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Guia de Boas Práticas

Conservação da Biodiversidade
em Propriedades de Café
Conservação da Biodiversidade na CafeiCultura
O Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) incentiva e promove mudanças nos
setores florestal e agrícola, visando a conservação e o uso sustentável dos recursos naturais e a promo-
ção de benefícios sociais.

Conselho Diretor: Conselho Consultivo: Secretaria Executiva:


Adalberto Veríssimo Célia Cruz Luís Fernando Guedes Pinto
André Villas-Bôas Mário Mantovani Lineu Siqueira Jr.
Fabio Albuquerque Richard Donovan
Marcelo Paixão Samuel Giordano Comunicação:
Maria Zulmira de Souza Priscila Mantelatto
Marilena Lazzarini Conselho Fiscal: Simoni Picirili
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INSTITUTO DE MANEJO E CERTIFICAÇÃO FLORESTAL E AGRÍCOLA


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Piracicaba - SP - Brasil
Tel/fax. [19] 3414-4015
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www.imaflora.org.br

Ficha Catalográfica

Guia de boas práticas - Conservação da biodiversidade em propriedades de café / Christian Bacci


Eduardo Trevisan Gonçalves, Flávio Levim Cremonesi e Rodrigo Belmonte Cascales - Piracicaba,
SP: Imaflora, 2008.
39 p.

ISBN 978-85-98081-23-6

1. Conservação. 2. Brasil - Agricultura. 3. Biodiversidade. 4. Meio ambiente. 5. Café.


6. Cafeicultura. I. Título.

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qual-
quer forma e/ou quaisquer meios (eletrônicos ou mecânicos, incluindo fotocópia e gravação) ou arquiva-
da em qualquer sistema de banco de dados sem permissão escrita do titular do direito autoral.
Guia de Boas Práticas
Conservação da Biodiversidade
em Propriedades de Café
Conservação da Biodiversidade na CafeiCultura
Conservação da Biodiversidade na Cafeicultura

Realização: Coordenação geral: Agradecimentos especiais:


IMAFLORA - Instituto de Manejo e Eduardo Trevisan Gonçalves Empreendimentos certificados: Fazenda
Certificação Florestal e Agrícola Santana e Fazenda Olhos D’agua (Pe-
Tel / Fax: 55 (19) 3414 4015 Fotos: dregulho SP), Sete Cachoeiras Estate
imaflora@imaflora.org Flávio Levin Cramonesi Coffee (Três Pontas MG), A.C. Agro
Mercantil (Araxá MG), Fazenda Recanto
Organização: (Machado MG)
Eduardo Trevisan Gonçalves
Este documento é uma produção do pro- Financiamento:
jeto “Conservação da biodiversidade de Fundo Mundial da Biodiversidade (GEF)
Textos:
café: Transformando práticas produtivas e Programa das Nações Unidas para o
Christian Bacci
no setor cafeeiro para aumentar a deman- Desenvolvimento (PNUD).
Eduardo Trevisan Gonçalves
da de café certificado sustentável”, patro-
Flávio Levim Cremonesi
cinado pelo Programa das Nações Unidas Edição: Imaflora
Rodrigo Belmonte Cascales
para o Desenvolvimento (PNUD) e pelo
Fundo Mundial de Biodiversidade (Global
Environment Facility - GEF) e executado Revisão técnica:
pela Rainforest Alliance e membros da Ecossistemas Soluções Sustentáveis
Rede de Agricultura Sustentável.
Projeto gráfico: Como contribuição à nossa preocupação
Lambari Comunicação pela conservação, selecionamos para
55 (19) 3435 7503 esta publicação papel Couché 120gr.
contato@lambaricom.com.br certificado FSC.
www.lambaricom.com.br
© 2008 IMAFLORA.
Execução: Todos os direitos reservados
Instituto de Manejo e Certificação Flores-
tal e Agrícola – Imaflora
Programa de Treinamento e Capacitação
Índice

