um terço, "se as circunstâncias são as indicadas no § 9º deste artigo". É sabido que circunstâncias são elementos agregados que aumentam a pena e não elementares de um delito. Em suma, não existe um crime chamado "violência doméstica", mas crimes de lesão corporal agravados pela violência doméstica, mesmo porque o capítulo em estudo se chama "das lesões corporais". É possível, ainda, notar, pela leitura de tais parágrafos, que sequer é necessário que o fato ocorra no âmbito doméstico para que a pena seja agravada. Com efeito, não consta do texto legal que a pena só será exacerbada se o crime contra ascendente, descendente, irmão, cônjuge, companheiro, ou contra quem o agente conviva ou tenha convivido, tiver sido praticado dentro de casa. É indiferente, portanto, o local em que a agressão ocorra. Haverá sempre a agravação. Apenas nas últimas figuras, ou seja, quando o agente cometer o crime prevalecendo-se de relações domésticas, de coabitação ou de hospitalidade, é que se pressupõe que o fato ocorra no ambiente doméstico. A conclusão não pode ser outra, na medida em que as primeiras figuras estão separadas destas no texto legal pela conjunção alternativa "ou", de modo que não é necessário, para agravar a pena, que a agressão seja feita pelo agente contra um ascendente, prevalecendo-se de relação

doméstica, já que a lei diz "contra ascendente,

, ou prevalecendo-se de relação doméstica".

... Em suma, a rubrica "violência doméstica" não condiz totalmente com o texto legal

aprovado.

Crimes contra o Patrimônio: furto, roubo, extorsão, extorsão mediante seqüestro, estelionato e receptação.

07 h/a

CRIMES CONTRA O PATRIMÔNIO FURTO

Crimes contra o Patrimônio: furto, roubo, extorsão, extorsão mediante seqüestro, estelionato e receptação. 07 h/a CRIMES

Art. 155 - Subtrair para si ou para outrem coisa alheia móvel:

Pena reclusão de 01 (um) a 04 (quatro) anos, e multa.

Elementos

a) Subtrair: tirar algo de alguém, desapossar.

Pode ocorrer em dois casos:

1) tirar algo de alguém; 2) receber uma posse vigiada e sem autorização levar o bem, retirando-o da esfera de vigilância da vítima. Essa modalidade difere da apropriação indébita porque nesta a posse é desvigiada. Ex.:caixa de supermercado, tem a posse vigiada, se pegar dinheiro praticará furto.

b) Ânimo de assenhoreamento definitivo do bem, para si ou para outrem .

Trata-se do elemento subjetivo específico do tipo. Não basta apenas a vontade de subtrair (dolo geral): a norma exige a intenção específica de ter a coisa, para si ou para outrem, de forma definitiva. É esse elemento que distingue o crime de furto e o furto de uso (fato atípico), na legislação penal comum. Para a sua caracterização é necessário que o agente tenha intenção de uso momentâneo e que restitua a coisa imediata e integralmente à vítima. c) Coisa alheia móvel (objeto material do tipo) Coisa móvel: aquela que pode ser transportada de um local para outro. O Código Civil considera como imóvel alguns bens móveis, como aviões, embarcações, o que para fins penais é irrelevante. Os semoventes também podem ser objeto de furto, como, por exemplo, o abigeato, ou seja, o furto de gado. Areia, terra (retirados sem autorização) e árvores (quando arrancadas do solo) podem ser objeto de furto, desde que não configure crime contra o meio ambiente. A coisa deve ser alheia (elemento normativo do furto). O furto é um tipo anormal porque contém elemento normativo que exige juízo de valor. Coisa alheia é aquela que tem dono; dessa forma, não constituem objeto de furto a”res nullius” (coisa de ninguém, que nunca teve dono) e a ”res derelicta” (coisa abandonada). Nessas hipóteses, o fato será atípico porque a coisa não é alheia. A coisa perdida (res desperdicta) tem dono, mas não pode ser objeto de furto porque falta o requisito da subtração; quem a encontra e não a devolve não está subtraindo - responderá por apropriação de coisa achada, tipificada no art. 169, par. Único, inc. II, do Código Penal, caso não restitua a coisa num prazo de 15 dias à autoridade policial. A coisa só é considerada perdida quando está em local público ou aberto ao público. Coisa perdida, por exemplo, dentro de casa, dentro do carro, se achada e não restituída ao proprietário, caracterizará crime de furto. Coisa de uso comum: água dos mares, ar atmosférico, etc., não pode ser objeto de furto, exceto se estiver destacada de seu meio natural e for explorada por alguém. Ex.: água da SABESP.

O art. 155, § 3 o , do Código Penal trata do furto de energia. Equipara-se à coisa móvel a energia elétrica, bem como qualquer outra forma de energia com valor econômico. Esse dispositivo é uma norma penal explicativa ou complementar (esclarece outras normas; na hipótese, define como objeto material do furto, a energia). Crime permanente nesta hipótese, fugindo a regra geral de crime instantâneo de conduta e resultado. A TV a cabo está sendo equiparada. O sêmen é considerado energia genética e sua subtração caracteriza o delito de furto. Ser humano não pode ser objeto de furto, pois não é coisa. A subtração de cadáver ou parte dele tipifica o delito específico do art. 211 do Código Penal (destruição, subtração ou ocultação de cadáver). O cadáver só pode ser objeto de furto quando pertence a uma instituição e está sendo utilizado para uma finalidade específica. Ex.: faculdade de medicina, institutos de pesquisas. A subtração de órgão de pessoa viva ou de cadáver, para fins de transplante, caracteriza crime da Lei n. 9.434/97. O corte de cabelo pode ser objeto de lesões corporais, se a finalidade for causar dano à integridade física da vítima ou ainda caracterizar o crime de injúria real quando a finalidade for a de ridicularizar a vítima.

Sujeito ativo

Pode ser qualquer pessoa, exceto o dono, porque o tipo exige que a coisa seja alheia. Subtrair coisa própria, que se encontra em poder de terceiro, em razão de contrato (mútuo pignoratício) ou de ordem judicial (objeto penhorado), acarreta o crime do art. 346 do Código Penal (tirar, suprimir, destruir ou danificar coisa própria, que se acha em poder de terceiro por determinação judicial ou convenção). Este crime não tem nome; é um subtipo do exercício arbitrário das próprias razões. O credor que subtrair bem do devedor, para se auto-ressarcir de dívida já vencida e não paga, pratica o crime de exercício arbitrário das próprias razões (art. 345 do CP). Não responde por furto porque não agiu com intenção de causar prejuízo. Se alguém, por erro, pegar um objeto alheio pensando que lhe pertence, não responderá por furto em razão da incidência do erro de tipo.

Sujeito passivo

É sempre o dono e, eventualmente, o possuidor ou detentor que sofre algum prejuízo. O agente que furta um bem que já fora anteriormente furtado responde pelo delito, que terá como vítima não o primeiro furtador, mas o dono da coisa. Pessoas jurídicas podem ser vítimas de furto, porque o seu patrimônio é autônomo do patrimônio dos sócios.

Consumação

O furto consuma-se mediante dois requisitos: retirada do bem da esfera de vigilância da vítima; posse tranqüila do bem, ainda que por pouco tempo (entendimento pacífico na doutrina e jurisprudência). Se na fuga o agente se desfaz ou perde o objeto, que não venha a ser recuperado pela vítima, consuma-se o delito, pois a vítima sofreu efetivo prejuízo. É exceção à exigência de que o agente tenha a posse tranqüila do bem. Quando há concurso de agentes, se o crime está consumado para um, está também consumado para todos adoção da teoria unitária. Ex.: dois ladrões furtam uma carteira, um foge com o bem e o outro é preso no local, o crime está consumado para ambos.

Tentativa É possível, até mesmo na forma qualificada, com exceção do § 5 o do art. 155 do CP. O fato de ter havido prisão em flagrante não implica, necessariamente, que o furto seja tentado, como, por exemplo, o caso do flagrante ficto (art. 302, IV, do CPP), que permite a prisão do agente encontrado, algum tempo depois da prática do crime com papéis, instrumentos, armas ou objetos que façam presumir ser ele o autor do crime.

Concurso de delitos

A violação de domicílio fica absorvida pelo furto praticado em residência por ser crime meio (princípio da consunção). Se o agente, após a subtração, danifica o bem subtraído, responde apenas pelo furto, sendo o dano um “Post Factumimpunível, pois a segunda conduta delituosa não traz novo prejuízo à vítima. Se a pessoa furta um bem, e depois o aliena a um terceiro de boa-fé, deve responder por furto e por disposição de coisa alheia como própria. A jurisprudência, entretanto, diz que é um “post factumimpunível. Furto Famélico É aquele em que a pessoa subtrai alimentos única e exclusivamente para a manutenção própria ou de sua família, pois nestes casos desde que comprovado o estado de necessidade, a conduta humana não encontrará a antijuridicidade, elemento indispensável para o conceito de crime.Ex: furtar um pão para se alimentar. Furto de Uso É aquele em que a pessoa pratica tal conduta com o intuito única e exclusivamente para utilizar a coisa momentaneamente, devolvendo-a, logo em seguida, não constitui crime pela legislação penal comum por falta de tipicidade, pois, o agente não tem a intenção de se locupletar, ou seja, se enriquecer com tal conduta, no entanto, caracteriza crime militar.

FURTO NOTURNO - Art. 155, § 1. o : “A pena aumenta-se de 1/3, se o crime é praticado durante o repouso noturno.”

Trata-se de causa de aumento de pena que tem por finalidade garantir a proteção em relação ao patrimônio durante o repouso do proprietário, uma vez que neste período há menor vigilância de seus pertences. O furto noturno não se aplica ao furto qualificado. Só vale para o furto simples: pela posição geográfica do parágrafo, o § 1º só vale para o que vem antes; no furto qualificado já há previsão de pena maior.

A jurisprudência dominante traça algumas considerações:

Só se aplica quando o fato ocorre em residência (definida pelo art. 150, § 4 o , do Código Penal como sendo qualquer compartimento habitado, ou o aposento de habitação coletiva, ou compartimento não aberto ao público, onde alguém exerce profissão ou atividade) ou em qualquer de seus compartimentos, desde que haja morador dormindo; O aumento não se aplica se a casa estiver desabitada ou se os moradores estiverem viajando; não se aplica o aumento no caso de furto praticado na rua ou em comércio, bem como, quando o furto for praticado em lugares de grande frequentação, ex.: festas, casas noturnas quando estiverem tendo shows, etc.

Art. 155, § 2. o , do CP - FURTO PRIVILEGIADO Requisitos:

Que o agente seja primário (todo aquele que não é reincidente), ou seja, o agente pode estar respondendo por dez crimes, de quanto não transitar em julgado o primeiro, não há que se falar em violação do princípio da presunção de inocência, logo, a reincidência se verificará quando do julgamento do próximo crime. Se o réu for primário e tiver maus antecedentes, fará jus ao

privilégio, porque a lei não exige bons antecedentes. Que a coisa subtraída seja de pequeno valor. A jurisprudência adotou o critério objetivo

para conceituar pequeno valor, considerando aquilo que não excede a um salário mínimo. Na tentativa leva-se em conta o valor do bem que se pretendia subtrair. Deve ser examinado o valor do bem no momento da subtração e não o prejuízo suportado pela vítima. Ex.: no furto de um carro, que é recuperado depois, o prejuízo pode ter sido pequeno, mas será levado em conta o valor do objeto furtado. Não confundir privilégio com furto de bagatela; pelo princípio da insignificância, o crime de furto de bagatela é atípico porque a lesão ao bem jurídico tutelado é ínfima, irrisória. No furto privilegiado, ao contrário, o fato é considerado crime, porque existe uma perda patrimonial da vítima, embora pequena, logo, implicará em causa de diminuição da pena de um a 2/3, em razão do privilégio. Como conseqüência dessa conduta poderá o juiz substituir a pena de reclusão pela de detenção, diminuí-la de um terço a dois terços, ou aplicar somente a pena de multa.

FURTO QUALIFICADO

para conceituar pequeno valor, considerando aquilo que não excede a um salário mínimo. Na tentativa leva-se
para conceituar pequeno valor, considerando aquilo que não excede a um salário mínimo. Na tentativa leva-se

Art. 155, §§ 4º e 5º, do

Código

 

Penal

-

Quando

o

juiz

reconhecer

mais

de

uma

qualificadora,

utilizará

a

segunda

como

circunstância

judicial

na

primeira

fase

da

fixação

da

pena.

Art. 155, § 4º, do Código Penal A pena é de reclusão de 2 (dois) a 8 (oito) anos, e multa, se o crime é cometido:

  • a) Com rompimento ou destruição de obstáculo

Pressupõe uma agressão que danifique o objeto, destruindo-o (destruição total) ou rompendo-o (destruição parcial). O art. 171 do Código de Processo Penal exige perícia, para a comprovação da violência que é, neste caso, contra o objeto. O obstáculo pode ser passivo (porta, janela, corrente, cadeado etc.) ou ativo (alarme, armadilha). A simples remoção do obstáculo não caracteriza a qualificadora, que exige o rompimento ou destruição. O crime de dano fica absorvido pelo furto qualificado quando é meio para a subtração, por ser uma qualificadora específica. A qualificadora não é somente aplicada quando o obstáculo atingido é parte integrante do bem a ser subtraído, como também se a violência for praticada contra o próprio bem. Ex.:

arrombar o portão para furtar o carro aplica-se a qualificadora; quebrar o vidro do carro para subtrair o automóvel furto qualificado, pela jurisprudência, antigamente era simples; quebrar o vidro do carro para subtrair uma bolsa que está dentro é furto qualificado.

  • b) Com abuso de confiança, mediante fraude, escalada ou destreza

Com abuso de confiança: que a vítima, por algum motivo, deposite uma especial confiança em alguém: amizade, namoro, relação de emprego de anos etc. Saliente-se que a jurisprudência exige a demonstração da confiança, caso contrário, não incidirá a qualificadora.

Emprego de fraude: significa usar de artifícios para enganar alguém, possibilitando a execução do furto. O furto mediante fraude distingue-se do estelionato porque neste a fraude é utilizada para convencer a vítima a entregar o bem ao agente e naquele, a fraude serve para distrair a vítima para que o bem seja subtraído. No furto, a fraude é qualificadora; no estelionato é elementar do tipo, ou seja, elemento constitutivo do crime, ou seja, requisito do crime. A jurisprudência entende que a entrega do veículo a alguém que pede para testá-lo, demonstrando interesse na sua compra, caracteriza o crime de furto qualificado pela fraude (para possibilitar a indenização por parte do seguro, que cobre apenas furto e não estelionato, crime que realmente ocorreu porque houve entrega).

Escalada: é o acesso por via anormal ao local da subtração. Ex.: entrada pelo telhado, pela tubulação do ar-condicionado, pela janela, escavação de um túnel e outros. Para configuração da escalada tem-se exigido que o agente dispense um esforço considerável para ter acesso ao local: entrar por uma janela que se encontra no andar térreo, saltar um muro baixo, por exemplo, não qualificam o furto. O art. 171 do Código de Processo Penal exige a perícia do local.

Destreza: habilidade do agente que permite a prática do furto sem que a vítima perceba. A vítima deve estar ao lado ou com o objeto para que a destreza tenha relevância (uma bolsa, um colar etc.). Se a vítima está dormindo ou em avançado estado de embriaguez não se aplica a qualificadora, pois não há necessidade de habilidade para tal subtração. Se a vítima percebe a conduta do agente, não se aplica a qualificadora. Se a vítima não perceber a conduta do agente, mas for vista por terceiro, subsiste a qualificadora.

c) Com emprego de chave falsa

Considera-se chave falsa: cópia feita sem autorização; qualquer objeto capaz de abrir uma fechadura. Ex.: grampo, chave mixa, gazua, etc. A chave falsa deve ser submetida à perícia para constatação de sua eficácia. A utilização da chave verdadeira encontrada ou subtraída pelo agente não configura a qualificadora; o furto será simples. Se subtraída mediante fraude, haverá furto qualificado mediante fraude. A chave verdadeira só poderá ser considerada chave falsa se for utilizada para abrir outro bem sem ser aquele para o qual ela foi criada. Ex.: a chave do meu carro é verdadeira para mim, no entanto, se eu for abrir a porta de um outro carro com ela, será chave falsa.

d) Mediante o concurso de duas ou mais pessoas A aplicação da qualificadora dispensa a identificação de todos os indivíduos e é cabível ainda que um dos envolvidos seja menor, ou tenha problemas mentais, sendo que neste caso, só o imputável irá responder pelo “crime” de furto, sendo responsabilizado o menor por ato infracional e o inimputável receberá medida de segurança. P.: Exige-se que as duas pessoas pratiquem os atos de execução do furto? Para Damásio de Jesus e Heleno Fragoso a qualificadora existirá ainda que uma só pessoa tenha praticado os atos executórios, porque a lei exige o “concurso de duas ou mais pessoas”, não distinguindo co-autoria de participação, sendo que nesta o agente não pratica atos executórios. Demonstram ainda que a lei, quando exige a execução por todos os envolvidos, se expressa nesse sentido, citando como exemplo o art. 146 do Código Penal que impõe “para execução do crime” a reunião de mais de três pessoas. Reconhecida a existência do crime de quadrilha ou bando (art. 288 do CPP), o juiz não poderá aplicar a qualificadora do furto mediante concurso de duas ou mais pessoas porque constituiria “bis in idem”.

