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Paul R.

Ehrlich Carl Sagan


Donald Kennedy Walter Orr
Roberts
O INVERNO NUCLEAR
Tradução João Guilherme Linke
Editora Francisco Alves
1985
SUMÁRIO
Colaboradores
Prefácio
Advertência LEWIS THOMAS
Introdução DONALD KENNEDY

A Atmosfera e as Conseqüências climáticas da Guerra


Nuclear
CARLSAGAN
Conseqüências Biológicas de uma Guerra Nuclear
PAUL R. EHRLICH
Painel sobre Conseqüências Atmosféricas e Climáticas
Painel sobre Conseqüências Biológicas
A Conexão Moscou: Diálogo entre Cientistas Norte-
Americanos e Soviéticos
Conclusão
WALTER ORR ROBERTS
Apêndice
Notas
Agradecimentos

Este livro é dedicado à memória de Robert W. Scrivner


(1935-1984)

Com firmeza e brandura, a paixão de Robert pela paz


idealizou a conferência e a tomou realidade. Este livro
é dele.
Comitê de Orientação, Conferência sobre o Mundo após
a Guerra Nuclear
PREFÁCIO
Em junho de 1982, dois executivos de fundações, Robert
W. Scrivner do Rockefeller Family Fund e Robert L. AlIen
da Henry P. Kendall Foundation, tiveram um encontro
com Russell W. Peterson, presidente da Sociedade
Nacional Audubon, para tratar de uma crescente
preocupação comum: nos debates públicos sobre a
guerra nuclear e os efeitos destrutivos imediatos de
explosões e radiações sobre vidas humanas e cidades,
estaria sendo dada atenção suficiente aos efeitos
biológicos de mais longo prazo? O que faria uma guerra
nuclear à atmosfera, à água, aos solos - aos sistemas
naturais de que toda a vida depende?
Allen, Peterson e Scrivner concordaram em que se
deveriam buscar meios de levar o movimento de defesa
ambiental a examinar o assunto, e se propuseram apurar
que progressos estaria fazendo a comunidade científica.
Eles conheciam o relatório de 1975 da Academia
Nacional de Ciências dos Estados Unidos, "Efeitos
Mundiais à Longo Prazo de Detonações Múltiplas de
Armas Nucleares", e o relatório de 1979 da Comissão de
Avaliação Tecnológica do Congresso dos Estados
Unidos, "Os Efeitos de uma Guerra Nuclear". Haviam
também estudado uma edição especial da revista Ambio
(voI. XI, no. 2-3, 1982), órgão da Real Academia Sueca
de Ciências, que acabava de ser publicada e continha
dados científicos novos sobre os impactos climáticos e
biológicos de uma guerra nuclear.
Scrivner, Allen e Peterson reuniram alguns cientistas e
ecologistas para tratar da organização de uma
conferência pública sobre os efeitos a longo prazo de
uma guerra nuclear. Entre eles estava Carl Sagan,
professor de Astronomia e Ciências Espaciais e diretor do
Laboratório de Estudos Planetários da Universidade
Comell. Ele informou que um pequeno grupo de cientistas
estava empenhado num estudo possivelmente importante
ligado aos efeitos climáticos de uma guerra nuclear. Esse
estudo, "Conseqüências Atmosféricas e Climáticas a
Longo Prazo de um Conflito Nuclear", por Richard P.
Turco, Owen B. Toon, Thomas P. Ackerman, James B.
Pollack e Sagan, ficou depois conhecido como o relatório
TTAPS, iniciais dos sobrenomes dos autores.
O grupo TTAPS começara por examinar os efeitos
atmosféricos de grandes quantidades de poeira, e
ampliara o estudo para incluir a fumaça e a fuligem
produzidas por incêndios extensos, depois de verem
dados sobre o tema publicados na Ambio por Paul J.
Crutzen, do Instituto de Química Max Planck de
Mogúncia, República Federal da Alemanha, e John W.
Birks, da Universidade do Colorado ("A Atmosfera depois
de uma Guerra Nuclear: Crepúsculo ao Meio-Dia").
O novo e vital fator do estudo TTAPS foi o impacto da
enorme quantidade de pó e fumaça gerada por
explosões nucleares e pelos incêndios resultantes; esse
manto de pó e fumaça, imaginaram eles, teria efeitos
atmosféricos que alterariam o clima e se propagariam a
grandes distâncias das áreas de explosão. O estudo
quantificava, através de modelos matemáticos, os efeitos
de uma guerra nuclear quanto ao grau em que partículas
em suspensão impediriam a luz solar de alcançar a
Terra. Foram utilizados vários cenários para indicar os
níveis de megatonagem e locais de detonação, quer no
ar quer no solo. As respostas que vinham surgindo
apontavam para uma série potencialmente catastrófica
de conseqüências atmosféricas, climáticas e
radiológicas. As temperaturas reduzir-se-iam
dramaticamente, mesmo no verão, a níveis bem abaixo
do ponto de congelamento da água; a luz do dia seria na
maior parte reduzida; essas condições poderiam durar
vários meses e possivelmente estender-se muito além
das regiões atacadas, inclusive ao Hemisfério Sul.
Allen, Scrivner, Peterson e o seu grupo animaram-se ao
tomarem conhecimento de que havia outro trabalho
científico em curso. Um novo estudo sobre o assunto
estava sendo levado a efeito pela Academia Nacional de
Ciências dos Estados Unidos. E o Comitê Científico de
Problemas do Meio Ambiente (SCOPE) do Conselho
Internacional de Uniões Científicas planejava um estudo
sobre "Conseqüências Ambientais de uma Guerra
Nuclear".
Aquele grupo informal evoluiu para um Comitê de
Orientação com o fim de examinar a conveniência de
promover uma grande conferência pública através da
qual o estudo TTAPS e as conclusões sobre as
conseqüências biológicas de uma guerra nuclear
pudessem ser conhecidas por educadores, cientistas,
administradores de empresas, autoridades civis e outros
líderes comunitários e representantes de outras nações,
bem como por ecologistas. Entre os quais acederam em
formar o Comitê de Orientação estavam vários cientistas
altamente reputados: Paul R. Ehrlich, professor de
ciências biológicas e de estudos populacionais na
Universidade Stanford; Peter H. Raven, diretor do Jardim
Botânico do Missouri, em Saint Louis; Walter Orr
Roberts, presidente emérito da Corporação Universitária
para Pesquisas Atmosféricas; Carl Sagan, e George M.
Woodwell, diretor do Centro de Ecossistemas do
Laboratório Biológico Marinho de Woods Hole,
Massachusetts. Woodwell foi nomeado presidente da
Conferência. O Comitê designou Chaplin B. Barnes, ex-
membro da Sociedade Nacional Audubon e do Conselho
de Qualidade Ambiental, para diretor-executivo da
Conferência e coordenador do empreendimento.
Por sugestão do Dr. Sagan, resolveu-se submeter o
relatório TTAPS a um exame crítico minucioso num
simpósio de eminentes especialistas em ciências físicas.
A seguir os dados seriam mostrados a um grande
número de experientes biólogos e ecologistas para que
estes se pronunciassem quanto à extensão dos impactos
mundiais à longo prazo sobre a espécie humana e os
sistemas de sustentação de vida do planeta. Ficou
entendido que somente se os dados fossem
sancionados nesse exame a conferência pública
proposta seria programada.
Uma Junta Científica Consultiva composta de sessenta e
um cientistas dos Estados Unidos e de mais oito países
foi constituída para auxiliar na preparação da Conferência
e colaborar na disseminação de informações após a
mesma. Preparando o programa dos trabalhos, o Comitê
de Orientação decidiu que discussões políticas,
referências a desarmamento, controle de armas e fatores
sociais, que de ordinário seriam relevantes num debate a
respeito dos impactos de uma guerra nuclear, não teriam
lugar na conferência proposta. Na organização do
programa científico da Conferência, ficou decidido que se
trataria unicamente das conseqüências físicas,
atmosféricas e biológicas de uma guerra nuclear. O
Comitê achou que a inclusão de outras considerações
como estratégia nuclear e implicações econômicas,
políticas e sociais desviariam a atenção da mensagem
científica central.
Em fins de abril de 1983, cerca de cem cientistas dos
Estados Unidos e de outros países reuniram-se para o
processo do exame prévio na Academia Americana de
Artes e Ciências em Cambridge, Massachusetts. Os
cientistas convidados representavam uma grande
variedade de campos. Depois da primeira assembléia,
organizada e presidida pelo Dr. Sagan (que ainda
convalescia das complicações quase fatais de uma
apendicectomia a que se submetera no mês anterior),
cerca de quarenta físicos e dez biólogos analisaram e
avaliaram a minuta preliminar do estudo TTAPS. Em
termos gerais, o grupo concordou com as conclusões do
relatório quanto ao potencial de reduções consideráveis
na quantidade de luz solar que chega à superfície da
Terra e de alterações climatológicas de vulto, embora
sugerindo alguns pequenos ajustes. Em aditamento aos
efeitos climatológicos de temperaturas glaciais e virtual
escuridão, o grupo de ciências físicas discutiu agressões
como a exposição à radiação e a precipitações,
exposição à radiação ultravioleta da luz solar devida ao
empobrecimento da camada de ozônio e ação deletéria
de gases tóxicos desprendidos pela combustão de
materiais sintéticos.
Terminada a reunião dos especialistas em ciências
físicas, o Dr. Raven convocou um grupo de biólogos,
juntamente com dez dos cientistas presentes à reunião
anterior, para examinarem os impactos potenciais das
condições de pós-guerra nuclear nos sistemas de
sustentação vital da Terra. Foram considerados a
escuridão prolongada e alterações climáticas extremas, e
os respectivos efeitos sobre o fitoplâncton e o
zooplâncton, sobre outras formas vivas vegetais e
animais e sobre a agricultura. Trocaram-se idéias sobre
os efeitos sinérgicos das condições de pós-guerra nuclear
sobre elementos de ecossistemas marinhos, de água
doce e terrestres. Analisaram-se os efeitos sobre a
vida,animal e vegetal da exposição prolongada a radiação
ionizante e à luz ultravioleta. Outras discussões
centraram-se na interrupção em grande escala dos
serviços normais de ecossistemas naturais,
imprescindíveis à sustentação da vida humana e da
sociedade, inclusive a produção de alimentos para o
homem bem como para os animais de criação e para os
animais selvagens; clima e condições de tempo;
eliminação de resíduos e reciclagem de fertilizantes;
preservação do solo e controle de pragas das lavouras.
Ao deixarem as reuniões de Cambridge, os biólogos
estavam todos de acordo em que esses efeitos sobre a
biosfera podiam ser devastadores num grau
anteriormente não previsto, e haviam concluído que não
se podia afastar a possibilidade de os efeitos biológicos a
longo prazo de uma guerra nuclear virem a acarretar a
exterminação da humanidade e da maior parte das
espécies selvagens do planeta.
Com a afirmação dos cientistas congregados de que a
análise era válida, e de que as condições tinham de ser
encaradas com muita seriedade, o Comitê de Orientação
decidiu levar avante os planos para a Conferência, e
trinta e uma instituições ou organizações científicas,
ambientais e populacionais, nacionais e internacionais,
dispuseram-se a contribuir para patrociná-Ia:

Amigos da Terra
Associação das Nações Unidas dos Estados Unidos
da América Associação Nacional dos Professores de
Ciências
Causa Comum
Centro de Ligação do Ambiente
Coalizão Global Amanhã
Conselho de Defesa dos Recursos Naturais
Consórcio de Terras Públicas
Crescimento Demográfico Zero
Federação Americana de Paternidade Planejada
Federação Canadense da Natureza
Federação dos Cientistas Americanos
Federação Internacional de Institutos de Estudos
Superiores
Federação Nacional da Vida Selvagem
Fundo de Defesa Ambiental
Instituto Americano de Ciências Biológicas
Instituto do Espaço Aberto
Instituto de Política Ambiental
Instituto de Recursos Mundiais
O Instituto de Ecologia (TIE)
Programa do Ambiente das Nações Unidas
Sierra Club
Smithsonian Institution
Sociedade Americana de Microbiologia
Sociedade Ecológica da América
Sociedade do Mundo Silvestre
Sociedade Nacional Audubon
União dos Cientistas Engajados
União Internacional de Ciências Biológicas
União Internacional para a Conservação da Natureza
e dos Recursos Naturais
Universidade das Nações Unidas

Durante o verão de 1983, um grupo de vinte biólogos sob


a direção do Dr. "Ehrlich ampliou a definição dos efeitos
das alterações do clima sobre a biosfera.Nesse mesmo
intervalo, o grupo TTAPS aprimorou seus dados e
entregou-os à publicação científica. E nesse ínterim, na
União Soviética, o Dr. Vladimir V. Aleksandrov, do Centro
de Computação de Modelagem de Climas da Academia
de Ciências da URSS em Moscou (um dos cientistas que
participaram das reuniões de Cambridge), comprovou as
principais projeções do estudo TTAPS através de
modelos de computador por ele próprio elaborados.
Cerca de seis semanas antes da Conferência, Allen, do
Comitê de Orientação, em conversa com Kim Spencer e
Evelyn Messinger da Internews, desenvolveu a idéia de
adicionar uma nova dimensão à Conferência
aproveitando a tecnologia disponível de um link
bidirecional de satélite com cientistas soviéticos em
Moscou. Allen, Spencer e Messinger propuseram-se
organizar e produzir um programa de noventa minutos
que permitiria a cientistas de alto nível dos Estados
Unidos e da União Soviética debater as teses da
Conferência sobre as conseqüências climáticas e
impactos biológicos de uma guerra nuclear.
Spencer entabulou entendimentos com a Gosteleradio, a
única rede de televisão da União Soviética, e Allen
promoveu diversas comunicações pessoais de alto nível
entre cientistas americanos e soviéticos com o fim de
obter a participação de especialistas da Academia
Nacional de Ciências da URSS.
Quando da abertura de O Mundo após a Guerra Nuclear,
ou Conferência sobre as Conseqüências Biológicas
Globais a Longo Prazo de uma Guerra Nuclear, em 31 de
outubro, no Hotel Sheraton Washington em Washington,
D.C., estavam presentes mais de quinhentos
participantes e uma centena de representantes da mídia.
Entre os participantes contavam-se cientistas e
embaixadores ou outros representantes de mais de vinte
países, bem como autoridades civis, educadores,
conservacionistas e líderes religiosos, cívicos,
empresariais, filantrópicos, diplomáticos, militares e de
controle de armas vindos de todas as partes do território
americano. A Conferência teve ampla cobertura dos
meios de informação dos Estados Unidos, da União
Soviética e de outros países.
A Conferência foi oficialmente encerrada com a fala do
Dr. Roberts (ver p. 183), mas quase ninguém deixou o
recinto. Pois, naquele ponto, os participantes se reuniram
para o histórico evento subsidiário que foi a Conexão
Moscou. Era a primeira vez que as comunicações por
satélite eram usadas para pôr em contato, ao vivo, um
grupo de cientistas de Moscou com um grupo de
cientistas nos Estados Unidos para um amplo intercâmbio
de informações científicas.
Às 4h da tarde, hora de Moscou (8 da manhã em
Washington), de 1º. de novembro, as exposições de
Sagan e Ehrlich no dia da abertura foram transmitidas
para um grupo de cientistas soviéticos, que a seguir se
reuniram para discutir seus comentários. Às 10 da noite,
hora de Moscou, teve início a Conexão Moscou entre o
grupo soviético, reunido num estúdio de TV em Moscou, e
quatro cientistas norte-americanos num salão de
conferências em Washington.
Os participantes do grupo americano eram o Dr. Thomas
Malone, diretor emérito do Instituto de Pesquisas
Holcomb, da Universidade Butler, Paul Ehrlich, Walter Orr
Roberts e Carl Sagan. Os principais debatedores em
Moscou eram o acadêmico Yevgeniy Velikhov, vice-
presidente da Academia de Ciências da URSS, Yuri
Israel, membro da mesma Academia e chefe da
Comissão de Hidrometeorologia e Controle do Meio
Ambiente, Alexander Bayev, especialista em biologia e
genética molecular, secretário do Departamento de
Fisiologia Biofísica, Bioquímica e Química da Academia
de Ciências da URSS, e Nikolai Bochkov, acadêmico da
Academia de Ciências Médicas e diretor do Instituto de
Genética da Academia de Ciências da URSS.
Durante os noventa minutos do link de satélite, os
cientistas soviéticos e americanos trocaram perguntas e
comentaram trabalhos em curso. E alguns dados sobre
efeitos de uma guerra nuclear obtidos pelos soviéticos
complementaram e ampliaram as exposições feitas na
Conferência.
Georgiy Skryabin, primeiro-secretário científico da
Academia de Ciências da URSS, expressou sentimentos
"ambivalentes". "Por um lado", disse Skryabin, "há o
sentimento de grande preocupação com respeito à
possível tragédia que nos defronta, que paira sobre todos
nós mulheres, crianças, velhos, e sobre toda a vida da
Terra. Por outro, há nesta Conferência um grande motivo
de satisfação, que é o fato de que os grandes cientistas
aqui presentes - nossos colegas americanos e cientistas
russos - chegaram a um consenso. Estão todos unidos na
opinIão de que não deve haver uma guerra nuclear, de
que esta significaria desastre e morte para a humanidade.
Eu, pessoalmente, sinto-me contente e confortado com
isso, pois hoje em dia a autoridade dos cientistas é
considerável, e todos nós devemos procurar fazer valer
nossa influência para pôr um termo à corrida
armamentista, para que não venha a ocorrer jamais uma
guerra nuclear".
Alexander Kuzin, membro correspondente da Academia
de Ciências da URSS, declarou: "É assim
responsabilidade direta dos cientistas da União Soviética
e dos Estados Unidos levar ao conhecimento de todos os
enormes perigos que acompanhariam a deflagração de
qualquer espécie de conflito nuclear, de modo a prevenir
a própria possibilidade de uma guerra nuclear, que sem
dúvida nenhuma não só resultaria na ruína da atual
civilização senão que ameaçaria a vida como tal neste
planeta que amamos." Quando a Conexão Moscou se
aproximava do final, Malone observou que a troca de
opiniões proporcionada pela Conferência "poderá vir a ser
vista em anos vindouros - justificadamente - como a
virada decisiva nos rumos da humanidade, e haverá de
elevar o nível de consciência entre os condutores da
política".

Como seguimento à Conferência, foi fundado em


Washington, D.C., o Centro de Conseqüências da Guerra
Nuclear, com o fim de dar continuidade à disseminação
das conclusões da ciência. Através do Centro, estão
sendo postos à disposição dos interessados materiais
impressos e audiovisuais sobre as conseqüências
climáticas e biológicas de uma guerra nuclear. O
endereço do Centro é: 3244 Prospect Street, NW,
Washington, D.C., 20007.

ADVERTÊNCIA
LEWIS TROMAS, M.D.
As descobertas científicas descritas neste livro poderão
vir a revelar-se, num mundo que tenha a boa sorte de
continuar a sua história, como tendo sido os mais
importantes resultados de pesquisa em toda a longa
história da ciência.
A primeira descoberta já é largamente conhecida na
comunidade científica de climatologistas, geofísicos e
biólogos aqui e no estrangeiro, e foi confirmada em
detalhe por cientistas soviéticos das mesmas áreas.
Modelos de computador demonstram que uma guerra
nuclear envolvendo o emprego de uma simples fração do
total das bombas americanas e russas poderia
transformar o clima de todo o Hemisfério Norte,
mudando-o bruscamente do seu presente estado sazonal
para uma longa noite escura e gélida. Esta será seguida,
passados alguns meses, pelo assentamento da poeira e
fuligem nucleares, e depois por uma espécie nova e
maligna de luz solar com proporção aumentada da sua
faixa ultravioleta, potencialmente capaz de cegar muitos
dos animais terrestres. O ozônio da atmosfera, que
normalmente protege a Terra da perigosa radiação
ultravioleta, seria substancialmente reduzido por uma
guerra nuclear. Nas mesmas pesquisas, novos cálculos
da extensão e intensidade das precipitações radioativas
indicam a exposição de grandes extensões de território a
níveis de radiação muito mais altos do que se julgava. O
relatório é conhecido como TTAPS, sigla derivada dos
nomes dos pesquisadores: Turco, Toon, Ackerman,
Pollack e Sagan.
O segundo trabalho, elaborado por Paul R. Ehrlich e
outros dezenove biólogos respeitados, demonstra que as
predições do TTAPS significam nada menos que a
extinção de grande parte da biosfera terrestre, muito
possivelmente envolvendo o Hemisfério Sul tal como o
Norte.
Em conjunto, essas duas descobertas mudam
radicalmente as perspectivas de um conflito
termonuclear. Elas foram submetidas a um exame crítico
minucioso por cientistas representantes das disciplinas
envolvidas, aqui e em outros países. Estudos paralelos e
suplementares vêm sendo feitos, e já se evidencia um
grau de concordância inusitado com respeito aos
pormenores técnicos e às conclusões tiradas. Na opinião
de alguns juízes, o relatório TTAPS teria até talvez
minimizado os danos climatológicos implicados pelos
dados. O relatório dos vinte biólogos, sumariado pelo
Professor Ehrlich, representa o consenso a que
chegaram quarenta especialistas em ciências biológicas
num simpósio realizado em Cambridge, Massachusetts,
na primavera de 1983.
É um mundo novo, a demandar uma nova diplomacia e
uma nova lógica.
Até aqui, a comunidade internacional de estadistas,
diplomatas e analistas militares tem-se inclinado a
encarar a perspectiva de uma guerra nuclear como um
problema unicamente dos adversários possuidores das
armas. O controle de armamentos e as negociações
intermináveis visando à redução dos explosivos nucleares
têm sido considerados responsabilidade, e até
prerrogativa, das poucas nações em confronto definido.
Agora tudo isso mudou. Nenhum país da Terra está livre
do perigo da destruição se duas nações quaisquer, ou
grupos de nações, se aventurarem num reencontro
nuclear. Se a União Soviética e os Estados Unidos, e
seus respectivos aliados do Pacto de Varsóvia e da
OTAN, se pusessem a lançar seus mísseis além de um
mínimo dúbio e ainda indeterminado, estados neutros
como a Suécia e a Suíça sofreriam os mesmos efeitos
dilatados, a mesma morte lenta que os participantes
diretos. A Austrália e a Nova Zelândia, o Brasil e a África
do Sul, têm quase tanto por que se preocupar quanto a
Alemanha Ocidental se uma conflagração em grande
escala se verificar no extremo norte.
Até aqui, todos temos tendido a ver num conflito com
armas nucleares um esforço de um par de opositores de
resolver pendências como domínio territorial ou disputa
ideológica. Agora, com os novos conhecimentos diante de
nós, ficou claro que qualquer território conquistado será
ao cabo um deserto estéril, e que qualquer ideologia será
consumida na morte da civilização e na perda
permanente da memória humana da cultura.
Até agora, os riscos de uma guerra dessa espécie foram
convencionalmente calculados pelo número de mortos de
um e de outro lado ao final da batalha, soldados e não-
combatentes somados. As expressões "aceitável" e
"inaceitável", significando tantos ou tantos milhões de
baixas humanas, têm sido utilizadas para estabelecer
julgamentos frios sobre a necessidade de novos e mais
precisos sistemas de armas. Daqui por diante, as coisas
são diferentes. É desnecessário falar da estimativa
inquestionável de que em um conflito total de, por
exemplo, 5.000 megatons, algo como um bilhão de
pessoas morreriam imediatamente por ação das
explosões, do calor e da radiação. Por outro lado é
desnecessário citar o fato provável de que outro bilhão
viria a morrer depois, em conseqüência dos efeitos
retardados sobre os sistemas de sustentação vital e da
precipitação radioativa.
Algo mais terá acontecido ao mesmo tempo, algo em que
os seres humanos deveriam ver um risco igual ao da
perda de suas vidas. O complexo, coerente, belamente
organizado ecossistema da Terra - aquilo que alguns
denominam biosfera e a que outros chamam natureza -
terá sofrido um golpe mortal, ou quase. Algumas de suas
partes hão de persistir, é razoavelmente certo, e a vida do
planeta irá continuar, mas talvez unicamente em nível
comparável ao que existia por volta de um bilhão de anos
atrás, quando os procariontes (criaturas semelhantes às
bactérias atuais) se uniram em combinações simbióticas
e criaram as células nucleadas de que nós somos sem
dúvida os descendentes diretos.
A última grande extinção de vida planetária ocorreu há
cerca de 65 milhões de anos, quando os dinossauros e
inúmeras outras criaturas terrestres e marinhas
desapareceram simultaneamente. Supõe-se geralmente
que esse evento tenha sido provocado por uma vasta
explosão de pó, que teria escurecido o sol por um período
longo o bastante para deter a fotossíntese,
provavelmente em conseqüência da colisão de um
asteróide com a Terra. É esse gênero de evento que
predizem os modelos usados nestes estudos.
A persistência e multiplicação de armas nucleares, a
provável proliferação de tais armas em outros países que
hoje não as possuem, e os esforços bloqueados, adiados
e fracassados de livrar-nos dessas ameaças à vida do
planeta, inclusive à nossa própria, parecem-me hoje uma
ordem de problemas diferente do que parecia até
recentemente. Já não é um assunto de política, a ser
deixado à sensatez e previdência de uns poucos
estadistas e de uns poucos chefes militares, nuns poucos
Estados nacionais. É um impasse global, que envolve
toda a humanidade.
Minha esperança agora é que a comunidade científica
internacional em todos os países analise cuidadosamente
os dados e conclusões a que chegamos, que amplie
esses estudos de todas as maneiras que possa imaginar
e que aconselhe seus governos adequadamente e
insistentemente. E espero que os jornalistas do mundo
achem modos de informar os cidadãos da Terra, em
detalhe e reiteradamente, sobre os riscos futuros.
Já não temos escolhas a fazer ou as opções de alguns
meses atrás a questionar. Simplesmente temos de parar,
e logo, e livrar a Terra de uma vez por todas dessas
armas que na verdade não são armas, senão
instrumentos de pura danação. No pé em que estão as
coisas, nós colocamos em perigo muito mais que a
humanidade em si. Arriscamos infligir um dano
permanente à vida de toda a admirável criação.
A coisa mais linda que já vi numa fotografia, em toda a
minha vida, é o planeta Terra visto da Lua, suspenso no
espaço, evidentemente vivo. Embora à primeira vista ele
pareça feito de uma multiplicidade de coisas vivas
diferentes, melhor reparando, cada peça que nele
trabalha, nós inclusive, está ligada por interdependência
a todas as demais. Segundo um modo de dizer, é o único
ecossistema autenticamente fechado que nos é dado
conhecer. Em outras palavras, é um organismo. Nasceu,
calcula-se, há 3,8 bilhões de anos, e eu lhe desejo feliz
aniversário e uma longa existência futura, para os nossos
filhos, e os seus netos, e os netos de seus netos.
Tenho em alta conta a nossa espécie, com todo o seu
verdor e imaturidade como membro da biosfera. Na
escala do tempo evolutivo, nós só chegamos alguns
instantes atrás e ainda temos muito que crescer. Se
formos bem-sucedidos, podemos tornar-nos uma espécie
de mente coletiva da Terra, o pensamento da Terra. No
momento, apesar da nossa juventude como espécie,
somos sem dúvida a mais engenhosa e inteligente das
peças componentes do sistema. Confio em que teremos
a vontade de continuar funcionando, e de manter o
melhor que possamos a vida do planeta. Por isso, vejo
estes relatórios não apenas como uma advertência, mas
também, se devidamente divulgados e reconhecidos a
tempo, como uma extraordinária boa nova. Acredito que
a humanidade como um todo, conhecendo a verdade dos
fatos, saberá o que tem de ser feito com as armas
nucleares.
Mas se os fatos permanecerem obscuros, ou forem
erroneamente tomados por fantasias teóricas arcanas,
que se podem calmamente desprezar, nesse caso não
vejo esperança para nós.

INTRODUÇÃO
DONALD KENNEDY
Este não é um assunto agradável. Em primeiro lugar, as
conseqüências de uma guerra nuclear são realmente
pavorosas, e não é nada divertido dizer às pessoas que
são mais pavorosas ainda do que lhes disseram antes.
Depois, infelizmente não existe uma saída simples para
as dificuldades em que nos colocam as armas nucleares
- embora alguns teimem que existe. Ao contrário, há uma
necessidade contínua de lidar com o perigo, e de
enfrentar uma política de segurança nacional que se
mostra terrivelmente refratária ao raciocínio lógico. É
nessas circunstâncias desanimadoras que se discutem
as conseqüências biológicas a longo prazo de uma
guerra nuclear.
Antes de começar, quero levar ao conhecimento do leitor
algumas qualificações que me faltam para o meu papel
de introdutor, e em seguida expor uma ou duas
convicções. Não sou um veterano do movimento anti-
nuclear, nem tenho experiência em matéria de
desarmamento ou de controle de armas. Ademais, é com
prazer que deixo a outros a proficiência técnica na
disciplina inexata que é a estratégia nuclear - a base
tecnológica e aleatória da détente. Quanto às
convicções, devo dizer que conservo a crença antiquada
de que continuaremos a necessitar de um organismo de
defesa no país, de que, queiramos ou não, as armas
nucleares continuarão por algum tempo a exercer uma
função integrante na nossa estratégia de segurança
nacional e na de outros, e de que, em vista disso,
teremos de seguir nos esforçando em compreender tais
armas se quisermos finalmente controlá-Ias e negociar
racionalmente com a outra parte.
Estas revelações devem mostrar, penso eu, que não sou
nem uma fonte técnica indicada para uma conferência de
controle de armamentos, nem um candidato promissor a
chefe de claque num comício pela paz. Este volume não
se destina a refletir nenhum desses propósitos. É, sim,
um relatório de análises científicas sérias das
conseqüências de uma guerra nuclear. E para introduzir
esse assunto eu tenho uma perspectiva que imagino
relevante. Durante um período em que prestei serviços ao
governo, chefiei um órgão de regulação que se ocupava
em grande parte com os perigos ligados a produtos
químicos tóxicos, e de modo mais geral com as
conseqüências da introdução prematura de novas
tecnologias. No curso daqueles anos, e nos tempos
imediatamente precedentes e seguintes, estive
intimamente envolvido em atividades de estimativa de
riscos: avaliação das conseqüências do uso de
defensivos agrícolas, definição de tolerâncias para
contaminação por poluentes industriais, estimativa de
efeitos de aditivos alimentares, etc. Nessa função, era
uma preocupação considerável a forma de estimar os
riscos, tanto mais em circunstâncias em que os dados
são necessariamente incompletos.
Creio que três lições tiradas dessa experiência são
aplicáveis ao assunto em pauta. Primeiro, um dos
grandes desafios da metodologia de avaliação de riscos é
formular decisões com o máximo de segurança possível
em face de grandes incertezas. Para levar a bom termo
esse princípio, é essencial que se tenha tanta consciência
daquilo que não se sabe quanto daquilo que se sabe.
Esse desafio torna-se muito mais difícil pela atitude do
público em relação ao risco. É esta a segunda lição: as
pessoas são ambivalentes com respeito ao risco.
Aplicam-se enormes recursos pessoais e sociais na
salvação de uma vida identificada em perigo, mas
consigna-se muito menos para proporcionar uma
proteção estatisticamente muito maior a indivíduos não
identificados da população global. Aprovamos
entusiasticamente leis que previnem riscos involuntários
de pequena monta; mas as revogamos prontamente se
elas restringem liberdades pessoais. Em suma, não
hesitamos em gastar grandes somas para tirar uma
garotinha do poço em que ela caiu, mas relutamos em
diminuir o limite de velocidade, ou até em proibir certos
produtos cancerígenos se eles são do agrado das
pessoas.
Essa ambivalência torna-se ainda mais definida quando a
probabilidade e a gravidade dos riscos são consideradas
separadamente. Há uma diferença de atitudes em relação
a riscos estatísticos modestos amplamente distribuídos,
como o aumento de mortes por câncer devido a uma
toxina ambiental, e a riscos de baixa probabilidade com
conseqüências desastrosas generalizadas, como um
conflito com armas nucleares. Embora estejamos apenas
começando a desenvolver uma ciência das atitudes
humanas com respeito à aversão ao risco, os resultados
até aqui obtidos sugerem que as pessoas tratam eventos
de baixa probabilidade com conseqüências altamente
negativas de um modo que se afasta acentuadamente
das opções que seriam de prever com base nas teorias
correntes de "expectativa utilitária". Tais pesquisas
podem vir a revelar alguma coisa de grande utilidade
sobre as atitudes da população em relação à guerra
nuclear. E podem ser mais importantes ainda no que toca
à questão crucial de como os responsáveis pelas
decisões, nos terríveis últimos momentos, irão decidir.
A terceira e última lição que me seria dado tirar do
domínio mais convencional da estimativa de riscos tem a
ver com a escala de tempo em que nós reconhecemos as
conseqüências. Aqui a analogia com o mundo das
substâncias tóxicas é de fato perfeitamente exata.
Quando, depois da guerra, a revolução da indústria
química começou a causar preocupação com os riscos
humanos ligados a substâncias tóxicas, a preocupação
era quase inteiramente limitada aos efeitos imediatos ou
"agudos". Os primeiros programas de ensaios criados
para avaliar esses perigos foram os chamados testes
LD50, que mediam a quantidade de um determinado
composto que se constituía em dose letal para 50 por
cento dos organismos utilizados no teste. Mais tarde, foi-
se aos poucos chegando à conclusão de que os efeitos
"crônicos" à longo prazo - a possibilidade de produzir
câncer, ou de aumentar a propensão de um indivíduo
para cardiopatias e infarto, ou de gerar defeitos
congênitos na prole - eram muito mais importantes, e
inteiramente impossíveis de medir empregando os testes
usuais de curto prazo. A subseqüente experiência
confirmou que esses riscos crônicos são muitíssimo mais
sérios que os agudos, e hoje em dia não passa pela
cabeça de ninguém avaliar a segurança de uma
substância nova sem realizar experiências de longa
duração para avaliar o seu potencial carcinogênico,
efeitos fetais, etc.
É a posição em que nos encontramos com respeito à
guerra nuclear: estamos começando a compreender os
efeitos retardados - os equivalentes, para o ambiente, do
câncer, das cardiopatias, do infarto.

Agora quero chamar atenção para um aspecto central na


evolução dos nossos conhecimentos sobre as
conseqüências de uma guerra nuclear: é o caráter
errático e acidental das nossas descobertas. O que
sabemos hoje, e é certamente bem menos do que
desejaríamos saber, chegou-nos em grande parte através
de revelação não planejada, e não por estudo
sistematizado. Em decorrência das armas detonadas
sobre cidades japonesas no final da Segunda Grande
Guerra, tivemos uma triste verificação de efeitos agudos -
a devastação causada pela explosão primária e pelas
ondas de choque e o impacto da radioatividade local em
seres humanos. Mas só depois dos testes do Atol de
Biquini em 1954 foi que ficamos sabendo dos perigos de
contaminação a distância por precipitação radioativa após
transporte atmosférico. Ainda hoje, quase três décadas
passadas, causa-nos espanto a magnitude e alcance do
fenômeno. Por exemplo, o famoso vazamento de
radiação de um reator avariado em Three Mile Island -
incidente que gerou desassossego generalizado e
centenas de páginas de depoimentos no Congresso -
depositou menos de um décimo da quantidade de
radiação (em forma de 131 I) depositada na mesma
região da Pensilvânia pela precipitação da nuvem
produzida pelo teste de uma única bomba na China dois
anos antes. Entre outras descobertas tardias e fortuitas
estão os efeitos no cinturão de Van Allen, o pulso
eletromagnético (EMP) e seus efeitos nas comunicações
eletrônicas e, mais recentemente, a injeção de NOx
(óxidos de nitrogênio) na camada de ozônio. Discorrendo
sobre esses eventos, um observador fez o seguinte
comentário: "A incerteza é uma das principais
conclusões... como acentua a derivação acidental e
imprevista de muitas das nossas descobertas." Essas
palavras não foram escritas por um crítico acadêmico da
política governamental: são de um atual subsecretário da
Defesa do governo Reagan.
A conclusão é clara, e não muito tranqüilizadora. Nós
temos de aprender a esperar o inesperado. A presente
Conferência coloca-nos bem no meio de outro e ainda
mais momentoso conjunto de revelações sobre os riscos
crônicos ligados a uma guerra nuclear. Num sentido
importante, a genealogia desta Conferência começa com
o trabalho extraordinário da organização denominada
Médicos pela Responsabilidade Social. Eles fizeram as
primeiras avaliações quantitativas das circunstâncias
médicas que prevaleceriam imediatamente após um
ataque nuclear, e demonstraram a insuficiência das
atuais instituições, programas e planos médicos para
avir-se com essas circunstâncias. Tais revelações
levantaram sérios questionamentos com respeito a toda
a estrutura da prontidão da defesa civil e lançaram
graves dúvidas sobre as asserções confiantes dos
planejadores da defesa de que a recuperação após um
conflito nuclear poderia completar-se num número de
anos relativamente curto.
Os resultados expostos nesta Conferência sumariam
análises científicas mais sérias das conseqüências
ecológicas e climatológicas duradouras de um conflito
nuclear. Em particular, anteriormente os riscos ecológicos
receberam pouquíssima atenção na avaliação de
estratégias nucleares. Estudos mais antigos feitos sob o
patrocínio do Departamento da Defesa (por exemplo, o de
Mitchell) consistiam em pouca coisa mais que analogias
com cataclismos naturais. O resumo final do estudo Rand
de Mitchell é ilustrativo: "Destruições em grande escala
produzidos por incêndios, secas, enchentes e outras
catástrofes já defrontaram o mundo com problemas de
reconstrução e reconstituição de comunidades bióticas,
semelhantes aos que se prefiguram para o meio ambiente
de pós-ataque." De que modo essa similaridade possa ser
de serventia na avaliação dos riscos efetivos, deixo ao
leitor imaginar.
Na verdade, não é de todo justo condenar aqueles
primeiros estudos: nossa visão atual é mais clara e mais
sinistra em virtude de uma série de razões. Primeiro,
certas verificações recentes (por exemplo, a sensibilidade
de alguns ecossistemas a chuvas ácidas, e em particular
a sensibilidade das plantas à radioatividade e à
temperatura) foram no sentido de piorar as previsões.
Segundo, nossa visão geral da complexidade e sutileza
dos sistemas ecológicos mudou profundamente ao longo
das duas últimas décadas; hoje compreendemos de forma
muito mais completa a sua fragilidade. Por fim, o número
e a precisão dos nossos sistemas de armamentos
mudaram de tal modo que podem ampliar o caráter
altamente destrutivo de um conflito armado.
É surpreendente, portanto, que ainda hoje estejamos
recebendo informações tranqüilizadoras baseadas em
estimativas há muito superadas. Órgãos de emergência
distribuem ainda hoje um folheto redigido em 1979 pela
Agência de Prontidão da Defesa Civil. Nele lê-se a
seguinte conclusão, em moldes idênticos à da metáfora
do relatório de 1963: "Nenhum peso lógico de ataque
nuclear poderia induzir no equilíbrio natural
transformações de vulto que se aproximassem em
espécie ou grau das que a civilização humana até aqui já
produziu." Ainda que fosse verdade que a magnitude das
transformações ecológicas provavelmente resultantes do
maior ataque nuclear admissível fossem menores do que
as produzidas pela civilização humana ao longo de toda a
sua história, existe certamente uma enorme diferença
entre o impacto de grandes mudanças deflagradas em
milissegundos e as que se consumaram ao longo de
milênios.
Em outro trecho, o mesmo folheto cita do estudo de 1963
da Academia Nacional de Ciências e informação
reconfortante de que “não são de esperar desequilíbrios
ecológicos capazes de impossibilitar a vida normal". Não
há qualquer menção a um estudo muito mais recente da
mesma Academia sobre os efeitos mundiais à longo
prazo de múltiplas detonações de armas nucleares. Este
último relatório é de 1975, quatro anos antes da
elaboração dó folheto da Agência de Prontidão. Suas
conclusões são muito mais sombrias, como era de
esperar: os efeitos dos óxidos de nitrogênio sobre a
camada de ozônio foram reconhecidos, e as perspectivas
de alterações climáticas foram mais seriamente levadas
em conta. No entanto, o governo, prestando contas aos
seus cidadãos, contornou a informação mais recente
para promover um falso sentimento de tranqüilidade com
base numa fonte ultrapassada. É de preocupar quando
se usam dados obsoletos para informar decisões de
política geral.
Por si mesmas, as estimativas ecológicas da Academia
dão margem substancial a uma apreensão ainda maior.
Mas parece-me oportuno acentuar que os dados novos
mais impressionantes apresentados nesta Conferência,
na verdade os mais inquietantes dentre todos os efeitos
crônicos potenciais de uma guerra nuclear até hoje
enumerados, são as perspectivas de seqüelas climáticas
de vulto. Tais seqüelas são de tal modo profundas que
provavelmente eclipsariam todos os demais efeitos
retardados até hoje conhecidos.
Esta nova ótica resulta em parte de um novo paradigma
geral de pensamento científico sobre os processos que
influenciaram a história da Terra e moldaram-lhe a forma
atual. No século XVIII e início do XIX, acreditava-se que
as grandes formações terrestres houvessem resultado de
processos catastróficos, infligidos à Terra e seus
ocupantes por um Criador iracundo. Uma revolução
importante contra esse modo de ver, encabeçada pelo
geólogo inglês Charles Lyell, reconheceu a importância
de processos graduais como a erosão, a sedimentação e
a formação de recifes, e substituiu a concepção
catastrofista por outra, baseada na doutrina do
uniformitarismo. Hoje as ciências da Terra estão
passando por uma segunda revolução, deflagrada pelas
notáveis descobertas da tectônica de placas, e o acento
voltou a incidir sobre eventos mais dramáticos. Cresce
progressivamente a convicção de que grandes
intervenções descontínuas como erupções vulcânicas e
colisões de asteróides tiveram efeitos profundos na
história da Terra e da vida nela existente. Uma hipótese
particularmente cativante, por exemplo, é a de que a
colisão de um asteróide com a Terra há 65 milhões de
anos, e a nuvem de poeira atmosférica que ela produziu,
persistindo durante longo tempo, levou a alterações
climáticas que acarretaram as extinções em massa do
final do período cretáceo. Quando pela primeira vez
anunciada, a idéia de que os dinossauros teriam morrido
no escuro evocou um grande ceticismo por parte dos
biologistas meus
colegas. Hoje, porém, é largamente admitido que eventos
significantes da mesma natureza, ainda que não da
mesma magnitude, têm ocorrido no tempo histórico por
obra de erupções vulcânicas. "Anos sem verão"
registrados em anais antigos associam-se no tempo a
depósitos glaciais de chuvas ácidas, por exemplo, e
aberrações meteorológicas mais contemporâneas foram
ligadas a erupções como a do EI Chichón, no México, há
dois anos.
Conclusões como essas tornaram-nos muito mais
cônscios da sensibilidade do clima do mundo a
perturbações repentinas. Sabe-se, faz algum tempo, que
explosões nucleares podem introduzir poeira e aerossóis
em circulação duradoura na alta atmosfera. Cálculos
recentes indicam que incêndios de grandes dimensões
acresceriam um efeito sinérgico, suprindo partículas
adicionais e aumentando substancialmente as forças de
convecção que injetam materiais na circulação da alta
atmosfera. Essa nova informação tornou real pela
primeira vez a probabilidade de que modificações de
temperatura e luz ambiente, prolongando-se por várias
estações no Hemisfério Norte, podem resultar de um
conflito nuclear em grande escala. É uma atuação de
alarmante gravidade.
Consideradas em conjunto, todas essas informações
deveriam suscitar uma mudança radical no modo que
nós como cidadãos avaliamos nossos riscos, e no modo
que os nossos estrategistas nacionais os vêem. Já não é
admissível pensar nas seqüelas de uma guerra nuclear
em termos de minutos, de dias, ou sequer de meses.
Seria como avaliar um produto tóxico, na época em que
vivemos, em termos do que ele faz a uma pessoa em
cinco minutos. O que ficamos sabendo a partir das coisas
que os biólogos e físicos atmosféricos nos estão dizendo
hoje é que a escala de tempo apropriada é anos, e que
os processos que temos de considerar não nos são
familiares nem em espécie nem em escala. As
estimativas de risco sobre as quais os nossos
estrategistas vêm trabalhando e que vêm citando aos
nossos cidadãos são grosseiramente otimistas.
Antes de terminar, quero focalizar um outro aspecto da
análise de riscos. É um aspecto que mencionei de
passagem mais atrás: a noção de "racionalidade" por
parte dos detentores do poder de decisão ao confrontar
questões de probabilidade e gravidade de um risco. Não
apenas há motivos para duvidar que esses indivíduos,
confrontados com riscos de alta gravidade e baixa
probabilidade, se comportem de acordo com padrões
utilitários racionais de opção, como há precedentes
históricos explícitos fazendo acreditar que se
comportarão de modo mais político - e humano - do que
aquele que o modelo do "agente racional" indicaria. Em
seu excelente livro The Essence of Decision, Graham
Allison analisa o tratamento pelo governo dos Estados
Unidos da crise dos mísseis cubanos em 1962 do ponto
de vista de diferentes modelos comportamentais. Ao lê-
lo, é impossível fugir à conclusão de que nenhum chefe
de Estado, nenhuma autoridade do governo, nenhum
oficial militar superior se comporta como "agente
racional" ao tomar decisões quando o destino de países
e do mundo pende na balança. Estruturas burocráticas,
lealdades políticas e antecedentes - além de outras não-
linearidades comportamentais que mal estamos
começando a sondar - desempenham papéis
ponderáveis. No entanto a estrutura da prontidão militar e
o equilíbrio estratégico fundam-se na expectativa de
resposta racional e contra-resposta racional. A
racionalidade será particularmente difícil de manter nos
primeiros estágios de um conflito nuclear quando a
incerteza e a necessidade de decisões rápidas
predominarão. É por isso que se afigura tão improvável a
chefes militares experimentados e a outros que uma
guerra nuclear possa jamais manter-se limitada.
Seja como for, a avaliação de riscos deveria proceder-se
sobre hipóteses de pior caso. É por isso que os cenários
adotados pelos grupos de trabalho desta Conferência,
como a maior parte dos demais, envolvem a detonação
de frações consideráveis do arsenal nuclear do mundo.
Mas há também uma razão adicional: a alta
probabilidade de que, no contexto real das decisões de
um confronto nuclear, será tão difícil confinar a retaliação
e a reação que o curso esperado de um conflito dessa
espécie é que ele prossiga sem limite.
Finalizando, quero especificar o que é novo e o que não é
neste volume. É de extrema significação que um grande
grupo de biólogos ilustres tenha chegado a um consenso
refletido sobre as conseqüências ecológicas de um
conflito nuclear. (Em geral não se faz idéia de como é
difícil que biólogos, principalmente ilustres, concordem
nalguma coisa.) O grupo que se ocupou dos efeitos
atmosféricos e climáticos, em seu relatório conjunto,
levanta algumas possibilidades desalentadoras com
respeito a esses aspectos de um pós-guerra nuclear.
Mas, como eu tentei ilustrar, essas descobertas são parte
de um processo ordenado na evolução do pensamento
científico, através do qual pouco a pouco viemos
deslocando o foco de nossas atenções dos efeitos mais
imediatos e mais óbvios para os mais complexos e
duráveis. Essa transição desloca-nos também para uma
zona em que os efeitos são possivelmente ainda mais
sérios, posto que muito mais difíceis de estimar com
precisão. De fato, a história do desenvolvimento da
ciência nuclear e a complexidade de muitos dos efeitos de
maior alcance de que aqui se tratará sugerem que a
incerteza deveria ser uma advertência temática para os
planejadores de políticas. O que as nossas projeções
mais ponderadas mostram é que um choque nuclear em
grande escala haverá de produzir, entre os seus muitos
efeitos plausíveis, as maiores convulsões biológicas e
físicas deste planeta nos últimos 65 milhões de anos – um
tempo mais de 30 mil vezes maior que o decorrido do
nascimento de Cristo, e mais de 100 vezes o tempo de
existência até aqui da nossa espécie. É preciso que a
avaliação dos riscos prováveis se constitua num pano de
fundo para todos aqueles que detêm a responsabilidade
pelas decisões de segurança nacional, aqui e em outros
lugares.
Assim como existe uma continuidade entre as
descobertas atuais e os resultados de trabalhos científicos
anteriores, quero ressaltar que existe igualmente uma
continuidade entre as opiniões dos cientistas aqui
apresentadas e as dos seus ilustres colegas não citados
neste livro. E quero encerrar enfatizando as últimas, já
que é fácil muitas vezes rejeitar más notícias
desconfiando do mensageiro. Projeções anteriores sobre
os efeitos retardados de uma guerra nuclear, baseadas
nos conhecimentos então disponíveis, foram feitas em
1975 pela Academia Nacional de Ciências e em 1979 pela
Comissão de Avaliação Tecnológica do Congresso. A
Academia, que foi instituída por Abraão Lincoln para
assessorar o governo dos Estados Unidos em assuntos
científicos, é composta por quase mil e trezentos dos mais
reputados cientistas do país. Em aditamento ao estudo de
1975 sobre efeitos a longo prazo, ela está procedendo a
uma análise de conseqüências atmosféricas e climáticas,
que esperamos venha ampliar e manter sob atenção as
conclusões descritas nesta Conferência pelo Dr. Sagan.
Em conseqüência dessa iniciativa, os membros da
Academia, em abril do ano passado, aprovaram uma
resolução insólita - insólita no sentido de que rompeu uma
reserva habitual da Academia em assuntos que
pudessem ser considerados objeto de controvérsia
política. Embora este seja um livro de descobertas
científicas e não de recomendações de conduta, quero
levar ao conhecimento dos leitores o julgamento firmado
pelos meus colegas acadêmicos sobre a matéria, pelo
que termino reproduzindo a Resolução da Academia
Nacional de Ciências sobre Guerra Nuclear e Controle de
Armamentos:

Considerando que a guerra nuclear é uma ameaça sem


precedentes à humanidade;

Considerando que uma guerra nuclear total poderia


eliminar centenas de milhões de vidas e destruir a
civilização tal como a conhecemos;

Considerando que qualquer emprego de armas nucleares,


inclusive em assim chamadas "guerras limitadas", muito
provavelmente redundaria numa escalada para a guerra
nuclear total;

Considerando que a ciência não aponta nenhuma


possibilidade de defesa eficaz contra uma guerra nuclear
e mútua destruição;

Considerando que a proliferação de armas nucleares em


outros países com governos instáveis em áreas de alta
tensão aumentariam substancialmente o risco de uma
guerra nuclear;

Considerando que por mais de dois anos não houve


progressos no sentido de obter limitações e reduções de
armas estratégicas, quer através da ratificação do SALT II
quer da retomada de negociações sobre armas nucleares
estratégicas;
Fica resolvido que a Academia Nacional de Ciências
pede ao presidente e ao Congresso dos Estados Unidos,
e aos poderes correspondentes da União Soviética e de
outros países que têm um interesse similar nessas
matérias vitais:

Que intensifiquem de modo considerável, sem


precondições e com urgência, esforços no sentido de
alcançar um acordo eqüitativo e comprovável entre os
Estados Unidos, a União Soviética e outras nações que
têm um interesse similar nessas matérias vitais;

Que acionem todos os meios práticos possíveis capazes


de reduzir o risco de uma guerra nuclear por acidente ou
erro de interpretação;

Que adotem todos as medidas práticas para inibir a


proliferação continuada de armas nucleares em outros
países;

Que sigam observando todos os acordos existentes de


controle de armamentos, inclusive o SALT II; e

Que evitem doutrinas militares que considerem explosivos


nucleares como armas de guerra comuns.