1. Introdução....................................................................................................................................................06
2. Como usar o Guia?......................................................................................................................................07
3. Primeiro Passo (Visualização da Propriedade Agrícola)........................................................................08
3.1. Visualização da Propriedade Agrícola através de um mapa...................................................................09
3.2. O que deve estar disponível no mapa.....................................................................................................10
3.3. Através do Mapa concluído, o produtor deve poder responder as seguintes perguntas...........................11
4. Segundo Passo (“Planejamento Mão na Massa”)...................................................................................12
4.1. Planejando as Ações para a Adequação Ambiental da Propriedade......................................................13
5. Terceiro Passo (“Mão na Massa”).............................................................................................................14
5.1. Áreas de APPs e RLs já Existentes na Propriedade Agrícola................................................................15
5.2. Áreas (APPs e RLs) que precisam ser Reflorestadas............................................................................17
6. Outras Ações que Auxiliam na Adequação Ambiental da Propriedade Agrícola....................................20
6.1. Práticas Adequadas................................................................................................................................21
6.2. Manejo Adequado do Solo, da Água e do Vento....................................................................................22
6.3. Utilização e Redução de Agroquímicos..................................................................................................23
6.4. Capacitação e Treinamento (periódico)...................................................................................................24
6.5. Compromisso Empresarial.....................................................................................................................25
6.6. Monitoramento da Avifauna...................................................................................................................26
6.7. Enriquecimento e Monitoramento da Flora..........................................................................................27
7. Exemplos de Práticas adotadas em Propriedades Certificadas.............................................................28
7.1. Identificação das (APPs), no interior das fazendas de café certificadas.............................................29
7.2. Exemplo de Reflorestamento com Mudas Nativas e Cobertura do Solo............................................30
7.3. Nascentes d’água protegido em uma área de APP................................................................................32
7.4. Área de Pivô Central com as Barreiras de contenção d’água................................................................34
7.5. Pássaros...................................................................................................................................................36
8. Glossário........................................................................................................................................................38
9. Informações...................................................................................................................................................41
Introdução

E ste guia foi criado para de-


monstrar, de maneira prática,
as ações que podem auxiliar o
podem ver soluções encontradas
para a conservação dos recursos
naturais existentes na proprieda-
produtor rural na adequação am- de: nascentes, áreas de reserva,
biental de sua fazenda. Além dis- solos, destino adequado de resí-
so, busca facilitar o entendimento duos, entre outros.
sobre os principais temas ambien- Para se realizarem as ativida-
tais, incluídos na Norma da Agri- des aqui descritas, recomenda-se,
cultura Sustentável (normas para fortemente, o auxilio profissional
certificação Rainforest Alliance) e de um engenheiro florestal, agrô-
na legislação ambiental brasileira. nomo, ambiental, de um biólogo
Ele foi elaborado a partir de ou de outro profissional habilita-
visitas em fazendas já certifica- do. Órgãos de assistência técnica
das, nas regiões cafeeiras do sul da sua região também podem ser
de Minas, da Alta Mogiana e do consultados.
Cerrado, onde o Imaflora regis- Paralelamente a este guia, po-
trou imagens, realizou entrevistas de-se consultar o “Manual Técni-
e conheceu as práticas que cada co: Restauração e Monitoramento
fazenda realizava, adequando-as da Mata Ciliar e Reserva Legal
às Normas de Certificação e be- para Certificação Agrícola”, onde
neficiando os recursos naturais e está descrito o passo a passo para
as pessoas que ali trabalhavam ou o desenvolvimento de um projeto
viviam. O guia traz imagens de de adequação ambiental em uma
fazendas já certificadas, onde se propriedade rural.

6 Guia de Boas Práticas


Como usar o Guia

O presente Guia está separado O primeiro passo é facilitar,


por três partes: as três primeiras através de um mapa ou croqui, a
são os “passos” para a adequação visualização da propriedade: a lo-
ambiental da propriedade, levan- calização das nascentes de água,
do em consideração as áreas de dos córregos e dos rios (caso exis-
Reserva Legal e Preservação Per- tam), das áreas de Reserva Legal
manente. e de Preservação Permanente,
Na segunda parte, na página 20, além da localização dos cultivos
estão outras práticas que devem e da infra-estrutura;
ser implementadas, caso a proprie- O segundo passo é planejar as
dade pretenda buscar a certifica- ações, ou seja, avaliar a existên-
ção ou estarem mais adequadas do cia das áreas de APP e RL e as
ponto de vista sócio-ambiental. necessidades de recomposição
E na terceira parte, na página (reflorestamento);
28, estão alguns exemplos na for- O terceiro passo é executar as
ma de imagens de práticas adota- atividades, após a visualização e
das por fazendas já certificadas. o planejamento.