Art. 155, § 5º, do Código Penal Inserido pela Lei n. 9.426/96 A pena passa a ser de reclusão de 3 a 8 anos, se a subtração é de veículo automotor “que venha a ser transportado para outro Estado ou para o exterior”. O § 5º absorve as qualificadoras do § 4º, que só poderão ser utilizadas como circunstâncias judiciais, já que as penas previstas em abstrato são diversas. Não basta a intenção do agente de transportar o veículo para outro Estado ou para o exterior; deve ocorrer o efetivo transpasse da fronteira ou divisa para incidência da qualificadora. Se o agente for detido antes de cruzar a divisa, haverá o crime de furto simples consumado e a qualificadora não será aplicada. A tentativa dessa modalidade de furto qualificado será possível quando o agente tentar transpor a barreira da divisa e for detido.

- Se precisar vou restringir a sua - Nossa ação criminosa será desencadeada com duas ou
-
Se
precisar
vou
restringir
a
sua
- Nossa ação criminosa será
desencadeada com duas ou
mais pessoas.
- Então, não adianta resistir!
liberdade, trancando-o em um cômodo da
sua residência até consumar o crime.
- Quer saber! Nada haver! Estou
fora.
Esses
malucos
do
Muppet
Show vão rodar em um roubo com
causas de aumento de pena, ou
comumente conhecido como
circunstanciado,
que
é
a
mesma
coisa.

ROUBO

- Nós vamos roubar você e a nossa emprego de armas! violência será com
- Nós vamos roubar você e a
nossa
emprego de armas!
violência
será
com
Art. 155, § 5º, do Código Penal – Inserido pela Lei n. 9.426/96 A pena passa

Art. 157 do CP Subtrair coisa alheia móvel para si ou para outrem mediante o emprego de violência ou grave ameaça ou depois de havê-la, por qualquer meio, reduzido à impossibilidade de resistência. Pena: Reclusão de 04 (quatro) a 10 (dez) anos e multa.

Enquanto o furto

é a subtração

pura e simples de coisa alheia móvel,

para si

ou para

outrem (art. 155 do CP),

o roubo

é a subtração

de coisa móvel alheia, para si ou para outrem,

mediante violência, grave ameaça ou qualquer outro recurso que reduza a possibilidade de resistência da vítima. O “caput” do artigo citado trata do roubo próprio, e o seu § 1º descreve o que a doutrina chama roubo impróprio. A diferença reside no preciso instante em que a violência ou a grave ameaça contra a pessoa são empregadas. Quando o agente pratica a violência ou grave ameaça, antes ou durante a subtração, responde por roubo próprio; quando pratica esses recursos depois de apanhada a coisa, ou seja, pratica inicialmente um furto, e, para assegurar a impunidade do crime ou

a detenção do objeto material, passa a empregar a violência ou grave ameaça depois, responde por roubo impróprio. A pena para ambos (violência e/ou grave ameaça) é de reclusão, de quatro (quatro) a 10 (dez) anos, e multa.

Elementos do Tipo

Subtrair coisa alheia móvel já foi objeto de análise no módulo relativo ao crime de furto. Violência: considera-se apenas a violência real. Grave ameaça: é a promessa de um mal grave e iminente (ex.: anúncio de morte, lesão, seqüestro). Qualquer outro meio: chamado violência imprópria, pode ser revelado, por exemplo, pelo uso de sonífero, da hipnose etc. A simulação de arma e o uso de arma de brinquedo configuram a grave ameaça, logo, configuram o crime de roubo, desde que a vítima tenha se sentido ameaçada, no entanto, o posicionamento pacífico, atualmente, pelos Tribunais Superiores é que não incidirá a qualificadora. A “trombada” será considerada como violência se for meio utilizado pelo agente para reduzir a vítima à impossibilidade de resistência, caracterizando o roubo e não o furto. Agora, se o agente apenas utilizou-se da trombada para distrair a vítima facilitando sua subtração, ai será furto qualificado pela fraude.

Sujeito Ativo Sujeito ativo pode ser qualquer pessoa, exceto o proprietário.

Sujeito Passivo

 

Sujeito

passivo

pode

ser

qualquer

pessoa

que

sofra

diminuição

(perda)

patrimonial

(proprietário ou possuidor), ou que seja atingida pela violência ou grave ameaça.

Objetividade Jurídica

A lei pretende assegurar o patrimônio e a integridade física ou liberdade individual.

Concurso de Crimes

O número de vítimas não guarda equivalência com o número de delitos. Este último será relacionado com base no número de resultados (lesão patrimonial), que o agente sabia estar realizando no caso concreto. É possível que um só roubo tenha duas vítimas, pois a vítima do roubo é tanto quem sofre a lesão patrimonial, como quem sofre a violência ou grave ameaça. Ex.: emprestar o carro a alguém que venha a ser assaltado (tanto o proprietário quanto o possuidor são vítimas). Da mesma forma, havendo grave ameaça contra duas pessoas, mas lesado o patrimônio de apenas uma, haverá crime único, porém, com duas vítimas. Empregada grave ameaça contra cinco pessoas e lesado o patrimônio de três, por exemplo, há três crimes de roubo em concurso formal ou seja, uma conduta com dois ou mais resultados (crimes). A solução, na hipótese de grave ameaça contra uma pessoa lesando bens de duas, dá-se da seguinte maneira: se o agente não sabe que está lesando dois patrimônios, há crime único, evitando- se a responsabilidade penal objetiva; se o agente sabe que está lesando dois patrimônios (pega o relógio do cobrador e o dinheiro do caixa, por exemplo), há dois crimes de roubo em concurso formal. É possível a existência de crime continuado, se preenchidos os requisitos do art. 71 do Código Penal. Ex.: indivíduo rouba uma pessoa em um ônibus, sai dele, entra em outro e rouba outra pessoa.

Consumação do ROUBO

Há certa divergência quanto ao momento consumativo do roubo próprio. O entendimento do Supremo Tribunal Federal e Superior Tribunal de Justiça é que o roubo se consuma com a simples retirada do bem da vítima, após o emprego da violência ou grave ameaça, ainda que não consiga a posse tranqüila.

Tentativa

A tentativa é possível e será verificada quando, iniciada a execução do tipo, mediante violência ou grave ameaça, o agente não consegue efetivar a subtração; não se exige o início da execução do núcleo “subtrair”, e sim da prática da violência (Damásio de Jesus). Quando o agente é preso em flagrante com o objeto do roubo, após perseguição, responde por crime tentado (para aqueles que exigem a posse tranqüila da coisa para consumação) e por crime consumado (Supremo Tribunal Federal e Superior Tribunal de Justiça, que dispensam o requisito da posse tranqüila da coisa para consumação do roubo).

ROUBO IMPRÓPRIO

Art. 157, § 1º, do CP - Na mesma pena incorre quem, logo depois de subtraída a coisa, emprega violência contra a pessoa ou grave ameaça, a fim de assegurar a impunidade do crime ou a detenção da coisa para si ou para terceiro.

Diferenças entre ROUBO PRÓPRIO e ROUBO IMPRÓPRIO

No roubo próprio a violência ou grave ameaça ocorre antes ou durante a subtração; no roubo impróprio, só ocorre depois da subtração. No roubo próprio, a violência ou grave ameaça constituem meio para a subtração, enquanto no roubo impróprio, o agente, inicialmente, quer apenas furtar e, depois de já se haver apoderado de bens da vítima, emprega violência ou grave ameaça para garantir a sua impunidade ou a detenção do bem. No roubo próprio, a lei menciona três meios de execução, que são a violência, a grave ameaça ou qualquer outro recurso que dificulte a defesa da vítima. No roubo impróprio, a lei menciona apenas dois, que é a grave ameaça e a violência, incabível o emprego de sonífero ou hipnose (violência imprópria).

Requisitos do ROUBO IMPRÓPRIO

1) Que o agente tenha se apoderado do bem que pretendia furtar. OBS: Se o agente ainda não tinha a posse do bem, não se pode cogitar de roubo impróprio, nem de tentativa. Ex.: o agente está tentando arrombar a porta de uma casa, quando alguém chega ao local e é agredido pelo agente, que visa garantir sua impunidade e fugir sem nada levar. Haverá tentativa de furto qualificado em concurso material com o crime de lesões corporais. 2) Que a violência ou grave ameaça tenham sido empregadas logo após o apoderamento do objeto material. OBS: A violência ou grave ameaça pode ser contra o próprio dono do bem ou contra um terceiro qualquer, até mesmo um policial. Para a jurisprudência, se a violência contra policial serviu para transformar o furto em roubo impróprio, não se pode aplicar em concurso o crime de resistência, porque seria bis in idem. 3) Que a violência ou grave ameaça tenham por finalidade garantir a detenção do bem ou assegurar a impunidade do agente.

Consumação - O roubo impróprio consuma-se no exato momento em que é empregada a violência ou grave ameaça, após a consumação do delito de furto ainda que o agente não atinja sua finalidade (que é garantir a impunidade ou evitar a detenção). OBS: O golpe desferido que não atinge a vítima é considerada violência empregada, portanto, roubo impróprio consumado. Tentativa - A tentativa não é admissível, pois ou o agente emprega a violência ou a grave ameaça e o crime está consumado, ou não as emprega e o crime é o de furto. Alguns autores (minoria) admitem a tentativa quando o agente quer empregar a violência, mas é impedido.

Causas de Aumento da Pena (Roubo Circunstanciado)

Art. 157, § 2º do CP - Se o juiz reconhecer a existência de duas ou mais causas de aumento da pena poderá aplicar somente uma, de acordo com o parágrafo único do art. 68 do Código Penal. As causa de aumento da pena incidem apenas para o roubo simples (próprio ou

impróprio), e não se aplicam ao roubo qualificado (lesão grave ou morte).

I Se a violência é exercida com emprego de arma

É chamado de roubo agravado pelo emprego de arma; porém, o correto é nomear de causa de aumento do roubo (de 1/3 até 1/2). Arma é qualquer instrumento que tenha poder vulnerante; pode ser própria ou imprópria (qualquer objeto que possa matar ou ferir, mas que não possui esta finalidade específica, como, por exemplo, faca, tesoura, espeto etc.). Não é necessário que a arma seja apontada para a vítima; basta que o agente esteja armado e utilize a mesma, nem que seja em uma ameaça indireta. A simples simulação de arma não faz incidir o aumento da pena. A jurisprudência entende que não se aplica o aumento da pena: primeiro porque não é

arma; depois porque se a arma é de brinquedo, o potencial lesivo da conduta do agente é menor. O Superior Tribunal de Justiça decidiu cancelar a Súmula n. 174 (“No crime de roubo, a intimidação feita com arma de brinquedo autoriza o aumento da pena.”), considerando que o emprego de arma de brinquedo, embora não descaracterize o crime, não agrava o roubo, uma vez que não apresenta real potencial ofensivo. Ficou assentado que a incidência da referida circunstância de exasperação da pena fere o princípio constitucional da reserva legal (princípio da tipicidade); configura bis in idem; deve ser apreciada na sentença final como critério diretivo de dosagem da pena (circunstância judicial do art. 59 do CP) e lesa o princípio da proporcionalidade 1 . De notar-se que a decisão apenas cancelou a referida Súmula, não havendo impedimento a que juízes e tribunais ainda continuem adotando a primeira orientação, que determina o agravamento da pena, no entanto, o que tem prevalecido é que o crime estará caracterizado, porém, a majorante não. Caso a arma esteja quebrada ou desmuniciada, há duas posições: uma dizendo que sim e outra que não, logo, prevalece esta, pois não tem potencial ofensivo, por isso não se aplica o aumento.

II Se há o concurso de duas ou mais pessoas As anotações feitas a respeito do concurso de pessoas no furto (art. 155 do CP) aplicam-se ao roubo; a distinção é quanto à natureza jurídica: naquele é qualificadora, neste é causa de aumento.

III Se a vítima está em serviço de transporte de valores e o agente conhece tal circunstância

Aplicável apenas se a vítima está trabalhando (“em serviço”) com o transporte de valores (ex.: assalto de office-boy, de carro-forte, etc.). Se o ladrão assaltar o motorista do carro-forte, levando somente o seu relógio, não há qualificadora. Se o ladrão rouba um fusca e percebe que o seu condutor está levando alta quantidade de dinheiro para o banco, dinheiro este que ele juntou a vida toda, não incidirá a majorante, pois o condutor não está em serviço de terceiro, e sim realizando um transporte particular. Exige-se que o agente conheça a circunstância do transporte de valor (dolo direto), não se admitindo dolo eventual.

IV Se a subtração for de veículo automotor que, necessariamente, venha a ser transportado para outro estado ou país

Ver anotações sobre furto (idem ao furto).

V - Se o agente mantém a vítima em seu poder, restringindo sua liberdade

Aplica-se às hipóteses em que a vítima é mantida pelos assaltantes por pouco tempo, ou tempo suficiente para a consumação do roubo.

arma; depois porque se a arma é de brinquedo, o potencial lesivo da conduta do agente

ROUBO QUALIFICADO

Art. 157, Parágrafo 3º do CP - Há duas formas de roubo qualificado, aplicáveis tanto ao roubo próprio quanto ao impróprio.

De acordo com a primeira parte do dispositivo: “se da violência resulta lesão corporal de natureza grave, a pena é de reclusão, de sete (sete) a 15 (quinze) anos, além de multa”.

Houve

alteração

da

pena

mínima,

para

tornar

pacífico o entendimento de que as causas de aumento da pena do § 2º não se aplicam às qualificadoras do § 3º. Se a lesão é leve, esta fica absorvida.

1 GOMES, Luiz Flávio. STJ cancela Súmula 174: arma de brinquedo não agrava o roubo. São Paulo: IBCCrim, 27.9.2001. Disponível em: <www.direitocriminal.com.br>. O autor alinha outras conclusões do acórdão.

A parte final dispõe que “se resulta morte, a reclusão é de 20 (vinte) a 30 (trinta) anos, sem prejuízo da multa”. É o denominado latrocínio (crime hediondo).

Não confundir tentativa de latrocínio com roubo qualificado pela lesão grave. O que distingue é o dolo (vontade de matar ou vontade de lesar). Se a vítima morre em razão da grave ameaça tem-se concurso formal de roubo simples e homicídio culposo (ex.: a vítima ao ver a arma sofre ataque cardíaco e morre).

O roubo será qualificado se a morte ou a lesão corporal grave resultarem da “violência”; o

tipo não menciona a grave ameaça. Nos termos do art. 19 do Código Penal, via de regra, o crime

qualificado pelo resultado é preterdoloso (há dolo na conduta antecedente e culpa na conseqüente). No crime de latrocínio, excepcionalmente, a morte pode decorrer de culpa ou dolo. Se um dos ladrões matar por dolo ou culpa um comparsa no local dos fatos não será latrocínio, pois ambos são autores do fato ilícito. Só será considerado latrocínio no caso de Aberractio ictus, ou seja, erro na execução, exemplo: o ladrão atira em alguém dentro do estabelecimento e erra vindo a acertar o seu comparsa, aí será latrocínio. Súmula n. 603 do STF: "ainda que a morte seja dolosa, por haver latrocínio (crime contra o patrimônio), a competência é do juízo singular". Tem-se, como regra, que a morte ou lesão corporal grave, resultando de violência, pode ser de qualquer pessoa. A exceção encontra-se na morte ou lesão corporal grave de co-autor ou partícipe.

Consumação e tentativa Por se tratar de crime complexo tem-se o seguinte:

Subtração consumada + morte tentada = latrocínio tentado. Subtração consumada + morte consumada = latrocínio consumado. Subtração tentada + morte tentada = latrocínio tentado. Subtração tentada + morte consumada = latrocínio consumado.

(Súmula n. 610 do STF: “Há crime de latrocínio, quando o homicídio se consuma, ainda que não realize o agente a subtração de bens da vítima”).

Caracteriza-se a violência quando empregada em razão do roubo (nexo causal) e durante o cometimento do delito (no mesmo contexto fático). O nexo causal estará presente quando a violência constituir meio para a subtração (ex.:

roubo próprio qualificado pela morte) ou quando for empregada para garantir a detenção do bem ou a impunidade do agente (ex.: roubo impróprio). Faltando um desses requisitos, haverá roubo em concurso material com homicídio doloso ou delito de lesão corporal dolosa. Ex.1: João rouba alguém hoje; semanas depois, para garantir a impunidade, mata a vítima. Responderá por roubo em concurso material com homicídio. Ex.2: ladrão mata desafeto que passava pelo local durante o roubo. Foi durante o roubo, mas não em razão dele. Logo, neste caso, temos dois crimes distintos: um roubo e um homicídio.

EXTORSÃO

Art. 158 do CP - A extorsão consiste em empregar violência ou grave ameaça com a

intenção

de

obter

indevida vantagem

econômica, ou

para obrigar

a vítima

a fazer,

deixar de fazer ou tolerar que se faça algo.

Pena: Reclusão de 04 (quatro) a 10 (dez) anos e multa (idêntico ao crime de roubo).

Objetividade Jurídica

A principal é a inviolabilidade do patrimônio. A secundária é a proteção à vida, integridade

física, liberdade pessoal e tranqüilidade do espírito.

Diferença entre Extorsão e Exercício Arbitrário das Próprias Razões

Na extorsão o agente visa a uma vantagem patrimonial indevida, enquanto no exercício arbitrário das próprias razões a vantagem é devida (art. 345 do CP).

