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Biblioteca Breve

SÉRIE LITERATURA

A SÁTIRA NA LITERATURA MEDIEVAL PORTUGUESA
(SÉCULOS XIII E XIV)

COMISSÃO CONSULTIVA

JOSÉ V. DE PINA MARTINS Prof. da Universidade de Lisboa JOÃO DE FREITAS BRANCO Historiador e crítico musical JOSÉ-AUGUSTO FRANÇA Prof. da Universidade Nova de Lisboa JOSÉ BLANC DE PORTUGAL Escritor e Cientista HUMBERTO BAQUERO MORENO Prof. da Universidade do Porto JUSTINO MENDES DE ALMEIDA Doutor em Filologia Clássica pela Univ. de Lisboa
DIRECTOR DA PUBLICAÇÃO

ÁLVARO SALEMA

MÁRIO MARTINS

A sátira na literatura medieval portuguesa

MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO

ª edição ― 1977 2.º. reprodução e adaptação reservados para todos os países _______________________________________ Tiragem 3 500 exemplares Beja Madeira Luís Correia _______________________________________ Coordenação geral _______________________________________ Orientação gráfica _______________________________________ Distribuição comercial Livraria Bertrand. Amadora ― Portugal Composição e impressão _______________________________________ Oficinas Gráficas da Minerva do Comércio de Veiga & Antunes.Título A Sátira na Literatura Medieval Portuguesa (Séculos XIII e XIV) _______________________________________ Biblioteca Breve / Volume 8 _______________________________________ 1.Lisboa Janeiro 1986 . Lda. Trav. da Oliveira à Estrela.ª edição ― 1986 _______________________________________ Instituto de Cultura e Língua Portuguesa Ministério da Educação Divisão de Publicações _______________________________________ © Instituto de Cultura e Língua Portuguesa Praça do Príncipe Real. 1200 Lisboa Direitos de tradução. SARL Apartado 37. 10 . 14–1.

.............................................................................................................................. Afonso X e os soldados ....................115 ... 90 12 ― Arrivistas ............ 27 2 ― D..... 86 11 ― Judeus ....... 32 3 ― Sátiras contra os favoritos e magnates ...... INTRODUÇÃO.......................................... 16 II............... 37 4 ― Sátiras a trovadores e jograis.......... 61 7 ― Sátiras de viagens......105 16 ― Sátiras coprónimas ..............................7 I................... António........................ 65 8 ― O fidalgo pelintra ..113 18 ― Casos e acasos da vida corrente ............................................... A SÁTIRA NA PREGAÇÃO DO SÉCULO XIII ................................................ aos mosteiroa e a Deus ................................................... 41 5 ― Paródias do amor cortês..........ÍNDIC E Pág. 93 13 ― Contra ladrões....................................................... 21 III............... 76 10 ― Médicos................. 11 1 ― Sermões de Sto............................................................................................................. A SÁTIRA NAS «CANTIGAS DE SANTA MARIA»................................................................................................. 96 14 ― Sátiras contra mulheres ...................................................................................................................................................................110 17 ― Sodoma e Gomorra ....................................................... 25 1 ― Sátiras dos tempos maus............................. 50 6 ― O ciclo das amas-de-leite... juízes e advogados ................................................... CANTIGAS DE ESCÁRNIO E MALDIZER................................... 71 9 ― Sátiras ao clero................................................................................ linguareiros e sovinas.............. pousadas e peregrinações......................100 15 ― Soldadeiras e mulheres da vida... 11 2 ― Frei Paio de Coimbra ... dos prantos e das canções de gesta ................................................

.....132 4 ― Sátira da glória mundanal e das riquezas ................................................. A SÁTIRA NO «HORTO DO ESPOSO» .................................................... IV.................................. 121 VI................................................................ 124 VII......................................... 136 BIBLIOGRAFIA ... 142 ...................Pág................................................................................... 129 1 ― Sátira das mulheres ....................................................... O «PRANTO DA IGREJA» POR FREI ÁLVARO PAIS..............................132 5 ― Sátira da Igreja .. «CORTE IMPERIAL»................. 117 V............................................................131 3 ― Sátira da cavalaria e da nobreza............................... BISPO DE SILVES.......................................... LIVROS DE LINHAGENS ..........................................130 2 ― Sátira da falsa sabedoria .....134 NOTAS.................................................

a sátira. um arrepio de repugnância. em certos casos. como afirma Dostoievski. Em Rabelais. E porque não recordar o humor negro e a sátira social da Dança Macabra. que os irlandeses pobres engordassem as criancinhas e depois as comessem. logo ao nascer. num sarcasmo sanguinolento. desde as gravurinhas dos Livros de Horas até às Barcas de Gil Vicente? Temos ainda os epitáfios. à maneira de Swift. ou um grito de horror. É «o mais triste de todos os livros». quando este propunha.INTRODUÇÃO É um género amplo e fugidio... não passa duma frase espirituosa. como nas farsas de Gil Vicente. à lisboeta. à francesa. ou duma piada. em The Loved One. quase um romance goliardo. como o humor negro de Evelyn Waugh.) e até provoca. a encerrar uma sátira breve da vida breve: «Aqui jaz Pero Grou / Que como os 7 . a sátira assume forma dramática. o gigantesco Gargântua berrou: «À boire! à boire! à boire!». cheio de proezas tabernárias. Faz sorrir uns e sofrer outros. Com efeito. Às vezes. toma as proporções dum poema de graça gaulesa. D. Nem sempre faz rir (ridendo castigat mores. Quixote de la Mancha e a sua ironia enquadram-se nos moldes do romance de cavalaria. Noutros casos.

Põe-se de lado a admiração e o escritor. em mangas de camisa. Outras são grosseiras. numa paródia estudantil de 1589: Borrachas. Scholberg mete-a dentro da sátira burlesca 1. como as Viagens de Gulliver. por exemplo. Isto salta aos olhos nalgumas das tenções das cantigas de escárnio e maldizer. H. claríssimas. no pensar de K. e até simpatizante. Contudo. Mais do que se permite a gente branca. Em pagodes e ceias esforçados. sim. Mas tudo é riso. Na invectiva. por exemplo. uma 8 . a fazer de conta. há ataque. É um alegre poema báquico. Ataque? Nem sempre. acrescentamos nós. Algumas trazem punhos de renda. Ninguém agride Camões ou o seu poema. A sátira é um ataque (íamos a dizer uma agressão). Outras. com o itinerário tabernal de estudantes e almocreves a caminho de Évora. Em Évora cidade se alojaram. Ataque por vezes fictício. utiliza. Que de Alcochete junto a Villa Franca. o estilo grandioso dos Lusíadas. A gente sorri do contraste.outros acabou. borrachões assignalados.» Há sátiras que chegam a passar despercebidas. muitas vezes sem riso nem sorriso. Na paródia. Onde pipas e quartos despejaram. entre a pequenez da aventura e a grandiloquência do estilo. Por mares nunca d’antes navegados Passaram inda além de Peramanca. Scholberg. sorriso e invectiva. com frequência veremos que falta qualquer agressão psicológica. meras brincadeiras no tom das cantigas ao desafio. como uma pedrada num charco ou uma gargalhada sonora. de Swift.

um pobre diabo.espécie de via-sacra de goliardos. nas cantigas de escárnio e de maldizer. nada a obriga a sair para fora da ortodoxia e descobrimo-la no audacioso sermão do P. enverga uma sobrecasaca ou põe uma cartola. detectamos também ataques. à sua essência. depois de lermos Rabelais. Sátira emocional. E digamos o mesmo da paródia do sagrado. o belo esprit francês ou o humour tão perigosamente sério dos anglosaxões? Tudo varia com os homem. no Carnaval. mais ou menos. com a sua boçalidade e o seu saco de chita. Claro que.e 9 . Neste pequeno volume. Que vale mais. parece-nos difícil decidir. Serviam-se dele como.» Que a ironia é a forma suprema da sátira. Não pertencem. a ironia socrática ou por absurdo. muitas vezes irreverente mas nem sempre blasfema. a ironia cósmica. Só notaremos que. tão ultrapassado como os magalas que antigamente chegavam ao quartel. Cada género tem a sua expressão perfeita. de botas cambadas. Por exemplo.. Ele não agride a poesia nem os poetas. de Bordalo Pinheiro. Atacava-se o estilo épico? Também não. muita gente de hoje não acha graça ao Zé-Povinho. qui primus carmina fecit. a ironia de inversão.. É tudo para rir e sorrir. porém. os países e as épocas. Basta abrir o Palito Métrico e ler estes versos magníficos: «Filius ille putae. como a ironia verbal. mesmo na paródia. longe disso: «Ave color vini clari. etc. chamamos a juízo a própria justiça de Deus. temos de pôr de lado um mar de subtilezas interessantes. Todas elas aparecem. / fronte mereciat reverendam ferre capellam / Cornorum». / Tua nos inebriari / Digneris potencia. na ironia cósmica. / Ave sapor sine pari.

contra os holandeses: Fazei o que fordes servido! Entregai aos holandeses o Brasil. a ele e à sua sátira. com poesias entre o cão e o lobo. na hora incerta em que a gente não sabe se já é Renascença ou se ainda estamos na Idade Média. para aquém e para além das cantigas de escárnio e de maldizer. Neste volume. entregai-lhes as Índias. Não escrevemos a história da sátira medieval. Tem modelos bíblicos e. analisaremos os livros de linhagens. sem escaparmos às graças dos caçadores e da tropa. percorreremos todo o século XV. percorreremos a oratória medieval e a sátira social e religiosa. Noutro livrinho. para vermos a forma sorridente como ela descreve os judeus. E amanhã também é dia. um dos maiores fundibulários da Idade Média. esta ironia magnífica e ousada? De modo nenhum. introduzimos nela o leitor. de Frei Álvaro Pais. Holanda vos edificará templos. vos levantará altares.António Vieira. se alguns historiadores soubessem disto. à sátira petrarquiana do Boosco Deleitoso e ao riso e à ironia pluriforme do Cancioneiro Geral. compreenderiam Gil Vicente muito melhor. Ela defenderá a Igreja Romana! Blasfémia. procuraremos detectar a sátira do Horto do Esposo ― e aí nos quedaremos. entregai-lhes as Espanhas! A Holanda enviará missionários que preguem aos gentios a doutrina católica. entraremos na Corte Imperial. chamaremos a atenção para algumas das Cantigas de Santa Maria. havemos de escutar o Pranto da Igreja. 10 . consagrará sacerdotes e oferecerá o sacrifício do vosso Santíssimo Corpo.

mitrado. Santo António não atacava às cegas. figuram dois sermões em louvor de Santo António. é histórica a apóstrofe contra o arcebispo Simon de Sully. condena os erros e fustiga a Cristandade. em letra de 1250. Doutro pregador seu contemporâneo. Frei Paio de Coimbra. Santo António de Lisboa. Um santo procura ter em conta «o homem e a sua circunstância». Por exemplo. Apesar da violência da sua crítica. implacavelmente. explica ele. Em rigor. Porém. ou Fernando. pouco amigo dos franciscanos: «Tibi loquar. como diria Ortega y Gasset.I / A SÁTIRA NA PREGAÇÃO DO SÉCULO XIII 1. da Ordem de S. ficaram-nos mais de quatrocentos esquemas de panegíricos. Cafarnaum quer dizer campo de fartura e quinta de recreio. nenhuma injúria pessoal e cornute foi mal traduzido por alguns. SERMÕES DE SANTO ANTÓNIO Em certas ocasiões... E aqui 11 . diz ele. não chamou «cão danado» a Ezzelino. Domingos. Defendia as ordens religiosas e nada mais 2. Em paga. Entre eles. cornute». era um fundibulário terrível. de alto a baixo. Morreu em 1236. Eis que me vou dirigir a ti.

Os religiosos enfatuados são idólatras da soberba. Força espiritual e verbal. da gula e da luxúria. se esquecem de Deus. do que no século XIII. sobrinhos e parentes. Os prelados orgulhosos adoram o «ídolo do interesse».se representam as quatro abominações da Cristandade: clérigos soberbos. chegam a «adorar o homem» 3. ricos gozadores que. condenação mais actual. Quantos se lamentam hoje da prosperidade antiga! Chegam mesmo a perder a fé. Outros andam atrás da glória e. a lamuriar-se. da gloríola e da vida fácil. diríamos hoje. finalmente. pela sua universalidade. São estes os demagogos. roídos pelo verme da concupiscência. como répteis. por conseguinte. portando-se como vilões. nos úberes da gula. da luxúria e da Grande Meretriz que embriaga os homens com o vinho da sua prostituição. O Menino Jesus. diz o pregador. arreios e esporas de grande 12 . Alegrem-se! Antes isso do que gozar das riquezas. no presépio. Neste por conseguinte está a condenação da riqueza transformada em prazer. religiosos mandriões como um «fruto gordo». Que fazem os abades e priores das rendas dos conventos? O que lhes sobra não pertence aos pobres? A terceira abominação é a riqueza mundanal. Poucos fazem ideia da força espiritual destes adversários do luxo estéril. Quase todos mamam. colocando acima de tudo os amigos. E estes rastejam. jaz envolto em paninhos e não em vestes luxuosas de peles! Vestem-se com luxo pecadores e meretrizes! E até certos prelados efeminados parecem mulheres que vão casar-se! Selas pintadas. para a conquistar. como pobres camponeses. violam o corpo de Cristo e espezinham a Igreja. agora. amiga da luxúria. seculares postos na miséria.

do sangue espremido dos pobres. Outros engrossam-na no púlpito. temos o hipócrita. seduz as mulheres. quer dizer. como o avestruz. toda ela é barriga e malga. gabam-se daquilo ― e lá vão fazendo a roda e figura de parvo. Resultado: não pescam nenhum peixe mas. mete no estômago alimento a mais. Os falsos religiosos. a ponto de ninguém a poder acusar. Não espera pela hora. multiplicam as citações. à mesa. vendem-se como as prostitutas. Que moleza! Nas igrejas. perturbando a todos sem descanso. Embebedam-se na taça de ouro de Babilónia. figurado pelo avestruz. qualquer «rã palradora» para os gabar. Em tais almas não entra a palavra de Deus e lembram-nos as esterqueiras apodrecidas onde nascem os quatro vermes 13 . excita o apetite com vários molhos. sim. No coro. à maneira dum cão. engana com palavras bonitas e gemidos falsos. O falcão. na cozinha. Acreditemme! São mercenários. torcem a Bíblia. temos a gula comilona. fazem a roda com a cauda e mostram o rabo vergonhoso. só gostam de frases cantantes e aduladoras. «requebram a voz». tudo por vaidade. Os glutões cercam a malga como se estivessem a sitiar um castelo! E o comilão «todo ele» come. Gabam-se disto. gárrula e vagabunda. pregam-se a si mesmos e não a Cristo. sim. na riqueza. que não quer outro ao pé dele 6. que paira nas alturas da contemplação. têm asas e não voam.valia. Que porcaria de língua e quanta imundície! As palavras não voltam à boca e temos de responder por elas. tudo isto tem a cor do sangue de Cristo 4. Passemos aos gozadores luxuriosos. A hipocrisia penetra nas casas. E a maledicência? Ela anda pelas praças. Por outro lado. Vaidosos como um pavão de penas vistosas. pois logo a defendem! 5 Agora.

aspira a ser bispo. que da vida antiga trazem o que é mau e deixam o que é bom. Quanto à ambição. E com o dinheiro. se depois lhes dessem 14 . do adultério. dos órfãos e das viúvas. Contudo. a quantos religiosos cegou a avareza. reza-se. a quantos seculares ela mandou para o Inferno! 8 Hoje em dia. simula. O mal está em servi-lo. não passam de feras que assaltam e devoram. do incesto e do pecado. Se dão esmolas. E o pregador continua: «Quantos suportariam a pobreza. segue a discórdia. os arrivistas de sempre. nascem os prelados simoníacos e matam-se uns aos outros. Ai. a quantos claustrais ela enfatuou. como se fossem ladrões. Também os leigos percorrem o mesmo caminho amaldiçoado. murmurando baixinho ou ladrando alto. São eles que se apoderam de tudo no mundo. nasce a soberba. empobrecem as igrejas e desnudam os mosteiros. está nelas o sangue dos pobres.da fornicação. Malditos sejam. é possuído. para se apoderar do património de Cristo. vai subindo sempre. pois digerem os bens dos pobres. e deixam à fome os monges e cónegos regrantes. Um acusa o outro e passam o tempo em demandas. são eles os novos-ricos. Adoram o bezerro do ouro e andam pela estrada da morte. Matam-se dizendo mal uns dos outros. em clamores e em vexações 7. Porém. Anda em torno. montado no cavalo vermelho. Avarentos e usurários. Não possui. tal oração anda muitas vezes adulterada com a «goma do dinheiro». Não é mal ter dinheiro. o avarento é pobre. até dar no Inferno. Em termos do século XX. dissimula e rasteja de pés e mãos. tem por figura o cavaleiro do Apocalipse. Não se aquieta. Atrás. Ambicionam cargos e esquecem-se de que pouca foi a sua educação.

deitam abaixo.» 12 E o clero. nada fazem!» 9 Os religiosos pululam nos mercados. A omnipotência do dinheiro marcou toda a sátira da Idade Média. os soldados e os usurários das cidades (burgenses) e tiram-lhes o que têm e que tanto sabe a sangue. pelo génio do Arcipreste de Hita. Erasmo não entra aqui para coisa nenhuma. vistes essas demandas nos profetas ou nos evangelhos? Clérigos e bispos ligam mais às decretais dos papas do que aos evangelhos. na Barca do Purgatório. A Igreja não é só o clero. por amor do reino dos Céus. Dizei-me. ai de quem não lhe dá! Excomungam-no! 13 Lembramo-nos dos versos de Gil Vicente. Ora. fazem dum quadrado uma roda. 15 . todos espremem os fracos e tiram dele o último ceitil. compram. O manto de púrpura. levantam. no púlpito. E se alguém comete um pecado mortal em público. Dom Dinheiro mandava no mundo e uma poesia de expansão europeia. ninguém o corrige. depois. chegou ao mosteiro de Alcobaça 11 e foi adaptada. ganhos «com muito suor e sangue». nos goliardos ou nos trovadores. simboliza os bens dos pobres. convocam homens de leis. Chamam-lhes vilões. Vêm. em Castela. quando o camponês diz que «bradão co’elle / porque assoviou a hum cam / e logo a escomunham na pelle». religiosos. litigam nos tribunais. Abrange também o povo. vendem. Era uma torrente que vinha de longe e troava nos púlpitos da Idade Média. «mas eles é que são diabos vilões. De Nummo.a Espanha ou a França! Mas. no Libro de Buen Amor. ninguém o acusa 10. de que fala a Bíblia. trazem testemunhas e estão dispostos a fazer juras por uma coisa que não vale nada.

O auditório. havia de rir-se com esta comparação. ao compilar as Vitae Fratrum. agora na Biblioteca Nacional de Lisboa. Era um conto engraçado e devia correr de boca em boca. Sátira para rir. mais desenvolvido. Alc. já no século XIII. como ursos à volta dum cortiço. do lobo e da lua no poço. FREI PAIO DE COIMBRA Temos de apresentar este pregador. porém. 2. nos sermões de Santo António? Não bem isso. diz ele. publicado em 1973: O Sermonário de Frei Paio de Coimbra do Cód. a sátira abrange todas as classes. Monges e frades. descobrimos nos sermões. Dos caminhos europeus percorridos por este português do século XIII e dos sermões que nos deixou. E têm a sorte do lobo 16. pensamos nós. Há religiosos. abades e priores andam atrás da vanglória. pode o leitor ver num trabalhoso estudo. Santo António utiliza a fábula da raposa. Outras. julgando que são eternos. do cód. o maior herdeiro da nossa Idade Média. Uma espécie de amor e de humor furioso. e daí tirou Frei Luís de Sousa as suas informações. esses homens abstinentes comem a carne dos seus irmãos. em letra de 1250 e ainda inéditos.º 5. dilaceram-na com os dentes da maledicência 15. faz rir. sobretudo ao falar do sangue dos pobres. Dele fala Gerardo de Frachet. já se vê. que imitam o lobo e caem no poço da ambição dos bens deste mundo. embora de leve. Num sermão. entram nela todos os vícios. faz sorrir e faz doer. mil vezes repetido e mil vezes escutado atentamente. 5 / 16 . como se ria das sátiras de Gil Vicente.Bispos. alcobacence n. para lhe chupar o mel 14. Enfim.

Dois são os cocheiros: o torpor da moleza. Segue-se a quadriga da Avareza e as suas quatro rodas: timidez. e a segurança temerária. É o diabo quem vai nestas quadrigas 19. com o flabelo da adulação. ao pregar sobre S. embora mais restrito do que em Santo António. Lourenço. E a sátira achou ali o seu campo de manobra. o ardor do coito. Temos a quadriga da Luxúria. E feras são também os maledicentes. os comilões insaciáveis e os hereges 20. ambos a arder na febre de ter. 17 . Por isso. quadriga essa puxada por dois corcéis: vida próspera e abundância de tudo. atrevimento e imprudência). consoante uma das constantes da História. cuja imagética já analisámos ao longo de trinta e tal páginas 18. com quatro rodas (crueldade. O mal deixa de parecer belo e a sensualidade une-se à crueldade. Lucas. fala-nos ele dos homens do seu tempo. Dionísio Areopagita. fala-nos Frei Paio das quadrigas do diabo: Há a quadriga da Malícia. com o véu da dissimulação. É que Frei Paio falava também de moral e até as vidas dalguns santos encerravam passagens irónicas. Ora. nestes panegíricos distribuídos pelas festas do ciclo litúrgico. desumanidade. compara as feras às meretrizes e proxenetas da Babilónia deste mundo. na grelha: «O assado está pronto dum lado. a rodar sobre a glutonaria. desprezo de Deus e esquecimento da morte.CXXX 17. Vira-me para o outro lado e come!» Num sermão de S. impaciência. os homens ladravazes. São mais de quatrocentos esquemas. as vestes efeminadas e o relaxamento da preguiça. A Dama das Camélias não tem lugar nestes sermões. como esta frase de S. Os cavalos são a cupidez e a teimosia.

enfraquece-o e. São estas as mesas do diabo: a mesa da fraude. Duros? Por vezes. No seu rosto. entrou a morte no mundo e foi ela que pôs a Cristo na cruz 23. no púlpito. detectavam a lepra das almas e falavam alto. cada um entesoura o que entende. mas em breve lhes roubarão a sua gloríola. Nas desarmonias conjugais.Na feira do mundo. «És marido e não dono. à maneira da peste. Os avarentos. na boca. ao longo de quase dois mil anos: impuseram a tabela dos valores espirituais e. a dos males da inveja e seus reflexos na fisionomia do homem! Ela fez cair Lúcifer do Céu. e eles. Os pregadores tiveram isto de bom. Por ela. mirra-se toda e transforma-nos em membros do diabo. na corte. há secura. nas mãos dos pobres» 21. mostram-se os hipócritas e vaidosos. Boa descrição. uma esposa. Nas encruzilhadas. Delas se alimenta o pecado. E chegamos ao grande paradoxo: não se perde o que se dá! A sátira social volta aos lábios de Frei Paio. sim. Não. enfrentavam os problemas individuais e comunitários. Frei Paio fala docemente e aconselha o homem a deixar os modos ásperos e a tratar a mulher carinhosamente. levou-o a tentar Adão e Eva. Os glutões ficam na esterqueira e ali deixam o que antes comeram. Atormenta os sentidos. a mesa da usura e a mesa das velhas proxenetas ou alcoviteiras 22. A inveja transforma em suplício os bens alheios. sempre. Não te coube em sorte uma escrava mas. Só os esmoleres «todos os dias levam os seus bens para o Céu. Os bobos. Deu-te Deus a governar 18 . convenceu Caim a matar Abel e vendeu José do Egipto. devora-o com raiva. ranger de dentes. incendeia o coração. a mesa da rapina. porém. dinheiro. mesmo quando satirizavam. sem ninguém lhes ir à mão. era por amor.

isto é. E dizem: vamos abrir coroa aos nossos parentes. não para bailar ao som de cantares de amor. aí está o diabo. Eles abrem coroa só por amor das prebendas e das riquezas.» 24 Contudo. Tomás de Cantuária. Que significavam elas? Os poetas a contar fantasias. a ferro em brasa ou com o chicote da sátira.o sexo inferior. com voz de inchada modulação. e os jograis loquazes.» Deus fez-nos as pernas para outra coisa. a fim de eles herdarem o património e os rebanhos do Crucificado. Boa ironia. Dá lugar à dedicação. ora engraçados ora a dar a impressão de que o mundo estava perdido. Não. mas sabemos que eles gostavam de contar histórias e exemplos. abre-te ao amor. Onde sorrimos com mais vontade é num sermão de S. mas não de todo. aproveita a morte de S. que até profanam as festas do casamento 26. Tinha a consciência da força enorme do sexo fraco e «inferior». Como este dominicano e Santo António. não a tiranizá-lo. A preguiça humana resistia a tudo. Fala-nos mesmo da «eficiência duma dançarina» e afirma: «Onde se dança. João Baptista para atacar as cantilenas eróticas. centenas doutros pregadores criticavam as fraquezas e crimes dos homens. sim senhor! O clero também leva a sua conta. as dançarinas e os jograis. não a dos jograis. mas espiritual. quando Frei Paio nos fala dum epiléptico que deitou onze rãs pela boca fora. Não dizia mal das mulheres boas. porém. oblações e primícias 27. por se tratar de panegíricos. E foi esta enorme força verbal que fez rir e chorar a Idade Média. Sabia que podemos lutar contra os vícios todos. 19 . Perdeu-se quase tudo. habituados a viver em casa dos prelados. embora pequena. Alegria? Sim. com uma mulher 25. as paróquias! Ficaremos com as dízimas.

20 . às vezes. muitas vezes ao ar livre. Tais sermões não equivaliam a cantigas de escárnio e maldizer.em torno dos púlpitos. da sua graça desbocada. Mas participavam.

um sorriso vitorioso 21 . pecadores e judeus incréus. Punha-o mais feio do que «outra ren». Se ao menos o pintasse regularmente! Não. presagio del carácter cómico que iba a tomar en el siglo. os iluminadores e miniaturistas das Cantigas de Santa Maria. E revelam. pouco depois: «En el siglo XIII. Era vaidoso. no tom geral e no refrém. Os leitores de então e os que escutavam o canto destes «milagres» também sorririam. «al enfrentarse con las representaciones demoníacas. el artista se atreve a entablar coloquios con el espíritu maligno. pintava ele muito formosa a Virgem Maria ― e era este contraste que punha o diabo fora de si.II / A SÁTIRA NAS «CANTIGAS DE SANTA MARIA» Conforme escreve José Guerrero Lovillo. acima de tudo. Muitas das Cantigas de Santa Maria assumem atitude polémica contra hereges. lo hacen con cierto tono burlón. con quien el diablo hubo de reñir y le menaço muy mal por que o pintava feo. E acrescenta.» 28 Em paga. XIV». o maroto. porque não acreditamos nesta questão entre o diabo e o pintor. mas por verem o diabo «mais negro» do que o pez e danado contra quem o assim representava. como aquel maestro pintor de la Cantiga LXXIV. Verdade seja que nós sorrimos.

pela derrota dos maus. e atravessou-lhe a «pança» duma lançada. um pouco à maneira das bruxas montadas num pau de vassoura. nelas. uma sátira implícita da maldade e da estupidez dos inimigos da Virgem Maria e um sorriso largo de como pagaram caro o atrevimento. hei-de obrigar-te a comer palha!» Pois bem. falso e «felon». Meu dito. Meteram-se com a Gloriosa. Certa mulher da Gasconha ria-se da criada e dizia-lhe que dali não iria em peregrinação a Rocamador. Assim morreu Juliano. desrespeitou S. aumenta o sorriso e a troça com vermos a mulherzinha assustada a ir pelos ares. Basílio e saiu-lhe da boca este insulto: «Na volta. a não ser que a Virgem Maria a levasse na cadeira em que ela. veio depois S. montado num cavalo branco. por ordem de Santa Maria. Jogava um catalão em frente da igreja. Voa a cadeira e vai depô-la diante do altar da «mui Graciosa»! Arrependida. neste caso. Mercúrio. Mas como eram a 22 . por vezes. O imperador Juliano. perdeu e atirou uma seta para o céu. Até os vocábulos são. Há. em ordem «forte» e Santa Maria lhe perdoou. como se o autor exclamasse: Ora vejam e tenham cuidado. Já se vê que. Que fez o jogador? Entrou para religioso. Deixemos um taful que blasfemou de Santa Maria e logo morreu. implícito nestas cantigas. meu feito. tinta de sangue 31. o «chufador» 29. Talvez o auditório pensasse. escarninhos. contra Deus e Nossa Senhora. ao findar a cantiga: Escapou de boa! O que nos espanta é o enorme poder de aceitação. a mulher da Gasconha. caiu-lhes o castigo em cima e foi bem feito. Há histórias melhores. exclamou: Astrosa fui e o mesmo acontecerá a quem fizer como eu 30. estava sentada. A seta voltou e caiu precisamente no tabuleiro de jogo.