A ATMOSFERA E AS CONSEQÜÊNCIAS
CLIMÁTICAS DA GUERRA NUCLEAR

CARL SAGAN
Hoje é o Dia das Bruxas do ano que precede 1984, e
sInceramente eu gostaria que o que irei dizer-lhes em
seguida fosse apenas uma histÓria de fantasmas, apenas
algo inventado para assustar crianças por um dia.
Infelizmente, não é uma simples história. Nossas últimas
pesquisas revelaram o fato surpreendente de que uma
guerra nuclear pode arrastar em sua esteira uma
catástrofe climática, a que damos o nome de "inverno
nuclear", sem precedentes durante a ocupação da Terra
pelo homem.
Foi por acidente que esbarramos com esses resultados,
por uma via tortuosa, por uma dessas circunstâncias não
raras na ciência em que estudando alguma coisa pelo
interesse puramente intelectual que ela oferece se é
levado a conclusões de inesperada utilidade prática. Para
mim, a coisa começou em 1971, com a exploração de
Marte pela Mariner 9. A Mariner 9 foi a primeira
espaçonave a orbitar ao redor de outro planeta. Os
engenheiros do projeto garantiram que ela só funcionaria
por três meses após a entrada em órbita. Chegando a
Marte, a nave encontrou o planeta completamente
coberto por uma tempestade global de pó. Ao fim de um
mês, durante o qual foi fotografado um disco quase
inteiramente desprovido de detalhes, passamos a
alimentar sérios receios de que quando a poeira
assentasse por completo, limpando a atmosfera
marciana, a nave já estaria inoperante. Com efeito, a
tempestade levou três meses para dissipar-se, mas a
nave funcionou muito melhor do que disseram os
engenheiros - e por todo o ano seguinte foi-nos dado
examinar o planeta de um pólo a outro no primeiro
reconhecimento orbital detalhado de outro planeta.
Durante aqueles três primeiros meses, pouca coisa houve
a observar, além da poeira em suspensão. Havia a bordo
da nave um instrumento chamado espectrômetro
interferométrico de infravermelho, capaz de examinar a
atmosfera em vários comprimentos de onda e assim
sondar os diferentes níveis da atmosfera - desde as
grandes altitudes até a superfície. Pudemos observar a
temperatura da atmosfera e a da superfície variarem com
o tempo. Os resultados mostraram que a atmosfera
estava consideravelmente mais quente do que é
normalmente em Marte, e a superfície consideravelmente
mais fria. À medida que a poeira assentava, a atmosfera
foi arrefecendo e a superfície esquentando - ambas as
temperaturas caminhando para os seus valores usuais,
ou "ambientes" - Não foi difícil entender as razões disso.
Os ventos haviam arrastado uma grande quantidade de
poeira dos desertos marcianos para a atmosfera. A luz do
sol fora absorvida pelo pó na alta atmosfera, que com
isso se aquecera. Da mesma forma, a luz do sol fora
impedida de alcançar a superfície, e esta esfriara. Um
espectador em Marte teria observado, depois que a
tempestade de poeira se desencadeou, o frio e a
escuridão se propagando sobre a face do planeta. Após
vários meses (a tempestade começara alguns meses
antes da chegada da Mariner 9 a Marte), quase toda a
poeira se depositara, e as condições voltaram ao normal.
Essas tempestades de poeira são comuns em Marte, e
por mais de um século têm sido observadas da Terra.
Caracteristicamente, elas surgem sempre nos mesmos
poucos locais do planeta, propagam-se primeiro em
longitude, depois em latitude, e em questão de poucas
semanas no máximo cruzam tipicamente o equador
marciano, passando ao outro hemisfério. Ora, a pressão
atmosférica na superfície de Marte é mais ou menos a
mesma da estratosfera da Terra. Marte gira, como a
Terra, uma vez em 24 horas, e o seu eixo de rotação é
inclinado em relação ao seu plano orbital de um ângulo
quase igual ao da Terra. Há, é claro, diferenças entre
Marte e a Terra - entre elas a ausência de mares em
Marte e o fato de ele estar mais afastado do Sol. Mas
pareceu-nos que a experiência marciana podia ser
relevante para a Terra.
Alguns de nós, tendo pouca coisa a ver nos primeiros três
meses depois da entrada em órbita além da tempestade
de poeira, ocupamo-nos em calcular o grau de
aquecimento atmosférico e de esfriamento superficial
para uma dada quantidade de poeira levantada. Um
cálculo aproximado não era muito difícil, e vários
diferentes grupos puderam determinar não só qualitativa
como quantitativamente as mudanças de temperatura
que a tempestade de poeira temporariamente produzira
em Marte. Meus colegas (e ex-alunos) James B. Pollack e
O. Brian Toon, ambos hoje no Centro de Pesquisas Ames
da NASA, estavam ansiosos por aplicar esse repositório
computacional a problemas terrestres. Aplicamo-nos a
tentar compreender o que acontece com o clima da Terra
quando um grande vulcão entra em erupção e distribui
aerossóis estratosféricos à volta do planeta. Em alguns
casos, conhecemos a quantidade de poeira introduzida
na alta atmosfera, as dimensões das partículas de pó (em
geral menos de um micro [um décimo milésimo de
centímetro]) e a sua composição (geralmente ácido
sulfúrico e silicatos). Como a estratosfera é muito seca, a
chuva não remove esses aerossóis; e como a convecção
na estratosfera é muito atenuada, os movimentos do ar
não tendem a transportá-Ios para fora. Dessa forma, eles
descem lentamente pelo próprio peso -lentamente porque
as suas dimensões são muito reduzidas -, levando mais
de um ano para que a estratosfera fique limpa. Ao mesmo
tempo, existem medições, para muitas explosões
vulcânicas, de um declínio pequeno porém definido da
temperatura global - para todas as explosões vulcânicas
dos últimos poucos séculos, um esfriamento de um grau
ou menos. Verificamos que era possível calcular esses
declínios de temperatura com razoável precisão; os
métodos desenvolvidos para Marte, e desde então
consideravelmente ampliados, funcionaram bastante bem
para a Terra.
Foi proposto então por Alvarez e outros que a extinção
dos dinossauros e muitas outras espécies 65 milhões de
anos atrás, no limite entre os períodos cretáceo e
terciário, ter-se-ia dado devido à colisão com a Terra de
um asteróide de 10 quilômetros de diâmetro, e a
conseqüente efusão na atmosfera de enormes
quantidades de poeira. Com o concurso de Richard Turco
da R&D Associates de Marina deI Rey, Califórnia, Pollack
e Toon calcularam que essa colisão teria acarretado um
escurecimento e um esfriamento de grandes proporções.
Devo frisar, no entanto, que a nossa tese sobre as
conseqüências climáticas de uma guerra nuclear não está
vinculada a essa explicação das extinções do
cretáceo/terciário. Os dinossauros podem ter morrido de
gripe sem afetar a validade das nossas conclusões.
Nós sabíamos, naturalmente, que explosões nucleares
arremessam grandes quantidades de poeira fina na
atmosfera, e durante anos havíamos falado em calcular
os efeitos climáticos prováveis que daí adviriam. Num
seminário realizado no Centro de Pesquisas Ames
(dedicado em parte à questão da origem da vida), em
1981, decidimos dar andamento àquele estudo. Um ano
mais tarde o nosso esforço recebeu novo impulso por
obra de um trabalho muito interessante realizado por Paul
Crutzen, do Instituto de Química Max Planck de
Mogúncia, República Federal da Alemanha, e John Birks,
da Universidade do Colorado. Crutzen e Birks tinham feito
uma estimativa preliminar da quantidade de fumaça
produzida pela queima de florestas e cidades que seria
descarregada na atmosfera numa guerra nuclear.
Evidentemente esta seria uma importante fonte adicional
de partículas finas capazes de obscurecer a luz do sol.
Chego assim à questão dos efeitos de uma guerra
nuclear. As conseqüências imediatas da explosão de um
único artefato termonuclear são conhecidas e bem
documentadas - radiação da bola de fogo, emissão
primária de nêutrons e raios gama, deslocamento de ar e
incêndios. A bomba de Hiroxima, que matou entre
100.000 e 200.000 pessoas, era um artefato de fissão
com potência de cerca de 12 quilotons (o equivalente
explosivo de 12.000 toneladas de TNT). Uma ogiva
termonuclear moderna emprega um mecanismo mais ou
menos parecido com o da bomba de Hiroxima como
detonador - o "fósforo" que acende a fusão nuclear. Uma
arma termonuclear americana típica pode ter uma
potência em torno de 500 quilotons (ou 0,5 megaton,
sendo um megaton o equivalente explosivo de um milhão
de toneladas de TNT). Hoje existem muitas armas na
faixa de 9 a 20 megatons nos arsenais estratégicos dos
Estados Unidos e da URSS. A arma mais potente até
hoje detonada tinha 58 megatons.
Armas nucleares estratégicas são aquelas projetadas
para serem transportadas por mísseis lançados de bases
terrestres ou de submarinos, ou por bombardeiros, até
alvos situados nos territórios inimigos. Numerosas armas
de potência aproximadamente igual à da bomba de
Hiroxima são hoje reservadas para missões militares
"táticas" ou "de teatro", ou são designadas "munições" e
relegadas a mísseis ar-ar ou terra-ar, torpedos, cargas de
profundidade e artilharia. Se bem que as armas
estratégicas tenham em geral maior potência do que as
armas táticas, nem sempre é este o caso Os modernos
mísseis (por exemplo, Pershing 2, SS-20) e aviões (por
exemplo, F-15, MIG-23) táticos ou de teatro têm raios de
ação suficientes para tornar cada vez mais artificial a
distinção entre armas "estratégicas" e ''táticas" ou "de
teatro". Ambas as classes de armas podem ser expedidas
por mísseis lançados de bases terrestres, do mar e de
aviões, e por sistemas de alcance tanto intermediário
como intercontinental. Não obstante, pela contagem usual
existem cerca de 18.000 armas termonucleares
estratégicas e de teatro e um número igual de
detonadores de fissão nos arsenais estratégicos
americano e soviético, com uma potência total de cerca
de 10.000 megatons. O número total de armas nucleares
(estratégicas mais táticas e de teatro) nos arsenais dos
dois países está próximo de 50.000, com uma potência
somada de quase 15.000 megatons. Para simplificar,
eliminaremos aqui a distinção entre armas estratégicas e
de teatro e adotaremos, sob a rubrica "estratégicas", uma
potência acumulada de 13.000 megatons. As armas
nucleares do resto do mundo - principalmente Inglaterra,
França e China - montam a muitas centenas de ogivas e
algumas centenas de megatons de potência total
adicional.
Ninguém sabe, é claro, quantas ogivas com que total de
potência seriam detonadas numa guerra nuclear. Em
decorrência de ataques a aviões e mísseis estratégicos,
e em decorrência de falhas tecnológicas, é certo que
menos que a totalidade do arsenal do mundo seria
detonado. Por outro lado, é geralmente admitido, mesmo
entre a maioria dos planejadores militares, que seria
quase impossível conter uma "pequena" guerra nuclear
antes que ocorresse uma escalada no sentido de incluir
grande parte dos arsenais mundiais. (Fatores de
aceleração são mau funcionamento de comandos e
controles, falhas de comunicações, a necessidade de
decisões instantâneas sobre os destinos de milhões de
pessoas, medo, histeria e outros fatores referentes a uma
guerra nuclear real, travada por homens de carne e
osso.) Basta esta razão para que qualquer tentativa séria
de estudar as possíveis conseqüências de uma guerra
nuclear deva contemplar de preferência um conflito em
grande escala, na faixa de 5.000 a 7.000 megatons -
entre aproximadamente um terço e metade dos estoques
estratégicos do mundo -, e é o que várias investigações
têm feito. Contudo, muitos dos efeitos adiante referidos
podem ser deflagrados por guerras muito menores.
Aeroportos estratégicos, silos de mísseis, bases navais,
submarinos no mar, fábricas e depósitos de armas,
centros de comando e de controle civil e militar,
instalações de detecção de ataque e alarme antecipado,
etc., são objetivos prováveis ("ataque de contra-força").
Embora se declare com freqüência que cidades não
seriam visadas per se, muitos dos objetivos acima
referidos estão localizados nelas ou nos seus arredores,
principalmente na Europa. Além disso, existe a classe
dos alvos industriais ("ataque de contra-valor"). As
modernas doutrinas nucleares requerem que instalações
de "apoio bélico" sejam atacadas. Muitas dessas
instalações são necessariamente industriais por
natureza, e empregam uma força de trabalho de
dimensões consideráveis. Quase sempre estão
localizadas nas proximidades de grandes centros de
transporte, de modo que matérias-primas e produtos
acabados possam ser eficientemente transferidos para
outros setores de indústria ou para tropas no campo.
Assim, essas instalações são, quase por definição,
cidades, ou se encontram perto ou no interior de cidades.
Outros objetivos classificados como de "apoio bélico"
podem ser os próprios sistemas de transporte (estradas,
canais, rios, ferrovias, aeroportos civis, etc.), refinarias,
depósitos e dutos de petróleo, usinas hidrelétricas e
nucleares, emissoras de rádio e televisão, e assim por
diante. Um ataque cruzado de contra-valor poderia assim
envolver a quase totalidade das grandes cidades dos
Estados Unidos e da União Soviética, e possivelmente a
maior parte das grandes cidades do Hemisfério Norte.
Existem no mundo menos de 2.500 cidades com
população acima de 100.000 habitantes, portanto a
destruição de todas essas cidades está perfeitamente
dentro da capacidade dos arsenais nucleares do mundo.
Estimativas recentes de mortes imediatas por efeito de
explosão, radiação primária e incêndios num conflito de
grandes dimensões em que cidades fossem alvejadas
variam de algumas centenas de milhões a - mais
recentemente, num estudo da Organização Mundial de
Saúde em que se supôs que os objetivos não se
restringiriam exclusivamente aos países da OTAN e do
Pacto de Varsóvia - 1,1 bilhão de pessoas. É possível,
portanto, que algo como a metade da população do
planeta fosse morta ou seriamente lesada pelos efeitos
diretos de uma guerra nuclear. Anarquia social; falta de
eletricidade, combustíveis, transportes, abastecimento de
alimentos, comunicações e outros serviços civis;
ausência de atendimento médico; interrupção de medidas
sanitárias; multiplicação de doenças e de distúrbios
psíquicos graves - fariam sem dúvida um número
considerável de vítimas a mais. Mas uma série de outros
efeitos - alguns inesperados, alguns impropriamente
analisados em estudos precedentes, alguns por nós só
recentemente descobertos - torna o quadro ainda muito
mais sombrio.
A destruição de silos de mísseis, instalações de comando
e controle e outros locais resguardados requer - dadas as
atuais limitações de precisão dos mísseis - armas
nucleares de potência bastante apreciável detonadas no
solo ou a pequena altura. Explosões de alta potência no
solo vaporizarão, fundirão e pulverizarão a superfície da
área de impacto e propelirão grandes quantidades de
vapores condensados e poeira fina para a região superior
da troposfera e para a estratosfera. As partículas são
carreadas principalmente na bola de fogo ascendente;
algumas sobem pela coluna da nuvem em cogumelo.
Contudo, em sua maioria os alvos militares não são muito
resguardados. A destruição de cidades pode ser
realizada, como se viu em Hiroxima e Nagasáqui, por
explosões de potência inferior a menos de 1.000 metros
acima da superfície. Explosões de baixa potência no ar
sobre cidades ou florestas próximas tenderão a provocar
incêndios extensos, em alguns casos cobrindo uma área
total de 100.000 quilômetros quadrados, ou mais.
Incêndios em cidades geram enormes quantidades de
fumaça negra que se eleva pelo menos à camada
superior da baixa atmosfera, ou troposfera (Fig. 1A). Se
ocorrerem tempestades ígneas, a coluna de fumaça sobe
vigorosamente, como a tiragem de uma chaminé, e
possivelmente (a questão ainda não foi esclarecida)
arrasta parte da fuligem para a parte inferior da alta
atmosfera, ou estratosfera. A fumaça produzida por
incêndios em florestas ou capim ficaria a princípio restrita
à baixa troposfera.
Figura 1A Representação aproximada da estrutura
habitual de temperaturas da atmosfera da Terra nas
latitudes médias norte (ou sul). Na superfície, aquecida
pelo sol, a temperatura média anual é de 13º.C. A
temperatura decresce com a altitude até uma altura (h) de
cerca de 13 km, onde é de -55º.C. Essas baixas
temperaturas são conhecidas dos alpinistas e dos
aviadores. A região inferior da atmosfera terrestre,
chamada troposfera, é agitada por ventos e turbulências,
e nela ocorre a formação de chuvas. Assim, na troposfera
partículas finas são dissipadas ou lavadas pela chuva
com relativa rapidez.
A troposfera (e as chamadas "variações do tempo")
terminam na tropopausa, a cerca de 13 km de altitude.
Acima vem a estratosfera. Nesta, as temperaturas são
mais constantes com a altitude; os ventos verticais e a
turbulência são moderados; não há chuva; e partículas
finas se dissipam muito lentamente.
A fumaça de incêndios fica limitada em sua maior parte à
troposfera, e as partículas de fuligem se depositam em
tempo relativamente curto. Já a poeira produzida por
detonações de alta energia no solo - em silos e outras
instalações resguardadas - é injetada em considerável
proporção na estratosfera e se precipita com relativa
lentidão. A energia explosiva apenas capaz de injetar
algum material na estratosfera é cerca de 10 quilotons,
como mostra a figura. A bola de fogo e a nuvem
estabilizada produzidas por uma explosão de 1 megaton
(MT) sobem quase totalmente à estratosfera.

A fissão do detonador (geralmente plutônio) existente em


todo engenho nuclear e as reações no revestimento
(geralmente urânio 238) acrescentado como "reforçador"
de energia de fissão produzem uma salada de produtos
radioativos que são também arrastados na nuvem. Cada
um desses produtos, ou radioisótopos, tem uma meia-
vida característica (definida como o tempo necessário
para que se reduza à metade, por desintegração, o seu
nível original de radioatividade). A maioria dos
radioisótopos têm meias-vidas muito curtas, e se
desintegram em horas ou dias. Partículas introduzidas na
estratosfera, principalmente por explosões de alta energia
(Fig. 1A), precipitam-se muito lentamente -
caracteristicamente em cerca de um ano, sendo que ao
fim desse tempo a maior parte dos produtos de fissão,
mesmo quando concentrados, ter-se-á reduzido a níveis
bem menos perigosos. Partículas introduzidas na
troposfera por explosões de baixa energia (Fig. 1A) e por
incêndios precipitam-se mais depressa - por coagulação,
assentamento gravitacional, lavagem pela chuva,
convecção e outros processos - antes que a
radioatividade se tenha reduzido a níveis relativamente
inócuos. Assim, a rápida precipitação de resíduos
radioativos troposféricos tende a produzir doses maiores
de radiação ionizante do que a precipitação mais lenta de
partículas radioativas da estratosfera.
Explosões nucleares de mais de um megaton de energia
desprendida
geram uma bola de fogo radiante que sobe através da
troposfera e penetra em cheio na estratosfera (Fig. 1A).
As bolas de fogo produzidas por armas de potência
compreendida entre 100 e 1.000 quilotons (1.000 quilo-
tons = 1 megaton) atingem parcialmente a estratosfera.
As altas temperaturas da bola de fogo inflamam
quimicamente parte do nitrogênio do ar, produzindo
óxidos de nitrogênio, que por sua vez atacam
quimicamente e destroem o gás ozônio da média
estratosfera. Mas o ozônio absorve a radiação ultravioleta
do sol, biologicamente perigosa. Assim, a exaustão
parcial da camada estratosférica de ozônio, ou
ozonosfera, por explosões nucleares de alta energia,
aumentará o fluxo de radiação solar ultravioleta na
superfície da Terra (depois que a fuligem e a poeira
tiverem assentado). Depois de uma guerra nuclear em
que milhares de engenhos de alta potência fossem
detonados, o aumento da luz ultravioleta potencialmente
prejudicial à vida poderia ser de várias centenas por
cento. Os maiores aumentos ocorreriam nas ondas de
menor comprimento, que são as mais perigosas. Os
ácidos nucléicos e as proteínas, que são as moléculas
básicas da vida da Terra, são especialmente sensíveis à
radiação ultravioleta. Assim, um aumento do fluxo de
radiação solar ultravioleta na superfície da Terra seria
uma ameaça à vida.
Esses quatro efeitos - obscurecimento por fumaça na
troposfera, obscurecimento por poeira na estratosfera,
precipitação de resíduos radioativos e destruição parcial
da camada de ozônio - constituem as quatro principais
conseqüências ambientais adversas que se verificariam
depois de "terminada" uma guerra nuclear. É bem
possível que haja outras que ainda não sabemos. A
poeira e, principalmente, a fuligem escura absorvem a luz
visível do sol, aquecendo a atmosfera (Figuras 1B e 1C)
e esfriando a superfície da Terra.
Figuras 1B e 1C. Quando a alta atmosfera se aquece
(pela absorção de luz do sol por partículas em suspensão
levantadas numa guerra nuclear), a superfície esfria,
porque as mesmas partículas impedem a luz de lá
chegar. Na Figura 1B, construída de acordo com os
cálculos do TTAPS, vê-se a estrutura da atmosfera da
Terra em latitudes médias norte 30 dias depois de uma
guerra nuclear "de referência" (Quadro 1, Caso 1). Como
na Figura 1A, o eixo vertical representa a altura (h) e o
eixo horizontal a temperatura do ar em graus centígrados.
A Figura 1C mostra a estrutura de temperaturas depois
de 120 dias. Em ambos os casos a estrutura atmosférica
usual (Fig. 1A) se desfez, a temperatura na baixa
atmosfera é mais constante com a altitude, e surgiu uma
nova região de inversão térmica.
Do mesmo modo que acontece com inversões térmicas
sobre cidades como Los Angeles, a estrutura alterada de
temperatura é muito estável, e as partículas que
chegaram a essas altitudes se dissipam muito mais
devagar do que seria normalmente o caso. Como a
influência dessa inversão térmica não foi ainda
introduzida nos cálculos do TIAPS (os cálculos não são
"totalmente interativos"), os tempos de restauração das
condições normais que aparecem na Figura 2 podem ter
sido grandemente subestimados. No caso de 30 dias, a
região em que a temperatura quase não varia com a
altitude atingiu o solo, e nesse sentido pode-se dizer que
a guerra nuclear traz a estratosfera à superfície da Terra.
A comparação entre as três figuras serve também para
explicar por que correntes de partículas finas tendem,
depois de algum tempo, a transpor o equador e invadir o
Hemisfério Sul. Considere-se, por exemplo, uma altitude
de 10.000 m no Hemisfério Norte. Algumas semanas
depois da guerra de referência, as temperaturas ali são da
ordem de 0º.C (Fig. 1B). À mesma altitude, no Hemisfério
Sul por ora livre de poeira e fumaça (Fig. 1A), as
temperaturas são 500 mais baixas. Porções de ar, e as
partículas nelas contidas, fluirão "declive abaixo", de
regiões mais quentes para mais frias. Em física, fluxos
tendem a seguir gradientes. As grandes diferenças de
temperatura induzirão correntes ascendentes no sentido
sul no Hemisfério Norte e correntes descendentes no
sentido norte no Hemisfério Sul. O efeito resultante pode
ser o de difundir o ar carregado de poeira à toda a volta
do globo e elevá-Io ainda mais acima da superfície.

Todos esses quatro efeitos foram considerados em nosso


último estudo, designado pelas iniciais dos seus autores,
TTAPS. Pela primeira vez se demonstra que
temperaturas extremamente baixas, o "inverno nuclear",
se sucederiam por um tempo prolongado a uma guerra
nuclear. (O estudo também explica o fato de não terem
sido detectados efeitos climáticos do gênero após a
detonação de algumas centenas de megatons durante o
período de testes atmosféricos de engenhos nucleares
pelos Estados Unidos e União Soviética, encerrado pelo
Tratado Limitado de Proibição de Testes em 1963: as
explosões se sucederam ao longo de vários anos,
virtualmente não simultâneas, e, como ocorreram sobre
descampados, atóis de coral, tundras e áreas desérticas,
não provocaram incêndios.) Os novos resultados foram
submetidos a análises detalhadas, e muitos cálculos
confirmativos já foram feitos depois, inclusive pelo menos
dois na União Soviética.
Ao contrário do que se afirmou em estudos precedentes,
os efeitos parecem não limitar-se às latitudes médias do
Hemisfério Norte, onde basicamente ocorreria o
intercâmbio nuclear. Existem hoje provas substanciais de
que o aquecimento pela luz solar da poeira e fuligem
atmosféricas sobre objetivos situados em latitudes
médias norte alteraria profundamente a circulação global
(ver legenda das Figs. 1B e 1C). Partículas finas seriam
transportadas para o outro lado do equador em questão
de semanas, como acontece em Marte, levando o frio e a
escuridão ao Hemisfério Sul. (Além do mais, certos
estudos sugerem que mais de 100 megatons seriam
destinados a objetivos situados na faixa do equador e no
Hemisfério Sul, gerando assim partículas finas
localmente.) Embora fossem menores o esfriamento e o
escurecimento superficiais no Hemisfério Sul do que no
Norte, também ali poderiam ocorrer perturbações
climáticas e ambientais de grandes proporções.
Em nosso estudo, selecionaram-se algumas dúzias de
diferentes cenários, cobrindo uma ampla gama de
guerras possíveis, e em cada parâmetro básico foi
considerada a margem de incerteza (p. ex., ao
estabelecer a quantidade de partículas finas introduzidas
na atmosfera). Cinco casos representativos são
mostrados, no Quadro 1, variando de um ataque
pequeno, de baixa energia, contra cidades
exclusivamente, utilizando em potência apenas 0,8% dos
arsenais estratégicos do mundo, a um conflito de grandes
dimensões com o emprego de 75% dos estoques
mundiais. Os casos "nominais" pressupõem os
parâmetros alternativos mais prováveis; os casos
"severos" pressupõem parâmetros adversos, mas sempre
na faixa do plausível.
As temperaturas continentais no Hemisfério Norte
previstas variam conforme as curvas mostradas na Figura
2. A alta capacidade calorífica de água garante que as
temperaturas dos mares cairão no máximo uns poucos
graus. Sendo as temperaturas moderadas pelos mares
contíguos, as das regiões costeiras serão menos
extremas que as do interior dos continentes. Contudo, o
acentuado contraste entre os continentes gelados e os
mares apenas ligeiramente esfriados produzirá borrascas
contínuas de extraordinária violência ao longo das costas,
e a lavagem e arrastamento preferencial de
radioatividade indicam que nem o interior dos continentes
nem os litorais serão poupados. As temperaturas
mostradas na Figura 2 são valores médios para as áreas
continentais do Hemisfério Norte, sem levar em conta até
aqui a influência dos mares nem a descontinuidade inicial
das nuvens.
Sabe-se que mesmo quedas de temperatura bem
menores trazem conseqüências sérias. A explosão do
vulcão Tambora na Indonésia em 1815 foi a causa
provável de um declínio na temperatura média global de
menos de 1º.C, devido ao obscurecimento do sol pela
poeira fina propelida para a estratosfera. O frio verificado
no ano seguinte foi de tal ordem que 1816 ficou
conhecido na Europa e na América como,
respectivamente, "o ano sem verão" e "mil-e-oitocentos-e-
morrer-de-frio". Um esfriamento de 1º.C acabaria por
completo com as lavouras de trigo do Canadá. Pequenas
variações globais estão geralmente associadas a
variações regionais muito maiores. Nos últimos mil anos,
os desvios máximos de temperatura global ou do
Hemisfério Norte foram da ordem de 1º.C. Numa
glaciação, uma baixa prolongada típica da temperatura
global em relação às condições preexistentes é de cerca
de 10º.C. Mesmo os casos mais modestos ilustrados na
Figura 2 dão baixas temporárias dessa ordem. O caso de
referência é muito mais adverso. Diferentemente, porém,
da situação numa glaciação, as temperaturas globais
após a guerra cairiam bruscamente, e é provável que
levassem apenas de alguns meses a alguns anos para
restabelecer-se, em vez de milhares de anos. Não é de
se esperar que um inverno nuclear induzisse a um novo
período glaciário, pelo menos de acordo com a nossa
análise preliminar.
Com o obscurecimento do sol, a luz diurna pode cair aos
níveis de um lusco-fusco crepuscular ou pior. Na zona dos
objetivos de médias latitudes do Hemisfério Norte, a
escuridão pode ir ao ponto de não se enxergar, mesmo ao
meio-dia. Nos Casos 1 e 14 (Quadro 1), os níveis médios
hemisféricos de luz caem a uns poucos por cento dos
seus valores normais, sendo comparáveis aos que
ocorrem na base de nuvens de chuvas densas. Com essa
iluminação, muitos vegetais ficam próximos do chamado
ponto de compensação, que é o nível de luz em que a
fotossíntese é apenas suficiente para manter o
metabolismo da planta. No Caso 17, a iluminação média
de todo o Hemisfério Norte cai durante o dia a cerca de
0,1% do normal, um nível de luz em que na maior parte
das plantas a fotossíntese cessará de todo. Nos Casos 1
e, especialmente, 17, a restauração completa da
iluminação diurna normal leva um ano ou mais (Figura 2).

Figura 2. Nesta figura mostra-se como a temperatura


média das áreas continentais do Hemisfério Norte
(afastadas das costas) varia com o tempo após uma
guerra nuclear. A temperatura é indicada no eixo vertical,
em graus centígrados à esquerda e em graus Fahrenheit
à direita. A temperatura "ambiente" é a média calculada
de todas as estações e latitudes. Assim, temperaturas
normais de inverno em latitudes norte temperadas serão
inferiores às representadas, e temperaturas normais
tropicais serão mais altas que as representadas. A linha
tracejada horizontal superior indica a temperatura média
da Terra (13º.C ou 56º.F) e a linha tracejada horizontal
inferior indica o ponto de congelamento da água pura
(0º.C ou 32º.F). O eixo horizontal representa o tempo em
dias a contar do começo da guerra nuclear até quase um
ano depois. Cada curva representa um cenário diferente
de guerra nuclear, com a energia total despendida na
guerra variando de 100 megatons (MT) a 10.000 MT. A
influência moderadora dos mares (provavelmente
resultando em baixas de temperatura de 50 a 70% das
mostradas) não é considerada, conforme exposto no
texto.
Os casos aqui mostrados, tirados de uma compilação
muito maior dos relatórios TTAPS, são definidos com
maior detalhe no Quadro 1. Compreendem uma mistura
de ataques de contra-valor contra indústrias e cidades em
que o principal efeito é a fumaça de incêndios carreada
para a troposfera, e ataques de contra-força a silos de
mísseis, nos quais supõe-se (de modo muito otimista) que
não há produção de fumaça, mas grandes quantidades de
poeira invadem a atmosfera a grandes altitudes. Os casos
definidos como "nominais" pressupõem os valores mais
prováveis dos parâmetros (como as dimensões das
partículas de pó ou a freqüência de tempestades ígneas)
que são imperfeitamente conhecidos. Os casos
denominados "severos" representam valores adversos
mas não implausíveis desses parâmetros.
No Caso 14 a curva acaba quando a temperatura atinge,
a menos de um grau, os valores ambientes. Nos outros
quatro casos, as curvas terminam ao fim de 300 dias, mas
simplesmente porque os cálculos não foram levados
adiante. Nesses quatro casos as curvas prosseguirão nas
direções indicadas pelas setas. Em termos aproximados,
o Caso 1 é a soma dos Casos 11 e 14. O Caso 16
pressupõe um conflito limitado a explosões no solo, de
energia razoavelmente alta, destinadas à destruição de
silos, e alta percentagem de poeira fina resultante. Segue-
se uma descrição mais detalhada de cada um dos cinco
casos:

Caso 1: É o caso de referência do TTAPS, em que 4.000


megatons são usados pelos dois lados em ataques de
contra-força, e 1.000 megatons destinados a cidades e
arredores. O efeito principal é o derivado da fuligem
produzida em conflagrações urbanas. A temperatura
mínima de -23ºC (-9ºF) é atingida algumas semanas após
o conflito, e as temperaturas voltam ao ponto de
congelamento em cerca de três meses. Contudo a
recomposição das condições ambientes não ocorre antes
de um ano, em razão da lenta precipitação da poeira
atmosférica.

Caso 11: Neste os Estados Unidos e/ou a URSS detonam


um total de 3.000 megatons sobre silos de mísseis e
outros objetivos afastados de cidades e florestas. Admite-
se (irrealisticamente) que os incêndios sejam
desprezíveis. Nas áreas continentais as temperaturas
caem durante um período de três meses, e como a
remoção da poeira estratosférica é muito lenta, levam
mais de um ano para retornar aos seus valores usuais
(ambientes).
Caso 14: O conflito é limitado a apenas 100 megatons
consistindo exclusivamente de engenhos de baixa
potência detonados no ar sobre cidades. Neste cAlculo
não há produção de poeira - só fumaça das cidades
incendiadas, da qual pouca coisa alcança a estratosfera.
A temperatura mínima de -23ºC (-9ºF) é atingida em
poucas semanas, e as temperaturas normais se
restabelecem em cerca de 100 dias. À medida que a
fuligem se deposita, a luz do sol volta a alcançar o solo.
Cem megatons corresponde aproximadamente a 0,8%
dos arsenais nucleares dos Estados Unidos e URSS.

Caso 16: Emprego de 5.000 megatons em que os


ataques são principalmente contra silos, com Maior
produção de poeira fina por megaton liberado do que no
Caso 11, mais otimista, e em que a queima de cidades é
insignificante. Aqui, as temperaturas mínimas só são
atingidas depois de quatro meses, quando baixam a -
25ºC (-13º F). Como as grandes quantidades de poeira
levadas à estratosfera se precipitam muito lentamente, é
preciso mais de um ano para que as temperaturas em
terra voltem ao ponto de congelamento, e muito mais
ainda para chegarem aos níveis normais.

Caso 17: Neste caso são empregados cerca de 3/4 dos


arsenais estratégicos americanos e russos, numa
combinação de ataques a silos e a cidades. Depois de
mais de dois meses, atingem-se temperaturas mínimas de
-47ºC (-53ºF) - temperaturas típicas da superfície de
Marte. A fuligem assenta-se com relativa rapidez, sendo
que a lentidão da recuperação é devida à poeira
estratosférica. As temperaturas não voltam ao ponto de
congelamento antes de um ano.
À medida que as partículas finas precipitam-se na
atmosfera, transportando radioatividade para o solo, os
níveis de luz aumentam e a superfície se aquece. Agora a
camada empobrecida de ozônio permite à luz solar
ultravioleta chegar à superfície da Terra em maior
proporção. No caso de referência, de 5.000 megatons,
verifica-se que a precipitação primária, os penachos de
radioatividade arrastados dos objetivos na direção do
vento, distribui em 30% das áreas continentais de médias
latitudes do Hemisfério Norte uma dose aproximada de
radiação de 250 rads. Além disso, uma dose de cerca de
100 rads é descarregada mais ou menos uniformemente
em todo o hemisfério. Esta é uma combinação de
emissores externos e matérias radioativas ingeridas. Os
conhecimentos correntes estabelecem a dose média letal
de radiação ionizante com exposição corporal entre
aproximadamente 400 e 500 rads. Isto se prestados
cuidadOs médicos amplos. No caso de crianças e velhos,
de doentes ou vítimas de outras agressões do meio
ambiente por causa de uma guerra nuclear, e
especialmente na falta de assistência médica adequada, a
dose média letal é consideravelmente reduzida - talvez a
350 rads, ou menos. Assim, a precipitação radioativa -
particularmente nas médias latitudes norte, que têm a
maior densidade demográfica do planeta - seria, por si
mesma, extremamente perigosa num meio de pós-guerra
nuclear. O Quadro 2 mostra o cronograma relativo das
várias conseqüências adversas de uma guerra nuclear.
Talvez a conclusão mais surpreendente e inesperada do
estudo que fizemos seja a de que mesmo uma guerra
nuclear de proporções relativamente limitadas pode ter
conseqüências climáticas funestas, no caso de ataques a
cidades (ver Caso 14 na Figura 2; neste, os centros de
100 grandes cidades da OTAN e do Pacto de Varsóvia
são incendiados). Há indicação de um limiar muito
próximo em que conseqüências climáticas severas são
desencadeadas - por 100 ou mais explosões nucleares
sobre cidades, em razão da fumaça gerada, ou por 2.000
a 3.000 detonações de alta energia no solo ou a pequena
altura, em silos de mísseis por exemplo, em razão da
poeira produzida e de incêndios secundários. Partículas
finas podem ser injetadas na atmosfera em proporções
crescentes com efeitos de pequena monta até que esses
limiares sejam transpostos. Daí por diante, os efeitos
crescem rapidamente de intensidade. Essas estimativas
são, porém, extremamente grosseiras.
Em cálculos dessa complexidade sempre existem
incertezas. Há fatores que tendem a influir no sentido de
efeitos mais intensos ou mais prolongados; outros tendem
a moderar os efeitos. Os cálculos detalhados do TTAPS
aqui referidos são unidimensionais; isto é, admitem o
movimento vertical das partículas finas em conformidade
com as leis físicas aplicáveis, mas não levam em conta a
dispersão em latitude e longitude. Quando a fuligem ou a
poeira se afasta do local de referência, as coisas
melhoram ali e pioram alhures. Além disso, partículas
finas podem ser transportadas por sistemas
meteorológicos para outros locais, onde são arrastadas
mais depressa para a superfície. Isto atenuaria o
obscurecimento não apenas localmente como em termos
globais. É justamente esse afastamento das latitudes
médias setentrionais que envolve a zona equatorial e o
Hemisfério Sul nos efeitos da guerra nuclear. Seria
conveniente efetuar um cálculo tridimensional acurado da
circulação atmosférica geral após uma guerra nuclear.
Estimativas preliminares sugerem que a circulação geral
poderia moderar a amplitude das variações calculadas
para o interior dos continentes em uns 30%, reduzindo um
pouco a intensidade dos efeitos, mas mantendo-os ainda
em níveis catastróficos (p. ex., uma baixa de 30ºC em vez
de 40°C). Para estabelecer uma certa margem de
segurança, desprezaremos essa correção em nossa
exposição subseqüente.
Depois, existem os claros nas nuvens. Muito poucos alvos
acessíveis estão nos oceanos Atlântico e Pacífico. Se
esses claros móveis (um no Atlântico, outro no Pacífico)
aparecessem a intervalos regulares sobre a maior parte
dos lugares do Hemisfério Norte, os efeitos do
escurecimento e do frio seriam até certo ponto
amenizados. No entanto, incêndios ateados, por exemplo,
no oeste da América do Norte ou nas taigas eurasianas
continuariam a lavrar, alguns talvez por semanas, e outros
novos seriam provocados: lançamentos retardados
podem ser dirigidos contra alvos temporariamente
situados sob um claro para facilitar a verificação por
satélite da destruição do objetivo. De mais a mais, em
diferentes altitudes os ventos se movem com velocidades
diferentes, e um claro a uma certa altitude pode estar
acima ou abaixo de uma camada espessa de nuvens em
outra. A poeira injetada na estratosfera pelo vulcão
mexicano El Chichón, na erupção de 4 de abril de 1982,
levou 10 dias para chegar à Ásia, duas semanas para
chegar à África, e circunavegou o globo em três semanas,
deixado atrás de si uma delgada fita de partículas com
cerca de 100 de latitude de largura. (Em poucos meses,
cerca de 10 a 20% dos resíduos estratosféricos foram
transportados para o Hemisfério Sul.) Havendo muitas
fontes de partículas em vez de uma, os claros irão fechar-
se ainda mais depressa. Assim sendo, parece improvável
que os claros móveis permanecessem abertos ou
descobertos por mais de uma ou duas semanas, ou que
descontinuidades em grande escala pudessem minorar os
efeitos climáticos de modo sensível.
Há necessidade de estudar melhor vários outros aspectos
do problema: por exemplo, possíveis descontinuidades
em pequena escala; possibilidade de quedas rápidas de
temperatura (como sugerido por Covey e outros: ver as
observações de Stephen Schneider neste livro, pp. 122-
127); o tempo que levam penachos isolados de fumaça
para espalhar-se (em nuvens densas as partículas
coagulam e sedimentam mais rapidamente que em
nuvens difusas); circulação atmosférica local em regiões
costeiras e implicações para a lavagem pelas chuvas (ver
as observações de Georgiy Golitsyn neste livro, pp. 120-
122); variações diurnas de temperatura e movimentos
induzidos em nuvens de fuligem nas primeiras fases.
Alguns desses efeitos poderiam melhorar em parte as
condições; outros poderiam agravá-Ias até certo ponto.
Há também efeitos que podem piorar em muito os
resultados: por exemplo, em nossos cálculos admitimos
que a lavagem de partículas finas ocorreria em toda a
extensão da troposfera. Em circunstâncias reais, pelo
menos a alta troposfera pode ser muito seca, e a poeira
ou fuligem inicialmente introduzida nessa região pode
levar muito tempo para ser lavada. Há ainda um efeito
muito importante que deriva da drástica alteração da
estrutura atmosférica, promovida pelo aquecimento das
nuvens e esfriamento do solo. Com isso cria-se uma
região em que a temperatura é aproximadamente
constante com a altitude na atmosfera inferior, e
encimada por uma inversão térmica de grandes
proporções (Figuras 1B e 1C). Depois disso, em toda a
extensão da atmosfera as partículas seriam transportadas
para cima ou para baixo muito lentamente - como na
estratosfera atual. Este é um segundo motivo para que a
persistência das nuvens de fuligem e poeira possa ser
muito maior do que a por nós calculada. Neste caso,
as condições extremas de escuridão e frio podem
prolongar-se por prazos consideráveis, possivelmente
ultrapassando um ano. Na exposição subseqüente
desprezaremos este efeito, assim como vários outros -
por exemplo, fenômenos de detonações múltiplas em que
uma primeira explosão nuclear amplifica a combustão e a
altura de transporte de fuligem de uma segunda explosão
nuclear.
É possível conceber cenários de guerra nuclear muito
piores do que estes por nós apresentados. Por exemplo,
se os centros de comando e controle forem neutralizados
logo no início da guerra - por exemplo, por "decapitação"
(ataque inicial de surpresa contra centrais de operações
civis e militares e sistemas de comunicações), é de
imaginar que a guerra se prolongaria por semanas, com
comandantes locais tomando decisões independentes e
descoordenadas. Pelo menos em parte, lançamentos
retardados de mísseis seriam possivelmente ataques
retaliativos contra cidades inimigas remanescentes. A
geração de um manto adicional de fumaça por um período
de semanas ou maior depois do início da guerra ampliaria
a magnitude, e especialmente a duração, das
conseqüências climáticas. Ou é possível, dentro dos
limites da plausibilidade, que cidades e florestas fossem
incendiadas em número maior do que o por nós suposto,
ou que as emissões de fumaça fossem maiores, ou que
uma fração maior dos arsenais mundiais (armas táticas e
armas estratégicas) fosse empregada. Naturalmente,
dentro dos mesmos limites, também são possíveis casos
menos severos.
Portanto, esses cálculos não são, nem poderiam ser,
prognósticos seguros de todas as conseqüências de uma
guerra nuclear. Poderão ser aperfeiçoados em vários
aspectos, e está-se trabalhando nisso. Mas parece haver
um consenso quanto às conclusões gerais: na esteira de
uma guerra nuclear é provável que haja um período, com
uma duração de meses pelo menos, de frio intenso e
escuridão radioativa, seguido - depois da precipitação da
fuligem e poeira - de um período longo de maior
quantidade de radiação ultravioleta atingindo a superfície.

Tem-se observado uma tendência sistemática de


subestimar os efeitos de armas nucleares e de uma
guerra nuclear. A energia liberada na primeira explosão
nuclear perto de Alamogordo, no Novo México, em 16 de
julho de 1945, foi subestimada por quase todos os que
projetaram e construíram a arma. A amplitude da
precipitação decorrente dos primeiros testes de artefatos
nucleares foi subestimada; a inutilização ou destruição de
satélites por explosões de armas nucleares no espaço foi
uma surpresa; o empobrecimento da ozonosfera por
detonações de alta potência não foi prevista; e o inverno
nuclear foi para muitos - inclusive nós - motivo de
assombro. O que mais nos terá passado despercebido?
Um efeito adicional, possivelmente grave, é a produção
de gases tóxicos por incêndios em cidades. Hoje todo
mundo sabe que nos incêndios em arranha-céus
modernos mais gente é vitimada pelos gases tóxicos de
combustão do que pelo fogo. A queima de uma grande
variedade de materiais de construção, matérias isolantes
e revestimentos gera grandes quantidades de pirotoxinas,
entre elas monóxido de carbono, cianetos, cloreto de vinil,
óxidos de nitrogênio, ozônio, dioxinas e furanos. Devido
às diferentes práticas no emprego de materiais sintéticos,
o incêndio de cidades na América do Norte e na Europa
ocidental provavelmente geraria mais pirotoxinas do que
na União Soviética, e a de cidades com grande proporção
de construções recentes mais que a de cidades mais
antigas não reconstruídas. Em cenários de guerra nuclear
nos quais uma grande quantidade de cidades são
incendiadas, um smog bastante denso de pirotoxinas
poderia persistir por meses. A extensão desse perigo é
ignorada.
Outra conseqüência provavelmente ponderável e
dificilmente avaliável de uma guerra nuclear são os
chamados sinergismos. Um exemplo muito simples é o
que diz respeito ao comprometimento do sistema
imunológico humano pelo duplo efeito da radiação
ionizante imediata e da radiação ionizante devida à
precipitação, bem como pelo aumento do fluxo ultravioleta
após o inverno nuclear. Ao mesmo tempo que os
sobreviventes serão muito mais vulneráveis a doenças, os
serviços médicos terão entrado em colapso; predadores
de insetos como as aves terão sido dizimados
preferencialmente pelo frio, pela escuridão e pela
radiação; os insetos terão proliferado desmedidamente
porque resistem melhor a essas agressões ambientais e
porque os predadores que restringem a sua multiplicação
terão sido grandemente reduzidos em número; a radiação
pode produzir variedades excepcionalmente virulentas de
microorganismos transmitidos por insetos vetores; e
centenas de milhões ou bilhões de cadáveres estarão
começando a se descongelar. Em muitos outros casos a
interação de diversas agressões ambientais entre as
relacionadas no Quadro 2 produzirá conseqüências
resultantes adversas muito mais intensas do que a
simples soma dos efeitos componentes. Quase todos os
sinergismos são de magnitude ignorada; no entanto
quase todos amplificarão conseqüências adversas.
Visto isto, se o peso da evidência histórica e a natureza
dos sinergismos indicam que as conseqüências de uma
guerra nuclear seriam ainda mais graves do que as
deduzidas no presente estudo do inverno nuclear, que
dizer da aplicação de critérios moderados? Considerando
a magnitude do que está em jogo na resposta, qual será a
postura adequada? Admitir que os efeitos de uma guerra
nuclear serão menos sérios do que geralmente se supõe,
ou mais?
Já não é possível afirmar que os efeitos realmente sérios
de uma guerra nuclear ficariam limitados aos países
combatentes. A biologia das latitudes equatoriais, por
exemplo, é muito mais vulnerável a baixas de
temperatura, mesmo pequenas, que a de latitudes
maiores, norte ou sul. A agricultura - pelo menos no
Hemisfério Norte, que produz o grosso da exportação de
grãos do planeta - seria devastada mesmo por uma
"pequena" guerra nuclear. As conseqüências ecológicas
irradiadas pela Terra inteira seriam provavelmente de
grande envergadura, e se, como agora demonstrado pelo
nosso estudo e por vários outros, o frio e a escuridão se
propagassem ao Hemisfério Sul, a guerra nuclear
significaria uma catástrofe global sem precedentes. Já
não é possível conceber que nações distantes do conflito
possam assistir de camarote à guerra, e herdar um
ambiente de pós-guerra livre das importunações da
política das grandes potências. Ao contrário, é muito mais
provável que não haja em toda a Terra um único refúgio a
salvo da guerra nuclear. Esta é uma das muitas
implicações dos estudos mais recentes no que toca à
doutrina, à diplomacia e à política internacional. A
discussão desses temas transcende as metas deste
encontro e o programa desta Conferência, mas em outra
oportunidade eu já fiz uma exposição preliminar dessas
implicações.
Se houver ataques a cidades, vemos (Figura 2) que
mesmo uma guerra que envolvesse apenas 100
megatons (em 1.000 detonações de 100 quiIotons sobre
100 ou mais grandes cidades) pode produzir o inverno
nuclear. Mas 100 megatons é menos de 1 % dos arsenais
estratégicos globais. A Figura 3 mostra o crescimento do
número de armas estratégicas nos arsenais americano e
soviético em função do tempo. A área hachurada
representa, muito aproximadamente, a zona-limiar em
que, ao que agora se afigura, poderia desencadear-se o
inverno nuclear. Bem abaixo desse limiar nenhuma
combinação de falhas de comunicações, erros de
computador, interpretações equivocadas, governantes
psicopatas ou outros requisitos deflagraria a catástrofe
climática. Os Estados Unidos cruzaram esse limiar -
naturalmente sem sabê-lo - em princípios dos anos 50. A
União Soviética o transpôs - igualmente sem sabê-Io - em
meados dos 60. Durante todo esse tempo os governos
dos Estados Unidos, da União Soviética e de outras
nações vêm tomando decisões fundamentais, envolvendo
a vida e morte de cada habitante do planeta, sem saber
das conseqüências de uma guerra nuclear, e na
suposição de que essas conseqüências seriam bem mais
brandas do que agora se mostra ser o caso. E os arsenais
globais, hoje cerca de 20 vezes o limiar do inverno
nuclear, vêm crescendo. A Grã-Bretanha, a França e a
China têm arsenais estratégicos pelo menos próximos do
limiar. Outros países estão acumulando armas nucleares
ou a capacidade de fazê-Ias. As curvas da Figura 3
tornam-se mais e mais verticais.
Figura 3. A história da corrida de armas nucleares
estratégicas (e de teatro). O diagrama mostra três zonas:
uma zona inferior em que o inverno nuclear não seria
provocado, uma superior em que quase certamente ele
ocorreria, e uma de transição, hachurada. Os limites desta
são mais incertos do que os representados, e dependem,
entre outras coisas, da estratégia de seleção de objetivos.
Mas o limiar está provavelmente compreendido entre uma
centena e alguns milhares de armas estratégicas
contemporâneas.
Entre 1945 e o presente, o crescimento dos estoques
soviético e norte-americano é representado pelas linhas
cheias. A linha ponto-traço mostra a soma dos dois
arsenais, que fica próxima da dos arsenais totais do
mundo. Se bem que a distinção entre armas táticas e
estratégicas ou de teatro tende a tornar-se imprecisa,
aquelas não são computadas nesta compilação. A
redução dos estoques estratégicos americanos nos anos
60 reflete principalmente a crescente dominância dos
mísseis balísticos sobre os bombardeiros. Nem todas as
fontes publicadas concordam perfeitamente quanto aos
números. Os dados aqui usados foram tirados de Harold
Brown (1981), "Relatório do Secretário da Defesa ao
Congresso sobre o Orçamento do Ano Fiscal de 1982,
Pedido de Autorização do Ano Fiscal de 1983 e
Programas de Defesa para o Ano Fiscal de 1986" e
"Estimativa Orçamentária da Defesa Nacional, Ano Fiscal
de 1983", Gabinete do Subsecretário da Defesa,
Contadoria, março de 1982, entre outras fontes. As linhas
tracejadas à direita da figura representam extrapolações
das tendências atuais.

E assim voltamos ao Dia das Bruxas. Este encontro sobre


"O Mundo após a Guerra Nuclear" está sendo realizado,
em função de circunstâncias corriqueiras como a
disponibilidade de acomodações de hotel em Washington,
num 31 de outubro. O Dia das Bruxas é comemorado hoje
como um festival de duendes e fantasmas e coisas que
sabemos que não são reais. Os horrores da guerra
nuclear, ao contrário, não são fantasias, não são
projeções do nosso inconsciente, mas realidades que
temos de enfrentar no mundo das emoções pessoais e da
prática política. A guerra nuclear merece, e muito, a nossa
preocupação, e não somente em 31 de outubro.
De qualquer modo, se devêssemos realizar esta reunião
numa data de significado simbólico, o Dia das Bruxas
parece-me uma boa escolha. Originalmente, na era pré-
cristã, era um festival dos celtas chamado Samhain.
Assinalava o começo do inverno. Era celebrado com
enormes fogueiras. Tirava o seu nome do Senhor dos
Mortos e era a ele consagrado. O Dia das Bruxas em sua
forma original combinava os três elementos capitais do
cenário TTAPS: fogo, inverno e morte.
As armas nucleares são feitas por criaturas humanas. O
confronto estratégico global entre os Estados Unidos e a
União Soviética foi concebido e executado por criaturas
humanas. Não há nisso nada inevitável. Se formos
suficientemente motivados, poderemos livrar a espécie
humana dessa armadilha que insensatamente armamos
para nós mesmos. Mas o tempo é muito curto.

AGRADECIMENTOS
Este artigo não teria sido possível sem a alta competência
científica e dedicação dos meus co-autores do relatório
TTAPS, Richard Turco, Brian Toon, Thomas Ackerman e
James Pollack. Também sou grato, por estimulantes
discussões e/ou cuidadosas revisões de uma versão
anterior deste artigo, a Hans Bethe, Mark Harwell, John P.
Holdren, Eric Jones, Carson Mark, Theodore Postol,
Joseph Rotblat, Stephen Schneider, Edward Teller e
Albert Wohlstetter; e agradeço encarecidamente o
incentivo, as sugestões e as apreciações criticas de
Lester Grinspoon, Steven Soter e, especialmente, Ann
Druyan. Shirley Arden, Mary Maki, Mary Roth e Joanne
Vago prestaram, com sua habitual e grande competência,
serviços logísticos essenciais à preparação deste trabalho
e à organização da conferencia preparatória de
Cambridge, Massachusetts. Finalmente, minha gratidão
aos companheiros do Comitê de Conseqüências Mundiais
à Longo Prazo de uma Guerra Nuclear.

Perguntas
DR. VIKAS SAINI (Junta Diretora, Nuclear Free America):
Eu tenho duas perguntas sobre as suposições do modelo.
A primeira é quanto aos efeitos no Hemisfério Sul: trata-se
estritamente da transferência de efeitos de detonações no
Hemisfério Norte, ou o senhor inclui objetivos no
Hemisfério Sul?

SAGAN: Não, não estamos supondo nenhum ataque


apreciável contra objetivos no Hemisfério Sul. O cenário
da revista Ambio prevê cerca de 100 megatons dirigidos
contra alvos no Hemisfério Sul e latitudes tropicais. A
poeira e fumaça produzidas em tais alvos atingiriam o sul
mais depressa do que aerossóis transportados do
Hemisfério Norte. Quaisquer ataques contra objetivos no
Hemisfério Sul agravariam ainda mais os nossos
resultados.

SAINI: A segunda pergunta refere-se a certos resultados


imprevistos da detonação de armas nucleares em relação
com o cinturão de radiação de Van Allen. Gostaria de
saber se o senhor está a par deste assunto e de ouvir
seus comentários sobre o que parece ser um dos
aspectos mais inquietantes da presente conjuntura: a
saber, a militarização do espaço.

SAGAN: A iminente introdução de armas no espaço é


uma questão política que foge aos propósitos desta
reunião. É verdade que quando um artefato nuclear é
detonado em determinada altitude, partículas carregadas
são injetadas no cinturão de radiação de Van Allen. Mas
não creio que isso tenha efeitos climáticos da magnitude
de que aqui estamos falando.

DR. GEORGE B. FIELD (professor de Astronomia


Aplicada da Universidade Harvard e cientista senior do
Observatório Astrofísico Smithsonian): Eu gostaria de
pedir um esclarecimento sobre um ponto. Nos últimos
minutos o senhor acenou com uma pequena esperança
aos que pensam em termos de controle de armas. Disse
que se pudéssemos limitar a 1.000 o número de armas
nucleares nos Estados Unidos e União Soviética, seriam
evitadas algumas das terríveis conseqüências que acaba
de descrever. Por outro lado, numa parte anterior da sua
exposição, o senhor falou de um cenário em que havia a
aplicação de apenas 100 dessas armas, e os efeitos
nesse cenário eram ainda mais terríveis.

SAGAN: Lamento se não fui claro. Naquele caso eu falei


de 100 megatons, em armas de 100 quilotons de potência
cada. Portanto, falei de 1.000 armas. Não há incoerência.

FIELD: Na sua opinião esse é o caso marginal?

SAGAN: Mais ou menos. Poderia ser menos em se


tratando de ataques a cidades, e poderia ser bem mais no
caso de ataques de contra-força a silos de mísseis com
armas de alta potência. [Isto é discutido com maior
detalhe na Ref. 19.]

DR. LARRY SMARR (professor-adjunto de Física e


Astronomia da Universidade de Illinois): Os recentes
relatórios da EPA (Agência de Proteção Ambiental) e da
revista Science sobre o efeito de estufa mencionam os
efeitos térmicos devidos ao CO2. Eu presumo que
enormes quantidades de CO2 seriam um subproduto dos
incêndios. De que modo o senhor levou em conta esse
fato, e até que ponto poderia o aquecimento devido ao
CO2 contrabalançar o esfriamento decorrente da poeira?

SAGAN: A pergunta é muito oportuna, pois este é um


ponto que se presta a confusão: a saber, dois relatórios,
um dos quais afirma que a queima de combustíveis
fósseis lança na atmosfera gases que aquecem a Terra, e
outro, que acabam de ouvir, dizendo que uma guerra
nuclear impregnaria a atmosfera de partículas que
esfriariam a Terra. Alguém poderia imaginar que os dois
efeitos se anulam. Mas não é essa a nossa conclusão,
por mais de um motivo.
Primeiro, mesmo o CO2 produzido por todos os incêndios
em vista não chegaria a contribuir apreciavelmente para o
efeito de estufa. O valor atual de 0,03% de CO2 em
volume na atmosfera da Terra representa cerca de três
ordens de grandeza mais CO2 do que o que seria
desprendido no incêndio de cidades e florestas.
Veja-se também que o efeito de estufa devido ao CO2 é
uma tendência a longo prazo. Não há como revertê-Ia
num intervalo de décadas. Aqui estamos falando de um
pulso repentino de baixa de temperatura no sistema,
provocado pela guerra nuclear, o qual em seguida se irá
amortecendo no curso de alguns anos, superposto ao
lento aumento de temperatura decorrente da queima de
combustíveis fósseis.

DR. ARNOLD W. WOLFENDALE (professor de Física da


Universidade de Durham, Inglaterra): Minha pergunta é
relativa ao importante tópico da análise crítica de
resultados. Evidentemente, tudo que é novo e
surpreendente deve ser analisado por muitos
especialistas. O excelente relatório de 1975 da Academia
Nacional de Ciências recebeu apreciações mais
favoráveis. Eu gostaria de saber se os autores daquele
relatório foram consultados ou solicitados a pronunciar-se
sobre as suas conclusões.