ROUBO E EXTORSÃO

Quando a vítima é obrigada a entregar o objeto sem ter qualquer opção (ex.: arma de fogo apontada para ela), o crime será o de roubo. Para que o crime seja de extorsão é necessário, portanto, que, após o emprego da violência ou grave ameaça, a vítima tenha alguma opção de escolha, sendo sua colaboração imprescindível para que o agente obtenha a vantagem visada. Enquanto no roubo a ação e o resultado são concomitantes, na extorsão o mal prometido e a vantagem são futuros. Questão polêmica é a que diz respeito ao constrangimento da vítima para sacar dinheiro em

caixa eletrônico. Para a jurisprudência, o delito é de extorsão (art. 158 do CP) e não de roubo (art.157, § 2º, V, do CP), com fundamento no princípio da dispensabilidade ou indispensabilidade da conduta da vítima. Para o Professor Damásio de Jesus, as condutas devem ser analisadas no caso concreto: “De acordo com o princípio da prescindibilidade do comportamento da vítima, quando o autor pode obter o objeto material dispensando a sua conduta, trata-se de roubo; quando, entretanto, o escopo do agente depende necessariamente de ação do ofendido, cuida-se de extorsão”. E exemplifica: “Quando o autor constrange a vítima a lhe entregar o cartão magnético, a hipótese é de

roubo agravado (art.157, § 2º, inc. V) e não de extorsão, uma vez que ele pode, para obter o dinheiro, dispensar a ação da vítima”; a solução será diversa quando “a vítima é coagida a retirar o dinheiro do banco mediante a emissão de cheque, caso em que o autor não pode prescindir de seu

comportamento”.

Consumação e Tentativa

Súmula nº 96 do STJ: “O crime de extorsão consuma-se independentemente da obtenção da vantagem indevida”. É, portanto, um crime formal. O entendimento que prevalece é o de que, sendo formal o crime, basta o agente coagir, independentemente da vítima se sentir ou não coagida, o delito estará consumado (Posição do saudoso Professor Nelson Hungria). A tentativa é possível quando o constrangido não realiza a conduta, por circunstâncias alheias à vontade do autor, ou quando o autor tenta coagir, mas é impedido, como por exemplo, quando vai fazer a coação pela forma escrita e é impedido por circunstâncias alheias à sua vontade. Ex.: a carta foi interceptada pela polícia.

Causas de Aumento da Pena § 1º dispõe que a pena é aumentada de um terço a metade (1/3 a 1/2) se o crime é cometido por duas ou mais pessoas ou com o emprego de arma.

EXTORSÃO QUALIFICADA

Segundo

o

§

do

mesmo dispositivo deve-se aplicar à extorsão as regras e penas do

roubo qualificado pela lesão grave ou morte.

ALTERAÇÃO LEGISLATIVA DE 17/04/09 SEQUESTRO RELÂMPAGO

Por força da Lei 11.923/09, o chamado sequestro relâmpago, no nosso ordenamento jurídico penal, passou a ser tipificado no § 3º do Art. 158 CP;

§ 3º Se o crime é cometido mediante restrição da liberdade da vítima, e essa condição é necessária para a obtenção da vantagem econômica, a pena é de reclusão, de 6 (seis) a 12 (doze) anos, além da multa; se resulta lesão corporal grave ou morte, aplicam-se as penas previstas no Art. 159, §§ 2º e 3º, respectivamente.

COMENTÁRIOS

Antes da lei 11.923/09 o sequestro relâmpago era tipificado ora no Art. 157 § 2º inc. V, ora no Art. 159 (Extorsão mediante seqüestro). O entendimento mais correto era no Art. 159 CP. Com a nova lei a pena foi reduzida; o crime é simples porque não está previsto como

hediondo; esta lei retroagirá em benefício do réu, caso ele tenha sido condenado no Art. 159 CP, receberá o benefício.

EXTORSÃO MEDIANTE SEQUESTRO

Art. 159 - Seqüestrar

pessoa

com

o

fim de

vantagem, como condição ou preço do resgate:

Pena - reclusão, de oito a quinze anos.

obter, para si ou para outrem, qualquer

ALTERAÇÃO LEGISLATIVA DE 17/04/09 – SEQUESTRO RELÂMPAGO Por força da Lei 11.923/09 , o chamado sequestro
ALTERAÇÃO LEGISLATIVA DE 17/04/09 – SEQUESTRO RELÂMPAGO Por força da Lei 11.923/09 , o chamado sequestro

CONCEITO

É a privação da liberdade da vítima tendo por fim a obtenção de vantagem, como condição

ou preço do resgate.

OBJETO JURÍDICO

Por se tratar de crime complexo, formado pela fusão de dois crimes sequestro ou cárcere privado e extorsão, tutela-se a inviolabilidade patrimonial e a liberdade de locomoção, além da integridade física, diante da previsão das formas qualificadas pelo resultado lesão corporal grave ou morte. Em que pese haver ofensa à liberdade pessoal, cuida-se de crime patrimonial, pois o sequestro é crime-meio para obtenção de vantagem patrimonial.

ELEMENTOS DO TIPO Ação nuclear

Consubstancia-se no verbo sequestrar, que significa privar a vítima de sua liberdade de locomoção, ainda que por breve espaço de tempo. A lei não se refere ao cárcere privado, ao contrário do art. 148 do CP; entretanto, segundo a doutrina, o termo "sequestro" tem acepção ampla, compreendendo também o cárcere privado, ou seja, a segregação da vítima em recinto fechado.

O que difere o sequestro previsto no art. 148 do CP da extorsão mediante sequestro é que neste último há uma finalidade especial do agente, consubstanciada na vontade de obter, para si ou para outrem, vantagem como condição ou preço do resgate. Embora o tipo fale em "qualquer vantagem", esta deve, necessariamente, ser de natureza econômica, pois se trata de um crime contra o patrimônio.

SUJEITO ATIVO

Trata-se de crime comum. Qualquer pessoa pode praticá-lo. Sujeito ativo do crime não é apenas aquele que realiza o sequestro da pessoa, mas também o que vigia a vítima no local do crime para que ela não fuja e também aquele que leva a mensagem aos parentes da vítima. Por ser crime formal, é irrelevante a obtenção de vantagem indevida.

SUJEITO PASSIVO

São sujeitos passivos tanto a pessoa que sofre a lesão patrimonial como a que é sequestrada.

ELEMENTO SUBJETIVO

É o dolo, consistente na vontade livre e consciente de sequestrar a vítima, acrescido da finalidade especial de obter, para si ou para outrem, qualquer vantagem, como condição ou preço do resgate. Se não estiver presente essa finalidade especial, o crime passa a ser outro: sequestro ou cárcere privado (ex: a intenção for a de se vingar da vítima). Em que pese a lei se referir a qualquer vantagem, somente a vantagem econômica pode ser objeto desse crime (dinheiro, jóia, títulos de crédito ou outro documento que tenha algum valor econômico etc.), pois estamos diante de um delito patrimonial. A lei também não diz expressamente se a vantagem almejada é devida ou indevida, ao contrário do crime de extorsão (CP, art. 158). Hungria afirma ser supérflua essa menção "desde que a sua ilegitimidade resulta de ser exigida como preço da cessação de um crime”. Se o sequestro visa à obtenção de vantagem devida, o crime será o de “exercício arbitrário das próprias razões (CP, art. 345)”, em concurso formal com o de sequestro (art. 148). Por exemplo: credor que sequestra o seu devedor como forma de constranger

os filhos deste a lhe pagarem a dívida.

MOMENTO CONSUMATIVO

Trata-se de crime formal ou de consumação antecipada, e não material. Dessa forma, o crime se consuma com o sequestro, ou seja, com a privação da liberdade da vítima, independentemente da obtenção da vantagem econômica. Basta comprovar-se a intenção do agente de obter a vantagem como condição ou preço do resgate, o que se faz por intermédio das negociações entre o sequestrador e os parentes da vítima, via telefone, quanto às condições ou preço do resgate; ou então por meio de mensagens escritas enviadas pelos sequestradores.

FORMAS

Simples

Está prevista no caput. Trata-se de crime hediondo, nos termos do art. 12, IV, da Lei n.

8.072/90.

Qualificadas

Estão previstas nos §§ 1º, 2º e 3º. Trata-se também de crimes hediondos, nos termos do art.

1º, IV, da Lei n. 8.072/90.

§ 1º Se o seqüestro dura mais de 24 (vinte e quatro) horas, se o seqüestrado é menor de 18 (dezoito) ou maior de 60 (sessenta) anos, ou se o crime é cometido por bando ou quadrilha. Pena - reclusão, de doze a vinte anos.

  • a) Sequestro por mais de 24 horas.

Ao contrário do

previsto

no

art. 148,

§

lº,

III (se

a

privação de liberdade no crime de sequestro dura mais de 15 dias), o crime é punido de maneira mais severa se o sequestro dura mais de 24 horas. Contenta-se a lei, portanto, com um prazo menor. Isso se dá em virtude da maior gravosidade do crime de extorsão mediante sequestro.

  • b) Sequestro de menor de 18 ou maior de 60 anos. Em decorrência da qualidade especial da

vítima.

  • c) Sequestro praticado por bando ou quadrilha. Trata-se do crime a que se refere o art. 288

do CP, ou seja, a reunião de mais de três pessoas para o fim de cometer crimes, não se

configurando, pois, essa majorante se a reunião for ocasional - especificamente para cometer o crime de extorsão mediante sequestro.

§ 2º - Se do fato resulta lesão corporal de natureza grave:

Pena - reclusão, de dezesseis a vinte e quatro anos. § 3º - Se resulta a morte:

Pena - reclusão, de vinte e quatro a trinta anos.

Trata-se de crime qualificado pelo resultado. O evento posterior agravador tanto pode ter sido ocasionado de forma dolosa quanto culposa. Pode resultar tanto dos maus-tratos acaso infligidos ao seqüestrado, quanto da própria natureza ou modo do sequestro. Em ambas as hipóteses o resultado agravador deve ter recaído sobre a pessoa sequestrada. Assim, se os sequestradores matam, por exemplo, um segurança da vítima ou a pessoa que estava efetuando o pagamento do resgate, haverá crime de extorsão mediante sequestro (sem as qualificadoras dos §§ 2º e 3º) em concurso material com o homicídio qualificado. Para que as qualificadoras sejam aplicadas, é indiferente que o resultado tenha sido provocado dolosa ou culposamente. No primeiro caso, todavia, o juiz deve levar em conta a conduta intencional na fixação da pena base. Se a morte ou a lesão grave forem causadas por caso fortuito ou culpa de terceiros, não se aplicam as qualificadoras (art. 19 do CP). Exemplo: um raio atinge a casa em que a vítima está sendo mantida ou ela é atropelada por terceiros após sua libertação. O reconhecimento de uma qualificadora mais grave automaticamente afasta a aplicação das menos graves, uma vez que as penas são distintas e o crime é um só. Por exemplo, se é sequestrada e depois morta uma pessoa de quinze anos, somente se aplica a qualificadora do § 3º, afastando-se a do § 1º. A pena da extorsão mediante sequestro qualificada pela morte é a maior prevista no Código Penal.

CAUSA DE DIMINUIÇÃO DE PENA. DELAÇÃO EFICAZ OU PREMIADA

Cuida-se da chamada delação eficaz ou premiada. A Lei n. 9.269/96 deu ao § 4º do art. 159

do CP a seguinte redação:

§ 4º- Se o crime é cometido em concurso, o concorrente que o denunciar à autoridade, facilitando a libertação do sequestrado, terá a sua pena reduzida de um a dois terços.

Requisitos para a delação eficaz. Para a aplicação da delação eficaz são necessários os seguintes pressupostos:

  • a) prática de um crime de extorsão mediante sequestro;

  • b) cometido em concurso;

  • c) delação feita por um dos co-autores ou partícipes à autoridade;

  • d) eficácia da delação.

RECEPTAÇÃO

RECEPTAÇÃO DA RECEPTAÇÃO Art. 180 - Adquirir, receber, transportar, conduzir ou ocultar, em proveito próprio ou

DA RECEPTAÇÃO

Art.

180

-

Adquirir,

receber,

transportar, conduzir ou ocultar, em proveito próprio ou alheio, coisa que sabe ser produto de crime, ou influir para que terceiro, de boa- fé, a adquira, receba ou oculte:

Pena - reclusão, de um a quatro anos, e multa.

Trata-se de crime acessório, cuja existência exige a prática de um delito antecedente. O tipo

menciona “produto de crime” para a caracterização da receptação, portanto, aquele que tem sua

conduta ligada a uma contravenção anterior não comete Receptação. A receptação é crime contra o patrimônio, porém, o crime antecedente não precisa estar previsto no título dos crimes contra o patrimônio, mas é necessário que cause prejuízo a alguém (ex.: receber coisa produto de peculato). A Receptação é crime de ação pública incondicionada, independente da espécie de ação do crime anterior. Receptação de receptação: nessa hipótese respondem pelo crime de receptação todos aqueles que, nas sucessivas negociações envolvendo o objeto, tenham ciência da origem criminosa do bem.

Mesmo havendo quebra da sequencia, poderá haver receptação. “A” (receptador) vende o objeto para “B” (boa-fé – desconhece origem ilícita). “B” vende a “C” (conhecedor da origem criminosa do objeto). “A” e “C” respondem pela receptação. Importante salientar que no caso de “Receptação” de “Receptação” a vítima é a pessoa que teve a perda patrimonial do delito inicial.

Sujeito Ativo: Pode ser praticado por qualquer pessoa, desde que não seja o autor, co-autor ou partícipe do delito antecedente. O advogado não se exime do crime com o argumento de que está recebendo honorários advocatícios.

Sujeito Passivo: É a mesma vítima do crime antecedente. O tipo não exige que a coisa seja alheia, no entanto o proprietário do objeto não comete receptação quando adquire o bem que lhe havia sido subtraído porque não se pode ser sujeito ativo e passivo de um mesmo crime.

Objeto Material: A coisa deve ser produto de crime ainda que tenha sido modificado; ex:

furto de automóvel há receptação mesmo que sejam adquiridas apenas algumas peças. O instrumento do crime (arma, chave falsa etc.) não constitui objeto do crime de receptação,

pois não é produto de crime. Bens imóveis: Como a lei não exige que a coisa seja móvel, tal como faz em alguns delitos (ex: art. 155 do CP), Mirabete e Fragoso entendem que pode ser objeto de receptação; para Damásio de Jesus, Nelson Hungria e Magalhães Noronha, a palavra receptação pressupõe o deslocamento do

objeto, tornando prescindível que o tipo especifique “coisa móvel”, dessa forma, excluem a

possibilidade de um imóvel ser objeto de receptação. É a posição do STF.

RECEPTAÇÃO DOLOSA SIMPLES (art. 180, caput)

I) RECEPTAÇÃO PRÓPRIA: art.180, caput, 1ª parte.

São 5 as condutas típicas:

1) Adquirir: obter a propriedade a título oneroso ou gratuito. 2) Receber: obter a posse (emprestar). 3) Ocultar: esconder. 4) Conduzir: estar na direção, no comando do veículo. 5) Transportar: levar de um lugar para outro. Na receptação dolosa aplica-se o privilégio previsto no § 2º do art. 155 do CP, como dispõe a 2ª parte do § 5º do art. 180 do CP.

Consumação - É delito material, consuma-se quando o agente adquire, recebe, oculta, conduz ou transporta, sendo que os três últimos núcleos tratam de crime permanente, cuja consumação se protrai no tempo, permitindo o flagrante a qualquer momento. Tentativa - É possível. Elemento subjetivo - É o dolo direto, o agente deve ter efetivo conhecimento da origem ilícita do objeto, não basta a dúvida (o dolo eventual). O dolo subseqüente não configura o delito, como no caso de o agente vir a descobrir posteriormente que a coisa por ele adquirida é produto de crime.

II) RECEPTAÇÃO IMPRÓPRIA: art.180, caput, 2ª parte. A receptação imprópria consiste em influir para que terceiro, de boa-fé, adquira, receba ou oculte objeto produto de crime. Influir significa persuadir, convencer, etc. A pessoa que influi chama-se intermediário, não pode ser o autor do delito antecedente e necessariamente tem de conhecer a origem espúria do bem, enquanto o terceiro (adquirente) deve desconhecer o fato. Quem convence um terceiro de má-fé é partícipe desta receptação.

RECEPTAÇÃO QUALIFICADA (art. 180, § 1º)

Receptação qualificada

§ 1º - Adquirir, receber, transportar, conduzir, ocultar, ter em depósito, desmontar, montar, remontar, vender, expor à venda, ou de qualquer forma utilizar, em proveito próprio ou alheio, no

exercício de atividade comercial ou industrial, coisa que deve saber ser produto de crime: Pena - reclusão, de três a oito anos, e multa. § 2º - Equipara-se à atividade comercial, para efeito do parágrafo anterior, qualquer forma de comércio irregular ou clandestino, inclusive o exercício em residência.

A pena

é

de

reclusão,

de

3

(três)

a

8

(oito)

anos,

e multa

se

o

crime é praticado por

comerciante ou industrial no exercício de suas atividades, que deve saber da origem criminosa do

bem.

Segundo alguns autores o nomem juris do delito (“receptação qualificada”) está incorreto, pois trata-se de um tipo autônomo e próprio, já que só pode ser cometido por comerciante ou industrial.

Equiparação: para fins penais, considera-se comerciante aquele que exerce sua atividade de forma irregular ou clandestina, mesmo que em residência. É uma norma de extensão, pois explica o

que se deve entender por “atividade comercial”.