Conservação da Biodiversidade na Cafeicultura 7


Primeiro Passo
(Visualização da Propriedade Agrícola)
Conservação da Biodiversidade na CafeiCultura

8 Guia de Boas Práticas


Visualização da Propriedade Agrícola através de um mapa

Para facilitar o gerenciamento e croquis constituem uma opção


das atividades a executar e a vi- também, em virtude do custo de
sualização das áreas a manejar, é produzir-se um mapa.
necessário possuir um mapa (ou Para fazer o mapa, você deve
um croqui). consultar uma empresa de topogra-
Grupos de produtores fami- fia da sua cidade ou região e pedir
liares podem fazer mapas coleti- que estejam disponíveis para visuali-
vos com o apoio da Cooperativa zação das informações apresentadas
ou de órgãos públicos. Desenhos nas próximas páginas.

Conservação da Biodiversidade na Cafeicultura 9


O que deve estar disponível no mapa

1. Áreas de produção agrícola; glossário na pág. 38 para mais


detalhes;
2. Pastagens e outras áreas (áreas
desocupadas); 5. Indicações, no mapa, das áre-
as onde existe vegetação natural
3. Áreas de reserva legal (quando e das áreas com necessidade de
existentes na propriedade); reflorestamento ou de interven-
ção. Priorize as áreas próximas a
4. Áreas de preservação perma- cursos d´água;
nente (APP - vegetação ao redor
de rios e nascentes de água). Esta 6. Atualização do mapa antigo,
área é geralmente de 30 metros caso já haja um, especialmente
para rios e de 50 metros para em caso de mudanças no uso das
nascentes de água – consulte o áreas.

Exemplo de Mapa, vendo o branco


as áreas de café, em verde as matas
e amarelo capim.

10 Guia de Boas Práticas


Através do Mapa concluído, o produtor deve poder
responder as seguintes perguntas

1. Tenho área suficiente de Reser- priedade estão plenamente ocupa-


va Legal ? das com vegetação natural? Preci-
so reflorestar ou substituir o café
Se não, quanta área ainda falta ou a outra cultura lá existente por
para completar o exigido pela lei? vegetação natural?
Se sim, a área possui vegetação
nativa? Essas questões vão ajudar na
próxima etapa, que é o planeja-
2. As áreas de APP da minha pro- mento das ações.

Exemplo de Mapa, sendo as áreas em


verde os talhões de café e amarelo as
áreas de Reserva Legal.

Conservação da Biodiversidade na Cafeicultura 11


Segundo Passo
(“Planejamento Mão na Massa”)
Conservação da Biodiversidade na CafeiCultura

12 Guia de Boas Práticas


Planejando as Ações para a Adequação
Ambiental da Propriedade

Após produzir-se o mapa que • Ações nas Áreas de Preservação


representa o uso do solo da pro- Permanente e nas Reservas Legais
priedade agrícola, deve-se proce- que precisam ser reflorestadas;
der ao planejamento para a ade-
quação da propriedade, o qual • Outras ações que auxiliam na
pode ser dividido em três ações: adequação ambiental da proprie-
dade, como monitoramento de
• Ações nas Áreas de Preservação animais, uso da água, manejo de
Permanente e nas Reservas Le- resíduos, manejo de solos, contro-
gais já existentes; le de agroquímicos e treinamento
e capacitação.

A ordem de prioridade das atividades pode ser:

1. Produzir um diagnóstico das ser priorizadas, já que possuem


áreas de APP já existentes e veri- um impacto direto no entorno de
ficar o que é necessário fazer para nascentes e das beiradas de rios e
garantir a conservação delas; córregos. Nas próximas páginas
deste guia, encontram-se algu-
2. Planejar quais áreas necessi- mas imagens e o direcionamento
tam ser reflorestadas, tendo em sobre estes dois assuntos.
vista que as áreas de APP devem