SAGAN: A questão da análise crítica é essencial. Foi por


isso que retardamos tanto a divulgação pública desses
resultados alarmantes.
Os resultados que os senhores ouviram hoje aqui foram
submetidos durante cinco dias a uma reunião, na
Academia Americana de Artes e Ciências em Cambridge,
Massachusetts, em abril de 1983, de quase uma centena
de biólogos, meteorologistas e físicos nucleares -
indivíduos de variadas convicções políticas, entre eles
representantes dos laboratórios bélicos do governo.
Tanto o estudo físico que acabei de expor como o estudo
biológico de que irá falar o Dr. Ehrlich passaram
igualmente pelo processo de análise crítica para
publicação na revista especializada Science. Além disso,
houve mais uns seis ou oito estudos diferentes - dois
deles na União Soviética - buscando confirmar ou
contestar as nossas conclusões. Todos eles corroboram
os nossos resultados.

WOLFENDALE: Quer dizer que os autores do relatório de


1975 retrataram as suas conclusões?

SAGAN: Tenho grandes esperanças de que o novo painel


da Academia Nacional se ocupará dessa importante
matéria. Vou explicar em poucas palavras o motivo das
diferenças entre os nossos resultados respeitantes ao
inverno nuclear e os do estudo de 1975 da Academia.
Primeiro, os efeitos climáticos fundaram-se em
argumentos tirados da analogia com a explosão vulcânica
do Cracatoa, não na construção efetiva de modelos. Em
1883, alegou-se, a explosão de um vulcão teve como
únicos efeitos globais um declínio de temperatura de
cerca de meio grau, e belos pores-do-sol em todo o
mundo. A energia explosiva total naquele evento foi
(possivelmente) comparável à energia total que estamos
considerando para o caso de uma guerra nuclear; logo,
não há o que temer.
Esse argumento deixa de levar em conta vários fatos:
primeiro, o grosso do material ejetado na explosão do
Cracatoa caiu por lá mesmo, no estreito da Sonda.
Segundo, ejetos vulcânicos, principalmente silicatos
e ácido sulfúrico, têm coeficientes de absorção muito
menores que a fumaça escura produzida numa guerra
nuclear. Terceiro, as funções de distribuição de tamanhos
de partículas são diferentes, e, quarto, trata-se aqui de
milhares de fontes simultâneas de partículas finas. O
evento do Cracatoa foi um evento isolado. Há outras
diferenças importantes. Tudo considerado, o evento do
Cracatoa é compatível com os cálculos aqui referidos.

DR. ROBERT EHRLICH (presidente do Departamento de


Física da Universidade George Mason, Virgínia): O fato
de que um ataque de 100 megatons, menos de 1% do
total dos arsenais, acarrete resultados tão catastróficos
indica que a causa principal do problema climático advém
da fumaça produzida por incêndios das cidades. Eu me
pergunto se os senhores terão considerado - num ataque
nuclear que envolvesse todas as cidades de mais de
100.000 habitantes do Hemisfério Norte - qual a
probabilidade de que a metade da área das cidades se
convertesse em fumaça e de que os incêndios se
prolongassem por semanas ou meses. E se a sua
estimativa dessa probabilidade coincide com as de outros.

SAGAN: Sim. Esta é uma das muitas partes do nosso


estudo a que o Dr. Turco emprestou a sua grande
competência. Creio que a resposta é, possivelmente, uma
semana; meses, não. As proporções dos incêndios seriam
consideráveis por causa da enorme concentração de
depósitos de combustíveis nas cidades.

RALPH NADER (defensor dos direitos do consumidor):


Carl, permita-me que lhe pergunte sobre as inferências
técnicas das suas conclusões. Supondo um ataque inicial
bem-sucedido de um Inimigo A contra um Inimigo B, em
que nível um ataque inicial bem-sucedido, de acordo com
os seus cálculos, implicaria suicídio para o agressor?

SAGAN: Ou, dito de outro modo, haveria um sublimiar de


ataque inicial, abaixo daquele limiar de inverno nuclear
de, digamos, 1.000 ogivas? Seria um ataque inicial eficaz
auto-dissuasório? Desculpe, Ralph, mas penso que tenho
de considerar este ponto como pertencente ao domínio da
política. Não desejo estender-me sobre ele; mas creio que
para assegurar a neutralização dos principais objetivos
estratégicos fixos, seria preciso ultrapassar o limiar do
inverno nuclear.

NADER: Acho que você está exagerando em suas


reservas. A minha pergunta foi basicamente em termos do
efeito de ricochete. Para colocá-Ia de modo mais simples,
qual seria o limiar de um efeito de ricochete no período de
um primeiro lançamento, num ataque inicial?

SAGAN: Há uma grande probabilidade de que se a Nação


A atacar a Nação B com um primeiro ataque eficaz, de
contra-força apenas, a Nação A cometerá suicídio, ainda
que a Nação B não levante um dedo em retaliação.

MASON RUMNEY (secretário-executivo da First Steps


Foundation): Eu tenho uma pergunta. Por que supor que o
ataque de 100 metagons seria contra cidades, onde há
combustíveis estocados, e não contra bases de ICBM,
onde não há?

SAGAN: Este é simplesmente um entre uma vasta gama


de cenários possíveis.

DR. HERBERT SCOVILLE, JR. (presidente da


Associação de Controle de Armas, ex-diretor-substituto da
Agência Central de Inteligência): Que proporção do efeito
de longo prazo requer que a fumaça alcance a
estratosfera?

SAGAN: Normalmente a fumaça de incêndios não atinge


a estratosfera, e nós não admitimos que isto ocorra em
grau apreciável. Praticamente todos os nossos efeitos
devidos à fumaça são troposféricos. No caso de
referência, admite-se que a fumaça presente na baixa
troposfera seja lavada pelas chuvas em tempo bastante
curto.
Na hipótese, provável ou improvável, de um penacho de
fumaça alcançar a estratosfera, os efeitos serão muito
piores e muito mais persistentes do que os calculados.
Não foi suposta qualquer proporção apreciável de fuligem
estratosférica. Segundo pelo menos algumas opiniões
autorizadas, entre elas a de George Carrier da Harvard, é
um efeito improvável. Eu, pessoalmente, diria que é ainda
uma questão em aberto.
DR. MICHAEL J. PENTZ (deão da Faculdade de Ciência,
The Open University em Milton Keynes, Reino Unido, e
presidente da SANA, Cientistas contra as Armas
Nucleares): Tenho uma pergunta relativa ao Quadro 1 do
artigo principal, o conjunto de cenários que os senhores
estudaram. Interessaram-me muito os números 11 e 16.
O senhor pode explicar as hipóteses subjacentes, isto é,
com respeito aos ataques de contra-força de 3.000 e
5.000 megatons respectivamente? O número que me
interessa é o da coluna "Percentagem de energia,
objetivos urbanos ou industriais" , que em ambos os
casos o senhor dá como zero.
O motivo por que isso me deixa curioso é que
recentemente a SANA elaborou um modelo de
computador de um ataque predominantemente de contra-
força contra objetivos no Reino Unido envolvendo 343
objetivos e uma energia total de 220 megatons,
combinando explosões no solo e no ar. Para nós era de
imediato evidente que uma grande proporção desses
objetivos de contra-força estão situados no centro ou nas
proximidades de cidades grandes e áreas densamente
povoadas. Creio que isto é bastante típico da maior parte
da Europa. Por isso me intriga o zero. Talvez haja um
ponto decimal que os senhores possam inserir para incluir
no quadro a Grã-Bretanha e a Europa.

SAGAN: Tudo o que o senhor diz, menos no que se refere


à omissão do ponto decimal, é correto. O que nos
propusemos fazer está na tradição científica da separação
de variáveis. O que estamos dizendo é: imagine-se um
ataque só de contra-força na faixa de milhares de
megatons. Que efeitos se produziriam se não houvesse a
queima de uma única árvore nem de uma única casa? É
um limite inferior para os efeitos.
O que cabe fazer, creio, é examinar o Caso I, o caso de
referência, com 5.000 megatons, que leva em conta o
incêndio de cidades.

PENTZ: Em 20% apenas?

SAGAN: Sim, de fato.

PENTZ: Entendo que isso possa ser realista com respeito


à localização dos principais objetivos de contra-força nos
Estados Unidos e talvez na União Soviética. Mas não
seria realista com respeito à Grã-Bretanha.

SAGAN: Absolutamente certo. Vê-se, portanto, que a


situação da Europa é bem pior do que a que
descrevemos. Este é mais um exemplo de como os
nossos cálculos são cautelosos.

SRA. MYRTLE JONES (presidente da Sociedade


Audubon de Mobile Bay): Esta é uma conferência
oportuna, e o seu artigo na Parade de ontem [30 de
outubro de 1983] foi muito bem-elaborado e ajudou-me a
compreender o que o senhor disse hoje. O senhor
mencionou de passagem o fato de que esteve no
Congresso hoje de manhã. Eu gostaria de saber se em
ambas as Casas, e como foi recebido.

SAGAN: Foi um encontro informal com membros das


duas Casas, apenas para transmitir-lhes uma idéia das
últimas conclusões. Eu diria que eles se interessaram.

SRA. JONES: Interessaram-se positivamente?

SAGAN: Não sei bem o que isso significa. Mas não há


dúvida que o inverno nuclear traz fortes implicações
políticas, embora, ao começarmos o estudo, não
tivéssemos idéia de que isto iria acontecer.

J. SALATUN (vice-marechal-do-ar reformado da Força


Aérea Indonésia e membro do Parlamento em Jacarta):
Eu tenho duas perguntas.
Primeira: em que pese o pessimismo, não devemos
esquecer que se passaram 38 anos desde a Segunda
Guerra Mundial, com bombas nucleares e sem outra
guerra mundial. Minha pergunta é: qual a probabilidade de
uma guerra nuclear?

SAGAN: A arte da profecia é uma arte perdida. Se


houvesse um meio preciso de fazer tal previsão, ela seria
extremamente importante. Mas veja como é precária a
nossa capacidade de prever até mesmo os aspectos
menores da política mundial, como, por exemplo, que
pequeno país será invadido amanhã.
Portanto, esperar algum prognóstico exato quanto à
probabilidade de uma guerra nuclear, parece-me que é
querer demais. É verdade que passamos 38 anos sem
uma guerra nuclear. É possível, quem sabe, que
venhamos a sobreviver por um período mais longo. Mas o
senhor se disporia a apostar a sua vida nisso? Não
garanto que seja uma perfeita analogia, mas a situação
me faz lembrar um homem caindo do alto de um edifício e
dizendo a um funcionário de escritório, ao passar por uma
janela aberta: "Até aqui, tudo bem.”

SALATUN: A segunda pergunta é: o que me diz da


possibilidade de que as suas conclusões venham a incitar
um novo esforço e simplesmente forçar a destruição?

SAGAN: Acho que também esta é uma questão política.


Posso perguntar-lhe, vice-marechal, qual o senhor crê
seja a probabilidade, ante o conhecimento do inverno
nuclear e a descoberta de que a Indonésia é
fundamentalmente ameaçada ainda que nem um único
engenho nuclear caia em seu território, de que a
Indonésia de repente passe a interessar-se muito mais no
confronto nuclear entre as grandes potências?

SALATUN: Bem, tudo que podemos fazer é rezar a Deus


que a coisa não aconteça. Mas no meio tempo devemos
preparar-nos para o pior.

SAGAN: Na minha opinião, os senhores podem fazer


mais do que rezar.

Dr. GERALD O. BARNEY (presidente da Barney and


Associates, Inc.): No curso da preparação do Relatório
Global 2000 ao Presidente, ficou claramente evidente
para mim, e creio que para muitos outros, que é
aconselhável quando da elaboração de estudos
importantes dar acesso aos modelos detalhados
empregados no processo, já que muitas vezes há coisas
escondidas nos modelos de computador que não são de
imediato compreensíveis nas publicações que informam
os resultados.
Eu gostaria de saber se o modelo utilizado no trabalho em
causa está disponível, e qual o procedimento para obter
fitas ou cópias do programa detalhado.

SAGAN: É um pedido perfeitamente legítimo e, é claro,


acolheremos com prazer essas solicitações. Está sendo
preparada uma exposição bem mais extensa dos
resultados do TTAPS, na qual serão fornecidos detalhes
mais completos. Mas sem dúvida teremos a maior
satisfação em atender ao seu pedido.
Entretanto, faço notar mais uma vez que todos os cálculos
independentemente realizados empregaram códigos
completamente diferentes. Como todos convergiram para
a mesma direção, não creio que as nossas conclusões
tenham advindo de algum dado capcioso embutido no
programa de computador. Mas, é claro, cada segmento
do programa pode ser investigado.

H. JACK GEIGER, M.D. (professor de Medicina


Comunitária do City College da City University de Nova
York): Eu tenho uma preocupação baseada em alguma
experiência da engenhosidade com que aqueles cujo
objetivo é defender a idéia da possibilidade de vitória e de
sobrevivência numa guerra nuclear podem tentar distorcer
ou reinterpretar esses dados, particularmente no que toca
a conceitos como limiar. Que elementos determinam o
limiar tal como o senhor o define: número total de armas,
potência total, ou uma função mista dos dois?

SAGAN: É uma função mista dos dois, e também envolve


fortemente a estratégia de seleção de objetivos. Note que
nas condições atuais de precisão e de potência estocada,
quando se passa muito abaixo de 20 quilotons esbarra-se
em dificuldades significativas para destruir objetivos
resguardados. Creio que de fato existe uma limitação
inferior nas condições atuais, se as várias nações estão
pretendendo preservar a opção de um ataque de contra-
força plausível.

Dr. ED PASSERINI (presidente da Carrying Capacity, Inc.,


de Washington, D.C.; professor de Humanidades e
Ambiente da Universidade do Alabama): Esta pergunta
mais ou menos complementa a de Jack. Há uma
tendência no sentido de menores potências e maior
precisão de direcionamento. O senhor vê necessidade de
realizar um estudo adicional para verificar qual seria o
efeito de um ataque de sublimiar com direcionamento de
alta precisão?

SAGAN: Bem, como eu disse a Ralph Nader, duvido


muito da possibilidade de um ataque de sublimiar, com a
presente configuração de precisão e potências, ter
eficácia plausível para um primeiro ataque decisivo contra
objetivos fixos. [Essas possibilidades futuras são
discutidas na Ref. 19.]

DR. FRANCIS B. PORZEL (Fundação para a Dinâmica


Unificada): Não posso deixar passar esta oportunidade
para dizer-lhe que faz quase exatamente 32 anos que foi
detonada a primeira bomba de hidrogênio.
Creio que seria de grande utilidade para o relatório se o
senhor fizesse referência a experiências passadas, aos
testes atômicos. Observando os gráficos, eu noto que
houve vários períodos na década de 50 em que a União
Soviética e os Estados Unidos realizaram operações de
teste que somadas chegaram perto da faixa de 100
megatons; só a primeira, Bravo, em 1954, produziu 14
megatons.
O senhor disse que o modelo é unidimensional e por isso
não se aplica ao caso. Mas eu gostaria que o senhor
esclarecesse que precauções deveriam ser adotadas em
relação ao seu modelo se se quisesse aplicá-Io àquela
experiência.

SAGAN: Dito de outra forma, o que prediz o modelo para


as explosões atmosféricas de armas nucleares nos anos
50? A resposta é que não prediz nenhum efeito
detectável. O motivo é, lembre-se, que os 100 megatons
têm de ser consagrados em atear uns 100 incêndios
urbanos. Não foi o que se fez. Houve poeira mas não
fuligem. A maneira mais fácil de explicar isso é por meio
do conceito de profundidade ótica. A luz transmitida
através de uma cobertura absorvente pura é
aproximadamente e, a base dos logaritmos naturais,
elevado a menos profundidade ótica. Quando a
profundidade ótica é em torno de um décimo, a atenuação
é um menos profundidade ótica. É muito pequena.
Quando a profundidade ótica chega a um, o que ficou
longe de acontecer nos anos 50, a atenuação passa a ser
apreciável. E quando a profundidade ótica é por volta de
10, a atenuação torna-se critica. Sendo este um processo
não-linear, o que aconteceu na década de 50, deduzimos,
não teria quaisquer efeitos sobre o clima. e de fato não se
observou nenhum. Mas o que ocorre pelos nossos
cálculos é uma profundidade ótica de muitas unidades. Os
efeitos conseqüentes são importantes.

SRA. MARION EDEY (diretora-executiva da Liga dos


Eleitores Conservacionistas): Minha pergunta é: quais os
efeitos da camada de ozônio no Hemisfério Sul?

SAGAN: No meu entender, as soluções de continuidade


da ozonosfera deslocam-se rapidamente e se propagam
do Hemisfério Norte para o Sul.

PHILLIP GREENBERG: As opiniões hoje manifestadas


levam-me a fazer um breve comentário. Estou levando na
devida conta a decisão de evitar debates de natureza
política e, considerando as circunstâncias, acho-a justa e
compreensível.
Ademais, creio que todos entendemos que há certas
implicações políticas que fluem desse estudo, e noto em
vários casos, da parte dos interpelantes e da parte do
senhor aí na tribuna, uma tendência a questionar a
cautela das suposições.
Acho que seria um erro mesmo da parte dos senhores da
comunidade científica preocupar-se em demasia com a
questão da cautela das suposições. Pois embora ela seja
apropriada num trabalho científico, no campo político,
quando se consideram eventos de grande conseqüência,
ainda que de baixa probabilidade, a questão da cautela se
inverte.
Portanto direi simplesmente que acho importante nos
debates, e certamente nas críticas que o senhor terá de
suportar dos seus colegas que defendam pontos de vista
diferentes sob o prisma político, ter em mente que cautela
é coisa diferente segundo a consideramos no contexto
científico ou no político.

SAGAN: Concordo plenamente. É um truísmo na


administração de crises e na estatística atuarial que o
importante não é só a probabilidade do evento, e nem só
o custo do evento se ele vier a ocorrer, e sim o produto
dos dois. Nós estamos bem conscientes disso e na
verdade, até aqui, deparamos com muito poucas críticas
do tipo a que o senhor se refere.

DR THOMAS C. HUTCHINSON (professor do


Departamento de Botânica da Universidade de Toronto,
Canadá): Que proporção dos oceanos do Hemisfério
Norte é provável que viesse a congelar-se por efeito de
um ano de menos 25 graus centígrados?

SAGAN: Em sistemas de água doce, a profundidade


típica de congelamento será de um metro, um metro e
meio, por aí. Sem dúvida haverá no mar mais massas de
gelo flutuantes, mas não há possibilidade de que os
mares propriamente venham a congelar-se, dada a sua
grande capacidade calorífica e elevada inércia térmica.
Vemos assim que talvez algumas coisas não irão tão mal
entre a vasta ladainha das que irão, se formos insensatos
o bastante para permitir que aconteça a guerra nuclear.

CONSEQÜÊNCIAS BIOLÓGICAS DE UMA


GUERRA NUCLEAR
PAUL R. EHRLICH
É um privilégio, ainda que melancólico, poder apresentar-
lhes o consenso de um grande e ilustre grupo de biólogos
sobre os efeitos biológicos prováveis de uma guerra
nuclear em grande escala. Esse consenso foi alcançado
durante um simpósio realizado logo em seguida ao dos
físicos referido por Carl Sagan, e no curso da preparação
de dois documentos sobre os impactos de uma guerra
nuclear. Aqueles dos senhores que conhecem bem o
mundo da ciência sabem que conseguir o assentimento
de mais de 50 cientistas, sem qualquer divergência de
monta, a um amplo conjunto de conclusões é em si
mesmo um fato inusitado. Conseguir que concordem
sobre conclusões que dizem respeito a uma questão de
enorme e grave interesse público é extraordinário.
Para os senhores, depois da exposição do Professor
Sagan a razão desse consenso deve ter ficado clara. O
ambiente que a maior parte dos seres humanos e dos
outros organismos depois de um holocausto nuclear terá
de enfrentar será tão modificado, e tão maligno, que
danos extremos e generalizados aos sistemas vivos são
inevitáveis. Por exemplo, é perfeitamente possível que os
impactos biológicos de uma guerra, sem contar os
diretamente resultantes de explosão, fogo e radiação
instantânea, viessem a ocasionar o fim da civilização no
Hemisfério Norte. Para um biólogo é tão fácil concordar
com isso como é para todos nós concordar que o uso
acidental de cianeto em vez de sal de cozinha no molho
teria grandes probabilidades de pôr fim a um jantar.
Minha principal missão neste momento é apresentar-lhes
alguns fundamentos técnicos para explicar por que muitos
biólogos - especialmente ecologistas - estão convencidos
de que aqueles que em nações diversas detêm o poder
de decisão subestimam grandemente os riscos de uma
guerra nuclear.

Efeitos Diretos
Vou-me concentrar de modo especial nas conseqüências
indiretas geralmente ignoradas de uma guerra dessa
espécie para o ser humano, as quais se transmitiriam
através de efeitos em sistemas ecológicos. Mas não vou
minimizar os efeitos diretos possíveis, por bem
conhecidos que sejam, pois estes serão realmente
horríveis. Vejam o que estudos recentes indicam que
aconteceria numa grande guerra termonuclear, em que
entre 5.000 e 10.000 megatons de armas fossem
detonados - a maior parte no Hemisfério Norte. (para pôr
essa guerra em perspectiva, consideram que isso
equivaleria grosso modo à explosão de entre meio e três
quartos de milhão de bombas atômicas do tamanho da de
Hiroxima, o que representa não mais que uma fração dos
arsenais nucleares atuais dos Estados Unidos e União
Soviética.)
Até certo ponto, os efeitos irão depender da dimensão da
guerra, distribuição das explosões, número de explosões
no solo e de explosões no ar, e outros fatores. Mas quero
frisar novamente o que o Dr. Sagan tão bem sublinhou:
que os resultados biológicos são pujantes. Isto significa
que é sumamente difícil conceber uma guerra nuclear em
grande escala que não levasse a um desastre ecológico
de dimensões sem precedentes.
Em nosso artigo para a revista Science, nós nos
concentramos mais que o relatório TTAPS numa guerra
de 10.000 megatons, porque achamos que a população
devia ser informada dos efeitos dessa hipótese plausível.
Por isso demos atenção especial ao caso de 10.000
megatons. Mas as descrições gerais dos efeitos aplicam-
se a todos os cenários de guerra em grande escala.
A previsão, segundo uma das estimativas, é de que
somente as explosões causariam 750 milhões de mortes.
Um número de pessoas igual ao que existia no planeta
quando a nossa nação foi fundada seria vaporizado,
desintegrado, esmagado, reduzido a polpa e espalhado
na paisagem pela força explosiva das bombas. Outro
estudo prediz que 1,1 bilhão de pessoas seriam mortas e
outras tantas lesadas pelas explosões, pelo calor e pela
radiação. Vale dizer, quase a metade da atual população
do mundo - compreendendo a maior parte dos habitantes
das nações ricas do Hemisfério Norte - poderia converter-
se em baixas no espaço de poucas horas.
Também é cristalinamente claro que a própria estrutura
da sociedade industrial seria destruída por um tal tipo de
guerra. Praticamente todas as áreas metropolitanas - que
são os centros políticos, industriais, financeiros, de
transportes, de comunicações e culturais das sociedades
simplesmente deixariam de existir. Grande parte do saber
da humanidade desapareceria com elas. Atendimento
médico e outros serviços de socorro essencialmente não
mais existiriam - não haveria de onde partir assistência.
Os sobreviventes das nações um dia ricas não somente
enfrentariam as cargas psicológicas esmagadoras de
terem testemunhado a maior catástrofe da história
humana, como saberiam não haver esperança de
remédio.
Uma situação como essa é de tal modo estarrecedora que
muitos a entenderão como uma estimativa de pior
hipótese do mal potencial causado ao Homo sapiens na
Terceira Guerra Mundial. Ao contrário, como veremos a
seguir, eu descrevi somente a ponta visível do iceberg. Os
destinos dos dois ou três bilhões de pessoas que não
morressem imediatamente inclusive as de nações muito
distantes dos objetivos - poderiam sob vários aspectos ser
piores. Essas, é claro, sofreriam a ação direta das
temperaturas glaciais, da escuridão e da precipitação
radioativa à médio prazo de que falou o Dr. Sagan. Mas
os efeitos de maior alcance à longo prazo seriam
produzidos indiretamente pelo impacto destes e de outros
fatores sobre os sistemas ambientais do planeta.

Ecossistemas
Para entender isso, é preciso saber alguma coisa a
respeito de sistemas ecológicos - ecossistemas na forma
abreviada da biologia. Um ecossistema é uma
comunidade biológica - todos os vegetais, animais e
micróbios que vivem numa certa área - combinada ao
meio físico em que vivem esses organismos. O meio
abrange a radiação solar, os gases da atmosfera, águas
correntes, fragmentos de rocha no solo, e assim por
diante. E a essência de um ecossistema é uma teia de
processos que ligam os organismos uns aos outros e ao
seu ambiente físico.
Esses processos incluem um fluxo unidirecional de
energia através do ecossistema e um movimento cíclico
de materiais no seu interior. Muitos dos senhores estão
familiarizados com o processo da fotossíntese, pelo qual
as plantas verdes "captam" a energia do sol. Parte dessa
energia é a seguir transferida ao longo de "cadeias
alimentares", sendo utilizada primeiro pelas plantas no
seu crescimento e para acionar seus outros processos
vitais, depois pelos herbívoros que comem essas plantas,
depois pelos carnívoros que comem os herbívoros e uns
aos outros, e finalmente por agentes de decomposição
que desagregam resíduos e organismos mortos.
A energia do sol alimenta todos os ecossistemas
importantes, não apenas através da fotossíntese como
também de processos puramente físicos, como o de
evaporar a água da superfície dos mares e das terras de
modo que esta continue a circular. Assim, vê-se de
imediato por que qualquer evento que impeça o acesso
da luz solar à superfície da Terra pode ter efeitos
catastróficos sobre o funcionamento dos ecossistemas.
Mas, e daí? É preciso entender que todos os seres
humanos estão encerrados em ecossistemas e deles
dependem totalmente para a produção agrícola e para
uma série de outros "serviços públicos" gratuitos. Esses
serviços incluem a regulação dos climas e manutenção da
composição gasosa da atmosfera; suprimento de água
doce; remoção de resíduos; reciclagem de elementos
nutrientes (inclusive os indispensáveis à agricultura e à
silvicultura); geração e preservação de solos; controle da
grande maioria das pragas potenciais das lavouras e
vetores de enfermidades humanas; suprimento de
alimentos do mar; e manutenção de uma vasta
"biblioteca" genética, da qual a humanidade já tirou a
própria base da civilização - inclusive todas as plantas
cultivadas e animais de criação.
A danificação de ecos sistemas significa a interrupção
desses serviços. E os dois ou três bilhões de indivíduos
que sobrevivessem aos efeitos instantâneos de uma
guerra termonuclear precisariam deles mais ainda do que
precisamos hoje.

Agressões aos Ecossistemas


A que espécies de agressões estariam sujeitos os
ecossistemas na eventualidade de um conflito nuclear em
grande escala entre os Estados Unidos e a URSS? O
Professor Sagan realçou as duas que provavelmente
seriam as mais importantes - escuridão generalizada e frio
intenso nas áreas continentais. Entre as demais, que não
seriam desprezíveis, teríamos incêndios florestais; neblina
tóxica (que poderia engolfar todo o Hemisfério Norte);
enriquecimento da luz solar (quando voltasse a penetrar)
em comprimentos de onda da faixa perigosa do
ultravioleta (UV-B), que, entre outras coisas, danificam o
material genético (ADN); níveis acrescidos de radiação
nuclear; chuvas ácidas; contaminação por substâncias
tóxicas de águas subterrâneas, superficiais e litorâneas;
assoreamento e poluição por resíduos de lagos, rios e
orlas marítimas e tempestades violentas em regiões
costeiras.
Quando da descrição de alguns dos impactos desses
fenômenos, convirá ter em mente que a maioria deles
estarão ocorrendo simultaneamente em muitas regiões.
Além disso, em muitos casos os impactos de duas ou
mais agressões simultâneas serão provavelmente
sinérgicos - isto é, maiores que a simples soma dos
efeitos isolados. Por exemplo, os níveis de radiação
remanescente provinda de precipitações globais (ou seja,
exposição à radiação não atribuível à precipitação local
devida a uma determinada bomba) poderão ser muito
mais altos do que os estimados em análises anteriores,
porque as precipitações da alta troposfera foram de modo
geral desprezadas.
Também é importante entender que as conclusões dos
biólogos quanto aos efeitos ecossistêmicos são muito
menos dependentes das características particulares das
detonações do que o são as conseqüências diretas de
explosão, calor e radiação inicial. Só no caso de uma
guerra nuclear de pequena escala, realmente limitada,
haveria a probabilidade de os nossos cálculos não serem
aplicáveis. Guerras desse tipo são possíveis, mas que
uma guerra nuclear, uma vez iniciada, possa ser contida,
é duvidoso; para muitos analistas, guerras nucleares
limitadas são altamente improváveis. Seja como for, os
detentores do poder de decisão devem ser
completamente informados das conseqüências possíveis
de conflitos nucleares generalizados, que têm toda a
probabilidade de causar a longo prazo efeitos
devastadores.
É bem possível que as nossas conclusões subestimem
essas conseqüências, visto que ainda sabemos muito
pouco a respeito do funcionamento detalhado dos
ecossistemas globais para avaliar todas as interações
sinérgicas entre os insultos a que os seres humanos e os
ecossistemas seriam submetidos. O fato é que, mesmo se
os efeitos climáticos não abarcassem todo o Hemisfério
Norte ou todo o globo, os impactos de uma guerra nuclear
sobre os ecossistemas do planeta seriam consideráveis.

Gelo e Trevas
Temperaturas reduzidas teriam efeitos dramáticos sobre
populações animais, muitas das quais seriam aniquiladas
pelo frio inusitado. Contudo o fator central dos efeitos nos
ecossistemas é o impacto da guerra sobre as plantas
verdes. A atividade destas dá origem à chamada
produção primária - a apropriação de energia (através da
fotossíntese) e a acumulação de substâncias nutritivas
necessárias ao funcionamento de todos os componentes
biológicos dos ecossistemas naturais e cultivados. Sem a
atividade fotossintética das plantas, virtualmente todos os
animais, seres humanos inclusive, cessariam de existir.
Toda carne é na verdade "erva".
Tanto o frio como a escuridão são adversos às plantas e à
fotossíntese. O Quadro 1 mostra as modificações de luz e
temperatura que podem decorrer de uma guerra nuclear.
Note-se que, por exemplo, as temperaturas superficiais
nos continentes, longe das costas, podem ficar abaixo do
ponto de congelamento da água em todo o Hemisfério
Norte durante um ano inteiro, e que um frio próximo desse
ponto também pode assolar o Hemisfério Sul durante
meses.
Os impactos de temperaturas tão baixas sobre as plantas
dependeriam, entre outras coisas, da época do ano em
que ocorressem, da sua duração, e da tolerância das
diferentes espécies vegetais ao resfriamento. Um
resfriamento brusco é particularmente prejudicial. Depois
de uma guerra nuclear, prevê-se que as temperaturas
cairiam verticalmente em curto espaço de tempo; assim, é
improvável que plantas normalmente resistentes ao frio se
aclimatassem antes de serem expostas a temperaturas
letais. Além disso, mesmo temperaturas bem acima do
ponto de congelamento podem ser nocivas a algumas
plantas, e outras agressões não mostradas no Quadro 1
intensificariam os danos infligidos à vegetação pelo
resfriamento ou congelação. Acresce que plantas doentes
ou lesadas têm uma capacidade reduzida de aclimatar-se
ao frio.
Tudo isso se resume em que virtualmente todas as
plantas terrestres no Hemisfério Norte seriam lesadas ou
destruídas numa guerra que ocorresse durante a estação
do crescimento ou pouco antes. Provavelmente a maior
parte das culturas anuais seria prontamente exterminada,
e muitas plantas perenes sofreriam igualmente danos
graves se a guerra ocorresse no período do seu
crescimento ativo. Obviamente, os danos seriam menores
se ela acontecesse na fase de hibernação.
Se fosse no outono ou no inverno, as fontes principais de
alimento para a humanidade - trigo, arroz, milho e outros
cereais - teriam sido colhidas. Mas provavelmente o
tempo permaneceria anormalmente frio por muitos meses,
impedindo o cultivo na primavera e no verão
subseqüentes, ainda que outras condições fossem
favoráveis. Outrossim, como as temperaturas de inverno
estariam muito abaixo das mínimas normais, muitas
plantas perenes (por exemplo, árvores frutíferas e
componentes importantes da vegetação natural)
provavelmente morreriam. De modo geral, as sementes
estocadas de plantas de zonas temperadas não seriam
afetadas pelo frio, mas as de muitas plantas tropicais o
seriam.
Se bem que em latitudes mais setentrionais uma guerra
no outono ou no inverno teria provavelmente um impacto
menos violento sobre as plantas do que na primavera ou
no verão, ainda assim poderia haver um sério impacto nos
trópicos, onde as plantas crescem o ano inteiro. As únicas
partes do Hemisfério Norte onde as plantas não seriam
devastadas por um frio intenso seriam zonas costeiras e
ilhas, onde a temperatura seria moderada pelos oceanos.
As faixas costeiras, porém, experimentariam condições
atmosféricas de extrema turbulência, em vista das
enormes diferenças de temperatura que se criariam entre
a terra e o mar.
Lembrem-se de que o frio é apenas um dos castigos a
que as plantas verdes seriam submetidas. O bloqueio da
luz solar, causa do frio, também reduziria ou eliminaria a
atividade da fotossíntese. Isto traria inúmeras
conseqüências, que se transmitiriam em cascata através
das cadeias de alimento, inclusive as que dão sustento à
espécie humana. A produtividade primária diminuiria mais
ou menos na proporção da diminuição da luz, ainda que a
vegetação não sofresse outras espécies de danos. Se o
nível de iluminação caísse a 5% ou menos dos níveis
normais - como provavelmente aconteceria por vários
meses nas latitudes médias do Hemisfério Norte -, a
maioria das plantas teria o seu crescimento
interrompido. Assim, mesmo se as temperaturas
permanecessem normais, a produtividade das culturas e
dos ecossistemas naturais seria enormemente reduzida
pela intercepção da luz do sol decorrente de uma guerra.
Combinados, o frio e a escuridão constituiriam uma
catástrofe sem precedentes para esses sistemas.

Luz Ultravioleta
Quando o frio e a escuridão abrandassem, as plantas
verdes passariam a sofrer outro sério insulto. As bolas de
fogo nucleares introduziriam na estratosfera grandes
quantidades de óxidos de nitrogênio. A
conseqüência seria uma forte redução do escudo protetor
estratosférico de ozônio - da ordem de 50%.
Normalmente, o ozônio filtra a radiação UV-B.
Nas semanas ou meses imediatamente seguintes à
guerra, a fuligem e a poeira em suspensão impediriam
essa UV-B acrescida de alcançar o solo. Mas a escassez
de ozônio persistiria por mais tempo que a fuligem e a
poeira, e, quando a atmosfera limpasse, os organismos
seriam submetidos a níveis de radiação UV-B muito mais
altos que os considerados perigosos para os
ecossistemas e para os seres humanos.
Uma das respostas das plantas ao aumento da UV-B é a
redução da fotossíntese. Além disso, folhas que se
desenvolvem em baixa luminosidade são duas ou três
vezes mais sensíveis à UV-B do que as desenvolvidas em
plena luz do sol. Dessa forma, a UV-B irá potenciar os
danos antes causados por baixos níveis de luz. Sabe-se
que os sistemas imunológicos do Homo sapiens e de
outros mamíferos são suprimidos mesmo por doses
baixas de UV-B. Assim, os mamíferos submetidos a
radiação ionizante acrescida (que também inibe o sistema
imunológico), a doenças e a uma série de outras
agressões num mundo de pós-guerra teriam
comprometida uma de suas principais defesas. Há
também indicações de que a exposição prolongada a um
excesso de UV-B poderia provocar de modo generalizado
a perda da visão. As pessoas e outros animais
sobreviventes poderiam ver-se novamente em trevas
pouco tempo depois que o céu tivesse clareado.

Precipitação Radioativa
Os ecos sistemas do Hemisfério Norte seriam também
submetidos a níveis muito mais altos de radiação
ionizante originada da precipitação radioativa do que se
imaginava antes. Uma estimativa sugere que um total de
uns 5 milhões de quilômetros quadrados estendendo-se
dos pontos de detonação na direção do vento ficariam
expostos a 1.000 ou mais rems de radiação,
principalmente nas primeiras 48 horas. Esses níveis de
radiação seriam letais para todas as pessoas expostas e
para muitas outras espécies animais e vegetais sensíveis.
Até 30% das áreas continentais de médias latitudes do
Hemisfério Norte seriam expostas a mais de 500 rems de
radiação no primeiro dia. Tal dose causaria a morte de
cerca de metade dos indivíduos adultos sadios a ela
expostos. No entanto, submetidos a outros fatores de
debilitação, poucos adultos nessas áreas se manteriam
sadios, e a radiação poderia acabar de liquidar muitos
milhões de sobreviventes feridos, doentes, enregelados,
famintos e sedentos. Os que não morressem ficariam
doentes por semanas e propensos ao câncer pelo resto
de suas vidas. O número total de pessoas afetadas
certamente passaria de um bilhão, podendo mesmo
abranger a totalidade das populações do Hemisfério Norte
- dependendo dos detalhes do conflito nuclear.
Níveis mais baixos de exposição anormal, ainda centenas
de vezes maiores que a radiação normal "de fundo",
ocorreriam em metade ou mais do hemisfério, tornando os
sobreviventes mais suscetíveis à doença, acarretando a
produção de câncer e provocando mutações genéticas.
Os efeitos ecossistêmicos de níveis elevados de radiação
são mais difíceis de prever. Organismos não-humanos
são diferentemente suscetíveis a lesões por radiação.
Entre os mais vulneráveis estão a maioria das coníferas
que formam florestas extensas nas zonas mais frias do
Hemisfério Norte. É possível que sobreviesse a morte de
coníferas numa superfície equivalente a 2% de toda a
área de terras do Hemisfério Norte. Isto, por sua vez,
criaria condições propícias à propagação de incêndios de
enorme extensão.
Além das coníferas, aves e mamíferos destacam-se entre
os grupos mais sensíveis. Combinada a outras agressões,
a precipitação, em muitas regiões, poderia agravar a
ruptura da mecânica normal de ecossistemas. Além do
que, isótopos radioativos entrariam em ciclos alimentares,
ganhando no processo maior concentração, e talvez
somando novos riscos para os sobreviventes humanos.

Fogo, Smog e Sinergismos


Essa narrativa de modo algum esgota os impactos que os
ecossistemas experimentariam. É claro que muitos deles
seriam destruídos ou lesados pelas explosões, pelo fogo
e pela radiação de milhares de detonações de
armas nucleares. Poços de petróleo, jazidas e depósitos
de carvão, turfeiras, etc., poderiam continuar queimando
por meses ou anos. Incêndios florestais secundários,
cobrindo talvez 5% ou mais da área continental do
Hemisfério Norte, teriam efeitos devastadores diretos
sobre os ecossistemas - especialmente aqueles não
adaptados a queimas periódicas. Explosões múltiplas no
ar sobre a Califórnia no fim do verão ou princípio do
outono poderiam calcinar grande parte do estado,
ocasionando enchentes e erosão de dimensões
calamitosas durante a estação chuvosa subseqüente.
Assoreamento, escoamentos tóxicos e chuvas radioativas
poderiam causar a mortandade de uma grande parte da
fauna de águas doces e costeiras. Sobreviventes
humanos procurando alimentar-se de mariscos como
mexilhões a beira-mar provavelmente verificariam
estarem eles mortos ou com radioatividade concentrada
de tal ordem que seria letal consumi-los.
Há grande incerteza com respeito à extensão de
tempestades ígneas, porque as condições de combustível
e de inflamação que as originam são pouco conhecidas.
Em certas circunstâncias, essas conflagrações
gigantescas podem aquecer o solo o suficiente para matar
as sementes dormentes nele contidas - os "bancos de
sementes" dos quais depende a regeneração da flora. A
tempestade ígnea relativamente pequena que destruiu
Hamburgo na Segunda Guerra Mundial lançou labaredas
no céu a 4.500 metros de altura e fumaça a 12.000
metros. A temperatura do fogo foi suficiente para fundir
alumínio, e abrigos subterrâneos ficaram tão quentes que
quando se abriram, dando entrada ao oxigênio, materiais
inflamáveis e até cadáveres explodiram em chamas. Essa
tempestade cobriu cerca de 15 quilômetros quadrados; as
muitas tempestades ígneas produzidas numa guerra
nuclear provavelmente seriam cada qual cem ou mais
vezes maior.
Os incêndios e as tempestades ígneas gerariam um smog
hemisférico de espessura variável, enriquecido a
sotavento de cidades incendiadas por diversas
substâncias altamente tóxicas, como os cloretos de vinil.
Uma provável conseqüência da injeção na atmosfera de
óxidos de enxofre e nitrogênio produzidos por incêndios
seriam chuvas fortemente ácidas localizadas. E a
modificação da dinâmica da atmosfera poderia resultar
em estiagens prolongadas noutras regiões. Em geral, a
sujeição de ecossistemas a várias combinações de
escuridão, frio, fogo, radiação ultravioleta, smog, chuvas
ácidas e seca seria de molde a provocar surtos sem
precedentes de doenças e pragas das plantas, os quais
poderiam estender-se, no espaço e no tempo, muito além
da devastação direta produzida pela guerra.
Em muitos casos, como dito atrás, o impacto de dois
fatores adversos simultâneos seria muito maior que a
soma dos seus efeitos se eles ocorressem
separadamente. Alguns desses sinergismos são fáceis de
identificar. Por exemplo, a falta de luz solar é de molde a
intensificar os efeitos de outros fatores adversos sobre as
plantas porque se requereria energia (e portanto
insolação) adicional para resistir a esses efeitos e para
reparar os danos por eles provocados. Não temos meios
de quantificar outros sinergismos que sem dúvida
nenhuma ocorreriam em ecossistemas radicalmente
alterados em virtude de um ataque. No entanto tudo
indica que podemos prever com segurança que haveria
muitos deles - e que de modo geral eles se revelariam
muito mais destrutivos do que alguns dos efeitos isolados.

O que Aconteceria aos Vertebrados e aos


Organismos do Solo
O desastre que acometeria grande parte ou a maioria das
espécies vegetais do Hemisfério Norte por obra dos
efeitos de uma guerra nuclear concorreria para um
desastre comparável ou maior para os animais
superiores. Herbívoros e carnívoros selvagens e animais
de criação ou sucumbiriam prontamente ao frio ou
morreriam de fome ou de sede porque as águas
superficiais ficariam congeladas. Se a guerra ocorresse
no outono ou no inverno, animais hibernantes em regiões
mais frias talvez sobrevivessem, só para enfrentar
condições extremamente hostis numa primavera e num
verão de frio e escuridão.
Os animais necrófagos que resistissem às temperaturas
glaciais previstas teriam condições de florescer no
período de pós-guerra, tendo em vista os bilhões de
corpos insepultos de homens e animais. Com as altas
taxas de multiplicação que os caracterizam, depois do
degelo, ratos, moscas e baratas poderiam, pouco tempo
decorrido da Terceira Grande Guerra, ocupar o lugar de
espécies dominantes.
Os organismos do solo não dependem diretamente da
fotossíntese, e em muitos casos podem manter-se em
estado de vida latente por períodos prolongados. Esses
estariam relativamente imunes ao frio e à escuridão. Mas
em muitas regiões a perda da vegetação de superfície
exporia o solo a um intenso processo de erosão pelo
vento e pela água. Com isso, ainda que os organismos do
solo não sejam excessivamente suscetíveis aos efeitos
retardados sobre a atmosfera de uma guerra nuclear, é
provável que ecossistemas inteiros do solo fossem de
qualquer maneira destruídos.

Impactos em Sistemas Agrícolas


Os ecossistemas agrícolas seriam submetidos aos
mesmos tipos de impactos que os ecossistemas naturais,
mas merecem atenção especial porque atualmente
sustentam populações humanas muito acima das cargas
suportáveis pelos ecossistemas naturais.
As reservas de alimentos básicos nos centros de
população humana são pequenas, e a maior parte da
carne e dos gêneros é suprida pela produção corrente.
Somente os cereais são armazenados em quantidades
maiores, mas os locais de armazenagem situam-se
geralmente em pontos distantes. Por isso, depois de uma
guerra nuclear, as reservas de alimentos do Hemisfério
Norte estariam destruídas ou contaminadas, guardadas
em locais inacessíveis, ou em pouco tempo esgotadas. As
pessoas que sobrevivessem aos outros efeitos da guerra
logo estariam morrendo de fome. Além disso, países que
hoje dependem de grandes importações de alimentos,
ainda que intocados por explosões nucleares, sofreriam a
imediata e completa cessação do ingresso de
suprimentos. Teriam de voltar-se para os ecossistemas
agrícolas e naturais locais. Para muitos países em
desenvolvimento, isso poderia significar a inanição de
grandes parcelas dos seus habitantes.
A recuperação da agricultura após a guerra seria com
certeza muitíssimo difícil. Em sua maioria as culturas
requerem complementos substanciais de energia e de
fertilizantes. Além disso, safras aproveitáveis requerem
insolação integral, água adequada, supressão de pragas
e ausência relativa de agentes adversos como poluição
do ar e UV-B. Poucos desses requisitos estariam
presentes no mundo do pós-guerra imediato.
Depois que as condições ambientais voltassem mais ou
menos ao "normal" (exceto pela perda de solos
irrecuperáveis), a facilidade da restauração da
agropecuária em escala apreciável iria depender da
possibilidade de reorganização dos sistemas sociais
(determinada por fatores como disponibilidade de energia
e condição psicológica da população) e da proporção em
que sementes e animais de criação reprodutores
houvessem sobrevivido. Como as sementes destinadas à
grande maioria das culturas norte-americanas, européias
e soviéticas não são colhidas e armazenadas em
fazendas individuais, a variedade genética já limitada de
plantas cultivadas seria ainda mais reduzida por perdas
inevitáveis de sementes estocadas. Além disso, é
provável que as variedades que sobrevivessem se
adaptassem mal aos meios ambientes de pós-guerra em
que seriam plantadas.
Nas primeiras estações, o mais certo é que o clima
permanecesse mais hostil e imprevisível do que de
costume, resultando em colheitas incertas e, com
freqüência relativa, em frustrações de safras. Mesmo
alterações climáticas pequenas podem ter grandes efeitos
sobre a agricultura. Por exemplo, uma simples queda de
3ºC na temperatura média de julho empurraria o limite
norte da produção confiável de milho vários graus de
latitude para o sul, até o sul do Iowa e o centro do Illinois.
Por fim, deve-se observar que os ecossistemas agrícolas
dependem inevitavelmente dos ecossistemas naturais em
que estão embutidos. Alterações causadas nestes pela
guerra, especialmente se afetando a sua capacidade de
prestar serviços de suprimento de água doce, controle de
pragas e polinização, também poderiam retardar a
recuperação da agricultura.

O que Aconteceria com os Trópicos


Até aqui, concentrei minhas observações nos efeitos
produzidos na Zona Temperada Norte, terreno provável
da guerra. Mas o que aconteceria nos trópicos e no
Hemisfério Sul? Naturalmente, isso dependeria em
grande parte da exata configuração dos alvos escolhidos
e de quantas tempestades ígneas se produzissem (pois
estas poderiam injetar enormes quantidades de material
na estratosfera, onde ele seria facilmente transportado do
Hemisfério Norte para o Sul).
Em qualquer cenário de guerra, a propagação do frio e da
escuridão às extensas áreas tropicais do Hemisfério Norte
é altamente provável, e é pelo menos possível que se
estendesse igualmente às áreas tropicais do Hemisfério
Sul. Ainda que o frio e a escuridão ficassem em grande
parte confinados às regiões temperadas do norte, pulsos
de ar frio poderiam penetrar bastante fundo nas zonas
tropicais. Portanto é oportuno mencionar as prováveis
conseqüências de tal propagação.
Muitas plantas de zonas tropicais e subtropicais não
possuem mecanismos de liberação que lhes permitam
suportar estações frias. Nessas regiões, danos em grande
escala seriam infligidos às plantas pelo esfriamento, ainda
que as temperaturas não chegassem a cair ao ponto de
congelamento. Além disso, considera-se que vastas áreas
de vegetação tropical estão muito próximas do "ponto de
compensação" fotossintético - a quantidade de dióxido de
carbono que absorvem é apenas ligeiramente maior que a
que liberam. Se o nível de luz caísse, essas plantas
definhariam, mesmo em ausência de resfriamento. Se a
luz permanecesse escassa por um tempo prolongado, ou
se a baixos níveis de iluminação se combinassem baixas
temperaturas, florestas tropicais poderiam desaparecer
em grande parte, levando consigo quase por inteiro um
dos recursos não-renováveis mais preciosos da Terra:
suas reservas de diversidade genética, compreendendo a
maioria das espécies animais e vegetais. Animais
tropicais, seres humanos neles incluídos, são também
muito mais sujeitos a morrer de frio que os seus
semelhantes das zonas temperadas. Em resumo: onde
regiões tropicais fossem afetadas por alterações
climáticas, as conseqüências poderiam ser muito mais
sérias do que as provocadas por mudanças similares
numa zona temperada.
Mais que isso, mesmo na ausência de frio e escuridão, a
dependência dos povos tropicais de alimentos e
fertilizantes importados criaria problemas de suma
gravidade. Um grande número de habitantes seria forçado
a deixar as cidades e a tentar cultivar áreas
remanescentes de floresta tropical úmida, acelerando a
sua destruição na medida em que os sistemas fossem
levados muito além da sua capacidade de carga.

O que Aconteceria aos Sistemas Aquáticos


Finalmente, o que aconteceria às partes do planeta que
são cobertas de água? Os organismos aquáticos tendem
a ser protegidos de variações dramáticas da temperatura
do ar pela lentidão com que as variações se propagam à
água. Assim, em geral, os sistemas aquáticos sofreriam
ruptura menos acentuada que os terrestres. Não obstante,
muitos sistemas de água doce se congelariam a
profundidades não pequenas (ou completamente). Por
exemplo, após uma guerra nuclear na primavera, formar-
se-ia um metro ou mais de gelo em todas as massas de
água doce, pelo menos na Zona Temperada Norte. Isto
reduziria ainda mais os níveis de iluminação em lagos,
charcos, rios e arroios num mundo escurecido. Haveria
baixa de oxigênio, e muitos organismos aquáticos seriam
exterminados. Além disso, a profundidade de
congelamento tornaria extremamente difícil o acesso de
pessoas e outros animais sobreviventes à superfície da
água.
Nos mares, a escuridão inibiria a fotossíntese nas
minúsculas plantas verdes (algas) que formam a base de
todas as cadeias alimentares marinhas importantes. A
reprodução dessas plantas, conhecidas coletivamente
como fitoplâncton, seria retardada ou interrompida em
muitas regiões, e o fitoplâncton que sobrevivesse seria
em pouco tempo devorado pelos pequenos animais
flutuantes (zooplâncton) que dele se alimentam. Próximo
à superfície do mar, a produtividade do fitoplâncton é
reduzida pelos níveis atuais de UV-B; depois de uma
guerra, um aumento dessa espécie de radiação seria uma
agressão adicional. No Hemisfério Norte, as cadeias
alimentares marinhas poderiam ser rompidas por um
lapso suficientemente longo para causar a extinção de
muitas espécies valiosas de peixes, principalmente após
uma guerra nuclear de primavera ou de verão.
Não apenas a vida marinha seria dizimada em águas
costeiras ricas como as de Georges Bank, como as águas
seriam agitadas por tremendos temporais. Na proporção
em que se encontrassem no porto ao ocorrer a guerra, as
frotas pesqueiras e os pescadores de ofício que hoje
colhem as riquezas do oceano teriam sido em grande
parte convertidos em partículas dispersas, que
contribuiriam para sombrear os mares. Os sobreviventes
aptos e dispostos a pescar teriam grande dificuldade em
encontrar combustível e instalação portuárias e de
processamento utilizáveis. De modo geral, não há muito
por que acreditar que, pelo menos no Hemisfério Norte,
as formas de vida marinha que servem de importante
fonte de alimento para o homem fossem acessíveis aos
sobreviventes.

O que Aconteceria com a Terra


Podem-se elaborar cenários de guerra plausíveis em que
os efeitos atmosféricos predominantes, frio e escuridão,
se estenderiam virtualmente à totalidade do planeta.
Nessas circunstâncias, a sobrevivência humana se
restringiria quase que exclusivamente a ilhas e faixas
costeiras do Hemisfério Sul, e a população humana
poderia reduzir-se aos níveis da pré-história.
Muitos de nós, lendo o livro de Jonathan Schell The Fate
of the Earth, nos comovemos fortemente pelo modo
impressionante em que ele apresenta a sua tese, mas eu
desconfio que os biólogos em sua maioria, como eu
mesmo, acharam um tanto exagerado imaginar que a
nossa espécie viesse a desaparecer literalmente da face
do planeta. Com base no que sabíamos então, não
parecia verossímil.
Depois, os biólogos tiveram de considerar a possibilidade
de que o frio e a escuridão se espalhassem sobre a Terra
inteira e sobre todo o Hemisfério Sul. Ainda assim
pareceu-Ihes improvável que isso resultasse de pronto na
morte de todas as pessoas do Hemisfério Sul. Imaginou-
se que em ilhas, por exemplo, longe das fontes de
radioatividade e onde as temperaturas seriam moderadas
pelos oceanos, alguns habitantes haveriam de sobreviver.
De fato, é provável que restassem sobreviventes
esparsos em várias partes do Hemisfério Sul, e mesmo
numas poucas partes do Hemisfério Norte.
Mas cabe inquirir sobre a persistência a longo prazo
desses pequenos grupos de população, ou de indivíduos
isolados. O ser humano é um animal social por
excelência. Depende em alto grau das estruturas sociais
que construiu. Terá de arrostar um meio enormemente
alterado, que não apenas lhe será estranho senão muito
mais adverso do que jamais enfrentou. Os sobreviventes
retornarão a uma espécie de estágio de caçador-
apanhador. Mas os caçadores e apanhadores do passado
possuíram sempre um íntimo conhecimento cultural do
ambiente em que viviam; sabiam como tirar o seu
sustento da terra. Depois de um holocausto nuclear,
populações sem essa espécie de bagagem cultural
estarão de repente se esforçando por viver num ambiente
que jamais foi experimentado por ninguém em parte
alguma. Com toda a probabilidade, enfrentarão um meio
totalmente novo, condições meteorológicas sem
precedentes e altos níveis de radiação. Se forem grupos
muito reduzidos, haverá a possibilidade de cruzamento
consangüíneo. E, é claro, os sistemas sociais,
econômicos e de valores serão completamente
esfacelados. O estado psicológico dos sobreviventes não
é fácil de imaginar.
É consenso do nosso grupo que, nessas condições, não
há como excluir a possibilidade de os sobreviventes
dispersos simplesmente não serem capazes de
reconstruir suas populações, de, num lapso de dezenas
ou mesmo centenas de anos, acabarem por desvanecer-
se. Em outras palavras, não há como excluir a
possibilidade de uma guerra nuclear acarretar a extinção
do Homo sapiens.