RECEPTAÇÃO QUALIFICADA (art. 180, § 3º)

§ 3º - Adquirir ou receber coisa que, por sua natureza ou pela desproporção entre o valor e o preço, ou pela condição de quem a oferece, deve presumir-se obtida por meio criminoso:

Pena - detenção, de um mês a um ano, ou multa, ou ambas as penas.

Adquirir ou receber são os verbos do tipo, que excluiu a conduta “ocultar” por se tratar de

hipótese reveladora de dolo. Os crimes culposos, em geral, têm o tipo aberto, a lei não descreve as condutas, cabendo ao juiz a análise do caso concreto. A receptação culposa é exceção, pois a lei descreve os parâmetros ensejadores da culpa:

Desproporção entre o valor de mercado e o preço pago: deve haver uma desproporção considerável, que faça surgir no homem médio uma desconfiança. Natureza do objeto: certos objetos exigem maiores cuidados quando de sua aquisição. Ex.:

armas de fogo deve-se exigir o registro. Condição do ofertante: quando é pessoa desconhecida ou que não tem condições de possuir o objeto, como no caso do mendigo que oferece um relógio de ouro. O tipo abrange o dolo eventual, mesmo tratando-se de modalidade culposa. Entende a doutrina e a jurisprudência que o dolo eventual não se adapta à hipótese do caput do art. 180 do CP, que pune apenas o dolo direto, enquadrando-se na receptação culposa prevista no § 3º do referido artigo.

Consumação: quando a compra ou o recebimento se efetivam. Tentativa. não se admite, porque não se admite tentativa de crime culposo.

Art. 180, § 4º, do C.P. § 4º - A receptação é punível, ainda que desconhecido ou isento de pena o autor do crime de que proveio a coisa.

Trata-se de norma penal explicativa que impõe a autonomia da receptação, traçando duas regras: a receptação é punível ainda que desconhecido o autor do crime antecedente, ou isento o mesmo de pena. São causas de isenção de pena que não atingem o delito de receptação: excludentes de culpabilidade (ex.: inimputabilidade); escusas absolutórias (art. 181 do CP). Comete crime de receptação quem adquire objeto furtado por alienado mental, ou por alguém que subtraiu do ascendente. De acordo com o disposto no art. 108 do CP, a extinção da punibilidade do crime anterior não atinge o delito que dele dependa, salvo duas exceções, abolitio criminis e anistia.

RECEPTAÇÃO PRIVILEGIADA (art. 180, § 5º)

§ 5º - Na hipótese do § 3º, se o criminoso é primário, pode o juiz, tendo em consideração as circunstâncias, deixar de aplicar a pena. Na receptação dolosa aplica-se o disposto no § 2º do art.

155.

O parágrafo prevê o perdão judicial na 1 a parte e a aplicação do § 2º do art. 155 (privilégio) na 2ª parte. O perdão judicial somente é aplicado à receptação culposa, exigindo que:

  • a) o agente seja primário;

  • b) o juiz considere as circunstâncias.

Trata-se de direito subjetivo do réu e não faculdade do juiz em aplicá-lo não obstante a

expressão pode.

CAUSA DE AUMENTO: art. 180, § 6º

§ 6º - Tratando-se de bens e instalações do patrimônio da União, Estado, Município, empresa concessionária de serviços públicos ou sociedade de economia mista, a pena prevista no caput deste artigo aplica-se em dobro.

Se o objeto é produto de crime contra a União, Estado, Município, Concessionária de Serviço Público ou Sociedade de Economia Mista, a pena aplica-se em dobro. O agente deve saber que o produto do crime atingiu uma das entidades mencionadas. Se assim não fosse, haveria responsabilidade objetiva. A figura do § 6º só se aplica à receptação dolosa do caput.

Dos crimes contra a dignidade sexual: estupro, estupro de vulnerável, mediação para satisfazer a lascívia de outrem com pessoa menor de quatorze anos, satisfação de lascívia mediante presença de criança ou adolescente e favorecimento da prostituição ou outra forma de exploração de vulnerável.

03 h/a

REFORMA PENAL - LEI 12.015/09

TÍTULO VI - DOS CRIMES CONTRA A DIGNIDADE SEXUAL CAPÍTULO I - DOS CRIMES CONTRA A LIBERDADE SEXUAL REDAÇÃO DADA PELA LEI Nº 12.015/09

ART. 213 CP ESTUPRO

Como era: Constranger mulher à conjunção carnal, mediante violência ou grave ameaça. Pena - reclusão de
Como era: Constranger
mulher
à
conjunção carnal, mediante violência ou
grave ameaça. Pena - reclusão de 06 a 10
anos
Como ficou:
Art. 213 - Constranger alguém,
mediante violência ou grave ameaça, a ter
conjunção carnal ou a praticar ou permitir
que com
ele
se
pratique outro ato
libidinoso.
Pena - reclusão de 06 a 10 anos.

§1º “Se resulta lesão corporal de natureza grave ou se a vítima é menor de 18 ou maior de 14 anos” Pena reclusão de 8 a 12 anos;

§2º Se resulta morte:

Pena reclusão de 12 a 30 anos; De acordo com a redação antiga, somente cometia estupro aquele que sujeitava a mulher, mediante violência ou grave ameaça, à conjunção carnal (cópula vagínica), qualquer ato libidinoso diverso era considerado atentado violento ao pudor (exemplos: coito anal, sexo oral etc.). A partir de agora, passa a ser estupro tanto a conjunção carnal quanto os atos libidinosos diversos. Note que o tipo não distingue o gênero da vítima, portanto, o homem pode ser vítima do crime de estupro. Assim para a configuração do estupro basta que uma pessoa (homem ou mulher) obrigue

outra (homem ou mulher) a com ela praticar qualquer ato libidinoso (conjunção carnal, felação, etc.).

Objeto jurídico no tipo penal é a liberdade sexual.

O sujeito ativo é qualquer pessoa (homem ou mulher). Trata-se de crime comum, que pode ser praticado tanto por homem como por mulher. Logo, a mulher agora pode ser autora de crime de estupro. Conforme orientações anteriores, o marido podia estuprar a mulher. Hoje, de acordo com a nova redação, a mulher também pode praticar estupro contra o marido. Na hipótese de uma mulher obrigar o homem a manter conjunção carnal, o posicionamento era de que haveria constrangimento ilegal. Com a nova redação temos que a mulher será autora de estupro contra o homem. Sujeito passivo pode ser qualquer pessoa (homem ou mulher) com 14 anos ou mais. Se for menor de 14 anos teremos o crime de Estupro de Vulnerável, previsto no artigo 217-A. Verifica-se que o crime de atentado violento ao pudor foi absorvido pelo artigo 213. Essa conduta agora é chamada de Estupro. Encerrarem-se os debates sobre a dúvida da incidência de concurso material entre atentado violento ao pudor e estupro. Se o sujeito, em um mesmo momento, pratica ato libidinoso e depois a conjunção carnal, cometeu o crime de estupro previsto no artigo 213 (crime único). E os que já foram condenados pela prática dos dois crimes (arts. 213 e 214) em concurso material? Deve-se aplicar a regra da retroatividade da lei penal mais benéfica? Sim. O legislador passou a disciplinar que aquele que pratica ato libidinoso e conjunção carnal em um único contexto, deve responder por um só crime (estupro). Logo, aquele que já foi condenado pela regra do concurso material deve ter sua pena abrandada. Outra questão que pode surgir é que se houve a abolitio criminis do artigo 214. Os condenados por atentado violento ao pudor podem alegar a abolitio criminis? Não ocorre a abolitio criminis. O tipo penal do atentado violento ao pudor foi incorporado a outro artigo (art. 213). Tivemos o que Luiz Flávio Gomes chama de continuidade normativa-típica. O que era proibido continua proibido na nova lei. Não há que se falar em abolitio criminis nessa hipótese. Nas modalidades qualificadas do art. 213 (§§ 1º e 2º), deslocou-se parte do antigo artigo 223 para os parágrafos do art. 213. No §1º, devemos lembrar que a lesão grave é conduta preterdolosa. Inovador é o fato de a vítima ser menor de 18 anos e maior de 14. Se menor de 14 anos o crime será o do art. 217-A. Ainda devemos lembrar que tanto o § 1º como o § 2º, utilizam-se agora da expressão “se da conduta” resultar lesão grave ou morte. O legislador sanou problema anterior quando mencionava expressões “se da violência” e “se do fato”, trazendo dúvidas a respeito de sua aplicação nos casos de violência e grave ameaça. “Assim, “se da conduta”, independentemente se for da violência ou da grave ameaça”, originar as causas ali previstas, haverá o aumento de pena.

ATENTADO VIOLENTO AO PUDOR NÃO MAIS EXISTE

Com a nova lei nº 12.015/09, o Art. 214 do Código Penal que tratava do Atentado Violento ao Pudor foi, integralmente, revogado e seu texto passou a integrar o Art. 213 CP. O novo artigo 213 CP é aplicável tão somente nas condutas contra maiores de 14 anos, pois, se a vítima for menor de 14 anos, aplica-se o artigo 217-A, que prevê o crime de estupro de vulnerável. Esse tipo penal é conseqüência da revogação do art. 224 CP que previa as hipóteses de presunção de violência, agora transformadas em elementos do crime de estupro de vulnerável. Como o Art. 217-A não contém em sua descrição típica o emprego de violência, doravante a menoridade da vítima passa a integrar o tipo penal, não cabendo qualquer discussão sobre sua inocência em assuntos sexuais.

ELEMENTOS OBJETIVOS DO TIPO - CRIME DE ESTUPRO

Constranger alguém: “constranger” significa obrigar, forçar, coagir; deve haver resistência, oposição, ainda que mínima. Mediante violência ou grave ameaça (promessa de um mal considerável). Conjunção carnal: A conjunção carnal consiste na introdução completa ou incompleta do pênis na vagina. Praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso: Ex: Coito anal; felação, interfêmur, configura o delito de estupro; Elemento Subjetivo do Tipo: O elemento subjetivo do tipo é o dolo, consistente na vontade de obter a conjunção carnal ou praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso. P.: Estupro admite desistência voluntária? R.: Sim, respondendo o agente pelos atos anteriormente praticados.

ESTUPRO DE VULNERÁVEL - INCLUÍDO PELA LEI Nº 12.015/09

ELEMENTOS OBJETIVOS DO TIPO - CRIME DE ESTUPRO Constranger alguém: “constranger” significa obrigar, forçar, coagir; deve

Art. 217-A. Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 (catorze) anos:

Pena - reclusão, de 8 (oito) a 15 (quinze) anos. § 1 o Incorre na mesma pena quem pratica as ações descritas no caput com alguém que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência.

§ 2º (VETADO) § 3º Se da conduta resulta lesão corporal de natureza grave:

Pena - reclusão, de 10 (dez) a 20 (vinte) anos. § 4 o Se da conduta resulta morte:

Pena - reclusão, de 12 (doze) a 30 (trinta) anos.

Objetividade Jurídica: A dignidade sexual das pessoas vulneráveis.

Sujeito ativo: qualquer pessoa.

Sujeito passivo: pessoa menor de 14

anos, enferma ou doente mental que não tenha

discernimento para o ato sexual, ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer

resistência. Elementos objetivos do tipo manter relação sexual com uma das pessoas vulneráveis

elencadas no tipo penal. Consumação: no momento da conjunção carnal ou da prática de qualquer outro ato de

libidinagem. Tentativa: é possível.

Figuras qualificadas: se resulta lesão corporal grave ou morte, essas qualificadoras são

exclusivamente preterdolosas. Causas de aumento de pena estão previstas nos artigos 226 e 234, a saber:

Art. 226. A pena é aumentada:

I de quarta parte, se o crime é cometido com o concurso de 2 (duas) ou mais pessoas; II de metade, se o agente é ascendente, padrasto ou madrasta, tio, irmão, cônjuge, companheiro, tutor, curador, preceptor ou empregador da vítima ou por qualquer outro título tem autoridade sobre ela;

Art. 234-A. Nos crimes previstos neste Título a pena é aumentada:

I - (VETADO);

II - (VETADO);

III - de metade, se do crime resultar gravidez; e

IV - de um sexto até a metade, se o agente transmite à vitima doença sexualmente transmissível de que sabe ou deveria saber ser portador.

MEDIAÇÃO PARA SATISFAZER A LASCÍVIA DE OUTREM COM PESSOA MENOR DE QUATORZE ANOS

Art. 218. Induzir alguém menor de 14 (catorze) anos a satisfazer a lascívia de outrem:

Pena - reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos.

Objetividade jurídica: A dignidade sexual da pessoa menor de 14 anos. Tipo objetivo: Induzir significa convencer persuadir o menor, com ou sem a promessa de alguma vantagem, para que satisfaça os desejos sexuais de outra pessoa. O agente visa com a conduta satisfazer a lascívia de terceiro e não a própria. Exige-se que a terceira pessoa seja determinada. Sujeito ativo: Pode ser qualquer pessoa. Trata-se de crime comum. Sujeito passivo: Crianças e adolescentes menores de 14 anos. Consumação: No momento em que o ato é realizado pelo menor. Tentativa: É possível. Ação penal: Pública incondicionada. Segredo de justiça: Nos termos do art. 234-B do CP, os processos que apuram essa modalidade de infração penal correm em segredo de justiça. E se o sujeito convencer maior de 14 anos a satisfazer a lascívia de outrem? Deve responder pelo crime previsto no artigo 227, § 1º do Código Penal.

Observe a redação do caput do artigo 227 e seu § 1º:

Mediação para servir a lascívia de outrem

Art. 227 - Induzir alguém a satisfazer a lascívia de outrem:

Pena - reclusão, de um a três anos. § 1º Se a vítima é maior de 14 (catorze) e menor de 18 (dezoito) anos, ou se o agente é seu ascendente, descendente, cônjuge ou companheiro, irmão, tutor ou curador ou pessoa a quem

esteja confiada para fins de educação, de tratamento ou de guarda:

Pena - reclusão, de dois a cinco anos.

SATISFAÇÃO DE LASCÍVIA MEDIANTE PRESENÇA DE CRIANÇA OU ADOLESCENTE

Art. 218 A - Praticar, na presença de alguém menor de quatorze anos, ou induzi-lo a presenciar, conjunção carnal ou outro ato libidinoso, a fim de satisfazer lascívia própria ou de outrem:

Pena reclusão, de dois a quatro anos.

Trata-se de

um novo

tipo penal. De acordo

com

a nova redação,

comete o

crime de

Satisfação de lascívia mediante presença de criança ou adolescente quem pratica, na presença de menor de 14 (catorze) anos, ou o induz a presenciar, conjunção carnal ou outro ato libidinoso, desde que seja para satisfazer a lascívia própria ou de outrem. O legislador utilizou neste artigo 218 a redação final do antigo artigo 218 do Código Penal,

entretanto, trazendo como vítima o menor de 14 anos. Deveria o legislador ter utilizado como nome

do tipo penal “Corrupção de Vulnerável”, já que estamos no capítulo de crimes sexuais contra

vulnerável.

Objetividade jurídica: A dignidade e a formação sexual da pessoa menor de quatorze anos.

Tipo objetivo: Fazer com que a pessoa menor de quatorze anos assista o ato sexual envolvendo o próprio agente ou outras pessoas. O ato sexual pode ser a penetração do pênis na vagina (conjunção carnal) ou qualquer outro ato de conotação sexual (presenciar o agente se masturbar, a manter sexo oral com terceiro, etc.).

Sujeito ativo: Qualquer pessoa, homem ou mulher. Se o ato sexual for praticado por duas pessoas na presença de menor, a fim de satisfazer a lascívia de ambos, os dois respondem pelo crime.

Sujeito passivo: Criança ou adolescente, do sexo masculino ou feminino, menores de 14

anos.

Consumação: No instante em que é realizado o ato sexual na presença do menor.

Tentativa: É possível. Ex. menor é convencido a presenciar o ato sexual, mas quando o agente começa a tirar a roupa o menor sai correndo e não presencia concretamente qualquer ato libidinoso.

Ação penal: Pública incondicionada.

Segredo de justiça:

Nos termos

do

art.

234-B do

CP,

os

processos

que apuram essa

modalidade de infração penal correm em segredo de justiça.

AÇÃO PENAL

Os crimes contra a liberdade sexual deixam de ser ajuizados mediante queixa. Após a reforma, a regra é a ação penal pública condicionada - mediante representação -, salvo quando a vítima for menor de 18 (dezoito) anos, ou vulnerável, nessas hipóteses, serão objetos de ação penal pública incondicionada.

Art. 225. Nos crimes definidos nos Capítulos I (Dos crimes contra a liberdade sexual) e II (Dos crimes sexuais contra vulnerável) deste Título, procede-se mediante ação penal pública condicionada à representação.

Parágrafo único. Procede-se, entretanto, mediante ação penal pública incondicionada se a vítima é menor de 18 (dezoito) anos ou pessoa vulnerável.

FAVORECIMENTO DA PROSTITUIÇÃO OU OUTRA FORMA DE EXPLORAÇÃO DE VULNERÁVEL

FAVORECIMENTO DA PROSTITUIÇÃO OU OUTRA FORMA DE EXPLORAÇÃO DE VULNERÁVEL Art. 218-B. Submeter, induzir ou atrair
FAVORECIMENTO DA PROSTITUIÇÃO OU OUTRA FORMA DE EXPLORAÇÃO DE VULNERÁVEL Art. 218-B. Submeter, induzir ou atrair

Art. 218-B. Submeter, induzir ou atrair à prostituição ou outra forma de exploração sexual alguém menor de 18 (dezoito) anos ou que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, facilitá-la, impedir ou dificultar que a abandone:

Pena - reclusão, de 4 (quatro) a 10 (dez) anos. (Incluído pela Lei nº 12.015, de 2009) § 1 Se o crime é praticado com o fim de obter vantagem econômica, aplica-se também

multa.