Vemos alguns deles a ferir um crucifixo. Também ele andou mal. morador em Alenquer. queixou-se o homenzinho à Mãe de Deus. o cómico mais burlesco vem dum bom homem a rezar a Santa Maria. chega-se a ele «e atal o adobou / que ouv’a leixar sas prezes». no portal da igreja. mais fazia cantigas de escárnio do que de amor. Eis senão quando. para aprender 33. Ou melhor. Por exemplo. com os castigos. 23 . por assim troçarem dele os judeus. a alçar a perna e a fazer o que não devera a tão fiel cristão. Nalgumas ocasiões. e caiu-lhes o portal em cima. Martim Alvites. os ouvintes escutavam-nas com ternura e punham-se a favor da Gloriosa e contra os blasfemos. com um ataque. com gáudio e troça de dois judeus 34.favor de Nossa Senhora. Levam castigo? Bem feito! Temos. Escutamos algumas judias a troçar doutra. Porém. já devia estar podre! Pois bem: o homem caiu no chão. ria-se um de venerarem um sapato da Virgem Maria. no resto da vida. o mundo ambíguo dos judeus e das judiarias. É o riso e a sátira contra os incréus. mas teve de se arrepender. só trovando a Santa Maria. e foi «a çapata» que o curou 32. Claro. o riso está mais nos ouvintes. indignando-se contra os pecadores e rindo-se. Imitou Nossa Senhora. dos castigos. vem um grande cão. que invocava a Mãe de Deus nas dores do parto. Do pecador ou do que passava por tal. desta feita. por vezes. a sátira partia do pecador. Um jogral «remedador» imitava tudo à perfeição. Mas. nós rimos mas é da cena do cão. com o Menino ao colo ― e o Menino pô-lo de pescoço torcido. Nestes casos. Se o sapato fosse verdadeiro. ainda.

um ramo da sátira que não é para rir: Maldito seja quen non loará / a que en si todas bondades á.. o homem da boca torcida a beijar a «çapata» maravilhosa.. Se um dia pudermos. É este o refrém e o «maldito» alterna com a bênção para quem a louvar. a seta espetada no tabuleiro e o espanto dos que ali estão.. Mas isto são águas doutra vertente. temos ainda as gravuras: a mulher pelos ares.Para acabar. 24 .. vamos escutar uma série de imprecações ou pragas contra os inimigos da Virgem Maria. agarrada à cadeira.... No manuscrito das Cantigas de Santa Maria. Vamos resumir: Maldito seja quem não disser bem daquela a quem nada falta de bom e digno! Maldito seja quem não disser bem da melhor das «donas» e não quiser o seu amor 35. delas trataremos. Estamos no reino bravio da invectiva..

Porém. e 23 cantigas sob o título de Varia 36. 32 tenções. em quinze artigos modestamente intitulados Randglossen zum altportugiesischen Liederbuch. Outro era o seu fim e sabia que algumas delas são temperamentalmente iguais a outras cantigas de escárnio e maldizer. Carolina Michaëlis de Vasconcelos. O Prof.III / CANTIGAS DE ESCÁRNIO E MALDIZER Jean-Marie d’Heur. por vezes obscenas e grosseiras. publicados entre 1896 e 1905. Rodrigues Lapa alargou a sua análise a vários cancioneiros. à maneira de certas cantigas ao desafio dos nossos dias. 183 cantigas de maldizer. limitando-se às cantigas de escárnio e maldizer. com nada menos de 431 poesias deste género. 504 cantigas de amigo. Nestas Notas à margem do 25 . nas feiras e arraiais do Norte. não isola as tenções. 212 cantigas de escárnio. M. num estudo sobre a Arte de Trovar do Cancioneiro Colocci-Brancuti. ao contrário de JeanMarie d’Heur. só que vêm estruturadas em diálogo mais ou menos agressivo. aqui. na segunda edição. num todo à parte. estudou muitas cantigas de escárnio e maldizer. a fim de reunir a vasta colectânea das Cantigas d’Escarnho e de Mal Dizer dos Cancioneiros Medievais Galego-Portugueses. distribui as poesias deste cancioneiro por grupos distintos e de tamanho desigual: 725 cantigas de amor.

pouco depois: «foi na côrte de Alfonso X que se geraram as principaes cantigas de escarnho e maldizer. não só em torno das cantigas de escárnio e maldizer. sendo este o fidalgo-trovador mais velho de quantos conhecemos. Os maus juízes. O mentiroso. quando muito. e foram a custo arrancadas aos esconderijos» 38. dentre os estrangeiros. o miserável. aponta os nomes dos poetas satíricos mais antigos: Joan Soares de Paiva. bispos e clérigos. Fernan Rodrigues de Calheiros. Manuel de Aguiar oferece ao leitor «uma galeria de caricaturas»: O nobre ou «ricome». Os defeitos físicos. ao publicar em Halle o Cancioneiro da Ajuda. Scholberg e a sua distribuição das cantigas de escárnio e maldizer 40. o pedinchão. Papa. Fernan Paes de Talamancos e Martin Soárez. as cantigas satíricas. Os supersticiosos. Manuel de Aguiar. Os tipos miúdos 39. A soldadeira. Ao tratar da época medieval. recorrendo às fontes históricas para esclarecer certos pontos dessas poesias e dos seus autores. Como agrupar toda a bicharia da Arca de Noé? Em muitos ou poucos grupos? Num livro breve. E.antigo Cancioneiro Português interpreta. sobretudo. temos de optar por uma coisa e. Os perdidos de amor. 26 . aponta uma enorme litania de tipos caricaturais. Mais perto dos nossos dias. em Lições de Literatura Portuguesa. Rodrigues Lapa dedica páginas sugestivas. E ajunta. algumas das quaes se guardavam de certo bem fechadas. O trovador. D. isolamos Kenneth R. em nota final. insinuar o que fica na sombra – e é mais do que pensamos. em geral. Enfim. que um dia poderão sair do limbo em que os deixou: o esfomeado. mas também em torno das suas relações com a Provença e alguns temas principais que as agrupam. diz ela 37.

o plagiador de versos. o supersticioso. ora nos metemos por caminhos diferentes. Abrimos pelas sátiras de alcance ecuménico e que podem cifrar-se nesta frase dos velhos de agora: Os tempos vão maus! 1. Na cantiga seguinte. porém. insiste neste caso. o medroso. o juíz peitável. ora coincidimos pela força dos textos. vieram os Tártaros e. o traidor. Tudo. o mau trovador. Só depois. o fanfarrão. com feições de mouro.o parasita. o careca. a coscuvilheira. o amoroso lamechas. Ora. nas profecias do fim do mundo. o caloteiro. SÁTIRAS DOS TEMPOS MAUS Joan Soárez Coelho troça cruelmente de João Fernandes. o mau médico. E assim. devido a critérios e gostos diversos. Ao agruparmos cantigas de escárnio e maldizer. acreditai em mim. o interesseiro em casar rico. é este um dos quinze sinais: andar o mundo baralhado e o mouro fazer-se cruzado. o tímido diante da sua dama. as freiras mundanas. como os outros tinham feito. não procurámos saber. O Imperador levantou-se contra Roma. o pretensioso. o agoirento. tem os seus limites ― e é bom que os vindouros tenham que fazer. por a mulher ser amiga dum escravo. João Fernandes. vemos-te com intenção de abalar para a Terra Santa. o astrólogo. que sou bom letrado! É sinal de já ter nascido o Anticristo 41. o avarento. o clérigo comilão e metido em brigas. antes. o coxo. etc. mas alarga a sátira à história daquele tempo: Anda perturbado o mundo. 27 . a mulher feia. a mulher gorducha. João Fernandes. agora.

É um serventês moral bem digno do visionarismo de Martin Moxa. fidalgo ou religioso. por bom que seja. as vinhas e as herdades ficam por cultivar. sério e pensativo. estas son nadas e criadas e aventuradas 28 . Para ele. dos tempos do Anticristo. Forçam as mulheres. ambições e falta o juízo. tudo é desrespeitado. Reina a mesquinheza acima da grandeza de alma. Sancho II. «non ei da mia morte pavor». não deve fugir da morte quem viu o bem que dantes era e vê o mal de hoje. Os que ficarem verão coisas ainda piores: «e poren tenh’eu que faz sen-razon / quen deste mundo á mui gran sabor» 43. O mundo caminha às avessas e tudo nele anda trocado! Por isso. anda o mundo cada vez pior. injustiças. diz o poeta. A este queixume. Bem-aventurados os que «morrerom mentr’ era melhor»! Que eles dêem graças a Deus. Hospital ou igreja. embora mordaz e sarcástico. Segundo Lang.Martin Moxa. roubam nos caminhos. Descem os bons e os maus levantam-se poderosamente acima deles. e a mesura. Por mim. antes acham sempre quem os proteja. Ninguém defende os agricultores. Reinam manhosamente neste mundo a maldade e a mentira. segue-se outra sátira amarga. por seu lado. romeiro. quase uma invectiva em forma de descordo: Fico-me a olhar e tudo me dá coita e pesar. mentira e maldade non lhis dá logar. não temem alcaides nem meirinhos. também fala. não há com que pagar as rendas e perdem-se as honras 42. Há guerras. compôs ele estas poesias em tempo del-rei D.

fugia para se esconder 44.. Os que dizem mal. e não menos de Luciana Stegagno Picchio. em The descort in old portuguese and spanish Poetry. A cerceta. sem mentir nem trocar o mal pelo bem. começou por arrancar a crista à 29 . Aí só prosperava quem gabava tudo o que o senhor da terra fazia.. a esses acolhem-nos e louvam-nos com muito amor. sonhei muitas vezes que uma cerceta agarrava a poupa pelo penacho da cabeça. num serventês. dizendo: dia a dia. nem o juízo nem o saber tinham apreço de ninguém. Nos lugares onde nobres ditos se ouviam. vejo eu expulsar gente honrada. Dantes dominava o saber. entrei num sítio onde nem a lealdade. R. livre-se como eu me livrei. tinham formoso lugar a paz e a cortesia. É a revolta contra a decadência cultural e contra o triunfo mesquinho dos vícios. Ora. mesmo que o visse andar a semear sal. Quem ali chegar. hei-de ir faltando! Chegara a sua hora. Mas ela foi-se embora. Adiante. As nossas fadas iradas foron. mais forte. Bem mereceu este descordo as honras de H. Lang.. quem o lisonjeava. conta-nos o poeta uma «estória» que serve de parábola: Depois de muito andar.e queren reinar. quando eu lá estava. à sombra de mecenas estúpidos. que significa ela? E como foi capaz de prender a poupa? Quem poderá interpretar-me este sonho? Rodrigues Lapa faz deste sonho um símbolo de como os grandes poderiam ser dominados pelos pequenos: «a cerzeta. quando a alegria morava no mundo. Poesie. em Martin Moya. nem a boa manha. As louvaminhas e cantares de galhofa recebem honras e poder.

Propomos outra hipótese. mas. a apologia de dignidade humana. repetem-na. representados no lindo penacho de plumas. pois em nada acho gosto «nen sei amigo de que diga ben». amigo de Afonso X e português 46. 30 . Teríamos um incentivo à luta dos fracos contra os fortes opressores. em prosa. E no fim de cada estrofe. Em qualquer hipótese. É na objectividade interna desse estado de alma que enraíza a beleza triste deste pranto dos tempos de agora: Nunca vi andar assim o mundo. na velhice: «ca vej’agora o que nunca vi / e ouço cousas que nunca oí» 47. Com efeito. Pero Gómez Barroso. isso parecenos secundário.pôpa. mais forte do que a poupa) segurou bem firme a «cresta» da poupa e dominou-a. mesmo simples camponeses. Que nele haja ou não objectividade externa. que acabou por vencê-la». Por isso aconselha Martin Moxa a que não se desquitem como «eu vi quitar alguen» 45. Os amigos morreram e os costumes são outros. compôs outro serventês a dizer mal dos tempos de agora e bem dos tempos de outrora: «ca vej’agora o que nunca vi / e ouço cousas que nunca oí». os velhos de todas as gerações. temos. neste serventês. talvez. É a angústia dum homem que ficou sozinho no meio da nova multidão anónima e sem rosto. E esta última simboliza. os que se tiram porcamente das dificuldades. ajeitamse ao querer dos fortes e estes prendem-nos pela gloríola da amizade e dos interesses. ainda assim. Esta sátira aos tempos novos. mais pequena do que o pato vulgar. A cerceta (ave palmípede. O outro era diferente e é desse que gosta o meu coração! Nada me importa morrer. ouve-se o mesmo protesto de inadaptação à vida.

deixou-nos uma poesia híbrida. Juro. vivo por amor duma senhora a quem muito quero. de cantar de amor e de maldizer. Contudo. medra o meu proveito e cresço em importância 49. Pero Mafaldo. E este pensamento vai batendo no final de cada estrofe. e digo que vou separar-me da verdade e querer mal a quem bem quero. se a verdade para nada me serve nem aumenta a minha honra? Dai-me um conselho. Também ele se lembra dos bons velhos tempos: Quem viu o mundo de antigamente e o vê agora. a saber porque não me «vou algur esterrar. Para onde foram a mesura e a grandeza? Onde pára a verdade? Quem é leal ao seu amigo? Que se fez do amor e do trovar? Porque anda a gente triste e sem cantar? Ainda assim. ironicamente. Toda a gente faz o mesmo. / se poderia melhor mund’achar». declara que irá mudando e mentindo. Que hei-de eu fazer. pois. Falar verdade ao amigo? Não! Quem mente ganha com isso.Pero Mafaldo vivia no século XIII e deve ser «contado entre os trovadores alfonsinos da côrte castelhana». dos tempos em que amor havia. mas de elevada categoria técnica e boa inspiração. Um trovador desconhecido. Até aqui. que há-de querer. contra o mundo e os homens. Sempre a eterna ironia: só medram os malandros e os hipócritas. pois. temos a impressão dum cortejo poético de velhos pranteadores. senão desterrar-se algures? Mas o mundo é só um e este é falso. esse cortejo não pára na 31 . Escreveu um serventês a despedir-se da verdade e poetou contra Pero de Ambroa e a famigerada Balteira 48. Fiquem. Hei-de prosperar assim. por caridade. como condenação inapelável dos tempos que já não são nossos. Assim vai a minha vida: Se minto ao meu amigo e ao meu senhor. como cavaleiro que sou.

Idade Média e salta aos olhos, por exemplo, na França do século XIX, mesmo entre escritores audazes e criadores. Alfred de Musset condenava a geração nova por ser inculta, «sans gaitê et sans amour». Chateaubriand escrevia, em 1831: «Tout paraît usé, art, littérature, moeurs, passion; tout se détériore.» Lamartine afinava pelo mesmo diapasão e declarava que a França apodrecia numa esterqueira e tudo se desgastava e morria. Eles não pressentiam, entre tantos outros escritores, o advento de Baudelaire e do «frisson nouveau» que depois faria estremecer Victor Hugo. 2. D. AFONSO X E OS SOLDADOS D. Afonso X, o Sábio, está no centro dum ciclo satírico, onde a poesia é meio de ataque e de defesa, como os panfletos de hoje em dia. Atacou, atacaram-no. E cada um tinha, em geral, as suas razões e os seus pontos fracos. Às vezes, nada tão lúcido como o ódio. Ainda infante , D. Afonso X troça dos maus conselhos do mordomo D. Rodrigo e dos peões «todos calvos e sen lanças e con grandes çapatões». Os versos do rei valiam mais do que esta peonagem. E a sua indignação desafoga-se contra os que recusaram acompanhá-lo na guerra, ao sul, contra os muçulmanos: Nunca eu cinja espada em boa bainha, se Pero de Espanha, ou Pero Galinha, ou Pero Galego forem comigo! Outrem me acompanhará. D. Mendo de Candarei pretextara também qualquer dificuldade e não fora com ele. D. Fuão deixou-o sozinho na guerra da Andaluzia e o rei sentia vontade de mandar ao demo a honra deste mundo, as armas e o batalhar. O que faz 32

chorar um homem não é brincadeira nenhuma! Chorar e rir, por exemplo nesta sátira contra os guerreiros de menor categoria (coteifes), alguns deles a tremer no meio do Verão, diante dos cavaleiros mouros de Azamor:
O genete pois remete seu alfaraz corredor: estremece e esmorece o coteife con pavor. [...............] Vi coteifes de gran brio eno meio do estio estar tremendo sen frio ant’os mouros d’Azamor; e ia-se deles rio que Auguadalquivir maior 50.

Tem agilidade e graça, esta cantiga. Mas a que segue tem fúria: Quem passou a serra e não quis servir a terra, maldito seja! O que levou dinheiros e não trouxe cavaleiros, maldito seja! O que recebeu grande soldada «e nunca fez cavalgada», se é rico-homem ou há mesnada, maldito seja! Não se trata de cantiga para rir. Temos, aqui, uma invectiva, algo da maldição dum profeta atraiçoado e sozinho. Invectiva cheia de troça, como aliás noutra cantiga quase logo a seguir: Quem da guerra levou cavaleiros e foi guardar dinheiros à sua terra; quem não dava pão a comer aos soldados; quem, por medo, foi para casa beber vinho; quem fugiu da fronteira ou andou a roubar os mouros e foi para a sua terra roubar cabritos, esse «non ven al maio». Quer 33

dizer, não vem à revista da tropa, ao alardo. Iam para a guerra a fingir. E alguns levavam pendão, mas não levavam caldeira. Nunca pensaram numa campanha a sério, com soldados para alimentar. Porém, a obra-prima do mundo satírico do rei Afonso X nasceu quando este andava pelos 60 anos de idade: uma poesia fresca e ágil, embalada pelo sonho duma vida livre das obrigações do governo. Com tintas «que parecem dum poeta moderno», diz Rodrigues Lapa, Afonso X põe-se no estado psicológico de quem despiu o manto real e quer ser outro, um negociante, por exemplo, a navegar livremente no mar livre, longe da terra, da política e da guerra: Estou farto do canto das aves, do amor e das armas. Antes um bom galeão que me afaste depressa deste diabo de terra cheia de lacraus, cujo aguilhão senti na alma! Juro por Deus que não andarei de capa, nem com barbas, armas ou razões de amor! Tudo isso me cansa e, volta e meia, me faz chorar. Antes um pequeno barco e ir ao longo da costa, a vender azeite e farinha, para evitar o veneno dos lacraus! Não me alegro de atirar lanças ao tabulado nem de bafordar! De noite andar armado e fazer rondas, vontade não tenho. Gosto mais do mar, pois já fui marinheiro. E por causa dos lacraus, prefiro tornar ao que fui antigamente! Não me falem de guerras! Antes andar sozinho e ir, como um mercador, em busca dalguma terra onde não haja lacraus negros nem pintalgados! Há outras cantigas de troça, contra vassalos sovinas, poetas plagiários ou de expressão menos ortodoxa, pedinchas, maus cantores, fidalgos ridículos no trajar, manhosos, etc. Algumas dessas cantigas de escárnio têm

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ordenou o rei que não comessem galinha. Afonso X. Com efeito diziam os adivinhos que. Este e Garcia Pérez disputam. E o rei não se zanga. em Tirso de Molina. vacas e carneiros. durante a campanha. afastam-se do núcleo central da guerra andaluza. 35 . E por cada um ser aquilo que come. sim. proibira el-rei que os soldados comessem galinha! Gil Pérez ajunta. Não lhe pagava os serviços nem o recompensava dos prejuízos: el do seu aver non me quer dar nen er quer que eu viva no alheo. seria «perdimento da terra». o Sábio. E questiona com o rei. já um pouco velha. Por seu lado. aqui e além. que muitos a comeram. se comessem galinha. acerca duma peliça de cor.graça. na sua comédia Dona Beatriz da Silva: «soy una galina». Pero Gómez Barroso volta-se também contra um rico-homem que faltou na guerra e só veio na paz. entram ainda outros poetas. Responde até com mesura. entre si. aconselha Garcia Pérez. Neste ciclo da guerra andaluza. mas. sou um cobarde. ironicamente. As cantigas de escárnio e maldizer também tinham o seu quê de literatura panfletária. Que a atirasse à estrumeira. cabritos e gansos. isto é. Lembra-nos isto a frase dum poltrão. por não lhe ter dado ocasião de o servir! Fica-nos a impressão de que poetas e fidalgos pouco temiam D. porcos frescos. Afonso Fernández Cubel queixa-se do rei e da sua mão fechada. e eu non ei erdade de meu padre. Contudo. por exemplo Gil Pérez Conde: Aos cavaleiros e à tropa dos concelhos.

em permanentes dificuldades económicas e quem mandava no mundo era o dinheiro: Nummus honoratur. Não pagavam depressa aos que entravam na campanha da Andaluzia. porque a tendes na mão. um cavaleiro pobre. Nas tendas dos infanções e nas dos que os serviam. nem soldada! Não sabemos de que rei se trata aqui. Que lhe dessem um fiador. Partira e não voltara. conta-nos que andara em busca do Amor. Na terceira. servira-o em várias cidades e sempre lhe minguara a generosidade real.Era. E noutra cantiga. senhor Rei»! Expressão maliciosa e bem achada: vossa. Nem mercê. Em má hora se exilara: «non fui vosco en ora bõa»! Tornara-se vassalo de Afonso X. Passava fome e em mau dia nascera. Na quarta cantiga. sine nummis nullus amatur. O rei vivia. reclama ao rei os «vossos meus maravedis». E ainda pior. na paz. cavaleiro e poeta. Ninguém sabia onde ele estava. minha. 36 . pois. a sua fortuna se pusera a andar a «pé de boi». Contudo. nem que fosse judeu. Podemos resumir esta polémica num provérbio: Casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão. primeiro no paço do rei e depois nas casas dos privados. todos diziam: «Non sei!» Só o encontrou entre os freires do Templo. esse queixava-se claramente do rei Afonso X. porque me pertence. Gil Pérez Conde. lembra como brilhara na guerra mas que. Era português este Gil Pérez Conde. o rei prejudicara-o nos haveres que herdara da mãe. e exilara-se para Castela após a subida ao trono do conde de Bolonha. de facto. em forma de alegoria. a «vossa mia soldada.

Servir o rei nada vale. isso sim! E se el-rei. contra o favorito. pergunta a um cortesão-poeta se os privados duram muito na privança. desfazendo-lhe na miopia e insistindo na sua crueldade: não há homem nem mulher «que non queirades trager come can». A melhor destas sátiras baseia-se na miopia: Comi ontem em casa do rei. porque os privados. insinuando vícios homossexuais. Que ele dê. SÁTIRAS CONTRA OS FAVORITOS E MAGNATES Favoritos do rei. O outro observa que não sabe novelar e só diz: estão cada vez mais poderosos. Estêvão Anes. três cantigas violentas de Airas Pérez Vuitoron. Empobrece e emigra: «e. era o chanceler D. as suas rendas aumentam e o povo empobrece. Parecem os tempos de hoje. ricos-homens e outros magnates levavam também a sua conta por tabela. Martin Moxa zanga-se ironicamente. sem isso. Nunca os vossos olhos viram tal pão 37 . Cuidado! E erguem-se agora. Quem não lhes dá. escusa de esperar favor do rei. nada fazem. jogando com o duplo significado de cair. Peitas. procura fazer bem. Um dos grandes privados. con proveza. levam-no a mal. Morais na corte e nada sabeis! Quem lá vai. por boa inclinação. Martin Moxa. Pedro de Portugal insistia no mesmo ponto: «seu saber é juntar aver». Que miopia a dele! Mas caiu bem no goto do rei. na corte del-rei D. Talvez. da terra sair». Caso contrário. nota Joan Soárez Coelho. numa tenção. Mas ouve bem. pergunta Roí Queimado. É que só tomam para si. O conde D. Bendita miopia que o fazia cair! Míope?. Afonso III. algo deve levar. passa por tolo.3.

jogueta com o verbo privar: conforme o proveito que me vier da vossa privança. o gosto equívoco de insinuações homossexuais. «rogo eu a Deus que sejades privado». Quem matava não eram uns lindos olhos verdes. e matar-m’-íades con eles! ― O jantar está guisado e. nem melhor cabrito nem tal lombo «de vinh’e d’alhos e de sal». Não me faltou nada: «non vistes nen avedes de veer». chanceler-mor del-rei D. de penca vermelha: Eu convidei un prelado a jantar. E tem. Ironicamente. a D. Afonso IV e bispo eleito de Viseu. Pertence ainda a D. Diz el en est’: ― E meus narizes de color de bereguenha? Vós avede-los alhos verdes. Voltando. por Deus. Fulano mais vale sendo pobre e sem poder. a partir de 1330. Miguel Vivas. Isso não o impedia de atirar remoques ao seu patrício D. porém. se ben me venha. O favor real fazia perder a cabeça a muita gente e o monarca tinha de os pôr no seu lugar: Pois D.nem vinho como eu lá bebi! De dez anos para cá. D. ou parece ter. Não. nunca vistes um capão como aquele. Sancho II. então que volte ao que era e torne a ganhar juízo. amigos. Estêvão da Guarda era de Aragão. trei-nos. Chega a ser cruel. e matar-m’-íades con eles! Alhos e não olhos. nunca vistes um homem comer como eu comi. temos contra ele um serventês a descrever-nos a fisionomia do bispo. Miguel Vivas. Porém Vuitoron era partidário del-rei D. como dum grande beberrão. Diz el en est’: ― E meus narizes color de figos çofeinos? Vós avedes os alhos verdes. mas esses alhos que levavam um homem a 38 . Daqui nasce parte do seu ódio a D. Estêvão. Estêvan da Guarda esta graça posta na boca do rei.

sem aguentar as «lazeiras» dos tempos idos. Assim fez D. se alguém mas vende. investe contra um magnate que tira e não dá. Até à tropa dava ele mentiras «por sa soldada».comer de mais. Faziam troça dos arranjistas. Os ricos-homens andavam também na boca do mundo trovadoresco. À falta de jornais. que sabedes fazer?» E ele respondia: Coisa nenhuma (ren). Que remédio. Noutro lugar. que em tudo mudou. sob qualquer pretexto. como faziam troça dos adiantados novatos ou traidores. Nuno Fernandez Torneol cita um rico-homem «mentireiro» a quem falara no caminho de Valhadolide para Toledo. encarregados de governar e defender as comarcas fronteiriças. Não atacam um homem de tal coragem. E o bispo vai-se preocupando com as cores do nariz: E o meu nariz cor de escarlata roxa? E o meu nariz cor de rosa bastarda? E o meu nariz cor de púrpura escura? E o meu nariz cor de amoras maduras? 51 No conflito entre D. E porquê? «Ricom’. sem ninguém lhe pegar. a não ser comprar herdades. avarentos e ninguém os queria para nada. de dez soldos para cinco. estes poetas exprimiam a consciência do povo. Sancho II e o conde de Bolonha. Só pensavam em ajuntar. Entra certo rico-homem em Segóvia e logo baixa o preço das coisas. que tinha mantimentos e entregou o castelo «con mínguas que avia». como certo rico-homem que o mesmo Pero da Ponte imagina pôr à venda. resmunga Pero da Ponte. Gil Pérez Conde troça dum «ricome». quando nada lhe metia medo. Fuão. mandriões. Até de valente se tornou cobarde. pois era o rico-homem a comprar! Outros eram ignorantes. alguns alcaides hesitavam e vendiam os castelos. E aqui temos nós um protesto contra certos 39 .