Sumário
Permitam-me uma breve recapitulação. Uma guerra
nuclear em grande escala, ao que nos é dado prever,
deixaria quando muito sobreviventes esparsos no
Hemisfério Norte, e esses sobreviventes enfrentariam frio
intenso, fome, falta de água, smog espesso, etc.,etc., e
enfrentariam tudo isso na penumbra ou no escuro, e sem
o apoio de uma sociedade organizada.
Os ecossistemas de que em grau extremo eles seriam
dependentes sofreriam fortes distorções, transformando-
se em modos que dificilmente podemos predizer. Seus
processos seriam entravados. Os ecologistas não
conhecem suficientemente esses sistemas complicados
para poderem prever a sua exata condição depois de
"recuperados". Se a biosfera voltaria a ser um dia algo
parecido ao que é hoje, ninguém é capaz de dizer.
É altamente improvável que a sociedade do Hemisfério
Norte perdurasse. Na zona tropical do Hemisfério Sul, os
eventos dependeriam em grande parte do grau de
propagação dos efeitos atmosféricos do norte para o sul.
Mas podemos estar certos de que, ainda que não
houvesse essa propagação, as populações que vivem
nessas áreas seriam fortissimamente afetados pelos
efeitos da guerra - pelo simples fato de ficarem isoladas
do Hemisfério Norte.
E, repetindo, se os efeitos atmosféricos se alastrassem
por todo o planeta, não podemos ter certeza de que o
Homo sapiens sobreviveria.
Figura 1. Deslocamento urbano provável: Uma semana
após uma guerra nuclear, a quantidade de luz solar ao
nível do solo a grandes distâncias dos objetivos do
Hemisfério Norte possivelmente se reduziria a uma
pequena percentagem da normal. Os sobreviventes
urbanos defrontar-se-iam com frio intenso, falta de água,
falta de alimentos e de combustíveis e pesadas cargas de
radiação, poluentes e doenças. Provavelmente tentariam
abandonar as cidades em busca de comida.

Figura 2. Impacto na agricultura: No caso de uma guerra


de primavera ou de verão, temperaturas abaixo do ponto
de congelamento destruiriam ou comprometeriam
praticamente todas as culturas no Hemisfério Norte. Os
baixos níveis de iluminação inibiriam a fotossíntese, e as
conseqüências propagar-se-iam em cascata ao longo de
todas as cadeias alimentares. Os animais de criação
morreriam ou se debilitariam grandemente por efeito da
radiação: Os que sobrevivessem em pouco tempo
morreriam de sede, pois as águas doces superficiais
estariam congeladas no interior dos continentes.

Figura 3. Vazamentos químicos: Explosões nucleares nas


vizinhanças de cidades incendiariam instalações de
armazenagem de petróleo e gás e romperiam tanques
contendo produtos tóxicos, que se derramariam nas
águas correntes, matando os organismos aquáticos.
Figura 4. O frio e a escuridão que se seguiriam a uma
guerra nuclear no Hemisfério Norte provavelmente
haveriam de estender-se às zonas sub-tropicais e
tropicais de ambos os hemisférios, causando danos
generalizados às plantas e animais daquelas regiões e
afetando seriamente ou destruindo florestas tropicais
úmidas, o grande reservatório da diversidade orgânica da
Terra. Em lugares como a América Central (figura) as
populações teriam de perambular à procura de abrigo e
alimento.

Figura 5. Aqui se mostra uma paisagem tranqüila nas


matas do norte. Um castor acabou de construir a sua
represa, dois ursos pretos vagueiam à cata de comida,
uma borboleta do gênero Papilio adeja no primeiro plano,
um mergulhão passa nadando calmamente, um martim-
pescador espreita um peixe suculento.
Figura 6. Depois de uma guerra nuclear, formar-se-Ia nos
si temas de água doce uma camada de gelo de
considerável espessura, acabando com o alimento dos
animais selvagens. A precipitação radioativa mataria as
coníferas.
Figura 7. Coníferas mortas e secas serviriam de
acendalhas para extensos incêndios florestais.

Figura 8. Uma vista em corte do oceano em condições


normais mostra representantes da vida marinha em várias
profundidades. Entre eles, arraias-do-mar, cavalas,
arenques, meros: atuns, caranhos-vermelhos, jubarte,
polvo gigante e tubarão. As águas rasas da plataforma
continental sustentam estrelas-do-mar e -corais. Um
barco de pesca apanha camarões. Os pequenos
organismos do plâncton servem de alimento a outros
seres marinhos.

Figura 9. Aqui se vê a mesma seção de oceano da Figura


8 depois de uma guerra nuclear. Em conseqüência do
escuro e da cessação da fotossíntese, o fitoplâncton em
pouco tempo se extingue, as cadeias alimentares se
rompem e a vida marinha degenera. Silte e toxinas
drenados da terra contaminam a zona costeira. O
diferencial térmico entre as massas continentais
intensamente frias e os oceanos mais quentes origina
violentas tempestades ao longo do litoral. As fontes
marinhas de alimento para a humanidade se perdem e o
acesso às remanescentes é muito dificultado.

Perguntas
DR. OWEN CHAMBERLAIN (professor de Física da
Universidade da Califórnia em Berkeley; Prêmio Nobel de
Física de 1959): O senhor pode fazer o favor de repetir
alguns pontos capitais sobre a cultura do trigo? Que
queda de temperatura se requer para eliminá-Ia? Imagino
que é fácil perder-se a produção de um ano simplesmente
porque o sol foi insuficiente para operar um ciclo vital
completo do trigo, mas o senhor mencionou alguns dados
com respeito à queda de temperatura.

EHRLICH: Eu me referi ao cenário do Dr. Sagan de 3.000


megatons de contra-força - creio que algo em torno de
80C de queda. Veja que não se trata. apenas da
temperatura que uma planta em pé pode suportar num
dado espaço de tempo. Por exemplo, se a temperatura
média cai, o período de crescimento é abreviado. Na
verdade, é uma questão complicada, a que os ecologistas
têm dificuldades em responder com precisão. Mas eu
julgo razoável afirmar que esse grau de declínio de
temperatura, em termos de média em toda a área, é mais
que suficiente para estancar a produção de trigo. Além
disso, as variedades hoje cultivadas são altamente
adaptadas às exatas condições em que são cultivadas.
Assim, ainda que fosse teoricamente possível cultivar o
trigo, depois da guerra não haveria tempo para reformular
a agricultura e desenvolver e plantar variedades ajustadas
às novas condições.

ARTHUR KUNGLE, JR. (presidente do Library Tree


Project): Além dos problemas de suprimento de grãos, o
senhor ou os seus colegas consideraram os efeitos das
modificações de luz, temperatura e radioatividade nos
organismos do solo, nos micorrizos e em diferentes
categorias de algas?

EHRLICH: Eu prefiro parafrasear a pergunta:


consideramos o que aconteceria ao sistema ecológico
enormemente complexo existente nos solos? A resposta é
sim, consideramos, e estamos convencidos de que
haveria uma larga variedade de efeitos. O solo não é
simplesmente rocha decomposta. É um sistema vivo, que
inclui, por exemplo, os fungos micorrízicos, que
desempenham uma função capital no transporte de
substâncias nutritivas do solo para muitas árvores.
Quando se olha uma floresta, pode parecer que as
plantas dominantes são árvores. Na verdade, são
micorrizos. Se os fungos micorrízicos morressem, as
árvores desapareceriam. Infelizmente, nosso
conhecimento dos ecos sistemas do solo é ainda muito
precário. A química é muito complexa, a biologia é mal
compreendida. Não há dúvida de que haveria problemas,
mas ninguém sabe dizer exatamente quais seriam. Esse é
um assunto muito sério, e eu desconfio que é um dos
aspectos em que os nossos prognósticos foram
moderados.

WARD MOREHOUSE (presidente da Council on


International and Public Affairs, Inc.): Mesmo num mundo
sem guerra nuclear, muitos biólogos, ao que me consta,
estão preocupados com a perda acelerada e
aparentemente irreversível das reservas mundiais de
material genético. No caso de uma guerra nuclear, qual
seria o impacto provável sobre essas reservas genéticas,
em que medida elas seriam irreparavelmente perdidas e
até que ponto isso afetaria a capacidade dos
ecossistemas agrícolas de se regenerarem?

EHRLICH: Em nossa opinião, haveria a perda de uma


grande parte da variedade genética das plantas de cultivo,
obviamente, pela perda de estoques de sementes, e
também, se os eventos se estendessem às zonas
tropicais, uma enorme perda de variedade. Mas creio que
cabe observar que na opinião de muitos - embora neste
caso eu fale por mim mesmo - basicamente o que uma
guerra nuclear faria em talvez uma hora e meia é o que o
Homo sapiens aparentemente está em vias de fazer
dentro dos próximos 50 a 150 anos. O efeito de uma
guerra nuclear em todas essas frentes é condensar a
ação num tempo muito menor.

DR. GERALD O. BARNEY (Barney and Associates, Inc.):


Para levar o público em geral e os nossos governantes a
entenderem a gravidade deste assunto, é importante
examinar as coisas com base na hipótese pior. E a sua
análise, se bem entendo, aplica-se principalmente ao
caso de 10.000 megatons...

EHRLICH: Não é verdade.

BARNEY: Poderia dizer-nos alguma coisa sobre a


variação de caso para caso e de que modo as conclusões
a que os senhores chegaram variam de um cenário para
outro?

EHRLICH: A conclusão básica dos biólogos é que mesmo


o cenário de 100 megatons com ataque a cidades, ou o
ataque de contra-força de 3.000 megatons, teriam
conseqüências biológicas incrivelmente desastrosas. O
ataque "cirúrgico" de 3.000 megatons, destruindo a
agricultura de grãos em grande parte do Hemisfério Norte,
poderia, mesmo que nem uma única pessoa fosse
diretamente morta ou lesada, produzir uma catástrofe sem
precedentes na história da nossa espécie. Alguns
números, por exemplo os níveis de radiação, foram
tirados do caso de 10.000 megatons porque nos pareceu
conveniente apresentar aos biólogos as condições-limite,
e alertar os detentores do poder de decisão sobre os
riscos máximos plausíveis.
Mas, como observado pelo Dr. Sagan e como agora eu
quero sublinhar, esses resultados subsistem ao longo de
uma ampla gama de cenários. Os detalhes podem variar.
Mas, em qualquer cenário, enormes perturbações
afetariam os sistemas ecológicos do Hemisfério Norte
pelo menos. E isto por sua vez afetaria em grau
catastrófico os sobreviventes humanos. Para os biólogos
a principal incerteza não é o que aconteceria nas latitudes
médias do Hemisfério Norte, mas que proporção desses
efeitos invadiria inicialmente as zonas tropicais do
Hemisfério Norte e em seguida as do Hemisfério Sul.
Dada a maneira como funciona o mundo do ponto de vista
biológico, se se considera o comércio de alimentos e
outras coisas, os resultados seriam terríveis mesmo sem
a propagação dos efeitos atmosféricos ao sul do equador.

DR. PETER SHARFMAN (Comissão de Avaliação


Tecnológica do Congresso dos Estados Unidos):
Aceitando que a sua conclusão mais importante é a
contestação da afirmativa do estudo de 1975 da
Academia Nacional de Ciências, de que com toda a
probabilidade a espécie humana sobreviveria, parece-me
ainda assim que o senhor deveria focalizar melhor
algumas das variações, como aparentemente fizeram o
Dr. Sagan e seus colaboradores. Olhando rapidamente,
pois não tive tempo para mais, a família de curvas gerada
pelos relatórios TTAPS, noto que algumas delas são
fortemente onduladas, e outras mais suaves.
Evidentemente faz muita diferença para a agricultura
quando o senhor fala de uma guerra no verão, que é
provavelmente o pior caso, ou logo após a colheita, que
provavelmente é o melhor. E a simples afirmativa de que
os resultados subsistem para quase todas as variações
não é tão convincente quanto seria a análise de alguns
efeitos ou ausência de efeitos em algumas das variações
mais definidas.

EHRLICH: Ninguém disse que não vamos prosseguir


aprofundando o assunto. É claro que, estudando mais,
provavelmente encontraremos situações em que se 5.000
megatons explodissem numa certa época do ano os
efeitos seriam menos graves que se os mesmos 5.000
megatons explodissem em outra época do ano. Por
exemplo, uma guerra de inverno pode ter efeitos piores
nos trópicos, e os desdobramentos podem ser piores, pois
na primavera a agricultura é muito mais sensível que em
qualquer
outra época do ano. É certo que haverá variações dos
efeitos biológicos. O que subsiste é que eles serão
terríveis, e que haverá tantos, e de tal modo superpostos,
e de tal modo sinérgicos, que é difícil ver em qualquer
desses cenários uma situação em que o impacto sobre as
populações por intermédio dos sistemas ecológicos não
fosse pelo menos tão brutal quanto os efeitos diretos.
Eu não estou dizendo que todos os cenários produziriam
os mesmos efeitos. Nem poderia dizê-lo, pois os próprios
físicos não são ainda capazes de proporcionar-nos todos
os detalhes. E ainda que os tivéssemos, o conhecimento
de como funcionam os sistemas ecológicos é tão
incipiente que previsões detalhadas do que aconteceria
se eles fossem perturbados de diferentes maneiras são
sumamente difíceis. Afinal, normalmente não podemos
realizar experiências - e no caso da guerra nuclear não
desejamos fazê-lo. Desconfio que este é um desses
casos, tanto em relação a efeitos atmosféricos como a
efeitos sobre ecossistemas, em que teremos de nos
contentar com generalidades,. pois nestas próximas
décadas não teremos resultados mais precisos, se é que
os teremos um dia.

DR. JACK VALLENTYNE (cientista senior do Centro


Canadense de Águas do Interior em Burlington, Ontário):
Desejo fazer um comentário e uma pergunta. O
comentário é que eu acho que muitos aspectos da sua
exposição são terríveis, e não acho que o senhor os tenha
exagerado. Mas em diversas passagens o senhor
empregou os verbos no futuro. E isto implica uma certeza
que em realidade não existe.
EHRLICH: Mea culpa. Eu tenho esperança de que as
coisas não "acontecerão". Espero que, com informações
como estas, os povos do mundo se reunirão e
encontrarão meios de acertar suas diferenças por
maneiras outras que não a de explodir o planeta. É claro
que concordo com o senhor. Não devemos usar o tempo
futuro.

VALLENTYNE: Minha pergunta é que não é para mim


intuitivamente óbvio que o ambiente marinho viesse a
sofrer conseqüências tão graves. Provavelmente uma
grande quantidade de substâncias nutritivas é despejada
nele. Existem coisas como os pesqueiros de 16cios no
lago Erie que, tão logo cessasse a pesca comercial,
voltariam a multiplicar-se. Da mesma forma os do Mar do
Norte. Os predadores - os pescadores humanos estariam
menos presentes.

EHRLICH: Estou de acordo. A recuperação será


provavelmente mais rápida nos ambientes marinhos. Mas
de imediato eles sofrerão muito com a diminuição da luz,
que exterminará o fitoplâncton.
É de presumir que o fitoplâncton não será uniformemente
eliminado em toda parte. Haverá de reconstituir-se, e
alguns dos sistemas recompor-se-ão. É opinião dos
biólogos marinhos neste estudo que se perderia um bom
número de espécies, ou pelo menos grandes populações,
de peixes comerciais. É provável que os sistemas
marinhos se restaurassem mais depressa, mas não
estariam imunes só pelo amortecimento térmico da água.

INTERPELANTE NÃO IDENTIFICADO: Eu gostaria de


observar que, se o senhor não vai discutir política, nós
teremos de entregar o assunto à Providência divina. E
não está certo o senhor impor o seu ponto de vista político
se nós não vamos discuti-Io. Os pressupostos referentes
ao nível de 100 megatons envolvem uma série de
questões.

EHRLICH: Nós não vamos tratar de política nesta


conferência. Mas, pelo que sei, todos os biólogos que
participaram deste estudo, sem exceção, e creio que
todos os físicos igualmente, têm idéias próprias em
matéria de política. Imagino que todos eles teriam muito
prazer em discuti-Ias em reuniões apropriadas. Aqui, não
pretendemos impor nenhum ponto de vista político. O
ataque de 100 megatons a cidades não é uma previsão.
O grupo TTAPS fez simplesmente o que os cientistas
sempre fazem quando abordam um assunto muito
complicado - tomou alguns casos hipotéticos para analisá-
Ios de forma mais detida. Este é simplesmente um caso
hipotético. Ninguém imagina que haverá uma guerra
nuclear em que exatamente 100 megatons (1.000 bombas
de 100 quilotons cada) serão distribuídos por exatamente
1.000 cidades como é o caso no cenário. Nem ninguém
imagina que haverá um ataque cirúrgico de exatamente
3.000 megatons. Mas para elaborar modelos é preciso
partir de algum ponto.
Eu, pessoalmente, acho que a equipe TTAPS fez um
trabalho brilhante selecionando uma série de modelos que
cumprem a função dos modelos em ciência, que é a de
proporcionar uma maneira de refletir sobre o mundo, de
raciocinar a respeito de questões complexas, com um
certo grau de simplificação. Na reunião anterior de físicos
e climatologistas que examinaram o estudo TTAPS,
basicamente não houve reclamações quanto ao modo
como foram escolhidos os modelos, embora tenha havido
uma porção de perguntas cuidadosamente formuladas a
respeito de outros pontos. Mas ao término da reunião,
todos os presentes acharam que o grupo TTAPS realizou
um magnífico trabalho analisando com bom senso,
embora com recursos limitados, um tema de importância
capital, com base num conjunto de modelos perfeitamente
razoáveis.
Mas o emprego dos modelos nada tem a ver com política.
Eles estão aí, qualquer um é capaz de entender os
resultados, e os condutores da política podem fazer uso
deles e tirar suas próprias conclusões.

DR ROBERT EHRLICH (Universidade George Mason,


Virgínia): Pelo que entendi, os principais danos biológicos
são causados pelo frio e pela escuridão. Mas o senhor
disse, em sua exposição, que os demais efeitos - em
particular a precipitação radioativa, a destruição da
camada de ozônio, etc. - também seriam, individualmente,
catastróficos para o ambiente. Não é verdade?

PAUL EHRLICH: Em graus variáveis. Depende do efeito e


do lugar, mas é verdade.

ROBERT EHRLICH: Creio que o Dr. Sagan mencionou


que o efeito relativo à camada de ozônio é basicamente o
mesmo referido no estudo de 1975 da Academia Nacional
de Ciências, e que naquele estudo o efeito da destruição
da camada de ozônio, ou da fração da mesma que se
deduziu seria destruída, foi dado como significante mas
certamente não catastrófico.

PAUL EHRLICH: Eu não vou argumentar com o senhor a


respeito de palavras como significante e catastrófico. Mas
não conheço nenhum ecologista que ache possível expor
ecos sistemas naturais a um tal fluxo de UV-B e esperar
que não ocorra toda uma série de graves alterações,
muitas das quais ainda não somos capazes de prever.
Esse é um dos efeitos significantes que poderia ser, por si
só, catastrófico.

DR. ED PASSERINI (Carrying Capacity, Washington,


D.C.): O senhor deu a entender que um aspecto favorável
era a possibilidade de que algumas árvores de folhas
grandes sobrevivessem. Mas nem o senhor nem o Dr.
Sagan, embora mencionando frio, escuridão e
tempestades no mar, falaram muito de chuva. Ora,
considerando os perfis de temperatura em função da
altitude que temos diante de nós, e a quantidade de
poeira que teremos, parece lógico que em pouco tempo
haveria lavagem pela chuva. Isto é, que a evaporação dos
mares produziria precipitações locais e grande parte das
chuvas que normalmente se deslocam para terra não
chegariam lá. Os senhores analisaram estes aspectos e
qual a sua influência nos efeitos?

EHRLICH: Isso foi examinado e discutido. É certo que


algumas árvores poderiam mudar as folhas e sobreviver
por possuírem reservas, por exemplo. Mas provavelmente
seriam castigadas pela seca. Provavelmente seriam
afetadas pelo frio. Quando tentassem lançar novas folhas,
é provável que estas fossem comidas. Não há garantia de
que as árvores sobrevivessem muito tempo. Elas estariam
lançando renovos frágeis e delicados num ambiente em
que estariam presentes herbívoros inusitados. Pessoas
ameaçadas de morrer de inanição lançariam mão de
brotos tenros. Ratos e coelhos famintos buscariam
alimentos que normalmente não consomem.
Além do mais, a vegetação que não morresse pelo frio,
pela falta de luz e pela radiação enfrentaria uma
atmosfera enfumaçada contendo muitos poluentes
fitotóxicos, especialmente nocivos a folhas novas e
frágeis. Não cabe muito conjeturar se a W-B desorientaria
tantos polinizadores que os ecos sistemas passariam a
sofrer sérios distúrbios quando a maior parte das plantas
tivesse sido eliminada pelo frio, e o restante pela
escuridão e pelo smog. Restariam muito poucos animais e
plantas para serem desorientados, cegados, privados de
defesa imunológica, queimados, etc., pela UV- B.

INTERPELANTE NÃO IDENTIFICADO: O senhor


arriscaria um palpite sobre quanto tempo seria
necessário, admitindo-se que o homem sobrevivesse,
para que se restaurasse uma civilização comparável, por
exemplo, à de 5.000 anos atrás? E depois, possivelmente,
uma comparável à de hoje? A minha impressão é de que
isso levaria da ordem de centenas de milhares de anos,
se é que viria a acontecer. Não umas poucas gerações,
nem mesmo dez gerações. Eu gostaria de ouvir a sua
opinião.

EHRLICH: Eu diria simplesmente que isso dependeria em


grande parte do cenário, e de coisas que nós não
sabemos. O que importa, penso eu, para a maior parte
dos seres humanos, é que o mundo em que vivemos hoje
simplesmente deixaria de existir. Quanto ao que viria
substituí-lo e quanto a qual seria o curso da evolução
biológica e social, é matéria de adivinhação, e iria
depender basicamente de quantos artefatos e que parcela
de conhecimentos fossem conservados. Se todos os
artefatos, todo o conhecimento e todos os recursos
explorados se perdessem, de fato a humanidade teria
recuado, em tempo evolutivo, centenas de milhares de
anos. E uma nova evolução cultural, se viesse a
processar-se, é bem possível que seguisse um curso
totalmente diferente.
Contudo, se alguns centros importantes de estudo fossem
preservados, e se algumas metrópoles organizadas
subsistissem no Hemisfério Sul, a cultura humana poderia
retornar bem mais depressa a níveis "adiantados". Mas eu
diria que há nisso uma boa dose de arrogância e atitude
pessoal. Eu vivi entre os esquimós, e poderia demonstrar
que em muitos sentidos a cultura deles é bem mais
adiantada do que a nossa hoje.

INTERPELANTE NÃO IDENTIFICADO: Eu gostaria de


fazer uma pergunta a respeito do que muitos
considerariam um aspecto secundário do modelo. Nos
anos 60 e 70, a maior parte dos estudos sobre
ecossistemas naturais não levava em conta a
possibilidade de tempestades ígneas, ou a considerava
remota - ou que não temos dados suficientes, ou que
pouco sabemos a respeito de tempestades ígneas. O
senhor comentou que o seu grupo foi cauteloso em
relação a esse ponto. E eu gostaria de saber se essa
cautela foi a mesma dos anos 60 e 70.

EHRLICH: Bem, acho que é basicamente um problema de


falta de dados. Uma questão de como conduzir a
experimentação. Há na literatura tentativas de determinar
o volume de combustíveis requerido para produzir uma
tempestade ígnea. Há muitas informações coligidas sobre
incêndios florestais em termos de aquecimento do solo,
etc., e sabe-se que mesmo em ecossistemas de
chaparral, que são adaptados ao fogo, em certas
circunstâncias, quando o solo é úmido, pode haver perdas
importantes de nitrogênio do solo, destruição de
sementes, etc. Talvez o que realmente nos falte saber é o
que acontece se houver incêndio simultâneo em grandes
extensões de território. Ocorreria urna tempestade ígnea
em vez de urna propagação de frentes de fogo? Isto, que
me conste, ninguém sabe.
INTERPELANTE: Mas os melhores exemplos que temos
de tempestades ígneas são as explosões de Hiroxima,
Nagasáqui e Dresda.

EHRLICH: Não, isso não é exato. As observações in loco


não foram imediatas nem suficientemente completas em
Nagasáqui e Hiroxima. E há controvérsias quanto à exata
natureza dos incêndios nesses casos. As melhores
observações que temos são de Dresda e Hamburgo, onde
havia grandes depósitos de combustíveis e as áreas
incendiadas foram relativamente limitadas. Nós tiramos
muito poucas conclusões, em relação ao que seria
teoricamente possível, dos eventos de Hiroxima e
Nagasáqui. Até hoje se discute na literatura a respeito das
seqüelas médicas, e se houve de fato uma tempestade
ígnea.

VICE-MARECHAL-DO-AR J. SALATUN (membro do


Parlamento da Indonésia): Pouco depois das bombas de
Hiroxirna e Nagasáqui, lembro-me de ter lido nos jornais
declarações de cientistas dizendo que nos próximos 75
anos nada cresceria naquelas duas cidades. A história
mostrou que estavam enganados, pois um ano depois
houve colheita de melões, horti-granjeiros e outras
plantas. Em face disto, minha pergunta é: qual o grau de
precisão das suas conclusões?

EHRLICH: Creio que são perfeitamente sólidas. É


possível que alguns cientistas tenham feito declarações
como essa, se bem que não consigo imaginar em que se
teriam baseado, considerando o estado da ciência
naquela ocasião. Mas sempre houve cientistas fazendo
declarações absurdas, individualmente, em diferentes
lugares. No entanto, o que aqui apresentamos representa
pelo menos o consenso de um grupo muito grande de
cientistas. Há que ter em mente que nada deixa um
cientista mais feliz do que mostrar que as conclusões de
outros são falsas. Eu tenho grande confiança nestes
resultados. Nós os estamos expondo e continuaremos a
fazê-Io sob rigorosa crítica científica. Se houver
mudanças significativas - o que parece extremamente
improvável -, é assim que a ciência marcha. Mas o fato de
terem crescido melões em Hiroxima e Nagasáqui depois
das bombas não tem muito a ver com a natureza dos
efeitos de que estamos falando.

THOMAS M. LEVENSON (repórter da revista Discover):


Existe um limiar no número de extinções de qualquer
gênero, além do qual as extinções se sucederão em
cascata ao longo da cadeia alimentar?

EHRLICH: Pelo que sabemos com base em modelos de


ecossistemas, parece provável que haveria limiares em
certas extinções. O problema é que não sabemos onde;
não temos como fixar números. Os biólogos ainda não
determinaram se existem no planeta entre 2 e 5 milhões
de espécies diferentes, ou 30 milhões. Nossa ignorância é
profunda. Mas, pelo que sabemos a respeito de sistemas
ecológicos, é de supor que haja limiares dessa natureza,
e em sistemas menores nós os encontramos. Se certas
espécies chamadas fundamentais são exterminadas,
segue-se de imediato a extinção de outras espécies na
mesma área.

DR. THOMAS C. HUTCHINSON (Universidade de


Toronto): De que ordem seria a acumulação de poeira ou
de solo em termos de campo aberto?

EHRLICH: A acumulação de poeira no Hemisfério Norte


dependeria, entre outras coisas, do padrão dos ventos.
Evidentemente haveria uma enorme precipitação de pó
em várias áreas, e o pó por si mesmo é muitas vezes
biocida, como o senhor deve saber. Esta seria apenas
uma agressão a mais que as plantas e os insetos
sofreriam.

PAINEL SOBRE AS
CONSEQÜÊNCIAS ATMOSFÉRICAS E
CLIMÁTICAS
DR. GEORGE M. WOODWELL (presidente da
Conferência): Neste momento tenho o prazer de abrir este
tópico a novos debates, como parte do processo geral de
apressar a difusão e verificação das conclusões. Agora
será a vez das perguntas difíceis.
O primeiro painel é presidido pelo meu colega Dr. Thomas
F. Malone.

DR. THOMAS F. MALONE (presidente do Painel sobre


Conseqüências Atmosféricas e Climáticas): Em
prosseguimento às magníficas exposições gerais
proferidas por Carl Sagan e Paul Ehrlich, passaremos a
examinar alguns detalhes e embasamentos importantes
dessas apresentações.
Tendo em vista o impacto quase inacreditável das armas
nucleares, vale a pena relembrar que na Segunda Guerra
Mundial a arma de maior poder, isoladamente, foi a
bomba arrasa-quarteirão de 10 toneladas. Quando a
bomba atômica foi lançada em Hiroxima, esse poder
explosivo foi multiplicado por mil. A invenção da bomba H
elevou a carga útil outras mil vezes. Agora estamos
falando de uma arma única de poder um milhão de vezes
maior que as empregadas na Segunda Guerra Mundial. É
por isso que há conseqüências globais. Está em jogo a
sobrevivência da espécie humana. Ao longo de bilhões de
anos, as espécies da Terra tiveram em média uma
duração de 10 milhões de anos. Este é simplesmente um
valor médio, e nós já percorremos a metade dele. A
pergunta é: será que venceremos mais cinco milhões de
anos de modo a cumprir a outra metade?

DR. JOHN P. HOLDREN (membro do painel): Não falo


como um dos autores responsáveis pelas conclusões
apresentadas nesta Conferência, mas como participante
convidado, com algum conhecimento de arsenais
nucleares, seleção de objetivos e cálculo de
precipitações. Gostaria de abordar aqui duas questões
que talvez lhes tenham ocorrido.
A primeira é se os modelos apresentados constituem uma
base verossímil para a análise das conseqüências de
possíveis guerras nucleares, dadas as dimensões dos
arsenais existentes e o conhecimento disponível de como
esses arsenais poderiam ser usados.
A segunda questão é se os vários números que ouvimos
com referência a doses de radiação oriunda de
precipitação radioativa são de fato intrinsecamente
coerentes e compatíveis com os calculados por outros
analistas.
Em 1983 os arsenais mundiais de armas nucleares
estratégicas utilizáveis consistiam de 19.000 ogivas, ou
cerca de 10.000 megatons (Quadro 1). O termo
"utilizáveis" refere-se ao número de ogivas instaladas em
mísseis e bombas carregadas em aviões de bombardeio
que poderiam ser lançadas se os dois lados utilizassem
todos os seus projéteis e veículos transportadores uma
única vez. Isto é, recarga de mísseis e vôos múltiplos de
bombardeios não são considerados.
QUADRO 1. ARSENAIS NUCLEARES
MUNDIAIS, 1983
Categoria No. De Ogivas
Megatons

"Estratégicas" utilizáveis EUA 9.800


4.000
URSS 8.600
6.000
Outro 300
200
Sub-Total 19.000
10.000

Teatro, Navais e Reserva EUA 16.000


2.000
URSS 14.000
3.000
Outro 600
150
Sub-Total 30.000
5.000

Totais 50.000
15.000

Nessa categoria, os Estados Unidos têm 9.800 ogivas


somando cerca de 4.000 megatons, a União Soviética tem
8.600 ogivas somando cerca de 6.000 megatons. Os
números soviéticos incluem os mísseis de médio alcance
SS-4, SS-5 e SS-20 apontados para a Europa e para a
Ásia, pois essas armas têm funções principalmente
estratégicas. Analogamente, os números para os Estados
Unidos incluem os bombardeiros supersônicos FB-111 de
asas retráteis, que são arrolados na parte estratégica das
forças nucleares norte-americanas.
Arsenais nucleares menores são mantidos pela França,
Reino Unido e China. Embora sejam arsenais modestos
comparados aos das superpotências, as megatonagens
são ainda menores se lembrarmos que mesmo um
conflito na faixa de 100 megatons pode, em certas
circunstâncias, produzir as terríveis conseqüências
atmosféricas e biológicas examinadas nesta assembléia.
A segunda categoria inclui armas nucleares "de teatro",
de campo de batalha, de defesa aéreas e navais, bem
como as reservas de ambos os lados não-instaladas no
momento em sistemas de lançamento. Nesta categoria
estão 16.000 bombas e ogivas dos arsenais dos Estados
Unidos, totalizando 2.000 megatons, e aproximadamente
14.000 bombas e ogivas da União Soviética; não temos
dados seguros sobre a megatonagem do arsenal de
teatro da URSS, mas ela deve ser da ordem de 3.000
megatons.
A França, o Reino Unido e a China têm cerca de 600
ogivas com talvez 150 megatons, embora estes sejam
números bastante incertos. As somas totalizam
aproximadamente 30.000 ogivas e 5.000 megatons nas
várias categorias não-estratégicas.
Chega-se assim a um total global em torno de 50.000
bombas e ogivas - representando cerca de 15.000
megatons.
Ora, neste contexto vemos que o cenário de referência
apresentado nesta Conferência nada tem de
extravagante. O cenário de referência do relatório TTAPS,
de 5.000 megatons, corresponde ao uso de mais ou
menos um terço dos estoques mundiais totais, ou cerca
de metade dos estoques estratégicos. Está na mesma
classe de outros cenários de referência elaborados e
usados por outros grupos há vários anos.
Por exemplo, o cenário do estudo publicado no número
"The Aftermath" da revista Ambio, publicação
internacional sobre meio-ambiente da Real Academia
Sueca de Ciências (que é de certo modo um precursor do
presente trabalho) era de 5.700 megatons. Um conjunto
recente de cenários organizados no Laboratório Nacional
Lawrence Livermore para análise das mesmas questões
adota como cenário de referência 5.300 megatons.
Pode-se perguntar se números mais altos que também já
foram explorados - por exemplo, 10.000 megatons - são
plausíveis, isto é, se há cenários realistas em que se
pudessem atingir totais tão elevados. Infelizmente, a
resposta é afirmativa. Em circunstâncias adversas, pode-
se conceber uma guerra nuclear começando com o
emprego de armas nucleares de campo de batalha, ao
que se seguiria uma escalada para o emprego de armas
de teatro e finalmente para o dos arsenais estratégicos.
Se isso acontecesse, as piores circunstâncias poderiam
com efeito resultar numa guerra nuclear envolvendo totais
da ordem de 10.000 megatons ou mais.

Planos atuais de "modernização" dos arsenais nucleares


estratégicos, se executados, resultarão no aumento do
número de ogivas, possivelmente sem aumento da
megatonagem total. Nas duas últimas décadas, a megato-
nagem diminuiu enquanto o número de ogivas
aumentava, porque a potência média reduzida das ogivas
modernas supercompensa o crescimento do número de
unidades. Seja como for, a multiplicação de incêndios
produtores de fuligem é mais sensível ao número de
ogivas detonadas que à megatonagem total.
Outra questão importante que pode ter sido suscitada
pela exposição do Dr. Sagan é a da dose de radiação
produzida por precipitação.
As pessoas podem absorver radiação de fontes externas
e internas. Geralmente a dose externa é calculada
contando apenas a dose recebida em todo o corpo de
fontes externas de raios gama. A radiação também pode
ser absorvida pela ingestão de alimentos e água
contaminados por substâncias radioativas.

O Quadro 2 mostra algumas estimativas de radiação por


precipitação tiradas do estudo TTAPS e as compara com
números obtidos em outros estudos.

QUADRO 2. DOSES DE RADIAÇÃO DAS


PRECIPITAÇÕES À MÉDIO PRAZO

Dose externa

corporal
Estudo Área e Tipo de Radiação
(rems)
______________________________________________
_________

TTAPS Hemisfério Norte, Média, só gama


20
5.000 megatons Hemisfério Norte, Médias Latitudes
só gama
40-60
Hemisfério Norte, Médias Latitudes
Total
100
Knox, LLNL Hemisfério Norte, Médias Latitudes
5.300 megatons Só gama
20
Hemisfério Norte, áreas críticas
Só gama
40-100
Hemisfério Norte, Médias Latitudes,
Ataque contra instalações de energia
Nuclear
+200-300

TTAPS Curto Prazo, 30% da área


Continental de Médias Latitudes
Maior 500

(Caso exposto por Ehrlich e outros)

No cenário de 5.000 megatons do TTAPS, a dose externa


corporal de raios gama à médio prazo foi calculada em 20
rems, em média, para o Hemisfério Norte.
A dose à médio prazo não inclui a dose a curto prazo
proveniente das precipitações isoladas de milhares de
explosões nucleares. Representa unicamente a
contribuição da precipitação à médio prazo, definida como
a que ocorreria no período compreendido entre alguns
dias e mais ou menos um mês após o conflito nuclear. A
maior parte dos cálculos precedentes concentrou-se ou
na precipitação à curto prazo (dentro dos primeiros dias)
ou na de longo prazo (mais de um mês depois do conflito)
vinda da estratosfera. A precipitação intermediária é
produzida pelo material radioativo em partículas elevado à
alta troposfera e baixa estratosfera que cai no intervalo
compreendido entre alguns dias e um mês depois das
explosões.
As doses hemisféricas estimadas devem-se à categoria
intermediária anteriormente desprezada, e contribuem
adversamente para a dose total a que os sobreviventes
das explosões e dos efeitos térmicos seriam submetidos.
Nas latitudes médias do Hemisfério Norte, ocorreriam
precipitações locais à médio prazo muito mais intensas
como resultado da concentração de explosões nucleares
nessa região. O grupo TTAPS estimou que nessas
latitudes a dose externa corporal seria de 40 a 60 rems. E,
considerando tudo, não apenas a exposição corporal aos
raios gama mas também a possibilidade de doses
internas fornecidas por emissores radioativos ingeridos
com alimentos e água, a dose média total para os
habitantes das latitudes médias chegou à faixa de 100
rems.
Para efeito de comparação, podemos tomar um estudo
recente realizado por Joe Knox no Laboratório Nacional
Lawrence Livermore (LLNL). No cenário de 5.300
megatons do LLNL, a dose de radiação gama para
latitudes médias do Hemisfério Norte foi de 20 rems, a
comparar com o valor de 40-60 rems do estudo TTAPS
para as mesmas latitudes.
Temos assim uma concordância bastante aproximada, se
considerarmos a ampla faixa de disparidades possíveis
entre os pressupostos adotados com relação à
distribuição das explosões. Os pressupostos dizem
respeito ao número de explosões no solo, a baixa altura e
a grande altura, à distribuição de potências das bombas,
etc.
Para mim, esse grau de concordância é bastante
expressivo. Ao incluir nos cálculos as áreas críticas do
Hemisfério Norte, o grupo de Knox obteve números na
faixa de 40 a 100 rems. E, em comunidades informais,
Knox e seus colegas do Laboratório Livermore sugeriram
que a contribuição das doses internas poderia ser algo
maior do que a admitida pelo grupo TTAPS. Isso tenderia
a reduzir a talvez a metade a discrepância inicial entre os
resultados do TTAPS e os do LLNL com respeito à dose
de radiação gama nas latitudes médias do Hemisfério
Norte.
Finalmente, quero colocar em perspectiva o número a que
Paul Ehrlich se referiu ontem ao falar nos estudos dos
biólogos. Lembrem-se de que os biólogos consideraram
um cenário de 10.000 megatons, e que o número mais
alto a que chegaram, 500 rems em cerca de 30% da área
continental do Hemisfério Norte, resultou de incluir-se
como fator a precipitação a curto prazo oriunda dos
penachos. de explosões isoladas. É claro que um cenário
de 10.000 megatons envolve um grande número de
explosões. Esses números são perfeitamente coerentes
em método e em contexto geral com os outros números
aqui mencionados.
Repetindo: tanto os números do TTAPS como os de Knox
representam tentativas de calcular não a precipitação à
curto prazo dos penachos individuais de milhares de
armas detonadas, mas a precipitação a médio prazo
ocorrente entre alguns dias e um mês. Esse tipo de
precipitação é a que foi mais desprezada em cálculos
anteriores. Essa precipitação da escala intermédia de
tempo contribui substancialmente para a dose total.
Knox e seus colegas calcularam um número terrificante
para uma hipótese não considerada no estudo TTAPS. A
do que aconteceria se as instalações de força nuclear do
Hemisfério Norte - reatores, usinas de reprocessamento e
depósitos de rejeitos - fossem deliberadamente alvejados
com armas de poder suficiente para vaporizar esses
repositórios de materiais nucleares. A resposta é uma
contribuição adicional à dose de exposição corporal nas
latitudes médias de 200 a 300 rems, o que representa
uma cifra realmente atordoante.
DR. RICHARD P. TURCO (membro do painel): Tratarei
em termos gerais de alguns aspectos dos incêndios
produzidos num ataque nuclear. Um dos efeitos mais
impressionantes de uma explosão nuclear é a sua
capacidade de queimar e carbonizar uma vasta área à
sua volta. Cerca de um terço do total da energia de uma
explosão nuclear a baixa altura é emitido pela bola de
fogo em forma de uma intensa pulsação de "luz de
bomba". Sob o aspecto espectral, essa luz é muito
semelhante à luz solar, salvo pelo fato de ser altamente
concentrada. Por exemplo, a uma distância de 10
quilômetros de uma explosão aérea de 1 megaton a baixa
altura, o brilho da bola de fogo atingiria 1.000 vezes o do
sol em um ou dois segundos, para em seguida
enfraquecer rapidamente. Mas nesse breve
intervalo, tecidos, papel e outros materiais irradiados pela
luz de bomba seriam calcinados e se inflamariam. A pele
exposta sofreria queimaduras de terceiro grau.
O único emprego bélico de armas nucleares ocorreu em
Hiroxima e Nagasáqui em agosto de 1945. Duas bombas
relativamente pequenas na faixa de 10 a 20 quilotons de
força explosiva - foram detonadas no ar sobre os centros
daquelas cidades. O que podemos dizer sobre as
características dos incêndios nucleares urbanos com base
nas experiências japonesas? Primeiro, as áreas
queimadas foram muito extensas: cerca de 13 quilômetros
quadrados em Hiroxima e de 7 quilômetros quadrados em
Nagasáqui. Dentro das zonas de fogo, a maior parte dos
materiais combustíveis foi consumida. Enormes penachos
de fumaça ergueram-se acima dos incêndios, e na
direção do vento caíram chuvas negras oleosas. Segundo
uma narração, em Hiroxima "a temperatura caiu
rapidamente em meio à chuvarada, e em pleno verão as
pessoas tremiam de frio". Isso sugere que já de início
houve um forte efeito sobre a luz e o aquecimento, com
sensível queda de temperatura sob o penacho de fumo do
incêndio.
As fotografias das duas cidades ilustram graficamente a
imensa área que pode ser reduzida a cinzas e escombros
por uma bomba nuclear mesmo pequena.
Em Hiroxima e Nagasáqui, vários efeitos nucleares
concorreram para o vulto dos incêndios. A luz de bomba
provocou em vários pontos a combustão com ou sem
chamas de materiais diversos numa extensa área. O jato
de ar da explosão apagou alguns desses focos primários,
mas ateou incêndios secundários espalhando detritos
incandescentes, derramando combustíveis e produzindo
fagulhas. A geração de incêndios em seguida a um
terremoto é muito semelhante à geração dos incêndios
secundários produzidos por uma explosão nuclear. O pé-
de-vento também destroçou estruturas, espalhou
materiais inflamáveis e impediu combate eficiente ao fogo
causando baixas nas equipes, estrago de equipamentos,
ruptura de encanamentos de água e obstrução de ruas. A
bola de fogo nuclear em ascensão produziu atrás de si
uma tiragem, e a forte circulação assim estabelecida
ativou as chamas.
Os efeitos observados das explosões nucleares e
incêndios no Japão corroboram a nossa concepção das
conseqüências de um ataque nuclear maciço. É
perfeitamente razoável extrapolar a destruição registrada
em Hiroxima e Nagasáqui para figurar a produzida num
ataque contra uma cidade moderna muito maior. Essa
extrapolação também se justifica através de avaliações
teóricas detalhadas - efetuadas por órgãos de governo -
dos efeitos de explosões nucleares em grandes centros
urbanos. Deve-se notar que as tempestades ígneas da
Segunda Guerra Mundial em Hamburgo, Dresda e outras
cidades alemãs pressagiam a ferocidade dos incêndios
nucleares que ocorreriam em metrópoles modernas.
Contudo os incêndios prefigurados numa guerra nuclear
futura seriam numa escala inédita e muito mais intensos,
deixando longe as conflagrações da Segunda Guerra.
Há cinco estágios na evolução de um incêndio nuclear
urbano. No primeiro estágio, o relâmpago de luz de
bomba vaporiza e incendeia matérias inflamáveis numa
extensa área. No segundo - o estágio de sopro - a onda
de pressão explosiva propaga-se pela cidade, derrubando
edifícios, ateando incêndios secundários e criando
condições adversas ao trabalho dos bombeiros. Neste
ponto a bola de fogo começa a subir, criando fortes
correntes de convecção sobre a área incendiada. O
terceiro estágio do incêndio desenvolve-se na esteira da
explosão. Em meio à devastação geral, muitos dos
pequenos incêndios iniciais crescem de intensidade,
produzindo densos penachos de fumaça. Há certas
dúvidas sobre o curso deste estágio. É possível que, na
maioria dos casos, os incêndios continuariam a
intensificar-se e a propagar-se, talvez por vários dias.
Essa queima destrutiva acabaria consumindo uma grande
parte da cidade.
Nas cidades mais compactamente edificadas, poderia,
ocorrer o quarto e mais espetacular estágio - uma
"tempestade ígnea". Nesta, muitos incêndios grandes
independentes se fundem numa única e violenta massa
de fogo que envolve todo o núcleo da cidade. Numa
tempestade ígnea há um rápido desprendimento de
energia térmica e um poderoso fluxo de ar acima do fogo,
com ventos ao nível do solo soprando impetuosamente
para o centro com a força de um furacão. As tempestades
ígneas criam gigantescos cúmulos sobre a área
incendiada. e densas chuvas negras na direção dos
ventos. No quinto e último estágio de um incêndio nuclear
urbano, só resta o esqueleto abrasado da cidade, coberto
por um manto de fumaça acre.
Estes são apenas alguns rápidos vislumbres do que
poderia acontecer logo após um ataque nuclear. Embora
uma grande soma de trabalho já tenha sido aplicada em
estimar os efeitos do fogo nuclear, entre outros por Paul
Crutzen, John Birks e o grupo TTAPS, é necessário ainda
muito mais para apurar a nossa compreensão. Não
obstante, todas as informações científicas aqui referidas
levam a crer que a inimaginável destruição imediata de
um ataque nuclear pode ser apenas um prelúdio de
conseqüências retardadas ainda mais catastróficas para
os sobreviventes.

DR. PAUL J. CRUTZEN (membro do painel): Meu


interesse neste assunto começou há cerca de três anos,
quando fui convidado a escrever um artigo para a Ambio,
a revista internacional de estudos do ambiente da Real
Academia Sueca de Ciências.
Devo confessar que, ao receber o convite para pôr-me a
refletir nas conseqüências atmosféricas de uma guerra
nuclear senti uma grande relutância; até tentei passar
adiante a incumbência. Mas a editora-chefe, Jeannie
Peterson, insistiu em que eu escrevesse a respeito, e eu
por fim capitulei e passei a trabalhar no tema, junto com o
Dr. John Birks.
Começamos, por reexaminar a questão da perturbação do
ozônio. Sabia-se pelo estudo de 1975 da Academia
Nacional de Ciências dos Estados Unidos que haveria
empobrecimento de ozônio quando os óxidos de
nitrogênio produzidos por explosões nucleares atingissem
a estratosfera. Depois disso, porém, viemos a verificar
que os óxidos de nitrogênio, embora destruam o ozônio
na estratosfera, quando depositados na troposfera têm o
efeito oposto, produzindo ozônio. Foi este o primeiro
ponto por nós considerado. Quando NO e NO2 entram em
ação, a oxidação do monóxido de carbono com duas
moléculas de oxigênio dá origem a CO2 e ozônio como
produtos finais.
Isso constituía uma importante modificação em relação ao
que se conhecia a partir do relatório de 1975. Tendo
conseguido assim alguma coisa sobre que trabalhar,
estabelecemos novas estimativas da formação de ozônio
na troposfera pelas reações do smog anteriormente
mencionadas nesta Conferência.
Enquanto esse trabalho prosseguia, voltamos também
nossa atenção para a absorção de luz solar pelo dióxido
de nitrogênio, que é parte do esquema. Apuramos que os
resultados eram significativos. Entretanto, trabalhando
nesse assunto, ocorreu-nos de repente que no caso de
ataques a cidades, pressuposto no cenário de guerra
nuclear elaborado pela Ambio, seriam ateados inúmeros
incêndios. O fumo, naturalmente, invadiria a atmosfera. E
assim passamos a raciocinar sobre a absorção de luz
solar pelas partículas de fuligem negra em suspensão.
A idéia ocorreu-nos apenas três meses antes da data
aprazada para a entrega do artigo à Ambio. Havíamos
levantado uma questão momentosa a respeito da qual
tínhamos pouquíssimas informações, elevamos cerca de
dois meses à procura de estudos que tratassem do
problema. Não encontramos nenhum (sabemos hoje que
nada existia na literatura). A princípio isso deixou-nos
muito, nervosos. Imaginamos que os militares já deviam
ter investigado o assunto, mas que não teríamos acesso
às conclusões. Não somos especialistas em física de
aerossóis e transferência de radiação; mesmo assim,
resolvemos enveredar por esse rumo. Na primeira fase da
análise, examinei principalmente um fenômeno de que
possuía algum conhecimento: incêndios florestais.
Juntamente com alguns colegas, eu andara pesquisando
efeitos atmosféricos de incêndios florestais nas regiões
tropicais do Brasil.
Estimamos a quantidade de fuligem que seria produzida
numa guerra nuclear. Para grande surpresa nossa,
verificamos que a fumaça e fuligem dos incêndios
interceptaria uma grande porção da luz solar que
normalmente chega à superfície da Terra.
Darei ciência aos senhores de alguns resultados de outro
estudo que realizei com o Dr. lan Galbally da CSIRO na
Austrália, em que procuramos estimar a quantidade de
fumaça que seria produzida por incêndios urbanos e
industriais. Embora na memória original de Crutzen-Birks
esse ponto fosse mencionado como potencialmente de
enorme importância, estes novos resultados não
constaram daquele trabalho.
No novo estudo, o Dr. Galbally e eu consideramos a
coagulação e as propriedades ópticas das partículas de
aerossol. As partículas que nos interessam são
principalmente as da faixa compreendida entre um décimo
de micro e um micro. Em sua maior parte, as partículas
produzidas por incêndios florestais têm inicialmente cerca
de um décimo de micro de diâmetro. Por coagulação, elas
aumentam de tamanho. Enquanto não ultrapassam um
micro, são eficientes no bloqueio da luz solar; e as
partículas dessa faixa de tamanho são as que persistem
por mais tempo na atmosfera. Calculando as
propriedades ópticas efetivas das partículas em função
das suas dimensões (relação entre os tamanhos das
partículas e os comprimentos de onda), aplicamos fatores
de eficiência medidos para absorção e dispersão da luz.
Consideramos também a coagulação de partículas, pois
quando estas se agregam tornam-se menos eficientes por
grama de material em absorver e dispersar a luz.
Ao calcular a quantidade de material que queimaria no
caso de incêndios em cidades, admitimos que um pulso
de calor de 20 calorias por centímetro quadrado seria
suficiente para iniciar incêndios extensos. Pode ser uma
estimativa moderada. Coincide com a experiência no caso
de Nagasáqui, mas no de Hiroxima um pulso de calor da
ordem de apenas 7 calorias por centímetro quadrado foi
suficiente para atear incêndios em massa.
Nossos cálculos, baseados no cenário de guerra nuclear
da Ambio, mostram que mais ou menos meio milhão de
quilômetros quadrados de cidades queimariam. Admitiu-
se que a massa de matérias combustíveis em cidades
fosse da ordem de 40 quilos por metro quadrado. Parece-
me que esse valor foi consideravelmente subestimado,
pois na maior parte das grandes cidades, pelo menos no
leste dos Estados Unidos e na Europa, a massa de
matérias combustíveis deve ser em torno de 200 quilos ou
mais por metro quadrado.
Admitiu-se também que só metade do material queimaria,
porque o sopro das detonações apagaria incêndios. Como
esse sopro também pode atear outros incêndios, esta é
uma área de incerteza. Em razão dessa indeterminação, é
possível que tenhamos calculado por baixo. Isto reflete
uma decisão consciente que adotamos no trato da
questão. Mesmo partindo de hipóteses moderadas, os
resultados são tão impressionantes que não há risco de
exagero, principalmente quando demonstrando a
importância de um estudo desse alcance. Nossa intenção
era evitar que as nossas estimativas pecassem por
excesso. No total, nossa análise mostrou uma produção
de 300 a 400 milhões de toneladas de fumaça, das quais
30% seriam de carbono elementar, que absorve
fortemente a luz (Quadro 1).
Nosso estudo indica que na faixa situada entre 30 e 60
graus de latitude norte, onde de início ocorreriam os
incêndios (área total de aproximadamente 6 x 10 elevado
a 13 metros quadrados), praticamente nenhuma luz solar
penetraria. A luz solar ao nível do solo seria menos de um
milionésimo da normal.
Em seguida, a fumaça seria transportada em grandes
extensões, da troposfera, e depois de um mês cobriria a
maior parte do Hemisfério Norte. Entrando na atmosfera,
as partículas têm uma vida de 10 a 30 dias, e quando
alcançam a estratosfera a sua duração é ainda maior,
resultando em diferentes graus de transmissão da luz
solar à superfície da Terra.
Nossos cálculos mostram que ao fim de um mês,
considerando uma vida de 30 dias das partículas em
suspensão na atmosfera, e também o efeito da
coagulação, não mais que 10% da luz solar alcançariam o
solo. Com persistência mais curta das partículas, é claro,
a quantidade de luz atingindo a superfície seria maior.
Mas mesmo nesses casos, de 10 a 20% da luz solar
seriam interceptados.
Inversamente, se a persistência das partículas em
suspensão fosse maior, a situação seria muitíssimo pior.
Neste ponto eu encerro a minha intervenção, pois o grupo
TTAPS dispõe dos modelos para prosseguir daqui. Eles já
apresentaram os seus impressionantes resultados, e com
relação a esse trabalho eu nada tenho a criticar. São
especialistas de alta competência em pesquisas
climáticas, e dispõe dos melhores modelos no campo da
radiação. Por isso, suas conclusões devem ser vistas com
grande seriedade.