§ 2 Incorre nas mesmas penas:

I - quem pratica conjunção carnal ou outro ato libidinoso com alguém menor de 18 (dezoito) e maior de 14 (catorze) anos na situação descrita no caput deste artigo; II - o proprietário, o gerente ou o responsável pelo local em que se verifiquem as práticas referidas no caput deste artigo. § 3 Na hipótese do inciso II do § 2º, constitui efeito obrigatório da condenação a cassação da licença de localização e de funcionamento do estabelecimento.

Objetividade jurídica: A dignidade e a moralidade sexual do vulnerável, bem como evitar danos à sua saúde e outros riscos ligados ao exercício da prostituição.

Tipo objetivo: O crime consiste em convencer alguém, com palavras ou promessas de boa vida, para que se prostitua, ou para que se submeta a outras formas de exploração sexual, ou, ainda, colaborar para que alguém exerça a prostituição, ou, de algum modo, impedir ou dificultar que a vítima abandone as referidas atividades. Em suma, constitui crime introduzir alguém no mundo da prostituição, apoiá-lo materialmente enquanto a exerce ou de qualquer modo impedir ou dificultar o abandono das atividades por parte de quem deseja fazê-lo. Na figura em análise, a vítima deve ser pessoa com idade entre quatorze e dezoito anos, ou com deficiência mental que lhe retire parcialmente a capacidade de entender o caráter do ato. Se a vítima for pessoa maior de idade e sã, o induzimento à prostituição configura o crime do art. 228 do Código Penal, que tem pena menor. Prostituição é o comércio do próprio corpo, em caráter habitual, visando a satisfação sexual de qualquer pessoa que se disponha a pagar para tanto. A prostituição a que se refere a lei pode ser a masculina ou feminina. Pune-se também nesse tipo penal quem submete o menor ou o enfermo mental a qualquer outra forma de exploração sexual. Ex: induzir uma menor a ser dançarina de striptease, a dedicar-se a fazer sexo por telefone ou via internet por meio de webcams (sem que haja efetivo contato físico com o cliente), etc. O art. 218-B, por tratar do mesmo tema, revogou tacitamente o crime do art. 244-A da Lei n.

8.069/90.

Sujeito ativo: Pode ser qualquer pessoa, homem ou mulher.

Sujeito passivo: Homem ou mulher menor de idade (entre 14 e 18 anos), ou que, em razão de enfermidade mental, não tenha discernimento necessário para compreender a prostituição ou a exploração sexual.

Consumação: Quando a vítima assume uma vida de prostituição, colocando-se à disposição para o comércio carnal, ou quando passa a ser explorada sexualmente. Na modalidade de impedimento, consuma-se no momento em que a vítima não abandona as atividades. Nesta última figura o crime é permanente. Na modalidade dificultar, consuma-se quando o agente cria o óbice.

Tentativa: É possível.

Intenção de lucro: Nos termos do art. 218-B, § 1º, se o crime é praticado com o fim de obter vantagem econômica, aplica-se também multa. A intenção de lucro a que o texto se refere como condição para a incidência cumulativa de multa é por parte do agente e não da vítima.

Figuras equiparadas.

No § 2º do art. 218-B, existe a previsão de dois outros crimes para os quais é prevista a mesma pena do caput. Tal dispositivo pune:

I - quem pratica conjunção carnal ou outro ato libidinoso com alguém menor de 18 (dezoito) e maior de 14 (catorze) anos na situação descrita no caput deste artigo (de prostituição ou exploração sexual).

O dispositivo pune quem faz programa com prostituta menor de idade, desde que tenha mais de quatorze anos, pois, se tiver menos, o crime será o de estupro de vulnerável, que tem pena muito maior.

II - o proprietário, o gerente ou o responsável pelo local em que se verifiquem as práticas referidas no caput deste artigo.

O legislador criou uma espécie de figura qualificada do crime de casa de prostituição. Assim, o dono, ou responsável pelo local onde haja prostituição ou exploração sexual de pessoa com idade entre quatorze ou dezoito anos, ou com enfermidade mental, incorre no crime em análise, para o qual a pena é maior em relação àqueles que mantêm lupanar apenas com prostitutas maiores de idade. Pressupõe, contudo, que o agente tenha conhecimento de que há prostitutas menores de idade trabalhando no local.

O § 3º do art. 218-B, estabelece que constitui efeito obrigatório da condenação a cassação da licença de localização e de funcionamento do estabelecimento penal.

Ação Penal: É pública incondicionada.

Segredo de Justiça: Nos termos do art. 234-B do Código Penal, os processos que apuram esta modalidade de infração penal correm em segredo de justiça.

Crimes contra a Administração Pública: Peculato, Corrupção Passiva, Concussão, Prevaricação, Desobediência, Resistência, Desacato, Corrupção Ativa, Falso Testemunho e Condescendência Criminosa.

03 h/a

DOS CRIMES CONTRA A ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA

PECULATO DOLOSO Peculato-apropriação: art. 312, caput, primeira parte. Pena reclusão, de dois a doze anos e

multa.

Peculato-desvio: art. 312, caput, segunda parte. Peculato-furto: art. 312, § 1.º. Peculato mediante erro de outrem, também conhecido como peculato-estelionato: art. 313. Peculato eletrônico - “pirata de dados”: art. 313 – A Peculato eletrônico - “hacker”: art. 313 - B

Considerações Gerais Sobre Todos os Tipos de Peculato Objetividade jurídica

Visa-se proteger a probidade administrativa (patrimônio público).

Sujeito ativo

Sujeito ativo é o funcionário público.

Sujeito passivo

Sujeito passivo é o Estado, visto como Administração Pública. Pode existir um sujeito

passivo secundário (particular).

PECULATO

Art. 312 Apropriar-se o funcionário público de dinheiro, valor ou qualquer outro bem móvel, público ou particular, de que tem a posse em razão do cargo, ou desviá-lo, em proveito próprio ou alheio:

Pena reclusão, de 2 (dois) a 12 (doze) anos, e multa.

PECULATO-APROPRIAÇÃO, 1ª Parte do caput do artigo 312 do CP.

  • - apropriar-se;

  • - funcionário público;

  • - dinheiro, valor, bem móvel, público ou privado;

  • - posse em razão do cargo;

  • - proveito próprio ou alheio.

Elementos objetivos do tipo

O núcleo é apropriar-se, ou seja, fazer sua a coisa de outra pessoa, invertendo o ânimo de dono sobre o objeto. O funcionário tem a posse do bem, mas passa a atuar como se fosse dono. O agente altera a sua intenção em relação à coisa. O fundamento é a posse lícita anterior. No caso de posse em razão do cargo: na verdade, a posse está com a Administração. O bem tem de estar sob custódia da Administração. Exemplo: um automóvel apreendido na rua, vai para o pátio da Delegacia. Um policial militar subtrai o toca-fitas. Ele praticou peculato-furto, pois não tinha a posse do bem. Se o funcionário fosse o responsável pelo bem, seria caso de peculato-apropriação. Se o carro estivesse na rua, seria furto. Exemplo: em uma repartição pública, um funcionário furta a carteira de outro é crime de furto. Se um funcionário de uma repartição entra em outra repartição e dali subtrai um bem, é crime de peculato-furto. No peculato-apropriação e no peculato mediante erro de outrem há apropriação, ou seja, a posse é anterior; a diferença está no erro de outrem.

Objeto material

Dinheiro, valor ou bem móvel. Tudo que for imóvel não é admitido no peculato. O crime

que admite imóvel é o estelionato. Bem móvel, no Direito Penal, possui um conceito mais amplo do que no Direito Civil, pois é tudo aquilo que se pode transportar. Valor é qualquer coisa que tenha valor econômico. P.: Um funcionário público usar outros funcionários subordinados para prestação de serviço particular configura peculato? R.: Não. Funcionário não é valor, dinheiro, nem bem móvel. Está fora do objeto material. Pode ser improbidade administrativa (enriquecimento ilícito).

Consumação A consumação do peculato-apropriação se dá no momento em que ocorreu a apropriação:

Quando o agente inverteu o “animus”, quando passou a agir como se fosse dono. Tentativa

Teoricamente é possível, mas na prática é difícil comprovar. P: O síndico pratica crime de peculato-apropriação? R.: Não, seu crime é o de apropriação indébita, pois ele não é funcionário público. O mesmo

se diz em relação ao inventariante e ao depositário judicial.

PECULATO-DESVIO

Art. 312, caput, 2ª parte - de dois a doze anos, e multa.

...

ou desviá-lo, em proveito próprio ou alheio: pena reclusão,

Desviar é alterar o destino. O funcionário público emprega o objeto de que tem posse em um fim diverso de sua destinação original, com o intuito de beneficiar-se ou beneficiar terceiro. O desvio deve ser em proveito próprio ou de terceiros, porque se for em proveito da própria administração haverá o crime do art. 315 do CP (Emprego irregular de verbas ou rendas públicas). É também pressuposto que o funcionário público tenha a posse lícita do bem e que, depois disso, o desvie. Consumação: no momento do desvio. Tentativa: é possível.

PECULATO-FURTO

Artigo 312, § 1º, do Código Penal. § 1º - Aplica-se a mesma pena, se o funcionário público, embora não tendo a posse do

dinheiro, valor ou bem, o subtrai ou concorre para que seja subtraído, em proveito próprio ou alheio, valendo-se de facilidade que lhe proporciona a qualidade de funcionário. Nesse caso é aplicada à mesma pena. A conduta é subtrair, ou seja, tirar da esfera de proteção da vítima, de sua disponibilidade. Uma outra conduta possível é a de concorrer dolosamente. Não basta ser funcionário público; ele precisa se valer da facilidade que essa qualidade lhe proporciona (a execução do crime é mais fácil para ele). Por facilidade, entende-se crachá, segredo de cofre, etc. Um funcionário público pode praticar furto ou peculato-furto, dependendo se houve, ou não, a facilidade.

Consumação e tentativa

O crime consuma-se com a efetiva retirada da coisa da esfera de vigilância da vítima.

A tentativa é possível.

PECULATO CULPOSO Artigo 312, § 2º, do Código Penal. § 2º - Se o funcionário concorre culposamente para o crime de outrem:

Pena detenção, de três meses a um ano.

São requisitos do crime de peculato culposo: a conduta culposa do funcionário público e que terceiro pratique um crime doloso, aproveitando-se da facilidade provocada por aquela conduta. A jurisprudência majoritária diz que a expressão crime de outrem abrange todos os crimes patrimoniais cuja vítima seja a Administração Pública.

P.: Se a conduta culposa do funcionário causou dano à Administração Pública, pode-se falar em peculato culposo? R.: Não, pois não há crime de outrem. Não basta haver dano; deve existir crime de outrem.

Consumação e tentativa

Peculato culposo é crime independente do crime de outrem, mas estará consumado quando se consumar o crime de outrem. Não há tentativa de peculato culposo, pois não existe tentativa de crime culposo.

Reparação de danos no peculato culposo

Artigo 312, § 3º, do Código Penal. É a devolução do objeto ou o ressarcimento do dano. É preciso ficar atento para as seguintes

regras:

Se a reparação do dano for anterior à sentença irrecorrível (antes do trânsito em julgado primeira ou segunda instância), extingue a punibilidade. Se a reparação do dano for posterior à sentença irrecorrível (depois do trânsito em julgado), ocorre a diminuição da pena, pela metade. Atenção: no peculato doloso não se aplicam essas regras.

P.: Qual o efeito da reparação do dano no peculato doloso? R.: Para qualquer crime doloso os efeitos são os seguintes:

Arrependimento posterior (art. 16 do CP) se for anterior ao recebimento da denúncia, redução da pena de 1/3 a 2/3.

Se ocorrer depois do recebimento da denúncia, é atenuante genérica do art. 65, inc. III, “b”,

do Código Penal. Se depois da sentença, é atenuante inominada do art. 66. O acórdão pode reconhecer atenuante que a sentença não reconheceu.

PECULATO MEDIANTE ERRO DE OUTREM Art. “313 - Apropriar-se de dinheiro ou qualquer utilidade que, no exercício do cargo, recebeu por erro de outrem”. Pena reclusão, de um a quatro anos, e multa.

O peculato mediante erro de outrem é erroneamente chamado peculato-estelionato. Não é um estelionato, pois o erro da vítima não é provocado pelo agente. O núcleo do tipo é apropriar-se (para tanto, é preciso posse lícita anterior). Na verdade, é um peculato-apropriação. O núcleo do estelionato é obter. O erro de outrem tem de ser espontâneo; e o recebimento, por parte do funcionário, de boa-fé. Não há fraude. Exemplo: pessoa deve dinheiro para a Prefeitura, erra a conta e paga a mais. O funcionário recebe o dinheiro sem perceber o erro. Depois, ao perceber o erro, apropria-se do excedente trata-

se de peculato mediante erro de outrem. Exemplo: pessoa paga duas vezes ou em lugar errado. O funcionário recebe de boa-fé. Depois percebe o erro e, em vez de devolver o dinheiro ou encaminhar a questão para que a falha seja sanada, apropria-se da importância. O funcionário se apropriou de algo que já estava com a Administração Pública.

P.: É possível concurso de agentes no peculato mediante erro de outrem? R.: Sim. O núcleo é apropriar-se, e não receber. Exemplo: funcionário descobre que “A” pagou R$ 10.000,00 a mais e procura o chefe para informá-lo; esse lhe diz para cada um ficar com R$ 5.000,00.

Observação: particular pode ser partícipe.

Trata-se de crime cuja objetividade jurídica (bem jurídico tutelado) é a Administração Pública e o sujeito ativo, necessariamente, o funcionário público. Sujeitos passivos são o Estado e a pessoa lesada pela conduta. O elemento subjetivo do tipo é o dolo. Além disso, exige-se que o agente tenha ciência de que o bem lhe foi entregue por erro.

Elemento subjetivo

O elemento subjetivo é o dolo de se apropriar.

Consumação

O crime consuma-se no momento da apropriação, ou seja, no momento em que o agente

passa a agir como se fosse dono. Tentativa: A tentativa é possível.

CONCUSSÃO

Art. 316 - Exigir,

para si

ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da

função, ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida:

Pena reclusão, de 2 (dois) a 8 (oito) anos, e multa.

O crime de concussão é diferente do crime de corrupção passiva. A diferença está no núcleo

do tipo.

A concussão tem por conduta exigir; é um “querer imperativo”, que traz consigo uma ameaça, ainda que implícita. A corrupção passiva tem por conduta solicitar, receber, aceitar promessa. Exigir significa coagir, obrigar. A ameaça pode ser implícita ou explícita e, ainda assim, será concussão. O agente pode exigir direta ou indiretamente por meio de terceiro, ou por outro meio qualquer, como, por exemplo, ameaça velada.

Objetividade Jurídica: Proteger a probidade administrativa.

Sujeito Ativo: O sujeito ativo é o funcionário público. O particular pode praticar o crime em concurso com o funcionário.

Sujeito Passivo

O sujeito passivo é o Estado (a Administração Pública). O particular pode ser sujeito passivo secundário.

Elementos Objetivos do Tipo

Exigir em razão da função: deve existir nexo causal entre a exigência e a função.

P.: Se alguém se faz passar por fiscal ou policial e exige dinheiro, que crime comete? R.: Pode ser o crime de extorsão, mas não é caso de concussão, porque ele não tem função.

Em razão da função não significa no exercício da função. São coisas diferentes. A pessoa pode estar em férias, de folga, ou ainda não ter assumido a função.

O funcionário pode exercer a função e o crime não ser concussão. Exemplos: ameaçar e pedir o relógio, exigir dinheiro para não mostrar fotos comprometedoras.

A vantagem deve ser indevida, pois se a vantagem for devida configura o crime de abuso de autoridade, em razão da ameaça feita, conforme disposição do artigo 4º, alínea h, da Lei nº

4.898/65.

P.: A vantagem da concussão tem de ser patrimonial ou também pode ser moral? R.: Prevalece o entendimento de que deve ser patrimonial. Há quem diga que pode ser moral (prestígio, posição de destaque, sexual, etc.).

Consumação e Tentativa

A consumação ocorre no momento em que a exigência chega ao conhecimento da vítima, pois o crime de concussão é formal. A concussão não depende da obtenção da vantagem para a sua consumação; basta a exigência. Se o funcionário obtiver a vantagem será mero exaurimento. A tentativa é possível. Exemplo: quando a exigência for por escrito. Não é possível a tentativa na conduta verbal.

Se

a

vítima

avisar a

polícia do dia, hora

e

local em

que vai

entregar o dinheiro

exigido, o crime já estava consumado desde o momento da exigência.

P.: Neste caso é flagrante? R.: Há duas posições a respeito:

Não há flagrante porque o crime se consumou no momento da exigência. Exigência é uma conduta instantânea. A posição majoritária sinaliza no sentido de que há flagrante, pois o crime é instantâneo, mas de efeitos permanentes, podendo ser enquadrado no “logo após”. Há um segundo argumento ainda, de que a exigência pode ser vista como uma conduta permanente, pois se prolonga no tempo.