Seria melhor casar com uma tendeira de nome Coelha. A um deles acusavam-no de ter feito perder a terra a um escudeiro. D. em certa maneira. / filha-xas pelas carreiras». em Sevilha. Certo rico-homem não pagava os serviços duma pessoa de família. Fique em Sevilha. Longo e de grande significado social é este género de cantigas contra os homens do poder e do dinheiro. Urraca Abril. femeeiro e ladravaz. dos privilégios dos bobos da corte. Outro ainda não conseguiu ter filhos. Porquê? Porque. toma tudo para si. haver naqueles tempos uma grande liberdade verbal e que os trovadores gozavam. as caricaturas e os panfletos ajudam a fazer a história. Seria falsificar a história generalizar tais factos. E o estendal alargava-se. só por si. no entanto. E o mesmo fazia o pai dele! 40 . a partir da pregação nos púlpitos. luta de raízes bem medievais.latifundiários. mas eles iam falando. As sátiras. ficam com nódoas negras na cara. onde passa. para ter um filho cada mês. Mas não bastam. Que o rei o conserve junto de si. para quem toda a terra era pouca. Talvez os ameaçassem com um chicote. por muita que fosse. E se gritam. Concluímos. E não falamos dos comendadores. uma das mais bonitas e ágeis é a que Fernan Soárez de Quinhones compôs contra o fidalgo Lopo Anaia. porque. «Se el algur acha freiras. Outro andava metido com a mulher confiada à sua protecção. e não se vá embora. Outro contrariava o casamento da filha. / ou casadas ou solteiras. Nestas cantigas contra os grandes.

Mas escreveu contra ele cantares de escárnio e ele entendeu tudo. Diz ele que não entende de trovas. Soeiro Eanes pode-se gabar. Transformavam-se. comestes alguna erva «que vos faz viver / tan gran tempo. Comecemos por simples graças e disputas para divertir. quando nascestes vós? Antes do tempo em «que encarnou Deus en Santa Maria»? Quanto a Pero da Ponte. debatiam-se questões de estética. Afonso Sánchez e Vasco de Resende é um tanto sibilina. Joan Garcia de Guilhade dirige-se ao jogral Lourenço e repreende-o: Gostas muito de tocar cítola. por vezes em razão do seu ofício. Havia ataques de costumes menos limpos. A tenção entre D. fala claro e diz a Martin Moxa: Tão velho sois que. em geral a brincar. decerto. Atacavam-se entre si. E já não falamos de questões meramente pessoais. SÁTIRAS A TROVADORES E JOGRAIS Os poetas dos cancioneiros desavinham-se entre si. O tema é este: A «senhora» cantada pelo segundo poeta morreu de facto ou isto não passou de simples metáfora? Porque fazia ele versos de amor a quem já morrera? Afonso Gómez.4. não das cantigas que faz mas. 41 . Jogral era menos do que trovador. que podedes saber / mui ben quando naceu Adan e Eva»! Os vossos filhos barbados vêm de tempos antigos. de que idade éreis vós. em mero ludismo. em pequenas escaramuças verbais. jogral galego. sim. quando Almançor andou por aí a fazer estragos? Assim Deus me perdoe. então. Ora dizei-me. verificavam-se choques de ordem social e diziam-se graças. das boas cantigas que lhe fazem. donde a sinceridade às vezes batia as asas. aliás útil para os divertir a si e ao público.

Agora pretendes cantar e julgas que já és trovador. Puro divertimento para rir e sorrir. falta-lhe competência para julgar. Diga o que disser. como na tenção entre Joan Soárez Coelho e Picandon. Evito errar e cantarei quando 42 . nada receberei de vós e «mui ben vos citolarei». que não perco a minha «jograria»! Sei muitas canções e canto-as bem. ganhar à grande e ser estimado na corte. E o outro: É isto o que vos perde. tanto mais que ambos. coplas e serventeses. Noutra cantiga. Estamos na primeira metade do século XIII. ameaça partir-lhe o citolão na cabeça. nem digas que não percebo do ofício. / por que vos fez per corte guarecer?» Responde o italiano que tem o direito de. Perdes tempo! Lourenço replica habilmente que emende antes as trovas dele. Don Lourenço. pois era entendido em canções. «pois non sabedes jograria fazer. pois bem precisam. Ando pasmado. juntos. pois sei do ofício! E o último verso explica o tom alegre desta disputa: «A mofar. a vossa gabarolice! E Picandon: Podeis fazer pouco de mim. também ele. a chufar!» O tom de brincadeira ressalta noutras cantigas. aprendiz de cantador. antigo companheiro do trovador provençal Sordello. Por sua vez. Picandon. ― Não te zangues! acode Joan Garcia. Joan Garcia de Guilhade finge zangar-se. tudo se arranja (cala-te e calar-me-ei. cooperavam na mesma cantiga. queixa-se Lourenço da má paga que recebe e o outro responde que lhe fará dar cacetadas por um vilão. Eram como mestre e aprendiz. diz o patrão-poeta) e o jogral exclama: João Garcia. mas o jogral fica na sua. Afinal. Não sei qual «d’estes mesteres» fazes pior! O jogral responde que o parceiro quer desfazer nele. Era isto a sério? Não. cego cantor e guia de cego.

retirou-se do mundo para uma ermida velha e ali faz penitência rigorosa! E desta maneira tira desforra do que Pedro Amigo afirmou acerca da sua ida à Terra Santa. talvez fosse uma disputa a sério. Eram discussões à maneira de quem jogueta. Que suplício! Comilão. sobretudo no caso de Martin Soárez e do jogral Lopo. para empregar um vocábulo arcaico. quero tigo fazer. não discutiria a sério com um pobre jogral. pontapés. Pero de Ambroa troça burlescamente do seu colega Pedro Amigo de Sevilha: Imaginem. que certas cantigas podiam ser levadas a sério. ũa entençon. faz-nos sorrir. conheço-vos bem.quiserdes! Ora. talvez reforçado por antipatia pessoal. sobretudo na resposta final do jogral: Se me arrastardes pelos cabelos e me aleijardes. porém. Neste caso. Um certo desprezo profissional. Tal mistura de versos. Por generoso que fosse o magnate D. Dai-me uma recompensa e protegei-me onde estiverdes. abrindo tudo por estas palavras: «Juião. E o italiano responde: João Soares. 43 . ou cantar. basta-lhe rascar no instrumento. Havia quem pagasse ao jogral para ele deixar de citolar e de cantar. exclama por fim Soárez Coelho. Mas dáse o contrário na tenção entre o trovador Mem Rodríguez Tenório e o jogral Juião Bolseiro. insultos e pancadaria de-fazer-de-conta. Picandon. / se tu quizeres. nesse caso deixarvos-ei em paz! Concedemos. «braadador». perdoo-vos de todo o coração. para no fim lhe pedir que o desculpasse. onde entram punhadas. João Soárez Coelho. Ódio? Não. vou dar-te um grande soco na cara «e chamar-te rapaz».» E para começar. ameaças de arrastar pelos cabelos. ai trovador!. para todos fugirem. e peço desculpa do que disse!. insultos.

Vuitoron chama desagradecido ao jogral D.Certo dia. de tipo quase bizantino e com raízes antigas. e mandaron-lh’algo dar. e el cantou logu’enton. de condição inferior. en tal que se calasse. Questões de técnica. / quando quiser cantar. sendo o trovador mais 44 . um infanção mandou que lhe dessem três pontapés na garganta. Numa arbitragem poética entre Rui Gonçalves e Joan Eanes. que citolasse. e a de escárnio. para cantar os versos dele. Insinua até que o jogral. en tal que a leixasse. D. Afonso Eanes de Coton ria-se de Soeiro Eanes por desconhecer as regras de bem trovar. E foi pouco. Damos a primeira estrofe da cantiga 293: Foi a cítola temperar Lopo. e ar deron-lh’ outro don.» Dois magnates portugueses. Martin Galo e afirma ser preciso dar-lhe alguma coisa. às vezes com jogos subtis de palavras ambíguas. Estêvan da Guarda distingue bem entre a cantiga de maldizer. Por beber de mais? Por causa de mulheres? Por falta de jeito? Certo é que não passa dum jogralão (jograron). Joan Pérez de Aboim e Joan Soárez Coelho. não entende a arte de tocar cítola e canta mal. Ainda assim. João Soárez defende-o um pouco ― mas de graça. para ele se calar: «Ben mereç’algo Don Martin Galo. de alta estirpe. onde o ataque é directo e claro. corrigia alguns. que tem forma velada. Entre os poetas vigoravam (mas não muito) as diferenças de ordem social. por leixá-lo. notam que certo jogral.

/ poi-lo ben faç’e ei i gran sabor». ― João de Aboim. apesar do serventês de Pero Mafaldo contra o talentoso jogral Pero de Ambroa. no entanto. Contudo. Quase sempre. os motivos alegados eram geralmente a incompetência: 45 . vejote metido a trovador. também vencerei. tocavas no citolão. ― Lourenço. declara Pérez de Aboim. mas quero-te desenganar: «ben tanto sabes tu que é trobar / ben quanto sab’o asno de leer». o que é um trovador. sobre ambições poéticas: Lourenço. Por seu lado Lourenço e João de Aboim já tinham discutido. Soárez Coelho responde que. venci alguns que diziam mal da minha arte. e com razão: ― Porque deixarei de fazer o que mui bem faço e de tanto me serve? E faço-o também pela minha dama. Lourenço. Agora. fica na sua. Como nós diríamos hoje: mete o nariz no teu ofício. E neste pleito. «o trovar nunca o eu leixarei. ou noutra coisa qualquer. em várias tenções. Por isso te desenganei e direi: «quita-te sempre do que teu non for».unido à fidalguia do que o jogral. acerca do jogral Lourenço. de trovar. ao menos em literatura. Esse jogral não se mete comigo porque sou um trovador de primeira. para me vencer a trovar. Ninguém sabe. Não. como a tenção de Joan Pérez de Aboim e João Soárez Coelho. directamente. Daqui nasciam discussões. era preciso muito saber. o valor pessoal acaba por vencer as diferenças de classe. como eu. pouco entendia João de Aboim. bem ou mal. O que ele tinha eram riquezas: «é vosso Toled’e Orgaz. / e todo quanto se no mundo faz». o certo é que.

não diga mal da sua arte de trovar. o saber trovadoresco do jogral Lourenço e chama-lhe teimoso. averedes pesar do que nós ora queremos fazer: os trobadores queremos poer que se non faça tanto mal cantar. estava o simples jogral. por não lhe aceitar os conselhos. Perguntava-lhe este se fugira de Portugal por ter matado alguém ou roubado. nulh’ome trobador se non aquele que souber trobar 52. Por isso João Soárez Coelho não se conforma com o parecer de Pérez Vuitoron. em duas tenções. Também Pedro Amigo de Sevilha põe em dúvida. sempre os seus cantares terão boa acolhida. Melhor do que Rodrigo Eanes. muito se ririam Pero Sen e Pero Bodin «e quantos cantadores son»! O jogral. per nen un amor que lh’ajamos. dominava o trovador. E muitas foram elas. nen ar chamemos. A crítica literária foi sempre difícil nem pode traduzirse com precisão matemática. à volta dumas nove. ser inútil fazer chacota das suas trovas. Seja mas é juiz das cantigas de maldizer que lhe fez. Por isso diz Afonso Eanes do Coton a Pero da Ponte: «en nossa 46 . mesmo no paço do rei ou do imperador. rise de tais soberbias e afirma. temos ainda a refrega com Joan Vásquez. vinha o segrel. depois. Se o ouvissem cantar. Enfim. porém. Onde ele estiver. ― Não matei nem roubei. tanto mais que «vós ben non sabedes julgar» com imparcialidade. Quanto a Pero Garcia. vim para cá. Vem agora a talho de foice lembrar a escala hierárquica dos poetas dos cancioneiros: em baixo.Pero d’Ambroa. a fim de ganhar a vida. no topo da classificação. e. ou finge pôr. sabe ele fazer um cantar de amor.

Abaixo do segrel. E censurava-o. E se teimais em trovar. São coisas que se não compram nem vendem. furtai as cantigas a outro. a propósito da mesma pessoa. divulgando outros de quem desconhecia o bem trovar em coitas de amor. voz e saber. a pedir alguma coisa no final 47 . eram eles que estendiam o boné. E o outro responde que tal é o seu «mester». diz C. português na corte de Castela: Jogral!. temos uma cantiga de Gil Pérez Conde. por cima das barreiras sociais 53. de Vasconcelos. pois não rimam bem. três coisas são precisas para cantar agradavelmente: donaire. de segrel. Às vezes. passando. pois eram vocábulos flexíveis. em disputa com Joan Baveca. mas sem rigidez. Pero de Ambroa. que segrel e jogral muitas vezes se confundiam. neste caso. Ao famoso jogral Lourenço. embora estando «em situação superior. remédio não há. os jograis. diz ele. se Deus me perdon. compunham versos e cantares novos. E que função era a deles? A de músicos ex-officio.terra. Salta à vista. Sem isto. em geral para o povo e excepcionalmente para a corte. naturalmente». «nunca bon segrel / vimos en Espanha» nem alhures. pois Gil Pérez Conde diz ora jogral ora segrel. neste caso. censura-o por não querer «os meus cantares dizer ant’alguen». apesar de não ser trovador. encaixavam coisas duras. No mesmo sentido. Em termos de vida provinciana e algo caricatural. Se isto não tendes. executantes e propagadores de versos alheios. atira João Soárez Coelho esta frechada venenosa: essas tuas tenções devem ser de João de Guilhade. nota Rodrigues Lapa. E assim. Verbalmente. / a todo escudeiro que pede don / as mais das gentes lhe chaman segrel». M. nem acertam nas sílabas. servia o jogral.

numa das suas cantigas. homem de posses. Mau era o rei. queixa-se de o rei ter querido agredi-lo com o espeto de assar leitões. u mais á. para lhe arranjar peixe. Nas cantigas de escárnio e maldizer. E o vassalo-senhor. desse teu cabelo te falarei já: cata capelo que ponhas sobr’elo. mais tarde mordomomor de D.das cantigas. que el-rei se gabava de ter. exagero ou verdade histórica? Talvez ficção. ca o topete pois mete cãos mais de sete. Ficção poética. Aos jograis e segréis davam os ouvintes alimentos ou dinheiro. Fernan Redondo. Com efeito. entrega dinheiro ao jogral. por ocasião de ele cantar «seus lais». que lançou mão do espeto «en son d’esgremir». também ele trovador. ca mui mester ch’á. 48 . e mais. Sumiu-se o jogral e Soárez Coelho. Pedro de Aragão. segréis e jograis maldavam de tudo. Joan Soárez Coelho. junto dos trovadores mais endinheirados. O desgraçado (já naquele tempo!) pintava os cabelos brancos e vestia-se garridamente. e não poupavam os seus confrades. Uma coisa ficou: esta sátira graciosa da cólera do rei. trovadores. teve de mandar outro. desta vez com um descordo satírico dirigido a Martin Alvelo. E eles também faziam de escudeiros ou criados. para agradar às mulheres: Martin Alvelo. quando andavam juntos. seria o seu cunhado el-rei D. Dinis. Joan Soárez Coelho surge novamente.

algo benévolo e capaz de perdoar. Mas. O que nos parece de mau gosto é a gabarolice algo tabernária de feitos sexuais ou o escárnio da desgraça alheia. Eram infinitos os cambiantes satíricos nos cancioneiros. andasse com mulheres de muitos. está longe de lhe querer mal. temos de atender ao tom. Que o jogral Saco. digamos assim. apesar de velho. dum veterano das pugnas trovadorescas por um noviço da arte poética. entre Bocage e J. quando o vinho traz a verdade dos instintos primários à boca dos homens. além de pedincha. que o segrel Bernardo de Bonaval. ao sorriso e a mil pormenores humanos que envolviam a letra. como nos desacordos poéticos. seja mal feito e homossexual. Estêvan da Guarda afirma que o novato galego Fernan Chacon era incapaz de aguentar uma tenção (uma espécie de duelo poético). afirma que ele é feio e mal talhado. aqui. Mas. Tabernária porque nos lembra certas conversas ordinárias e gabarolas em torno de meia dúzia de copos. numa frechada ao seu colega Pero da Ponte. os homens do mundo trovadoresco. sobretudo em trajes menores.muitos che vejo sobejo: e que grand’entejo toda molher á 54. o enganasse e fizesse do marido o rei dos cornudos. que Joan Garcia de Guilhade se gabe de fazer filhos na mulher dum infanção. por nem sequer entender o que o outro lhe dizia. que a mulher do segrel Pedro Agudo. Quando Afonso Eanes de Coton. tais 49 . Gracejavam uns dos outros e dão às vezes a impressão de se insultar. o burgalês. e tanto Vuitoron como Pero da Ponte se rissem dele. Agostinho de Macedo. notamos já o desprezo.

Estas cantigas. E acabou na degradação final. Temos de contar com exageros. neste ponto. aliás. que bela voz a sua! Mas depois. para melhorar de saúde. Em novo. Pedro Amigo. dando em homossexual e andando metido com infanções. Joan Garcia de Guilhade volta a insistir neste género erótico-maníaco. mulher dele! Esperamos que não lho tenha dito na cara. Chegamos a ter simpatia por Joan Airas de Santiago e pelos seus versos de amor cortês.rebolarias sexuais pouco nos importam. uma distância notável pelo contraste dos tipos e condições humanas. PARÓDIAS DO AMOR CORTÊS. Ainda assim causa impressão esta descida aos infernos de Sodoma por tantos jograis. declarando ao jogral Martin que andava deserto por dormir com D. Ela e a maioria dos versos em seu torno. capaz de talhar bragas e camisas. Pero Garcia Burgalês ao menos aconselha o jogral Fernando Escalho a deixar-se de mulheres. não «se guardou de foder» e perdeu a voz. 5. Entre uma ama de formas repolhudas e as heroínas ideais do amor cortês ia. Maria. a entoar as grandezas duma boa ama-de-leite. entra no ciclo das amas e tecedeiras. que estiveram vai-não-vai para lhe valer uma sova. Pedro Amigo de Sevilha avisa Pero de Ambroa que a sua amante. 50 . no entanto. DOS PRANTOS E DAS CANÇÕES DE GESTA A cantiga de Fernan Garcia Esgaravunha. ou ainda pior. continua a ser o mesmo e que a luxúria é monótona. só provam que o mundo. anda já morta por dormir com ele. julgando-se abandonada.

um pouco de alto para baixo: Não me digais «que ides amar / bõa dona». ninguém duvidará ser melhor de «quantas no mundo son». Quixote. Aqui. D. Bernardo. para nesta demanda saber de quem se trata «e vença quen tever melhor razon»! Mas D. «tanto me faz maior coita sofrer»! É a sério ou só a imitar a paixão implacável (só verbalmente implacável) dos poetas pelas suas «donas»? Talvez a imitar e a parodiar ― ao menos em parte. apelaria para a força da sua lança. Bernardo de Bonaval exige o nome da dona amada. Bem sabemos. Abril Pérez ergue-se furioso: D. em favor da sem-par Dulcineia del Toboso. como «ousastes tal cousa cometer / qual cometestes en vosso trobar. nas primeiras estrofes. nesta «demanda». é precisamente esse amor cortês e os seus opostos que vão servir de eixo parodístico em várias cantigas de escárnio e maldizer. D. não outra mulher! Mas Abril Pérez dirige-se ao rival. Porém. que espécie de senhora costuma «sempr’a servir segrel»! Tenção parodística? Sim. A «dona» melhor de todas é a minha. Mas os dois poetas fingiam talvez que andavam apaixonados e não estamos 51 . souberem quem é. Bernardo. Quando. pois lembramonos dos desafios de D.Ora. Ambos morrem de amor. não entram lanças nem espadas. Bernardo de Bonaval afirma ser maior a sua «coita» e D. Quixote. Abril Pérez de Lumiares e o jogral ou segrel Bernardo de Bonaval disputam sobre o valor das respectivas donas. por ela talvez não gostar. Abril Pérez recusa dizer o nome da sua amada. Sorrimos quando o aristocrata D. mais tarde. Bernardo de Bonaval responde que os olhos enganam a quem bem ama. / que vossa coita quisestes» comparar à minha? Quanto a minha senhora é melhor do que a vossa.

que amor tan saboroso e sen tapone! Que amor tan viçoso e tan são. quem o tivesse um ano «soterrado»! Parece-nos. Tanto amor. tanta paixão para nada! Ao menos um filho! 52 . doloroso (ao menos em palavras) e de pouca dura. amor. contudo. porém. nota Rodrigues Lapa. Ai. Um filho a quem ele deixasse o que tinha e a quem ela criasse! O interesse fundamental desta composição. pela sua artificialidade: Ai. Havia. ora aqui. que devia resultar de suas relações com a senhora». «reside na intenção parodística em face do conteúdo da cantiga d’amor e na menção daquele filho.certos de eles tencionarem parodiar as tenções de amor. fino. pois o romantismo é de todos os tempos. ora ali. «un filho vosso natural. que ninguém o soterrou de vez. amore de Pero Cantone. queno podesse teer atá o verão! Mais valria que amor de Chorrichão nen de Martin Gonçálvez Zorzelhone. / que achasse conselh’en vós». quem motejasse do amor à antiga. embora dizendo à sua dona que vai finar-se de amor. amor. pois vemo-lo florir nos cancioneiros. Mais perto da terra. Gil Pérez Conde queixa-se de não lhe ficar. mais non creo que dure atá o estio 55 O resto da cantiga de Fernan Soárez vai indo por igual caminho: Que amor tão «astroso» e tão delgado. de tanto amor. amore de Pero Cantone. que amor tan saboroso e sen tapone! Que amor tan delgado e tan frio.

Puro e tão refinado. fostes-vos queixar que vos nunca louvo en meu cantar. dona fea. gran med’ei de Dona Maria. tal amor acha uma resposta parodial numa cantiga de Pedro Amigo de Sevilha. a imitar o amor cortês e as suas exigências: Ai. O amor cortês impunha adoração e medo perante a mulher amada. velha e sandia! 53 . no refrém: Ai. e revela ironia subtil num escárnio de amor. uma baralhada subtil e uma paródia de tais subtilezas. sem fazer caso de mim! Noutro lugar temos uma graciosa poesia de Joan Garcia de Guilhade. Pero Garcia. Nesse caso. feia e maluca: Eu a morrer de amor por «esta dona puta» e ela a dormir com outros. Mas o poeta defendese: A minha «dona» quer-me mal. este Gil Pérez Conde. como então se dizia. Zangada? Ora! Não lhe quero bem nem mal. E vice-versa. grita ele ao outro. que nos mataria 56. como se eu lhe quisesse bem. O amor cortês manda que se ame quem nos desama. Por isso. Joan Airas de Santiago parodia dois homens cheios de medo. para quê tanto desamor? Em síntese.Gostava da literatura parodiante. mais ora quero fazer un cantar en que vos loarei toda via: e vedes como vos quero loar: dona fea. Não a amo nem desamo. Finge amar uma senhora velha. só de pensarem que se vão encontrar com a sua senhora.

dê-lhes Deus tão grande fome como a que eu tenho. Pero Garcia Burgalês troça do enfadonho «morrer de amor». como Roí Queimado: «feze-s’ el en seus cantares morrer. Quer mas é comer. gosta de morrer. exagerando o estilo do amor cortês. pois «sabe que viverá. Tudo pelo poder divino. mais ora já un bon cantar farei. – E os que andam para aí a dizer que perdi o apetite e «non posso comer d’amor». velha e sandia! Dona fea. pero muito trobei. com momentos de paródia estrita do amor cortês. Paródia. en esta razon vos quero já loar toda via. quem tal diria? Paródia. e direi-vos como vos loarei: dona fea. mas no sentido lato da palavra. / mais resurgiu depois. des quando morto for». 54 . gosta de viver! Só ele é capaz disto! Tanto se acostumou que nem já teme a morte. pois avedes atan gran coraçon que vos eu loe. en que vos loarei toda via. Hão-de ver que tem «gran coita de comer» quem não tem dinheiro e ninguém lhe dá nada. ao tercer dia».Dona fea. esse grita que morre de fome e não de amor. e vedes qual será a loaçon: dona fea. Pero Gómez Barroso. velha e sandia! 57 Por seu lado. se Deus me pardon. nunca vos eu loei en meu trobar. porque ele conserva o tom sério de Roí Queimado e finge acreditar. Depois. Umas vezes. em que os trovadores morrem e ficam vivos ― ou ressuscitam.

Se D. morta é torpidade. A cantiga de Martin Soárez contra Roí Gómez de Briteiros. Ninguém me castigará por isso! Netas de conde. morta é bavequia e morta neiciidade. morreu a estupidez. então morreu a torpeza. à paródia dos prantos. outro senhor catade. E lá vai ele insinuando-se habilmente como autor da façanha. ai Deus. meu Deus. se é verdade? Sei ca se el é morto. Martim morreu. agora. tudo em verso heróico de 13 sílabas: Mort’ é Don Martin Marcos. ôi-mais. morreu a cobardia e a maldade. na minha terra. Ora. se ele morreu. morreu a parvoíce. Passemos. Uma grande paródia de pranto fê-la Pero da Ponte. que «roussou» (raptou) a neta do conde Mendo. pois cheguei há pouco. terei grande linhagem e meu filho andará «con condes miscrado». eu sou leal e sensato! Pesa-me bastante de quem tal lhe fez. sem brio e 55 . Martim Marcos! Ai. 58 Morreu D. e se fosse verdade? Sei que. Mas. é mais uma invectiva sarcástica do que paródia. sen prez e sen bondade. lembramos a cantiga pornográfica de Afonso Eanes de Coton: A mulher a quem amo anda «prenhe» e nem quero acreditar. apesar do seu ar de lamentação: Ninguém quer defender as boas donas desamparadas! Pois então vou eu buscar à força umas três ou quatro netas de conde.Antes de sairmos deste reino do amor cortês. morta é covardia e morta é maldade. donzelas. logo diriam: «ten baron». viúvas. estais a ver? Nada sei destes foros de Leão. acerca da morte (verdadeira ou fingida) de Martin Marcos. Se Don Martinh é morto. maos costumes. vai tudo raso e escusam de carpir-se ou chorar! Assim.