DR. GEORGIY S. GOLITSYN (membro do painel): Há


cerca de meio ano, pediram-me que refletisse nas
conseqüências atmosféricas e climáticas de um conflito
nuclear global.
Por muitos anos eu me ocupei de estudos planetários e
participei nos programas espaciais da União Soviética
para Marte e Vênus. Dediquei cerca de um ano e meio ao
estudo das tempestades de poeira.
As tempestades de poeira de Marte originam-se numa
faixa bastante estreita, temperada, de latitudes do
hemisfério sul do planeta. Em poucas semanas uma
tempestade de poeira espalha-se sobre o planeta inteiro.
Esse efeito de expansão deve-se principalmente à forte
realimentação não linear. A luz solar é absorvida pelas
nuvens de poeira, aquecendo a atmosfera no seu interior,
ao passo que nas regiões adjacentes a atmosfera é limpa
e permanece fria. Em conseqüência, cria-se uma
circulação local de mesoscala que concorre para espalhar
a nuvem por sobre todo o globo com grande rapidez.
O próximo membro do painel irá mostrar como isso atua
nos modelos de circulação geral. Mas os modelos devem
ser verificados, e eu penso que o exemplo de Marte serve
bem para aferir as nossas previsões.
O exame dos resultados do estudo, marciano suscitou
esta pergunta: Que importância tem isso para a
humanidade? Vemos agora que eles servem a uma
necessidade básica: têm relação com a nossa
sobrevivência. Mostram o que poderia acontecer.
Durante uma tempestade de poeira a temperatura cai
consideravelmente; isto foi registrado por sondas Viking
ao longo de vários anos na superfície de Marte. Com a
chegada de uma tempestade de poeira a temperatura
baixa entre 10 e 15ºC. Nosso modelo simples mostra
claramente essa queda de temperatura.
Com o advento de tempestades de poeira, o gradiente
vertical de temperatura da atmosfera marciana torna-se
muito estável. A atmosfera torna-se quase isotérmica. E
isso tem uma profunda influência na estrutura da
circulação geral. Com o aumento da estabilidade estática,
a chamada instabilidade baroclínica da atmosfera,
responsável pela formação de ciclones, é amortecida. Na
atmosfera limpa de Marte os ciclones são muito regulares,
muito mais regulares que na Terra. Mas quando chega a
poeira, os ciclones deixam de existir, em conformidade
com a teoria. É de esperar que o mesmo acontecesse na
Terra, com a nuvem de fumaça e pó cobrindo o nosso
planeta.
Como foi mencionado por Carl Sagan, eu tenho algumas
concepções sobre como e por que uma nuvem dessa
espécie poderia influir seriamente no ciclo hidrológico.
Esse ciclo é importantíssimo - e não só para nós seres
humanos - porque continuamente recicla o suprimento de
água da Terra. E é principalmente pelas chuvas que a
poeira, fuligem e outros aerossóis são eliminados da
atmosfera.
No caso da formação de uma nuvem nuclear de fumaça e
poeira, o que sucederia ao ciclo hidrológico? Haveria
muito maior estabilidade estática - um gradiente quase
isotérmico - e até mesmo inversões. Com isso, o ritmo de
trocas de água entre a superfície e a atmosfera por efeito
de calor poderia ser seriamente afetado. Isto está bem
claro, porque a micrometeorologia da camada limítrofe é
bem conhecida.
Há uma outra observação que eu fiz quando estudava as
tempestades de poeira, há uns 10 ou 12 anos. A
atmosfera, quando carregada , de partículas pesadas,
como poeira, adquire estabilidade adicional porque a
poeira é mantida em suspensão pelas turbulências. Deste
modo a estabilidade atmosférica é aumentada, reduzindo
grandemente as trocas de calor e água com a superfície
subjacente.
Por esta simples razão, haverá menos umidade absoluta,
isto é, menos vapor de água na atmosfera. A atmosfera
se aquecerá, como foi demonstrado por Carl Sagan, e
como o nosso modelo também mostra. A umidade relativa
da atmosfera diminuirá consideravelmente, e as
condições necessárias à condensação de gotículas de
água estariam praticamente ausentes.
As condições de condensação seriam ainda menos
favoráveis numa atmosfera densamente carregada de
partículas de aerossol. A competição entre os centros de
condensação, se os dois primeiros efeitos estivessem
operando, impediriam as gotículas de água de atingir as
dimensões de gotículas de chuva.
Outro efeito climático potencial que me ocorreu relaciona-
se com a diferença de temperatura entre os mares e os
continentes. Os mares não esfriariam tanto quanto os
continentes, e assim se conservariam mais quentes que
estes. Isto poderia resultar numa circulação do tipo da
monção, no caso a monção de inverno.
Eu concordo com as pessoas que disseram aqui haver
razões para esperar muitas outras conseqüências
negativas que ainda não nos ocorreram.

DR. STEPHEN H. SCHNEIDER (membro do painel): Eu


gostaria de falar-lhes sobre "solidez". É uma palavra que
os senhores ouviram várias vezes nesta Conferência,
principalmente na sessão de perguntas e respostas.
Refere-se ao fato de que os cálculos resistem a críticas.
Os senhores também ouviram Paul Crutzen, Carl Sagan e
outros declararem que houve em cada um dos elementos
grandes incertezas, as quais se traduziram em
divergências com respeito a detalhes, mas em
concordância quanto aos princípios gerais. "Como é
possível?", ouvi várias pessoas murmurarem no auditório.
Por isso abordarei esse ponto.
Mostrar-lhes-ei também os pressupostos básicos
adotados num modelo tridimensional de cálculo que
desenvolvemos. Começamos com o nosso modelo de
circulação geral, e introduzimos nele um aerossol de
fumaça. O valor que aplicamos é de 200 milhões de
toneladas métricas, distribuídas uniformemente entre 300
e 700 de latitude norte. Esse valor baseia-se no "caso de
referência" do último estudo da Academia Nacional de
Ciências, presidido por George Charrier. Essa quantidade
de fumaça leva a uma profundidade ótica de absorção
igual a três.
A profundidade ótica é um valor determinado pela
quantidade de partículas em suspensão na atmosfera no
trajeto de um feixe luminoso diretamente incidente. Nossa
profundidade ótica de absorção de três foi aplicada a uma
faixa entre 30 e 70 graus de latitude norte. Se a nuvem de
fumaça cobrisse o hemisfério inteiro, a profundidade ótica
seria cerca de 1,5. E se certos processos, de que falarei
adiante, fizessem a fumaça espalhar-se globalmente sem
nenhuma forma de eliminação, a profundidade óptica
seria da ordem de 0,7.
Diria alguém: "Então o que há de sólido? A profundidade
óptica parece estar diminuindo muito rapidamente." Mas
agora deve-se considerar a quantidade de luz que
passaria; é o que se chama transmissão. Como os raios
do sol têm uma trajetória oblíqua, o ângulo típico
multiplica o percurso dos raios por dois. Assim, para uma
profundidade ótica de absorção igual a três entre 30ºN e
70ºN, apenas cerca de 0,2 a 1% da luz do sol
atravessaria a nuvem de fumaça no cenário de latitudes
médias, o que quase certamente resultaria em
escurecimento e frio, como foi dito. Em base hemisférica,
passariam cerca de 5% da luz solar, pois no Hemisfério
Norte 95% seriam absorvidos pela nuvem de fumaça. Isto
é perfeitamente coerente com o cenário de referência do
TTAPS.
Em base global, 200 milhões de toneladas de fumaça
resultam em que a transmissão seria da ordem de 25%,
significando que 75% da luz solar seriam absorvidos
acima da superfície. Isto ainda implica um distúrbio
climático de grandes proporções.
Os resultados mostram-se sólidos porque o valor de 200
milhões de toneladas métricas adotado para a quantidade
total de fumaça está longe de representar o pior caso; um
caso pior pode envolver uma quantidade várias vezes
maior de fumaça e pó. Há quem argumente que
processos de eliminação e outros fenômenos poderiam
reduzir esse valor. No entanto, dada a natureza
exponencial da profundidade ótica, fica ainda uma boa
probabilidade, pelo menos em extensas áreas do
Hemisfério Norte, de que a maior parte da luz solar seria
absorvida acima da superfície durante as primeiras
semanas depois dos incêndios.
O que significam essas profundidades óticas de absorção
no cálculo de um modelo de clima? Existem diferenças
entre modelos de uma, duas e três dimensões, e o tempo
não me permite abordar mais que um ou dois detalhes
dessas diferenças. Os modelos unidimensionais usados
nos relatórios TTAPS supõem a atmosfera passiva, isto é,
que basicamente ela fica como está e irradia energia para
cima e para baixo. Introduz-se a fumaça, ou a poeira, e
calculam-se as temperaturas com base na troca de
energia radiante. O que acontece no mundo real, é claro,
é que a fumaça e a poeira se dispersarão absorvendo
energia solar que modificará as temperaturas
atmosféricas, o que, por sua vez, causará uma
perturbação nos movimentos da atmosfera, que
transportarão a fumaça em diversas direções. Isso pode
agravar ou reduzir os efeitos climáticos; isto é, pode
produzir realimentação negativa ou positiva dos
resultados do modelo de clima. O que agora podemos
fazer com o nosso modelo tridimensional é contar apenas
metade da história. Podemos introduzir a fumaça, que
então perturba os movimentos; podemos observar como
os movimentos são perturbados, como isso influi na
temperatura e a probabilidade de a fumaça ser
transportada para fora da zona de guerra. Infelizmente,
nem nós do NCAR (Centro Nacional de Pesquisas
Atmosféricas) nem ninguém mais foi ainda capaz de
tomar essa fumaça e transportá-Ia de um lado para outro
no modelo de modo realista, o que, como eu disse antes,
poderia melhorar ou piorar a situação. Falarei agora de
alguns resultados de modelo que dão margem a
especulações quantitativas com relação a uma e outra
possibilidade.
Trabalhando com um modelo tridimensional, meus
colegas Curt Covey e Starley Thompson e eu
consideramos primeiro um caso de julho em que 200
milhões de toneladas métricas de fumaça se distribuíssem
uniformemente entre aproximadamente 30 e 70 graus de
latitude no Hemisfério Norte. Verificamos que haveria
perturbações importantes da temperatura da atmosfera.
Haveria altas temperaturas atmosféricas no plano superior
da nuvem, e intenso esfriamento abaixo dela, próximo à
superfície, nas áreas continentais. A temperatura na
nuvem aumentaria da ordem de 80ºC, e o ar abaixo da
nuvem ficaria mais frio. Nesse caso a temperatura
máxima na alta atmosfera seria de uns 300 graus Kelvin
(27ºC) e ocorreria entre 50 e 70 graus de latitude e a uns
8.000 metros de altitude. Também isto é coerente com os
resultados do TTAPS, ainda que os números sejam
diferentes, porque o nosso modelo é sazonal e
tridimensional, levando em conta os efeitos dos ventos, e
o TTAPS é um modelo unidimensional, com base em
médias anuais e sem efeitos dos ventos.
Vejamos agora as temperaturas superficiais, ainda para
um caso de julho. Temos três ilustrações (Fig. 1). A
primeira (t = 0) é o caso de controle, representando as
temperaturas normais típicas de um dia de julho. Nas
áreas hachuradas as temperaturas são inferiores a 270
graus Kelvin ou menos três graus centígrados.
A segunda ilustração mostra o que acontece dois dias
depois da injeção de uma nuvem de fumaça entre as
latitudes de 30ºN e 70ºN. Há temperaturas de
congelamento da água no noroeste dos Estados Unidos,
bem como em bolsões na Europa central, no planalto
tibetano e numa parte da URSS. O que aconteceu,
naturalmente, é que a luz do sol foi em grande parte
interceptada e as temperaturas de julho caíram abaixo do
ponto de congelamento no espaço de apenas dois dias. A
princípio esses resultados nos surpreenderam, até que
nos lembramos de que a diferença de temperatura da
noite para o dia é da ordem de 5 a 20ºC. Assim, dois dias
sem quase nenhuma luz alcançando a superfície da Terra
equivalem mais ou menos a quatro noites contínuas;
portanto não chega a ser tão espantoso que as
temperaturas caiam tão depressa.
Figura 1: Temperatura superficial no modelo NCAR de
perturbação por fumaça: simulação de julho, em três
instantes dados. t = 0 dias é o tempo imediatamente
anterior à introdução de fumaça na atmosfera. As
isotermas são traçadas de 10 em 10 graus K. As áreas
com temperaturas inferiores a 2700K (i.e., abaixo do
ponto de congelamento da água) são hachuradas. O valor
máximo das isotermas na zona tropical é de 300ºK (27ºC).
(Fonte: C. Covey, S.H. Schneider e S. L. Thompson,
"Global Atmospheric Effects of Massive Smoke Injections
from a Nuclear War: Results from General Circulation
Model Simulations", Nature, Vol. 308, pp. 21-25, março de
1984.)

A terceira ilustração representa a situação 10 dias após a


introdução da fumaça na atmosfera do modelo. A essa
altura o frio se espalhou e a temperatura caiu bem abaixo
do ponto de congelamento em regiões extensas da
América do Norte e da Eurásia. Na Europa faz menos frio
que no Dia 2, em parte porque a perturbação resultou em
ventos mais fortes do mar para a terra, o que tende a
reduzir o efeito de esfriamento. Em média, as
temperaturas na superfície das terras caem 20ºC em
julho, e talvez metade disso no caso de abril.
Também usamos o modelo para estudar as alterações
dos ventos. Considere-se, por exemplo, o mês de abril
(ver Fig. 2). Em condições normais, o ar sobe na faixa do
equador e zona tropical, depois inflete para fora e desce
nas zonas subtropicais dos dois hemisférios. Essa é a
maneira normal, e recebe o nome de circulação tropical
de Hadley. Mas 16 a 20 dias depois do aparecimento da
fumaça, o comportamento dos ventos seria muito
diferente. Daqui a pouco, Vladimir Aleksandrov irá
mostrar-lhes uma simulação russa que é bastante
semelhante à nossa no NCAR.
Em contraste com a circulação normal de Hadley, o
comportamento alterado dos ventos de julho, ou de abril,
seria como o de um outro planeta. Em razão das
mudanças na circulação atmosférica, provavelmente a
fumaça subiria nas latitudes médias e em seguida seria
arrastada para o Hemisfério Sul. Sem dúvida isto vem
reforçar quantitativamente certas especulações do ano
passado de que a fumaça ou poeira seria carreada para o
alto, atingindo a estratosfera e passando para o outro lado
do equador. Infelizmente no modelo NCAR a fumaça não
interage com os ventos, de modo que é difícil dizer se a
nuvem se espalharia mais depressa ou mais devagar do
que indicam os nossos mapas de ventos alterados.
Também, a resolução do nosso modelo é muito grosseira
para permitir uma simulação realista dos efeitos da
chamada "mistura de mesoscala", que poderiam remover
e dispersar a fumaça em tempos diferentes dos previstos.
Nossos estudos também mostram que as mudanças de
circulação variam consideravelmente de uma estação
para outra. São muito mais pronunciadas em julho e
menos em janeiro, embora sejamos levados a crer que
uma parte da fumaça poderia ser transportada para fora
das latitudes médias do Hemisfério Norte em qualquer
estação. É preciso examinar os resultados obtidos de
modelos tridimensionais com processos interativos de
radiação, remoção e transporte para chegar a um grau
razoável de segurança quantitativa. No entanto tudo que
até aqui vimos sugere que, embora os detalhes dos
diversos estudos atmosféricos das conseqüências de uma
guerra nuclear variem, o quadro básico de grave
preocupação subsiste. E nós continuamos trabalhando
para comprovar com precisão a solidez dos resultados
finais.
DR. VLADIMIR ALEKSANDROV (membro do painel): Eu
gostaria de exibir alguns dos resultados por nós obtidos
com emprego de um modelo tridimensional hidrodinâmico
de clima no Centro de Computação da Academia de
Ciências da URSS. O programa de clima que usamos foi
criado alguns anos atrás. O trabalho que vou apresentar
foi inspirado pela minha participação num seminário em
Cambridge em abril de 1983, promovido pela Conferência
sobre o Mundo após uma Guerra Nuclear.
Aplicando o cenário TTAPS, nós espalhamos os
poluentes - fuligem e poeira - uniformemente sobre o
Hemisfério Norte no tempo zero, isto é, imediatamente
após uma guerra nuclear. A fuligem e a poeira em
suspensão absorvem energia, de modo que a nuvem de
poluentes se aqueceria; mas embaixo, próximo à
superfície da Terra, haveria queda de temperatura.
Quarenta dias depois da formação da nuvem de fuligem e
poeira (Fig. 3), a temperatura no Hemisfério Norte teria
caído em 20 graus centígrados. E ao fim de oito meses,
243 dias após o Dia 0, a baixa de temperatura ainda seria
da ordem de 10 graus centígrados.
A taxa de declínio, ou o gradiente vertical de temperatura
do ar, mostra como a temperatura atmosférica varia com
a altitude. Nosso modelo demonstrou que haveria fortes
desvios da taxa normal de declínio em seguida a uma
guerra nuclear. Isto poderia alterar a circulação geral,
suprimindo consideravelmente o movimento vertical da
atmosfera. O ciclo hidrológico seria interrompido,
impedindo a lavagem natural da poeira e fuligem da
atmosfera pelas chuvas.
Figura 2: Circulação atmosférica no modelo do INCAR
para a simulação de abril. As setas indicam a direção do
movimento. O tempo médio corresponde aos Dias 16 a
20. A área da carga de fumaça introduzida é indicada pelo
retângulo tracejado. São mostrados o caso de controle
(simulação sem fumaça) e o caso de perturbação (ensaio
de fumaça). O padrão circulatório normal é drasticamente
alterado no caso de perturbação (Fonte: S. L. Thompson,
V. V. Aleksandrov, G. L. Stenchikov, S. H. Schneider, C.
Covey e R. M. Chervin, “Global Climatic Consequences of
Nuclear War: Simulations with Three-Dimensional
Models”, no prelo, Ambio).

Figura 3: A variação das temperaturas do ar na superfície


(graus centígrados) com a latitude, do Pólo Norte ao Pólo
Sul, nos Dias 40, 243 e 378 após o começo de uma
guerra nuclear.
Figura 4: Circulação atmosférica nos Dias 0 (a) e 297 (b).

Figura 5: A mudança de temperatura do ar na superfície


no Dia 40. Linhas cheias – temperatura de 0ºC ou menos.
Cada isoterma representa uma diferença de cinco graus
para mais ou para menos em relação à vizinha.
Figura 6: A mudança de temperatura do ar na superfície
no Dia 243. As linhas cheias indicam temperatura de 0ºC
ou menos. As linhas interrompidas indicam temperaturas
acima de 0ºC.

Também estudamos a função fluxo; Stephen Schneider já


mostrou os resultados análogos do seu estudo.
Verificamos que os padrões de circulação geral da
atmosfera mudariam drasticamente: mesmo 297 dias
após a injeção da fuligem e poeira (Fig. 4b), os padrões
de circulação natural ter-se-iam alterado a um ponto tal
que a fuligem e a poeira atmosféricas produzidas no
Hemisfério Norte seriam transportadas para o Hemisfério
Sul. Assim, a situação do Hemisfério Sul, incluídas as
zonas tropicais, seria tão má quanto a do Hemisfério
Norte.
Num espaço de 40 dias a contar do Dia O (Fig. 5), a
temperatura superficial na parte ocidental dos Estados
Unidos teria baixado em até 30 graus centígrados, no
leste dos Estados Unidos em até 40ºC, na Europa em até
50ºC, no golfo Pérsico em até 50ºC e no Ártico em até
15ºC.
Oito meses (242 dias) após a injeção de poeira e fumaça
na atmosfera, a temperatura nos Estados Unidos e na
União Soviética ainda estaria 30ºC abaixo da normal (Fig.
6). Na Arábia Saudita estaria 20ºC abaixo da normal; na
África, até 10ºC abaixo da normal. Ao fazermos esses
cálculos, nós não levamos em conta o transporte de
fuligem e poeira dos Hemisférios Norte e Sul (embora
devêssemos tê-Io feito). Se tivéssemos considerado esse
efeito em nossos cálculos, a situação no Hemisfério Sul
seria ainda mais séria que a mostrada nas ilustrações.
Eu gostaria de ressaltar a importância de um certo efeito
que descobrimos quando trabalhávamos nessa
simulação. Oito meses depois do surgimento da fuligem e
poeira, a parte superior da troposfera torna-se muito
quente e altitudes menores muito frias. Em conseqüência,
os sistemas de montanhas altas seriam submetidos a um
aquecimento intenso: o ar no planalto tibetano ficaria até
20ºC mais quente que o normal, e nas Montanhas
Rochosas até 7ºC mais quente que o normal. Isso
causaria a fusão da neve e das geleiras das montanhas,
provavelmente resultando em enchentes de dimensões
continentais - repito, para frisar: de dimensões
continentais.
Agora voltamos nossa atenção para a dinâmica da função
fluxo da circulação geral. Devido às perturbações
causadas pela fuligem e poeira, o ramo sul da Célula de
Hadley aumentaria de intensidade e Se deslocaria para o
sul em 35 dias a contar do Dia 0. Em conseqüência, a
fuligem e poeira do Hemisfério Norte seriam carreadas
para o Hemisfério Sul. Ao mesmo tempo, a intensidade do
ramo norte da Célula de Hadley de circulação geral
reduzir-se-ia umas 10 vezes. A mesma tendência
continuaria até o Dia 70. Até o Dia 105, o padrão da
função de fluxo normal estaria completamente alterado.
Eu gostaria de frisar que as nossas experiências foram
extremamente simples. O meio que estudamos, o ar, é
fluido, portanto procuramos calcular como esse fluido
reagiria à variação de densidade ótica induzi da pelas
conseqüências de uma guerra nuclear.
Foi nesta Conferência que vi pela primeira vez as
ilustrações apresentadas por Steve Schneider relativas ao
trabalho feito no Centro Nacional de Pesquisa
Atmosférica. Tive grande satisfação em ver que embora
os seus experimentos sejam completamente diferentes
dos nossos - os modelos são diferentes e os
computadores também - os resultados são basicamente
os mesmos.

Perguntas
DR. THOMAS MALONE: Este painel mostrou que existem
análises científicas amplas e diversificadas que
corroboram a apresentação de Carl Sagan.

DR GEORGE M. WOODWELL: Estamos todos


impressionados pelo caráter óbvio dessas revelações. Ao
mesmo tempo que impressionado, sinto-me um tanto
curioso quanto ao porquê de não termos sabido isso
antes. É raro alcançar uma tal unanimidade entre a
comunidade científica, e isto deve significar que estamos
tratando de matéria de senso comum. Por que, então,
terão sido precisos 38 anos para que essa brilhante e
capacitada comunidade científica se pusesse de acordo
num tema de tanta importância e magnitude?

MALONE: Estávamos à espera de que um Paul Crutzen


nos estimulasse as idéias.

JOHN STEINBACK: Se a temperatura sobe radicalmente,


rompendo o ciclo hidrológico, não ocorreria uma
acumulação gradual de evaporação na atmosfera? E após
um tempo, quando as partículas de pó começassem a
assentar, não sobreviriam a certa altura, bem depois do
cataclismo, chuvas torrenciais de grande intensidade que
desnudariam por completo a vegetação?

DR. STEPHEN SCHNEIDER: Eu confio muito pouco nas


projeções dos nossos modelos além de uma ou duas
semanas, simplesmente porque eles não são interativos:
não misturam a fumaça a outras coisas. Portanto,
qualquer coisa que eu dissesse seria pura especulação
intuitiva. E a resposta intuitiva que eu lhe daria é:
"Depende." As temperaturas dos mares não mudariam
muito. A evaporação poderia diminuir. Nosso modelo
sugere que as camadas inferiores da atmosfera teriam
maior umidade relativa, mas menor umidade absoluta, e
as camadas mais altas muito pouca umidade e ausência
de nuvens. O que aconteceria em relação a chuvas é
muito difícil de prever, se bem que, em ocorrendo
modificações de tamanha envergadura, quase tudo pode
acontecer.
DR. ALAN ROBOCK (professor de Meteorologia do
Departamento de Meteorologia da Universidade de
Maryland): Recentemente, Cliff Mass e eu fizemos um
estudo que, penso eu, constitui um bom análogo para o
que aconteceria com a nuvem de poeira. Nós
examinamos as temperaturas superficiais depois da
erupção vulcânica do Monte St. Helens, quando a
atmosfera ficou saturada de pó por vários dias.
Verificamos que as temperaturas superficiais não
baixaram, mas que permaneceram relativamente
constantes. As noites foram mais quentes do que seriam
sem a poeira, e os dias mais frios do que seria de
esperar. Interpretamos o fato como significando que a
superfície estava entrando em equilíbrio com a atmosfera
saturada de pó, e que, completamente isolada da
radiação solar provinda do espaço exterior, não esfriava
porque era aquecida pela radiação infravermelha da
poeira.
Eu perguntaria aos elaboradores do modelo: os senhores
levaram em consideração a radiação de ondas longas em
seus cálculos? Porque se se elimina a radiação de ondas
curtas haverá, naturalmente, um efeito de esfriamento.
Mas a camada quente de poeira em suspensão deveria
produzir um efeito de aquecimento na superfície.

SCHNEIDER: Eu gostaria de comentar esse ponto. A


situação de pós-guerra nuclear não seria, a meu ver,
análoga à do Monte St. Helens.
As propriedades dos aerossóis de fumaça nuclear, ao que
nos é dado observar, são tais que a opacidade ao
infravermelho é uma ordem de grandeza inferior à
opacidade à luz visível. Para uma profundidade ótica de 3
a 5 no espectro visível, a profundidade ótica no
infravermelho é menos de 1. Por isso a luz solar é
bloqueada em grandes altitudes, e a superfície ainda
esfria pela irradiação de energia de infravermelho para o
espaço através da camada de fumaça. Daí resulta uma
inversão progressiva, e esta é a explicação para o
esfriamento da superfície.
De fato, se houvesse dez vezes mais fumaça, talvez se
evitasse um esfriamento pronunciado da superfície, pois
se a opacidade da atmosfera ao infravermelho é
suficientemente grande, a atmosfera torna-se quase
isotérmica, como no caso da nuvem de cinzas do Monte
St. Helens. É irônico que, no caso peculiar de um excesso
de fumaça, o efeito de esfriamento da superfície poderia
desaparecer. (posteriormente, quando parte da fumaça se
dissipasse, o esfriamento ocorreria.) Só quando a
opacidade visível da fumaça está na faixa de 1 a 10 é que
a opacidade ao infravermelho é tão baixa que na verdade
deixa de ser um fator importante. Pelo menos é o que
mostram os modelos unidimensionais de radiação-
convecção.

DR. PETER SHARFMAN (Comissão de Avaliação


Tecnológica do Congresso dos Estados Unidos):
Refletindo a exposição anterior do Dr. Sagan, não consigo
perceber de que forma a quantidade de fuligem na
atmosfera responde a diferentes fatores: número de
armas, megatonagem total, ou talvez megatonagem
equivalente total; ou percentagem de explosões sobre
áreas urbanas, florestas ou silos de mísseis; ou explosões
de superfície em silos de mísseis. Alguém do painel
poderia explicar como essas coisas se relacionam?

DR. RICHARD TURCO: Os valores relativos à quantidade


de fuligem são função da potência explosiva total sobre
áreas urbanizadas e sobre florestas; naturalmente, isso
depende dos cenários. No estudo TTAPS nós levamos
em conta um grande número de cenários e uma ampla
gama de suposições com respeito a ataques dirigidos a
cidades ou arredores de cidades. As emissões de fuligem
dependem em alto grau do número de explosões sobre
áreas urbanas, as quais contêm a maior concentração de
matérias inflamáveis que produzem a fumaça mais
escura. Não obstante, explosões sobre florestas e
pastagens podem gerar quantidades adicionais de
fumaça. Outros fatores importantes são a carga de
materiais combustíveis e a probabilidade de queima, e
quanto a isto os dados disponíveis são limitados.

DR. J. ALLAN KEAST (professor de Biologia da


Universidade Queens em Kingston, Ontário, Canadá):
Poderia o Dr. Schneider ou o Dr. Aleksandrov
pormenorizar o mecanismo de transferência de material
do Hemisfério Norte para o Sul? Segundo o Dr.
Aleksandrov, uma transferência substancial começaria em
cerca de 35 dias. O Dr. Sagan, se bem entendi,
mencionou uma diferença de temperatura que afetaria em
grau considerável esse movimento. De acordo com o
cenário que nos foi apresentado, haveria a formação
inicial de uma frente de fumaça no Hemisfério Norte, que
em seguida se deslocaria rapidamente para o Sol. Que
mecanismo determinaria isso, e o deslocamento não seria
de penachos em vez de em massa?

ALEKSANDROV: Nossos enfoques iniciais deste


problema mostram que a transferência deve refletir-se no
modelo elaborado. Embora os resultados possam até
certo ponto variar, a variação deve-se a que a
transferência da nuvem de fuligem e poeira para o
Hemisfério Sul produziria resultados bastante diferentes
na situação por mim apresentada e na que foi
apresentada pelo Dr. Schneider. Portanto é essencial
considerar a transferência para o Hemisfério Sul.
SCHNEIDER: O cavalheiro da Universidade Queens está
absolutamente certo; o mecanismo de transporte que
encontramos não é um movimento meridional médio de
baixa velocidade. Lembre-se, também, de que o nosso
modelo não é interativo. Nós verificamos que o
movimento médio em direção ao Sul em abril e julho é da
ordem de 3 a 5 metros por segundo no ramo superior da
Célula de Hadley alterada, de modo que levaria três
semanas para deslocar a fuligem das latitudes médias
para a zona tropical se fosse esse o mecanismo de
transporte.
O movimento médio é o resíduo de muitos jatos
pequenos, e esses jatos têm velocidades entre 20 e 50
metros por segundo. Isto significa que feixes ou manchas
de fuligem poderiam partir, por exemplo, da costa leste
dos Estados Unidos ou da Sibéria e chegar aos trópicos
em tempo bastante curto.
Nós estudamos feixes a 500 e 200 milibares (cerca de 5 e
12 mil metros de altitude, respectivamente). Aliás, em um
dos casos que estudamos, uma mancha de fumaça
poderia ter alcançado a Austrália em mais ou menos três
dias. É certo que isto não bastaria necessariamente para
cobrir de fumaça todo o Hemisfério Sul, mas se grandes
nuvens de fuligem fossem transportadas milhares de
quilômetros e persistissem ainda que por poucos dias,
poderiam resultar quedas bruscas de temperatura no
espaço de alguns dias. O quadro geral seria a princípio
bastante descontínuo; haveria um grande número de
feixes, que acabariam por misturar-se.

DR. PAUL CRUTZEN: De início, nas nuvens de fumaça,


principalmente na parte superior das nuvens, o
aquecimento pela radiação solar seria tão desmedido que
se formariam sistemas locais de circulação intensa. Eu
calculei uma taxa de aquecimento de 40 graus por hora
na parte de cima das nuvens. Pode-se imaginar o que
aconteceria então: a fumaça subiria rapidamente para a
alta atmosfera.

ALEKSANDROV: Os penachos projetados da nuvem de


pó e fuligem podem formar gradientes de temperatura
fortemente acentuados, dependendo da latitude. No caso
mencionado pelo Dr. Schneider, o quadro será
absolutamente tridimensional, e só modelos
tridimensionais podem resolver essas questões.

DR. MARTIN H. EDWARDS (diretor do Departamento de


Física do Colégio Real Militar do Canadá; ex-presidente
da Federação Canadense da Natureza): Os que não
querem acreditar nos resultados destes estudos irão
recorrer ao que esperam seja uma única falha fatal na
argumentação, e eu estou certo de que alegarão o fato de
já ter havido milhares de testes de armas nucleares.
Houve até casos de um único teste produzindo 58
megatons, e não ocorreu nenhum efeito climático
catastrófico. Acho que deve ser esclarecida a
improcedência dessa crítica potencial, e pediria ao painel
que o fizesse.

DR. JOHN HOLDREN: Como foi dito várias vezes ontem,


os testes realizados, embora somando uma
megatonagem bastante considerável, representam
eventos isolados e foram todos levados a efeito em
condições que não produziram grandes incêndios. Um
dos pontos capitais que deve ser repetidamente
enfatizado é a fonte primária da diferença entre os
cálculos apresentados nesta Conferência e cálculos
anteriores. Os novos cálculos levam em conta os
incêndios em grande escala e a grande produção de
fuligem que, naturalmente, não ocorreu nas circunstâncias
de nenhum teste nuclear, mas que ocorreria numa ampla
gama de circunstâncias em caso de uma guerra nuclear
real.

DR. JOSEPH ROTBLAT (professor emérito de Física da


Universidade de Londres; Conferências do Conselho
Pugwash sobre Ciência e Assuntos Mundiais): Que
hipóteses foram adotadas com respeito à duração do
conflito nuclear? Levaria uma hora, dias, semanas? E
qual a sensibilidade do seu modelo à duração do conflito?

TURCO: Nossa suposição foi de que uma guerra nuclear


duraria um tempo muito curto, da ordem de dias. Embora
haja outros conceitos de guerra nuclear, em que o conflito
se estenderia por meses, consideramos mais realista
supor que a troca de ataques seria bastante breve. O
efeito de uma guerra prolongada dependeria da duração
absoluta. Se o conflito durasse uma semana, os efeitos
óticos e climáticos seriam provavelmente piores porque o
material seria mais extensamente dispersado pelos
ventos atuantes durante um maior período de injeção. Se
o conflito se estendesse por meses ou anos - se é que um
tal conceito de guerra nuclear sequer mereça ser
considerado -, os efeitos do inverno nuclear seriam
possivelmente reduzidos, porque haveria tempo para que
nuvens isoladas de fumaça e poeira fossem eliminadas
por processos naturais antes que outras fossem injetadas,
e não ocorreria a acumulação de detritos.

ROTBLAT: Minha observação é que, no seu cenário, 43%


das explosões são no ar. Ora, se se começasse por
outras armas que produzissem uma certa carga de
partículas, especialmente na atmosfera, e depois
ocorressem explosões no ar, os produtos seriam
aprisionados na troposfera e poderiam resultar
ulteriormente numa precipitação atmosférica maior.
Também devemos considerar as informações
apresentadas pelo Dr. Golitsyn, que podem
contrabalançar este aspecto.
Os cálculos aqui apresentados dão um nível de radiação
secundária de cerca de 50 rads. Esses 50 rads, em raios
gama externos, distribuir-se-iam por um espaço de tempo
mais longo. Portanto não produziriam sintomas sérios. A
taxa de degeneração das células sanguíneas é maior do
que a taxa em que seria recebida a radiação. Assim, creio
que não devemos incluir esse efeito como causa de
afecções iniciais. Por quê? Porque há efeitos sérios à
longo prazo - efeitos carcinogênicos e possivelmente
genéticos. A mim me parece que os efeitos aqui descritos
já são tão sérios que a consideração dos efeitos da
radiação pouco acrescenta às conclusões.

TURCO: O comentário sobre a exposição à precipitação


radioativa é justo. Nós só enfatizamos os valores da
exposição retardada à radiação porque a sua ordem de
grandeza é maior que a anteriormente estimada. Isto faz
ressaltar a necessidade de contínua reavaliação e
atualização dos efeitos potenciais de uma guerra nuclear.

JOHN A. HARRIS (Clube de Roma): Em sua exposição, o


Dr. Sagan disse que se A atacasse e destruísse B, A seria
apanhado em sua própria rede. Eu gostaria de saber o
que o painel pensa a respeito, pois isso tem implicações
políticas tremendas, como os senhores obviamente
sabem. Também gostaria de saber se os soviéticos
pensam do mesmo modo.
MALONE: Haverá alguém neste painel que discorde da
afirmação de Carl Sagan de que um primeiro ataque seria
de fato suicida? Não foi o que você disse, Carl?

SAGAN: Alguns primeiros ataques não seriam suicidas.


Um primeiro ataque pode não ultrapassar o limiar. Mas a
essência da maioria dos cenários de primeiro ataque,
como eu os entendo, é neutralizar decisivamente uma
fração considerável da capacidade de retaliação do outro
lado. De pronto isto sugere o emprego de grande potência
explosiva, que excederia o limiar.
Há pouco, George Woodwell colocou uma questão
importante, pois, pelo que sei, os conhecimentos básicos
de física e química necessários à previsão do inverno
nuclear já existiam entre 10 e 20 anos atrás. Afinal,
existem grandes departamentos nos órgãos de defesa
dos Estados Unidos e da União Soviética, com verbas de
centenas de milhões de dólares por ano, cuja
responsabilidade é analisar as conseqüências de uma
guerra nuclear. Ademais, é função deles informar ao
presidente dos Estados Unidos e ao presidente da União
Soviética o que pode acontecer se tais ou quais linhas de
ação forem seguidas.
É portanto uma boa pergunta, para a qual também eu
gostaria de ter a resposta: por que não era tudo isso do
conhecimento dos órgãos de defesa 20 anos atrás?

SCHNEIDER: Eu gostaria de responder à pergunta sobre


se nós do painel concordamos com a declaração de que
um primeiro ataque seria suicida. Vários dos doutores
meus colegas e eu discutimos este ponto; é o que
chamamos de "cenário de feedback de primeiro ataque",
em que o atacante é vencedor durante duas semanas, até
que a nuvem nuclear de fumaça e poeira volta sobre ele.
Mas, naturalmente, a afirmação só vale se a escala do
primeiro ataque for suficientemente grande para
ultrapassar o limiar de que falamos aqui. Só que não
devemos tomar o termo "limiar" muito literalmente, pois
não existe uma linha mágica subitamente cruzada
quando se passa dos 100 megatons. Como foi dito ontem,
os números correspondentes aos efeitos de super-
esfriamento baseiam-se em toda uma série de
suposições; e se estas forem exageradamente otimistas,
o "limiar" para efeitos climáticos sérios pode situar-se
abaixo de 100 megatons. Em suma, eu vejo a questão
dos efeitos climáticos como um espectro contínuo com
probabilidade decrescente de conseqüências agravadas,
isto é, quedas rápidas localizadas de temperatura no
extremo mais favorável do espectro, e inverno nuclear
global prolongado no outro extremo.
Mas se a megatonagem total atingir ou ultrapassar as
vizinhanças do chamado limiar, e muitas cidades forem
atingidas, não há motivo para duvidar que o atacante
sofra os mesmos efeitos ambientais de escuridão e frio
que o atacado.

DR. KARL Z. MORGAN (professor-adjunto do


Departamento de Física e Astronomia da Universidade
Estadual dos Apalaches; antes, do Laboratório Nacional
de Oak Ridge): Com respeito à radiação, a ênfase parece
ter sido colocada na exposição corporal, talvez em
relação direta com a leucemia. Contudo dever-se-ia dar
mais atenção às afecções malignas que atacariam órgãos
específicos, como os pulmões, o cólon e a tiróide.
Eu gostaria de comentar outro ponto relativo à radiação.
Ouvimos várias vezes que a dose letal para 50% dos
indivíduos expostos (LD50) seria em torno de 400 a 450
rems. No entanto, havendo lesão do sistema imunológico
ou do sistema reticular do endotélio, há bons motivos para
crer que a LD50 seria por volta de 50 a 100 rems.
Por enquanto há poucos dados em relação ao homem; só
há registro de 10 casos de morte por síndrome de
radiação, e num desses casos, a dose estimada de
radiação foi de menos de 200 rems.

HOLDREN: Eu gostaria de frisar que o objetivo central do


trabalho apresentado nesta Conferência não foi analisar
as conseqüências relativamente imediatas de altas doses
de radiação, tendo sido este um dos aspectos mais
exaustivamente estudados da guerra nuclear em
pesquisas precedentes. Os novos valores no tocante à
exposição à radioatividade surgiram mais ou menos como
um resultado inesperado do estudo dos
efeitos retardados. Foi o cálculo da precipitação à médio
prazo, em particular, que concorreu para valores de dose
total maiores que os anteriormente estimados. Um estudo
detalhado da adição da precipitação à médio prazo às
conseqüências já bem estudadas da precipitação imediata
exigiria uma grande soma de trabalho.
Eu concordo que as questões que o senhor levantou
devem ser examinadas. E acrescentaria que as doses de
radiação são importantes no contexto deste estudo, não
apenas em termos de efeitos diretos no homem câncer,
alterações genéticas, etc. - como são de alto interesse
para o ecologista, em termos de conseqüências para os
sistemas ecológicos de doses de radiação na faixa de
dezenas e centenas de rems atuando em grande escala e
em vastas extensões. Há muitos detalhes a serem
estudados no futuro. No entanto transcenderia os fins
deste estudo inicial entrar nos pormenores deste tema.

SRA. MYRTLE JONES (Sociedade Audubon de Mobile


Bay): É com grande satisfação que vejo o
comparecimento dos soviéticos aqui e sua participação
neste evento. Minha pergunta é: seria possível uma
conferência desta natureza na Rússia, com pessoas das
mais diversas profissões discutindo este tema? E haveria
a possibilidade de os seus governantes e os nossos e os
governantes da China e da Inglaterra se reunirem em
tomo de uma mesa, serem cientificados destas
descobertas e chegarem a soluções razoáveis?

DR. GEORGIY GOLITSYN: Em maio último tivemos em


Moscou uma conferência semelhante a esta, em que
várias conseqüências - biológicas, climatológicas e sócio-
psicológicas - foram debatidas. Os trabalhos foram
divulgados nas Atas da Academia de Ciências de
setembro.

SRA. JONES: Em inglês?

GOLITSYN: Por enquanto só em russo, mas eu tenho


comigo algu mas cópias, caso alguém se interesse.
Imaginei que poderiam ser traduzidas neste país.

PAINEL SOBRE CONSEQÜÊNCIAS


BIOLÓGICAS
DR. GEORGE M. WOODWELL (presidente do Painel
sobre Efeitos Biológicos): Em se tratando de problemas
complexos como estes, que afetam a Terra inteira, e em
que a experimentação e a própria coleta de dados são
difíceis, requerem-se equipes de especialistas e
equipamentos complicados para incrementos
aparentemente insignificantes de progresso. Num mundo
cada vez mais complicado, cada vez mais intensivamente
explorado, é essencial que haja muitas dessas equipes
realizando pesquisas redundantes. É esse o custo do uso
intensificado da biosfera: pesquisa e análise constantes
de modo a assegurar que as informações fundamentais,
as idéias, os fluxos de perguntas e respostas se
mantenham, e a evitar surpresas, como estamos fazendo
no momento. A matéria é tão nova para os biólogos
quanto para os meteorologistas. A comunidade científica
está criando um começo, uma nova partida para um
Grande Problema.
Nós congregamos um grupo de cientistas ilustres para
iniciar esse processo.

DR. JOHN HARTE (membro do painel): Todos nós


dependemos dos ecossistemas que nos cercam como um
doente em tratamento intensivo depende de frascos de
soro e equipamentos médicos de sustentação de vida.
Empreender uma guerra nuclear seria como atirar uma
banana de dinamite acesa numa unidade de tratamento
intensivo, rompendo as ligações vitais que garantem a
sobrevivência. Entre as funções essenciais de
sustentação de vida exercidas por um meio ambiente
natural normal e saudável está a regulação do ciclo
hidrológico, que minimiza a ocorrência de chuvas
excessivas e secas prolongadas; um exemplo são as
encostas revestidas de vegetação, que moderam as
enxurradas e abrandam a correnteza dos rios. Outra
dessas funções é a minoração da poluição do ar e das
águas e o tratamento de resíduos sólidos por processos
naturais atmosféricos e microbiais. Uma terceira é a
moderação do clima, de novo exemplificada pelo papel
das grandes reservas de vegetação viva, capazes de criar
um micro-clima essencial à sua própria existência.
Nos primeiros três a seis meses após uma guerra nuclear,
estas e outras funções ecológicas seriam virtualmente
suspensas. A perda de um ano de produção agrícola será
discutida por outros oradores. Quanto a mim, quero
abordar vários aspectos relacionados à água e em
seguida tecer alguns comentários gerais sobre as
perspectivas de restabelecimento à longo prazo de
funções ecológicas prejudicadas.
Ao tomar conhecimento, ano passado, dos resultados do
estudo TTAPS com respeito às baixas violentas de
temperatura superficial, ocorreu-me que os reservatórios
de água doce que abastecem as populações humanas e
os animais de criação ficariam congelados. Meus cálculos
mostraram que haveria a formação de uma camada de
gelo de aproximadamente um metro nas águas
superficiais de regiões interiores. Sem combustível nem
eletricidade para derreter o gelo ou bombear água de
poços para a superfície, muitas pessoas e animais de
criação morreriam de sede. Os níveis reduzidos de
precipitação pluviométrica previstos agravariam o
problema. Nesse contexto é oportuno observar que os
sinergismos parecem trabalhar a nosso favor nas
situações normais, e voltar-se contra nós quando nós e a
natureza sofremos uma debilitação. Outro exemplo disto:
com as canalizações congeladas, não haveria o
escoamento dos dejetos, exacerbando o problema das
epidemias, já agravado pela redução das resistências às
moléstias e infecções induzida pela radiação.
O efeito de um período de escuridão prolongada em
organismos aquáticos foi estimado através de
experiências em meu laboratório e de modelos
matemáticos elaborados pelos Drs. Chris McKay e Dave
Milne. Os dois tipos de pesquisa produziram resultados
semelhantes. Cadeias alimentares compostas de
fitoplâncton, zooplâncton e peixes devem sofrer
grandemente com a extinção da luz. Com apenas alguns
dias de escuridão, o fitoplâncton - base da cadeia
alimentar - morreria ou entraria em estado de vida latente.
Na zona temperada, em cerca de uns dois meses no fim
da primavera ou no verão, e em três a seis meses no
inverno, os animais aquáticos mostrariam drásticos
declínios de população, que para muitas espécies
poderiam ser irreversíveis. Essas estimativas (baseadas
na redução da luz) provavelmente subestimam as
conseqüências para a vida marinha das condições de
pós-guerra nuclear, pois não levam em conta os efeitos
térmicos, nem os do aumento de turbidez das águas
provocado pela erosão das costas e pela deposição de
fuligem e poeira. A sensibilidade da vida marinha à
escuridão prolongada seria provavelmente maior nos
trópicos do que na zona temperada, porque nos trópicos
as reservas nutritivas são menores e as necessidades
metabólicas maiores. Nas regiões polares, onde a
adaptação a invernos escuros é uma condição de vida, a
sensibilidade seria reduzida. Os lagos de água doce
tornar-se-iam altamente anóxicos depois que a poeira
assentasse e a temperatura subisse. Grandes
quantidades de resíduos orgânicos, inclusive cadáveres
em decomposição, tornariam letal a água de
abastecimento. Há poucas razões para pensar que as
principais formas de vida aquática que hoje nos servem
como fontes de alimento viessem a sobreviver a uma
guerra nuclear de primavera ou de verão em número
suficiente para serem de proveito para o homem, pelo
menos nos primeiros anos do pós-guerra.
Anos depois da guerra, a capacidade de sustentação de
vida do meio terrestre estará ainda grandemente
reduzida, ainda que os níveis de luz e temperatura
estejam próximos das condições de antes da guerra. A
favorabilidade do clima local, a arabilidade do solo, a
constância e qualidade da água e a disponibilidade de
recursos gênicos seriam seriamente degradadas pelos
meses de condições extremas que se seguiriam à guerra.
A destruição de extensas áreas de vegetação pelo fogo
ou pela escuridão resultaria em condições locais alteradas
de clima e de solo que muito dificilmente seriam propícias
ao replantio. Com muitos de seus inimigos naturais
exterminados, pragas de insetos frustrariam as tentativas
de retomada da produção agrícola, como o faria a erosão
do solo nas terras escalvadas e desprotegidas. A radiação
ultravioleta provavelmente persistiria como agressão
ecológica por bem mais de um ano.
Seriam os poucos sobreviventes restantes capazes de
restabelecer com os ecossistemas sustentadores de vida
as ligações vitais necessárias à sobrevivência? Esse
restabelecimento só poderia ocorrer depois de
recuperados os ecossistemas, e somente se os
remanescentes da sociedade fossem capazes de
mobilizar a organização social e a tecnologia requeridas
para a exploração dos ecossistemas restaurados. O
tempo necessário para que ocorresse a segunda
condição é difícil de estimar, mas certamente seria no
mínimo tão longo quanto para a primeira, pois sem
ecossistemas que assegurem as necessidades básicas
da vida, é impossível uma sociedade tecnológica
organizada. Provavelmente a restauração dos
ecossistemas devastados exigiria não menos de um
decênio - estimativa baseada na experiência de
ecologistas com dados tirados de exemplos históricos de
ecossistemas muito combalidos. Sendo a recuperação tão
demorada, o mais provável é que a pequena população
humana remanescente continuaria a minguar,
aumentando assim as probabilidades de extinguir-se por
completo.

DR. OWEN CHAMBERLAIN (Universidade da Califórnia


em Berkeley): O senhor sabe se existem planos para
testar a sensibilidade do fitoplâncton às mudanças de
temperatura?
HARTE: Os únicos planos de que tenho conhecimento,
pelo menos para o futuro próximo, são planos de
examinar os efeitos da escuridão prolongada. Os efeitos
das mudanças de temperatura na vida marinha não são
de tão grande interesse em vista da grande capacidade
térmica dos oceanos, que impediria oscilações maiores na
temperatura das águas oceânicas.

INTERPELANTE NÃO IDENTIFICADO: Os senhores


examinaram a possível proliferação de bactérias, fungos e
organismos inferiores, bem como de insetos?

HARTE: Isso deverá ser feito. Muitos ecologistas estão


hoje interessados em estudar essas questões
experimentalmente. Pelo menos com respeito a pequenos
organismos, como o plâncton e os fungos, pode-se iniciar
esse estudo no laboratório. Espero que isso venha a
acontecer futuramente, mas por ora não posso anunciar
resultados sobre efeitos de escuridão prolongada em
organismos do solo.

DAVID MCGRATH (diretor-adjunto da Global Tomorrow


Coalition em Washington, D.C.): Até aqui ninguém
mencionou especificamente a questão de se a ausência
de fotossíntese por um período longo reduziria de forma
apreciável a quantidade de oxigênio na atmosfera, e quais
as conseqüências disso.

HARTE: Isso não nos preocupa muito. Os números


sugerem que as variações do oxigênio, bem como do
dióxido de carbono (C02), seriam insignificantes. São
efeitos de importância terciária, por isso não nos
empenhamos muito em analisá-los.

WOODWELL: Eu os promoveria a secundários.


DR. JOSEPH A. BERRY (membro do painel): Minha
incumbência aqui hoje é examinar algumas das bases
técnicas da previsão de que a fotossíntese seria
fortemente inibida em escala global pelas condições da
atmosfera do pós-guerra. E eu gostaria de lembrar-lhes
que, como foi salientado repetidamente nas exposições, a
fotossíntese constitui o principal suprimento de energia
química à biosfera e a principal força motriz para a
operação dos ecossistemas naturais e cultivados.
Para que se dê a fotos síntese, duas coisas são
basicamente necessárias. Primeiro, a luz tem de penetrar
até a superfície da Terra, onde as plantas estão
localizadas. E, segundo, a luz deve ser absorvida pelos
pigmentos fotossintéticos das plantas em condições, sob
outros aspectos, favoráveis. Vejamos a pergunta: de que
modo a redução da luz que penetra a atmosfera afetaria a
fotossíntese? Muitas experiências demonstraram que a
fotossíntese total de florestas e culturas é proporcional à
intensidade da luz recebida (Fig. 1). Mesmo em dias
normais, a fotossíntese varia com a luz, atingindo o seu
máximo ao meio-dia com céu limpo e decrescendo em
períodos nublados e de manhã ou de noite. A soma total
de fotossíntese num dado intervalo de tempo é
proporcional à soma total de luz recebida. Segue-se que
uma redução de luz causaria uma redução proporcional
do total de fotossíntese. Essa relação não leva em conta o
fato de que as plantas têm de manter-se a si mesmas e
produzir excedentes que sirvam de alimento para o
homem ou forragem para os animais.
Figura 1: A fotossíntese total de plantas cultivadas
(expressa sob a forma de energia equivalente dos
produtos formados, em watts por metro quadrado) é
proporcional à energia luminosa absorvida. Estes dados
são de algodoais, medidos em condições de campo num
dia típico de verão sem nuvens. (Reproduzido de Baker e
outros, Crop Science 12: 431 [1972].)

Em geral, requerem-se pelo menos 15 a 20% da


fotossíntese total diária para suprir a demanda respiratória
das plantas. Em ecossistemas complexos, que
compreendem grandes quantidades de biomassa
permanente e muitos consumidores neles encerrados,
como é o caso das florestas tropicais úmidas, essa fração
ainda é maior, correspondendo quase à fotossíntese total.
Sendo a fotossíntese total proporcional à luz, se a
intensidade da luz se reduz a 15 ou 20% da normalmente
recebida, a produtividade liquida das plantas cultivadas
cessará. E em florestas úmidas cessará mesmo antes
disso. Naturalmente, isso importa na interrupção do
crescimento de brotos, frutos e sementes, que são as
partes mais nutritivas e comestíveis das plantas. Sendo
as plantas consumidas pelos animais, a biomassa vegetal
poderia ser drasticamente reduzida por um período
extenso de escassez de luz. Quando os níveis de
iluminação voltassem ao normal, haveria menos biomassa
para absorver a luz e portanto menos fotossíntese até que
a cobertura vegetal fosse restabelecida.
Outro fator a influenciar a densidade da biomassa vegetal
é o frio extremo que segundo as previsões se seguiria a
um conflito nuclear, já que as baixas temperaturas podem
lesar ou mesmo matar as plantas (Quadro 1). Existem no
mundo regiões térmicas muito diferentes, e as plantas
dessas regiões têm sensibilidades correspondentes a
baixas temperaturas. As plantas tropicais, por exemplo,
vivem em áreas onde raramente ou nunca ocorrem
temperaturas de congelamento, e estas podem matá-las.
Em áreas de invernos rigorosos, os gomos dormentes das
plantas, quando convenientemente pré-condicionados,
toleram temperaturas de até -80ºC. Em qualquer habitat,
a tolerância das plantas à temperatura corresponde de
modo geral às temperaturas mais baixas passíveis de
ocorrerem neste habitat (ver Fig. 2). É provável que as
temperaturas no ambiente de pós-guerra cairiam abaixo
das mínimas normais. E é provável que as baixas
temperaturas matassem as plantas, especialmente nas
áreas em que o frio não é um fator ecológico normal.
Nos habitats mais frios, o efeito das baixas temperaturas
dependeria de estarem as plantas em hibernação ou em
seu estado ativo de verão. As folhas ativas das plantas de
qualquer região são muito sensíveis às baixas
temperaturas. Temperaturas de 4 ou 5ºC já podem afetar
seriamente o desempenho de plantas tropicais. Espécies
de coníferas nativas em regiões alpinas podem ser
prejudicadas no verão, quando estão crescendo
ativamente, por temperaturas de -10ºC. Assim, numa
guerra de verão, em que essas espécies experimentariam
um rápido declínio de temperatura, é provável que suas
folhas fossem lesadas, deixando menos biomassa
disponível para continuar a fotossíntese quando a luz
voltasse ao normal.
O que aconteceria com a fotossíntese em base mundial
nos anos seguintes a um conflito nuclear? A produtividade
fotossintética do mundo tem sido provavelmente muito
constante ao longo do tempo geológico, mais ou menos
5% do valor de 100%. No primeiro ano, em razão da
forte redução da luz que alcança a superfície da Terra, é
de prever que a produtividade fotossintética do Hemisfério
Norte cairia para uns 10-20% da normal. Muito
provavelmente, a que restasse ocorreria nos trópicos. No
segundo ano, embora a luz, a força motriz essencial da
fotossíntese, tivesse re tomado, a biomassa - as folhas
das plantas, as algas do oceano - seria menos densa,
donde absorveria menos luz e operaria menos
fotossíntese. Com isso, tenho a impressão de que a
fotossíntese não se restabeleceria tão depressa quanto a
luz. A continuação de baixas temperaturas e a presença
de luz ultravioleta (UV-B) também retardaria o
desenvolvimento de folhas e algas. Imagino que a
cobertura vegetal e a fotossíntese acabariam por voltar
aos níveis normais de antes da guerra, levando talvez
entre uma e algumas décadas. É muito difícil prever como
se apresentariam finalmente os ecossistemas contendo
essa biomassa.
DR. THOMAS C. HUTCHlNSON (Universidade de
Toronto): Supõe-se que todas as plantas que existem no
momento estariam no lugar, prontas para recuperar-se?