Atenção: se o crime for praticado por policial militar estará configurado o crime do artigo 305 do CPM, que é igualmente chamado de concussão.

CORRUPÇÃO PASSIVA

CORRUPÇÃO PASSIVA Art. 317. ou ou para outrem, Solicitar receber , para si direta ou indiretamente,

Art.

317.

ou ou para outrem,

Solicitar

receber, para si

direta ou indiretamente, ainda que fora da função, ou, antes de assumi- la, mas em razão dela, vantagem indevida, ou aceitar promessa de tal vantagem:

Pena reclusão, de 2 (dois) a 12 (doze) anos, e multa. § 1º - A pena é aumentada de

um terço, se, em conseqüência da vantagem ou promessa, o funcionário retarda ou deixa de praticar qualquer ato de ofício ou o pratica infringindo dever funcional. Na corrupção passiva não há ameaça, nem constrangimento.

Elementos Objetivos do Tipo

Solicitar, pedir. Quem pede não constrange, não ameaça, simplesmente pede. A atitude de solicitar é iniciativa do funcionário público. Receber, entrar na posse. É preciso o indício de que a pessoa entrou na posse efetivamente. Aceitar promessa, concordar com a proposta. Pode ser por silêncio, gesto, palavra. A iniciativa é de um terceiro que faz a proposta. Alguém propõe e o funcionário aceita.

A lei se refere à “vantagem indevida em razão do cargo”. Assim, na corrupção passiva a vantagem deve ser indevida porque tem a finalidade de fazer com que o funcionário público beneficie alguém em seu trabalho por meio de ações ou omissões. Ocorre uma espécie de troca entre a vantagem indevida visada pelo agente público e a ação ou omissão funcional que beneficiará o terceiro. Exemplo: Agente público que recebe dinheiro para não multar alguém que cometeu uma infração de trânsito. Normalmente a vantagem indevida tem a finalidade de fazer com que o funcionário público pratique ato ilegal ou deixe de praticar, de forma ilegal ou irregular, ato que deveria praticar de ofício.

P.: Sempre que houver corrupção passiva irá existir o crime de corrupção ativa? R.: Não. Na conduta de solicitar, quando, por exemplo, o funcionário pede e o particular não dá, só ocorre corrupção passiva. Observação: se o funcionário pede e a pessoa coloca a mão dentro do bolso e entrega, não é caso de corrupção ativa, pois não existe tipificação para entregar, só para prometer, oferecer. Só há corrupção passiva nesse caso.

Na modalidade solicitar, onde a iniciativa é do funcionário público, não há crime de corrupção ativa, somente de corrupção passiva. Nas modalidades de receber e aceitar promessa ocorre corrupção ativa na outra ponta, pois a iniciativa foi de terceiro. Vantagem indevida na corrupção passiva é para que o funcionário faça alguma coisa, deixe de fazer, ou então retarde.

P.: Se a vantagem indevida for para o funcionário praticar um ato de ofício, há corrupção passiva? R.: Sim. O que importa é a vantagem indevida como motivo. Tanto faz se o ato é de ofício ou não; importa é que a vantagem seja indevida. Ex.: seguradora oferece dinheiro para os policiais que encontrarem determinados carros. Há crime de corrupção passiva, pois eles já ganham para fazer isso. Observação: recompensa genérica não é crime. A gratificação em agradecimento, ou em época festiva, se for de pequeno valor ou genérica, não configura crime. É um costume, e o costume afasta o dolo de corrupção.

Consumação e Tentativa

A consumação ocorre quando houver a solicitação, o recebimento ou a aceitação da vantagem. A consumação não depende da prática ou da omissão de ato por parte do funcionário. O recebimento da vantagem só é importante para a modalidade receber. É crime formal, pois não tem nenhum resultado naturalístico. O exaurimento é causa de

aumento de pena (+ 1/3). A tentativa é possível na solicitação por escrito.

Distinção

  • a) Dar dinheiro para testemunha ou perito mentir em processo: a testemunha e o perito

respondem pelo delito do artigo 342, § 2º, do CP (Falso testemunho ou falsa perícia).

Aquele que deu

o dinheiro responde pelo

crime do artigo 343 (Corrupção

ativa de

testemunha ou perito). Porém, se o perito é oficial (funcionário público), há corrupção ativa e passiva.

  • b) O artigo 299 da Lei nº 4.737/65 (Código Eleitoral) prevê crimes idênticos à corrupção

passiva e ativa, mas praticados com a intenção de conseguir voto, ainda que o agente não obtenha

sucesso.

  • c) Se o crime for praticado por policial militar, estará configurado o crime de corrupção

passiva militar, descrito no artigo 308 do CPM.

CORRUPÇÃO PASSIVA PRIVILEGIADA § 2º - Se o funcionário pratica, deixa de praticar ou retarda ato de ofício, com infração de dever funcional, cedendo a pedido ou influência de outrem:

Pena - detenção, de três meses a um ano, ou multa.

A corrupção passiva privilegiada ocorre com pedido ou influência de outrem. Esse parágrafo deveria ser crime autônomo, porque traz elementos muito diferentes da corrupção. Corrupção privilegiada é um crime material praticar, deixar de praticar. Aqui o funcionário público não visa vantagem indevida. Nesta hipótese, ele pratica, retarda ou deixa de praticar ato com infração de dever funcional cedendo a pedido ou influência de terceiro. Na corrupção passiva o móvel todo é a vantagem indevida; na corrupção privilegiada o sujeito aceita o pedido.

PREVARICAÇÃO

Art. 319 - Retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato de ofício, ou praticá-lo contra disposição expressa de lei, para satisfazer interesse ou sentimento pessoal:

Pena detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, e multa. A satisfação do interesse ou sentimento pessoal é o que diferencia a prevaricação da concussão e da corrupção. Trata-se de um elemento subjetivo do tipo. Se for caso de vantagem indevida, o crime é o de concussão ou corrupção passiva. Se for

caso de sentimento pessoal, o crime é o de prevaricação. A prevaricação é crime subsidiário a vantagem indevida pode caber na prevaricação. Aqui deve se entender sentimento pessoal como sentimentos de amor, ódio, raiva, vingança, amizade, inimizade, etc.

Observações:

1) Na corrupção passiva, o funcionário público negocia seus atos, visando uma vantagem indevida. Na prevaricação isso não ocorre. Aqui, o funcionário público viola sua função para

atender a objetivos pessoais.

2) O agente deve atuar para satisfazer:

  • a) interesse patrimonial (desde que não haja recebimento de vantagem indevida, hipótese em

que haveria corrupção passiva) ou moral;

  • b) sentimento pessoal, que diz respeito à afetividade do agente em relação a pessoas ou fatos.

Exemplo: Permitir que amigos pesquem em local público proibido. Demorar para expedir documento solicitado por um inimigo. O sentimento, aqui, é do agente, mas o benefício pode ser do

terceiro.

P.: Interesse ou sentimento: pode ser beneficiada terceira pessoa?

R.: Sim. Pode ser um interesse pessoal e ajudar terceiro. O benefício, na prevaricação, pode ser de terceira pessoa.

P.: A preguiça ou o desleixo podem ser enquadrados na prevaricação? R.: A mera preguiça não configura prevaricação.

Elementos Objetivos do Tipo

São elementos objetivos do tipo: retardar; deixar de praticar; praticar. As condutas retardar e deixar de praticar são condutas omissivas (omissão própria). Praticar é conduta comissiva. A diferença entre retardar e deixar de praticar é que esse último tem um tom de definitividade. Retardar é protelar, demorar. Ato de ofício é aquele ato que está inserido na esfera de atribuições ou de compromissos do agente.

Elementos Normativos

Os elementos normativos dependem de juízo

de valor,

ou seja,

retardar ou deixar de

praticar indevidamente, e praticar, contra disposição expressa de lei.

Consumação e Tentativa

Consumação: nas condutas omissivas, quando o agente retarda ou deixa de praticar o que deveria. Na conduta de praticar, quando atua. Nos crimes omissivos próprios não é possível a tentativa. Na conduta de praticar, a tentativa é admissível.

DESOBEDIÊNCIA

Art. 330 do CP - Desobedecer a ordem legal de funcionário público. Pena detenção, de 15 (quinze) dias a 6 (seis) meses, e multa

Objetividade Jurídica

A Administração Pública, seu prestígio, sua autoridade.

Sujeito Ativo

Qualquer pessoa. P.: Funcionário público, no exercício da função, pratica desobediência? R.: Há duas posições:

A majoritária afirma que o funcionário público no exercício da função pratica prevaricação e não desobediência, pois, nesse caso, há crime próprio. Ex.: juiz dá ordem ao escrivão e este não a cumpre pratica o crime de prevaricação. A minoritária sustenta que o funcionário público, no exercício da função, pratica o crime de desobediência ao não atender a ordem de outro funcionário público.

Sujeito Passivo

O Estado e, de forma secundária, o funcionário público que emitiu a ordem desobedecida.

Elementos Objetivos do Tipo

Desobedecer: não cumprir, não atender. Ordem legal: ordem é um mandamento, uma determinação, e não um pedido ou uma solicitação. Deve ser legal - material e formalmente (pode até não ser justa). Funcionário público: deve ser competente para proferir a ordem. Para que o crime se configure, é necessário que o destinatário tenha o dever jurídico de cumprir a ordem. Obs.: não há crime se a recusa ocorre por motivo de força maior.

Consumação

O crime de desobediência consuma-se com a realização da conduta, que pode ser omissiva

ou comissiva.

Tentativa

Em regra, a tentativa é admitida apenas quando a conduta é comissiva. A jurisprudência tem entendido que quando um fato que poderia caracterizar crime de desobediência tem sanção civil ou administrativa e essa não estabelece cumulação com pena criminal ele não é considerado crime. Obs.: recusar-se ao teste do bafômetro não configura crime.

Sujeito Ativo Qualquer pessoa. P.: Funcionário público, no exercício da função, pratica desobediência? R.: Há duas

Sujeito Ativo

DESACATO

Art. 331

do

CP

-

Desacatar

funcionário público no exercício da função ou em razão dela:

Pena detenção, de 6 (seis) meses a

2 (dois) anos, ou multa.

Objetividade Jurídica

Resguardar

a

Administração

Pública, sua autoridade, seu prestígio.

Qualquer pessoa. Para a existência do crime de desacato, a lei prevê duas hipóteses:

  • a) que a ofensa seja feita contra funcionário público que esteja no exercício de suas funções,

ou seja, que esteja trabalhando (dentro ou fora da repartição) no momento em que é ofendido;

  • b) que seja feita contra funcionário público que está de folga, desde que a ofensa se refira às

suas funções.

O desacato pressupõe que a ofensa seja feita na presença do funcionário, pois somente assim ficará tipificada a intenção de desprestigiar a função. A ofensa feita contra funcionário público em razão de suas funções, mas feita em sua ausência, caracteriza crime de injúria “qualificada” (artigo 140 c/c artigo 141, II, do CP). Por isso, não há desacato se a ofensa é feita, por exemplo, por carta.

Exemplos de condutas típicas:

Xingar o policial que está multando; fazer sinais ofensivos; rasgar mandado de intimação entregue pelo oficial de justiça e atirá-lo ao chão; passar a mão no rosto do policial; atirar seu quepe no chão, guspir em sua farda, etc.

P.: O funcionário público, no exercício da função, pode praticar desacato? Como, por exemplo, juiz ofender escrivão. R.: Segundo a doutrina dominante sim, pois nenhuma função pública autoriza ofender; a ofensa não faz parte do exercício funcional. Quando o funcionário público ofende, não age como funcionário público, mas sim como um particular.

P.: O advogado, no exercício funcional, pode praticar o crime de desacato? R.: Sim. A Constituição Federal confere imunidade ao advogado nos crimes contra a honra (art. 133 da CF). O Estatuto da Ordem dos Advogados do Brasil ampliou essa imunidade incluindo o desacato, que é um crime contra a Administração Pública; mas o Supremo Tribunal Federal julgou inconstitucional essa ampliação.

Sujeito Passivo

O sujeito passivo é o Estado e, secundariamente, o funcionário público ofendido. Se três funcionários forem desacatados no mesmo contexto há apenas um crime (segundo a

doutrina majoritária, tratando-se de crime contra a honra, seriam três crimes).

Elementos Objetivos do Tipo

Desacatar: ofender, humilhar, desprestigiar. O desacato pode ser praticado de qualquer forma (palavras, gestos), exceto por carta, pois é exigida a presença do funcionário. A carta pressupõe ausência. Por carta pode existir crime contra a honra. O crime deve atingir a função que ele exerce e não sua pessoa. Estar presente não significa estar cara a cara, mas sim que o funcionário tem que perceber a conduta. Diferença entre desacato e injúria qualificada:

Funcionário presente: desacato; Funcionário ausente: injúria qualificada.

Se o funcionário não se sentir ofendido, ainda assim haverá crime. O sujeito passivo é a Administração.

P.: O funcionário pode ser desacatado estando de férias? Ou no fim de semana? R.: Sim. O tipo refere-se a funcionário público no exercício funcional ou em razão da função. Nesse caso existe o crime, pois a ofensa decorrente é em razão das suas funções. Obs.: dizer que todo funcionário público é vagabundo não é desacato por ser uma afirmação genérica.

Consumação

O crime consuma-se no momento da ofensa, da conduta.

Tentativa

Não é possível, pois para que o delito se configure é necessária a presença da vítima.

Elemento Subjetivo do Tipo

Intenção de ofender, atingir a função. A jurisprudência majoritária exige o ânimo calmo e refletido para que ocorra o desacato.

Tentativa Não é possível, pois para que o delito se configure é necessária a presença da

RESISTÊNCIA

Art. 329 - Opor-se à execução

de ato legal, mediante

violência ou

ameaça a funcionário competente para

executá-lo ou

a

quem

lhe esteja

prestando auxílio:

Pena detenção, de 2 (dois) meses a 2 (dois) anos.

Objetividade Jurídica

A autoridade e Administração Pública.

o prestígio da

Sujeito Ativo

O sujeito ativo é qualquer pessoa, até mesmo funcionário público, pois, no momento em que resiste, ele deixa de ser funcionário público, uma vez que nenhuma função é exercida com violência ou grave ameaça. P.: Um policial prende alguém, e um amigo deste investe contra o policial para tentar impedir a prisão. Esse terceiro pratica crime de resistência? R.: Sim, pois o tipo não exige que aquele que vai sofrer o ato é que pratique a resistência.

Sujeito Passivo

 

O Estado

é

o

sujeito

passivo primário e o funcionário competente ou quem lhe esteja

prestando auxílio é o sujeito passivo secundário. O funcionário tem de ser competente, ou seja, ter entre suas atribuições a atribuição de praticar o ato. P.: Se dois policiais vão prender alguém e são recebidos a tiro, quantos crimes de resistência foram praticados? R.: Apenas um crime, pois a oposição à execução do ato é um crime só, não importando o número de funcionários.

Elementos Objetivos do Tipo

Conduta: opor-se, servir de oposição, de obstáculo. A oposição tem de ser com violência ou com ameaça. O tipo não exige grave ameaça; basta a ameaça, ou seja, a promessa de mal. Resistência passiva não é crime de resistência, porque não há violência e nem grave ameaça. Exemplos: deitar-se no chão para não ser preso, segurar-se em um poste, fugir correndo. A resistência deve servir para impedir o ato. Se o mesmo já foi praticado, não se pode falar em resistência, podendo esta ocorrer, no máximo, contemporânea ao ato.

Ato legal: o ato a ser cumprido deve ser legal quanto ao conteúdo e à forma. Se o ato for ilegal não se pode falar em crime de resistência.

P.: Se o ato for injusto, há resistência? R.: Sim. Não é possível discutir se é justo ou injusto; apenas é preciso observar se o ato é legal ou não.

Elemento Subjetivo do Tipo

Dolo, intenção de opor-se à execução do ato, com violência ou ameaça. Além do dolo,

deve haver a intenção de impedir o ato finalidade especial.

P.: A embriaguez afasta o crime de resistência? R.: A embriaguez não afasta o dolo. Alguns autores sustentam que a embriaguez afasta a intenção de impedir o ato, porque o bêbado não tem noção dessa finalidade especial. Na verdade somente a embriaguez completa, acidental, proveniente de caso fortuito ou de força maior pode excluir a culpabilidade do agente em relação a sua conduta típica, mas essa embriaguez com tais características deve ser comprovada por perícia.

Consumação

O crime de resistência consuma-se no momento em que a pessoa opõe-se, com violência ou ameaça. Trata-se, portanto, de crime formal caput. Se o agente consegue impedir o ato, ocorre exaurimento, que no crime em questão configura uma qualificadora, constante do § 1º (como este parágrafo exige o resultado, neste caso, o crime é material).

Concurso de Crimes

A lei determina o concurso da resistência com a violência (art. 329, § 2º, do CP).

Não há concurso com a ameaça, pois esta fica absorvida. O concurso é material. No caso de resistência e desacato, a resistência absorve o desacato. No caso de resistência e desobediência, a resistência absorve a desobediência. É pacífico que a resistência absorve as vias de fato.

CORRUPÇÃO ATIVA

P.: Se o ato for injusto, há resistência? R.: Sim. Não é possível discutir se é

Art.

333

-

Oferecer

ou

prometer vantagem indevida

a

funcionário público, para

determiná-lo a praticar, omitir ou retardar ato de ofício:

Pena

reclusão,

de

2

(dois) a 12 (doze) anos, e multa.