Quixote: «Contar-vos-ei costumes e feituras» dum cavalo que trouxe um infanção. em troca do reino de Leão. esta razão: Se quiserem. o desafio dos infantes de Lacerda ao seu tio D. No cantar de Airas Nunes. ide em busca doutro patrão! E o pranto alonga-se em torno do grande maroto: Não achareis outro igual até à cidade de Roma. Sancho IV dava terras que não tinha e ficava com as que tinha. Come antes do dia.. na paródia a um cavalo de guerra. maus costumes. mais ou menos parodiada. pois as suas pretensões ao Sacro Império Romano e à Lombardia ninguém as tomaria a sério.. ó maus costumes! Não é rei nem conde. Vela Ladrón de Guevara. e faço isto para evitar desavenças. Sancho IV: ― Ide lá. tomem a Navarra ou o reino de Aragão. Ainda mais: darlhes-ei. Sancho IV de Castela. por mim. sei de certo cavaleiro que dele vos tiraria as saudades. Dom Vela. Agora. como se estivesse com sezões. Se lhe deitam «as armaduras». caminha torto se lhe picam as esporas e não alcançaria um leitão a andar.sem bondade. em 1289. passamos a Fernan Soárez de Quinhones. custa a levantar-se e só corre quando as moscas lhe picam nas feridas. estamos já no campo da literatura épica. daqui em diante. D. em troca. Traz 56 . É duma categoria que não direi. A resposta entregou-a D. Procurai-o alhures! Contudo. por intermédio do rei de Aragão. antecessor do Rocinante de D. São pequenos cantares de gesta para rir. Tem os cascos moles e o trote duro. Em Airas Nunes. põe cara de furão e tremem-lhe as crinas duras. e mostrai. o mais qualificado cavaleiro del-rei D. Enfim. quanto é meu na Lombardia. vamos encontrar a paródia dum facto histórico.

a quem D. ouve-se a exclamação Aoi! É um grito de guerra germânico. Grito basco e não germânico. enganar-se-á. onomatopée “comme le lon là! des cordonniers” (Sepet). pensa Ramón Menéndez Pidal 59. Em português dos nossos dias. AOI aparece depois no Roman de la Violette. d’après sa place tout au long de la Chanson. E na paz. “allons!” (Lehugeur). uma pequena digressão. Na paródia. quel peut être le rôle de l’aoi. E antes de tudo. fiado neste cavalão. diante duma obra-prima de Afonso Lopes de Baião. se meter em loucuras. Deve andar na história qualquer conflito com o mosteiro de Longos. Afonso III elevara à categoria de rico-homem. reduzíveis a duas categorias. logo no final da primeira estrofe e depois. na guerra. Mendo Rodrigues de Briteiros. «Celles de la première s’appliquent à dévoiler le sens de l’aoi sans trop se soucier de ce que leur explication puisse ou non s’accorder avec le sens de la Chanson: “en route !” (Génin). Eis-nos. Seja como for. “amen” (Mandach). a imitar as canções de gesta francesas. chama-se ele Dom Belpelho.feridas nos joelhos e julgo que se alguém. sem omitir sequer a exclamação Eoi! A pessoa parodiada é D. de vez em quando. Pierre et du Jongleur: 57 . E conta mais de quarenta explicações. de que os Briteiros eram defensores. Na Chanson de Roland. tout en renonçant à expliquer sa signification propre: c’est le cas de l’article bien connu de Grace Frank et de ceux qui s’en inspirent» 61. Ou bien ― et c’est la deuxième catégorie ― on se demande. enfim. nenhum cavaleiro vilão o quereria trazer nas Astúrias. lettres gnostiques (Kahane). da alta nobreza de Portugal. afirma Daniel Devoto 60. o Raposo. na Farce de Pathelin e em De S.

caval’ agudo. u inquire o can» e no escudo ataes lh’ acharan. dit S. nen porta loriga nen porta lorigon nen geolheiras. A Don Belpelho moveu esta razon: ― Ai. Génin. escud’a colo en que sev’ un capon. u é Joan Aranha. duas esporas destras. Per porta lh’entra Martin de Farazon. que vos ten o pendon? Se é aqui. cinta sen farcilhon. Na Inglaterra. cuitel cachado. Eoi! Estas oras chega Joan de Froian. sen estrebeiras e con roto bardon. lança de pinh’ e de bragal o pendon. que lhi pende do arçon. chapel de ferro. ficou Eoi!. caçurr’ e alazan. o vosso companhon e voss’ alférez. insiste F. saia desta maison. que semelha foron. decerto a imitar o francês: Sedia-xi Don Belpelho en ũa sa maison que chaman Longos. E em Portugal. 58 . sinaes porta eno arçon d’ avan: «campo verde. Pierres. avoi!» 62 O v desapareceu em certas regiões e pronúncias. quaes de ferro son. e sobarcad’ un velh’ espadarron. onde eles todos son. mais trax perponto roto sen algodon e corberturas dun velho zarelhon. meu senhor. cavalo velho. maça de fuste. assi Deus vos perdon. avoi transformou-se em away!. ca seestras non son. que foi poleir’ en outra sazon. que xi lhi mui mal pon. en cima del un velho selegon. ca já os outros todos en Basto son.«Avoi!. e daí aoi.

. esquelético e de ossos salientes. faltam59 ... non valredes un pan... se os que son en Basto se xi vos assi van. Sa catadura semelh’ a d’un jaian. Eoi! Esto per dito...ceram’ e cint’ e calças de roan. que digan todos quantos pós nós verran que tal conselho deu Joan de Froian... achá-los-edes e escarmentaran. mas id’ a eles. Traz uma velha almofada em vez de sela.... escud’ a colo. para não cansar o leitor: Estava Dom Belpelho sentado na sua casa em Longos Vales e eis que lhe entra pela porta Martim de Farazom. ai. lembra um furão... Venha Pachacho e Don Roí Cabreira... pera daren a min a deanteira....... trazendo um escudo com sinais de ter pousado nele um capão e de ter sido poleiro. velho de matreira. [. Vingad’ a casa en que vos mesa dan. que foi dũa masseira....... O cavalo.. ca xe vos non iran..... o moordom’ e o sobrinho de Cheira. esse filho da freira..] e achou Belpelho estando en ũa eira e diz: ― Aqui estades..... chegou Pero Ferreira... que non á antre nós melhor lança ponteira. e a lança torta dun ramo de cerdeira...... Ante Don Belpelho se vai aparelhan e diz: ― Senhor. e Meen Sapo e Don Martin de Meira e Lopo Gato... vermelho na peteira. ca já vos tarda essa gente da Beira. Eoi! Vamos resumir um pouco esta paródia 63... cavalo branco...

a lança é de pinho e o pendão feito de bragal. Haveis de achá-los e hão-de arrepender-se. meu senhor. chegou Pero Ferreira.. E no escudo. Mem Sapo e Dom Martim de Meira e Lopo Gato. gibão roto de pano grosseiro. Ide ao encontro deles. o mordomo e o sobrinho de Cheira. Eoi! Chega entretanto João de Froião. Veste capa larga e cinto e calças de Ruão e a sua catadura assemelha-se à dum jaião (gigante). filho de freira. Vai-se pôr ante Dom Belpelho e diz: ― Senhor. Veste. E Martim fala a Dom Belpelho: ― Ai. em cavalo branco e com um escudo feito duma masseira. que não vos escaparão.. Eoi! Dito isto. velho matreiro! Venham Pachacho e Dom Roí Cabreira para me darem lugar à frente. Vingai a casa (o mosteiro de Longos Vales). cinto sem fivela. O capelo de ferro ajeita-se-lhe mal. onde está João Aranha. entre nós. pois já vos tarda essa gente da Beira. onde tendes mesa vossa! E digam todos os que depois de nós vierem que foi João de Froião quem deu tal conselho. os mesmos sinais. era torta. montado em cavalo velho. A lança.lhe as estribeiras. estais aqui. manhoso e alazão. nem joelheiras de ferro. vosso companheiro e alferes do vosso pendão? Se aqui está. porém. não valeis um pão. cutelo. leva esporas à direita (por não existirem as da esquerda) e maça de pau presa ao arção. assim Deus me perdoe. se os que estão em Basto assim vos levam a melhor. Encontrou Dom Belpelho na eira e disse: ― Ai. Dom Belpelho não traz loriga (saio de malha). saia da casa. melhor lança. a albarda está rota. Sobraça um velho espadalhão. Eoi! 60 . com estes sinais heráldicos no arção da frente: campo verde e um cão a farejar. porque já todos os outros em Basto são. que não há. nem lorigão. dum ramo de cerdeira.

e ao mesmo tempo imitação directa das Chansons de Geste da França do Norte. pois começa: «Deu ora el-Rei seus dinheiros / a Belpelho. Desta forma.» E acaba rindo-se do rico-homem e dos seus vassalos: «qual ricomen tal vassalo. e o tal meirinho prometera-lhes que cada qual trovaria a gente da sua condição. gesta parodial para uma guerrazinha comarcã. Porém. O ricohomem de velha estirpe ridiculariza o infanção. tal campana». Joan Garcia de Guilhade era de menor condição que Soárez Coelho. no ardor da refrega poética. É «a primeira paródia da literatura portuguêsa que. Com este fim mostra-o. as tais «coteifas e 61 . no cantar dos eóis. quer dizer o mosteiro de Longos Vales. ostenta tantas riquezas. a quem a mercê do soberano concedera recentemente pendão e caldeira. O CICLO DAS AMAS-DE-LEITE Talentoso segrel. mas na casa de Ordem de Longos onde tinha pousadia. / qual concelho. no século XIII. finge que o meirinho vai proibir Garcia de trovar «por ricas donas nen por infançoas». trata-se de vingar a «casa en que vos mesa dan». e vassalos para criar e armar. não no seu solar. Na cantiga seguinte. se nos permitem o título. Disto se queixavam as mulheres de menor condição ou do povo. com o novo rico-homem. que mostrasse / en alardo cavaleiros / e por ricomen ficasse. Mas não é nesta ironia que consiste a novidade. trata-se dum alardo. Este. Dom Belpelho a reunir as tropas.Em suma. 6. como natural e padroeiro» 64. neste campo ameno. É a única que comprova conhecimento um tanto íntimo da poesia épica francesa em Portugal.

E a cada um o que é seu! Quer dizer. do mundo a mais amada.. por sinal. Tendência. mas nós ainda melhor. Que boa ama. E os trovadores de gente grada. Não era bem uma luta de classes. formosa e bem talhada. umas seis ou sete. E que deixasse o resto. sabe moer e amassar e tem muito de 62 . pertence-lhe a cantiga 166 do Canc. dissemos nós.outras cochõas» seriam cantadas por Garcia de Guilhade. esta de Soárez Coelho! Sabe fiar e tecer. E joga com as palavras ama e amar. escreve uma paródia da ama e das suas qualidades ― e estamos a ver uma simpática aldeã. Trovar aqui e não para os lados de Santarém. na celeuma trovadoresca levantada por este cantar. Ama. por seu lado. se não vivesse num mundo de fazer de conta.. Fernan Garcia Esgaravunha. em louvor desta ama «tan pastorinha». a cada poeta pertencia o público da camada donde vinha. João Soárez Coelho estaria em maus lençóis. O trovador que for vilão chame senhora à sua mulher. É mulher de respeito. lava bem e faz boas queijadas. Soárez Coelho tratava-o no mesmo tom e convidava-o ironicamente a ser juiz nas cantigas de escárnio que dele fizera. Na verdade. Airas Pérez Vuitoron. talha bem umas calças ou uma camisa e nunca vistes pessoa da sua condição «que mais limpa vida» saiba ter. carrega sobre Soárez Coelho: Sabeis trovas. «con esses juizes que vós queredes»! Aliás. D. quer dizer. tão senhorita. esses cantariam as «mais altas donas e melhores». da Ajuda: «Atal vej’eu aqui ama chamada». mas sim uma tendência egoísta de confinar os pequenos na pobreza social (e também temática) do seu mundo. e quase um pretexto para uma guerra trovadoresca.

que é uma limpeza! E sabe fazer encantamentos. mete-se também com o ilustre D. quando tecedoras»? Outros já me perguntaram o mesmo. para a gente fina de então. não há melhor enchido nem melhor morcela «do que a ama con sa mão faz». Juião Bolseiro replica nunca ter visto o que se chama «molher ama». as bruxarias e benzeduras. o louvor de tal ama tinha muito de escândalo. afora.boa leiteira. Joan Soárez Coelho: que pelas terras por onde andara. Garcia Esgaravunha. No entanto. Porém. pobre jogral. se lesse mais vezes a Bíblia. claro está. Porém. no Livro dos Provérbios. e vi-lhes criar. Ela capa franganotes. dir-te-ei o que vi: vi boas donas tecer e lavrar cordas e cintas. lava bem um morto e sabe deitar uma galinha choca 65. Dentro do amor cortês e da sua mundividência. parece-nos ouvir algo de parecido ao elogio da mulher forte. Em toda a Castela. Juião Bolseiro. talvez hesitasse em desfazer ironicamente nas amas e no mundo que as cercava. por sinal maiores trovadores do que tu. mui fremosas pastores. per bõa fé. O marido castra porcos e não tem igual entre Burgos e Carrión. graças a Deus. nunca vira senhoras de categoria a tecer ou criar filhos. Que vira senhoras de qualidade não só a tecer e bordar cordões e cintas mas também a criar lindas crianças. a não ser que amamentasse 63 . responde João Soárez. Faz chouriço gostoso. com o berço diante da lareira: «u fostes achar / d’irdes por entendedores filhar / sempre quand’ amas.

acaba assim a tenção: Juião. por isso. Soárez Coelho. Era ele quem tinha razão e.ao menos durante um mês. Haveria contradição em Soárez Coelho. Foi então que D. Nunca. Juião Bolseiro nada sabia do que era uma senhora a embalar uma criança. dize a João Soárez Coelho que louvo senhoras (donas). Nem elas nem criadas. As senhoras que ele descreve eram verdadeiras senhoras ― que ninguém lhes tocasse. pois manda el-rei «que troben os melhores trobadores / 64 . no entanto. ficas a saber «que o mal vilan non pode saber / de fazenda de bõa dona nada». que empurrara Joan Garcia de Guilhade para o meio das mulheres do povo? Não tanta como a princípio nos parece. cintas e cordões e elas a mim. ao fogo da lareira. dar-lhes-ei sempre com que vivam e de vestir. num cantar dirigido ao jogral Lourenço: Por Deus. O vilão que trovar souber. Não confundir! Mas Garcia de Guilhade era teimoso e exclama. nem as vira nunca embalar o menino em frente da lareira: «nen ar vi teer / berç’ ant’ o fog’ a dona muit’ onrada». Às que me criaram. Às donas dei eu. João Soárez Coelho o mandou trovar para as mulheres do povo e que deixasse em paz as «ricas donas» e as «infançoas». porém. trovei «por amas onradas». Só estas eram amas. por soldada ou privilégio de ofício. muitas vezes. Mas nunca por mim «seran amas loadas». chame senhora à sua mulher e não suba mais alto. insiste em alargar o conceito de ama às boas donas que teciam e bordavam cordas e cintas e criavam lindas crianças (pastores) em casa. Só farei trovas às boas donas «e sempr’ estranhei / os que trobavan por amas mamadas». De facto. Lourenço. Em vão teimava o seu adversário que as senhoras não tecem.

7. por Fernão Lopes. Porém. nem noutros lugares. num gracioso serventês. SÁTIRAS DE VIAGENS. por bondade. e un jantar mui pequeno». santo Deus! Tranquilamente. do século XIII. o almirante Pai Gómez Charinho. ou quase. e para disso nos convencermos basta ler a Crónica del-rei D. Gonçalo Eanes do Vinhal fala-nos de infanções que se arruinavam. isso não! Aliás. Fraca sorte! Roí Queimado batera à porta dum cavaleiro. Alguns deles. Às vezes. com «maior prazer / em comer». eis o destino de muitos viageiros. Pero da Ponte. perguntou pela distância até à casa de D. queixa-se de o rei comer muito ― e com que gosto. pela grandeza com que recebiam o monarca de passagem. como sucedeu a Gonçalo Eanes do Vinhal. e tencionava albergar-se em casa do tal cavaleiro. Em Espanha. POUSADAS E PEREGRINAÇÕES A Idade Média era mais andarilha do que nós pensamos. o trovador. outros. ao passar por Campos. Xemeno de Ayvar. A gente pobre encontrava dificuldade nas viagens e peregrinações. Os reis também viajavam pelas terras do país. o monarca responde que outros reis foram maiores em ganhar terras. há muito que não jantara em Carrión. E o «mastin» mordeu-lhe o sendeiro. Um dia longo a caminhar e um pequeno jantar no fim. para ter 65 . por interesse. um infanção qualquer soltava-lhe o cão. Não tinha dinheiro.polas mais altas donas e melhores»! Aqui está um decreto poético bem forjado. E responderam-lhe: «un dia mui grand’ á i. Pedro I.

«polas oitavas de Natal». nunca dorme nada». Chovia água. era uma senhora a sair para ouvir missa. Tudo com muita delicadeza. juiz de Lagares. Grande peregrina das pousadas era também a famosa Maria Balteira. bom sinal! Ao que Joan Airas de Santiago respondia que preferia uma perdiz ou um capão a um corvo. aparece-lhe «un corvo carnaçal. Um corvo à esquerda. O porteiro foi dizer-lhe que ele queria jantar e o maroto açulou-lhe dois grandes cães. jograis e trovadores nem sempre tinham a vida fácil. outros faziam o mesmo. a ele e ao cavalo. se tinha espirrado ou não e quantas vezes. Como se vê. outro cão de alto lá com ele. Lembramos. mas «nunca tornades». consultava o voo das aves: Ver uma «ferivelha sempr’ ao sair». As soldadeiras andavam pelas pousadas. trabalhava. Essa. E como esta. um preto e outro malhado. se Deus a dava. vinho e carne. antes duma viagem. Desaparece da vista. era tão supersticioso como a Balteira. não soltaram o «gran fareleiro».notícias dele. entre elas a manhosa Maior Garcia que. «de noite. se bem que Pero Garcia «nen un dinheiro non tragia». Pero Garcia Burgalês. tão cantada pelos trovadores e jograis. E assim o pôs a andar. no entanto. esse bateu à porta de Martim Fernandes. que Picasso. e que lá vendiam pão. Pior do que Maritornes. ao menos. mas nenhum homem lhe escapa. ali perto. Dava importância aos agoiros. Quase o iam matando. / e non quis da casa 66 . e o juiz foi bom: Disse-lhe onde estava o «albergue». Por acaso. Os poetas sentiam gosto em rir e sorrir desta mulher fácil e dos seus caprichos. Noutra cantiga. no começo da viagem. Nisto. era bom sinal ou havia perigo? E Pedro Amigo de Sevilha responde-lhe que sim.

Tudo lhe corria mal. E não eram só a Balteira e a boa dona que assim pensavam. mas também outras regiões em torno.» Desta noite até amanhã. mas o corvo crocitava por cima dela e a boa dona «non quis da casa sair». sobre a casa dele. Temos. com intenção de chegar a Santiago. Um corvo teimava em voar baixinho. incapaz de governar a vida na terra e sem licença para sair dela. O padre ia zangar-se. sem primeiro lhe jurar que nunca mais a deixará. tinha a «besta cansada» e o castelhano alcançá-lo-ia em breve. Cruzados e peregrinos da Terra Santa contavam maravilhas de guerras e cidades longínquas. Abrangia não só a Terra Santa. Pero Núnez ia sair. quis abalar para o Ultramar. D. temos o ciclo do Ultramar. Em ambos os casos. Matar não seria bom para ele. Ser morto era outria «ventura minguada». Má sorte a sua! A mulher recusa entregar-se a ele. que pouco entendia da vinha e da sua poda. Assim dizia Estêvan da Guarda acerca de Álvaro Rodrigues. um pobre homem. Era sinal de morte: «Do nout’ a crás terrás finado. temos «Paai Rengel e outros dous romeus / de gran ventura». e já não partiu. Havia ainda os que abalavam em peregrinação à Terra Santa. assim.sair». Havia até os que nunca lá tinham ido. onde já estivera. Com um sorriso. declara o poeta nunca ter visto agoiros tais. algumas delas dominadas pelos cristãos. serás finado! Nas pousadas. Para começar. às vezes armavam-se desordens e Gil Pérez Conde fala-nos dum castelhano brigão que esteve quase a bater-lhe. mas gabavam-se disso. Resultado. para melhor sorrir. na terra onde se criara. Grande sorte a destes cruzados e que 67 . E Gil Pérez exagera talvez o perigo e o ar brigão do espanhol. Fugir? Ora. alguns para combater. só por lhe falar de Portugal. desde o dia em que nascera.

Que lá fosse ou não fosse. sentiu muito gosto em voltar para cá. Mas. acompanhado por turcos: «com torquis do Emperador». natural de Rocamador e de nome «Don Andreu». O sepulcro estava a três léguas de Santarém e a umas quatro ou cinco de Loulé. 68 . Tiveram até uma «lide» em Belém e chegaram ao porto de Tamariz. Por lá passou também Soeiro Eanes. e por lá andou Nosso Senhor. e ir a Nogueirol jantar e maer a Jerusalen. Eis-nos. por graça de Deus. pelo caminho de Coira e Galisteu (na região de Ciudad Rodrigo). como lhi eiri oí falar: diz que pod’ ir quen ben andar de Belfurad’ a Santarém. Aportaram em Alcor. O judeu que viu prender Nosso Senhor era um pastor. Belfurado fica aí. por Soeiro Eanes. Esta sátira de Afonso Eanes do Coton é uma de muitas. em romaria. Porém. que vio prender Nostro Senhor 66. depois de o sultão lhe perdoar. numa «lide que foi en Josafás». conhece-a bem. E diz que veio uũ judeu. Parece-nos estar a ouvir certas passagens de Gil Vicente. Martin Soárez confessa que nunca foi à Terra Santa. se noutro dia madrugar. estiveram em Mormoion e noutros lugares de nomes impossíveis de entender. Contou-lhe ele que Marselha está para lá do mar e Acre jaz aquém: E as jornadas sei eu ben. porém.grandes rebolarias as suas! Não morreram. na presença do ciclo de Pero de Ambroa e o Ultramar.

Pensa muita gente que nasceste da tua mãe e dum cação ou dum lavagante. por fim. ao passar por Roncesvales. pois muito já fizera. por não ligares importância à «tormenta do mar»! Pedro Amigo de Sevilha intervém no cerco a Pero de Ambroa e à sua peregrinação aos Lugares Santos.» A este monte (pui) iam os romeiros da Idade Média. Lá chegou Pero de Ambroa e de lá voltou. Lembramo-nos do verso de La Chanson de Roland: «Halt sunt li pui e mult halt les arbres. como lá foi Pero de Ambroa. talvez Nossa Senhora de Rocamador. E julgamos isto. bem poderia ir ao Ultramar. Estamos a historiar a troça em torno deste acontecimento e a vasta gargalhada poética que o envolveu. Ninguém. Gonçalo Eanes do Vinhal duvida que Pero de Ambroa a fizesse. e a ele chama João Baveca o poio de Roldan. Era homem que tinha de viajar e Joan Baveca recomenda-lhe. Tornando à romaria da Terra Santa. Depois. Pero de Ambroa. nos Pirenéus. Não por receio da travessia do Mediterrâneo.pouco nos interessa. Com a condição de não serem longe. insiste ironicamente João Baveca. como tu. parou em Roncesvales e ficou no «poio de Roldan». o «corno de Roldan». que derranque o rabo de certo albergueiro de má vontade ― com uma narigada «desses vossos narizes». dizia Baveca. porque não passou de Mompilher. E Joan Baveca continua a chufar dele e recorda. Se eu agora me «quisesse cruzar». resolveu «que fosse romeu de Santa Maria». Prometeu ir ao rio Jordão e deu tudo em nada. por sinal. Gostava de peregrinações. pois tanto se lhe dava o mau tempo como a bonança. E como? Morando «na 69 . para não fazer caso do mau tempo no mar.

não trovei sobre a vossa peregrinação ao Ultramar e vereis porquê. A esta cantiga de Pedro Amigo sucedem-se outras duas do mesmo poeta. viram «que nunca vós 70 . mais tarde. tanto mais que tais invasões se tinham ramificado na direcção da Terra Santa. Nada tão natural como falar do Grão-Cã. receio que te aconteça alguma coisa. Cuidado. Enfim. Na primeira.melhor rua que achou / e dizer: ― Venho d’Ultramar». tal qual em Mompilher. porém. Ora. Estamos nos meados do século XIII e os mongóis devastavam as terras da Polónia e da Hungria. contra a soldadeira Marinha. e escutar as notícias (dos Lugares Santos). temos a cantiga de Pero Gómez Barroso: Pero de Ambroa. passaram depois a falar do «Gran Can» ― e lá os deixei a discutir! Na segunda. foi meter-se numa «vila» e de lá não saiu antes do prazo. Quantos aqui moram. à maneira dum «gran palmeiro» que veio de Jerusalém. trovaria eu sobre Acre e a Terra Santa. Oh Deus! Posso até fazer tudo aqui. Se tivésseis ido. como ele fez. Ambos conheciam a Terra Santa de Jerusalém. por causa da tal peregrinação aos Lugares Santos. Ora essa! Pero de Ambroa foi de facto a Jerusalém e. isso também eu posso fazer e ficar em Mompilher. Se ele te apanha. dando assim pretexto às gabarolices de Pedro Amigo de Sevilha. tu andas aí pelas pousadas. Calculou o tempo de ir e vir a Jerusalém. Marinha. em Burgos. e contá-las depois a quem me perguntar. É que vós não estivestes lá. «come romeu / que ven cansado». mete à bulha João Baveca e Pero de Ambroa. E volto antes de entrar no mar e nas suas tormentas. o vi eu tornar. finge tomar a defesa do Pero de Ambroa. a qual apregoava que ele «nunca foi na terra d’Ultramar».