Conservação da Biodiversidade na Cafeicultura 13


Terceiro Passo
(“Mão na Massa”)
Conservação da Biodiversidade na CafeiCultura

14 Guia de Boas Práticas


Áreas de APPs e RLs já Existentes na Propriedade Agrícola

Conforme o planejamento no cursos d’água, evitando o pisoteio


“Segundo Passo”, iniciaremos a em APP;
“mão na massa”. As áreas de pre-
servação permanente e de Reserva • Placas de identificação: as in-
Legal, caso já existam e estejam formações contidas nas placas
em bom estado, devem ser identi- devem ser claras. As tradicionais
ficadas e protegidas por: placas (somente com letras) po-
dem ser incrementadas com de-
• Aceiros: nas regiões do cerrado senhos. Devem chamar a atenção
mineiro, é fundamental seu bom quanto a sua função. Alternativas
uso e, principalmente, sua manu- também podem ser observadas:
tenção. Num clima seco (no in- mourões pintados, cercas em pas-
verno), com altitudes elevadas e sagens, dentre outros exemplos;
ventos constantes na vegetação,
rapidamente uma pequena fagulha, • Monitoramento contra ca-
como, por exemplo, uma bituca de çadores: tem a função de tentar
cigarro, pode causar queimadas; proteger a integridade física, es-
pecialmente da avifauna, que ga-
• Cercas: todas as áreas destina- rante boa parte do transporte das
das ao gado (pastagens e descan- sementes que contribuem na com-
so) devem ser cercadas, para evi- posição florística das APPs e das
tar que o gado transite nas áreas RLs. Informar as autoridades am-
protegidas. O acesso à água, pre- bientais públicas é fundamental
ferencialmente, deve ser realiza- para que se apliquem as medidas
do em bebedouros distantes dos legais cabíveis.

Reflorestamento da RL, com


espécies nativas, e placa de
identificação ao público em geral.

Conservação da Biodiversidade na Cafeicultura 15


16 Guiade
Guia deBoas
BoasPráticas
Práticas
Áreas (APPs e RLs) que precisam ser Reflorestadas

Reflorestamentos tradicionais:

São feitos com o plantio de de servir de alimento e de abrigo


mudas em linha, com um nú- para pássaros e pequenos mamí-
mero controlado de espécies ar- feros, principalmente nos primei-
bóreas e o manejo do mato nas ros 3 a 4 anos de implantação.
entrelinhas das árvores, além da
adubação. • Ponto Positivo: facilita a im-
plantação, principalmente em fa-
• Ponto negativo: o número li- zendas de médio e grande porte,
mitado de espécies e o número já que o sistema é parecido com
de intervenções deixam a desejar o plantio de café. Esta atividade
na recuperação da biodiversida- pode entrar no “centro de custos”,
de. Inexistem arbustos, deixando facilitando o gerenciamento.

Conservação da Biodiversidade na Cafeicultura 17


Reflorestamentos Naturais:

• Regeneração natural: em muitas de implantação e de manutenção.


áreas de APP, onde houve pouca Animais silvestres podem ajudar
intervenção humana, o terreno na disseminação de sementes.
consegue regenerar-se, utilizando
o “banco de sementes” já exis- • Pontos negativos: dificulta o ge-
tente no local. No entanto, é im- renciamento e a manutenção da
portante ficar atento para evitar a área, já que as árvores estão “es-
entrada de fogo e para controlar palhadas”.
as espécies de capim que possam
abafar as árvores menores. Essa • Recuperação das nascentes d’água:
atividade depende de uma equipe elas são fundamentais no ciclo da
bem treinada na realização dessa água. Por essa importância, devem
capina e no coroamento das árvo- ser as primeiras áreas a recuperar e
res. Nesse sistema, podem-se tam- preservar. A melhor forma de recu-
bém plantar, de maneira aleatória, perar-se uma nascente é fazer o cer-
algumas mudas de árvores e jogar camento da mesma, especialmente
sementes retiradas de árvores de onde há trânsito de animais e de
matas das redondezas. máquinas. Em áreas não alagadas,
podem-se plantar algumas espécies
• Pontos positivos: diminui o custo arbóreas nativas.

18 Guia de Boas Práticas


Viveiro de Mudas:

Para conseguir as mudas de das ou um viveiro local.


árvores nativas e realizar esses Com auxilio técnico, pode-se
plantios, caso não haja um vi- também construir um viveiro de
veiro próprio, pode-se tentar mudas na propriedade, usando-
buscar outro produtor da região se sementes de espécies nativas
que possua uma viveiro de mu- da região.