Parágrafo único: A pena é

aumentada de um terço,

se,

em

razão da vantagem ou promessa, o funcionário retarda ou omite ato de

ofício, ou o pratica infringindo dever funcional.

o

Esse crime configura um caso de exceção à teoria monista, segundo a qual todos os que contribuírem para um crime responderão por esse mesmo crime. Se o funcionário público solicita vantagem indevida e o particular não a entrega, configura- se o crime de corrupção passiva. Ainda que o particular entregue o que foi solicitado pelo

funcionário público, não haverá o crime em estudo, pois o tipo do artigo 333 refere-se apenas a oferecer ou prometer vantagem indevida. Nos casos de “o particular oferecer e o funcionário receber” ou “o particular prometer e o funcionário aceitar promessa”, há corrupção ativa e corrupção passiva. Se o particular oferecer vantagem indevida e o funcionário não aceitar, só há crime de corrupção ativa. No crime de corrupção ativa o particular tem a iniciativa de corromper o funcionário público.

Objetividade Jurídica: Proteger o prestígio da Administração Pública.

Sujeito Ativo: Qualquer pessoa. Um funcionário público pode corromper outro funcionário público.

Sujeito Passivo: O sujeito passivo é o Estado e a Administração Pública.

Elementos Objetivos do Tipo

Oferecer ou prometer:

Oferecer: é apresentar, propor alguma coisa para ser aceita.

Prometer: é obrigar-se a fazer ou não fazer alguma coisa. As condutas podem ser praticadas por qualquer modo (palavra, gesto, escrito, intermediário).

P.: Pedir para o funcionário “dar um jeitinho” configura o crime em questão? R.: Não, pois não há oferecimento nem promessa de vantagem indevida.

Vantagem indevida:

Se a vantagem for devida, haverá outro crime. Vantagem: pode ser qualquer uma, econômica, sexual, etc. A oferta deve ser feita à pessoa determinada ou pessoas determinadas (mais de um funcionário). Oferta genérica não constitui crime.

Ato de ofício:

Alguém pode oferecer dinheiro para que o funcionário realize suas funções; mesmo assim, haverá crime. A conduta do agente deve ser anterior à conduta do funcionário. Se o funcionário já praticou o ato, a pessoa não sabe e oferece dinheiro, não há o crime.

P.: O funcionário vai praticar um ato ilegal contra a pessoa e esta, para não sofrer o ato, oferece dinheiro para o funcionário. Ela pratica crime? R.: Não há crime. A pessoa está se defendendo da ilegalidade; ela não teve iniciativa, apenas se defendeu.

Elemento Subjetivo do Tipo

Dolo genérico: é a intenção de corromper, oferecer, prometer. Dolo específico: determinar o funcionário público a praticar, omitir ou retardar o ato de

ofício.

Consumação

Ocorre no momento do oferecimento, da promessa. Não importa se o funcionário irá fazer ou não. O crime é formal, não precisa do resultado para consumar-se. Caso o funcionário efetivamente pratique o ato, é mero exaurimento; mas, nesse caso, o exaurimento aumenta a pena em um terço (parágrafo único do art. 333 do CP).

Tentativa

A tentativa é possível apenas na forma escrita (ex.: carta que se extravia antes de chegar

ao conhecimento do funcionário)

FALSO TESTEMUNHO OU FALSA PERÍCIA

Art. 342. Fazer afirmação falsa, ou negar ou calar a verdade como testemunha, perito, contador, tradutor ou intérprete em processo judicial, ou administrativo, inquérito policial, ou em juízo arbitral:

Pena - reclusão, de um a três anos, e multa. § 1º - As penas aumentam-se de um sexto a um terço, se o crime é praticado mediante suborno ou se cometido com o fim de obter prova destinada a produzir efeito em processo penal, ou em processo civil em que for parte entidade da administração pública direta ou indireta. § 2º - O fato deixa de ser punível se, antes da sentença no processo em que ocorreu o ilícito, o agente se retrata ou declara a verdade.

Condutas típicas:

  • a) fazer afirmação falsa (conduta comissiva): significa afirmar inverdade;

  • b) negar a verdade (conduta comissiva): o sujeito nega o que sabe;

  • c) calar a verdade (conduta omissiva): silenciar a respeito do que sabe.

Observações:

1) Se a testemunha mente por estar sendo ameaça de morte ou de algum mal grave, não responde pelo falso testemunho. O autor da ameaça é que responde por crime de coação no curso do

processo (art. 344 do CP). 2) Para que ocorra o crime de falso testemunho a falsidade deve ser relativa a fato juridicamente relevante, ou seja, deve referir ao assunto discutido nos autos e que possa influir no resultado. Trata-se de crime formal, não sendo, portanto, necessário que o depoimento falso tenha influído na decisão. 3) Com relação ao falso, há duas teorias:

Objetiva: há crime quando o depoimento simplesmente não corresponde ao que aconteceu; Subjetiva: só há falso testemunho quando não há correspondência entre o depoimento e aquilo que a testemunha ou o perito percebeu, sentiu ou ouviu. Essa é a posição adotada pela doutrina e pela jurisprudência. Assim, só há crime quando o depoente tem consciência da divergência entre a sua versão e o fato presenciado.

Sujeito ativo: Trata-se de crime próprio, pois só pode ser cometido por testemunha, perito, tradutor ou interprete.

Sujeitos passivos: O Estado e, secundariamente, aquele a quem o falso possa prejudicar.

Elemento subjetivo: O dolo, ou seja, a vontade de deliberada de mentir, com plena consciência de que está faltando com a verdade. Não existe forma culposa. O engano e o esquecimento, portanto, não tipificam o crime.

Para que o falso caracterize crime, deve ser cometido em:

  • a) Processo judicial: abrange o processo civil, trabalhista, penal etc. Em se tratando de

depoimento falso em processo trabalhista, a é da Justiça Federal (Súmula 165 do STJ).

  • b) Inquérito policial: refere-se a inquérito policial comum ou militar.

  • c) Processo administrativo: falso cometido em procedimento que visa apurar faltas ou

transgressões disciplinares ou administrativas.

  • d) Em juízo arbitral: referido na Lei nº 9.307/96.

  • e) O crime de falso testemunho também existirá se o depoimento for prestado em inquérito

parlamentar (CPI), nos termos do art. 4º, II, da Lei n. 1.579/52.

Objeto jurídico: Busca-se por meio da tutela penal impedir que aquelas pessoas (testemunha, perito, contador, tradutor ou intérprete) prejudiquem a busca da verdade no processo judicial ou administrativo, inquérito policial ou em juízo arbitral, omitindo ou falseando-a, de forma a prejudicar a realização da justiça. Tutela-se, assim, a regularidade da Administração da Justiça.

Causas de aumento de pena: O § lº do art. 342 estabelece um aumento de pena de um sexto a um terço, em três hipóteses.

  • a) Se o crime for praticado mediante suborno. Nesse caso, a pessoa que deu, prometeu ou

ofereceu o dinheiro à testemunha ou perito incide no art. 343 do Código Penal.

  • b) Se o delito for cometido com o fim de obter prova destinada a produzir efeito em processo

penal. Assim, se o falso for cometido em inquérito policial ou em ação penal, a pena será maior.

  • c) Se o crime for praticado com o fim de obter prova destinada a produzir efeito em processo

civil em que for parte entidade da administração pública direta ou indireta.

Consumação: Quando se encerra o depoimento. A falsa perícia se consuma quando o laudo é entregue.

Tentativa: Há divergência a respeito. Damásio E. de Jesus entende que é possível, apesar de, na prática, ser de difícil ocorrência. Ex.: audiência interrompida.

Retratação: Art. 342, § 2º, do Código Penal o fato deixa de ser punível se, antes da sentença no processo em que ocorreu o ilícito, o agente se retrata ou declara a verdade. Observações:

1) Quanto à natureza jurídica, trata-se de causa extintiva da punibilidade, nos termos do art. 107, VI, do Código Penal. 2) Para que gere efeitos, a retratação deve ser completa. 3) A palavra "sentença" refere-se à sentença do processo em que foi feito o falso testemunho (processo originário) e não ao processo em que se apura tal crime. 4) Refere-se à sentença de primeira instância. Há, contudo, opinião no sentido de que seria possível até o trânsito em julgado. 5) No Tribunal do Júri a retratação é possível, de acordo com a posição majoritária, até a sentença do Juiz Presidente e não somente até a pronúncia. 6) De acordo com a posição majoritária a retratação se comunica às demais pessoas que

tenham concorrido para o crime, pois a lei diz que o “o fato deixa de ser punível”.

CONDESCENDÊCIA CRIMINOSA

Art. 320 - Deixar o funcionário, por indulgência, de responsabilizar subordinado que cometeu infração no exercício do cargo ou, quando lhe falte competência, não levar o fato ao conhecimento da autoridade competente:

Pena - detenção, de quinze dias a um mês, ou multa.

Conceito: A condescendência criminosa nada mais é do que uma forma mais branda do crime de prevaricação. O funcionário deixa de responsabilizar seu subordinado pelas faltas praticadas ou não comunica o fato à autoridade competente, em razão de seu espírito de tolerância, complacência. Daí o porquê do tratamento penal dispensado para o delito ser menos severo.

Trata-se de infração penal Administração Pública.

que visa preservar

as

normas e princípios que regem

a

Elementos do tipo

A lei incrimina duas condutas, ambas de caráter omissivo:

a) deixar o superior hierárquico de responsabilizar o funcionário autor da infração; b) deixar o superior hierárquico de levar o fato ao conhecimento da autoridade competente, quando lhe falte autoridade para punir.

Sujeito ativo e passivo

Percebe-se

que,

em

ambos

os

casos,

o

sujeito

ativo

é

o

superior

hierárquico,

não

respondendo pelo crime o funcionário beneficiado. Sujeito passivo é o Estado.

Elemento subjetivo

Deve-se ressaltar, mais uma vez, que o crime de condescendência criminosa pressupõe que o agente, ciente da infração do subordinado e por indulgência (clemência, tolerância), deixe de atuar. Se a intenção de não agir for outra, haverá crime de prevaricação ou corrupção passiva.

Consumação

O crime se consuma quando o superior toma conhecimento da infração e não promove de

imediato a responsabilização do infrator ou não comunica o fato à autoridade competente.

Tentativa

É inadmissível, pois se trata de crime omissivo puro.

ESTELIONATO

Trata-se de infração penal Administração Pública. que visa preservar as normas e princípios que regem a
Trata-se de infração penal Administração Pública. que visa preservar as normas e princípios que regem a

Art. 171 - Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento:

Pena - reclusão, de um a cinco anos, e multa. § 1º - Se o criminoso é primário, e é de pequeno valor o prejuízo, o juiz pode aplicar a pena conforme o disposto no art. 155, § 2º. § 2º - Nas mesmas penas incorre quem:

Disposição de coisa alheia como própria I - vende, permuta, dá em pagamento, em locação ou em garantia coisa alheia como própria; Alienação ou oneração fraudulenta de coisa própria

II - vende, permuta, dá em pagamento ou em garantia coisa própria inalienável, gravada de ônus ou litigiosa, ou imóvel que prometeu vender a terceiro, mediante pagamento em prestações, silenciando sobre qualquer dessas circunstâncias; Defraudação de penhor III - defrauda, mediante alienação não consentida pelo credor ou por outro modo, a garantia pignoratícia, quando tem a posse do objeto empenhado; Fraude na entrega de coisa IV - defrauda substância, qualidade ou quantidade de coisa que deve entregar a alguém; Fraude para recebimento de indenização ou valor de seguro V - destrói, total ou parcialmente, ou oculta coisa própria, ou lesa o próprio corpo ou a saúde, ou agrava as conseqüências da lesão ou doença, com o intuito de haver indenização ou valor de seguro; Fraude no pagamento por meio de cheque VI - emite cheque, sem suficiente provisão de fundos em poder do sacado, ou lhe frustra o pagamento. § 3º - A pena aumenta-se de um terço, se o crime é cometido em detrimento de entidade de direito público ou de instituto de economia popular, assistência social ou beneficência.

CONCEITO

O estelionato é um crime que se caracteriza pelo emprego de fraude, uma vez que o agente, valendo-se de alguma artimanha, consegue enganar a vítima e convencê-la a entregar-lhe algum pertence, e, na sequência, locupleta-se ilicitamente com tal objeto.

OBJETO JURÍDICO

Tutela-se a inviolabilidade do patrimônio. O dispositivo penal visa reprimir a fraude causadora de dano ao patrimônio do indivíduo.

ELEMENTOS DO TIPO Ação nuclear

Consiste em induzir ou manter alguém em erro, mediante o emprego de artifício, ardil, ou qualquer meio fraudulento, a fim de obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita em prejuízo alheio.

Trata-se de crime em que, em vez da violência ou grave ameaça, o agente emprega um estratagema para induzir em erro a vítima, levando-a a ter uma errônea percepção dos fatos, ou para mantê-la em erro, utilizando-se de manobras para impedir que ela perceba o equívoco em que labora.

Os meios empregados para tanto são:

  • a) Artifício: significa fraude no sentido material. Segundo Mirabete, "o artifício existe

quando o agente se utilizar de um aparato que modifica, ao menos aparentemente, o aspecto material da coisa, figurando entre esses meios o documento falso ou outra falsificação qualquer, o

disfarce, a modificação por aparelhos mecânicos ou elétricos, filmes, efeitos de luz etc."

  • b) Ardil: é fraude no sentido imaterial, intelectualizada, dirigindo-se à inteligência da vítima

e objetivando excitar nela uma paixão, emoção ou convicção pela criação de uma motivação

ilusória. Uma boa conversa, uma simulação de doença, sem nenhum outro disfarce ou aparato.

  • c) Qualquer outro meio fraudulento: embora compreenda o artifício e o ardil (o que toma a

distinção sem importância prática), constitui expressão genérica, a qual deve ser interpretada de acordo com os casos expressamente enumerados (interpretação analógica), de modo que, além das duas formas anteriores, alcança todos os outros comportamentos a elas equiparados. Idoneidade do meio fraudulento empregado. Seja qual for o meio empregado, só há estelionato quando existir aptidão para iludir o ofendido.

A aferição dessa potencialidade deve ser realizada segundo as características pessoais da vítima (sua maior ou menor experiência e capacidade de percepção) e as circunstâncias específicas do caso concreto. Desde que o meio fraudulento empregado pelo agente seja apto a burlar a boa-fé da vítima, pouco importa que a fraude seja grosseira ou inteligente, pois o mundo do estelionatário comporta gente de variada densidade intelectual. No entanto, quando totalmente inapta a iludir, mesmo o mais ingênuo dos mortais, o fato será atípico. Erro. Consiste na falsa percepção da realidade, provocando uma manifestação de vontade viciada. A situação na qual a vítima acredita não existe. Houvesse o conhecimento verdadeiro dos fatos, jamais teria ocorrido a vantagem patrimonial ao agente, que, para obtê-la, provoca ou mantém a vítima no erro (nesta última hipótese, o autor aproveita uma situação preexistente, um erro espontâneo anterior por ele não provocado, e emprega manobras fraudulentas para manter esse estado e assim obter a vantagem ilícita). Vantagem ilícita. É o objeto material do crime em tela. O agente emprega meio fraudulento capaz de iludir a vítima com a finalidade de obter vantagem ilícita em prejuízo alheio. Deve a vantagem ser econômica, pois se trata de crime patrimonial. Deve também ser ilícita, ou seja, não corresponder a qualquer direito. Se for lícita, haverá o crime de exercício arbitrário das próprias razões. Cumpre ressalvar que se o agente obtém a vantagem ilícita em prejuízo alheio, afasta-se qualquer indagação relativa à idoneidade do meio fraudulento empregado. Tal questionamento somente é cabível na tentativa. Prejuízo alheio. É o dano de natureza patrimonial. Concomitantemente à obtenção da vantagem ilícita pelo agente, deve ocorrer prejuízo para a vítima, ou seja, uma perda patrimonial. Temos, portanto, quatro momentos no crime de estelionato: 1º) o do emprego da fraude pelo agente; 2º) o do erro em que incidiu a vítima; 3º) o da vantagem ilícita obtida pelo agente; 4º) o do prejuízo sofrido pela vítima.

SUJEITO ATIVO

Trata-se de crime comum, que pode ser praticado por qualquer pessoa. Nada impede a coautoria ou participação. Vejamos duas hipóteses:

1ª) Um dos agentes induz ou mantém a vítima em erro mediante o emprego de fraude. O outro, de comum acordo, apodera-se do bem, produto do estelionato, ou seja, obtém a vantagem ilícita. Ambos são coautores do crime de estelionato. Da mesma forma, pratica estelionato não só aquele que preenche e assina cheque pertencente a outro titular da conta, mas todos os que, em coautoria, mediante esse meio fraudulento, obtêm vantagens ilícitas, adquirindo mercadorias, usufruindo-as, e recebendo troco, mantendo, assim, em erro os fornecedores, que vêm a sofrer prejuízos. 2ª) O agente induz ou mantém a vítima em erro, mediante o emprego de fraude, com a intenção de obter vantagem ilícita que beneficiará terceiro. Se esse beneficiário induziu ou instigou o agente a praticar o crime, responderá como partícipe do crime de estelionato. Se ele tomou conhecimento da origem criminosa do bem no momento em que recebeu o objeto, responderá por receptação dolosa. Se, contudo, não tinha qualquer conhecimento da origem criminosa do bem, não responderá por qualquer crime.