Há fiascos e ridículos em todas as profissões. então. quantas viagens dum lado para o outro. reunimo-los aqui para melhor arrumar os assuntos. Bento a Mompilher. Também elas serviam para fazer rir um trovador atento. entrou para o serviço dum destes fidalgotes que 71 . Contudo. Jesus Nazareno. Bela poesia. na verdade. preferimos um serventês de sabor alegórico. tudo «por erdar comendas e benfeitorias». sem pensar «quan pouco sa requeza logr’ o romeo». em que grã coita andamos pelo mar desta vida! Nunca paramos. as misérias do Lazarilho de Tormes. como a de D. com um refrém neste sentido: Ó Rei dos Judeus. antes deste capítulo. dão-nos só leite e pão de centeio! Nunca vemos senhoras nem olhamos para elas. Ou. Faziam-se viagens comerciais. antes falamos aos alcaides e entramos em demandas. quantas questões por amor das honrarias e do dinheiro! E não reparamos na beleza do mundo. Contudo. e de sabor filosófico. gozaremos essa glória e esse dinheiro amassado com dores! Sátira profunda. quando ele. Quantas inquietações.passastes alen mar». Porém. hei-de cantar as vossas manhas. Se nos convidam por alguns dias. pois as tendes. 8. andamos pelos caminhos. em Toledo. a Farsa dos Almocreves. peregrinos da vida. de Gil Vicente. O FIDALGO PELINTRA Fidalgo pobre (com a mania das grandezas ou sem ela) e fidalgo pelintra nem sempre coincidem. para fim deste capítulo. E quase pediríamos ao leitor para ler. nem pensamos que bem pouco nós todos. esta.

mas em Jaén. na quinta. Comprou Fouce em terra de Cabreiros ― e diz que não se importa «de viver pobre». O jantar não devia ter sido grande coisa. E todos o terão por «astroso». mais longe. bem penteada. ― Louvado seja este jantar honrado!. bocejou e mandou buscar uma bruxa para o esconjurar. segue-se. mas o poeta descartou-se da situação. Em má hora encetou ele a vaca e «Don Fagundo quer ora morrer». 72 . besuntado e sujo. na rua. a ele que descendia «dos de Vilanansur de Ferreiros»! Deles e dos de Escobar e Campos. a quem os porteiros punham fora. jurei nunca dizer mal nem bem. de andar compassado e cheio de modesta importância. uma sátira de Airas Nunes à pelintrice dos infanções. outro rico-homem de pequena estatura. De Afonso X. mas são capazes de rebentar de fome para salvar as aparências: bem penteados. A outro recomenda el-rei que. A velha. para não lhe deitarem mau olhado. cortou um pedaço da vaca e ela morreu. pise ele mesmo as azeitonas. disse-lhe que o mal dele era fome e largou-se a rir. Ansur Moniz. Aqui temos. Também este fidalgo não sofria de fartura. disse o infanção ao poeta. numa pia. descrito por Afonso X. quando andava na guerra. alegando a sua promessa. respondeu Airas Nunes. ― Louvá-lo-ia de bom grado. Noutro caso. temos o fidalgo de meia tigela. graves nas palavras e. com antepassados de Lavradores e Carvoeiros. temos um rico-homem que mandou cozer meio rabo de carneiro e a outra metade penduroua ao pescoço. A este cantar de Afonso Eanes do Coton. D. Estendeu-se. Fagundo. pois. para jantar com dois cavaleiros.a gente não sabe donde vêm. o Sábio. porém.

e uma peliça de chufas. Deixemos Estêvan da Guarda. cravejada com patranhas. cintada. como e não faço contas. que ele me prometeu em Janeiro? Criou-se em Castro Mentireiro. O amo-fidalgo prometeu muito. A mulher zangou-se com o negócio. anuncia outra cantiga. Tudo burla. vá-se em boa hora! Que alívio para ambos. mas valia ainda menos. Dom Fuão nos vestirá dum «pan’ estranho» e duma gualdrapa. diz um deles. Pois que se vá «en ora boa». tudo mentira. até 73 . Aqui. Certo cavaleiro resgatou-se por quase nada. nada cumpriu e os criados riem-se: Na primeira rua onde chegarmos. ao menos. Um infanção pelintra veste-se com roupa de Joan Servando e vai-se desculpando. Daqui não sairei sem capa! Vistes o «potro coor de mentira». tão leve era que uma formiga podia-a trazer da Corunha! Prometeu-me uma espada moura e não sei onde a perderam. loriga ― e tudo eram cantigas. Vai a caminho de Seia para Entre Doiro e Minho. pela precisão que têm de dinheiro ― e há uma certa alegria cruel nas palavras do «corretor». fugir da miséria dourada da corte! É a fábula do rato da aldeia e do rato da cidade. Se o senhor vai para Entre Doiro e Minho. Prometeu-me armas bem lavradas. A loriga. eram dois ratos aldeões que se escapavam. pois o cantar do galego Martin Anes Marinho vale mais e põe-nos em contacto com escudeiros na situação do Lazarilho de Tormes. Mas dele recebi um gibão «de nevoeiro».Dom Fuão e a mulher vendem barato panos ricos. conta-nos Martin Soárez. Prometeu-me ele uma capa das boas. que hão-de eles fazer? Certo rico-homem vai-se embora de Lisboa. Neste caso. mas eu fico na Estremadura. Coitados. As calças serão feitas «de névoa» de antanho e ver-nos-emos enfeitados com chufas.

Ou melhor. porque o tinham e não receavam gastos. infanção. já a trazeis há três! Mandou-vos comer carne duas vezes. está o cavaleiro arruinado. Veste-se 74 . Na cozinha dele. Soeiro Fernández é um peralvilho de «çapato dourado». Por exemplo.acabar por uma negativa: «non vos darei os panos a meu grado». sem cozinha e sem quintal. Tão mau foi o jantar que o poeta jurou que nunca mais! Igual a este era certo infanção. só paredes e tecto ― e Pero Gómez Barroso ri-se do pobre homem. Ora. de pelintrismo psicológico. Alguns infanções andam pelas feiras. citado por Pero da Ponte. Por seu lado. Tudo gelado. entre Burgos e Carrión. insiste o poeta. quereis vós que el-rei vos tire as terras? É que desobedeceis ao seu decreto! Mandou ele trazer a capa dois anos. sim. a deitar figura e a curtir a miséria. nem moscas nem fogo aceso. É beber o frio! Claro. Que grande salmão à venda. quase tão grande como uma baleia! E ele e a mulher que morriam por aquele peixe! Mandou um dos seus homens comprar o «salmon fresco» e. havia infanções que comiam bem. o vinho sobelhes à cabeça e não se aguentam nas pernas. Comem pouco. pague quem estiver para isso. o infanção de Carrión. Levou-o a jantar. «quite quen poder». Não se tratava sempre de pobreza envergonhada mas. E não a quereis cozer ao menos uma! Noutras casos. Por Deus. depois. Outros porque levavam e não pagavam. Pero Lourenço andou à procura de casa e comprou uma sem quarto. Uns. no Verão e no Inverno. mas ainda fala como nos tempos antigos: «Ajudar quero senhor e amigo!» Antes este cavaleiro de Joan Garcia de Guilhade do que o infanção de Pero da Ponte.

e desto mi faço maravilhado: ca. Aliás. em calçar e vestir. Contudo. não há que duvidar: El se veste sempre ben como quer.. nen s’ergeu.. Mas. mais prougu’ a Deus que choveu.bem. mísero cavalo lazarento». e já se leva! 68 Teve sorte. Os que sorriam da pobreza nem sempre viviam melhor. gasta ele mais do que tem. Um deles foi Afonso Eanes do Coton. Anda um pouco por toda a parte. entre elas a de um cavalo abandonado e sem ferraduras. cresceu a erva e o cavalo arribou: Un cavalo non comeu á seis meses. pobreza não é vergonha e pode até servir para encobrir defeitos. Veio a chuva. E quase nos lembramos do soneto de Nicolau Tolentino: «Vai. custe o que custar poder. nunca lhe vejo faltar nada e não olha a despesas. este cavalo. a quem Martin Soárez dirige uma sátira pungente: Putanheiro. en inverno e per qual tempo quer. e per cabo si paceu. a quem o dono não dava «cevada neno ferrou». Este janota descrito por Rodrigo Eanes Redondo ainda não morreu. sem dinheiro mas sempre à moda. sempre lhe vejo capato dourado 67. e des i. Por outro lado há ainda outras misérias. e non creades quen vos al disser. 75 . Assim julga Pero da Ponte. e creceu a erva.

herdeiro do espírito medieval. Um goliardo temperamental e talvez sem grandes estudos. que bem o diz e mal o faz. 9. Homens que sofriam pelos males da Igreja ou trovadores que estendiam a sátira aos imitadores de Frei Tomás. E deixo as «putas de mi ben dizer. o Sábio. Na minha angústia. sem eira nem beira. escutamos os seus versos tabernários. escrito a frio por Martin Soárez. Aqui está um goliardo que escrevia na língua materna. a Ballade de la grosse Margot. refugio-me «na putaria». a começar pela de Afonso X. Eram simples questões de família. a viver sozinho e a vagabundear «por estas ruas». tratadas à maneira livre de Gil Vicente. / e de mias manhas e de mia folia». SÁTIRAS AO CLERO. bem podia o desgraçado trovador ser um homem de consideração. E ao lermos este retrato. Hereges? Não. Mas as mulheres e o vinho davam cabo dele: «pago-m’ eu deste foder astroso / e destas tavernas e deste bever». pensamos em Villon. Nada valho.amigo de jogar aos dados. peguei-me a isto e não quero por «outras fronteiras andar». 76 . AOS MOSTEIROS E A DEUS No clero metemos a igreja hierárquica. Sentiam-se nesse direito. a balada às mulheres de Paris e. sobretudo. o concílio tridentino ainda não domesticara os fiéis e estes não receavam dar pasto ao mal-querer dos protestantes e dos incréus. e assim vou indo. desde as ordens menores ao papado. As línguas destravam-se.

and’ eu excomungado. num sarcasmo cheio de ironia: Meu senhor arcebispo. há sátiras contra o alto clero. senhor. non á molher / a que non faça que semelhan grous os corvos». Que fazer a tal homem? Penhorar-lhe a «cadela». desta vez por motivos políticos. Por isso. Nem o Papa escapou. E a cadela era a amante. soltade-m’. eles tinham jurado lealdade a D. Ainda no campo da política. por que fiz lealdade: enganou-mi o pecado. e jurarei. escreve o jogral Diogo Pezelho. pois excomungava quem não entregasse os castelos ao conde de Bolonha. Sancho II. con que faz seus conselhos. que seja traedor. exclama ele. ca non furtar con elhos e os panos dos cristãos meter sô sa capa. Afonso X julgava-se com direitos ao Sacro Império Romano e não foram amistosas as suas relações com a cúria romana: «se me graça fizesse este Papa de Roma»!. Mais adiante. 77 . Mas nem o Papa nem os cardeais lhe pareciam equânimes e intrometiam-se no que pertencia ao rei: Se con os cardeaes. dando volta à cabeça das mulheres: com os «livros que ten. mandado. fezera gran mercee. posesse que guardasse nós de maos trebelhos. Nem lhe escapavam as mouras. o deão de Cádiz lia por livros de amor e bruxaria. ai. outra vez um deão. Ora.Feiticeiro e devasso. Roubara um podengo ao rei. talvez o mesmo. Quisera eu assi ora deste nosso Papa que me talhasse melhor aquesta capa 69.

mandado. poren diz que non é torto quen faz traiçon e mente. num libelo magnífico e com bastante latinório a fazer paródia: A lealdade da Bezerra pela Beira muito anda: ben é que a nostra vendamos. que seja traedor» 70. E se mais tivesse. mais daria. E poren diz que non fez torto o que vendeu Marialva. absolvei-me da excomunhão «e jurarei. dade o castelo ao Conde. e ataca a hierarquia eclesiástica. Fernão Rodrigues Pacheco puxou do cutelo. leal ao rei. Bem esmolou o que deu Santarém. Conde! E 78 . Por meus negros pecados. Non ten Sueiro Bezerra que tort’ é en vender Monsanto. pois que no-lo Papa manda. pois vo-lo manda o Papa. quando o Conde chegou a Celorico. O alcaide de Faria vendeu o castelo para remir «seus pecados». poren diz que non é torto de vender om’ o castelo. E disse-lhe um bispo: ― Mitte gladium in vagina! Mete a espada na bainha e não nos estorves com ela! Mas Pacheco respondeu: ― Daqui para fora. tive um castelo em Sousa e dei-o a seu dono ― e julgo que procedi bem. por minha desventura. ca lhe diss’ o arcebispo un vesso per que se salva: ― Estote fortes in bello et pugnate cum serpente. Martim Dias entregou a Covilhã e Pero Dias a Sortelha. tive um castelo forte e dei-o a seu dono. Trancoso e Sintra levaram o mesmo caminho. Airas Pérez Vuitoron defende o alcaide de Celorico.Fui leal e. Tenho medo da morte. ca diz que nunca Deus diss’ a San Pedro mais de tanto: ― Quen tu legares en terra erit ligatum in celo. Porém. ca fez mandado do Papa e confirmou-lh’ o Esleito: ― Super istud caput meum et super ista mea capa. O que vendeu Leirea muito ten que fez dereito.

«peede» (espeidorrai-vos) com medo. Ficam a salvo os traidores. ― Mas todos. a ironia vem da ignorância do pobre bispo que vai a Roma e não sabe quem é o Papa. O «eleito». a preito que o isopen! 71 Os que entregaram os castelos mostraram. Além disso. onde vos digam para atacar: Salvos son os traedores quantos os castelos deron. ― Tendes razão. Mas não quero baralhas convosco. de que fala a cantiga. sem dúvida. Não tenhais isso por falta de educação. Será isto unicamente uma briga de campanário. satirizada por Airas Pérez Vuitoron? Não nos parece. todo zangado por um bispo 79 . Isto só na Cúria Romana. nem por mim dais o valor duma palha. têm de me conhecer e quem assim não fizer não é bispo nem coisa nenhuma! Sois um bispo que não sabeis quem sou. mas. Fala-nos ele dum bispo que passou pelo Eleito e não deu por ele. pois lhes deitam água benta. replica o Eleito. O Eleito zangouse: Que bispo sois vós que passais por mim e não me cumprimentais? ― Não vos conhecia. o Papa. desculpa-se o bispo. É que nunca vos vi e. aqui. mostraron-lhi en escrito que foi ben quanto fezeron. super ignem eternum et ad unitatis opem: salvo é quen trae castelo. Um simples bispo eleito não trataria mal um bispo mais antigo e já sagrado. que fora bem quanto fizeram. Airas Nunes era clérigo. assim Deus me perdoe. por isso. talvez não seja qualquer bispo. A não ser que se trate dum bispo eleito há pouco e cheio de prosápia. em escrito. o «eleito» mora num lugar onde todos os bispos têm obrigação de o conhecer e de lhe falar. Neste caso. não vos podia reconhecer. sim.

E há-de morrer. digamos assim. Havia o proletariado eclesiástico.simplório não dar pela sua nova dignidade. não vinha depressa e lá ficou ele ainda pior. entrou o conde D. E diz que vio na estrela. pois ela o encerrou por magia. pero que a non demande. às vezes para não morrer de fome. qual a el deseja. Porém. fazendo-o sofrer «no coraçon».. não nos parece. Com efeito. contudo. Também uma mulher aprendeu a ciência astrológica de Martin Vásquez e o encerrou na prisão do seu amor.. u estava en Lisboa. mas pobre. a sua astrologia e resolveu entrar nas ordens sacras. jogral. Mais tarde. Tudo isto por causa «das planetas que tragia erradas» o infeliz Martin Vásquez! Neste cerco ao pobre Martin Vásquez e às suas ilusões. Na primeira metade do século XIV. Afonso IV proibia-lhes que fossem jograis. com esperança duma igreja. os clérigos não podiam ser astrólogos e D. sempre arranjou uma freguesia. Merlim revelou quanto sabia a Viviana e foi isso que o matou. mandou fazer gran coroa: ca vio per estrologia que averia igreja grande. porém. em busca duma freguesia ou dum benefício. dando brados como fez Merlim. A igreja. Pedro de Portugal: Martin Vásquez. de mil libras en valia. Estêvan da Guarda fala-nos de Martin Vásquez. 80 . noutro dia. astrólogo e com estudos. Pouco lhe valia.

duma cinta que se dá. conta-nos que meteu um clérigo em casa. na Lua. esses não jejuam para apagar tal pecado! Fernando Ésquio satiriza um frade metido com saias. ca da pequena non cura. ca non igreja mesela. O tabernário Afonso Eanes do Coton pede a uma abadessa que lhe ensine o que há-de fazer à mulher. para sabermos que a Idade Média nada tinha de uma donzela educada em redoma.d’aver igreja mui grande. afirmam alguns. Basta ler as obscenidades cruas de Afonso X. a certeza duma igreja de grande renda ― e está a zangar-se pela tardança ! 72 Dentre os clérigos. Que é casado. pôs o clérigo entre ela «e o Demo maior». desde então. ca lhe seria loucura d’el aver a curar dela. entramos na insinuação duma abadessa de inocência perdida. com cama e mesa. Quanto aos «que lhe mal buscan». pois todos os dias entra no coro. Assim. estamos ainda no amor cortês. Mas vêem tudo ao revés. Há sátiras mais ou menos obscenas às abadessas de Arouca (e não só às 81 . Noutras. Diz também que viu. Ficamos a pensar que há certa malícia na solução. temos um que escreve uma cantiga. a defender-se do mal que dizem dele. numa das suas cantigas de escárnio. E da Balteira. foi-se confessar e. pois deve saber disso a fundo. de capa e sobrepeliz. Não havia outra solução. entre elas a soldadeira Marinha. poderá ganhar «o reino de Deus»! Às vezes. Que havia ela de fazer? A morte metia-lhe medo. rezará um painosso pela abadessa. por ter mulher. E de cada vez. por ele ter qualquer amante.

A carta tem a sua ironia. a esta expressão: Se mais não fizestes para nos agasalhar melhor. valem como documento. ele e os 82 . volta-se o feitiço contra o feiticeiro. Enfim. estas doas vos envio. Nesta carta de agradecimento. fosse a abadessa boa ou má. No entanto. por que sei que sodes essa dona que as merecedes: quatro caralhos franceses. Segue o resto pelo mesmo estilo. Quererá isto insinuar que a abadessa pusera tudo à sua disposição. Basta ouvir a primeira estrofe duma composição de Fernando Ésquio. em torno de certos objectos de autoconsolação sexual: A vós. de baixa temática e boa estrutura verbal. se ela o comendador «ben non albergou / non foi por vosso coraçon». caem sobre quem os escreveu. pois quem fica mal parado é o poeta. Hoje em dia. rebaixando-se a uma subliteratura de viela. mas as palavras citadas equivalem. mais ou menos. Dona abadessa. onde ele era comendador. Tais versos. Pensamos que Fernando Ésquio viria agora em melhor ocasião. não foi por falta de boa vontade. de min. Nalgumas sátiras contra as freiras. até as suas graças corporais.abadessas). Gonçalo Eanes do Vinhal agradece a certa superiora a hospedagem amiga do mosteiro. e dous aa prioressa 73. o trovador fala de si em terceira pessoa e diz à abadessa que. digamos assim. no entanto. por isso. há uma vasta indústria erótica e as sex-shops. e que. ele não descansara como devia? Julgamos que não. em belo ritmo de redondilha. Don Fernand’ Esquio.

por Deus lhe ter roubado «quanto ben» ele tinha no mundo.seus versos desbocados. Será preciso explicar? Se o leitor não entender. em invectivas blasfemas. Quanto aos freires do Hospital. É o caso de Pero Garcia Burgalês. alguma coisa cheira a podre. Nas casas dos privados. Nem tudo. O conde D. Amor partiu e não voltou! E nas tendas dos infanções ninguém sabia onde ele parava. afirma este que. decerto a mulher amada: Nunca Deus quis nada de bom nem se doeu do coitado. Roí Gil tem fama de grande fornicador e Roí Martinz fama de falso. às horas da ceia e do jantar. nunca hei-de acreditar «que o Judas vendeu». na Ordem do Hospital. Quanto ao prior. Enquanto viver. em Lisboa. Joga o poeta com a palavra esteo ou estaca da tenda. que D. teria pena de mim. a sátira atingia o próprio Cristo. nem sequer lhes perguntou onde Amor parava. o mesmo desamparo. tanto melhor. Por vezes. nem que morresse crucificado. 83 . E assim por diante ― com vocábulos de fazer corar um macaco. é um avarento. Gil Pérez Conde recordanos que em vão buscara Amor em casa do rei. a Idade Média gostava de se rir à custa de toda a gente e é inútil armar ao trágico. nem que seja filho de Santa Maria. com barregã e tenda ou loja para negócio. apesar de dizerem que ele (Cristo) viveu sofrendo. Mas enfim. Ainda mais: Não acredito que «foi coitado». Se assim fosse. Gil Pérez foi então procurá-lo entre os templários e lá o achou. Numa tenção entre D. em que ficou a «Meestra» metida. Vasco e Pero Martinz. Também as ordens militares são passadas ao crivo. Pedro de Portugal troça dum mestre de ordem militar. porém. ou mais explicitamente. vai mal. se as tomássemos à letra.

o senhor que acorrer non quer a seus vassalos. E o poeta continua: E maior pecado mortal non sei ca o que eu vejo fazer a Deus. quando lh’ é mester. prestemos homenagem às amplas liberdades medievais. Mas a descrença verdadeira tem de ser a frio. Quanto a nós. dos poetas dos 84 . nalguns pontos. deve afastar os seus vassalos da morte e socorrê-los nas aflições. comprados com o seu sangue. O cavaleiro Pero Gotérrez não se afasta muito de Pero Garcia Burgalês: «Todos dizen que Deus nunca pecou / mais mortalmente o vej’ eu pecar. Mas aqui. E «pois quanto ben avia me tolheu». Deus. É dizer muito. ca desampara os vassalos seus en mui gran coita d’ amor qual eu sei. não faz assim. Deixa-os morrer de amor.porque senão teria pena de quem sofre. pois é tan alto Rei. Mas por «torpe tenh’ eu quen por el fia»! Temos de confessar que há. «faz gran pecado mortal» 74. nestas invectivas. Qualquer senhor. por boa fé que lho faria! Infelizmente. E se ele ainda vivesse neste mundo e lhe pudesse «mal fazer». São palavras dum homem que perdeu (ou fingiu perder) a cabeça. Em qualquer caso. porém. apesar de poder salvá-los. há mais subtileza e menos violência do que no Burgalês. não está em meu poder a ele «guerra fazer». Por isso.» E porquê? Porque o vejo desamparar os seus «vassalos». por isso não tenho fé nele e foi loucura quando nele acreditei. explica ele. enormes irreverências e até descrença verbal. peca mortal. Deixa-os morrer pelo grande amor que têm à sua senhora e dela são desamparados.

Que bem me fizestes.cancioneiros talvez nenhum tenha morrido de amor. Andam mal vestidas. Gil Pérez Conde não quer trovar mais. Numa palavra: a mulher amada entrara para um convento e fizera-se religiosa. Por isso falavam tanto. Ela e outras moças bonitas. Os 85 . e as fremosas / e mancebas filhá-las por esposas. Não creio nele. por causa da senhora que me tirastes! Só vos suporto isto por amor de Santa Maria. nem me tenho por pecador. «pera que quer / pois tant’ a bõa Maria?». / Quantas queredes vós. «Se eu voss’ era. pois Deus lhe levara a sua amada. Por seu lado. como os trovadores. por trás daqueles muros! Dor? Talvez. Se a não tem. para eu crer em vós e vos servir? Grande foi a vossa injustiça. pois fez-me perder a «mia senhora». pois são obscuros alguns versos e há lacunas. pela perda (verdadeira ou fingida) duma boa rapariga que preferiu entrar no convento. em especial da sua perda. Ora. Mas Gil Pérez Conde esclarece-nos noutra cantiga: Ó Deus. por que me perdestes?». Que o «Demo maior» lhe tire também tudo! E porque me roubou Deus a minha senhora? Diz ele que não tem mulher. Nunca mais servirei para coisa nenhuma. vossa mãe. Riso? Não. E eu a confiar no amor dele! Nada mais nos diz a cantiga acerca da senhora. «ca mi teedes mia senhora forçada». Diz o poeta que Deus a tem lá «forçada». Nunca Deus me deu nada e tirou-me a minha boa senhora. Antes um sorriso a envolver esta zanga quase infantil. Vão para lá as velhas! E que acontece às moças bonitas que Deus escolhe para si? Que lhes faz ele de bom? Não as serve nem as louva. se não fora Santa Maria. eu vos faria arrepender. tantas filhades» e não me dais nenhuma. eu nunca tirei nada ao vosso Filho! É mau deixar as «velhas feas.

/ e latin 86 . Escapava da doença.. como então se dizia.: «trage livros ben de Mompisler. MÉDICOS.. Há muitos anos que ela deixou de morar connosco. que dela não temos notícias nem anda por aqui. Afonso Eanes do Coton satiriza-o. um belo desvario de amor «cativo». fizeram-nos entrar) na barca louca da sátira. não. JUÍZES E ADVOGADOS Ao longo da história. Todos sabemos estes versos de cor: Aqui jaz um pobre rico. Deus. Para acabar o tema satírico da hierarquia e da religião. Se não morresse da cura. da Universidade de Mompilher. Ora. «ca non sabem aqui dela mandado». responderam: Por Deus. Nesta rica sepultura. mas. dizendo que ele sabia muita coisa. Não sabemos onde ela pára. temos um serventês moral do clérigo Airas Nunes: Abalei um dia em busca da Verdade e diziam-me todos: Procurai noutro lugar. Em Cister. os médicos meteram-se (ou antes. Ao perguntar-lhes pela Verdade. O abade não queria dar-lhe pousada e ela andava «fora da abadia».homens. Fui por ela aos «moesteiros dos frades regrados» e disseram-me: Não busqueis a Verdade aqui. E em Compostela? Chegavam romeiros ao albergue. Em suma. voltara de lá com os livros e os seus diplomas. andais errado no caminho! Buscai-a noutro lugar. 10. Mestre Nicolau. responderam-me que não estava lá e que nenhum frade a conhecia. talvez.

não o sabe «tornar». mas não os entende. no apogeu da sua carreira. e não prejudicaria Mestre Nicolau. a categoria do médico mede-se. declara Gonçalo Eanes do Vinhal. Era médico dos reis de Leão e Castela. Que grande sabedoria! Leu-os tanto que até reis e condes o respeitam. Quanto a livrar da doença. se o mal não lhe vier outra vez. também por motivos de ordem poética. O médico. pouco saber e talvez a cura. as perguntas não impedem a cura. Ainda hoje. que sois bem capaz de os imitar. E se paga bem. Porém. Nas cantigas de amor e de escárnio. Também aprendeu astronomia e consultamno mais do que a Mestre Andreu. até. no caso de se tratar da mesma pessoa.come qual clérigo quer / entende». poderá levantar-se. Dir-vos-á. lá vai ele e pergunta-lhe pela doença. diz ele que as criou Nosso Senhor. este serventês. pelo dinheiro que leva. pague bem a este médico e Deus poderá curá-lo! Por mal e sem remédio que esteja uma pessoa. Mestre. tendes pouca arte para 87 . nada tem a ver com o caso. Contudo. muito dinheiro. porém. frequentemente. afirma que pode tocar por eles quem souber. A natureza agiu por si. nos vossos cantares. E depois de longo tratamento. E o dinheiro depende da fama. isso pertence a Deus. finge que procura neles. E dos instrumentos de música. desde que «o outro morreu». À maneira dos mestres. sim. Não passa duma troça benigna. Estes. Claro que receita e é capaz de se curar o doente. Gonçalo Eanes do Vinhal embirrava com ele. seguis apenas «aquestes de Cornoalha». Quem estiver doente. Das aves. Em suma. o preço deles e quando os comprou. também seguis as nossas e «mui bem»! Até já fizestes tenções. sabe trazer livros consigo.