Exemplo de um viveiro com árvores


nativas de uma propriedade agrícola.

Conservação da Biodiversidade na Cafeicultura 19


Outras Ações que Auxiliam na
Adequação Ambiental da
Propriedade Agrícola
Conservação da Biodiversidade na CafeiCultura

20 Guia de Boas Práticas


Práticas adequadas

• Controle das erosões e das voço- para recicladores. Essa atividade


rocas: as erosões devem ser con- pode gerar recursos para o próprio
troladas através da cobertura ade- empreendimento. Lixo espalhado
quada do solo, do manejo do mato na propriedade não é bem visto
e do plantio em nível, para evitar por visitantes e compradores;
que grande quantidade de solo seja
transportada de seu local original; • Quebra-vento com árvores: dimi-
nuem a velocidade e a intensidade
• Manejo adequado das “ervas dos ventos e podem aumentar a
daninhas” e da matéria orgânica: umidade do ar local. Além disso,
esse manejo deve ser cuidadoso. ajudam no controle da erosão e na
Elas servem de abrigo e de ali- alimentação para pássaros, peque-
mento para diversas espécies de nos mamíferos e seres humanos;
insetos, como abelhas e besouros,
benéficas para o agroecossistema; • Manutenção dos brejos e das
áreas alagadiças: essas áreas ser-
• Coleta seletiva e organização vem, muitas vezes, de “berçário”
dos resíduos sólidos: boa parte do para diversas espécies de peixes e
lixo gerado nas propriedades pode de anfíbios, além de funcionarem
ser coletado, separado e vendido como filtros biológicos das águas.

Pode-se observar a importância de existirem outros fragmentos florestais


próximos, para servirem como corredores à biodiversidade.

Conservação da Biodiversidade na Cafeicultura 21


Manejo Adequado do Solo, da Água e do Vento

O manejo adequado dos solos, das


águas e dos ventos é fundamental para a
conservação da biodiversidade. A maior
parte (da biodiversidade) encontra-se
no solo, na forma de fungos e bactérias,
numa rede de relações que fazem funcio-
nar os ciclos biogeoquímicos.

Bananeiras, servindo como


quebra-vento no cafezal.

22 Guia de Boas Práticas


Utilização e Redução de Agroquímicos

Todas as práticas devem fa- Assim, as práticas ligadas ao


vorecer o equilíbrio ecológico e controle e à redução de produtos
preservar a saúde dos trabalhado- agroquímicos são:
res envolvidos. Além da utilização
adequada dos EPIs, da lavagem tri- • Controle químico monitorado
pla e da destinação correta das em- nas plantas;
balagens de agroquímicos, deve-se
pensar na diminuição do número • Controle mecânico das plantas
de aplicações e na substituição de invasoras;
produtos tóxicos por similares de
menor toxicidade. • Manejo integrado das pragas e
das doenças.

Manejo do mato na entrelinha, com


controle mecânico. O herbicida é
usado somente nas “saias” dos cafezais.

Conservação da Biodiversidade na Cafeicultura 23


Capacitação e Treinamento (periódico)

É fundamental que os funcio- • (i) Palestras educativas;


nários que operem o dia-a-dia da
produção agrícola estejam treina- • (ii) Alfabetização dos funcioná-
dos e capacitados para as respec- rios das fazendas;
tivas responsabilidades, além de
que realizem esses treinamentos • (iii) Produção de cartilhas e car-
periodicamente, independente da tazes com desenhos educativos;
função. Assim capacitados, ocorre
uma tendência de os funcionários • (iv) Educação dos trabalhadores
reduzirem o desperdício e os danos sobre o manuseio dos equipamen-
aos equipamentos utilizados; de tos de proteção, em especial os de
diminuírem os riscos por aciden- proteção individual, para aplicar
tes e, conseqüentemente, os produtos agroquímicos;
de conseguirem o aumen-
to da produtividade. • (v) Participação dos funcioná-
Nesse sentido, seguem rios das fazendas na observação,
algumas práticas para ca- na identificação e na contagem
pacitações e treinamentos: da fauna.

Visualização para todos os


funcionários dos dias que estão
trabalhando sem acidente.