BERRY: Não é o que se supõe. É claro que se todas as


plantas estivessem aí e prontas para recuperar-se, a
perspectiva seria de que a fotossíntese retornaria em
pouco tempo aos níveis anteriores, já que a previsão é de
que a luz se restabeleceria bastante rapidamente no
segundo ano. Acho que basicamente a demora na
recuperação do potencial fotossintético é na verdade a
demora na restauração da cobertura vegetal na superfície
da terra.

HUTCHINSON: O senhor sugere então que haveria uma


demora de uns quatro anos no restabelecimento de uma
cobertura vegetal?

BERRY: Sim, mas isto é uma simples conjetura. Depende


do grau em que as plantas fossem afetadas no primeiro
ano.

MARK A. HARWELL (membro do painel): Esta


Conferência concentrou-se nas conseqüências de médio
e longo prazos de uma guerra nuclear, com atenção
especial para as novas e surpreendentes análises
das alterações climáticas previstas para o caso de uma
guerra nuclear em grande escala e para as óbvias e
inevitáveis catástrofes biológicas que adviriam de tais
agressões à biosfera global. Uma vez percebidas a
natureza e a magnitude das conseqüências atmosféricas,
foi fácil para o grande grupo de ecologistas e biólogos que
se reuniu em Cambridge em abril de 1983, para uma
discussão preliminar dessas questões, concordar com o
que diz respeito às conseqüências biológicas
correspondentes. Esse consenso foi apresentado aqui por
Paul Ehrlich e detalhado no artigo composto por um
comitê biológico, que trata das conseqüências retardadas
e indiretas em particular. Minha intenção aqui não é
repetir esses relatos, mas enfatizar alguns pontos
referentes à interação homem-ecossistema e apresentar
uma breve descrição geral dos impactos totais sobre o
homem, pelos efeitos imediatos de detonações nucleares
e no período mais longo subseqüente a uma guerra
nuclear, com base numa série de análises a que procedi
nos últimos meses.
Primeiro, quero assinalar as íntimas vinculações que
existem entre o homem e o meio. Praticamente toda a
vida da Terra depende em última análise da luz solar para
obter a energia que passa através dos sistemas
ecológicos e impulsiona a multiplicidade de fluxos de
matéria necessários à manutenção dos organismos vivos.
As plantas e os animais são essencialmente máquinas
movidas à energia solar, inclusive a espécie que mais nos
interessa, o Homo sapiens.
O homem depende dos sistemas ecológicos para a maior
parte das suas funções de conservação. Em primeiro
lugar, é claro, estão o alimento e a água incontaminada.
Também são essenciais abrigo, energia, melhoramento
do clima, purificação do ar, controle de pragas e doenças
e uma série de outros serviços.
Há que fazer distinção entre dois tipos de ecos sistemas -
naturais e manipulados. Estes são principalmente os
sistemas agrícolas, mas também compreendem outros
sistemas de manipulação de recursos como as florestas e
os minerais. Em geral, esta classe pode ser definida de
modo aproximado como sistemas de base biológica que
são diretamente controlados pelo homem e pelos
sistemas societários. Eu faço essa distinção pelo
seguinte: hoje a população do mundo é de mais de 4,5
bilhões. Embora possa não haver consenso entre os
ecologistas e outros quanto à capacidade de carga da
Terra para sustentar a espécie humana mediante
ecossistemas naturais e manipulados, uma coisa é certa:
a capacidade de carga dos ecossistemas naturais, por si
sós, é muito inferior à população humana atual. Quer
dizer, os ecossistemas naturais simplesmente não podem
sustentar 4,5 bilhões de caçadores-colhedores; não há o
que caçar ou colher em quantidade bastante para
alimentar tantos indivíduos - mesmo com ecossistemas
sadios.
Os sistemas biológicos manipulados que sustentam os
seres humanos dependem totalmente da sociedade
humana organizada para manutenção e reforço.
Obviamente, um sistema não produzirá alimentos se o
homem não suprir as sementes, o cultivo, os adubos e em
muitos casos a água, além de várias outras atividades
que mantêm produtivos os ecos sistemas manipulados.
Além disso, mesmo com produção adequada de
alimentos, a população humana não poderia ser
abastecida sem uma extensa rede de sistemas de
transporte e distribuição. O problema é que esse apoio
humano aos sistemas manipulados deixaria de ser
operativo após uma guerra nuclear da escala considerada
nesta Conferência.
Assim, após uma guerra nuclear, o homem perderia o
sustento dos sistemas manipulados mesmo sem as
agressões climáticas e outras até aqui mencionadas. Os
sobreviventes humanos seriam obrigados a recorrer ao
mundo natural em busca de um nível de sustento que a
Terra não poderia fornecer mesmo em condições
saudáveis, justamente quando os sistemas naturais
estariam padecendo distúrbios sem precedentes. Em
suma, os sistemas naturais hoje só poderiam sustentar
uma pequena fração da população do mundo; depois de
uma guerra nuclear, esses sistemas não estariam em boa
forma, e sua capacidade de prover às necessidades
humanas estaria drasticamente reduzida.
Um tópico relacionado diz respeito às vinculações entre o
homem e o meio depois de passado o pior, isto é, nos
anos subseqüentes ao inverno nuclear do que falamos.
Dependendo de quanto se tenha reduzido o nível de
população humana, e de até que pontos os sistemas
ecológicos tenham regredido, é provável que a
recuperação humana não possa operar-se mais depressa
que o ritmo de recuperação dos sistemas naturais, e a
dependência acrescida do homem em relação a esses
sistemas naturais pode levar a um retardamento dos
processos de recuperação. Para dar apenas um exemplo,
um grupo de sobreviventes famintos poderia despojar
sistemas ecológicos da sua energia excedente a custo
captada para crescimento, reprodução, reservas
nutritivas, etc., dessa forma retardando os
processos naturais requeridos para o restabelecimento e
recuperação dos ecossistemas.
Já foram mencionados os problemas que seriam
encontrados pelos sobreviventes que tentassem recorrer
aos ecossistemas costeiros para sustento. Foi dito que as
regiões costeiras seriam batidas por tempestades de
grande violência, produzidas pelo acentuado gradiente de
temperatura entre as massas de ar continentais e
marítimas; elas receberiam um quinhão desigual de
radionuclídeos e destruição de habitats por várias razões,
entre as quais: porque as áreas urbanas localizam-se
predominantemente em regiões costeiras; devido às
táticas de barragem da guerra anti-submarina; e porque
os estuários ficam a jusante da maioria dos sistemas e
recebem uma parte desproporcionada das águas de
escoamento. Acresce que os ecossistemas marinhos são
particularmente vulneráveis tanto às reduções de luz
como aos aumentos de UV-B, o que poderia resultar na
devastação da base alimentar do fitoplâncton. Concluiu-se
que essas perturbações, conjugadas à insuficiência de
energia e de barcos para pesca ao largo, indicam
pequena capacidade de sustentação do homem depois de
uma guerra nuclear. A questão agora é que com os
ecossistemas terrestres as coisas não seriam muito
melhores.
Por exemplo, praticamente todos os sistemas de água
potável nas áreas continentais do Hemisfério Norte
congelariam por completo, a profundidades de 1 a 1,5
metro. E seriam cobertos por precipitação de ra-
dionuclídeos, fuligem e substâncias tóxicas, de modo que
água de beber para os seres humanos e outra biota seria
escassa. Além disso, quando finalmente viesse o degelo,
haveria enchentes de grandes proporções, possivelmente
agravadas pelo aumento de temperatura que ocorreria à
médio prazo em regiões de montanha, como sugerido
nesta Conferência por Aleksandrov da URSS.
Entre outros fatores, haveria um impacto
desproporcionado nos componentes comestíveis das
plantas terrestres. Por exemplo, o solo congelado
inutilizaria tubérculos e raízes. Frutos, bagas e brotos não
seriam produzidos em condições de pouca luz e baixas
temperaturas. Assim, praticamente toda a biomassa
permanente dos ecossistemas terrestres seria constituída
por compostos de celulose. Infelizmente, os seres
humanos não podem consumir nem digerir troncos de
árvores.
Tal como o homem, a maior parte dos outros vertebrados
terrestres sofreria mortalidade em massa. Suas carcaças
congeladas só temporariamente forneceriam alimento aos
homens. As populações animais, ao se restaurarem,
provavelmente seriam dizimadas para servir de alimento
tão rapidamente quanto se reproduzissem, mantendo
muito baixos os níveis de população, já que os humanos
despenderiam quantidades incomuns de energia na
obtenção de carne. Somente as espécies capazes de
multiplicação rápida reconstituiriam em tempo curto as
suas populações; mas estas são as espécies nocivas, que
não se prestam a fornecer energia e que trazem consigo
uma série de influências negativas, entre elas a
propagação de doenças.
Mesmo sem outras formas de intervenção humana, a
recuperação de ecossistemas poderia levar mais tempo
do que à primeira vista pode parecer. Perda de solos e
substâncias nutrientes, perda de sementes, efeitos
continuados de UV-B acrescida, temperaturas
relativamente baixas com possível redução de chuvas,
exposição continuada ao ozônio, a radionuclídeos e a
outros fatores adversos, tudo isso tenderia a retardar a
recuperação. Reações à longo prazo a alguns anos de luz
e temperatura alteradas poderiam resultar em menor
produtividade florestal e alterações nas composições de
espécies durante dezenas de anos. Numa palavra, os
ecossistemas terrestres não proporcionariam sustento
fácil aos sobreviventes.
Vejamos agora um panorama das baixas humanas
causadas por efeitos diretos e indiretos de uma guerra
nuclear. Um estudo recente da Organização Mundial de
Saúde prevê 1,1 bilhão de mortes e 1,1 bilhão de lesões
diversas em todo o mundo como decorrência de
explosões e outros efeitos imediatos. O estudo da Ambio
indicou três quartos de bilhão de casos fatais em toda a
Terra. Meus colegas e eu analisamos em maior detalhe
os efeitos na população americana.
Utilizando um cenário muito semelhante ao proposto pela
Ambio de uma guerra nuclear representativa em grande
escala, envolvendo aproximadamente 5.700 megatons de
energia total, eu considerei os efeitos de um ataque
combinado de contra-força (i.e., contra objetivos militares)
e contra-valor (contra alvos civis e industriais) aos
Estados Unidos, em que todas as áreas urbanas de mais
de 100.000 habitantes e a maior parte das instalações
militares e principais concentrações industriais fossem
alvejadas. Preparei um diagrama sintético dos efeitos
resultantes (ver Quadro 2).
As mortes produzidas pelas explosões poderiam atingir de
50 a 80 milhões de americanos, de uma população em
risco (i.e., dentro das áreas urbanas atacadas) de 110
milhões, com mais 30 milhões de feridos graves em
conseqüência de explosões. A exposição direta à
radiação infravermelha e as queimaduras resultantes
poderiam matar outros 1 a 15 bilhões, e de 1 a 7 milhões
poderiam morrer nos incêndios e tempestades ígneas nas
áreas urbanas. A radiação ionizante inicial não
aumentaria o número de mortos e feridos, pois para as
armas consideradas no cenário (100 quilotons a 1
megaton de potência cada) as áreas letais determinadas
por explosão e radiação térmica excedem aquelas em que
os nêutrons rápidos e raios gama das detonações
nucleares seriam fatais; os que em outras condições
morreriam por radiação inicial aguda já estariam mortos.
No entanto a precipitação local poderia matar entre 12 e
18 milhões de pessoas que tivessem sido expostas no
primeiro dia, e mais 40 ou 50 milhões seriam expostas a
níveis mortais de precipitação nos dias e semanas
subseqüentes.
No total, uns 125 a 170 milhões de americanos morreriam
no nosso cenário de referência, e mais 30 a 50 milhões
sofreriam lesões exigindo cuidados médicos, tudo isso
pelos efeitos imediatos e diretos das detonações.
Portanto, restariam entre 10 e 75 milhões de americanos
e entre 2 e 3 bilhões de habitantes do mundo para
enfrentar o inverno nuclear e os anos seguintes.
A maior parte dos outros efeitos relacionados no citado
Quadro 2 (i.e., a prazo mais longo e por mecanismos
indiretos) já foi referida neste livro e não será repetida
aqui. Alguns outros aspectos devem ser comentados.
A poluição do ar poderia produzir efeitos dilatados; por
exemplo, o estudo TTAPS prevê concentrações médias
de ozônio durante vários meses, nas latitudes médias, de
150 partes por bilhão em volume, próximas dos níveis que
em exposições de apenas duas horas causam lesões
evidentes à maior parte das espécies vegetais.
A escassez de alimentos resultante do inevitável colapso
dos sistemas agrícolas, da paralisação dos sistemas de
transporte e distribuição e da incapacidade das plantas
cultivadas de sobreviver às alterações de clima poderia
levar à morte pela fome centenas de milhões ou bilhões
de pessoas em todo o mundo. Isto abarcaria não apenas
as nações diretamente envolvidas na guerra, como
também países distantes do conflito direto mas fortemente
dependentes das exportações de alimentos da América
do Norte. A demora no restabelecimento de
agroecossistemas, devida a impedimentos físicos e
societários, teria grandes reflexos no ritmo de
recuperação das populações humanas durante muitos
anos depois de uma guerra nuclear.
Os sistemas médicos também deixariam de existir, como
declarou a organização dos Médicos pela
Responsabilidade Social, e pouca ou nenhuma
assistência restaria para os milhões de indivíduos
afetados. Com o passar do tempo, grandes surtos de
moléstias contagiosas matariam milhões, especialmente
nas primeiras fases do pós-guerra, quando as pessoas se
aglomerariam em abrigos para proteger-se das
intempéries, da radiação e de bandos de outros
indivíduos, numa ocasião em que sistemas sanitários e
água incontaminada teriam virtualmente desaparecido.
Com isso, ocorreriam principalmente doenças entéricas.
Mais tarde, alastrar-se-iam epidemias e pandemias
veiculadas por animais transmissores, como peste
bubônica e hidrofobia.
Finalmente, um fator importante para os sobreviventes
humanos seria a tremenda sobrecarga psíquica que
afetaria a todos em todo o mundo. Concomitantemente,
haveria o colapso dos sistemas societários em geral, na
medida em que a civilização organizada deixaria de
existir, e em que a espécie humana, reduzida ao nível do
indivíduo ou de pequenos grupos, seria lançada de
repente num mundo de condições extremamente hostis,
em que estaria em competição sem precedentes por
recursos drasticamente reduzidos. É quase impossível
prever que condutas os sistemas societários iriam adotar,
mas sem dúvida nenhuma a competição intensa por
recursos limitados imporia à espécie um conseqüente
tributo adicional.
O quadro evidente que resulta dessas considerações é
que o mundo de pós-guerra nuclear seria um lugar
inóspito para a maioria ou para a totalidade dos homens
da Terra. Uma guerra nuclear de qualquer categoria que
não a mais limitada constitui não simplesmente uma
guerra entre os combatentes, mas uma guerra contra a
biosfera e contra todos os seus habitantes humanos. As
conseqüências humanas dificilmente se restringiriam às
mortes imediatas nas proximidades das detonações; ao
contrário, uma guerra nuclear afetaria fundamentalmente
todos os seres humanos existentes e todas as gerações
previsíveis que se seguissem, se, aliás, o Homo sapiens
não chegasse ao estado irreversível da extinção.
WOODWELL: Os efeitos aqui descritos como produto
inevitável de quase qualquer uso hostil de armas
nucleares constituem não apenas uma transformação
fundamental do habitat do homem, como uma
transformação do habitat de todos os organismos da
Terra, uma transformação radical e irreversível da
biosfera. Nós não conhecemos nenhum outro lugar onde
ocorra vida - não há vida em Vênus, nem em Marte, nem
em Júpiter, nem na Lua - em parte alguma. As
circunstâncias físicas de cada um desses vizinhos mais
próximos da Terra estão muito além dos limites
compatíveis com a sustentação da vida, em cada um
deles por motivos diferentes. E está claro agora como
seria fácil libertar na biosfera uma quantidade de energia
suficiente para modificar radicalmente a Terra, limitando,
e talvez eliminando, grandes segmentos da biota. Que
espécies de transformações ocorreriam de início? O que
sobreviveria? O que desapareceria primeiro?
Nós pensamos no homem como ocupando na biosfera um
posto dominante. No entanto a sua agricultura cobre não
mais de 10% da superfície das terras; o resto do planeta é
constituído por comunidades naturais, afetadas mas não
manipuladas pelo homem. A biosfera é fortemente
influenciada por essas comunidades. Por exemplo, o teor
de dióxido de carbono da atmosfera foi e continua sendo
modulado, talvez determinado, pelo menos dentro de
certos limites, pelo metabolismo das florestas.
Em todas as concepções de como a biosfera opera, as
florestas têm papel preponderante; são elas a principal
vegetação da maior parte da porção da Terra habitada
pelo homem; elas contêm de duas a três vezes
mais carbono do que a atmosfera; são elas o principal
reservatório de diversidade biótica em termos globais. As
florestas oferecem um foco apropriado para a
compreensão do caráter das alterações bióticas que
seriam de esperar. Qual seria esse caráter? O que
representariam tais alterações para o homem, se a essa
altura ele ainda existisse? Apesar da falta de experiência
direta, é possível inferir como seria esse mundo. Paul
Ehrlich sugeriu que extinções seriam comuns. Extinção, é
claro, significa a eliminação de uma espécie - a
eliminação do pool gênico. As extinções são irreversíveis;
geralmente ocorrem quando o habitat é drasticamente
alterado. A experiência, pelo menos nesse contexto, é
limitada. Que espécies são vulneráveis? Quais são
resistentes? Se o homem sobrevivesse, como se
apresentaria o mundo?
Alguns exemplos podem ser usados como base de
dedução. Entre elas, as devastadoras deformações da
paisagem produzidas pela fusão de minérios de cobre e
outros em Copperhill no Tennessee, em Palmerton na
Pensilvânia e em Sudbury no Ontário. Mas um dos
estudos mais pertinentes e mais facilmente interpretados
é uma análise, ao longo de 15 anos, das mudanças
provocadas numa floresta de carvalhos e pinheiros na
região central de Long Island, Estado de Nova York, por
exposição crônica a radiação ionizante. A exposição
variou de alguns milhares de roentgens por dia a níveis
residuais, que são de menos de 1/10 de roentgen por ano
no meio normal. Exposições de alguns roentgens por dia
produziram alterações drásticas na floresta. Essas
alterações, embora produzidas por radiação ionizante,
uma agressão incomum na maior parte da biosfera, foram
semelhantes às observadas em outras partes em
resposta a gradientes de exposição a condições
climáticas extremas, como na transição de floresta para
tundra, e à poluição, como em Sudbury e outros lugares.
Tais alterações são hoje reconhecidas como causadas
por uma larga gama de perturbações; constituem o que
chamamos de empobrecimento biótico. Em termos
hemisféricos, e talvez globais, os princípios gerais do
empobrecimento biótico, definidos principalmente nesses
exemplos, aplicar-se-iam após praticamente qualquer uso
de armas nucleares numa guerra.
O estudo de Long Island, realizado no Laboratório
Nacional de Brookhaven, tinha por fim examinar os efeitos
ecológicos da radiação ionizante. Uma fonte potente de
raios gama, que são semelhantes aos raios X, foi
colocada no centro de uma floresta cuidadosamente
escolhida. No primeiro ano da experiência determinou-se
o padrão de alteração em torno da fonte. Nos anos
seguintes as alterações simplesmente tornaram-se mais
pronunciadas e o círculo de danos, maior.
A floresta foi afetada sistematicamente. As árvores em
geral mostraram-se mais vulneráveis; o pinheiro, Pinus
rigida, de todas as espécies era a mais sensível, mas
pinheiros e carvalhos foram eliminados em conjunto,
deixando intacta uma comunidade de arbustos, ervas e
gramíneas, musgos e líquens. Com exposições mais altas
foram eliminados os arbustos lenhosos; depois as ervas e
gramíneas; e com exposições ainda mais altas só
restaram certos musgos e líquen. E no interior de cada
um desses grupos houve uma seleção; as formas de
menor corpo e crescimento mais lento mostraram-se mais
resistentes. Líquens crustáceos resistiram mais que as
formas eretas folhosas e fruticosas.
Os princípios gerais extraídos dessa experiência e de
outras similares com empobrecimento biótico sistemático
são simples mas importantes. Em geral, as espécies mais
vulneráveis a qualquer tipo de alteração crônica ou aguda
do habitat são as de grande corpo e ciclos reprodutivos
longos. As mais resistentes são as de pequeno corpo e
alto potencial reprodutivo. Neste grupo reconhecemos
espécies que competem eficazmente com o homem e
lhes damos o nome de "pragas". São as ervas daninhas e
os insetos dos jardins, as espécies de beira de estrada e
de outros locais cronicamente perturbados. Todo meio
crônica ou intensamente perturbado é sujeito a esse
padrão de alteração - e no nosso mundo existem hoje
muitos desses locais. O olho exercitado percebe
constantemente ao nosso redor essa contínua sucessão
de transições.
Uma guerra nuclear acarretaria uma série de transições
quase inimagináveis. Num mundo de pós-guerra as
espécies pequenas e de multiplicação rápida seriam
grandemente favorecidas; as grandes se extinguiriam. O
homem é vulnerável a essa espécie de mudança; são-no
igualmente a maior parte dos mamíferos, as árvores,
muitos arbustos e muitas plantas superiores. As mais
resistentes são as formas inferiores: bactérias, fungos,
certos musgos, líquens, algas e protozoários.
As florestas seriam raras nesse novo mundo, inicialmente
destruídas em grandes extensões por explosões, fogo e
radiação, e mais tarde, em escala continental, pela
escuridão e pelo frio prolongado. É difícil exagerar a
gravidade do desastre, mas é provável que em alguns
bolsões as florestas fossem preservadas e sobrevivessem
indivíduos de uma diversidade de espécies: refúgios,
talvez.
A questão é vasta, fundamental e premente, e requer
análises muito mais profundas. Mas, a este primeiro
exame, os efeitos possíveis estendem-se muito além dos
limites dos estudos objetivos correntes da ecologia e
entram num novo domínio, suficientemente incerto para
levar a supor que as extinções previstas nessa onda de
empobrecimento venham a incluir, pelo menos
potencialmente, o Homo sapiens.

DR. THOMAS EISNER (membro do painel): Inicialmente,


minha intenção, como último expositor deste painel, era
apresentar um sumário das conseqüências biológicas de
uma guerra nuclear. Mas isso seria repetitivo, tendo em
vista o que foi dito pelos que me antecederam. Portanto,
vou falar de dois pontos específicos, e terminar fazendo
um apelo.
O primeiro ponto diz respeito à conceituação de uma
grandeza. Qual a dimensão do arsenal nuclear do mundo,
perguntam-nos com freqüência, e como é possível "sentir"
essa magnitude? Vamos expressá-lo assim. A bomba de
Hiroxima tinha um poder explosivo (equivalente de TNT)
de 13.000 toneladas. Sabemos o que a bomba fez, pois
vimos as fotografias. O estoque nuclear estratégico do
mundo, em contraste, tem um poder explosivo potencial
de mais de 13.000 megatons. Quer dizer, nós temos hoje
a capacidade de desencadear o equivalente a um milhão
de Hiroximas. Tentem imaginar o que isso significa.
Suponham que eu começasse a largar bombas do
tamanho da de Hiroxima, uma de cada vez, a partir deste
momento, à razão de uma por segundo, 60 por minuto,
3.600 por hora. Quando acabariam as minhas bombas? A
resposta espantosa é: 11,6 dias. Para esgotar o arsenal
mundial nas 48 horas de duração desta Conferência, eu
precisaria lançar as minhas bombas num ritmo
ininterrupto de seis por segundo! Não admira que uma
guerra nuclear - mesmo uma guerra limitada em que
menos da metade do arsenal do mundo fosse detonada -
deva produzir uma catástrofe de amplitude inaudita.
Meu segundo ponto diz respeito ao grau em que nós, os
biólogos que participamos desta Conferência,
concordamos com as conclusões aqui expressas.
Repetidamente têm-me perguntado no curso destes
trabalhos se nós estamos de acordo com os prognósticos
dos físicos especialistas em atmosferologia, e se as
nossas opiniões coincidem em todos os aspectos relativos
às implicações biológicas dessas previsões. Em primeiro
lugar, deve ficar claro que não existem divergências
quanto aos efeitos à curto prazo de um conflito nuclear,
isto é, quanto aos efeitos das explosões, do fogo e da
radiação, que num conflito de 5.000 a 10.000 megatons
devem resultar em mais de um bilhão de mortes imediatas
e em número igual de feridos graves. E, segundo, deve
ficar clara a nossa convicção de que um "inverno nuclear",
com todo o seu cortejo de calamidades biológicas, é sem
dúvida nenhuma uma perspectiva bem real como
decorrência de uma guerra nuclear. Estamos convencidos
de que um período prolongado de temperaturas glaciais e
baixos níveis de iluminação, conjugado à exposição
acrescida a radiação ionizante e ultravioleta, pode destruir
o sistema de sustentação biológica da civilização, com
certeza no Hemisfério Norte e possivelmente, pelo
extravasamento dos efeitos climáticos e biológicos, em
áreas não alvejadas do Hemisfério Sul. Embora
estejamos de acordo nos pontos principais, alguns de nós
conjeturam se não estaríamos subestimando os efeitos
biológicos. Sinergismos e efeitos em cascata são uma
conseqüência comum de rupturas ambientais, e tendem a
ser imprevisíveis e só verificáveis a posteriori. O que é
previsível em matéria de conseqüências biológicas de
uma guerra nuclear já é bastante mau; não seriam as
conseqüências reais ainda piores? Por 40 anos nós
permanecemos na ignorância da possibilidade de um
inverno nuclear. O que mais nos terá passado
despercebido? Chegaremos a ver a extinção da espécie
humana como conseqüência inevitável de uma guerra
nuclear? E a essa altura, com a contínua escalada das
armas, não teremos avançado para ainda mais perto do
abismo?
O apelo que quero fazer é simples. Há muitos anos tenho
pensado na guerra nuclear, mas não me pareceu que a
questão devesse suscitar o meu envolvimento direto na
qualidade de biólogo. Tenho-me ocupado de
conservação, e como ecologista e naturalista entusiasta,
tenho dedicado meu tempo a iniciativas educacionais e a
esforços de preservação da Terra. Agora dei-me conta de
que o impacto de uma guerra nuclear é abrangente e
fundamentalmente biológico. Daí o meu apelo, que quero
estender aos eleitores americanos que alguns anos atrás
me nomearam presidente da AAAS (Associação
Americana para o Progresso da Ciência), bem como aos
biólogos de todo o mundo. Já não creio que um único
biólogo possa permanecer isento de envolvimento na
questão da guerra nuclear. Não importa qual a
especialidade ou quais os cursos ministrados, o
envolvimento se impõe, pois tanto a especialidade como
os cursos relacionam-se inevitavelmente a algum aspecto
das conseqüências biológicas de uma guerra nuclear. Nas
suas aulas e nos seus escritos, os biólogos têm de
manifestar-se. O que ficamos sabendo sobre o inverno
nuclear precisa ser divulgado, e a preocupação expressa
nesta Conferência tem de ser transmitida ao mundo
inteiro. Só pelo esclarecimento poderemos impedir o
"escurecimento" nuclear. A questão não é de confronto
político, mas de sobrevivência biológica. O inimigo não é
a União Soviética, nem os Estados Unidos, mas as
próprias armas nucleares.

A CONEXÃO MOSCOU
UM DIÁLOGO ENTRE CIENTISTAS NORTE-
AMERICANOS E SOVIÉTICOS
DR. THOMAS F. MALONE (presidente): A Conferência
sobre o Mundo após a Guerra Nuclear é uma iniciativa
científica que visa reunir conclusões existentes e novas
sobre os efeitos atmosféricos e climáticos globais à longo
prazo de uma guerra nuclear e suas conseqüências para
a vida. Os organizadores da Conferência evitaram
rigorosamente extrair quaisquer implicações políticas das
suas conclusões. Nosso objetivo é esclarecer questões e
não advogar tal ou qual ponto de vista. Todos os
participantes deste programa entendem e concordam que
a Conferência não é um fórum para discutir linhas de ação
ou temas de política. Um compromisso semelhante está
subentendido nesta troca de pareceres entre Cientistas
reunidos em Washington e em Moscou.
Comigo na tribuna estão o Dr. Carl Sagan, astrônomo e
cientista espacial da Universidade Cornell; o Dr. Paul
Ehrlich, ilustre biólogo da Universidade Stanford; e o Dr.
Walter Orr Roberts, meu velho amigo, astrônomo,
meteorologista e ex-presidente da Associação Americana
para o Progresso da Ciência.
Essa comunhão de preocupações entre cientistas e entre
a comunidade científica e o público é mais um passo num
processo que começou há mais de um ano em Roma,
quando os líderes científicos do mundo fizeram em
uníssono esta declaração: “A partir de 1945 a natureza da
guerra mudou tão profundamente que o futuro da espécie
humana, de gerações ainda por nascer, está em risco". O
debate das questões científicas relevantes terá
prosseguimento brevemente em Estocolmo, sob os
auspícios do Conselho Internacional de Uniões
Científicas.
Agora tenho o prazer de apresentar um velho amigo, o
acadêmico Yevgeniy Velikhov, vice-presidente da
Academia de Ciências da URSS.

VELIKHOV (em Moscou): Está aqui comigo hoje o Dr.


Yuri Israel, membro correspondente da Academia de
Ciências da URSS e diretor do Comitê de
Hidrometeorologia e Controle do Ambiente. Quero
apresentar também o acadêmico Alexander Bayev,
especialista em biologia e genética molecular e secretário
do Departamento de Fisiologia Bioquímica, Biofísica e
Química da Academia de Ciências da URSS; e Nikolai
Bochkov, acadêmico da Academia Médica de Ciências e
diretor do Instituto de Genética da Academia de Ciências
da URSS. Agora gostaríamos de ouvir o Dr. Carl Sagan,
do outro lado do Atlântico.

SAGAN: Fui incumbido de recapitular as conclusões


físicas e climáticas do estudo apresentado no início desta
Conferência, estudo esse realizado juntamente com meus
colegas Drs. Turco, Toon, Ackerman e Pollack, e
conhecido como TT APS, iniciais dos autores. Nós
investigamos uma série de conseqüências de diversos
cenários de guerra nuclear.
Por exemplo, analisamos o perfil atmosférico da
estratosfera e da troposfera (ver Fig. 1A, p. 43). O
material injetado na estratosfera por uma explosão
nuclear precipita muito lentamente; o injetado na
troposfera precipita mais rapidamente. Assim, explosões
de armas nucleares de alta potência transportam poeira
na bola de fogo ascendente e no penacho da nuvem em
cogumelo e elevam-na à estratosfera, donde ela precipita
lentamente, ao passo que armas nucleares de baixa
potência introduzem poeira na troposfera, donde ela
precipita com relativa rapidez. Se uma guerra nuclear
resulta na queima de cidades e florestas, partículas finas -
partículas de fumaça, fuliginosas, muito escuras - entram
na baixa atmosfera. Essa combinação de poeira
levantada por explosões nucleares de alta potência e
fuligem de cidades e florestas incendiadas por
detonações aéreas de qualquer potência produz, segundo
os nossos cálculos, um manto de material em suspensão
que escurece e esfria acentuadamente a Terra. A
estrutura do que era anteriormente a troposfera seria
profundamente alterada.
Entre os cenários que estudamos há o caso de referência
de uma guerra de 5.000 megatons, em que a temperatura
no interior dos continentes cai abruptamente em poucas
semanas a algumas dezenas de graus abaixo do ponto de
congelamento da água, e leva meses para retornar às
condições ambientais (ver Quadro 1, p. 49).
Outro cenário considerado foi um ataque só de contra-
força de 3.000 megatons, em que não há queima de
cidades. É um ataque bastante modesto no contexto das
doutrinas estratégicas modernas. Nesse cenário a
temperatura baixa uns 7 ou 8 graus e leva cerca de um
ano para voltar ao normal.
Uma queda de 7 a 8 graus na temperatura global já é
suficiente para destruir a produção de trigo e milho dos
Estados Unidos, Canadá e União Soviética, e por si só
representaria urna agressão extremamente desastrosa ao
meio do planeta. Também estudamos alguns casos bem
piores. Talvez o fato mais interessante a surgir foi que um
ataque de 100 megatons, em que armas de centenas de
quilotons sejam detonadas sobre áreas metropolitanas,
pode produzir fumaça suficiente para provocar sérias
catástrofes climáticas com a duração de muitos meses.
Além do escurecimento e da queda de temperatura, uma
guerra nuclear teria outras conseqüências. Haveria gases
tóxicos produzidos nos incêndios de cidades. Haveria a
radioatividade, que em grandes áreas do Hemisfério Norte
atingiria níveis perigosos para o homem - 100 rads ou
mais. E quando a fumaça e a poeira se dissipassem,
haveria o fluxo de radiações ultravioleta da faixa UV-B
aumentado de duas a quatro vezes, dependendo do total
de energia liberada.
Tendo em mente as indicações recentes de que também
o Hemisfério Sul seria gravemente afetado, concluímos
que após uma guerra nuclear, ainda que em escala
relativamente reduzida, haveria um conjunto de agressões
simultâneas de magnitude sem precedentes. contra a
biosfera (ver Quadro 2, pp. 55-56).
O limiar para produção dos efeitos climáticos situa-se de
modo muito aproximado em torno de mil armas nucleares
detonadas, dependendo principalmente da estratégia de
seleção de objetivos. Sabemos que os arsenais
estratégicos somados dos Estados Unidos e União
Soviética superam de muito - cerca de 17 vezes - esse
limiar. Sabemos agora que desde o começo dos anos 50
os dirigentes das duas nações têm tomado decisões
sobre os negócios mundiais na ignorância das
conseqüências climáticas possivelmente funestas do
emprego de armas nucleares. E agora percebemos pela
primeira vez que as conseqüências de uma guerra
nuclear poderiam ser absolutamente arrasadoras para
países muito afastados do conflito. Note-se, finalmente,
que essas conclusões são apoiadas por uma ampla série
de estudos, tanto nos Estados Unidos como na União
Soviética.
Agora passo a palavra ao Dr. Paul Ehrlich, ilustre
professor de Biologia da Universidade Stanford.

EHRLICH: É meu desagradável dever informar-lhes algo


que imagino não constituirá surpresa para os meus
colegas da União Soviética, a saber, que um grupo muito
grande de proeminentes biólogos nos Estados Unidos,
inteirado dos cenários que o Dr. Sagan acaba de
descrever, chegou a urna conclusão unânime sobre as
conseqüências para os sistemas biológicos. Tal
unanimidade é rara em nossa ciência aqui, e estou certo
de que na dos senhores também.
Estamos falando do que acontece após uma guerra
nuclear, depois que as bombas explodiram e causaram
talvez um bilhão de mortes imediatas. O que acontece é
que os sobreviventes - os sobreviventes humanos, assim
como as plantas e os outros animais do planeta - são
submetidos simultaneamente a uma série de agressões
sem precedentes.
A temperatura cai algumas dezenas de graus, descendo
abaixo do ponto de congelamento, mesmo no verão; se a
guerra ocorrer no inverno, as baixas temperaturas
prolongam-se pela primavera. Ao mesmo tempo, a luz
solar é bloqueada, de modo que a fotossíntese é reduzida
ou eliminada. Os níveis de radiação alcançam valores
suficientes para matar coníferas em grandes extensões,
que podem chegar a 2% da área continental do
Hemisfério Norte.
Depois uma névoa tóxica - uma camada venenosa de
poluição do ar - espalha-se por todo o Hemisfério Norte.
Quando os efeitos atmosféricos começam a dissipar-se,
quando avança o processo de remoção da fuligem, a
Terra é inundada por um fluxo de luz ultravioleta, de UV-
B.
Assim, a base da produtividade do planeta, pelo menos
no Hemisfério Norte, terá sido acometida por uma série de
agressões, cada uma delas extraordinariamente deletéria.
É evidente para todos nós, por exemplo, que a
produtividade agrícola após uma guerra nuclear em
grande escala se anularia no Hemisfério Norte por I um
ano pelo menos, e provavelmente por muito mais tempo.
Além disso, grande parte das disponibilidades existentes
de alimentos seria destruída. E em muitas áreas seria
difícil obter água porque as massas de água doce do
interior dos continentes estariam congeladas a uma
profundidade de talvez 1 a 2 metros.
Em geral, é de prever um colapso dos sistemas de
sustentação de vida, pelo menos nas zonas temperadas
do Hemisfério Norte, levando a uma situação em que a
sobrevivência da civilização nessas zonas seria
extremamente difícil ou impossível.
Há menos certeza quanto à propagação dos efeitos ao
Hemisfério Sul. É praticamente certo que a nuvem de
fumaça e fuligem penetraria as grandes áreas tropicais do
Hemisfério Norte, o que em si já seria muito grave, visto
que essas áreas constituem o maior reservatório de
diversidade orgânica deste planeta. Plantas, outros
animais e microorganismos são uma biblioteca genética
inestimável da qual nós já retiramos a própria base
da nossa civilização, e essa biblioteca seria ameaçada ou
em grande parte destruída se os efeitos se estendessem
para o sul.
E se os efeitos se disseminassem generalizadamente no
Hemisfério Sul, nossa conclusão é que por certo alguns
grupos humanos sobreviveriam - talvez em áreas
costeiras ou ilhas -, mas enfrentariam uma situação
ecológica e social absolutamente insólita e extremamente
maligna. Ao que nos parece, não se pode excluir a
possibilidade de que a espécie humana, após um tal
evento, venha a declinar aos poucos e finalmente
extinguir-se.
Achamos que as conclusões biológicas são óbvias e
perfeitamente sólidas para toda a gama de cenários,
desde um ataque de 100 megatons a cidades até um
conflito de 10.000 megatons, com ataques de contra-força
e contra-valor.
Impressionou-nos muito uma das conclusões óbvias:
teoricamente é possível à União Soviética ou aos Estados
Unidos lançar um primeiro ataque de 3.000 megatons
contra os silos do outro país e destruí-Ios, sem - em
teoria, pelo menos - lesar um 11nico fio de cabelo de
qualquer cidadão do país atacado, não receber fogo de
resposta e, em o fazendo, destruir ambas as nações pela
destruição da sua produtividade agrícola, resultante do
escurecimento e baixa de temperatura. Não é preciso
lembrar-lhes que o bastião alimentar do mundo é a
produção de grãos do Hemisfério Norte, principalmente
nas planícies centrais dos Estados Unidos e do Canadá, e
que a sua anulação, num só ano que fosse, seria para a
humanidade um desastre nunca visto.
Basicamente, é fácil para um biólogo concluir dos
resultados expostos pelos físicos e climatologistas que
uma guerra nuclear oferece quase certamente perigos
bem maiores que os já catastróficos efeitos instantâneos
e mortes imediatas.

ISRAEL: O uso intensivo dos recursos naturais e o


desenvolvimento industrial acelerado em muitos países
nas circunstâncias de uma crescente corrida
armamentista já vem criando uma série de problemas
ecológicos globais. É evidente que no caso de uma guerra
nuclear a biosfera será comprometida em proporções
multiplicadas, e que isso trará conseqüências
catastróficas para a humanidade e para a biosfera como
um todo. Hoje as conseqüências de uma possível guerra
nuclear estão sendo discutidas em todas as partes do
mundo. Na avaliação dos resultados, admite-se que a
energia total liberada poderia alcançar de 6.000 a 15.000
megatons.
Em meu pronunciamento eu gostaria de abordar
sucintamente as conseqüências geofísicas e geológicas
de vários fatores de exposição.
Primeiro, uma grande quantidade de produtos radioativos
seria descarregada na atmosfera. Esses produtos
radioativos causarão danos por radiação nos sistemas
ecológicos, alterações nas propriedades elétricas da
atmosfera e alterações na ionosfera. E isso acarretará
efeitos biológicos diversos.
O segundo fator é a poluição da atmosfera por uma
enorme quantidade de partículas de aerossol produzidas
por explosões nucleares de alta potência, ou pelo
desprendimento maciço de fuligem e poeira dos incêndios
ateados pelas explosões. As partículas em suspensão
modificarão as propriedades da atmosfera e dificultarão a
entrada dos raios solares, através da atmosfera. Desse
modo os sistemas ecológicos serão neutralizados, e ha.
verá perturbações meteorológicas e climatológicas.
Terceiro, os produtos gasosos dos incêndios - metano,
ozônio troposférico e outros - também poluirão a
atmosfera. Essa poluição influirá nas propriedades de
absorção da atmosfera e por conseguinte no clima.
Haverá formação de óxidos na bola de fogo das
explosões, o que destruirá uma parte substancial da
camada de ozônio. O resultado será um aumento de
radiação ultravioleta que trará efeitos biológicos
indesejáveis e mudanças climáticas.
Para prever um dos maiores efeitos da produção de
aerossóis, é importante estimar a quantidade de
partículas que permanecerá na atmosfera por tempo
prolongado. Os aerossóis troposféricos são de curta
duração até duas semanas, aproximadamente -, portanto
é necessário calcular que fração de aerossóis de alta
dispersão alcançará a estratosfera. Pela nossa estimativa,
essa fração será da ordem de 1%. Esse valor é
comparável ao dos aerossóis de alta dispersão que
entram na estratosfera por ocasião de erupções
vulcânicas de grande intensidade.
Não há dúvida de que os aerossóis troposféricos levarão
a uma queda de temperatura superficial durante as
primeiras semanas após as detonações. E isso terá
conseqüências catastróficas para os ecossistemas e para
a produção das plantações.
Efeitos ainda piores poderiam advir, ao nosso ver, de uma
possível elevação subseqüente de temperatura
atmosférica após a precipitação, causada pela absorção
de radiação de ondas longas. Esta resultará da presença
na atmosfera de admistões gasosas, como ozônio
troposférico, etano, metano e outras. A duplicação de
CO2 elevará a temperatura em 3 ou 4 graus centígrados.
A duplicação de ozônio na troposfera causará um
aumento de temperatura de quase um grau centígrado.
Atualmente, a concentração de ozônio na troposfera é de
cerca de três partes por bilhão, e durante uma guerra
nuclear essa concentração aumentará de três a quatro
vezes. Haverá um aumento grande de metano, e a
concentração de etano será 30 ou 40 vezes maior. Só o
aumento de concentração dessas admistões gasosas
resultará num aumento de temperatura de três ou quatro
graus centígrados. Haverá um efeito de estufa, que pode
levar a sérias alterações climáticas a longo prazo e ao
colapso das atividades agrícolas da sociedade humana.
Os efeitos da introdução dessas admistões gasosas na
atmosfera também se farão sentir no Hemisfério Sul.
Haverá de imediato uma queda de temperatura, e
subseqüentemente um aumento gradual, com
conseqüências ecológicas a longo prazo. No estágio
inicial, com temperaturas baixas, haverá destruição de
vegetação. Depois a temperatura subirá e haverá
alterações climáticas duradouras, que destruirão a
possibilidade de renovação de recursos biológicos.
Eu gostaria de lembrar mais uma vez que as propriedades
elétricas da atmosfera serão consideravelmente alteradas,
principalmente na primeira fase após as explosões,
devido à radioatividade. A concentração de produtos
radioativos de um nanocurie por metro cúbico modificará
a condutividade atmosférica em cerca de 10%, e isso
levará a sérias alterações. Como já foi dito, haverá danos
ecológicos porque a turbidez da atmosfera interromperá a
luz solar. E haverá destruição da camada estratosférica
de ozônio.
Sabe-se que num conflito nuclear de 10.000 megatons
haverá a produção de 10 elevado a 32 moléculas de
óxidos de nitrogênio por megaton. Dependendo da altura
alcançada pela nuvem na explosão, haveria uma
destruição estável de cerca de 7% do ozônio por meses
ou anos depois da explosão. Uma única explosão nuclear
produz destruição na camada de ozônio, a qual em
seguida se reconstitui em alguns dias. Havendo muitas
explosões não haverá difusão e o ozônio não se
reconstitui; a mudança na concentração de ozônio fica
estável. Com exposição em altitudes de 25 a 30 mil
metros, cerca de 60% do ozônio são destruídos. Deve ser
lembrado que esse efeito se propagaria em pouco tempo
ao Hemisfério Sul, mesmo que as explosões se
limitassem ao Hemisfério Norte.
De tudo que foi dito, deve ter ficado claro que explosões
nucleares, principalmente em grande escala, levarão não
apenas a conseqüências muito destrutivas localmente,
mas também a destruição e a alterações em escala
global. Levarão a mudanças irreversíveis do clima e à
destruição da camada de ozônio, e comprometerão os
ecos sistemas da Terra. Além do mais, os efeitos serão
sinérgicos. Os efeitos ecológicos poderão levar
ulteriormente a um número maior de mortos e vítimas que
os efeitos diretos e imediatos, e isto tanto se aplica aos
que forem diretamente envolvidos numa guerra nuclear
como aos que forem envolvidos indiretamente, e mesmo
numa guerra dita limitada. Isto sublinha o fato de que
numa guerra nuclear não pode haver vitoriosos nem
vencidos. Em última análise, todos os lados sofrem
fatalmente. O Dr. Sagan já falou sobre isso. Portanto, a
questão que estamos levantando é a da própria existência
da vida na Terra.

BAYEV: A opinião de biólogos e médicos especialistas


sobre a guerra nuclear é perfeitamente definida: a guerra
nuclear é imoral e inaceitável, tendo em vista os enormes
prejuízos que infligiria à espécie humana. É inaceitável
porque põe em dúvida a própria possibilidade de
sobrevivência da humanidade e a própria continuação da
vida da Terra nas formas que conhecemos.
Eu gostaria de dizer alguma coisa sobre a morte de
pessoas, a perda de vidas humanas. No caso de uma
guerra nuclear, a avaliação quantitativa dos nossos
cientistas coincide com a dos nossos colegas americanos.
As perdas imediatas entre a população resultantes de um
ataque nuclear podem ser calculadas com bastante
exatidão, porque temos a triste experiência de Hiroxima e
Nagasáqui e os testes nucleares até hoje realizados.
Temos assim cálculos teóricos que nos fornecem os
números e a possibilidade de estimar que cerca de um
quarto da população na região do ataque nuclear
perecerá.
Quanto aos indivíduos queimados, feridos ou expostos à
radiação, seus destinos serão obviamente trágicos. A
maioria não sobreviverá, simplesmente porque não
receberá socorro médico; não haverá meios de
proporcionar conforto, nem suprimento normal de
alimentos e água e haverá exposição continuada a fatores
altamente hostis, como radiação e as perturbações
meteorológicas que se seguirão. Essas condições
resultarão na morte de outro quarto da população;
portanto, perto da metade das pessoas expostas a um
ataque nuclear perecerá quase imediatamente.
Quanto aos que sobreviverem a esses primeiros efeitos,
por tudo que ouvimos dos nossos colegas americanos, e
por tudo que sabemos, sua vida subseqüente será difícil e
problemática, e provavelmente a maioria dos
remanescentes não terá como sobreviver. Haverá fome;
haverá transformações meteorológicas; haverá rupturas
em toda a estrutura social. Obviamente, isso só poderá
levar a conseqüências desastrosas. Nossa previsão é
pois que, na melhor das hipóteses, as populações de
áreas submetidas a um ataque nuclear só sobreviverão
como pequenas ilhas de humanidade num ambiente hostil
e despojado de vida.
Deve-se frisar que todas essas modificações terão efeitos
sinérgicos; haverá exposição simultânea a muitos fatores
adversos e nocivos.

BOCHKOV: Quando falamos das conseqüências


ecológicas e biológicas de uma guerra nuclear, é claro
que temos em mente a humanidade. Portanto, ao
pensarmos nas possibilidades da sobrevivência humana
após uma catástrofe nuclear, não devemos recuar ante a
conclusão de que as condições reinantes não permitiriam
a sobrevivência do homem como espécie. Devemos partir
da suposição de que o ser humano adaptou-se ao seu
meio no correr de um longo processo evolutivo e pagou o
preço da seleção natural. Só nos últimos milhares de anos
ele adaptou o meio às suas necessidades e criou, por
assim dizer, um meio artificial para proporcionar-lhe
alimento, abrigo e outras necessidades. Sem este, o
homem moderno não pode sobreviver. Em comparação
com as dramáticas transformações do ambiente
tecnológico, a natureza biológica não mudou no passado
recente. Nas declarações do Dr. Ehrlich e do acadêmico
Bayev, foram-nos apontadas as muitas limitações que se
oporiam à sobrevivência do homem depois de uma
catástrofe nuclear. Como também temos de considerar o
futuro mais distante, cabe observar que a maior parte dos
efeitos de uma guerra nuclear será de ordem genética. Se
ilhas de humanidade ou como disse o Dr. Ehrlich, grupos
de pessoas em alguma parte do oceano - sobrevivessem,
o que iriam defrontar em termos de conseqüências
genéticas? Se a população declinar drasticamente, surge
a questão do número crítico de indivíduos necessário para
assegurar a multiplicação. Por um lado, haverá um
número mínimo de seres humanos; por outro, em
razão desse pequeno número, haverá isolamento,
Inevitavelmente haverá cruzamento consangüíneo, e com
isso mutações letais se manifestarão devido à exposição
fetal e neonatal à radiação e à precipitação. Novas
mutações hão de surgir, genes e cromossomos serão
danificados por obra da radiação, e com isso haverá um
ônus genético a mais a suportar. Haverá deformidades
naturais e mortes ao nascer, de tal modo que o ônus das
afecções hereditárias será apenas parte de uma grande
sobrecarga. Certamente isso conduzirá à eliminação da
humanidade, porque o homem não será capaz de
reproduzir-se como espécie.
Eu gostaria de frisar que, em termos de reprodução
humana, os efeitos sinérgicos desempenharão um papel
particularmente deletério, porque o cruzamento
consangüíneo, as mutações resultantes e as condições
de vida extremamente difíceis não serão de molde a
favorecer a sobrevivência do homem.
Na seqüência de uma guerra nuclear, o futuro da
humanidade deve evidentemente ser visto na perspectiva
de um mundo em que os ecossistemas e os recursos
ecológicos terão sido alterados ou destruídos. Assim, as
condições biológicas e sociológicas não seriam de molde
a permitir ao homem manter-se como espécie.

MALONE: Agradeço aos nossos colegas de Moscou. Um


dos cientistas soviéticos que está hoje em Washington
conosco é o Dr. Nikita Moiseev, membro correspondente
da Academia de Ciências da URSS e diretor-adjunto do
Centro de Computação da Academia. Eu pediria ao Dr.
Moiseev que informasse alguns dos resultados relevantes
obtidos no estudo de computador da Academia Soviética -
resultados que acreditamos confirmarão as conclusões
fornecidas pelos nossos modelos meteorológicos.

MOISEEV: Em primeiro lugar quero agradecer aos nossos


colegas americanos por esta oportunidade de participar
desta magnífica Conferência aqui em Washington. Nós
partilhamos as preocupações dos nossos colegas
americanos, e achamos que o estudo das conseqüências
possíveis de um conflito nuclear é um dos principais
objetos de interesse para os cientistas de todo o mundo.
Também nós em nosso país estamos realizando várias
pesquisas e estudos nessa área. No Centro de
Computação da Academia de Ciências, que eu
represento, estamos realizando estudos em três áreas
principais.
Primeiro, estamos estudando as possíveis conseqüências
de uma guerra nuclear para o clima. Segundo, estamos
estudando processos biológicos e alterações na
produtividade da biota. Depois há um terceiro ponto e um
terceiro problema. De modo geral, somos otimistas e
esperamos que um dia a humanidade mostrará suficiente
sensatez para abandonar de uma vez por todas qualquer
idéia de empregar armas nucleares. Mas se isso
acontecer, novos problemas e dúvidas irão surgir: como
irá a humanidade utilizar o seu novo poderio e despender
a sua nova riqueza? Se formos otimistas, devemos aplicar
o nosso esforço em refletir também neste problema.
Eu disse que esta Conferência é magnífica e falei
sinceramente. Ela é magnífica não apenas pelas questões
que levantou, mas também pelas oportunidades técnicas
que nos proporcionou. Aqui em Washington eu vejo na
tela dois dos meus colegas de Moscou que participaram
diretamente em alguns dos cálculos de diferentes efeitos
climáticos levados a efeito no Centro de Computação da
Academia de Ciências da URSS: Drs. Georgi Stenchikov
e Valeri Parkhomenko. Nossos estudos indicam que uma
catástrofe nuclear global acarretará uma forte redução da
temperatura média da Terra. Só depois de uns cinco ou
seis meses haverá modulação da temperatura em base
global. No entanto localmente as mudanças de
temperatura serão muito mais pronunciadas. Ainda 240
dias (oito meses) após a guerra nuclear, a temperatura
permanecerá em muitas regiões muito abaixo da
temperatura anterior à guerra. Os senhores podem
imaginar as conseqüências ecológicas de tal situação.
Também estudamos a perturbação da circulação
atmosférica que resultaria de um conflito nuclear global.
Verificamos que o caráter da circulação se modificaria por
completo. Em vez da circulação clássica, restaria uma
única célula, e toda a poluição - todas as impurezas da
atmosfera do norte - se deslocaria em direção ao
Hemisfério Sul. Vê-se claramente que não haveria
nenhum lugar da Terra que não sofresse as
conseqüências de um conflito nuclear global.

MALONE: Aos nossos colegas de Moscou quero dizer o


quanto as nossas deliberações foram enriquecidas pelas
contribuições dos Drs. Moiseev, Golitsyn e Aleksandrov.
Também apreciamos esta oportunidade de trocar opiniões
através da nova tecnologia de satélites.
O Professor Moiseev colocou um ponto interessante ao
mencionar a dramática alteração do que os
meteorologistas chamam de circulação geral. Alguns de
nós pensam ver fortes indicações de que haveria trocas
inter-hemisféricas consideráveis. Esse tema recebeu uma
boa dose de atenção nesta Conferência. Talvez um dos
mais destacados meteorologistas do mundo, o Dr. Israel,
queira comentar os pareceres que ele e seus colegas
possam ter sobre a propagação dos efeitos cataclísmicos
do Hemisfério Norte para o Hemisfério Sul. Suas idéias
seriam bem-vindas, mesmo que conjeturais, pois é claro
que ainda há um grande trabalho de análise a ser
completado.

ISRAEL: De fato, ocorreriam mudanças de temperatura


depois de um conflito nuclear, compreendendo tanto a
queda de temperatura logo após as explosões como, mais
tarde, um possível aquecimento devido ao efeito de
estufa. Sem dúvida isso afetaria a circulação da
atmosfera. Mas eu concordo com o Dr. Malone em que
são necessários estudos complementares e cálculos
adicionais.
Quanto à troca de massas de ar, e portanto também de
poluentes e admistões gasosas, entre os Hemisférios
Norte e Sul, estudos de radioatividade residual em
experiências nucleares mostraram que essa troca entre
os dois hemisférios realmente ocorre. Ocorre num período
de meses e às vezes até de anos, mas ocorre, e eu estou
completamente convencido de que, após uma catástrofe,
as alterações verificadas no Hemisfério Norte certamente
transferir-se-iam ao Hemisfério Sul.