Grande era a sua habilidade ao tomar dos outros a letra e a música. continua Martin Moxa. Eis. Se o rei «sabe vossa demanda / e ouver paz» (os ricos-homens de Leão e Castela andavam então a fazer distúrbios) logo fará de vós um arcediago! Diz-se até ser intenção dele entregar-vos Ardon em comenda. que ben non guardastes 75. a que vos deitastes. Tudo isto sem o rei lhe pagar. que Pero de Ambroa nos obriga a tornar a Mestre Nicolau. Não.disfarçar o furto dos versos. porém. levai um saco dos vossos pós medicinais. Dele e doutros. Os trovadores e segréis divertiam-se com ele e com todo o mundo. um vosso cantar de escárnio é de Pedro Agudo. caso frequente na Idade Média. o Sábio. o tal de Mompilher e da corte de Afonso X. aliás. Pois bem. matai outro. matando ora um ora outro. tratou lá certo cavaleiro e o pobre abalou desta para melhor. E assim. Foi a Ronda. para livrar o castelo. não vos enfadeis. com suficiente segurança nas boas regras poéticas. mais los trobadores travar-vos-an já quê nos tempos. porém. Será prudente não avaliar o médico pela troça deles. Mestre Acenço. Mestre Acenço tinha tanto de médico como de clérigo. Quando vier a jeito. Uma graça é uma 88 . E gran sajeza fezestes de pran. o dinheiro que el-rei gasta nos cavaleiros devia reparti-lo com Mestre Acenço. para ele matar outros. E não só ele. Por maestria soubestes saber de razon alhẽa vossa fazer e seguir sões. Nesse caso. Basta lembrar Pedro Hispano.

para se guiar com ele. pelas grandes curas: «faz que non fal’ o que nunca falou / e faz do manco que se non levante». que não me curou e a quem vós chamais «meestre mao». Apenas chegou. doido. Mestre Nicolau. Outra ciência de Mompilher: tirar ao doente quanto dinheiro puder. também não. E ainda ouvimos. morto. traz à baila os atrevimentos dum sangrador de Leiria ― e limitamo-nos a transcrever a primeira trova. E às cantigas de escárnio e maldizer.graça. chula. Ora. Uma cantiga de amigo. e a um cego deu-lhe um pau. arranjou umas ervas medicinais: Faz do vivo. Dá-me quanto tens e quanto puderes arranjar! Até agora. Tem de ser. Desculpe 89 . foi-me no cuu apalpar: al fodido irá sangrar sangrador en tal logar! Perdura ainda este género de graças a respeito de certos médicos. Vi na tua cara que estás enfermo e queres curar-te. neste século XX. que ninguém o tomará sempre à letra. expressões equivalentes aos dois versos finais: «Quen tal jogo quer jogar. de hoje a três dias. insiste o poeta. é isso mesmo o que eu quero. não conhecemos outro médico tão bom. / con sa mai vaa joguetar» 76. de quem tinha juízo. onde a mulher começa a desabafar: Un sangrador de Leirea me sangrou estoutro dia. tratou de levar o seu preço avante. Um bobo pode troçar à vontade. amigo! Traze-me dinheiro. pergunta Pero de Ambroa. e vedes que me fazia: andand’ a buscar a vea. Sabeis uma coisa?.

vêm os juízes e a fauna adjacente. manco duma perna. Nunca o rei vira perder tão estupidamente três bestas assim! 11. conhecemos alguns nomes: Samuel. nas cantigas de escárnio e maldizer. Estes. Ora. em Portugal. com o distintivo de trovador. segundo o foro de Leão. de nome Alho. Veremos em breve 90 . de Leiria. E bem esperto devia ser também o rábula João Nicolau. Em geral. mantiveram-se alheios ao anti-semitismo sistemático. Dos judeus trovadores. porém. que se metia em maranhas e negócios duvidosos. aparece num documento do século XIII. assim. mas tem os seus riscos ouvir falar das cantigas de escárnio e maldizer. pois há excepções. dizemos nós. Esperto que nem um alho. Estêvan da Guarda queixava-se dum advogado. alegando a lei de ninguém poder fazer justiça em homem que não tiver presente. Dinis de certo cortesão que mandara sangrar três bestas suas ― e elas morreram. E um juiz surdo? Outros aceitavam peitas. ria-se o rei D. Ao contrário do Cancioneiro Geral.o leitor. nada podia fazer a justiça real. são poucos. JUDEUS Havia judeus trovadores e havia judeus trovados. Tão manco que perdia as demandas. os cancioneiros antigos. Para acabar. Conta-nos Airas Pérez Vuitoron uma das suas façanhas jurídicas: livrou da morte certo homem. Depois dos médicos (o sangrador tinha o seu quê de médico). entre eles um. o réu andava homiziado e. deixando-se levar pelo dinheiro. Talvez o nome já encerrasse uma sátira.

O rei pede-lhe unicamente para não cantar nas festas da Ascensão. que ele fosse judeu. o Judeu d’Elvas. na cantiga contra Mestre João? Mesmo. que chamavam Yuda Negro. Ora bem. como nota Eanes de Zurara 78. no pagamento das dívidas? Não sabemos. devoradores da terra e dos pobres? 91 . profundamente marcados por reminiscências bíblicas 77. como demonstrou Pellegrini. ao falar da «maa voz». no Canc. quando certo cavaleiro ameaçava levar Estêvan da Guarda ao tribunal. recordamos o «judeu servidor da Rainha Dona Fillipa. E temos Vidal. mas que nos deixou dois cantares de amor. «Coraçon de judeu». mesmo que fosse um judeu e cantasse mal.. voss’ amigu’ e meu». noutra cantiga. do Natal. nas cantigas de escárnio e maldizer.. Mais tarde. cuja posição social ignoramos. Por causa da Paixão de Cristo ou por eles não perdoarem um ceitil. declara Afonso X. João I. Refere-se. ou noutras «festas de Nosso Senhor». coração duro. a fim de não zangar o «arcebispo. Nada. contra o judeu! Um rapaz ou um judeu não têm «voz». Disse-me um judeu que este furto fizera certo romeiro. que era gramde trobador segumdo as trobas daquelle tempo». Simples graça. os judeus.uma tenção onde entra «Don Josep». porém. à incapacidade jurídica dos menores de 17 anos e dos judeus. o trovador chamou-lhe. Ou troçará o rei da voz estrídula dos rapazes e dos judeus. da Vaticana. Contudo. porém. pouca importância teria para o caso. isto é. Que deixe de cantar na igreja. não ficam muito mal parados ― num reino literário em que todo o mundo recebe a sua conta. Mas que é isto em comparação das sátiras e acusações a ricoshomens. nos tempos de D.

Tal contribuição era proporcional aos cabedais e haveres de cada um. As talhas podiam talvez ser grandes. cidade. mas era a lei e não tinham sido eles a fazê-la. certo e apregoado. 92 . os judeus encarregavam-se de as cobrar. O tal «Don Foão judeu» já pagou várias vezes o que lhe marcaram. está tudo bem «apreçado» como «o vinho forte en Alhariz». Então. A lei era dura. responde que. na tenção. quanto a bens móveis e de raiz. etc. Esta relativa ausência de anti-semitismo. o poeta considera-se vencido: do vosso não negastes coisa nenhuma. Dura lex sed lex. Mas por que razão agem de maneira diferente com «Don Foão judeu»? O judeu. A dificuldade estava na distribuição proporcional. Os talhadores são implacáveis. Estêvan da Guarda. Contudo. acusa Don Josep de ter empregados parciais: os «vossos judeus talhadores».Certo é que. no meio de centenas de cantigas de escárnio e maldizer. E eu também pago. concelho. a grandes e a pequenos ordenam «quanto cada un judeu á-de dar». acrescenta ele: «eu dou do meu»! O outro insiste na sua e o judeu lembra-lhe que nada «foi de mia talha negado»: tudo foi sabido. porém. contra o seu detractor. Com efeito. repartindo-se equitativamente determinada soma por um povoado. E Estêvan da Guarda põe-se ao lado do cobrador de impostos. Esperávamos bastante pior. no regime das contribuições ou talhas. dá-nos que pensar. graças nem amores» servem a ninguém. a culpa não era dos cobradores. «na talha.

apesar de quase ter estado a ser enforcado. Contudo. graças a Martin Soárez e à sua cunha. Jogral Sisão? Era nome duma ave que expelia gases à valentona. o desejo de exibir a sua grandeza e certo complexo de inferioridade mal disfarçada.12. O certo é que. Impedia a Gil Pérez Conde a entrada no Paço. homem zangadiço e com fumaças de fidalgo. Têm uma psicologia comum. Emergem do nada e sobem na escala social. Chegou de baixo e agora domina de alto. Um cavaleiro. por malas-artes e conivência alheia. Gonçalo Eanes do Vinhal. É que ele não sabia cantar. Pior é um porteiro do rei. Martin Soárez propõe que lhe chamem «jograr Sison». às vezes. troça de Pero Fernández. ARRIVISTAS Em todos os tempos. para se ver livre do homem. estes arrivistas ou adventícios: certa filáucia ridícula. Seria ridículo! Por fim. filho de clérigo. a 93 . sem mérito seu e. como se tudo aquilo fosse dele. vaidoso e pobre. É um homem de todos os tempos. há pequenos e grandes ambiciosos. o arrivista e parte do público talvez não dessem por isso. Martin Soárez e Pai Soárez hesitam em dar a um vilão a categoria de jogral. à porta dos palácios e ministérios. Riam-se os outros. com ares mais importantes que os do rei. que manda mais do que ele ou pretende mandar. Outro gaba-se de família nobre. o ambicioso vilão «trist’ e nojoso e torp’ e sen mester» subiu a jogral. maioral português ao serviço de Afonso X. renega um sobrinho e apresenta-se «por mais fidalgo» do que todos os daquele lugar. mas o jogral Sisão continuava impertérrito. o qual recusava pagar o imposto de portagem dos domínios do conde Gastão de Bearn.

. por estes cantares que fazedes d’amor. Furara na vida... que teen soldados. Assim fizera o jogral Lourenço. Ben quisto sodes dos alfaiates. como se fossen vossos comprados..... en que lhis achan os filhos sabor e os mancebos.... dos peliteiros e dos reedores.... disso se queixava Martin Soáres..cantar mal e sem dar por isso.... Podia agora dormir.. por que lhis cabe nas trombas vosso son. embora dissessem: «Confunda Deus quen te deu esse don / nen a quen te fezo jograr nen segrer».... a demagogia e o gosto de agradar ao povo levavam certos poetas a baratear o trovadorismo. pera atambores ar dizen que non achan no mund’ outros soõs melhores 79. con vossos cantares mal avilastes os trobadores.. por já não escutar Lourenço a arranhar no citolão. Pelo menos. [... O melhor. dizia alegremente Joan Garcia de Guilhade.... porém. tamben se chaman por vossos quites.. 94 .......... de Riba-Lima. do vosso bando son os trompeiros e os jograres dos atambores. seria pôr de lado as trovas e o citolão! Também naquele tempo. e um dos melhores poetas de então: Cavaleiro.] Os aldeiãos e os concelhos tôdolos avedes pagados. Outros não estavam com meias medidas e promoviam-se a si mesmos.

como talhante à sua mesa. ou dum pulo audaz e nem sempre limpo. bem podia o tal «cavaleiro» inspirar-se em letras e músicas de estilo popular. rapazes sem cultura.No entanto. Afonso IV fez cavaleiro. Nessa hipótese. D. Grande Cavalheiro é Dom Dinheiro. este nome duma comédia de Lope de Vega: Dineros son calidad. provincianos. costuma dizer-se. E era vê-lo. a rogo do bispo eleito de Viseu. jograis de tambor. alfaiates. explicando isto a fama de que ele gozava entre a arraiamiúda dos mesteirais e gente do povo: aldeões. «descalço». sobretudo. agora à escala da nobreza. Passemos. Dinis cavaleiro. vestido à grande e a disfarçar a careca. Miguel Vivas. etc. Ela subia em longas gerações. sem direitos para isso. fê-lo el-rei D. cortadores de cabelo. Certo escudeiro «que non era ben fidalgo» queria trepar a cavaleiro. antes dum poeta enraizado no folclore. 95 . Dinheiro. A um vilão alfaiate. Casara com a sobrinha do bispo. Oiçamos Pero Méndez da Fonseca: veio «Paio de maas artes» e. peliteiros. Com efeito. comendador da Ordem Militar de Uclés! Finalmente. fazer a corte a quem está por cima e. Domingos Jardo. «cobrou manto con espada» e pronto. a quem D. passado um mês. comendador! Entrara na corte. de Lisboa. Devagarinho e protegido pelos grandes. temos um vilão rico. depois de ele ter servido o bispo D. Ou então. bastante descaramento. não se trataria dum arrivista. gostaríamos de saber que música era essa e que versos. de madrugada. eis os três caminhos do arrivismo. lá chegara.

fogia. Fernan Soárez de Quinhones escreveu um serventês gracioso e de tipo tradicional contra D. Adão e D. meirinho da Galiza entre 1285 e 1288. Guilherme. con gran medo de desonra. o bispo. Fuão. sacudiu-se. escreve Afonso Méndez de Besteiros. mandou-o prender. de noite. Despiram-no e deixaram-no assim na rua. Estêvão Nunes Churruchão. pelo menos em Redondela e perto de Valhadolide: O meu senhor. tudo foi pela água abaixo! Também aqueles eram ladrões. levaram os carneiros dum homem de Astorga e tiraram as bestas dum frade. repete o refrém. tal como nascera: «Ali me desbulharon do tabardo e dos panos / e nom ouveron vergonha dos meus cabelos canos. Que sátira pitoresca! Alguns recebiam soldada e não iam 96 . alçou rabo e foi para Portugal. E ainda por cima. de quem já falámos noutro lugar. um rapaz tinhoso chamou-lhe nomes feios. francamente. voltou-se. De modo que os ladrões roubaram-lhe a mula e a cama. Miguel Carriço. Havia também os cobardes. andava com pouca sorte. Mas castigou-os el-rei!. que roubaram uma igreja. D. un dia. CONTRA LADRÕES. achei ũa companha assaz brava e crua.» 80 Capote. indo-mi aguisando por ir con ele mia via. na Redondela. D.13. eu. Por seu lado. que ao ver os ginetes muçulmanos. LINGUAREIROS E SOVINAS Airas Nunes. por exemplo. que me deceron logo de cima da mia mua: azêmela e cama levavan-na por sua. enquanto o bispo conseguia escapar. Perto de Valhadolide. vestes interiores.

. nem branco nem vermelho nem castanho. noutros casos enraizada no feitio tacanho ou na ambição: não dar nada. por dizer mal de amigos e inimigos: «nunca vi peior»! Contudo. que lh’ adurán do reino da Bretanha. Roí Queimado. não é gorda nem magra. não pagar bem. Claro. algumas vezes filha da pobreza. E havia infanções pelintras que prometiam cavalos aos seus homens e. nada de nada: Disse un infante ante sa companha que me daria besta na fronteira. nestas cantigas. num serventês. Sátira do infanção e também sátira dos romances arturianos. o vício mais detestado. Dinis arrenegava dos maldizeres e dos maçadores. El-rei D. não tem olhos nem rosto nem orelhas. não come erva nem palha nem cevada ― tal qual a besta que me deu o infanção 81. nen castanha. Outros eram faustosos só para se divertir. se o cavalo não for assim nem assado. satiriza certo compadre seu. e assim passariam por ajuizados. pois amarela nen parda non for. talvez seja a sovinice.. será com certeza a Besta Ladradora que virá da Bretanha (e dela se contam feitos maravilhosos na Demanda do Santo Graal. para ajuntar mais. nen branca. nem tinham boas armas. cuja conversa entrava pela noite fora e não acabavam de se ir embora. nen vermelha. Pero da Ponte só desejava que os tolos se calassem.à guerra. ou coisa parecida. não está ferrada nem por ferrar. mas não para combater. 97 . em português). e non será já murzela nen veira. Ninguém a viu. a pran será a Besta Ladrador.

A sua amizade não passa de conversa fiada. se xe foss’ en corredura e podesse prender mouro. vender seu parente. tenho que x’ o venderia quen seu parente vendia. no final de cada estrofe. para juntar dinheiro. é capaz de vender os seus?: Quen seu parente vendia. Outro só dava pano gasto pelo uso. Dinis detesta Melion Garcia por trazer mal vestidas duas meninas ao seu cuidado. Outro era tão agarrado que. insiste Pero da Ponte. mesmo ricos. ainda a mexer. É ruim e não verá a face de Deus: «que já mais nunca verá / en nẽ un temp’ a face de Deus». Sim. Certo ricohomem afligia-se por gastar demais na luz. Os homens enganavam-se com presentes do fim do ano e davam filhas em casamento por dinheiro. Quem viu terra tão mal empregada como a sua? Nada espero dele «e dá-lhe o Demo terra e poder». Que tem ele mais do que eu. vivas. E o refrém vai e volta. Se tomássemos tudo à letra e não víssemos a outra encosta do Monte da Verdade. não me serve para nada. Os infanções. como uma condenação irremediável. E as misérias das mesas sovinas? Vai um rico-homem comprar trutas.El-rei D. na verdade. E que dizer de certo fidalgo que. todo por fazer tesouro. Tudo inútil. com boa adega de vinho em Compostela! Quem faz isto é também capaz de vender cavalo coxo por bom 82. cerca de cem estão 98 . eram avarentos. julgaríamos que o mundo andava pela rua da amargura. tornava-se tão pobre como qualquer modesto segrel. se não lhe aproveita o que tem? O meu amigo. bem afidalgado e sobrinho seu.

custa a saber se é carne ou peixe! 83 Nem sempre era avareza. por vezes. um ricomaz. Fuão. quen mal nen ben d’ el diz. compra só duas pobrezinhas. Mas em certas ocasiões. / que de maos jantares faz!» Ricomaz. o trovador Soeiro Eanes foi jantar a casa dum infanção «e jantou mal». quando muito. Por exemplo. das mais pequenas. Pelintrice ou. Eles. vai a gente por ela e desapareceu! E o refrém repete: «Um ricomaz. 99 .. São versos de Roí Páez de Ribela e o trovador não larga o rico-homem: Perguntai-lhe porque mal come. nada há a dizer da sua cozinha. e coze uma: E. perguntai-lhe «por que o faz». rico-homem em cuja casa ninguém come bem nem mal. sandece faz 84. Porém. porque mata gente à fome e à sede? Sim.para vender. Ao menos isso!: Quen en sa casa comer non usou. u as venden bolindo. Infanções e ricos-homens riam-se. Por conseguinte. vai-s’ en con duas riindo. as trovas que depois fez eram ainda piores. um bruto rico-homem. quer ben quer mal. os convidados não merecem melhor. faziam o mesmo. assi como a el praz. Quixote de la Mancha. da miséria «de quen mal come».. Vai ele. e coz’ ende a ũa. isto é. Mesmo na cozinha. a mediania austera de D. Para acabar este assunto da boa e da má cozinha (antes má do que boa) citamos um serventês de Pero Viviaez a D. porém. sugere Pero da Ponte. Que maus os seus jantares! Coze-se a carne. insiste o refrém.

14. SÁTIRAS CONTRA AS MULHERES O mundo não mudou por aí além. Maria Domingas ensina a filha a agradar e a dar às ancas, em vez de coser, fiar e tecer, protesta Pero da Ponte. Certas donas entregavam-se mesmo a um plebeu e isto irritava Fernan Rodríguez de Calheiros. Este zelo enraizava, por vezes, no ciúme. Mais claro, Joan Garcia de Guilhade celebra as qualidades superiores da mulher de Don Foan. Não admira, «ca ela fez Nostro Senhor, / e el fez o Demo maior». No fundo, teria gosto em suprimir o tal Dom Fulano, que era o marido. Os trovadores davam-se a jogos verbais obscenos, ao falar de senhoras, como por exemplo Joan Velho de Pedrogaez. Dissera-lhe certa dona para não se preocupar, pois já «sobre min» tomei o capelão. Isto é, tomara o encargo de lhe pagar. O poeta ligou à expressão um sentido sexual ― e os homens daquele tempo, como os de hoje em dia, achavam graça a tais jogos de palavras. Os trovadores andavam longe de ser corteses sem falha. Com efeito, Martin Soárez narranos, em termos chulos, a história de certa «dona», mais pudibunda em palavras do que na vida. Ela metera Dom Caralhote em cárcere donde não sairia mais. E não nos atrevemos a explicar. Se fôssemos a avaliar a Idade Média só por isto, faríamos dessa época um monturo. Pero da Ponte falanos dos habitantes de Burgos, furiosos contra Pedro Bodinho, tão submisso à mulher que o engana como arrogante no seu cargo. Noutra cantiga, finge interceder, velhacamente, pela mulher de Martin de Cornes. Ela faz 100

como o «taful» que acha uns dados e joga com eles. Quer dizer, estava-lhe no sangue ser assim. As mulheres andavam longe de viver em regime prisional. Por isso as famílias procuravam defender-se e Afonso Eanes do Coton insulta as cuvilheiras (ou criadas de dentro) e chama-lhes nomes feios, tão feios que lá ficam na cantiga. É uma fúria cósmica contra as cuvilheiras idosas! Apesar disso, havia desgraças nos lares, fugas e raptos. Alguns maridos sustentavam filhos, nem eles sabiam de quem, e Martin Soárez ga-bava-se a Pero Rodríguez, talvez por graça, de o enganar com a mulher. Mas que estivesse descansado: ela jurava-lhe que amava o marido acima de tudo! Deus vos deu bõa molher leal. Um dos escândalos do século XIII foi o rapto de D. Maria Rodrigues Codorniz por João Bezerra, pouco antes de 1245. D. Gonçalo Garcia põe a aventura em verso, rindo-se do porteiro que assim deixou levar a Codorniz. Ah!, porque a não guardou melhor?: «Levarõna Codorniz / de casa de Don Rodrigo»... Só estranhamos não dizer o poeta que a codorniz batera asas e que o porteiro nada podia fazer. E agora, temos a história da mal maridada. Com efeito, nota a rubrica que D. Lopo Lias fizera a cantiga a uma «dona que era mui menina e mui fermosa e fogiu ao marido»:
Muito mi praz d’ũa ren que fez Dona Marinha: non quer seu marido ben, e soub’ a pastorinha fogir. Mal haja quen non servir

dona fremosa que fogir!

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Ela fez end’ o melhor, a Deus seja gracido: molhercinha tan pastor saber a seu marido fogir. Mal aja quen non servir dona fremosa que fogir!

O refrém dá-nos a saber que o trovador de tão linda cantiga punha, nesta fuga, a sua esperança de ganhar para si mulher tão pastorinha (nova) e criança 85. Em cantar paralelístico, atrevido e gracioso, Roí Páez de Ribela desdenha de quatro mulheres: Mal me venha se eu, por fulana, cicrana ou beltrana d’amores ei mal! Noutra cantiga, queixa-se da «donzela de Biscaia». Ah!, se a apanhar a jeito, de noite ou ao luar! Mas sátira maravilhosa de lirismo é a que o mesmo trovador fez a «Maria Genta, Maria Genta da saia cintada». Pecava à luz das estrelas e os rapazes roubavam-lhe a aveia e a cevada, ainda por cima. E a exclamação dolorosa, no final de cada estrofe: Alva, abríades-m’alá! Como quem diz: Madrugada, rompias então e presenciaste a desgraça toda. Afonso X diz que não a qualquer «donzela fea», preta como o carvão, peluda ou de cabelos brancos. Noutro lugar, pinta certa mulherona, montada numa mula, nas ruas estreitas duma aldeia. Que grande palheiro! Nunca vi «dona peior talhada», embora bem vestida. E sempre o refrém, neste sentido: Vi-a cavalgar por uma aldeia e quis jurar que era uma carrada de palha. D. Afonso Sanches, filho de D. Dinis, vai trovando a uma donzela e dá-lhe vários nomes: Conhecestes D. Beringela? Casou e chamam-lhe D. Maria. Depois, D. Ousenda ― e assim 102

por diante. Eram poetas subtis, ora grosseiros ora refinados, sempre de grande agilidade mental. E tinham veneno, quando queriam. Para exemplo, nas leis antigas de Leão, o assassino era posto debaixo da vítima. E Joan Airas de Santiago, em nome do «Livro de Leon», exige que lhe metam debaixo de si Dona Mor da Cana, pois esta o matara de amores. Isto, sim, que será justiça! Era uma obscenidade para rir. Diz o povo (embora mal) que a um homem tudo fica bem, nisto de saias. Joan Baveca e Pedro Amigo de Sevilha, numa tenção, perguntam o que será pior: um nobre amar plebeia ou um plebeu amar uma mulher de estirpe? João Baveca julga razoável que um homem sem nobreza, mas de bom entendimento, queira «ben a mui bõa senhor». A esta, porém, fica mal amar um vilão. Pedro Amigo opta pela infalibilidade machista: «ca mui bon ome nunca pod’ errar / de fazer ben, assi Deus me perdon»! Seria, porém, sandeu amar a quem o não merece. Nos poetas, os defeitos de todas as mulheres dependem, às vezes, da boa ou má sorte com uma delas. A mais-que-tudo, a quem Joan Airas tanto amava, casou-se. Pôs-se logo a dizer mal «de quantas molheres no mund’ á». Joan Vásquez vai-as defendendo, mas o outro responde: Todos se queixam delas. Vós, não, pois vos pagaram para isso. E cá temos Dom Dinheiro, a mandar na poesia. Nela e nas mulheres. Verdade seja que Teresa López recusa a mão a Pero Marinho, apesar dos «seus dinheiros velhos». Mas fá-lo por ser ele fraco e «mais meninho». Em geral, dinheiro e presentes tinham grande influência no coração delas. Fernan Páez de Talamancos lamenta-se duma senhora que aceitara os presentes e o coração dum plebeu, 103

decerto bastante rico. A «dona fremosa do Soveral» limitara-se a receber dinheiro e a não cumprir a promessa, o que enfureceu D. Lopo Lias. Por seu lado, Pedro Amigo de Sevilha mete a ridículo quem gastava dinheiro a rodos, por amor duma mulher «que nunca vistes riir nen falar». Que homem sandeu e mesquinho! O trovador ao menos via a sua amada ― quando tinha dinheiro, claro. Então, sim, o que é dele pertence a ambos, diz ela. Ontem, hoje e amanhã, o dinheiro conta para muito, no amor e na poesia. E o dizer mal também conta bastante. Mal das mulheres, neste caso. Marinha Foça, que escura sois! Mal haja quem te viu e desejou. Isto diz Pero da Ponte. Por sua vez, João Garcia de Guilhade faz uma paródia engraçada que já transcrevemos, em torno duma «dona fea, velha e sandia», como diz o refrém 86. Um trovador tão feia põe a sua amada que temos a impressão de estarmos a ouvir a descrição que Sancho Pança faz de Dulcineia del Toboso:
Sobrancelhas mesturadas, grandes e mui cabeludas, sobre-los olhos merjudas; e as tetas pendoradas e mui grandes, per boa fé; á un palm’ e meio no pé e no cós três polegadas 87.