24 Guia de Boas Práticas


Compromisso Empresarial

Em todos os níveis hierárqui- promisso com os funcionários e


cos e nos diferentes locais, deve com a sociedade em geral. Apre-
existir o compromisso com as senta os planejamentos das di-
questões sociais e ambientais na versas atividades e serve também
propriedade. O compromisso es- como histórico;
tende-se, também, por meio de:
• Imagem sócio-ambiental aliada
• Gestão sócio-ambiental docu- ao produto (consumidores, forne-
mentada, que personaliza o com- cedores e colaboradores).

Ações na melhoria ambiental da


propriedade. A separação adequada
dos resíduos sólidos (lixo).

Conservação da Biodiversidade na Cafeicultura 25


Monitoramento da Fauna

Além da identificação e do indivíduos das espécies ameaça-


registro de indícios de animais das nos habitats disponíveis nas
silvestres, outras práticas são re- fazendas de café;
alizadas, como:
• Placas com proibição da caça e
• Parcerias com o IBAMA e ou- da pesca e conseqüente monito-
tros órgãos, para a inserção dos ramento.

Pegada de um veado mateiro,


na APP, de uma propriedade
de café certificado.

26 Guiade
Guia deBoas
BoasPráticas
Práticas
Enriquecimento e Monitoramento da Flora

Algumas formas para praticar • Viveiros com mudas nativas;


o enriquecimento da flora nativa
local: • Monitoramento e prevenção do
fogo e combate a incêndios.
• Banco de sementes;

Exemplo do galpão organizado para


combater incêndios no interior da
propriedade agrícola.

Conservação da Biodiversidade na Cafeicultura 27


Exemplos de Práticas adotadas
em Propriedades Certificadas
Conservação da Biodiversidade na CafeiCultura

28 Guia de Boas Práticas


Identificação das áreas de preservação permanente,
no interior das fazendas de café certificadas

(1) Árvores nativas numa das Reservas Legais da


propriedade; (2) Cerca, garantindo o isolamento da reserva,
e proteção das mudas, do gado existente; (3) Pastagem.

Conservação da Biodiversidade na Cafeicultura 29


A imagem mostra uma cerca-viva separando uma estrada pública do cafezal.
Esta ação ajuda a conter a deriva de defensivos em uma área de circulação humana.

30 Guia de Boas Práticas


Exemplo de Reflorestamento com mudas nativas
e cobertura de solo

Quebra-vento

Cafezal

Cerca

Reflorestamento

Lago

Conforme a imagem, o reflorestamento com árvores nativas foi


realizado próximo a um lago (APP) na propriedade. E devidamente
cercado, evitando a eventual invasão por gado.

Conservação da Biodiversidade na Cafeicultura 31


32 Guia de Boas Práticas
Nascentes d’água protegidas em uma área de APP, com
a presença da árvore “jequitibá” (em destaque), indicadora
de uma floresta madura

A conservação das Nascentes é importante para ga-


rantir o suprimento de água para a propriedade, além
de cumprir com a Legislação ambiental.

Conservação da Biodiversidade na Cafeicultura 33


A contenção de água (setas) ajuda a diminuir a erosão nas áreas limites
e é um exemplo de prática de proteção dos solos.

34 Guiade
Guia deBoas
BoasPráticas
Práticas
Área de pivô central com as barreiras de contenção d’água (setas)

A certificação valoriza a interação das áreas produtivas


com a conservação. As áreas de reserva serverm para o
abrigo de animais e equilíbrio ambiental da propriedade

Café

Pastagem

Reserva Legal

Exemplos de propriedades que possuem interação


de áreas produtivas com conservação.

Conservação da Biodiversidade na Cafeicultura 35


36 Guiade
Guia deBoas
BoasPráticas
Práticas
Os Pássaros são disseminadores de sementes e ajudam no
equilíbrio dos ecossistemas

Os pássaros são importantes dispersores de sementes de espécies


vegetais. Também indicam que o ambiente está equilibrado.

(1) Casal de “papagaios”;

(2) Tucano.