SUJEITO PASSIVO

É a pessoa enganada, ou seja, aquela que sofre o prejuízo, porém pode o sujeito passivo, que sofre a lesão patrimonial, ser diverso da pessoa enganada. A pessoa deve ser determinada. O número indeterminado de pessoas caracteriza, além do estelionato contra as vítimas específicas, crime contra a economia popular em concurso formal. Por exemplo: balança viciada de um açougue. O enganado terá de ter capacidade para ser iludido, pois, se for louco ou menor, incorrerá o agente no crime de abuso de incapazes (art. 173) ou no crime de furto (art. 155).

MOMENTO CONSUMATIVO

Trata-se de crime material. Consuma-se com a obtenção da vantagem ilícita indevida, em prejuízo alheio, ou seja, quando o agente aufere o proveito econômico, causando dano à vítima. Via de regra, esses resultados ocorrem simultaneamente. Há, assim, ao mesmo tempo, a obtenção de proveito pelo estelionatário e o prejuízo da vítima.

ELEMENTO SUBJETIVO

É o dolo, consubstanciado na vontade livre e consciente de realizar a conduta fraudulenta em prejuízo alheio. É necessário, contudo, um fim especial de agir, consistente na vontade de obter a vantagem ilícita para si ou para outrem. Ressalte-se que deve o agente ter consciência de que a vantagem almejada é ilícita; do contrário, poderá ele responder pelo crime de exercício arbitrário das próprias razões.

FORMAS

Simples: Está prevista no caput (pena reclusão, de 1 a 5 anos, e multa).

Privilegiada: Está prevista

no

§

1º. Se o criminoso

é primário,

e

é de pequeno

valor o

prejuízo, o juiz pode aplicar a pena conforme o disposto no art. 155, § 2º.

Equiparadas: Estão previstas no artigo 171, § 2º, I a VI, todos do CP. A pena é a mesma da figura penal prevista no caput.

DISPOSIÇÃO DE COISA ALHEIA COMO PRÓPRIA

§ 2º - Nas mesmas penas incorre quem:

Disposição de coisa alheia como própria I - vende, permuta, dá em pagamento, em locação ou em garantia coisa alheia como própria;

Nesse dispositivo do inciso I, o agente passa por dono de um certo bem (móvel ou imóvel) e

o negocia com terceiro de boa-fé, sem possuir autorização para tanto, causando, assim, prejuízo para essa pessoa. O crime consuma-se com o recebimento do preço, mesmo que não tenha havido a tradição, no caso dos bens móveis, ou a transcrição dos imóveis. No caso da locação, a consumação ocorre com o recebimento do valor do aluguel. A tentativa é possível.

Alienação ou oneração fraudulenta de coisa própria II - vende, permuta, dá em pagamento ou em garantia coisa própria inalienável, gravada de ônus ou litigiosa, ou imóvel que prometeu vender a terceiro, mediante pagamento em prestações, silenciando sobre qualquer dessas circunstâncias;

Coisa inalienável é aquela que não pode ser vendida em razão de determinação legal, convenção (doação com cláusula de inalienabilidade, p. ex.) ou testamento. Coisa gravada de ônus é aquela sobre a qual pesa um direito real em decorrência de cláusula contratual ou disposição legal (art. 1.225 do novo Código Civil). É o caso da hipoteca, por exemplo. Coisa litigiosa, por sua vez, é aquela objeto de discussão judicial (usucapião contestado, reivindicação, etc.) Há, por fim, crime na alienação ou oneração de imóvel que o agente prometeu vender a terceiro mediante pagamento de prestações. Veja-se que, nessa hipótese, o objeto material tem que ser coisa imóvel ao contrário das anteriores, em que pode ser bem móvel ou imóvel. Saliente-se, ainda, que a alienação ou a oneração dos bens, em si, não constituem crime. O ilícito penal consiste em silenciar a respeito das circunstâncias a que a lei se refere.

Defraudação de penhor III - defrauda, mediante alienação não consentida pelo credor ou por outro modo, a garantia pignoratícia, quando tem a posse do objeto empenhado;

Com a celebração do contrato de penhor o bem normalmente é entregue ao credor. Excepcionalmente, entretanto, o objeto pode ficar em poder do devedor, e, neste caso, se ele o alienar sem autorização do credor ou de alguma outra forma inviabilizar o objeto como garantia de dívida (destruindo-o, ocultando-o, inutilizando-o, etc.), cometerá o delito em tela. Sujeito ativo desse crime é o devedor, que, apesar do contrato de penhor, estava na posse do bem e o alienou em prejuízo do credor. Sujeito passivo é o credor, que, com a alienação, ficou sem a garantia de sua dívida. O objeto material deve ser coisa móvel, pois somente esta pode ser empenhada. A consumação ocorre quando o aliena, destrói o objeto. A tentativa é possível.

Fraude na entrega de coisa IV - defrauda substância, qualidade ou quantidade de coisa que deve entregar a alguém;

A presente infração penal pressupõe uma situação jurídica envolvendo duas pessoas na qual uma tem o dever de entregar objeto, móvel ou imóvel, à outra, porém, de alguma forma o modifica

fraudulentamente, de modo que possa prejudicar a outra parte. Essa alteração pode recair sobre a própria substância (entregar objeto de vidro no lugar de cristal, cobre no lugar de ouro), sobre a qualidade (entregar mercadoria de segunda no lugar de primeira, objeto usado como novo) ou sobre a quantidade (dimensão, peso). O crime somente se consuma com a efetiva entrega do objeto, e a tentativa é admissível (se a vítima, por exemplo, percebe a fraude e rejeita o objeto).

Fraude para recebimento de indenização ou valor de seguro V - destrói, total ou parcialmente, ou oculta coisa própria, ou lesa o próprio corpo ou a saúde, ou agrava as conseqüências da lesão ou doença, com o intuito de haver indenização ou valor de seguro;

Requisito indispensável desse crime é a prévia existência de um contrato de seguro em vigor, sem o qual haveria crime impossível. A lei pune alternativamente três condutas:

  • a) destruir ou ocultar, no todo ou em parte coisa própra;

  • b) lesionar o próprio corpo ou saúde;

  • c) agravar as consequências da lesão ou doença.

Além disso, para que exista o crime é necessário que o tenha atuado com intenção de receber

o valor do seguro. O delito, entretanto, é formal e consuma-se no momento da conduta (destruir, ocultar, autolesionar etc.), ainda que o agente não consiga receber o que pretendia. A tentativa é possível, como, por exemplo, no caso de quem tenta empurrar seu veículo morro abaixo e é impedido por terceiros. O sujeito ativo é o segurado e o passivo, a seguradora. O bem jurídico tutelado nessa infração é o patrimônio do segurador, sendo a coisa ou o corpo do agente meros instrumentos do delito.

Fraude no pagamento por meio de cheque VI - emite cheque, sem suficiente provisão de fundos em poder do sacado, ou lhe frustra o pagamento.

1. Tipo objetivo Esse dispositivo prevê duas condutas típicas autônomas:

  • a) Emitir cheque sem fundos: Nessa hipótese,

o agente preenche

e

põe

o

cheque

em

circulação (entrega-o a alguém) sem possuir a quantia respectiva em sua conta bancária.

  • b) Frustar o pagamento do cheque. Nessa modalidade, o agente possui a quantia no banco

por ocasião da emissão do cheque, mas, antes de o beneficiário conseguir recebe-la, aquele saca o

dinheiro ou susta o cheque.

  • 2. Observações

    • a) Para que exista o crime é necessário que o sujeito tenha agido de má-fé quando da

emissão do cheque. Assim, não responde pelo delito quem imaginou possuir a quantia no banco ou

quem não conseguiu ou se esqueceu de "cobrir" a conta-corrente após a emissão do cheque. Nesse sentido a Súmula 246 do Supremo Tribunal Federal: "Comprovado não ter havido fraude, não se configura o crime de emissão de cheque sem fundos".

  • b) O cheque tem natureza jurídica de ordem de pagamento à vista e, assim, qualquer atitude

que lhe retire esta característica afasta a incidência do crime. É o caso, por exemplo, da emissão de

cheque pré-datado ou do cheque dado como garantia de dívida. Nada impede, porém, a responsabilização por estelionato comum se comprovado o dolo de obter vantagem ilícita no momento da emissão.

  • c) É necessário que a emissão do cheque tenha sido a causa direta do convencimento da

vítima e, portanto, a razão de seu prejuízo e do locupletamento do agente. Por isso, entende-se que não há crime na emissão de cheque sem fundos para pagamento de dívida anterior e não paga, pois, nesse caso, o prejuízo da vítima é anterior ao cheque e não decorrência deste. É o que ocorre, por exemplo, quando uma pessoa causa um acidente, provocando danos materiais em outro automóvel, e, como pagamento pelos prejuízos por ela causados, emite um cheque sem fundos. Não há crime porque o prejuízo era anterior, ou seja, foi a colisão entre os veículos que causou o prejuízo e não a emissão do cheque. Veja-se, ainda, que, com o recebimento do cheque, o dono do carro abalroado passa a ter uma situação jurídica mais vantajosa, pois, antes de sua emissão, se ele quisesse receber o valor em juízo teria de ingressar primeiro com uma de conhecimento e, posteriormente, executá- la. Ao contrário, estando em poder do cheque, poderá executá-lo diretamente, já que se trata de título executivo. Por outro lado, quando alguém faz uma compra e efetua o pagamento com um cheque sem fundos, existe o crime em análise na medida em que foi o uso do cheque que induziu a

vítima a entregar a mercadoria, sendo, portanto, a causa de seu prejuízo.

  • d) Também não há crime na emissão de cheque sem fundos em substituição de outro título

de crédito não honrado. Trata-se, também, de hipótese de prejuízo anterior.

  • e) Quando o agente susta o cheque ou encerra a conta-corrente antes de emitir a cártula,

responde pelo estelionato comum (CP, art. 171, (caput). Não incide no crime do art. 171, § 2º ,VI, do Código Penal, porque a fraude empregada foi anterior à emissão do cheque.

  • f) Para a configuração do delito exige-se que a emissão do cheque tenha gerado algum

prejuízo patrimonial para a vítima. Assim, entende-se não configurar ilícito penal a emissão de cheque sem fundo para pagamento de dívida de jogo proibido ou de programa com prostituta.

  • g) Nas hipóteses de cheque especial, em que o banco garante o pagamento até um

determinado valor, somente haverá crime se este for ultrapassado. Por outro lado, se o banco honra o cheque por estar dentro do limite garantido e o cliente não efetua a recomposição da importância, não há crime, porque o cheque não foi emitido em favor do banco. Há, nessa hipótese, mero ilícito

civil, decorrente do descumprimento de obrigação contratual entre as partes.

  • h) Existe divergência na hipótese em que alguém recebe um cheque nominal e, ao tentar

sacá-lo no banco, fica sabendo da inexistência de fundos mas resolve não ficar com o prejuízo, dessa forma, usa o cheque para fazer uma compra perante terceiro, e, para tanto, endossa a cártula. Argumentam alguns que o endosso equivale à emissão porque recoloca o título em circulação, e, por isso, configura o crime do art. 171, § 2º,VI. Para outros, endosso e emissão são institutos distintos, de forma que o endossante responde por estelionato comum.

  • 3. Consumação

Apenas quando o banco sacado formalmente recusa o pagamento, quer em razão da ausência de fundos, quer em razão da contra ordem de pagamento. Nesse sentido, a Súmula 521 do Supremo

Tribunal federal: "O foro competente para o processo e julgamento dos crimes de estelionato, sob a modalidade de emissão dolosa de cheque sem provisão de fundos, é o do local onde se deu a recusa do pagamento pelo sacado". Recentemente o Superior Tribunal de Justiça editou a Súmula 244 no mesmo sentido. Basta, entretanto, uma única apresentação do cheque. Assim, não é suficiente a simples emissão do cheque para que o crime esteja consumado, e, por isso, ainda que a emissão do cheque sem fundos tenha sido dolosa, se o agente se arrepende e deposita o valor no banco antes da apresentação da cártula, haverá arrependimento eficaz e o fato tornar-se-á atípico. E se o agente somente se arrepender depois da consumação (após a recusa por parte do banco) e ressarcir a vítima? De acordo com a Súmula 554 do Supremo Tribunal Federal, o pagamento do cheque emitido sem provisão de fundos, antes do início da ação penal, retira a justa causa para sua propositura. Por essa súmula, o pagamento do valor do cheque antes do recebimento da denúncia funciona como causa extintiva da punibilidade. Mesmo após a criação do instituto do arrependimento posterior (art. 16 do CP), pela reforma da Parte Geral do Código Penal em 1984, a jurisprudência contínua aplicando a súmula, por razões de política criminal. Essa súmula não se aplica, todavia, a outras espécies de estelionato. Já o pagamento do cheque efetuado após o recebimento da denúncia, mas antes da sentença de primeiro grau, implica o reconhecimento da atenuante genérica prevista no art. 65, III, b, do Código Penal.

  • 4. Tentativa é possível.

  • 5. Sujeito ativo. O titular da conta-corrente do cheque emitido.

Se uma pessoa se apodera de cheque de outrem, preenche-o sem autorização do correntista e faz aquisições com referida cártula, comete crime de estelionato comum (CP, art. 171, caput), ainda que o banco não tenha percebido a existência da falsificação e o tenha devolvido por insuficiência

de fundos.

Aliás, tal estelionato consumou-se no exato instante em que o agente fez a aquisição, uma vez que a consumação do estelionato comum ocorre no momento da obtenção da vantagem ilícita. Nesse sentido, a Súmula 48 do Superior Tribunal de Justiça: "Compete ao juízo do local da obtenção da vantagem ilícita processar e julgar crime de estelionato cometido mediante falsificação

de cheque”.

  • 6. Sujeito passivo. É a pessoa que sofre o prejuízo em decorrência da recusa de pagamento

pelo banco sacado.

CAUSAS DE AUMENTO DE PENA

§ 3º - A pena aumenta-se de um terço, se o crime é cometido em detrimento de entidade de direito público ou de instituto de economia popular, assistência social ou beneficência.

O aumento aplica-se, portanto, quando a infração penal atinge o patrimônio da União, dos Estados, Municípios e Distrito Federal, bem como suas autarquias e entidades paraestatais. A Súmula 24 do Superior Tribunal de Justiça estabelece, ainda, que "aplica-se ao crime de estelionato, em que figure como vítima entidade autárquica da Previdência Social, a qualificadora do §3º do art. 171 do Código Penal". Além disso, será aplicável aumento quando o delito atingir instituto de economia popular, entidades de assistência social ou beneficência, uma vez que o prejuízo causado a tais instituições reflete em todos os seus beneficiários.

DISTINÇÕES

Estelionato e extorsão. Em ambos os delitos, a entrega da coisa é feita pela vítima. A diferença reside no seguinte: na extorsão a coisa é entregue mediante o emprego de violência ou grave ameaça pelo agente; já no estelionato, há o emprego de fraude, e a vítima, iludida, entrega a coisa livremente.

Estelionato e furto de energia. Conforme já oportunamente estudado no capítulo referente ao crime de furto, a subtração de energia elétrica ocorrerá se o agente captar a energia antes que ela passe pelo relógio medidor. No entanto, se este for alterado pelo consumidor de energia elétrica, haverá estelionato.

Estelionato e furto mediante fraude. Neste último, há subtração, pois a coisa é retirada sem o consentimento da vítima, que, na realidade, tem a sua vigilância sobre a res amortecida pela fraude empregada pelo agente; por exemplo, agente que se faz passar por eletricista e se aproveita para subtrair objetos da casa, sem que a vítima perceba. No estelionato, há também o emprego de fraude, mas aqui a própria vítima, enganada, entrega espontaneamente a coisa para o agente, não há qualquer subtração; por exemplo, agente que se faz passar por técnico em informática e leva o computador consigo, com o consentimento da vítima, a pretexto de consertá-lo.

BIBLIOGRAFIA:

  • Decreto-lei n.º 2.848, de 07 de dezembro de 1940 - Código Penal e suas alterações, site www.planalto.gov.br .

  • Direito Penal - Damásio Evangelista de Jesus - São Paulo - Saraiva -1999 - Volume 1: Parte Geral; Volume 2 Parte Especial - Dos crimes contra a pessoa e dos crimes contra o patrimônio; Volume 3 Parte Especial - Dos crimes contra a propriedade imaterial a Dos crimes contra paz pública; Volume 4 Parte Especial: Dos crimes contra a fé pública a Dos crimes contra a Administração Pública;

    • CAPEZ, Fernando. Curso de Direito Penal Parte Especial Volume 2 10ª Edição,

      • 2010 Editora Saraiva;

    • CAPEZ, Fernando. Curso de Direito Penal Parte Especial Volume 3 8ª Edição,

      • 2010 Editora Saraiva;

  • GONÇALVES, Victor Eduardo Rios Sinopses Jurídicas. Dos Crimes contra a Pessoa Volume 8 - 13ª Edição reformulada, 2010 - Editora Saraiva;

  • GONÇALVES, Victor Eduardo Rios Sinopses Jurídicas. Dos Crimes contra o Patrimônio Volume 9 - 13ª Edição reformulada, 2010 - Editora Saraiva;

    • GONÇALVES, Victor Eduardo Rios Sinopses Jurídicas. Dos Crimes contra a Dignidade Sexual aos Crimes contra a Administração Volume 10 - 14ª Edição reformulada, 2010 - Editora Saraiva;

    • MIRABETE, Julio Fabrine, Código Penal Interpretado, 6ª Edição, 2007, Editora Atlas.