DR. KIRILL KONDRATYEV (membro correspondente da


Academia de Ciências da URSS e ex-reitor da
Universidade de Leningrado): Eu gostaria de juntar
algumas observações às interessantes conclusões dos
estudos sobre os efeitos retardados de explosões
nucleares sobre o clima. Elas dizem respeito à análise de
observações da luz solar. Medindo a radiação solar por
meio de balões em altitudes de até 30 mil metros e em
seguida analisando os dados, nós verificamos que um dos
fatores importantes no enfraquecimento da radiação solar
era o NO2, formado na atmosfera após explosões
nucleares de grande potência nos testes realizados em
1962 e 1963. Ficou demonstrado que o NO2 contribuía
em grau considerável para impedir a penetração da
radiação solar até o nível do solo. Procuramos estimar o
esfriamento produzido pelos testes de 1962-63 e
verificamos que a contribuição do NO2 pode ter sido
responsável por meio grau de esfriamento. Depois
utilizamos o cenário publicado pela Ambio em 1982 e
extrapolamos para ver o que aconteceria no caso de uma
guerra nuclear. Os resultados mostraram um esfriamento
global de 9,5 graus centígrados, o que, naturalmente, é
em si mesmo significativo. Mas ainda mais significativo a
meu ver é o fato de que o NO2 é um gás, e nós estamos
falando da estratosfera, portanto esse é um fenômeno a
longo prazo, muito mais longo que partículas de smog ou
poluição na troposfera. A transferência desse efeito ao
Hemisfério Sul é muito grave, e pode significar que as
conseqüências retardadas serão tão nocivas para o
Hemisfério Sul quanto para o Hemisfério Norte. Nós
percebemos esse efeito do NO2 observando a radiação
solar em 1963, e também o percebemos muito claramente
em 1964 e 65. E isso foi em circunstâncias de circulação
normal da atmosfera. No entanto nossos colegas
mostraram que se houver circulação transequatorial, o
efeito será ainda mais sensível.

MALONE: Evidentemente nós inauguramos uma era em


que é possível exprimir através de métodos de análise
científica a impressão intuitiva que muitos de nós
vínhamos tendo há vários anos. Agora temos a
oportunidade de trocar pontos de vista sobre os modos de
prosseguir nos caminhos abertos por esta Conferência e
através desta Conexão Moscou. Espero que agora
possamos ter alguns debates.

EHRLICH: Eu pediria ao Dr. Kondratyev que esclarecesse


um biólogo sobre um ponto de física. Pelo que entendi, o
senhor disse que o efeito do NO2 na camada de ozônio
criaria um esfriamento superficial de 8 a 9 graus
centígrados?
KONDRATYEV: Não, não foi disso que eu falei; eu me
referi ao fato de que o NO2 tem uma raia de absorção
muito intensa em aproximadamente meio micro, de modo
que o NO2 atmosférico absorve radiação solar muito
intensamente na banda de absorção do NO2 . É
exatamente onde está o máximo no espectro da radiação
solar. Portanto, isso nada tem a ver com o ozônio. É um
aspecto diferente da ação do óxido de nitrogênio na
atmosfera.

SAGAN: Talvez eu possa levantar uma questão de ordem


geral. Antes, permitam-me dizer que é muito gratificante
ver que pesquisas mais ou menos independentes nos
Estados Unidos e na União Soviética chegaram a
conclusões tão semelhantes sobre um assunto tão grave
como as conseqüências retardadas de uma guerra
nuclear. Existe nesses estudos uma série de incertezas:
nos cenários escolhidos, na questão da quantidade de
fuligem introduzida na atmosfera pelos incêndios e da
quantidade de poeira produzida por explosões de grande
potência no solo, nas questões da aglomeração de
partículas na atmosfera e do tempo que elas levarão para
precipitar, questões de circulação atmosférica e questões
das doses de radiação, instantânea e a médio e longo
prazos. Em parte elas dependem de critérios de cálculo, e
em parte dos dados introduzidos. Dependem, por
exemplo, dos dados relativos à distribuição de dimensões
das partículas resultantes de incêndios ou da explosão de
armas nucleares, e do coeficiente de absorção e índice de
refração dessas partículas. Nossos colegas soviéticos
acham possível fornecer-nos dados sobre a função de
distribuição de dimensões de detritos, obtidos nos testes
soviéticos de armas nucleares antes do Tratado limitado
de Proibição de Testes de 1963, e informações sobre
dimensões e coeficientes de absorção de partículas
produzidas em grandes incêndios na União Soviética? E
mais, estariam dispostos a eventualmente transmitir-nos
uma gama de cenários de guerra nuclear que consideram
prováveis?

ISRAEL: Acho que o nosso diálogo e o debate dessas


importantíssimas questões devem ter prosseguimento,
provavelmente por ocasião de encontros de cientistas em
conferências. De minha parte, tenho muitas perguntas a
fazer a colegas americanos com respeito aos dados
iniciais empregados na construção dos seus modelos. Em
particular, tenho perguntas relativas à distribuição de
partículas por dimensões, e a quantidades e dimensões
de partículas de aerossol injetadas na atmosfera. Por
exemplo, posso dizer que em nossos cálculos da
quantidade de partículas de aerossol de alta dispersão
nós calculamos em cerca de 1% ou pouco menos a
proporção de partículas de menos de um micro. Esse
número, provavelmente próximo do que o senhor, Dr.
Sagan, citou no seu trabalho - creio que o senhor adotou
0,5% de aerossóis de alta dispersividade (pequenas
dimensões) - é inferior a 1%. Esses são aspectos
estritamente científicos, e certamente o senhor desejará
discuti-Ios no futuro com maior detalhe.
Também concordo com o Dr. Sagan em que um aspecto
muito interessante deste nosso encontro é o fato de que
os cálculos feitos, de forma basicamente independente,
levaram-nos a conclusões muito semelhantes com
respeito às linhas gerais das conseqüências ecológicas,
geofísicas e biológicas de uma guerra nuclear.

ACADÊMICO ROALD SAGDEYEV (diretor do Instituto de


Estudos Cósmicos da Academia de Ciências da URSS):
Eu gostaria de dizer que a elaboração de cenários da
evolução da biosfera e da atmosfera após uma guerra
nuclear, que se vem fazendo nos últimos 20 anos, deu-
nos finalmente um modelo muito sério, cujos resultados
foram relatados por dois grupos independentes, o
representado pelo Dr. Sagan e o formado pelos nossos
cientistas. A seriedade que vemos nesses modelos hoje
atesta o fato de que nós aprendemos a aplicar o enfoque
planetário - um enfoque interdisciplinar - no
desenvolvimento dos modelos. Acho que devemos
concordar em manter estreita cooperação no
desenvolvimento adicional desses modelos. Talvez os
dados que nós obtivemos em testes nucleares nos últimos
10 anos, por exemplo sobre a dispersão e composição de
aerossóis, possam ser utilizados nesses estudos. Agora
temos a tecnologia espacial à nossa disposição. Temos
também alguns fenômenos naturais que, embora ocorram
em pequena escala, podem ser úteis para modelar as
conseqüências de uma guerra nuclear. Temos
observações não só de atividade vulcânica, que ejeta
partículas de aerossol, como também de erupções solares
que provocam modificações na estratosfera - por
exemplo, a formação de óxidos nitrosos. Acredito que se
fizermos disso uma atividade conjunta e empregarmos
novos métodos planetários, especialmente usando a
tecnologia espacial, será muito proveitoso.

MALONE: Haverá oportunidade no futuro para


intercâmbio de dados e desenvolvimento conjunto de
cenários, para os quais muitos países podem contribuir,
como ponto de partida no estudo das conseqüências de
uma guerra nuclear. Eu aguardo com grande interesse um
encontro com o acadêmico Scriabin, primeiro-secretário
científico da Academia da URSS, e com o Professor
Velikhov no fim deste mês, quando cientistas de
muitos países se reunirão em Estocolmo para tratar
justamente das questões que foram aqui levantadas com
respeito à permuta de dados.

SAGAN: Foi um grande prazer para mim ouvir as


observações do acadêmico Roald Sagdeyev. O
acadêmico Sagdeyev é diretor do Instituto de Pesquisas
Cósmicas da Academia de Ciências da URSS, e
responsável pelo programa soviético de exploração não-
tripulada. Parece-me um fato extremamente interessante
que um campo aparentemente tão distanciado das
nefastas questões de vida e morte suscitadas pela guerra
nuclear tenha desempenhado um papel tão importante na
iniciativa destes estudos.
Tanto o nosso trabalho, que começou pelo estudo da
tempestade de poeira de 1971 em Marte, observada pela
Mariner 9, como alguns dos trabalhos aqui mencionados
pelo Dr. Golitsyn, foram estimulados por explorações
planetárias não-tripuladas. Se é que existem dúvidas
quanto ao valor prático da exploração planetária, penso
que este trabalho basta para dissipá-Ias.

EHRLICH: Desejo agradecer ao acadêmico Bochkov por


abordar a questão genética, que nós não enfatizamos, em
parte pelo fato de os efeitos biológicos imediatos e à curto
prazo (um período de meses ou anos) serem tão
esmagadores, pelo menos para os sobreviventes do
Hemisfério Norte, no que se refere aos riscos
enormemente aumentados de câncer e de anomalias
genéticas em gerações futuras.
Mas parece-me que ele tocou num ponto que também nós
consideramos importantíssimo. A saber: os sobreviventes
dispersos poderão sofrer sérios efeitos do cruzamento
consangüíneo e incidência acrescida de câncer. Outro
fator importante podem ser os efeitos das alterações
genéticas . nos sistemas ecológicos. Não é claro para nós
a que condições eles retornarão após uma guerra nuclear.
As populações que os compõem terão sido submetidas a
toda espécie de novas pressões seletivas, de modo que
os pequenos grupos de sobreviventes humanos irão se
deparar com um meio totalmente novo, com o qual talvez
não tenham os recursos culturais para avir-se. Eles não
serão como as antigas civilizações de caçadores e
colhedores, que conheciam intimamente o meio em que
viviam e eram capazes de extrair o seu sustento à nível
de subsistência com grande facilidade. Os sobreviventes
serão em sua maioria indivíduos afeitos a uma existência
"civilizada", que tentarão subsistir num ecossistema
radicalmente transformado. Isso deverá tornar os seus
problemas extremamente difíceis, tanto econômica como
psicologicamente.

BOCHKOV: Eu gostaria de complementar o que disse o


Dr. Ehrlich. Esperar uma renovação da humanidade para
uma nova espiral de evolução seria. ingênuo, porque o
homem entrará nessa nova era com as mesmas
qualidades biológicas que tinha antes, mas haverá
deficiências. As pessoas do pós-guerra nuclear terão
deficiências somáticas e psíquicas, e o meio a que terão
de adaptar-se será muito mais hostil que em qualquer
tempo precedente.
ACADÊMICO GEORGIY SCRYABIN (primeiro-secretário
científico da Academia de Ciências da URSS): Meu velho
amigo Professor Malone disse que voltaremos a ver-nos.
Mas eu gostaria de dizer uma coisa hoje. Meu sentimento
em relação a esta Conferência é um tanto ambivalente.
Por um lado, há um sentimento de grande preocupação
em face da possível tragédia que nos ameaça, que paira
sobre todos nós - sobre crianças, mulheres, velhos, e
todos os seres vivos da Terra. É uma tragédia potencial
terrível, que não pode deixar de incomodar e
desassossegar qualquer ser humano normal.
Por outro lado, há nesta Conferência um grande motivo
de satisfação: é o fato de que os grandes cientistas neste
momento reunidos - nossos colegas americanos e
cientistas russos - chegaram a um consenso. Estão
unidos em sua opinião de que não deve haver uma guerra
nuclear, de que esta representaria desastre e morte para
a humanidade. Eu pessoalmente sinto-me satisfeito e
confortado com isso porque, hoje em dia, a autoridade
dos cientistas é grande, e todos nós devemos procurar
fazer valer nossa influência no sentido de pôr fim à corrida
armamentista e para que jamais venha a ocorrer uma
guerra nuclear.

VELIKHOV: Talvez algum dos nossos colegas


americanos queira acrescentar alguma coisa.

EHRLICH: Que mais podemos dizer senão que todos nós


aqui partilhamos esse desejo ardentemente? Esperamos
que os povos do mundo e os dirigentes do mundo
prestem atenção ao fato de que o confronto Leste-Oeste
ameaça não só a União Soviética, os Estados Unidos e
seus aliados diretos, como ameaça todos os seres
humanos do planeta, pelo menos com grandes
sofrimentos e provavelmente, para a grande maioria, com
a morte.
Acho que esta deve ser a base de considerações para os
chefes polí ticos do mundo.

MALONE: Eu tenho a impressão de que esta Conferência


e esta troca de idéias poderão vir a ser vistas em anos
futuros - justificadamente - como a virada decisiva nos
rumos da humanidade.
Lembra-me o incidente de 1954, quando as cinzas da
explosão experimental de uma bomba de hidrogênio
caíram no Dragão Feliz - um barco pesqueiro japonês.
Criou-se em todo o mundo uma onda de grave
preocupação porque os testes nucleares estavam pondo
em risco a atmosfera, que é propriedade comum de todos
os povos do mundo. Pouco depois adotaram-se medidas
políticas no sentido de estabelecer um controle mais
rigoroso sobre a realização de testes.
Espero portanto que esta Conferência, que teve por
finalidade o esclarecimento dessas questões e um
intercâmbio cordial entre colegas, elevará o nível de
conscientização dos faze dores de política e marcará a
mudança de rumos que todos com tanto empenho
esperamos.

DR. ALEXANDER KUZIN (membro correspondente da


Academia de Ciências da URSS): Como radiobiólogo, eu
gostaria de chamar a atenção dos senhores para outro
problema. Se uma catástrofe nuclear vier a acontecer,
naturalmente haverá uma séria precipitação global de
radionuclídeos e uma elevação do nível de radiação
residual. Como radiobiólogo, eu sei como varia entre
espécies diferentes a sensibilidade à radiação. O homem
é uma das espécies mais sensíveis. A maior exposição à
radiação provocará muitas mudanças; o sistema
imunológico do homem será destruído. Ao mesmo tempo,
microorganismos patogênicos que nós classificamos
geralmente como pestes são muito resistentes a essa
espécie de radioatividade. Com isso haverá um novo
desequilíbrio ecológico, que contribuirá para a
exterminação da pequena população humana que haja
sobrevivido às conseqüências imediatas de uma
catástrofe nuclear.
É assim responsabilidade direta dos cientistas da União
Soviética e dos Estados Unidos levar ao conhecimento de
todos, os grandes perigos que seriam desencadeados por
qualquer espécie de conflito nuclear, de modo a prevenir
a própria possibilidade de uma guerra nuclear, cujo
desfecho não apenas seria certamente o fim da
civilização, senão que ameaçaria a vida como tal neste
planeta que amamos.

EHRLICH: Há mais um ponto. Se os efeitos se


propagarem ao Hemisfério Sul e nós nos reduzirmos a
pequenos grupos, e Caso alguns desses pequenos
grupos consigam, a longo prazo, sobreviver a todos os
efeitos de que aqui falamos, inclusive os apontados pelo
Dr. Kuzin, devemo-nos lembrar - e devemos alertar os
nossos governantes - de que uma vez perdida a
civilização tecnológica, é altamente improvável que jamais
venhamos a recuperá-Ia.
Quando a humanidade se tornou civilizada e enveredou
pelo caminho da industrialização, havia grande
quantidade de minérios ricos à flor da terra, e para furar
um poço de petróleo bastava enfiar uma vara no chão.
Hoje temos de fundir minérios de baixíssimo teor metálico,
e perfurar milhares de metros para extrair petróleo. Se as
conseqüências de uma guerra nuclear se prolongarem por
um tempo tal que a tecnologia se perca, e os estoques de
ferro e de outros recursos importantes sejam destruídos
pela corrosão e dispersados, é altamente improvável que
um grupo de caçadores-colhedores ou lavradores de
subsistência possa jamais refazer o 'caminho que 'leva à
civilização tecnológica.

VELIKHOV: Parece-me haver um consenso de que a


Conferência é um passo importantíssimo; talvez ela dê de
fato um novo impulso no sentido do desarmamento
nuclear. Ela forneceu conclusões científicas, dados e
informações a todos nós. Atualmente, todos deveriam ser
capazes de tirar conclusões práticas dessas informações.
Quanto a mim, penso que uma das conclusões
importantes da nossa Conferência é que mesmo o
emprego de uma pequena parte dos arsenais nucleares
teria resultados catastróficos, não apenas pela morte
imediata de multidões de inocentes como pelas drásticas
transformações que causariam no meio e no clima, que
poderiam trazer conseqüências infinitamente negativas.
Falando em geral, mesmo hoje a humanidade existe num
siso tema ecológico muito instável, de modo que qualquer
desvio porá em risco a continuação dessa existência.
Portanto, todas as colocações políticas que falam de
guerras locais ou ditas "limitadas", de guerras
"controladas", de reação flexível ou de guerra prolongada,
são conceitos que, à luz do que agora sabemos, carecem
de base totalmente. Todas elas trazem consigo os
resultados horríveis e catastróficos que acabamos de ver.
Entendemos que nenhum armamento militar ou
psicológico - e há muitos - pode refutar esses resultados.
A meu ver, a única conclusão possível é que os nossos
artefatos nucleares não podem ser usados como armas
de guerra ou como instrumentos de guerra; nem como
instrumentos de política. São instrumentos de suicídio.
Eu diria que as análises aqui apresentadas não se
basearam no pior caso possível, pois não levaram em
conta alguns fatores possivelmente envolvidos num
conflito nuclear. Por exemplo, nós não consideramos os
imensos depósitos de resíduos tóxicos e não calculamos
o impacto resultante no caso de eles serem atingidos.
Não consideramos os efeitos de serem atingidas usinas
nucleares. Certamente isso viria agravar os resultados,
principalmente à longo prazo. Conclui-se assim que a
própria superioridade nuclear é uma ilusão, tendo em
vista a enorme quantidade de armas nucleares que já
acumulamos. Sabemos agora que as armas nucleares
não são músculos do Estado moderno. São, sim, uma
excrescência cancerosa que ameaça a própria vida do
planeta. Assim como o doente de câncer não tem chance
de viver uma vida longa e feliz, também a humanidade
não tem chance de continuar coexistindo com a bomba
para sempre. Ou nós destruímos o câncer, ou o câncer
nos destruirá.
Essa é uma decisão fundamental, e todas as decisões
provisórias só podem ser provisórias. A meu ver, essa é a
principal conclusão desta Conferência, e a mais
fundamental.

ROBERTS: Para mim é uma grande honra participar


deste evento. Partilho com Tom Malone a impressão de
que este debate com nossos colegas da União Soviética
pode marcar uma mudança de rumo nos nossos modos
de pensar e de agir com relação à guerra nuclear. Foi um
diálogo muito produtivo, acadêmico Velikhov, e eu lhe
agradeço e aos seus colegas por se juntarem a nós.
Durante a nossa Conferência sobre o Mundo após a
Guerra Nuclear, o Dr. Ehrlich fez um comentário muito
interessante para o grupo aqui de Washington, a saber,
que o que vier a acontecer como conseqüência de uma
guerra nuclear pode incluir alguns perigos e
possibilidades não previstos. Ouvi com grande interesse a
exposição do Dr. Israel sobre a possibilidade de ocorrer
um aquecimento subseqüente ao esfriamento. Parece-me
que poderia ser mais um efeito imprevisto. E,
considerando a perspectiva de uma guerra nuclear,
lembramos as palavras do Dr. Sagan:
"O que mais teremos deixado de levar em conta?”
Mas mesmo deixando de levar em conta algumas outras
conseqüências, é claro para mim que temos diante de nós
evidências bastantes para demonstrar o imperativo que é
para a humanidade evitar a guerra nuclear. E eu sinto que
o debate aberto e franco que tivemos aqui em
Washington, na Conferência sobre o Mundo após a
Guerra Nuclear, e neste importante diálogo com nossos
colegas soviéticos foi extremamente útil e gratificante.
Todos nós temos consciência de que muitas questões
científicas ainda não foram completamente resolvidas. É
minha esperança sincera que possamos pensar juntos e
combinar nossos esforços para esclarecer algumas
dessas questões, reduzir as incertezas e assegurar que o
que possamos ter esquecido não é tão importante, na
perspectiva das coisas que sabemos. Entretanto, já
sabemos o suficiente para nos darmos conta de que é
imperioso, em nome de toda a humanidade, acelerar a
busca da segurança do mundo no domínio da política,
assim como no domínio da ciência.
Como cidadãos de nossas nações, e como residentes
desta frágil espaçonave que é a Terra, devemos conceber
e pôr em prática novas políticas que garantam um futuro
estável para o planeta e para todos os seus habitantes.
Agradecemos aos nossos colegas soviéticos a sua
participação neste debate de hoje.

MALONE: Muito obrigado. Com essas palavras


prudentes, declaramos encerrada esta Conexão Moscou.
Eu me despeço com um pensamento. Nosso desafio é o
da razão. Duzentos anos atrás, Emanuel Kant disse que a
razão humana tende a centrar-se em três perguntas: "O
que posso saber?" (ou o que me é possível conhecer), "O
que devo fazer?" (ou quais são os imperativos morais) e,
fInalmente, "O que posso esperar?" Nesta troca de idéias,
eu vejo uma base de esperança.
Levemos conosco esses pensamentos, principalmente o
de que esta troca de idéias proporciona uma base de
esperança.

CONCLUSÃO
WALTER ORR ROBERTS
William D. Ruckelshaus, diretor da Agência de Defesa
Ambiental dos Estados Unidos, em recente artigo na
revista Science, disse que o debate de questões
ambientais é freqüentemente dominado por um clima de
medo. Ele recomenda aos cientistas que façam maiores
esforços no sentido de explicar ao público de modo
simples e fundamentado as conclusões subjacentes das
pesquisas, incluindo a exposição das incertezas das
noções fundamentais, e portanto dos riscos estimados.
Entre as opções com que a humanidade se defronta,
nenhuma ilustra melhor essa recomendação que as
conseqüências biológicas de uma guerra nuclear em
escala mundial. Nenhum prejuízo ambienta! para a vida
do planeta representa uma ameaça potencial maior,
principalmente quando combinada à consideração da
destruição e da perda de vidas diretamente decorrentes
de uma guerra nuclear.
Em seu artigo, Ruckelshaus cita estas palavras de
Thomas Jefferson: "Se julgamos [o povo]
insuficientemente esclarecido para exercitar o seu
controle com discrição razoável, o remédio não é
arrebatá-Io dele, mas informar a sua discrição.”
Esse propósito norteou magnificamente a Conferência
sobre o Mun . do após a Guerra Nuclear. Nosso objetivo
foi informar os povos do mundo, na convicção de que o
esclarecimento levará ao exercício de uma discrição
universal razoável. Nós nos propusemos ater-nos
estritamente a questões científicas, explicar algumas
descobertas novas, não previstas, de alta relevância para
a higiene do planeta, e reexaminar, na perspectiva de
trabalhos mais recentes, algumas das pesquisas
precedentes sobre o assunto. Basicamente estamos de
acordo no que diz respeito aos temas físicos e biológicos
tratados na Conferência.
Provavelmente há menos unanimidade quanto a como
lidar com as questões políticas levantadas por essas
verificações científicas. Estou certo de que muitos de nós
divergem quando se trata de optar entre as alternativas
sociais, econômicas, políticas e mesmo éticas que nos
defrontam como membros que somos de nações-Estados
e da comunidade universal dos povos. Por isso evitamos
propositalmente o debate de questões e opções de ordem
política nesta Conferência. É claro que as questões
políticas são de suma importância, e devem ser
profundamente meditadas, extensamente discutidas e
finalmente aplicadas à ação. E o que é mais, há urgência
em mudar para um novo terreno na área da política.
Thomas W. Wilson, Jr. enfatizou recentemente a
prioridade dessas questões políticas numa excelente
análise intitulada "Conceitos Modificados de Segurança
Nacional", da qual citarei uma breve passagem:

Finalmente esse tema [segurança nacional] corre solto no


domínio público - mais ou menos fora dos limites estritos
do isolamento burocrático, do sigilo oficial e da
complexidade esotérica dos cálculos estratégicos... ainda
estamos nos estágios preliminares de um reexame cabal
das nossas crenças, teorias, tradições, doutrinas e idéias
feitas em que se baseiam a política e a estratégia no
campo da segurança das nações e dos povos. e provável
que este venha a revelar-se um processo doloroso,
demorado e turbulento - às vezes, talvez, raiando pelo
trauma - pois o que está em jogo é muito grande, e os
temas muito emocionais...
No mundo real de hoje os interesses nacionais dos
diferentes Estados convergem na necessidade de suster
e defender os sistemas vivos do planeta Terra - e isso nos
inclui. O que vale dizer que o único modo de salvar a
nossa própria pele a tornar a Terra segura. E assim a
segurança do mundo é uma política para pragmáticos -
e também para poetas. Oferece uma estratégia talhada
para santos e também para soldados.

É importante, na medida do possível, que esse "processo


doloroso, demorado e turbulento" de debate nasça de um
terreno comum de compreensão dos conhecimentos
físicos e biológicos subjacentes. Foi o que o Comitê de
Orientação desta Conferência definiu como nosso
objetivo, e eu louvo os participantes e o auditório por sua
adesão a essas normas básicas.
O cenário principal de referência de guerra nuclear
envolve um intercâmbio de 5.000 megatons, que projeta
uma porção considerável da poeira e da fuligem
produzidas por incêndios de cidades e florestas na alta
troposfera (parte superior da baixa atmosfera) e na baixa
estratosfera (parte inferior da alta atmosfera), acima do
nível normal das nuvens. Essa tonelagem é bem menos
da metade dos arsenais somados dos Estados Unidos e
URSS. É também aproximadamente a escala de conflito
nuclear analisada no relatório publicado em junho de 1982
pela revista Ambio, da Real Academia Sueca de Ciências,
e em vários outros estudos preliminares.
Conflitos nucleares mais limitados parecem produzir da
mesma forma grandes perturbações ambientais e grandes
danos biológicos, além e acima dos causados pelas
explosões e pela radiação. Parece que as perturbações
ambientais não guardam muita proporção com a escala
da guerra, desde que a tonelagem seja suficiente para
provocar grandes incêndios. Estudaram-se modelos com
tonelagens de apenas 100 megatons, e mesmo nestes
demonstrou-se a probabilidade de efeitos adversos
importantes no caso de ataques a concentrações
urbanas. Muitos dos efeitos descritos no cenário de 5.000
megatons fizeram-se presentes em conflitos bem
menores.
Com o cenário de 5.000 megatons para definir as
condições iniciais, pelo menos três grupos analisaram
modelos meteorológicos globais na tentativa de estimar
as conseqüências do ponto de vista da meteorologia
e climatologia. Esses modelos matemáticos alcançaram
um tal nível de sofisticação que a maioria dos cientistas
dedicados ao problema inclina-se a acreditar que eles
simulam de forma realista as características gerais
do mundo real da meteorologia quando as hipóteses
básicas são bem compreendidas. As últimas conclusões
são bastante alarmantes. As enormes tempestades
ígneas produzidas numa guerra nuclear desempenham
um papel considerável nos danos ambientais, em função
do smog e da fuligem transportados às camadas altas da
atmosfera. Essas nuvens de partículas alteram
dramaticamente o equilíbrio da radiação na atmosfera.
Podem não apenas produzir "trevas ao meio-dia" como
primeiro sugerido por Crutzen e Birks em 1982, mas
também modificar radicalmente os padrões globais dos
ventos, das chuvas e das neves.
O cenário utilizado representa uma guerra em grande
escala no Hemisfério Norte (mas não numa escala
implausível, em termos dos arsenais mundiais de armas
nucleares). Em conseqüência de uma guerra como essa,
como os senhores ouviram, é quase certo que a
quantidade média de luz solar a atingir a superfície da
Terra no Hemisfério Norte será drasticamente reduzida,
talvez a uma diminuta percentagem dos níveis diurnos
normais. Nesse cenário, as tempestades cairão
bruscamente nos primeiros dias seguintes à guerra. O
tempo de recuperação para a radiação solar, temperatura,
chuvas e ventos será de alguns meses a alguns anos.
O principal estudo físico apresentado nesta Conferência
por Carl Sagan baseia-se no modelo construído por
Turco, Toon, Ackerman, Pollack e Sagan - designado
como modelo TTAPS. Na primavera passada um grupo
de físicos debateu e criticou uma primeira minuta do
relatório TTAPS. O principal estudo biológico foi
apresentado por Paul Ehrlich, e também se baseia num
amplo consenso de um grande grupo de eminentes
biólogos que se reuniram na primavera passada, logo
após o seminário dos físicos.
O modelo TTAPS nos diz que se a guerra ocorrer no
verão do Hemisfério Norte, as temperaturas cairão muito
abaixo do ponto de congelamento em extensas áreas de
cultura de latitudes médias como os cinturões de trigo e
milho da América do Norte, principal fonte mundial de
exportação de grãos. Segundo o modelo, um conflito
nuclear limitado de apenas 100 megatons que envolvesse
centros urbanos poderia produzir, mesmo no verão,
temperaturas continentais abaixo do ponto de
congelamento durante vários meses.
A energia solar necessária à fotossíntese de matéria
vegetal será radicalmente reduzida - a maior parte das
plantas cultivadas simplesmente não produz na sombra,
mesmo que haja calor suficiente. Ao que parece, a
fumaça responsável pelo escurecimento pode ser
rapidamente transportada para o outro lado do equador.
Assim, os efeitos meteorológicos e os efeitos sobre a vida
vegetal produzidos pela guerra nuclear podem propagar-
se globalmente em tempo relativamente curto.
Mesmo em áreas tropicais, como a bacia amazônica,
segundo modelos paralelos e suplementares trabalhados
por Schneider, Covey e Thompson do NCAR, que usaram
o mesmo cenário, é provável a ocorrência de
temperaturas glaciais já nos primeiros dias após a guerra.
Suas conclusões, como as do TTAPS, indicam frio
extremo em regiões agrícolas de latitudes médias mesmo
após uma guerra de verão. No seu modelo, o rápido
esfriamento dos dias imediatamente seguintes à guerra é
sucedido em tempo relativamente curto por urna
recuperação da temperatura nas vizinhanças das costas
ocidentais produzida pelo efeito moderador dos oceanos,
termicamente estáveis, na medida em que ventos fortes
transportarão o calor dos oceanos a grandes distâncias
terra à dentro. Mas danos sérios já terão sido causados
às lavouras e a outras fontes de alimentos.
É provável que grande parte da produção de alimentos
agrícolas e silvestres no Hemisfério Norte seja quase
anulada no período de um ano, e também nos trópicos e
no Hemisfério Sul a produção de alimentos pode ser
consideravelmente reduzida. Mesmo com reservas
normais de alimentos, é possível que um terço da
população do mundo venha a morrer de doenças ligadas
à desnutrição, somando-se ao terço que pode morrer
pelos efeitos diretos das explosões e da radiação local
instantânea numa guerra nuclear mundial em grande
escala. Novas calamidades serão provocadas pela
escuridão e pelo frio intenso. Perdas adicionais resultarão
da falta de água potável e outros serviços em virtude do
congelamento, estrago ou poluição de sistemas naturais
de suprimento e falta de apoio infra-estrutural humano.
Mesmo as populações de países em desenvolvimento
situados em zonas tropicais distantes dos cenários da
guerra enfrentarão terríveis problemas de alimentação. A
região africana do Sael, que já sofre grave escassez de
alimentos e depende em alto grau da importação de
produtos agrícolas, não escapará aos efeitos adversos de
uma conflagração remota.
Além do mais, com toda a probabilidade as bolas de fogo
da guerra nuclear gerarão óxidos de nitrogênio (NOx) em
quantidade suficiente para reduzir a camada de ozônio e
com isso aumentar várias vezes a radiação solar
ultravioleta durante vários anos, impedindo a recuperação
de plantas e animais por um longo período. Até o plâncton
marinho pode ser afetado, e por conseqüência os
alimentos tirados do mar. Pode haver grande incidência
de cegueira em homens e animais em razão de cataratas
e lesões da córnea induzidas pela radiação ultravioleta.
Outro perigo ê a redução das defesas imunológicas do
homem e de outros mamíferos, e conseqüente
alastramento de doenças. A multiplicação de insetos e
outras pragas adaptadas de forma oportunista às novas
condições ambientais é uma possibilidade definida.
Ehrlich explicou que "todos os sistemas humanos estão
contidos em ecossistemas e dependem totalmente deles
para a produção agrícola e para uma série de outros
'serviços públicos' gratuitos. Esses serviços incluem a
regulação dos climas e manutenção da composição
gasosa da atmosfera; suprimento de água doce; remoção
de resíduos; reciclagem de elementos nutrientes
(inclusive os indispensáveis à agricultura e à silvicultura);
geração e preservação de solos; controle da imensa
maioria das pragas potenciais das lavouras e vetores de
enfermidades humanas; suprimento de alimentos do mar;
e manutenção de uma vasta 'biblioteca' genética da qual a
humanidade já tirou a própria base da civilização -
inclusive todas as plantas cultivadas e animais de
criação". E fez notar que uma guerra nuclear truncaria
esses serviços gratuitos prestados pela natureza numa
ocasião em que as pessoas mais precisariam deles.
Em todos os modelos meteorológicos e climáticos existem
incertezas. O modelo TTAPS, o do NCAR e o
apresentado pelos nossos colegas da URSS diferem em
alguns detalhes - como se viu nos debates do painel. Por
exemplo, o modelo soviético mostrou que depois do
esfriamento brusco as temperaturas poderão subir acima
do "normal" anterior. Mas todos eles mostram o
esfriamento imediato e desastroso. Além disso, as
conseqüências biológicas não somente guardam
dependência dos modelos físicos, que têm suas
limitações, como têm igualmente suas incertezas próprias.
Mas as conclusões gerais são sólidas mesmo em face
dessas diferenças e incertezas, e quando menos dão o
que pensar. Se é que ainda precisamos de outros
incentivos para prevenir um holocausto nuclear além dos
que encontramos nas conseqüências diretas da guerra,
eles nos dão dados em abundância. Esta Conferência não
tratou das medidas políticas necessárias ao controle do
confronto nuclear global. Mas forneceu evidências de que
as ameaças à sobrevivência dos sistemas biológicos são
maiores do que anteriormente se supunha, e que
realmente podem pôr em risco tudo quanto conquistamos
em milênios de civilização.
Como disse Carl Sagan, "é possível que a população do
Homo sapiens se reduza a níveis pré-históricos ou a
menos ainda, e a própria extinção da espécie humana
não pode ser excluída". Paul Ehrlich disse mais ou menos
a mesma coisa em palavras um pouco diferentes.
Donald Kennedy abriu a nossa Conferência com uma
exposição brilhante. Nela, ele observou que há grandes
incertezas no que foi apresentado, mas também que
"estas descobertas são parte de um processo ordenado
na evolução do pensamento científico, através do qual
pouco a pouco viemos deslocando o foco de nossas
atenções dos efeitos mais imediatos e mais óbvios para
os mais complexos e duráveis". Disse a seguir que esses
novos efeitos são ainda mais sérios, posto que muito mais
difíceis de estimar com precisão. E disse mais, que "... a
incerteza deveria ser uma advertência temática para os
planejadores políticos. O que as nossas projeções mais
ponderadas mostram é que um choque nuclear em
grande escala haverá de produzir, entre os seus muitos
efeitos plausíveis, as maiores convulsões biológicas e
físicas deste planeta nos últimos 65 milhões de anos - um
período mais de 30 mil vezes maior que o tempo
decorrido do nascimento de Cristo, e mais de 100 vezes o
tempo de existência até aqui da nossa espécie". "É
preciso que a avaliação dos riscos prováveis", disse ele,
"se constitua numa base de considerações para todos
aqueles que de têm a responsabilidade pelas decisões de
segurança nacional, aqui e em outras partes." Esperamos
que as nossas apresentações venham contribuir
definitivamente para o objetivo da exortação de Thomas
Jefferson no sentido de informar a discrição do povo, para
que ele possa exercitar tal discrição de modo esclarecido
e razoável.
As questões científicas, é óbvio, ainda não foram
plenamente resolvidas. Eu tenho a satisfação de saber
que organismos internacionais como o SCOPE, Comitê
Científico para Problemas do Ambiente, entre outros, têm
planos para dar continuidade seriamente ao estudo
desses pontos. A parte científica do processo deve
prosseguir, para que as incertezas se reduzam. Mas nós
já sabemos o suficiente com respeito aos riscos para
compreender que é imperioso, em nome da humanidade,
acelerar a busca da segurança do mundo no campo da
política. Como cidadãos de nossos Estados nacionais, e
como residentes da "espaçonave Terra", devemos de fato
conceber e praticar políticas que assegurem um futuro
estável ao planeta, aos seus pragmáticos, poetas, santos,
soldados e enfim, a todos os seres vivos sencientes.

APÊNDICE

O INVERNO NUCLEAR:
CONSEQÜÊNCIAS GLOBAIS DE EXPLOSÕES
MÚLTIPLAS NUCLEARES

Tem-se manifestado Uma preocupação com respeito às


conseqüências a curto e a longo prazos da poeira,
fumaça, radioatividade e gases tóxicos que seriam
produzidos numa guerra nuclear. A descoberta de que
nuvens densas de partículas de solo podem ter
desempenhado um papel importante em extinções em
massa ocorridas na Terra no passado incentivou a
reconsideração dos efeitos de uma guerra nuclear.
Também, recentemente, Crutzen e Birks sugeriram que
grandes incêndios ateados por explosões nucleares
poderiam gerar quantidades de fumaça fuliginosa que
atenuariam a luz solar e perturbariam o clima. Essas
circunstâncias levaram-nos a calcular, utilizando novos
dados e modelos aperfeiçoados, os possíveis efeitos
ambientais globais de nuvens de poeira e fumaça (daqui
por diante designadas poeira nuclear e fumaça nuclear)
geradas numa guerra nuclear. Provavelmente a maior
parte da população do mundo sobreviveria ao conflito
nuclear inicial e herdaria o meio de pós-guerra. Dessa
forma, os efeitos retardados e globais de uma guerra
nuclear poderiam vir a revelar-se não menos importantes
que as conseqüências imediatas da guerra.
Para estudar esses fenômenos, nós utilizamos uma série
de modelos físicos: um modelo de cenário de guerra
nuclear, um modelo de microfísica de partículas e um
modelo de radiação-convecção. O modelo de cenário de
guerra nuclear especifica a poeira, a fumaça e a
radioatividade em função da altitude, e as injeções de
NOx para cada explosão num conflito nuclear (supondo a
potência, número e tipo das detonações, inclusive altura
de explosão, local geográfico e fração de energia de
fissão liberada). O modelo-fonte de fixação de parâmetros
é explicado adiante e numa memória mais detalhada. O
modelo físico unidimensional prediz a evolução no tempo
das nuvens de poeira e fumaça, que por hipótese se
dispersariam rápida e uniformemente. O modelo
unidimensional de radiação-convecção (1-D RCM) aplica
as distribuições calculadas de dimensões de partículas de
poeira e fumaça, as constantes óticas e a teoria de Mie
para calcular propriedades óticas nas faixas visível e
infravermelha, fluxos de luz e temperaturas do ar em
função do tempo e da altura. Como as temperaturas do ar
calculadas são sensíveis às capacidades térmicas
superficiais, elaboram-se simulações distintas para meios
terrestres e oceânicos, para definir possíveis contrastes
de temperatura. As técnicas empregadas nos cálculos do
nosso 1-D RCM estão bem documentadas.
Os modelos por nós empregados, embora podendo
fornecer estimativas aproximadas dos efeitos médios de
nuvens de poeira e fumaça disseminadas em
grandes extensões, não permitem prever com precisão
efeitos locais ou a curto prazo. A aplicabilidade dos
nossos resultados depende da velocidade e da extensão
da dispersão das nuvens de explosões e dos penachos
produzidos por incêndios. Logo após um conflito nuclear
de grandes dimensões, milhares de nuvens isoladas de
poeira e fumaça distribuir-se-iam em toda a faixa de
latitudes médias setentrionais e em altitudes de até
30.000 metros. Difusão horizontal turbulenta,
arrastamento vertical pelo vento e emissão continuada de
fumaça poderiam espalhar as nuvens de detritos
nucleares pela zona inteira, tendendo a preencher os
claros entre as nuvens em uma a duas semanas. As
simulações desse período inicial de dispersão das nuvens
com base em valores espaciais médios devem ser vistas
com cautela; os efeitos seriam menores em certos locais
e maiores em outros, e variariam com o tempo em
qualquer local determinado.
Os presentes resultados também não refletem a forte
conjugação entre os movimentos atmosféricos em todas
as escalas de extensão e as taxas modificadas de
aquecimento e esfriamento atmosféricos por radiação
solar e infravermelha computadas com o 1-D RCM. É
quase certo que os padrões de circulação global se
alterariam em resposta às grandes perturbações das
forças agentes aqui calculadas. O 1-D RCM, embora só
possa predizer condições correspondentes a valores
horizontais, diurnos e sazonais médios, é capaz de
estimar as respostas climáticas de primeira ordem da
atmosfera, que constituem o objeto deste estudo.

Cenários
Um balanço dos arsenais nucleares do mundo mostra que
as armas primárias estratégicas e de teatro representam
12.000 megatons (MT) de potência transportados por
17.000 ogivas. Em potência explosiva esses arsenais
equivalem aproximadamente a um milhão de bombas de
Hiroxima. Embora o número total de ogivas de alta
potência esteja diminuindo com o tempo, cerca de 7.000
MT ainda correspondem a ogivas de mais de 1 MT.
Existem também 30.000 ogivas táticas e munições de
baixa potência, que não são consideradas nesta análise.
Os cenários de emprego possível de armas nucleares são
complexos e discutíveis. Historicamente, os estudos dos
efeitos à longo prazo de uma guerra nuclear têm-se
concentrado num conflito em grande escala, na faixa de
5.000 a 10.000 MT. Esses conflitos são possíveis, tendo
em vista os arsenais atuais e a natureza imprevisível de
uma guerra, particularmente de uma guerra nuclear, em
que poderia ocorrer uma escalada maciça do conflito.
O Quadro 1 mostra um sumário dos cenários adotados
neste estudo. Nosso cenário de referência supõe um
conflito de 5.000 MT. Os demais casos cobrem uma gama
de potência total de 100 a 25.000 MT. Muitas instalações
industriais e militares de alta prioridade localizam-se nas
vizinhanças ou dentro de zonas urbanas. Em vista disso,
a fração da potência total atribuída a objetivos urbanos ou
industriais (15-30%) é modesta. Tendo em vista a grande
potência das ogivas estratégicas (em geral mais de 100
quilotons [KT]), ataques "cirúrgicos" contra objetivos
isolados são difíceis; por exemplo, uma explosão aérea
de 100 KT pode arrasar e queimar uma área de 50 km2, e
uma explosão aérea de 1 MT, uma área 5 vezes maior, o
que implica estragos colaterais extensos em quaisquer
ataques de "contra-valor", e em muitos dos de "contra-
força".
As propriedades da poeira e da fumaça nucleares são
fatores críticos para a presente análise. A fixação dos
parâmetros básicos é mostrada nos Quadros 2 e 3,
respectivamente; detalhes podem ser encontrados na Ref.
15. Para cada cenário de detonações, as quantidades
fundamentais que têm de ser conhecidas para efeito de
previsões óticas e climáticas são as injeções atmosféricas
totais de poeira fina (raio menor ou igual a 10 u) e fuligem.
Explosões nucleares no solo ou próximas do solo podem
gerar partículas finas por vários mecanismos: (i) ejeção e
desagregação de partículas de solo, (ii) vaporização e
renucleação de terra e rocha, e (iii) assopramento e
arrastamento vertical de poeira e fumaça da superfície.
Análises de dados de testes nucleares indicam que
aproximadamente 1 x 10 elevado a 5 a 6 x 10 elevado a 5
toneladas de poeira por megaton de potência explosiva
são contidas nas nuvens estabilizadas de detonações
superficiais em terra.
Além disso, a análise de dimensões de amostras de
poeira recolhidas em nuvens nucleares indica uma fração
submicrométrica substancial. Detonações nucleares na
superfície podem ser muito mais eficientes em gerar
poeira fina do que erupções vulcânicas, que foram
impropriamente utilizadas no passado para estimar os
impactos de uma guerra nuclear.

A intensa luz emitida pela bola de fogo nuclear é


suficiente para iniciar a combustão de matérias
inflamáveis numa extensa área. As explosões sobre
Hiroxima e Nagasáqui atearam incêndios de grandes
proporções. Em ambas as cidades, a região pesadamente
destruída pelo sopro foi também consumida pelo fogo.
Avaliações feitas nestes últimos 20 anos sugerem
fortemente que ocorreriam incêndios extensos na maior
parte dos casos de detonações sobre florestas e cidades.
O Hemisfério Norte tem 4 x 10 elevado a 7 km2 de áreas
florestais, que contêm matérias combustíveis na
proporção média de 2,2 g/cm2. As zonas urbanas e
suburbanas do mundo cobrem uma área de 1,5 x 10
elevado a 6 km2. Os centros de cidades, que ocupam
entre 5 e 10% da área urbana total, contêm entre 10 e 40
g/cm2 de matérias combustíveis, enquanto as áreas
residenciais contêm entre 1 e 5 g/cm2.
A emissão de fumaça de incêndios florestais e de
incêndios urbanos de grandes proporções situa-se
provavelmente na faixa de 2 a 8% em massa do
combustível queimado. A fração fuliginosa, de alto
coeficiente de absorção (principalmente carbono grafítico)
pode chegar a 50% da emissão em peso. Em incêndios
florestais, e provavelmente em incêndios urbanos, mais
de 90% da massa de fumaça são constituídos de
partículas de menos de 1u de raio. Nos cálculos relativos
à faixa de luz visível, atribuiu-se à parte imaginária do
índice de refração da fumaça o valor 0,3 elevado a 50.

Simulações
De modo geral, as previsões de modelo aqui referidas
representam efeitos médios no Hemisfério Norte (HN). As
explosões nucleares e incêndios iniciais seriam na maior
parte circunscritos às latitudes setentrionais médias (30º a
60ºN). Assim sendo, a opacidade média prevista por
efeito da poeira e fumaça poderia ser duas a três vezes
maior nas latitudes médias, e menores em outras partes.
As profundidades óticas médias hemisféricas nos
comprimentos de onda visíveis para as nuvens mistas de
poeira e fumaça nucleares correspondentes aos cenários
do Quadro 1 são mostradas na Figura 1. A profundidade
ótica vertical é um diagnóstico útil das propriedades da
nuvem nuclear, e pode ser utilizada de modo aproximado
para calcular os níveis de luminosidade e temperatura
atmosféricas para os diversos cenários.
No cenário de referência (Caso 1, 5.000 MT), a
profundidade ótica inicial no HN é 4, sendo 1 devido à
poeira estratosférica 3 à fumaça troposférica. Depois de
um mês a profundidade ótica ainda é 2. Ao fim de dois a
três meses, a poeira domina os efeitos óticos, pois a
maior parte da fuligem é arrastada ou lavada pela chuva.
No caso de referência, cerca de 240.000 km2 de áreas
urbanas são parcialmente queimados (50%) por 1.000 MT
de explosões (apenas 20% da energia total liberada). Isso
corresponde aproximadamente a 1/6 da área continental
urbanizada do mundo, a 1/4 da área desenvolvida do HN
e à metade da área dos centros urbanos de mais de
100.000 habitantes dos países da OTAN e do Pacto de
Varsóvia. A quantidade média de matérias combustíveis
consumidas na área incendiada é1,9 g/cm2. Incêndios
florestais ateados pelos restantes 4.000 MT de energia
queimam outros 500.000 km2 de árvores, campos e
pastos, consumindo dessa forma 0,5 g/cm2 de matérias
combustíveis
Figura 1: Profundidades óticas verticais (dispersão mais
absorção, médias hemisféricas) de nuvens de poeira e
fumaça nucleares no comprimento de onda de 550 nm,
em função do tempo. Profundidades óticas menor ou igual
a 0,1 são desprezíveis, 1 são significativas, e maior que 2
implicam a possibilidade de conseqüências de vulto. Em
profundidades óticas maior ou igual a 1 a transmissão da
luz solar torna-se altamente não-linear. São mostrados
resultados para vários casos do Quadro 1. Profundidades
óticas calculadas para a nuvem da erupção do El Chichón
em expansão são mostradas para efeito comparativo.

A emissão total de fumaça no caso de referência é de 225


milhões de toneladas (desprendidas no correr de vários
dias). Em comparação, a emissão global anual de fumaça
hoje é estimada em 200 milhões de toneladas, mas o grau
de perturbação da atmosfera por ela produzido é
provavelmente menos de 1% do da fumaça nuclear.
As simulações de profundidade ótica para os Casos 1, 2,
9 e 10 na Figura 1 mostram que uma gama de energia
liberada entre 3.000 e 10.000 MT poderia produzir efeitos
semelhantes. Mesmo os Casos 11, 12 e 13, ainda que
menos severos em seu impacto absoluto, produzem
profundidades óticas comparáveis ou superiores às de
uma grande erupção vulcânica. É interessante notar que
erupções como a do Tambora em 1815 podem ter
causado perturbações climáticas significativas, mesmo
com uma redução média de temperatura superficial
inferior a 1ºK.
Figura 2: Variações da temperatura superficial (médias
hemisféricas) após um conflito nuclear. São mostrados
resultados para vários casos do Quadro 1. (Note-se que,
diferentemente da Fig. 1, a escala de tempo é linear.) Em
geral, as temperaturas aplicam-se ao interior das massas
continentais. Somente nos Casos 4 e 11 são desprezados
os efeitos dos incêndios.

O Caso 14 representa um ataque de 100 MT a cidades,


com 1.000 ogivas de 10 KT. No ataque, 25.000 km2 de
áreas urbanas construídas são incendiados (essa área
corresponderia aproximadamente a 100 grandes cidades).
A emissão de fumaça é calculada com parâmetros de
incêndios diferentes dos do caso de referência. A carga
média de matérias combustíveis em áreas urbanas
centrais é de 20 g/cm2 (contra 10 g/cm2 no Caso 1) e o
fator médio de emissão de fumaça é 0,026 g de fumaça
por grama de material queimado (contra o valor moderado
de 0,011 g/g adotado para incêndios em centros de
cidades no caso de referência). Cerca de 130 milhões de
toneladas de fumaça urbana são injetadas na troposfera
em cada caso (no Caso 14 nenhuma fumaça alcança a
estratosfera). No caso de referência, só cerca de 10% da
fumaça urbana se originam de incêndios em áreas
urbanas centrais (Quadro 3).
O limiar de injeção de fumaça para perturbações óticas
importantes em escala hemisférica parece situar-se em 1
x 10 elevado a 8 toneladas. Com base no Caso 14, pode-
se esperar o desprendimento de 1 x 10 elevado a 6
toneladas de fumaça de cada uma das 100 grandes
cidades incendiadas, consumindo 4 x 10 elevado a 7
toneladas de matérias combustíveis por cidade. Esses
incêndios podem ser ateados por 100 MT de explosões
nucleares. Inesperadamente, menos de 1% dos arsenais
estratégicos existentes, se empregado contra cidades,
poderia produzir distúrbios óticos (e climáticos) muito
maiores que os anteriormente associados a um conflito
nuclear maciço de 10.000 MT2.
A Figura 2 mostra a perturbação da temperatura
superficial em áreas continentais do HN calculada a partir
das profundidades óticas de poeira e fumaça para
diversos cenários. O mais Impressionante são as
temperaturas extremamente baixas que ocorrem em três
a quatro semanas após um conflito em grande escala. No
caso de referência de 5.000 MT, prediz-se uma
temperatura mínima em áreas continentais de 250ºK (-
23°C) ao fim de três semanas. Temperaturas abaixo de
0ºC persistem por
Figura 3: Perturbações das temperaturas troposféricas e
estratosféricas no Hemisfério Norte (em graus Kelvin; 1ºK
= 1°C) após o conflito nuclear de referência (Caso 1). A
área hachurada indica esfriamento. Também são dadas.
as pressões ambientes em milibars.
vários meses. Entre os casos mostrados, as menores
quedas de temperatura em terra são de 5º a 10ºC (Casos
4, 11 e 12), suficientes para transformar o verão em
inverno. Assim, são de esperar conseqüências climáticas
severas em todos esses casos. O cenário de 100 MT de
explosões aéreas sobre cidades (Caso 14) produz um
intervalo de dois meses de temperaturas abaixo de 0ºC
em terra, com um mínimo também aqui, próximo de
250ºK. O restabelecimento da temperatura neste caso é
acelerado pela absorção da luz solar em nuvens de
fuligem remanescentes oticamente tênues (ver abaixo).
Cenários comparáveis com e sem emissão de fumaça (p.
ex., Casos 10 e 11) mostram que as camadas
troposféricas de fuligem causam um esfriamento
superficial abrupto de curta duração, ao passo que a
poeira fina estratosférica é responsável por esfriamento
prolongado, durando um ano ou mais. (Do ponto de vista
do clima, um esfriamento superficial de apenas 1ºC já é
significativo.) Em todos os casos, a poeira nuclear age no
sentido de esfriar a superfície da Terra; a fuligem também
tende a esfriar a superfície, salvo quando a nuvem de
fuligem é oticamente tênue e localizada próximo à
superfície (um caso pouco importante, pois com isso não
se obtêm mais que pequenos aquecimentos transitórios
de menos de 20K).
As variações preditas de temperatura do ar sobre os
oceanos ligadas às alterações do transporte atmosférico
de radiação são sempre pequenas (esfriamento inferior a
3ºK) por causa do grande conteúdo de calor e rápida
mistura das águas superficiais. No entanto, variações nos
padrões de circulação atmosférica zonal (ver abaixo)
podem alterar de modo considerável as correntes e vagas
marinhas, como ocorreu há pouco tempo em menor
escala no leste do Pacífico (El Niño). O reservatório
oceânico de calor também moderaria os declínios preditos
de temperatura continental, principalmente em regiões
costeiras. Esse efeito é difícil de estimar em vista da
probabilidade de distúrbios da circulação atmosférica. Os
declínios efetivos de temperatura no interior dos
continentes poderiam ser uns 30% menores que os aqui
preditos, e ao longo dos litorais uns 70% menores. No
caso de referência, portanto, as temperaturas continentais
podem cair a 260ºK antes de voltar aos níveis ambientes.
As variações preditas no perfil vertical de temperaturas
para o cenário de referência são Ilustradas em função do
tempo na Figura 3. As características dominantes da
perturbação de temperatura são um grande aquecimento
(até 80ºK) da baixa estratosfera e alta troposfera, e um
grande esfriamento (até 400K) da superfície e baixa
troposfera. O aquecimento é causado pela absorção da
radiação solar na parte superior das nuvens de pó e
fumaça; persiste por um período longo em razão da
residência prolongada das partículas na alta atmosfera,
da sua baixa emissividade de infravermelho e das
temperaturas inicialmente baixas nas grandes altitudes. O
esfriamento superficial é o resultado da atenuação do
fluxo solar incidente pelas nuvens de aerossol (ver Figura
4) durante o primeiro mês da simulação. O efeito de
estufa deixa de ocorrer em nossos cálculos porque a
energia solar é depositada acima da altura em que a
energia de infravermelho é irradiada para o espaço.
A Figura 4 mostra os declínios de insolação para vários
cenários de guerra. O caso de referência indica fluxos
solares médios hemisféricos no solo Inferiores a 10% dos
valores normais durante várias semanas (não
considerando descontinuidades nas nuvens de pó e
fumaça). Além de causar as quedas de temperatura
acima mencionadas, a insolação atenuada pode afetar o
ritmo de crescimento das plantas e o vigor das cadeias
alimentares marinhas, litorâneas e terrestres. No caso
"severo" de 10.000 MT, os níveis médios de luz ficam
abaixo do mínimo requerido para a fotossíntese por cerca
de 40 dias em grande parte do Hemisfério Norte. Em
vários outros casos a insolação pode cair durante mais de
dois meses abaixo do ponto de compensação em que a
fotossíntese é apenas suficiente para manter o
metabolismo vegetal. Dada a probabilidade de as nuvens
nucleares se manterem descontínuas nas primeiras uma
ou duas semanas após o conflito, a passagem da luz
solar por claros nas nuvens pode permitir a atividade de
crescimento das plantas acima do nível predito para
condições médias das nuvens; no entanto, é provável que
em pouco tempo os claros se fechem.