Isto de imaginar o amor cortês a invadir toda a Idade Média é, pois, um mito. Já naqueles tempos recuados, o poeta era um fingidor. Conforme lhe parecia (sem excluir o temperamento, claro) ia do realismo mais baixo até às regiões etéreas onde as mulheres quase se tornam anjos impalpáveis. Senhora, escreve Pero Larouco, bem maior 104

em 1324.. Dos seus bailados. 15. ou então a estar calada. SOLDADEIRAS E MULHERES DA VIDA Também elas são mulheres. nos cancioneiros. publicamente convidadas para festins. ora nas pousadas.é a vossa «torpidade» do que a de todas as mulheres do mundo. muitas delas viviam com uma criada e foi preciso que o concílio provincial de Toledo. Como nota Menéndez y Pidal. das suas qualidades histriónicas. Não sois boa nem bonita. Aqui está um bom conselho. das suas habilidades artísticas. Mulheres algo errantes. Não me deixais saudades. quando contratadas para a corte. por feia e maldosa.. a jogralia de Maria Pérez Balteira 105 . sobretudo como mulheres de vida leviana. viviam da paga do público e às vezes dum ordenado fixo. por exemplo. D. ora em castelos. apesar de estas lhe terem aberto todas as portas. João Manuel trazia soldadeiras no seu séquito. Da famosa Maria Pérez Balteira. ora nas festas dos grandes. proibisse a sua entrada nos paços episcopais. exerciam mesmo actividades histriónicas. Cantavam. Só a filha de certo rei está acima de vós. sabemos os amores. além de mil episódios mais ou menos bordelescos. bailavam. E que aprenda a falar. mas duma casta especial. Pero Garcia Burgalês era mais prático e ensinava a sua dona a vestir-se melhor e a toucar-se bem. Mas ficavam. ninguém nos fala. segundo as ordenanças do século XIII. inclusive nos paços dos bispos. Eram desonestas e recitavam colóquios depravados.

o jogo ambíguo sobre o nome de Maria Grave. A soldadeira Ouroana e o cavalo que lhe dá categoria. Certo homem do povo vive à custa de Elvira López e rouba-a em Santarém. pois nenhum amor lhe tinha e ela recebia prazer. Pedro Amigo de Sevilha queixava-se de a sua dona exigir dele um maravedi. Salva-se. para não morrer sem confissão. nesta cantiga. Vamos passar depressa. a miséria de Maria Leve. tudo isto é uma gota de água. Mulher realista e prática. en tanto folegares. e entraremos um pouco nela. ao pé desta Barca dos Loucos. / Maria Pérez. demasiado tempo. Meia dúzia de truques sexuais. um provérbio ainda corrente: «quen pregunta non erra». nuas. ai. dizia ao confessor que lhe doía muito estar já velha. incapaz de viver sem a manceba e que vai morar com ela na Moeda Velha. cada qual na sua «masseira». a sede sexual da soldadeira Marinha. nas cantigas de escárnio e de maldizer.parecia insignificante aos homens. leve algun dinheiro»! 106 . obscena até à medula e com uma terminologia sexual digna dum prostíbulo. João Baveca lembra-nos que a soldadeira Maior Garcia pagava a três clérigos. Em compensação. Do mais. e escreve a discussão doutras duas a tomar banho. Não. cavaleiro. Pero da Ponte ri-se de certa meretriz toledana. por alcunha a Peixota. porque nada há tão monótono como o vício. uma dúzia de variações. em torno das soldadeiras. outra dúzia de palavrões procazes e é tudo. Afonso Eanes do Coton escarnece de soldadeiras velhas e pede a Maria Garcia que lhe pague. Talvez pertença também a Afonso Eanes do Coton a cantiga Marinha. em comparação da sua vida alegre e licenciosa. porém. nada lhe pesava e amou sempre o dinheiro: «O que veer quiser. Maria Pérez nada faz sem dinheiro.

Vê-se mesmo que está arrependida. que folia non quer». De Maria Negra. este Pero de Ambroa. entrada em anos. Homem deslinguado. E o poeta comenta. cheio de malícia. é o escolar a explorar a soldadeira. como faz ome con coita d’amor.Eis a essência da prostituição. em paródia: Sim. escarnecia cruelmente duma soldadeira a quem tecera louvores poéticos mas que agora. sim. por ser 107 . bom lugar é esse e apartado. enriquecida à custa da corte e de Pero de Ambroa. Embirrava com a soldadeira Marinha Crespa. e por que trobei. Cem soldos por junto pareciam-lhe de mais. Neste caso. a carne ou o sal. como o pão. O ciúme parece-nos a musa inspiradora desta cantiga e talvez a «velha puta» não seja tão velha como isso 88. Crueldade ao menos verbal. contestamos nós. não por ser trigueira mas. buscava-o para si. mas que foi anichar-se no paço. porém. que sempre loei en meus cantares. onde havia mil cavaleiros. acho-me mal e quero-m’ en quitar: ca ũa dona. isso era para gente mais nova: a boi velho non lhi busques abrigo! Ela. Tinha crueldade. morria de amores por um escolar: Se eu no mundo fiz algun cantar. diz Pero Garcia Burgalês coisas atrevidas: que assim lhe chamavam. Pero da Ponte ouvira dizer que a soldadeira Marinha López ia para a corte da Biscaia. e roa os ossos quem comeu a carne. Ora. Pero de Ambroa. e por estar melhor con sa senhor. para «ela. para estar à fogueira e comer na corte. velha e «sabedora». anda morrendo por un escolar. propunha a certa mulher que se vendesse a retalho.

en terra deitada». Que o seu defensor vá matar mouros. Riam-se disto. como familiar e amiga» 89. está bem que se perca tal 108 . Teve fama de mulher bonita. Contudo. não se envergonhava de poetar neste sentido. e acabou por se refugiar. pelos meados do século XIII. Gosta ela de Pero Garcia Burgalês? Grande honra para ela! Entrou na grande velhice e «per pissas berra. nua e crua. Pero Mafaldo e Vasco Pérez Pardal. A sátira medieval tem disto. É a sátira.peluda (e mudemos de assunto). A ela se refere D. no seu artificialismo de corte bizantina. O amor alambicado também floria. a rodos. Chegam até à Mourama. por vezes. a respeito do seu tamanho e do corpanzil de João Rodríguez. diz um. Para acabar. a «baralha» de Domingas Eanes com um cavaleiro mouro (baralha sexual. Explorava os besteiros do rei. entenda-se) em que a soldadeira venceu e. Com efeito. Um pobre homem da fronteira anda à busca da Balteira e é isto uma vergonha! Ela tem a categoria do homem que a procura. era esta. Pero da Ponte. tudo com detalhes de arrieiro. apanhou uma doença venérea. E omitimos uma ladainha de indecências prostibulares. diz C. Estais velha!. Pedro Amigo de Sevilha. por outro lado. Pero Garcia Burgalês. M. «sob o amparo do convento de Sobrado. Afonso X. Afonso X. por exemplo. Atiram-lhe gracejos poetas sem conta: João Baveca. de Vasconcelos. uma planta de raízes maldosas. então e agora. Descreve. Aliás. a grande realidade. para a vingar dos que a desonraram no corpo. Que se há-de fazer desta cortesã? As suas desvergonhas estendem-se por Leão. Abalou na cruzada e voltou da Terra Santa cheia de perdões. O navio quase se afundava! Poucas indulgências lhe restam. ficou vencida. o Sábio. E ela zanga-se. voltemos a Maria Pérez Balteira. Castela e Aragão.

Será paródia esta cantiga de Afonso X? Supõe. pois evitam certos crimes e pecados. e do perdon já non lhi ficou nada. pois vejoa «muitos escomungar» 90. quis fugir e não pôde. / pola tua.» E continua 91: Nunca. / esta paixon sofro por teu amor. porque foi mal ganhado. tão grande era o sofrimento. Talvez deles recebesse poder para excomungar e absolver. mas gosta de jogar aos dados e praguejar. que sofresti por min. fui tan coitado. cada u vai maer. se Deus me perdon. Quem escreve isto é Pero da Ponte: Maria Pérez. quando veo da terra d’Ultramar. por ser naquele dia que Nosso Senhor morreu. ao menos em sexta-feira santa. por seu lado. dê-lo dia en que eu naci. Quando o homem lhe metia atrevidamente a mão onde não devera. na gente depravada. 109 . reage em tom ambíguo de ironia e religião. mais furtan-lho. a nossa cruzada. assi veo de pardon carregada que se non podia con el en erger.«perdon». Tive-a uma noite. Andou metida com um dos Escalholas muçulmanos da Andaluzia. Mas aceitou-o pela paixão de Cristo: «Deus.» Teve medo de morrer. a soldadeira gritou que não. Tudo o que ela tem de bom me faz mal. O que os trovadores dizem e não dizem de Maria Balteira! Tem boas maneiras. / beeito sejas tu. E exclama: «Senhor. Melhor seria para mim «jazer morto ou seer enforcado». meu Senhor. que sofredor / me fazes deste marteiro por ti. restos de consciência. O homem.

diríamos que se destina aos escaravelhos. uma parteira horrorizada recusou provocar um aborto nesse dia. 110 . ai Jesu Cristo. en juízo. talvez influenciado pela soldadeira.e con pavor. tanto mais que podemos estudá-los como os médicos examinam as fezes. Se os insectos soubessem ler. 16. nembre-ch’ esto que por ti padeci! Na Idade Média. mais muit’ est’ aquesto peior que por ti bevo nen que recebi. em louvor da paixão do Senhor. é que duvidamos bastante. não há muito. estamos no campo da paródia religiosa. Em terras do Minho. Aqui. quando ante ti for. E poren. sobretudo quando afirma que a sua dor-de-amor-demulher era pior e mais custosa do que o fel que Jesus bebeu na cruz. Do oferecimento explícito daquela tortura sexual. Mas não destinemos ao índex inquisitorial cantares deste género. Do poeta também não duvidamos. o riso opera sempre uma espécie de catarse. sim. por min. Senhor. muitas prostitutas recusavam pecar na sexta-feira santa e não há motivo para duvidar da sinceridade religiosa da soldadeira. Senhor. Estamos já no campo da ironia trovadoresca de Afonso X. SÁTIRAS COPRÓNIMAS Este capítulo não é para senhoras nem para gente de gosto afinado. aquesta oraçon comecei logo e dixe a Deus assi: ― Fel e azedo bevisti. Aliás.

onde emprega o malcheiroso peer. / e. contra a sua vontade. Meteu-o em cama quente. a quem sempre amei? Primeiro um p. ao despertar. E resignei-me a não receber outro melhor. em cantiga suja a uma donzela feia e mal pintada. o doente dormiu e. com a condição de lhe porem 111 . de tal presente. / que já non pode sol cospir a saíva.. Algumas cantigas pornográficas. Coprófila. é a cantiga de Fernan Garcia Esgaravunha. prestes a morrer de febre. têm aspectos fisicamente repugnantes. outro. ficou-nos uma paródia de Pedro Amigo de Sevilha aos presentes que os noivos trocavam entre si. Entretanto. no sentido rigoroso do termo. em que o trovador faz de médico e aplica o saber num tal Ninguém-mim. por cheirar tão mal.Eram poesias para rir (não para sorrir) e há gente capaz de achar graça. Arrependeu-se. «cobriu-s’ e peeu». des que s’ el ben coberto sentiu. deixei-o beber à vontade! No mesmo sentido. como salta à vista na obsceníssima (e tal classificação não vem de nós) cantiga de João Soárez Coelho a Luzia Sánchez: «Deu-mi o Demo esta pissuça cativa.. Pero Armea.» E deixemos o resto envolto na sua quase obscuridade arcaica. Pero de Ambroa faz a Pero Bom uma caricatura de pranto. trovador. Sentiu-se logo melhor. Mais tarde. etc. Morreu ao cantar do galo e ninguém dele se aproximava. compara o rosto dela ao traseiro dele. e a cura foi indo: «mandei-o ben caentar e cobrir. mas grande e «en tal son». em vez de expirar. porém. Que me deu Sancha Diaz. evidentemente. / estornudou tres peidos» e arribou! Quanto a beber. depois de expelir os gases intestinais.

que tan ben parescesse. arranjai-lhe um nariz e nada haverá tão bonito «en toda a terra». Estamos desertos por deixar este assunto. ― tod’ est’. Já tem barba. mais abaixo: Andai. temos forçosamente de citar uma cantiga de Dom Arnaldo. Tudo. limitando-nos a sugerir e não a expor a realidade nua e crua. E ponde-lhe também uns beiços. que donzela de parescer vencesse. Ficaram os seus bens sem destino. Porém. «deu-lh’ o peer. deitastes a perder. já o pai tinha morrido. Em suma. pois. nestes arredores. pois só tinha um filho bastardo e. e lhi revol e concela posestes. e de que maneira? Pero Garcia Burgalês também tomou o tema para si: Pero Bom adoeceu. que lhi non posestes 92. e sobrancelhas lhi fostes põer. um dos muitos poetas provençais da corte de 112 . porém. amigo. acrescentai-lhe uns bigodes! Claro está que evitamos a brutalidade chula de certas palavras. deu-lhe a tal doença malcheirosa e morreu. pode ler pessoalmente as cantigas coprófilas ― e tapar o nariz. alvaiade e sobrancelhas. Lembram-se de Pero Bom ter morrido. soubestes perder polos narizes. O leitor curioso. Muito bem enfeitastes o vosso traseiro e muito fizestes para imitar o rosto duma donzela. e ficou / seu aver todo mal desemparado». e peeu. como se dizia antigamente. Felizmente. quando ele chegou. ao cantar do galo. quando composestes o vosso cuu. Pero de Ambroa tomou a pena vingadora: Pero d’Armea.umas orelhas. ao esquecer-vos de lhe pôr nariz! E Pero de Ambroa acrescenta.

Porém. O ventanal partia dele: «farai tal vent de me». acima de tudo. comenta Afonso X. a Camela. Sugere e basta. para afugentar a armada sarracena: trazia dentro dele uma bolsa de ventos. Mas passaremos ao de leve sobre tudo isto. seria pouco elegante levá-las assim. Daqui nasce o refrém brutal ― e que o leitor nos desculpe a sua transcrição: 113 . O rei outorga-lhe a mercê e passa a chamar-lhe Almirante Sisão! Mas vai-lhe dizendo que lhe parecia menos cortês ele accionar dessa maneira o navio em que transportasse sua senhora. este Afonso X. o Sábio. com João Mariz. pela sua geral falta de graça e. como era seu propósito.Afonso X. Afonso Eanes do Coton implica ironicamente com Maria Mateus. Pedro de Portugal a rirse dos amores de Mor Martins. «Tinha um segredo. Mas levar a sua «dona» ao Ultramar? Não está certo. explica Rodrigues Lapa. por causa da sua monotonia.» A todas as naus inimigas. 17. ele armaria tal ventaneira que as dispersaria. mulher lésbia e toda inclinada a dominar sexualmente outras mulheres. Como pode uma camela emparceirar com um porco? Temos em vista os vícios contra a natureza. Que grande força a do vento!. Vicente! 93 Era um gentleman. com que afundaria os navios infiéis. o Sábio. Pede ele ao rei o lugar de almirante dos mares de África. SODOMA E GOMORRA Não se trata unicamente de pornografia ou de graças sexuais. o Bodalho (porco). no género do conde D. juro-o por S. Julgo não haver no mundo três mulheres tão corajosas.

Homossexualidade com doenças venéreas. ou quase. Durante o dia. versos brutais de Pero da Ponte (faço trovas «a eles e a seus maridos»). Mari’ Mateu. Há coisas para saber e passar e coisas para nos demorarmos nelas. no dizer de Rodrigues Lapa. trata-se dum complexo de Édipo. ao contrário. Tais sátiras nem sequer dão vontade de rir ― o que as desqualifica literariamente.«Mari’ Mateu. Homossexualismo activo ou passivo. com a roupa molhada colada ao corpo. Palavras não lhe faltavam. no estudo minucioso desta quase subliteratura. homossexualismo com mouros. de Vasconcelos) quem primeiro se avantajou. sem ninguém saber o que fazia! Tudo o mais. Estêvan da Guarda chama «Coraçon de judeu» a certo cavaleiro de quem diziam «que era puto». M. homossexualismo do segrel Bernaldo de Bonaval. em Portugal. são cantigas de escárnio e maldizer contra pederastas. talvez o maior atrevimento «de todo o escarnho galego-português». 114 . citamos outra vez Estêvan da Guarda. venham elas ou não de verdade sabida ou. é só para ver e passar. Dom Fuão e a mãe discutiam a valer. tudo isto pouco vale. Aqui. mas realizado sem nenhum mistério. Lembrando-nos que foi uma senhora de alta moral (C. Mas passavam juntos metade da noite. pouco nos importa agora. Em suma. a quem se deve. / tan desejosa ch’ es de cono com’ eu!» Não vale a pena traduzir em português de hoje ― e seria feio. Assim. Omitimos outras poesias do mesmo trovador. de qualquer desejo de insultar broncamente. Que longe estamos da lenda grega e do fatalismo que a envolve. Ela gostava disso.

afirma Joan de Gaia. escrita por Fernández Barreto. CASOS E ACASOS DA VIDA CORRENTE São pequenas sátiras de circunstância. pois ali perto estava a gafaria e eram capazes de o meterem lá. Deus. Que não passasse pela Trindade. por dizerem que a mula era roubada. parecenos cruel. embora sob forma de conselho. por saúde. fala quando lhe conviria estar calado. não tem sal na conversa e nada vale. exclama Estêvan da Guarda. / ant’ ir de pé ca del’ encavalgado. graceja Joan Lobeira. quando lhes convinha. Joan Servando faz trovas contra cavaleiro novo em sela velha. Montadas e arreios. besta non avendo. Dinis faz troça duma pileca de João Bolo e do medo que ele teve do meirinho. que o fez tão ao contrário. contra o cavaleiro Roí Páez porque. apesar de gafo. mente. situações cómicas deste ou daquele. Trocou bom cavalo por mula má! Noutra ocasião. El-rei D. Cavaleiros havia que mudavam de senhor.18. Têm fel. ia em romaria a certa igreja de Nossa Senhora. dá tudo vontade de rir. Lopo Lias celebra quatro cavaleiros. todos irmãos e mal amanhados. E ainda mais a que segue. D. Ri-se D. pequenas desordens ou historietas que os trovadores iam comentando.» Açoutaram Martim Gil. Certo homem é o contrário de toda a cavalaria: Não tem cabeça. doença». «lhe queira dar. porque andavam já com o olho nele. a respeito da mula deste «ligeiro cavalgador»: «Mui mais queria. em Santarém. Dinis e escreve. Feio era e mais feio se arrisca a ficar. estes versos. roubaram-lhe o rocim. Para graça. 115 . responde a despropósito.

pensamos nós. Finalmente. o manto não era aquele!) e pergunta quais as determinações. com o ofendido a varrer a sua testada. do Livro de León.» Levo o que merecia! 116 . Isto faz rir Martin Soárez. questões de caçadores. daquele vilão. na sua cantiga. Ao conde D. Afonso X. um manto novo. Pedro de Portugal.Um escudeiro não acertou nos socos que dava a um vilão. Tinha razão para se queixar ao rei e ao mundo inteiro. em cantares satirícos. Vasco Pardal. D. dois sabujos. eis-nos perante D. senhor. talvez pelo mau tempo. sobre o caso. depois. E o rei afirma que já fora «clarizon» e estudara Decretais: Se o manto valia mais. Mas não cumpriram a promessa. E outro. Enfim. e o rei deu-lhe. e que ele diga: «Con meu dereito vou. na caça. apesar de lhes mandar pedir o alão e os sabujos. o rei não roubou: «e non sõo. ladron». certo cavaleiro prometeu-lhe um alão. Joan Fernández andava sem manto e de saio curto. Ansur levou um pontapé? Pois dêem-lhe mil pontapés por cada um! Ele outros tantos aos outros deu. Mil pontapés. afirma o contrário. Vasco Gil. sem castigo nenhum. por aquesto. Vasco Gil faz de conta que protesta (no fim de contas. emprestara o manto a D. Ansur e a sua queixa: querelava-se ele «por couces muitos que lhi foron dar».

etc. de A. Cabeça de Vaca.IV / LIVROS DE LINHAGENS Diz-nos C. porém. de qualquer profissão ou lugar de nascimento e também de acontecimentos desairosos. Cousa-Má. Ladrão. os apelidos pouco simpatizantes de Alcouce. Bufo. Será difícil provar uma afirmação tão absoluta. Escaldado. M. MalDorme. Bacorino. Tais nomes vinham dalgum defeito. Além dos apelidos já apontados. Cortesão. 117 . Chamorro. Carálio. Peido (apelido coprónimo até à medula). Cabrão. Barregã. passando a irrisão de a filhos. Em certos casos. eram assumidos com orgulho e os outros perdiam o gosto de se alegrarem com a vergonha alheia. de Vasconcelos «que em nenhum país se generalizou tanto o uso de apelidos motejadores como em Portugal» 94. é certa a frequência de tais apelidos em Portugal. por exemplo. Fura-Covas. Registamos. com ramos em Portugal. Cabeça Brava. Muitos deles entraram no Onomástico Medieval Português. Carraça. Boca d’Égua. antigamente e agora. Bácoro. Farripas-de-Burel. CagaLobos. Escalavrado. Caga-na-Rua. Marrano. etc. Farrapo. a História vingase de vez em quando e Cabeça de Vaca foi uma família notável da nobreza espanhola. Corvo. Contudo. Farroupim. Porém. Merda-Assada. vêm-nos ao encontro Barbudo.

Pedro Fernandes Cabeça de Vaca. gatos e galinhas (tudo!). Cabelos d’Oiro. filhos de ganhadia. nem duma tal Maria Viegas do Reguengo que. a troça e o remoque irónico. Não recuamos perante certa nobre viúva. bestas. se amancebou com o bispo D. mulheres. pois. em certos casos. filhos adulterinos e até sacrílegos. se ele ou ela. nem cama ou qualquer móvel 96. de orla azul. Rodrigo Gonçalves. certa irmã de D. à base do que foge a norma comum. Mas sorririam. de prata.No escudo. barregã de D. sem escapar vestido nenhum. Os Livros de Linhagens citam. este nome estranho: Pero Nunes Pestanas de Cão. desde o monge do Bouro e a mulher de D. por elas registarem as alcunhas e porem em realce as ovelhas gafadas desta ou daquela família. após aventuras pouco canónicas. Poderíamos falar do riso das genealogias. Rodrigo Sanches. Assim nasceram os registos de certas misérias que passaram à história. nem todas as mulheres de então recuaram horrorizadas. Mesmo assim. explicando. a origem vergonhosa do apelido. 118 . Mulheres forçadas. isso pouco nos interessa agora. a distância. com admiração. ao descreverem a vingança quase cósmica de D. Mãos de Águia. de Coimbra 95. Mesmo na verdade histórica (ou tida como tal) desabrocha. raptos. E pouco adiante. Rodrigo até aos homens. cães. nem impressiona muito os genealogistas. Por outro lado. pois o fidalgo achou ainda uma senhora para casar com ele ― e não sabemos quem mostrou maior coragem. Rimos. etc. notam-se apelidos elogiosos ou bonitos. seis cabeças de vaca. por vezes. Egas Fafes. como Barba Leda. cuja mulher o enganava: Fechou as portas do castelo de Lanhoso e ardeu tudo. deste drama digno do palco grego.

intenção de também satirizar. Simão Caga-na-Rua.Quando se explicam certas alcunhas. nenhum deles prestou para nada. deformação de qualquer facto. que tomou «pannos de seguramça e morreo nas Olgas de Burgos. Gonçalo Gomes casou com a filha dum carvoeiro de Évora. Quixote a Sancho Pança. «e nom valleo nem huum delles rem». Beltrano gerou muitos e maus filhos. apontavam-se distâncias sociais ― e não era por amor das vítimas. D. contam que andava metido com o Demo. virgem e sem semel» 101. A certa abadessa. Quanto a Pero Soares. a troça justiceira contra pobres mulheres apanhadas em adultério. matou-a o badalo do sino 99. De Pero Manda. com um ferreiro. Maria Manrique foi má mulher e fugiu ao marido para viver. em circunstâncias adversas: Cheiras. Airas Peres chamavam Farripas de Burel. não a burla do genealogista mas. nota-se. em Burgos. o famoso D. às vezes. num duelo judiciário. Maria Rodrigues pôs «as cornas aos maridos ambos e foy muy maa molher» 100. Sancho. Implacavelmente. por ter poucas barbas 98. «vogado e vilaão». Sancha Afonso das Astúrias era costume com força de lei. valha-nos a pureza misericordiosa de D. também. Nada mais claro e lembra-nos a frase de D. Fulano foi sandeu. Havia. pelo menos. Mesmo lenda ou. puseram-lhe a alcunha de o Escaldado. Ao menos. Beatriz de Novais. o que se conta de D. não sabemos porquê. borrou a sela toda. Porém. em certa barregã. O apelido era outro. sim. por uma questão de saias. Por isso lhe chamaram Caga-na-Rua 97. mas não a âmbar! A D. Beatriz Martins casou com Gomes Lourenço de Beja. por exemplo. Eis o caso: 119 . Isto é. E tal facto é relatado mais duas vezes 102.

Não há. Sancha em casa do marido (Gonçalo de Sousa). antes da pobrezinha partir. ia-as ele rezar com as armas.Andava D. porque entrastes vós no seio da Virgem Maria. Mas as dele. desrespeito nem blasfémia. perguntaram-lhe os portugueses se queria combater. O pior foi que. montou-a em cima duma azémola e mandou-a para a terra. até que aconteceu o irremediável. E ele gracejou à maneira eclesiástica e respondeu que não vinha rezar «outras matinhas» 105. depois de tudo. Finalmente. na batalha do Salado. antes da batalha com o conde D. nos abandonardes a nós e a toda a Cristandade? 104 Nestas imprecações. porque nos mostrastes o caminho da salvação. citemos a graça parodiante do arcebispo de Compostela. monges e clérigos rezavam matinas. O marido cortou os cabelos à mulher. de facto. o tom quase atinge o sarcasmo. ouvimos as invectivas da tropa. que resumimos. porque morrestes na cruz e ressuscitastes ao terceiro dia. num desafio à misericórdia de Deus: Senhor. ainda nos Livros de Linhagens. Àquela hora. Pedro. com um escudeiro a tanger o animal. De manhãzinha. arcebispo. «fege com ella meter búrrela a todos os rapazes que em sa casa erão» 103. porque nos ensinastes a construir igrejas para. Já agora. E aqui está uma sátira que não passa de crueldade estúpida. Somente angústia. porém. 120 . Afonso Henriques «doneando» D.

Não graceja soezmente. era geralmente amável.. M. 121 .. Mas. por vezes. até a nobre rainha parece dura.V / «CORTE IMPERIAL» A Corte Imperial. nem insulta. alfaqui amigo. no conjunto. pois chama-lhe pessoa sem siso nem saber. surge um filósofo ateu. embora quase sem pisar o risco. Quando muito. sabeis. é um livro de efabulação agradável e compilado em várias fontes. da Cruz Pontes e com razão ocupa algumas páginas de As Grandes Polémicas Portuguesas 106. sobretudo em Raimundo Lulo. em português do século XIV.. Aqui. como acentua a bela Igreja Militante. a Corte Imperial parece-nos. a declarar que Deus não existia 107. Dela muito escreveram Abílio Martins e J. o autor da ficção descrevia.. Coisa passageira! O homem converte-se e cobra juízo. Dom Rabi. Logo no começo da disputa. E para o alfaqui muçulmano: Bem sabeis. um livro delicado. a dirigir o diálogo. Apesar disso. Raramente uma polémica é tão cortês que não entre um pouco pelos caminhos do escárnio e maldizer. as personagens e os factos de modo menos amável e até com algumas tinturas de sátira. se a Igreja Militante. sorri: Vós. homem bastante feio e de má catadura.