Figura 4: Fluxos de energia solar ao nível do solo no


Hemisfério Norte após uma guerra nuclear. São
mostrados resultados para vários casos do Quadro 1.
(Note-se que a escala de tempo é linear). Os valores são
médios para o ciclo diurno e para o hemisfério. Nos Casos
4 e 16 desprezam-se os incêndios. Indicam-se também o
nível de fluxo aproximado para o qual a fotossíntese deixa
de acompanhar o ritmo respiratório da planta (ponto de
compensação) e aquele em que a fotossíntese cessa.
Esses limites variam para espécies diferentes.

Figura 5: Profundidades óticas verticais (absorção mais


dispersão em 550 nm) de nuvens nucleares em função do
tempo, numa análise de sensibilidade. As profundidades
óticas são valores médios para o Hemisfério Norte. Todos
os casos mostrados correspondem a variações de
parâmetros do modelo em referência (Caso 1) e
consideram a poeira aplicável a cada qual: Caso 3, não
há tempestades ígneas; Caso 4, não há incêndios; Caso
22, tempo de lavagem pelas chuvas reduzidos de um fator
3; Caso 25, fumaça inicialmente confinada aos primeiros
3.000 m da atmosfera; Caso 26, fumaça inicialmente
distribuída entre 13.000 e 19.000 m em todo o globo; e
Caso 27, parte imaginária do índice de refração da
fumaça reduzida de 0,3 para 0,1. Para efeito de
comparação, no Caso 4, só se considera a poeira do
modelo de referência (não se consideram os incêndios).

Testes de Sensibilidade
Um grande número de testes de sensibilidade foi efetuado
como parte deste estudo. Os resultados são resumidos a
seguir. Variações razoáveis nos parâmetros da poeira
nuclear no cenário de referência produzem profundidades
óticas médias hemisféricas iniciais de poeira que variam
aproximadamente de 0,2 a 3,0. Assim, a poeira nuclear
por si só poderia produzir um impacto climático
importante. No caso de referência, a opacidade da poeira
é muito maior que a opacidade total de
aerossol associada às erupções do El Chichón e do
Agung; mesmo quando se atribuem aos parâmetros de
poeira os seus valores menos adversos dentro da faixa
plausível, os efeitos são comparáveis aos de uma grande
explosão vulcânica.
A Figura 5 compara profundidades óticas de nuvens
nucleares para algumas variações dos parâmetros de
fumaça do modelo de referência (com a poeira incluída).
No caso de referência, admite-se que tempestades ígneas
injetem somente uma pequena fração (5%) da emissão
total de fumaça na estratosfera. Assim, os Casos 1 e
3 (sem tempestades ígneas) são muito semelhantes.
Numa digressão extrema, toda a fumaça nuclear é
injetada na estratosfera e rapidamente difundida a toda a
volta da Terra (Caso 26); profundidades óticas elevadas
podem persistir por um ano (Fig. 5). Também se obtém
um prolongamento dos efeitos óticos no Caso 22, em que
o tempo de eliminação troposférica das partículas de
fumaça aumenta de 10 a 30 dias próximo do solo. Em
contraste, quando a fumaça nuclear se mantém
inicialmente próximo do solo e se supõem processos
dinâmicos e hidrológicos de remoção inalterados, a
eliminação da fumaça ocorre muito mais depressa (Caso
25). Mas, mesmo neste caso, parte da fumaça ainda se
difunde para a alta troposfera e ali permanece durante
vários meses.
Num grupo de cálculos ópticos, fez-se variar o índice de
refração imaginário da fumaça entre 0,3 e 0,01. As
profundidades ópticas calculadas para índices entre 0,1 e
0,3 praticamente não mostram diferenças (Casos 1 e 27
na Fig. 5). Com um índice de 0,05, a profundidade ótica
de absorção se reduz em apenas 50%, e com 0,01 em
85%. Por outro lado, a opacidade total (absorção mais
dispersão) aumenta em 5%. Esses resultados mostram
que a absorção de luz e o aquecimento nas nuvens de
fumaça nuclear permanecem elevados até que a fração
de carbono grafítico da fumaça caia abaixo de uns poucos
pontos percentuais.
Um dos testes de sensibilidade (Caso 29, não figurado)
considera os efeitos óticos no Hemisfério Sul (HS) da
poeira e fuligem transportadas da estratosfera do HN.
Nesse cálculo, a fumaça do Caso 13 (300 MT, HS) se
soma à metade da poeira e fumaça estratosféricas do
caso de referência (com dispersão global rápida na
estratosfera). A profundidade ótica inicia! é 1 no HS,
caindo para 0,3 em três meses. As temperaturas médias
preditas nas superfícies continentais do HS caem 8ºK em
algumas semanas e permanecem pelo menos 4ºK abaixo
do normal por quase oito meses. No entanto, a influência
sazonal deve ser levada em conta. Por exemplo, as piores
conseqüências para o HN resultariam de um conflito de
primavera ou de verão, quando as plantações são
vulneráveis e o perigo de fogo é maior. O HS, que estaria
então no outono ou no inverno, seria nesse caso menos
sensível ao escurecimento e esfriamento. Não obstante,
as implicações deste cenário para as regiões tropicais de
ambos os hemisférios parecem sérias e merecedoras de
uma análise suplementar. Fatores sazonais também
podem modular a resposta atmosférica às perturbações
pela fumaça e poeira, e devem ser consideradas.
Figura 6: Profundidades óticas verticais (absorção mais
dispersão em 550 nm) em função do tempo para casos
ampliados de energia explosiva ou produção de poeira e
fumaça nucleares. As condições são detalhadas noutro
lugar. As quantidades de energia explosiva liberada são
as mesmas dos casos nominais de igual total constantes
do Quadro 1 (os Casos 16 e 18 também estão
relacionados). Os casos “severos” consideram geralmente
um aumento de seis vezes na injeção de poeira fina e de
duas vezes na emissão de fumaça. Nos casos 15, 17 e
18, a fumaça é responsável pela maior parte da
opacidade durante os primeiros um, dois meses. Nos
casos 17 e 18, a poeira contribui com a principal parcela
para os efeitos óticos depois de um, dois meses. No Caso
16 desprezam-se os incêndios e toda a opacidade é
produzida pela poeira de explosões na superfície.

Alguns testes de sensibilidade para casos mais severos


foram levados a efeito com liberações de energia variando
de 1.000 a 10.000 MT e valores mais adversos, mas não
implausíveis, atribuídos aos parâmetros de poeira e
fumaça. Os efeitos preditos são consideravelmente piores
(ver abaixo). As menores probabilidades desses casos
mais severos devem ser pesadas contra os desfechos
catastróficos que eles pressupõem. Seria política
prudente medir a importância desses cenários em termos
do produto das suas probabilidades pelos custos dos
efeitos respectivos. Infelizmente, não temos meios de
quantificar com precisão as probabilidades aplicáveis. No
entanto, pela sua própria natureza, os casos mais severos
devem ser os mais importantes a considerar com vistas
ao emprego de armas nucleares.
Com essas reservas, apresentamos na Figura 6 as
profundidades óticas para alguns dos casos mais severos.
Opacidades elevadas podem persistir por um ano, e
temperaturas superficiais continentais podem cair a 230-
240ºK, ou seja, cerca de 50ºK abaixo do normal.
Combinados a baixos níveis de luz (Fig. 4), esses
cenários severos levantam a possibilidade de
conseqüências ecológicas catastróficas e generalizadas.
Dois testes de sensibilidade foram efetuados para
determinar aproximadamente as propriedades óticas da
aglomeração de aerossol nas nuvens em início de
expansão. (As simulações já levam em conta a
coagulação contínua das partículas nas nuvens
dispersas.) Admitiu-se uma dispersão muito lenta nas
nuvens iniciais estabilizadas de poeira e fumaça, levando
cerca de oito meses para cobrir o HN. A coagulação de
partículas reduziu a opacidade média ao fim de três
meses em cerca de 40%. Quando a eficiência adesiva
das partículas em colisão também foi maximizada, a
opacidade média ao fim de três meses reduziu-se em
75%. Na situação mais provável, porem, a aglomeração e
coagulação imediata reduziria as profundidades óticas
médias hemisféricas das nuvens em 20 a 50%.

Outros Efeitos
Foram considerados também, com menos detalhe, os
efeitos à longo prazo da precipitação radioativa, do NOx
gerado pelas bolas de fogo, e dos gases tóxicos e pirogê-
nicos. A física da precipitação radioativa é bem
conhecida. Nossos cálculos referem-se principalmente à
acumulação externa na escala intermediária de tempo da
precipitação devida ao arrastamento e deposição seca da
poeira nuclear dispersa. Para estimar níveis possíveis de
exposição, adotamos uma fração de energia de fissão de
0,5 para todas as armas. Quanto à exposição apenas à
emissão gama da poeira radioativa, que no cenário de
referência (5.000 MT) começa a precipitar depois de dois
dias, a dose total média hemisférica acumulada por
humanos em alguns meses seria de 20 rads, supondo-se
ausência de abrigo e de remoção da poeira por agentes
meteorológicos. Durante esse tempo a precipitação ficaria
restrita principalmente às latitudes médias do HN; ali,
portanto, a dose poderia ser 2 a 3 vezes maior.
Considerando a ingestão de radionuclídeos
biologicamente ativos e exposição ocasional a
precipitação localizada, a dose crônica total média
nas latitudes médias de radiação ionizante no caso de
referência seria mais de 50 rads de radiação gama
externa no corpo inteiro, somados a mais de 50 rads em
órgãos internos específicos, provenientes de emissores
internos de radiações beta e gama. No caso de 10.000
MT, com as mesmas suposições, as doses médias seriam
multiplicadas por dois. Estas doses sõao mais ou menos
uma ordem de grandeza maiores que as das estimativas
precedentes, que desprezaram o arrastamento e
precipitação na escala intermediária de tempo de resíduos
nucleares troposféricos produzidos por detonações de
baixa potência (menos de 1 MT).
O problema do NOx produzido nas bolas de fogo das
explosões de alta potência, e da resultante redução do
ozônio atmosférico, foi tratado em vários estudos. No
nosso caso de referência, encontrou-se para o
empobrecimento médio hemisférico de ozônio um valor
máximo de 30%. Este seria bem menor se as potências
das ogivas individuais fossem todas reduzidas a menos
de 1 MT. Considerando a relação entre o acréscimo da
radiação UV-B e o decréscimo de ozônio, são previstas
doses de UV-B aproximadamente iguais ao dobro do
normal no primeiro ano após o conflito no caso de
referência (depois de dissipadas a poeira e a fuligem).
Efeitos maiores de UV-B resultariam de ataques com
ogivas de maior potência (ou artefatos multidetonantes).
Os incêndios nucleares gerariam uma grande variedade
de gases tóxicos (piratoxinas), inclusive CO e HCN.
Segundo Crutzen e Birks, uma densa capa de poluição
atmosférica, incluindo concentrações aumentadas de
ozônio, poderia recobrir o HN durante vários meses.
Preocupam-nos também as dioxinas e os furanos,
compostos extremamente tóxicos e persistentes que são
liberados na combustão de substâncias orgânicas
sintéticas de largo emprego. Num conflito nuclear
poderiam ser geradas centenas de toneladas de dioxinas
e furanos. As conseqüências ecológicas à longo prazo
dessas pirotoxinas nucleares merecem estudos mais
aprofundados.

Perturbações Meteorológicas
Variações horizontais da absorção de luz solar na
atmosfera e na superfície são as forças impulsoras
básicas da circulação atmosférica. Em vários dos casos
considerados neste estudo são indicadas modificações de
vulto nessas forças. Por exemplo, desigualdades de
temperatura superiores a 10ºK entre áreas continentais do
HN e os oceanos contíguos podem induzir uma forte
circulação do tipo monção, análoga em certos aspectos
ao padrão de inverno nas vizinhanças do subcontinente
Indiano. Do mesmo modo, o contraste de temperaturas
entre regiões atmosféricas carregadas de resíduos e
regiões adjacentes ainda não ocupadas pela fumaça e
poeira deve produzir novas modalidades de circulação.
Assim, pois, as nuvens de poeira e fumaça nucleares
poderão ocasionar perturbações climáticas de monta e
efeitos correspondentes, através de mecanismos
variados: reflexão de radiação solar para o espaço e
absorção de luz solar na alta atmosfera, resultando em
esfriamento superficial generalizado; modificação dos
padrões de absorção da luz solar e aquecimento que
promovem a circulação atmosférica em pequena escala e
em grande escala; introdução de maior quantidade de
vapor de água e de núcleos de condensação de nuvens,
que afetam a formação de nuvens e o regime de chuvas;
e alteração do albedo superficial por incêndios e fuligem.
Esses efeitos conjugam-se intimamente para determinar a
resposta atmosférica geral a uma guerra nuclear. Por ora
não é possível prever em detalhe as alterações nos
campos combinados da circulação atmosférica e da
radiação, e no comportamento do tempo e dos
microclimas, que resultariam das injeções maciças de
poeira e de fumaça aqui analisadas. Portanto, a
especulação tem de limitar-se a considerações muito
gerais.
A evaporação dos oceanos é uma fonte contínua de
umidade para a camada marinha Iimítrofe. Uma camada
densa semipermanente de bruma ou nevoeiro poderia
recobrir grandes porções de água. As conseqüências para
a precipitação pluviométrica marinha não são claras,
principalmente se os ventos dominantes normais
forem grandemente alterados pelo agente solar
perturbado. Algumas regiões continentais poderiam sofrer
nevadas contínuas durante vários meses. As chuvas
podem promover a remoção da fuligem, se bem que o
processo possa não ser muito eficiente no caso de
nuvens nucleares. É provável que, em média, as taxas de
precipitação pluviométrica fossem em geral menores que
na atmosfera ambiente: a principal fonte restante de
energia para a formação de tempestades é o calor latente
da evaporação oceânica, e a atmosfera superior fica mais
quente que a inferior, o que elimina a convecção e a
formação de chuvas.
Apesar da possibilidade de grandes nevadas, não é
provável que uma guerra nuclear desencadeasse uma
glaciação. O período de esfriamento (menos de um ano)
provavelmente é curto demais para vencer a considerável
inércia do sistema climático da Terra. O reservatório de
calor que são os oceanos haveria de forçar o clima no
sentido dos padrões contemporâneos nos anos seguintes
à guerra. Do ponto de vista climatológico, a introdução de
CO2 pelos incêndios nucleares não é expressiva.

Transporte Inter-Hemisférico
Em estudos anteriores foi admitido que um transporte
inter-hemisférico significativo de detritos nucleares e
radioatividade demandaria um ano ou mais. Isto com base
em observações de transporte em condições ambientes,
inclusive a dispersão de nuvens de detritos produzidas
por testes nucleares atmosféricos isolados. No entanto,
nuvens densas de poeira e fumaça produzidas por
milhares de explosões quase simultâneas seriam de
molde a provocar distúrbios dinâmicos intensos em
seguida a uma guerra nuclear. Podo-se estabelecer uma
analogia aproximada com a evolução das tempestades de
poeira de escala global em Marte. A baixa atmosfera
marciana assemelha-se em densidade à estratosfera da
Terra, e o período de rotação é quase igual ao da Terra
(embora a insolação seja apenas metade da terrestre). As
tempestades de poeira que se formam em um dos
hemisférios de Marte não raro se intensificam e se
propagam rapidamente ao planeta inteiro, cruzando o
equador num tempo médio de 10 dias. Aparentemente, a
explicação está no aquecimento da poeira levantada, que
passa a suplantar outras fontes de calor e a determinar a
circulação. Haberle e outros empregaram um modelo
bidimensional para simular a evolução das tempestades
de poeira em Marte e concluíram que a poeira em baixas
latitudes, no núcleo da circulação de Hadley, é o fator
mais Importante de modificação dos ventos. Num conflito
nuclear, a maior parte da poeira e fumaça seria injetada
em latitudes médias. Entretanto, Haberle e outros não
conseguiram encaixar em seus cálculos as ondas de
escala planetária. Perturbações da amplitude de ondas
planetárias podem influir consideravelmente no transporte
de detritos nucleares entre médias e baixas latitudes.
Efeitos atmosféricos de vulto poderiam produzir-se no HS
(i) pela injeção de poeira e fumaça resultante de
explosões em objetivos do HS, (ii) pelo transporte de
detritos do HN através do equador meteoro lógico por
ventos do tipo monção 4, e (iii) por transporte inter-
hemisférico na alta troposfera e na estratosfera,
promovido pelo aquecimento solar das nuvens de poeira e
fumaça nucleares. Observações fotométricas da nuvem
produzida pela erupção do vulcão El Chichón (origem
14ºN) pelo satélite Solar Mesosphere Explorer mostraram
que 10 a 20% do aerossol estratosférico foram
transportados para o HS após 7 semanas.

Discussão e Conclusões
Os estudos aqui esboçados sugerem efeitos climáticos
sérios à longo prazo como conseqüência de um conflito
nuclear de 5.000 MT. Apesar das incertezas no que se
refere às quantidades e propriedades da poeira e da
fumaça produzidas por explosões nucleares, e das
limitações dos modelos usados para análise, podem tirar-
se em primeira aproximação as seguintes conclusões:

(1) Em desacordo com a maior parte dos estudos


anteriores (p. ex., Ref. 2), nós concluímos que uma guerra
nuclear global produziria um grande impacto sobre o clima
- manifestado em escurecimento considerável da
superfície durante muitas semanas, temperaturas
continentais glaciais persistindo por até vários meses,
grandes perturbações nos padrões de circulação global e
alterações dramáticas de condições meteorológicas locais
e regimes de chuvas - um rigoroso "inverno nuclear" em
qualquer estação. Transporte inter-hemisférico acelerado
de detritos nucleares na estratos fera também poderia
ocorrer, embora se façam necessários estudos de modelo
para quantificar esse efeito. Com a rápida mistura inter-
hemisférica, o HS poderia sofrer grandes injeções de
detritos nucleares pouco tempo depois de um conflito no
HN. Antes, supunha-se que os efeitos no HS seriam de
pouca monta. Embora se preveja que os distúrbios
climáticos durem mais de um ano, parece improvável que
fosse deflagrada uma transformação climática de vulto à
longo prazo, como uma glaciação.

(2) Efeitos climáticos relativamente grandes poderiam


resultar mesmo de um conflito nuclear relativamente
pequeno (100 a 1.000 MT) se os ataques se
concentrassem em áreas urbanas, pois 100 MT já são
suficientes para arrasar e incendiar algumas centenas de
grandes centros urbanos do mundo. Um limiar tão baixo
de energia para emissões maciças de fumaça, embora
dependendo do cenário, implica que mesmo conflitos
nucleares limitados podem deflagrar conseqüências
graves. Tanto menos provável é que a liberação de 5.000
a 10.000 MT tivesse apenas efeitos leves.

(3) Prevê-se que o impacto climático da fumaça negra de


incêndios nucleares ateados por explosões aéreas será
mais importante que o da poeira levantada
por detonações na superfície (quando os dois efeitos
ocorrerem). A fumaça absorve eficientemente a luz solar,
ao passo que a poeira de solo é geralmente não-
absorvente. As partículas de fumaça são extremamente
pequenas (tipicamente raio inferior a 1 u), o que prolonga
o seu tempo de residência atmosférica. Há também uma
alta probabilidade de que explosões nucleares sobre
cidades, florestas e campos ateariam incêndios de grande
extensão, mesmo em ataques limitados a silos de mísseis
e outros alvos militares estratégicos.

(4) A fumaça de incêndios urbanos pode ser mais


importante que a de incêndios florestais colaterais por
duas razões pelo menos: (i) num conflito em grande
escala, é provável que cidades contendo grandes
depósitos de matérias combustíveis sejam diretamente
atacadas; e (ii) tempestades ígneas intensas poderiam
bombear fumaça para a estratosfera, onde o tempo de
residência é de um ano ou mais.

(5) A poeira nuclear também pode contribuir para o


impacto climático de um conflito nuclear. O efeito climático
da poeira é muito sensível à maneira de condução da
guerra; é de esperar um efeito menor se forem
empregadas armas de menor potência e se houver
predominância de detonações aéreas sobre detonações
no solo. A ocorrência de detonações múltiplas poderia
agravar os efeitos climáticos da poeira nuclear, mas não
há dados suficientes para avaliar esta questão.

(6) A exposição à precipitação radioativa pode ser mais


intensa e generalizada do que o predito por modelos
empíricos de exposição que desprezam a precipitação
intermediária, a qual pode estender-se por dias e
semanas, tanto mais se grandes quantidades de detritos
de fissão fossem bruscamente liberadas na troposfera por
explosões de potência abaixo de 1 MT. Num conflito de
5.000 MT, podem verificar-se em latitudes médias do HN
doses médias de raios gama (exposição corporal) de até
50 rads; doses maiores podem ocorrer nos penachos de
precipitação que partindo dos objetivos se estenderiam
centenas de quilômetros na direção do vento. Essa
estimativa deixa de levar em conta uma dose
provavelmente não insignificante de radiação interna
devida a radionuclídeos biologicamente ativos.

(7) Sinergismos entre efeitos à longo prazo de uma guerra


nuclear - como baixos níveis de luz, temperaturas glaciais,
exposição à precipitação radioativa intermediária, alto
grau de poluição pirogênica do ar e fluxo acrescido de
UV-B -, agravados pela supressão de socorros médicos,
suprimento de alimentos e serviços civis, poderiam
aumentar em muito o número de baixas e afetar
seriamente o ecossistema global. Uma avaliação das
possíveis conseqüências biológicas à longo prazo dos
efeitos de uma guerra nuclear quantificadas neste estudo
foi feita por Ehrlich e outros.

Nossas estimativas dos impactos físicos e químicos de


uma guerra nuclear são necessariamente imprecisas
porque nós utilizamos modelos unidimensionais, porque
os dados básicos são incompletos e porque o problema
não é passível de investigação experimental. Também
não nos é possível prever a natureza exata das alterações
da dinâmica atmosférica e da meteorologia apontadas
pelos nossos cenários de guerra nuclear, nem o efeito de
tais alterações na manutenção ou dispersão das nuvens
iniciais de poeira e fumaça. Não obstante, sendo tão
grande a magnitude dos efeitos de primeira ordem, e tão
sérias as implicações, esperamos que as questões
científicas aqui levantadas sejam enérgica e criticamente
examinadas.

CONSEQÜÊNCIAS BIOLÓGICAS À LONGO


PRAZO DE UMA GUERRA NUCLEAR
Estudos recentes de uma guerra nuclear em grande
escala (liberação de 5.000 a 10.000 MT) estimaram que
haveria 750 milhões de mortes imediatas somente por
ação das explosões; um total de 1,1 bilhão de mortes
provocadas pelos efeitos combinados de explosões, fogo
e radiação e aproximadamente outro tanto de feridos
necessitando cuidados médicos. Assim, as baixas
imediatas de uma guerra nuclear poderiam representar de
30 a 50% da população do mundo. A grande maioria das
baixas ocorreria no Hemisfério Norte, principalmente nos
Estados Unidos, URSS, Europa e Japão. Esses números
enormes têm sido tipicamente citados para definir em toda
a sua magnitude o potencial catastrófico de uma guerra
dessa espécie. No entanto elementos novos aqui
apresentados sugerem que os efeitos biológicos à mais
longo prazo resultantes de alterações climáticas podem
ser pelo menos tão graves quanto os imediatos. Nossa
preocupação neste artigo é com os dois ou três bilhões de
pessoas não imediatamente mortas, inclusive as de
países situados a grandes distâncias do conflito nuclear.
Consideram-se principalmente os resultados de uma
guerra nuclear em que poeira e fumaça são injetadas na
atmosfera em quantidade bastante para interceptar a
maior parte da radiação solar incidente, possibilidade esta
inicialmente sugerida por Ehrlich e outros, e inicialmente
quantificada e divulgada por Crutzen e Birks. Numa ampla
gama de cenários de conflito nuclear, com liberação de
energia variando de 100 a 10.000 MT, sabemos agora
que a luz solar poderia ser absorvida e dispersada em
grau suficiente para provocar escuridão e frio em áreas
extensas, (esses trabalhos são coletivamente designados
TTAPS). Em todos os casos as computações indicam
conseqüências biológicas de extrema gravidade. Todos
os cenários estão perfeitamente enquadrados nas
possibilidades atuais, e do ponto de vista estratégico não
parecem improváveis. Além disso, é possível que a
probabilidade de uma guerra nuclear com altíssima
liberação de energia tenha sido de modo geral
subestimada. Examinam-se também as conseqüências da
propagação de efeitos atmosféricos ao Hemisfério Sul.
Consideramos como caso de referência o Caso 17 dos
cenários estudados no TTAPS. É o caso de um conflito de
10.000 MT em que aos parâmetros que definem as
propriedades dos aerossóis de poeira e fuligem são
atribuídos valores adversos mas não implausíveis, e em
que 30% da fuligem são carreados por tempestades
ígneas a altitudes estratosféricas. As perturbações
ambientais resultantes, com as respectivas margens de
incerteza, estão relacionadas para os Hemisférios Norte e
Sul no Quadro 1, A e B.
Tomando valores médios para o Hemisfério Norte,
independentemente da estação do ano, os fluxos
calculados de luz visível reduzir-se-iam a
aproximadamente 1% do normal, e as temperaturas
superficiais no interior dos continentes poderiam cair a
aproximadamente -40°C. Seria necessário no mínimo um
ano para que a luz e a temperatura retornassem às
condições normais. Em zonas de objetivos, de início a
escuridão poderia ser total, mesmo ao meio-dia. Uma
porção estimada de 30% das áreas continentais de
latitudes médias do Hemisfério Norte receberia uma dose
de radioatividade superior a 500 R imediatamente após as
explosões. Essa dose, produzida por emissores gama
externos da precipitação radioativa, igualaria ou excederia
a dose aguda média letal (LD50) para adultos sadios. Nos
dias e semanas seguintes, a precipitação contribuiria uma
dose externa adicional superior a 100 R em 50% das
latitudes médias norte. Doses internas contribuiriam
outros 100 R ou mais concentrados em sistemas
orgânicos específicos como a tiróide, os ossos, o trato
gastrointestinal e o leite das lactantes. Após o
assentamento da poeira e da fumaça, o fluxo superficial
de radiação solar ultravioleta (UV-B, 320 a 290 nm) seria
aumentado várias vezes durante alguns anos em virtude
do empobrecimento da ozonosfera por ação do NOx
gerado pelas bolas de fogo. Os efeitos no Hemisfério Sul
envolveriam níveis mínimos de luz inferiores a 10% do
normal, temperaturas mínimas continentais na superfície
inferiores a -18ºC e aumentos de UV-B de dezenas de
pontos percentuais durante anos. Os impactos potenciais
das alterações climáticas induzidas por uma guerra
nuclear são sumariados no Quadro 2.
Evidentemente são possíveis guerras termonucleares
menos adversas para o meio, mas efeitos climáticos
semelhantes aos aqui delineados poderiam resultar de
conflitos muito mais limitados, de não mais de algumas
centenas de megatons, no caso de ataques a cidades.
Mesmo que não houvesse efeitos climáticos globais, as
conseqüências regionais de uma guerra nuclear poderiam
ser sérias (Quadro 3). Achamos, no entanto, que os
detentores do poder de decisão devem ser plenamente
informados das conseqüências potenciais dos cenários
mais prováveis de desencadear efeitos prolongados. Por
isso, concentramo-nos; neste artigo, no caso "severo" de
10.000 MT, em vez de no caso de referência de 5.000 MT
do TTAPS. De qualquer modo, por causa dos
sinergismos, as conseqüências de qualquer dado cenário
de guerra nuclear podem ser mais graves que as que
abaixo se descrevem. Nosso conhecimento do
funcionamento detalhado dos ecossistemas globais é
ainda muito incompleto para podermos avaliar todas as
interações, e por conseguinte os efeitos cumulativos, dos
muitos fatores adversos a que as populações humanas e
os ecossistemas seriam submetidos. Cada sinergismo
não avaliado é provavelmente um fator negativo
multiplicador.

Temperatura
O impacto de temperaturas dramaticamente reduzidas
sobre as plantas dependeria da época do ano em que
elas ocorressem, da sua duração e dos limites de
tolerância de cada espécie vegetal. Particularmente
importante é a queda brusca de temperatura. O trigo de
inverno, por exemplo, pode suportar temperaturas de até -
15º a -20ºC quando pré-condicionado a baixas
temperaturas (como ocorre naturalmente nos meses de
outono e de inverno), mas uma temperatura de -5ºC pode
matar as mesmas plantas se expostas durante o
crescimento ativo de verão. Até plantas de regiões
alpinas, como por exemplo o Pinus cembra, que toleram
temperaturas de até -50ºC no meio do inverno, podem ser
mortas por temperaturas de -5ºC a -10ºC ocorridas no
verão. Os cálculos do TTAPS indicam que as
temperaturas cairiam em tempo curto aos seus níveis
mínimos (Quadro 1); nessas circunstâncias é improvável
que plantas normalmente resistentes ao frio pudessem
"endurecer" (desenvolver tolerância ao congelamento)
antes de alcançadas temperaturas letais. Outros traumas
infligidos às plantas pela radiação, por poluentes do ar e
por baixos níveis de iluminação imediatamente após a
guerra multiplicariam os danos provocados pelo
esfriamento. Além disso, plantas doentes ou danificadas
têm reduzidas a sua capacidade de suportar condições de
frio extremo.
Mesmo temperaturas bem acima do ponto de
congelamento podem ser danosas para certas plantas.
Por exemplo, a exposição do arroz ou do sorgo a uma
temperatura de apenas 13ºC na época crítica pode inibir a
formação de grãos porque o pólen produzido é estéril. O
milho (Zea mays) e a soja (Glycine max), duas culturas
importantes na América do Norte, são muito sensíveis a
temperaturas de menos de 10ºC.
Se bem que uma guerra nuclear no outono ou no inverno
teria provavelmente efeitos menores sobre as plantas do
que na primavera ou no verão, a vegetação tropical é
vulnerável às baixas temperaturas em todas as épocas do
ano. As únicas regiões em que as plantas terrestres
poderiam escapar à devastação pelo frio extremo seriam
aquelas situadas junto às costas e em ilhas, onde as
temperaturas seriam moderadas pela inércia térmica dos
mares. Contudo, essas áreas experimentariam condições
meteorológicas excepcionalmente violentas devido ao
forte gradiente lateral de temperatura entre os oceanos e
o interior dos continentes.

Luz Visível
A ruptura da fotossíntese pela atenuação da luz solar
incidente teria conseqüências que se propagariam em
cascata ao longo das cadeias alimentares, muitas das
quais incluem o homem como consumidor. A
produtividade primária se reduziria mais ou menos na
proporção do grau de atenuação da luz, mesmo na
hipótese pouco realista de que a vegetação não fosse
afetada de outros modos.
Vários estudos têm examinado os efeitos do
escurecimento sobre o ritmo da fotossíntese, o
crescimento das plantas e o rendimento das safras.
Embora folhas individuais possam ser saturadas por
níveis de luz abaixo da metade da luz solar normal,
plantas inteiras, que têm várias camadas de folhas
orientadas em diferentes ângulos em relação ao sol e
sombreando parcialmente umas as outras, geralmente
não são saturadas. Assim, uma redução de luz de apenas
10%, ainda que não reduzisse a fotossíntese numa folha
inteiramente exposta, poderia reduzi-la no conjunto da
planta devido à presença de folhas não saturadas no
folhame. Aliás, visto que as plantas também respiram, é
provável que na maioria dos casos todo crescimento seria
interrompido se o nível de luz caísse uns 5% abaixo dos
níveis ambientes normais do habitat (ponto de
compensação). Nos níveis previstos para os primeiros
meses seguintes a um conflito nuclear de vulto, as plantas
seriam seriamente afetadas e muitas morreriam pela
redução substancial de sua produtividade causada
unicamente pela redução de luz.
Radiação lonizante
A exposição à radiação ionizante num conflito nuclear
seria o resultado direto do fluxo de nêutrons e raios gama
da bola de fogo, dos detritos radioativos depositados na
direção do vento. e da parte dos detritos que seria
transportada pelo ar e circularia globalmente.
O grau de dano dos organismos dependeria do tempo e
intensidade da exposição, sendo os efeitos tanto mais
graves quanto maiores o tempo e a exposição total. A
exposição letal média para o homem é geralmente
calculada em 350 a 500 R recebidos no corpo inteiro em
menos de 48 horas. Para a maior parte dos outros
mamíferos e para algumas plantas a exposição letal
média é inferior a 1.000 R. Se o tempo de exposição
diminui, a dose letal média aumenta.
A área submetida à radiação intensa produzida pela bola
de fogo também seria diretamente afetada pelo sopro e
pelo calor. O raio dentro do qual a pressão do sopro
ultrapassa cinco libras por polegada quadrada é definida
como a zona letal de sopro, e a área em que o fluxo
térmico ultrapassa 10 cal/cm2, como a zona letal de calor.
O raio dentro do qual se calcula que a radiação ionizante
da bola de fogo seria letal para o homem é menor que os
raios de letalidade definidos pela pressão ou pelo calor.
Não se deu aqui atenção especial adicional aos efeitos da
radiação ionizante produzida pelas bolas de fogo.
Uma estimativa, baseada no cenário da revista Ambio e
parecida com o caso de referência do TTAPS, envolve a
liberação de 5.742 MT e cerca de 11.600 detonações,
sem superposição de campos de precipitação; sugere que
cerca de 5 x 10 elevado a 6 km2 seriam expostos a 1.000
R ou mais em áreas situadas na direção do vento. Cerca
de 85% dessa exposição total seriam recebidos em 48
horas. Essa exposição é letal para todas as pessoas
expostas, e pode causar a morte de espécies vegetais
sensíveis como a maioria das coníferas - árvores que
formam florestas extensas na maior parte das zonas mais
frias do Hemisfério Norte. Se reatores, depósitos de
rejeitos radioativos e usinas de reprocessamento de
combustível nuclear fossem atingidos num ataque, a área
afetada e os níveis de radiação ionizante poderiam ser
ainda maiores.
Na hipótese de que mais ou menos a metade da área
afetada por radiação de precipitação na faixa de 1.000 a
10.000 R fosse coberta de florestas, seriam
aproximadamente 2,5 x 10 elevado a 6 km2 dentro dos
quais ocorreria extensa mortalidade de árvores e muitas
outras plantas. Com isso criar-se-ia a possibilidade de
incêndios de grandes proporções. A maior parte das
coníferas morreria numa área equivalente a cerca de
2,5% de toda a superfície terrestre do Hemisfério Norte.
A possibilidade de até 30% da área continental de
latitudes médias ser exposta a 500 R ou mais de radiação
gama acentua a escala e a gravidade do perigo (Quadro
1A). Uma exposição total de 500 R, embora tivesse pouco
efeito sobre a maior parte das populações vegetais,
provocaria mortalidade generalizada entre todos
os mamíferos, seres humanos inclusive. Os sobreviventes
expostos ficariam doentes por semanas, e mais
propensos ao câncer pelo resto de suas vidas. O total de
pessoas afetadas excederia um bilhão.

Radiação UV-B
Nas semanas seguintes ao conflito, a poeira e fuligem
troposféricas e estratosféricas absorveriam o fluxo de UV-
B que sem isso seria transmitido pela ozonosfera
parcialmente destruída. Mas quando, alguns meses
passados, a poeira e a fuligem se dissipassem, os efeitos
da rarefação de O3 far-se-iam sentir na superfície. No
Hemisfério Norte, o fluxo de UV-B aumentaria
aproximadamente duas vezes no caso de referência do
TTAPS e quatro vezes no da guerra de 10.000 MT
considerado no Quadro 1A. Tal como acontece no caso
de uma ozonosfera inaIterada, a dose de UV-B seria
bem maior nas latitudes equatoriais do que nas
temperadas.
Mesmo empobrecimentos bem menores de O3 são
considerados perigosos para os ecossistemas e para o
homem. Se a banda inteira de UV-B aumentasse em
cerca de 50%, a quantidade de UV-B no extremo de
energia mais alta da banda, em torno de 295 nm,
aumentaria umas 50 vezes. Essa região tem importância
biológica especial devido à fone absorção de energia
nesses comprimentos de onda pelos ácidos nucléicos,
pelos aminoácidos aromáticos e pela ligação peptídica.
Em grandes doses, a UV-B é muito destrutiva para as
folhas, enfraquecendo as plantas e reduzindo a
sua produtividade. Sabe-se que a produtividade do
plâncton marinho próximo à superfície é
consideravelmente deprimida por níveis ambientes atuais
de UV-B; aumentos mesmo pequenos poderiam ter
"conseqüências profundas" para a estrutura das cadeias
alimentares marinhas.
Em pelo menos quatro outros modos, níveis acrescidos
de UV-B são sabidamente prejudiciais aos sistemas
biológicos: (i) sabe-se que os sistemas imunológicos do
Homo sapiens e de outros mamíferos são suprimidos
mesmo por doses relativamente baixas de UV-B18.
Particularmente em condições de radiação ionizante
aumentada e outras sobrecargas fisiológicas, essa
supressão dos sistemas imunológicos conduz a um
aumento de incidência de doenças. (ii) Folhas que
atingem a maturidade sob baixas intensidades de luz são
duas ou três vezes mais sensíveis à UV-B do que as que
se desenvolvem sob iluminação intensa. (iii) A
sensibilidade das bactérias à UV-B é aumentada por
temperaturas baixas, que suprimem o processo normal de
reconstituição do ADN, processo esse que depende da
luz visível. (iv) Exposição prolongada a doses excessivas
de UV-B pode induzir danos da córnea e
cataratas, produzindo cegueira no homem e em
mamíferos terrestres. Assim, os efeitos do aumento de
UV-B podem estar entre as mais sérias conseqüências
antes não previstas de uma guerra nuclear.

Efeitos Atmosféricos
Numa guerra nuclear, grandes quantidades de poluentes
do ar, entre eles Co, O3, NOx, cianetos, cloretos de vinil,
dioxinas e furanos, seriam liberadas junto à superfície.
Haveria smog e chuvas ácidas em extensas áreas depois
do conflito. Talvez essas toxinas não tivessem efeitos
imediatos significativos sobre uma vegetação já
devastada; entretanto, dependendo da sua persistência,
poderiam certamente obstar a sua recuperação. Por outro
lado, o seu transporte pelos ventos para ecossistemas
mais distantes, de início não afetados, poderia ser um
importante efeito adicional. Incêndios em grande escala
conjugados a uma interrupção da absorção do CO2
fotossintético produziriam um aumento a curto prazo da
concentração atmosférica de CO2. A quantidade atual de
CO2 na atmosfera equivale à que é consumida por vários
anos de fotossíntese e recebe a influência estabilizadora
das reservas de carbono inorgânico dos oceanos. Dessa
forma, se o clima global e a produtividade fotossintética
dos ecossistemas se restabelecessem em níveis
próximos do normal no curso de alguns anos, é
improvável que viesse a ocorrer uma alteração de longo
prazo na composição da atmosfera. Contudo, não é fora
dos domínios do possível que um evento abrangendo os
dois hemisférios, com os conseqüentes danos aos
organismos fotossintéticos, causasse um brusco aumento
de concentração de CO2 e assim alterações climáticas
duráveis. Para efeito de comparação. o tempo de
reciclagem de O2 através da biosfera é de
aproximadamente 2.000 anos.

Sistemas Agrícolas
As reservas de alimentos básicos nos centros de
população humana são pequenas, e a maior parte da
carne e dos produtos frescos é suprida diretamente pelas
fazendas. Somente grãos de cereais são armazenados
em quantidades expressivas, mas os locais de
armazenagem situam-se com freqüência em pontos
distantes dos centros urbanos. Em seguida a uma guerra
na primavera ou no princípio do verão, as safras do ano
seriam quase certamente perdidas. Numa guerra de
outono ou de inverno os grãos teriam sido colhidos, mas
como o clima permaneceria extremamente frio por muitos
meses, a época seguinte de plantio seria também
desfavorável ao crescimento das plantas.
Em suma, após uma guerra nuclear as fontes potenciais
disponíveis de alimentos no Hemisfério Norte seriam
destruídas ou contaminadas, ou estariam em locais
inacessíveis, ou logo se esgotariam. Nos países
diretamente envolvidos na guerra haveria escassez de
alimentos em muito pouco tempo. Outrossim, países que
hoje precisam de grandes importações, ainda que não
atingidos por explosões nucleares, sofreriam uma pronta
interrupção de abastecimento, o que os obrigaria a contar
unicamente com seus ecossistemas agrícolas e naturais
locais. Este seria um seríssimo problema para muitas
nações menos desenvolvidas, principalmente nas regiões
tropicais.
Em sua maior parte, as principais culturas são anuais, e
dependem em alto grau de subsídios energéticos e
nutritivos fornecidos por sociedades humanas. Além
disso, a fração da sua produção utilizável para consumo
humano requer a fixação de um excesso de energia
acima das necessidades respiratórias das plantas, o que
exige insolação abundante e minimização de agressões
ambientais por pragas, insuficiência de água, partículas
em suspensão no ar, poluição, etc. Depois de uma guerra
nuclear, proporcionar tais condições seria muitíssimo
difícil, se não impossível, na maior parte da Terra ou
possivelmente em toda ela. Portanto, para todos os
efeitos práticos, a agricultura tal como a conhecemos
deixaria de existir.
Como na maior parte das culturas norte-americanas,
européias e soviéticas as sementes são colhidas e
armazenadas não em fazendas individuais mas
predominantemente em áreas-objetivos ou em seus
arredores, os estoques de sementes para anos
subseqüentes seriam quase com certeza seriamente
desfalcados, e é provável que a variabilidade genética
dessas culturas, já limitada, fosse drasticamente reduzida.
Além do mais, as áreas potenciais de cultura
experimentariam modificações climáticas locais, altos
níveis de contaminação radioativa e solos empobrecidos
ou erodidos. A recuperação da produção agrícola teria de
ocorrer na ausência de subsídios maciços de energia
(especialmente sob a forma de combustível de trator e de
fertilizantes) aos quais a agricultura das nações
desenvolvidas veio a adaptar-se.
Exceto ao longo das costas, os regimes continentais de
chuvas reduzir-se-iam substancialmente durante algum
tempo após um conflito nuclear. Mesmo hoje, a
precipitação pluviométrica é o principal fator condicionante
da produção agrícola em muitas áreas, e a irrigação, com
seus requisitos de energia e de sistemas de suporte
humano para bombeamento de água do solo, não seria
exeqüível depois de uma guerra. Ademais, nos meses
seguintes à guerra a maior parte da água disponível
estaria congelada, e o restabelecimento das temperaturas
em seus níveis normais seria lento.

Ecossistemas Terrestres Temperados


Na medida em que decaísse a agricultura organizada, os
2 ou 3 bilhões de sobreviventes aos efeitos imediatos da
guerra seriam obrigados a voltar-se para os ecossistemas
naturais. E justamente quando estes seriam solicitados a
prover sustento a uma população humana muito acima da
sua capacidade de carga, o funcionamento deles próprios
seria entravado seriamente pelos efeitos da guerra
nuclear.
A ação sobre os ecossistemas de baixas temperaturas,
fogo, radiação, tempestades e outras agressões físicas
(muitas delas ocorrendo simultaneamente) resultaria em
sua maior suscetibilidade a surtos de pragas e doenças,
provavelmente prolongados. A produtividade primária
reduzir-se-ia dramaticamente nos baixos níveis de luz
reinantes; e, por causa da UV-B, do smog, dos insetos, da
radiação e de outros fatores adversos, é improvável que
voltasse em pouco tempo aos níveis normais, mesmo
depois de restabelecidos os valores de luz e temperatura.
Ao mesmo tempo em que teriam o seu suprimento de
alimentos vegetais seriamente limitado, quase todos, se
não todos, os vertebrados não imediatamente mortos
pelas explosões e pela radiação ionizante ou morreriam
congelados, ou enfrentariam um mundo de escuridão em
que sucumbiriam de fome ou de sede, já que as águas
superficiais estariam congeladas e portanto
inaproveitáveis. Muitos dos sobreviventes estariam
isolados, e em muitos casos doentes, resultando na
extinção ligeiramente retardada de muitas outras
espécies.
A par de alimento e abrigo, os ecossistemas naturais
suprem a civilização de uma série de serviços essenciais.
Entre estes, a regulação da composição atmosférica,
a moderação do clima e das intempéries, a regulação do
ciclo hidrológico, a geração e preservação de solos, a
degradação de resíduos e a reciclagem de substâncias
nutrientes. Do ponto de vista humano, entre os papéis
mais importantes dos ecossistemas estão a sua função
direta no fornecimento de alimento e a manutenção de um
vasto acervo de espécies do qual o Homo sapiens retirou
as bases da civilização. A perda acelerada desses
recursos genéticos pela extinção seria uma das
conseqüências potenciais mais sérias de uma guerra
nuclear.
Incêndios florestais seriam um efeito importante nos
ecossistemas temperados do norte, sua escala e
distribuição dependendo de fatores como o cenário de
guerra e a estação do ano. Outra incerteza ponderável é a
extensão das tempestades ígneas, que poderiam aquecer
as camadas profundas do solo em grau suficiente para
lesar ou destruir bancos de sementes, principalmente em
tipos de vegetação não adaptados a queimas periódicas.
Detonações aéreas múltiplas em áreas sazonalmente
secas como a Califórnia no fim do verão ou princípio do
outono poderiam calcinar grande parte das áreas de mata
e de campo do Estado, ocasionando inundações e
erosões catastróficas na estação chuvosa subseqüente.
Aluvionamento, escoamentos tóxicos e chuvas radioativas
poderiam matar grande parte da fauna de águas doces e
costeiras, e níveis concentrados de radioatividade em
populações de mariscos sobreviventes poderiam tornar
perigoso o seu consumo por períodos prolongados.
Outras conseqüências importantes de uma guerra nuclear
para ecossistemas terrestres compreendem (i)
desintoxicação mais lenta do ar e da água, como
resultado secundário dos danos em plantas que são hoje
importantes eliminadores metabólicos de toxinas; (ii)
evaporação-transpiração reduzida nas plantas,
contribuindo para uma taxa menor de entrada de água na
atmosfera, principalmente em regiões continentais, e
portanto para um ciclo hidrológico mais lento; e (iii)
alterações consideráveis da superfície do solo, resultando
em erosão acelerada e, provavelmente, grandes
tempestades de areia.
A recuperação da vegetação poderia assemelhar-se
superficialmente à que se segue a incêndios locais. No
entanto, os efeitos da radiação, do smog, da erosão, da
poeira e das chuvas tóxicas sobrepor-se-iam aos do frio e
da escuridão, prolongando e modificando a sucessão do
pós-guerra de modos que retardariam a restauração das
funções ecossistêmicas. É provável que as alterações de
ecossistemas fossem em sua maior parte, passageiras.
Certas alterações estruturais e funcionais, porém,
poderiam ser mais duradouras, e possivelmente
irreversíveis, na medida em que os
ecossistemas sofressem mudanças qualitativas para
estados alternativos estáveis. As perdas de solos por
erosão seriam sérias em áreas de ocorrência de incêndios
extensos, morte das plantas e condições climáticas
extremas. Tudo dependeria em grande parte
das características de ventos e chuvas que se
desenvolvessem durante o primeiro ano após a guerra. A
diversidade de muitas comunidades naturais seria quase
com certeza substancialmente reduzida, e numerosas
espécies de plantas, de animais e de microorganismos se
extinguiriam.

Ecossistemas Terrestres Tropicais


O grau em que as regiões tropicais seriam submetidas a
condições dos gêneros acima descritos dependeria de
fatores como a seleção de objetivos, prevalência de
tempestades ígneas, ruptura da distinção entre troposfera
e estratosfera e taxa de mistura inter-hemisférica em
função da altitude. A propagação de nuvens densas de
poeira e fuligem e de temperaturas glaciais às regiões
tropicais do norte é altamente provável, e ao Hemisfério
Sul pelo menos possível, portanto é propositado
examinar as conseqüências prováveis dessa propagação
(Quadro 1B).
Por exemplo, as sementes das árvores de matas tropicais
tendem a ter vida bem mais curta que as das zonas
temperadas. Se a escuridão ou as baixas temperaturas,
ou ambas, atingissem os trópicos em grande escala, as
florestas tropicais poderiam desaparecer em grande parte.
E isto redundaria na extinção da maioria das espécies
vegetais, animais e microbianas da Terra, com
conseqüências prolongadas da maior importância para a
adaptabilidade das populações humanas.
Se a escuridão se estendesse aos trópicos, vastas áreas
de vegetação tropical, que se consideram muito próximas
do ponto de compensação, entrariam em definhamento.
Além disso, muitas plantas de climas tropicais e
subtropicais não possuem mecanismos de dormência que
lhes permitam suportar estações frias, mesmo em
temperaturas bem acima do ponto de congelamento.
Ainda que a escuridão e o frio se limitassem
principalmente às regiões temperadas, ondas de ar frio e
fuligem poderiam induzir quedas bruscas de temperatura
em grandes extensões da faixa tropical. Isso
corresponderia a uma intensificação do fenômeno
conhecido como "friagem", termo empregado para
descrever os efeitos de frentes frias, originadas na
América do Sul temperada, que penetram na Bacia
Amazônica equatorial, onde produzem a morte de
grandes quantidades de aves e peixes. Pelos indícios
existentes dos efeitos de esfriamento no plistoceno e suas
conseqüências, pode-se prever que áreas continentais de
baixas latitudes seriam seriamente afetadas por baixas
temperaturas do ar e redução de chuvas.
A dependência de populações tropicais em relação a
alimentos e fertilizantes importados teria conseqüências
graves, mesmo que os trópicos não fossem diretamente
afetados pela guerra. Grandes números de pessoas
seriam forçadas a abandonar as cidades e a tentar
cultivar as áreas remanescentes de floresta, acelerando a
sua destruição e conseqüente velocidade de extinção.
Tais atividades também aumentariam grandemente a
quantidade de fuligem na atmosfera pela prática
improvisada de derrubada e queima em grande escala.
Não importa qual a exata distribuição dos efeitos
imediatos da guerra, ao cabo todos os habitantes da Terra
seriam profundamente afetados.

Ecossistemas Aquáticos
De modo geral, os organismos aquáticos são protegidos
contra oscilações extremas de temperatura do ar pela
inércia térmica da água. Não obstante, muitos sistemas
de água doce congelariam a profundidades consideráveis
ou totalmente em virtude das alterações climáticas
causadas por uma guerra nuclear. O efeito da escuridão
prolongada em organismos marinhos já foi estimado.
Produtores primários na base da cadeia alimentar
marinha são particularmente sensíveis a níveis baixos de
luz demorados; níveis tróficos superiores sofrem com
retardo efeitos propagados de menor intensidade. Além
disso, a produtividade do plâncton marinho próximo à
superfície é consideravelmente deprimida pelos níveis
atuais de UV-B; mesmo pequenos aumentos de UV-B
podem ter conseqüências profundas para a estrutura das
cadeias alimentares marinhas. Muitos imaginam que as
margens Oceânicas seriam uma fonte importante de
sustento para os sobreviventes de uma guerra nuclear; no
entanto, os efeitos combinados da escuridão, da UV-B,
das tempestades litorâneas, da destruição de navios na
guerra e da concentração de radionuclídeos em sistemas
marinhos de águas rasas lançam fortes dúvidas sobre
essa possibilidade.

Conclusões
Os prognósticos de mudanças climáticas são bastante
sólidos, e indicam que, qualitativamente, de uma guerra
limitada de 500 MT ou menos em que se atacassem
cidades decorreriam os mesmos tipos de agressões que
de uma guerra em grande escala de 10.000 MT. Em
essência, todos os serviços de suporte dos ecossistemas
seriam seriamente comprometidos (Quadros 2 e 3).
Acentue-se que os sobreviventes, ao menos no
Hemisfério Norte, enfrentariam frio extremo, escassez de
água; falta de alimentos e de combustíveis, fortes cargas
de radiação e poluentes, doenças e enormes tensões
psíquicas - tudo isso em penumbra ou em completa
escuridão.
Existe a possibilidade de que o escurecimento e as baixas
temperaturas se propagassem ao planeta inteiro. Se isso
acontecesse, poderia resultar um processo acentuado de
extinção, que deixaria uma Terra grandemente
transformada e biologicamente empobrecida. Poder-se-ia
esperar a extinção da maior parte das espécies vegetais e
animais tropicais, da maior parte dos vertebrados
terrestres das regiões temperadas do norte, de um grande
número de plantas, de muitos organismos de água doce e
de alguns marinhos.
Parece, entretanto, improvável que mesmo nessas
circunstâncias o Homo sapiens fosse de pronto levado à
extinção. Quanto à possibilidade de alguns indivíduos
persistirem muito tempo em face de comunidades
biológicas grandemente alteradas, de climas modificados,
de sistemas agrícolas, sociais e econômicos desfeitos, de
tensões psíquicas inusitadas e de todo um séquito de
outras dificuldades, é uma questão em aberto. É evidente
que os efeitos de uma guerra termonuclear em grande
escala sobre os ecossistemas seriam por si sós
suficientes para destruir a civilização presente, pelo
menos no Hemisfério Norte. Somada às baixas diretas,
em número superior a um bilhão, a combinação dos
efeitos intermediários e a longo prazo de uma guerra
nuclear sugere que ao fim de algum tempo poderiam não
restar sobreviventes no Hemisfério Norte. Além do mais, o
cenário aqui descrito não é em absoluto o pior que se
possa imaginar, tendo em vista os arsenais mundiais
existentes e os previstos para um futuro próximo.
Qualquer conflito nuclear em grande escala entre as
superpotências seria de molde a produzir modificações
ambientais globais suficientes para causar a extinção de
uma fração considerável das espécies animais e vegetais
da Terra. Nesse caso, a possibilidade da extinção do
Homo sapiens não pode ser excluída.