Poucos se convertem dos judeus e dos mouros ainda menos.. tocando em desvairados instrumentos. no Paraíso. É o aspecto físico dos judeus que mais gostamos de ver descritos em traços cómicos. Mas os pagãos convertem-se quase em massa e os anjos cantam a glória do Celestial Imperador. Não saem destes delírios sensuais e do comer e 122 . tinha a cabeça calva. Outro era muito magro. tinha grandes barbas e nariz comprido. Os que. para beberem à vontade. fica pasmado «e pose seos dedos da maão sobre sua boca» 109. vestido de negro. apesar de novo. o nariz longo sem mesura e barba espessa. a nobre rainha pagalhe em moeda igual: Dom Rabi. Um deles. Mafoma teve noventa mulheres e deu ordem ao povo para cada um ter só quatro (estamos a ver o sorriso malicioso da nobre rainha.). Eles e os seus costumes religiosos e sociais. não hajades por descortesia. Ainda assim. O rabi Papias vai escutando os argumentos da nobre rainha e. Todos eles crêem que.. terão mulheres com fartura e rios de vinho. O rosto de certo rabi parecia velho e amarelo. Outro era muito magro e feio. leite e mel. fazem de sacerdotes são pobres mesteirais. neles. A invectiva contra o homem de má catadura tinha o seu quê do ralho das mães aos filhos. Um deles.maternal e firme. Usava um tabardo ou capote negro. na maior parte. Outro. Aliás.. Não aparecem judeus gorduchos. a dada altura.. Na sátira benigna da Corte Imperial também entram os muçulmanos. de semblante presunçoso. desta gordura que inspira confiança e revela bondade. mostram-se correctos e um deles chega a pedir desculpa de insistir nas suas razões 108.

temos de sorrir daquele paraíso com homens a comer por quarenta. Há neles grandes comilões. A doutrina deles tem coisas porcas e para rir. mas põe os hábitos dos muçulmanos a ridículo. lambem as mãos quando comem e com elas tiram a gordura dos tachos e das escudelas. quase dum humor que não dá por si mesmo.beber à sombra das árvores de fruta. no Céu. cada homem pode comer e beber tanto como quarenta homens neste mundo! 110 É uma refutação a sério. Pensam que. Trata-se. pois ordenou Mafoma «que lanbesem os dedos depois que comesem». Tanto melhor. 123 . O anónimo autor faz sátira. talvez sem recorrer conscientemente ao sentido do ridículo e sem intenções satíricas. enlevado na ideia de mostrar a superioridade cristã sobre o mundo muçulmano. Queiramos ou não.

Afonso IV 111. Frei Álvaro Pais era ortodoxo até à medula e. E a Igreja é uma pessoa viva que chora as suas desgraças e pela qual nós também choramos e gritamos. ao mostrar as chagas da Igreja. 124 . pois ambas as coisas exprime Álvaro Pais. As suas obras andam publicadas. BISPO DE SILVES Muito se escreveu sobre este galego do tempo del-rei D. inspirada numa laude de Frei Jacopone de Todi 112. mais tarde vertida em português por Mestre André Dias 113.VI / O «PRANTO DA IGREJA». tanto mais que o seu autor foi bispo de Silves. na sua quase totalidade. tornou-se muito conhecido. DE FREI ÁLVARO PAIS. A obra enorme do Pranto da Igreja desenrola-se. em grande parte. à base duma alegoria. e o seu Pranto da Igreja. pois foi impresso em Ulm no ano de 1474. Por isso. No entanto. Além disso. Pranto da Igreja ou pranto sobre a Igreja. tem ele um justo lugar neste livrinho. sobretudo no final da Idade Média. Os protestantes serviram-se desta obra para os seus fins. pretendia curá-las e não desacreditar o catolicismo. O Pranto da Igreja é o livro mais representativo de Álvaro Pais. em latim vivo e polemista. foi revisto em Portugal e refere-se várias vezes ao nosso povo.

embora Frei Álvaro Pais não pretendesse ir tão longe. vi-me enganado por uma beata falsa. Igreja conspurcada. os seus lamentos dirigem-se em todas as direcções da Cristandade. Além disso. Igreja viúva e sozinha! Onde estão os bons eremitas?. Tem muito de autobiografia. carrega a fundo na decadência da Igreja. a obra De Planctu Ecclesiae encerra uma sátira por vezes cruel e injusta. Todavia e ao contrário de Lutero. desde os leigos até à Cúria Romana. Apesar de milhentas citações. Sátira na segunda parte. à maneira de Frei Jacopone de Todi. não andam pelo caminho 125 . sobretudo os da Ordem de S. trotam atrás dos cardeais! 114 Objectivamente. No entanto. Uma autobiografia amarga e contra alguém. bispo de Silves. a Igreja. como um profeta. Muitos religiosos deram-me que sofrer. falei com os hereges begardos e conheçolhes os maus costumes. onde os bispos. inclusive do rei de Portugal: Eu. a pôr o dedo condenatório nas chagas do povo de Deus. parece-lhe tudo negro e grita. sou obrigado a beijar a mão ao rei de Portugal! 115 Duma ponta a outra. pergunta ele. o franciscano Álvaro Pais protesta contra os que chamam meretriz e marafona à Igreja e nela espera a salvação. Ó Igreja violada. embora dentro da ortodoxia. aqui e além) e até joaquimita. E queixa-se dos reis das Espanhas. diz ele. no seu estilo breve e fremente. acima de tudo. encontram-se ali páginas de enorme beleza. esta grande obra. na ânsia de honras e dinheiro. Francisco? Os monges e frades a estudar. deles poucos estudam a valer.Com que força este fundibulário do século XIV invectiva a Igreja. Onde param os religiosos observantes. Não é nenhuma meretriz. tudo em prosa de sabor profético (quando não jornalístico.

neste Juízo Final. apesar da vitória do Salado e da linha dura de D. canta-se à maneira do teatro. mulheres (que longa fieira de pecados elas têm aqui!). etc. a quem tudo obedece 118. / Nummo venalis favet 126 . governantes. jogadores. negociantes. passam duma igreja para outra e alguns deles antes querem ajudar as meretrizes e os jograis do que os pobres! Bispos e cónegos têm histriões e andam. mercadores. do fragmento goliardo. reis. E gastam dinheiro com histriões. nobres. soldados. Apesar de tais injustiças. Fala com desprezo dos nobres. a comer e a beber com os outros universitários. cobre-os de sarcasmos e apresenta-os como dengosos e ridículos. atrás de boas rendas 117. cambistas. Abundam clérigos tabernários. em Roma. Como na Dança Macabra. do cód. Do clero. procuradores.da virtude. adolescentes. jograis e comediantes. citando o Eclesiastes. alcobacense 34: «In terra summus rex est hoc tempore Nummus. É ver como ele fala do dinheiro. de vestes ricas e cabelos bem penteados. Nas missas solenes. Aos da Apúlia. Afonso IV. diz ele. mais uma vez. e fazem vida de goliardos. passam. rimo-nos com a sua ironia e admiramos a sua força verbal. Há monges vagabundos e também bastantes padres peregrinam e vagueiam de mais 116. Até os escolares franciscanos os imitam. acontece o mesmo. que posso dizer? Os padres espanhóis e portugueses vivem mal e têm amantes. Só lendo. quando não jogam aos dados. / Nummum mirantur reges et ei famulantur. usurários. testemunhas. magistrados. príncipes. os padres lêem comédias e versos amatórios. todas as classes e actividades sociais: Imperadores. Gastam dinheiro ao jogo e nas tabernas. E recordamo-nos.

e nenguem nom quer ouvyr a verdade.... 127 .. por que seja atribulado. priores e abades e monges com todo seu convento.. a todos muyto publicado 121....... Deixamos o resto à curiosidade do leitor 119 e transcrevemos umas duas ou três estrofes da laude jacopónica que tanto influenciou Álvaro Pais.......] E hu som os relegiosos e hyrmitaães... na primeira metade de quatrocentos. O clero venal inclina-se para o dinheiro... poserom e pooem toda sua vyda e femença..... [. mays de boamente acha toda falsydade.. e honde som os prophetas plenos de sabedoria? Todo o mundo ora he cheo de mentira e de folia. porque ja em todo o mundo.... todos de ssy dam maao exemplo. o dinheiro é o maior rei da Terra! A ele servem e admiram os soberanos. Mestre André Dias 120 pôs em português e parafraseou essa laude ou loa italiana... e engana a seu amygo com plazentearia. grandes e pequenos.... de guaançar senhorios e requeza. e fazem a todos grande escandalo...... e de cobiiça e maleza todo o mundo he muyto fortemente mazelado........ E hu som os patriarchas.... No nosso tempo........... e o leitor pode saborear essa versão arcaica: Eeu mym..... que vyvam em grande tenperamento? Ja todos som lançados em muy grande perdimento.......et ordo clericalis». plenos de fe e de creença...

quase um planfleto. 128 . Sátira amorosa (pois o autor ama a Igreja) torna-se. quer dizer.O título italiano deste «cantar». em português. De Planctu Ecclesiae. por vezes. um título igual ao da obra posterior de Frei Álvaro Pais. Em latim. bastante erudito mas demasiado temperamental para ser um documento histórico seguro. é precisamente Del Pianto de la Chiesa.

De tal ramo fazem parte os Gesta Romanorum. se quiserem. Só que tem um religioso no lugar do camponês e um veado no lugar do carneiro. O frade podia ter lido essa história num sermão ou em qualquer derivado de Odo de Ceritona.. domina o estilo e está no centro do desenvolvimento doutrinal. do P.e Manuel Bernardes. empregando também este a palavra ribaldi. outro mais longe. acima de tudo. o homem acabou por se deixar convencer. No entanto. o Speculum Laicorum e. a Nova Floresta. a sátira da manipulação mental.VII / A SÁTIRA NO «HORTO DO ESPOSO» Obra dum frade anónimo do final do século XIV. Uma das sátiras mais graciosas e actuais do Horto do Esposo é o conto do aldeão que ia vender um carneiro morto. largou o carneiro e os quatro marotos fizeram um grande banquete 122. Pelo caminho.. lenda. história.) foram-lhe dizendo que deitasse fora aquele cão esfolado. o conto veio do Oriente e está na versão castelhana de Calila y Dimna. É a sátira alegre da propaganda e da lavagem do cérebro ou. etc. outro além. 129 .. fábula. o Horto do Esposo pertence ao grande ramo literário em que o exemplum. quatro ribaldos (um aqui. sob forma de parábola. Ora bem.

sem um olho 123. em casa. têm artes para tudo e andam sempre com perguntas maçadoras: ― Que estavas tu a dizer à criada? Quando chegaste do mercado? Porque estavas a olhar para Fulana? Esta caricatura tem o seu fundo de verdade. E se o homem não aceita as suas razões. porque a mulher cantadeira é capelã do diabo e toca o sino dele. Mas que é melhor abrigar um dragão. alegando parecer mal ter um servo. a parábola dos dois caminhos. Ninguém as segura. do que certas mulheres. À quelque chose malheur est bon! Ainda hoje floresce. no Paraíso. a sátira 130 . e passemos adiante. E aqui está uma coisa de fazer sorrir: a mulher a rezar as horas canónicas do diabo e a rezar a sua missa. parece-nos um pouco forte. Contudo. Os defeitos das mulheres enchem meia dúzia de páginas do Horto do Esposo 125. SÁTIRA DAS MULHERES Quem pode conhecer as mulheres e as suas manhas infinitas? Que os homens tapem os ouvidos aos seus cantares e conversas. começam a afagá-lo e a chorar ― e não há quem resista. Outra história desavergonhada. Quantos idiotas a guiar pessoas inteligentes! 1. mas tranformando-a em sátira da estupidez humana: Dos dois irmãos. O Horto do Esposo também a traz. Elas são capazes de tudo.Ouvimos depois o conto do zarolho que escapou de acompanhar o rei na sepultura. nem que o homem feche bem a porta e esconda a chave debaixo do travesseiro. Bonitas ou feias. foi o sandeu que guiou o ajuizado e caíram ambos nas mãos dos ladrões 124. na pregação.

me enganou a mulher. Bem fez certo professor da Universidade de Paris que abandonou o mundo: Deixo o coaxar às rãs e o crocitar aos corvos e as vaidades aos vãos.mais sabida é a velha história da partida pregada a Aristóteles (o grave Aristóteles. Este caso percorreu a Idade Média europeia. com arrazoados escolares. O velho Aristóteles. sim. Cristo e os apóstolos não vieram ensinar-nos a arte da lógica. escapou-se mediante uma sentença moral: Se a mim. Vou estudar aquela ciência da lógica que não receia a conclusão da morte 127. Ensinaram-nos. rei de França. SÁTIRA DA FALSA SABEDORIA O Horto do Esposo troça da ciência vã e do verbalismo. sobretudo em francês. fazendo-o andar de gatinhas. está claro. Mas converteu-os outro bispo. Luís. velho e sábio. E para acabar.. no Lai d’Aristote.). 131 . que ainda és novo! 2.. o que sucederá a ti. Isto foi dito em latim rimado. sobre os livros demasiado bem conservados: Boa coisa seria estarem os livros mais envelhecidos e mais feios 128. Um bispo letrado não conseguiu converter os ingleses. com a mulher sedutora escarranchada em cima dele e Alexandre Magno a espreitar e a rir-se 126. a viver. com exemplos e parábolas. esta graça inteligente de S. na Legenda Áurea. É esta a arte das artes. Alexandre.

4. Porém. Segue-se a caricatura do fidalgo pobre. tão frequente nas cantigas de escárnio e de maldizer e nalguns autos de Gil Vicente. se não somos ricos. rouba-se e há grandes queixumes. Quixote. Esta. É humilhação demasiada aprender um ofício e mendigar é impossível. Aliás. em Toledo. só por si: A tua nobreza está repartida por todos os da tua ascendência. eles.3. Com efeito. insiste o Horto do Esposo. cada qual é filho das suas obras. SÁTIRA DA CAVALARIA E DA NOBREZA A honra da cavalaria pouco vale. os combates são muitas vezes injustos: A terra fica destruída. somos mais pobres do que os mendigos. Roubamse os mosteiros e violam-se as virgens e as mulheres casadas. Quanto mais alta é a nossa linhagem tanto pior. Daqui nascem os pecados da nobreza arruinada 130. ardem os bens. Como não ousamos confessar a ninguém que passamos necessidades. Glória de quê? À cavalaria pertence boa parte da nobreza de linhagem. SÁTIRA DA GLÓRIA MUNDANAL E DAS RIQUEZAS Que vale a glória mundanal? Onde tem ela as raízes? Nos louvores do povo que se engana e deixa enganar! 132 . Todos se envergonham de nós. Como depois diria D. porém. até chegar à perfeição do amo de Lazarilho de Tormes. «toda a glória da nobreza he delle soo» 129. pouco vale. Os ricos ficam na miséria. os que não vêm de fidalgos são nobres por si mesmos e esses valem mais. as mulheres e os filhos.

esquadrinham as funduras da terra e do mar. vendem. debaixo de rosa do Sol. Uns ganham para outros gozarem. o vão deleite e a má cobiça? Onde está o siso deles e a sua graça? Para onde foram os que mandavam e onde param os grandes letrados e os que davam festas? Que é feito dos cavaleiros e dos seus cavalos formosos? Para onde foram os chefes militares e os sábios? 132 Lembra-nos isto o humor negro e sarcástico de Hamlet. passam rios. acrescentar ganhos e honras. lavram as pedras. caçam. têm querelas. Vaidade das vaidades e tudo é vaidade. Claro que mendigar ainda é pior do que ser rico. só por lhe incharem as orelhas com louvores. tentam juntar riquezas. mentem. E é este outro mal que viu Salomão. roubam. sofrem as tempestades e ondas do mar. ordenam. dizia Salomão. ora vem. porque do pobre todos os dias são maus. plantam vinhas. Morrem e que lhes aproveita o gabo das riquezas. talham as madeiras. tecem os vestidos. pensam. cultivam os campos. 133 . pergunta o Horto do Esposo. acendem fornos. Os homens correm e discorrem pelos caminhos. no monólogo com a caveira. entram nas cavernas.Incha-se um homem de soberba. o poderio mundanal. como um pouco de estopa. E quando morrerem. pelejam. Dignidades e prelazias. constroem moinhos. a alegria breve. enganam. dignidades e poderio ― e tudo isto é vaidade e aflição de espírito 131. pescam. sobem os montes. arrancam os metais à terra. Aliás. passam além dos outeiros e das altas serras. bosques e desertos. que vale desejá-las? Fizeram-te «duque e mayoral»? Tanto pior para ti. Arde e some-se. mercam. Ora vai. furtam. Mas os ricos aproximam-se da sua desgraça. cá ficarão as suas riquezas. a simpatia popular não dura sempre.

Como podia ele descansar. antes de o deixarem imprimir. Bemardo. Até lembra a Virgem Maria! Certo monge. porém. alc. SÁTIRA DA IGREJA Parece bela. Era a Igreja. mas reparou-lhe. Por causa dos maus prelados. 5. temos a resposta de Allain de Lille. andava em manuscrito e os inquisidores nunca leram esta obra escrita para instruir e desenfadar uma freira devota. «A pena de quem isto escreveu descanse 134 . ao leme da «nave de sam Pedro».comenta S. murchou a formosura da Filha de Sião 134. Tinha razão. mas não a dos tempos dos apóstolos. 203: Stilus scriptoris requiescat fessus laboris. depois. sofreria vários golpes de tesoura. nenhuma hora foi boa para mim. 135 Como se vê. a Idade Média tinha a língua destravada e o Horto do Esposo. que anda no mar do mundo? Antes ser clérigo pobre ou simples mesteiral. Já dizia Bento XII: Julgam os homens que ser Papa é grande coisa. nem lhe sobra vagar para «livros e outras obras graciosas» 133. a quem perguntavam porque não queria ser bispo. respondeu ele. Ao Papa. Mais adiante. mas enganam-se. pode agora ser nomeado por três cónegos «ribaldos». Desde que estou no papado. Acabou este voluminho no limiar do século XV e gostaríamos de pôr aqui o fecho dum apógrafo de Raimundo Lulo. Felizmente. viu uma senhora de maravilhosa formosura. É que um bispo ou arcebispo. no cód. nas costas: estavam cheias de vermes. se viesse à luz no tempo da Inquisição. a Santa Igreja.

» Mas espera-nos ainda o século XV.fatigada do trabalho. com a sátira dos soldados e caçadores. del-rei D. Duarte e da Virtuosa Benfeitoria. uma pausa misericordiosa. Daqui até lá. do Boosco Deleitoso e do Cancioneiro Geral. 135 .

11.. 11 MÁRIO MARTINS. 10 Ib. p. 7 Ib. 47. 1972). 20 Ib. pp. 12.. pp. 53. 19 Bibl. 1973). 330. pp. SCHOLBERG.. 8 Ib. 563. 2 L. fl. fl. 14 Ib. Nac.. 64-65. 152. 866. 15 Ib. 253. 241. 279. 4 Ib. pp. 5 Ib. 26-28.. fl. pp.. 224229. de Lisboa. 12 Sancti Antonii Patavini Sermones. 5. DE KERVAL. 13 Ib. pp. 1975). 95-103. 52-53. 6 Ib. p. pp. 365.. 158.. 17 Cf. ed. 189. pp. ed.NOTAS 1 KENNETH R. Didaskalia. cód. 21 Ib. Estudos de Cultura Medieval (Braga. 754. t. 136 . pp.. 25. 714. 3 Sancti Antonii Patavini Sermones. p. 328-329. L’Évolution et le Développement du Merveilleux dans les Légendes de S.. Sátira y Invectiva en la España Medieval (Madrid. 1971). 789. Locatelli. pp. 3 (Lisboa. pp. 298. p. 337-361. 532-534.. 161-161 v. 153. pp.. 16 Ib.. Símbolos e Exemplos Morais da Literatura Medieval Portuguesa (Lisboa. 449. Antoine de Padoue (Paris. 26. 18 MÁRIO MARTINS. Locatelli. alc. Alegorias. 67-99. p. 1906). 9 Ib. p. 419.

398. 80.º 277. 2 (Halle. 1959-1964).º 280. 220. 37 CAROLINA MICHAËLIS DE VASCONCELOS..º 279. 1970). 2-2 v.... 153 v. n. 33 Ib. 1971). Rodrigues Lapa.º 293. Sátira y Invectiva en la España Medieval (Madrid.. 56-134. 30 AFONSO X. p. 1949). n.. n.º 72.. 27 Ib.. Cf. 41 Cantigas d’Escarnho e Mal Dizer dos Cancioneiros Medievais Galego-Portugueses (Lisboa. 1904). 35 v. 44 Ib. 42 RL. Nomearemos esta colectânea pela sigla RL e citaremos o número das cantigas desta edição. Cantigas de Santa Maria (Coimbra. 316. fl. pelo menos.º 281.. Cancioneiro da Ajuda. n. 23 Ib. 1974). Cantigas de Escárnio e Maldizer: Uma Galeria de Caricaturas.. 65-89. 22 Ib. também fl. 223. p. 89. 36 L’Art de Trouver du Chansonnier Colocci-Brancuti. 40 KENNETH R. 137 . pp. Em geral. em «Arquivo do Centro Cultural Português».. 24 Ib.fl. ed. 38 Ib. SCHOLBERG. 34 Ib. p. 35 Ib.º 230. 286. 25 Ib. 45 Ib. 29 Ib. 30. n. n. fl. n.. M. 46 v. fl. 39 MANUEL DE AGUIAR. t. 28 JOSÉ GUERREIRO LOVILLO. n. pp. n.º 15. p. 43 Ib..º 290. pelo Prof. 2 (Lisboa. 154..º 61. 132. 26 Ib.. 20. n. 31 Ib. Os nomes dos autores irão como vêm no final de cada uma.. n. 32 Ib. fl.º 12.º 153. n. t. em «Portugaliae Historica». fl. O SÁBIO. t. 1975). 10 (Fundação Calouste Gulbenkian. Las Cantigas (Madrid. Paris.

p. op. 394-398. 54 RL. MENÉNDEZ PIDAL. 62 La Chanson de Roland (Paris.º 401. 173-177.. 55 Ib. 559-560. 1904).º 399. El AOI del ms. n. n. 64 C. 1963). pp. M. 68 Ib. n. do número das cantigas. t. pp. n. n. 1904). omitimos as citações..º 388.º 141. pp. introdução e notas de F. 61 Ib. 403.. em nota. pp.. n. M. 50 Ib. 53 C..º 407. 67 Ib. 46 (Madrid. 2 (Halle. 433-436. t. p. nota da p. n. 5 (Barcelona.C. rolandiano de Oxford.º 199. DE VASCONCELOS. DE VASCONCELOS. 625. em «Anuario de Estudios Medievales». em «Revista de Filología Española».º 21. Sabendo o nome do trovador e os das pessoas de quem ou a quem fala.º 181.. t.º 204. M. 2 (Halle. n.º 239. n.º 370. 2 (Halle. Para não ultrapassarmos os limites que nos foram sugeridos para esta obra.. 433. n. consultando os índices finais de RL. n. 340. 69 Ib. a não ser que façamos qualquer transcrição mais extensa. t..º 284. texto crítico. Cancioneiro da Ajuda. 1904). 47 RL. 52 Ib. 58 Ib. 65 Ib... 56 Ib. n. 2. 57 Ib. cit.. pp. 51 Ib. t. Cancioneiro da Ajuda. n. 63 RL. M. é fácil procurá-la. 1850).º 57. Cancioneiro da Ajuda. 48 C. DE VASCONCELOS. n. 60 DANIEL DEVOTO. 624. L’«AOI» dans la «Chanson de Roland». 66 Ib. DE VASCONCELOS.. 1968). 49 RL. n. n.º 130. t..º 203. 46 138 . 59 R. Génin..º 33.

n. 358. 356. p. 1885). 351. 87 Ib.. DE VASCONCELOS.º 430. 270. n. 85 Ib. 1904). 78 GOMES EANES DE ZURARA. n. 333.. Sobre familiar. n..º 329. 1139. 364. Elucidário. n. 97 Ib.º 396. 92 Ib. n. n. em «Portugaliae Monumenta Historica. 413..º 114... 322. 98 Ib.. 70 Ib. n. 71 Ib. n. VITERBO..º 203. 360. 90 RL. 74 Ib. n. 95 Livros de Linhagens. em Familiares. t. p. 414. 428. 2. 96 Ib.º 264. 75 Ib.. 88 Ib. n. 80 Ib. de Vasconcelos.os 1138.º 411. 91 Ib. 799... M. 89 C.º 340... 93 Ib. L’Abbaye de Pendorada des Origines à 1160 (Coimbra. 1915). 425. 181.. 79 RL..º 149.º 71.. 65 e ss.º 78.º 175. Cancioneiro da Ajuda. 2 (Halle. pp. 81 Ib. DE VASCONCELOS. Ed.º 406. 94 Cf.. pp. p. Scriptores». 139 . 624. M.. t.º 195. Crónica da Tomada de Ceuta (Lisboa.º 202.. 82 Ib.n. 1904). p.º 287. 345-346. 339. p. 400. 84 Ib. n. 269.º 148. 83 Ib. 77 C. 333. de C. 331. 73 Ib. e JOSÉ MATTOSO. 155.º 98. n. 245-247. 206. 168.º 405.º 205. 284.. Cancioneiro da Ajuda. n.º 14. n. t. p. 1962).. n. n.. 321. 30). 2 (Halle. n. p. n. 93 (cap. 72 Ib. cf. 376. Os dois cantares são os n. M. nota 2 da página antecedente e p. 86 Ib. 76 Ib. n. Poesias de Francisco de Sá de Miranda (Halle. 337.

p. Évêque et Pénitencier de Jean XXII (Paris. 98-101. 1951). 48. 38. 262. fl. 90. 103 Ib. sobretudo NICOLAS IUNG. 133. pp. Nestas obras.. 163v-169. 147. 102 Ib. 61. 140-141. 204.. 304. 193. 176-262. 140 . 302. 116 Ib. 1972). 232 119 MÁRIO MARTINS. pp. 114 FREI ÁLVARO PAIS. pp. 11.. p.F. 107 Corte Imperial (Porto. 129. pp. p. Estudos sobre Álvaro Pais (Lisboa. 290. 187. 112 JACOPONE DA TODI.. 92. Théologien du Pouvoir Pontifical au XIVe Siècle. 119-120. 133. 1966). p. em «As Grandes Polémicas Portuguesas».. 121. 22-24.M. 254-271. 118 Ib. 45.. 111 Cf.. 153. ed. A. Scritti Inediti di Fra Álvaro Pais (Lisboa. pp. 1517). 52. D. 100 Ib.p. fl. 109 Ib. Le Laude (Bari.. O Livro da Corte Imperial. fls. 110 Ib. 115 Ib. pp. Un Franciscain. 308. O. por Vittorino Menenghin.. 1969). Figura Ecuménica do Século XV (Roma-Porto. 108 Ib. 104 Ib. 1910). 1930). 205. 2935. 117 Ib. Laudes e Cantigas Espirituais de Mestre André Dias (Mosteiro de Singeverga. De Planctu Ecclesiae (Lião. 176. 208.. Mestre André Dias de Escobar.. 1964). pp. 131-131v.. 99 Ib. DE SOUSA COSTA.. 105 Ib.. Álvaro Pelayo. 120 Para bibliografia e conhecimento biográfico deste escritor. 63. 1967). 186. 1931). Estudos de Cultura Medieval (Braga. 46. p. pp. 101 Ib. cf. 309.. 106 MÁRIO MARTINS. fl. pp. t. 160. 113 MÁRIO MARTINS. pode o leitor achar uma enorme bibliografia. 106. 102-103. 1 (Lisboa. ANTÓNIO DOMINGUES DE SOUSA COSTA. fls.

18.. 127 Ib. pp. 221. pp. 205-206. 103-105. pp. 153-154. p. 127. pp. p.. 102. 142-143... pp.. 125 Ib. 161.. Laudes e Cantigas Espirituais de Mestre André Dias (Mosteiro de Singeverga. 232-233. 7. 129 Ib. 312-318. pp. pp. p. pp.. 77. 126 Ib. 131 Ib. pp.. 128 Ib. 124 Ib. pp.MÁRIO MARTINS. por Bertil Maler. 130 Ib. p.. 73. 268-273.. 263-264. 135 Ib. 121 141 . 275-276. 133 Ib. 58. 122 Orto do Esposo (Rio de Janeiro. 22 e ss. 55. pp. 138. 1956)... 132 Ib. 134 Ib. 123 Ib. 283-284.. 1951). Ed. 228-229.

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