Conservação da Biodiversidade na Cafeicultura 37


Glossário

APP: Área de Preservação Permanente (APP): de superior a 45° equivalente a 100% na linha de
área protegida nos termos dos artigos 2º e 3º da Lei maior declive;
4771 (Código Florestal Brasileiro), coberta ou não f) nas restingas, como fixadoras e dunas ou estabili-
por vegetação nativa, com função ambiental de pre- zadoras de mangues;
servar os recursos hídricos, a paisagem, a estabili- (definidos em resolução do CONAMA)
dade geológica, a biodiversidade, o fluxo gênico de g) nas bordas dos tabuleiros ou chapadas, a partir da
fauna e flora, de proteger o solo e de assegurar o linha de ruptura do relevo, em faixa nunca inferior a
bem-estar das populações humanas. 100 (cem) metros em projeções horizontais;
Consideram-se de preservação permanente, pelo só h) em altitude superior a 1.800 (mil e oitocentos)
efeito da Lei, as florestas e as demais formas de ve- metros, qualquer que seja a vegetação.
getação natural situadas:
a) ao longo dos rios ou de outro qualquer curso Área de interesse social: segundo a Lei 4771 (Có-
d’água desde o seu nível mais alto, em faixa margi- digo Florestal Brasileiro):
nal, cuja largura mínima seja: a) as atividades imprescindíveis à proteção da inte-
1) de 30 metros para os cursos d’água de menos de gridade da vegetação nativa, tais como prevenção
10 metros de largura; e controle do fogo, combate a incêndios, controle
2) de 50 metros para os cursos d’água que tenham da erosão, erradicação de invasoras e proteção de
de 10 a 50 metros de largura; plantios com espécies nativas, conforme resolução
3) de 100 metros para os cursos d’água que tenham do CONAMA;
50 metros a 200 metros de largura; b) as atividades de manejo agroflorestal sustentável,
4) de 200 metros para os cursos d’água que tenham praticadas na pequena propriedade ou posse rural fa-
de 200 a 600 metros; miliar, não podem descaracterizar a cobertura vege-
5) de 500 metros para os cursos d’água que tenham tal , nem prejudicar a função ambiental da área e
largura superior a 600 metros; c) demais obras, planos, atividades ou projetos de-
b) ao redor das lagoas, lagos ou reservatórios finidos em resolução do CONAMA.
d’água, naturais ou artificiais;
c) nas nascentes, ainda que intermitentes e nos Área de Proteção/Conservação: terra ou proprie-
chamados “olhos d’água”, qualquer que seja a sua dade sob a proteção legal, com o intuito de preser-
situação topográfica, num raio mínimo de 50 (cin- var ou de proteger a biodiversidade ou os serviços
qüenta) metros de largura; ambientais. Exemplos: parques nacionais, refúgios
d) no topo de morros, montes, montanhas e serras; da vida silvestre, reservas florestais e reservas pri-
e) nas encostas ou partes destas com declivida- vadas. Algumas áreas protegidas podem conter área

38 Guia de Boas Práticas


privada, onde a condução de certas atividades eco- pacto de gotas de chuva, ventos e ondas, sendo trans-
nômicas é permitida de acordo com regulamenta- portadas e depositadas em outro lugar. Inicia-se com
ções estabelecidas; erosão laminar e pode atingir o grau de voçoroca;

Assoreamento: processo em que lagos, rios, baias Fragmento Florestal: remanescente de ecossiste-
e estuários vão sendo aterrados pelos solos e outros ma natural isolado, em função de barreiras antrópi-
sedimentos neles depositados pelas águas das en- cas (realizadas pelo ser humano) ou naturais que re-
xurradas; sultam em diminuição significativa do fluxo gênico
(perpetuação da espécie) de plantas e animais;
Averbação: registro oficial da Reserva Legal;
Canal: A superfície sobre a qual um rio, riacho
Canal: a superfície sobre a qual um rio, um riacho ou outra corrente de água flui. Também conhecido
ou outra corrente de água flui. Também conhecido como “leito do rio”.
como “leito do rio“;
Conservação: A proteção, o uso racional, a restau-
Conservação: a proteção, o uso racional, a restau- ração e a renovação de ecossistemas naturais e de
ração e a renovação de ecossistemas naturais e de recursos naturais de acordo com os princípios que
recursos naturais, de acordo com os princípios que garantem os máximos benefícios sociais e ambien-
garantem os máximos benefícios sociais e ambien- tais sem degradar os recursos ou os ecossistemas
tais, sem degradar os recursos ou os ecossistemas envolvidos.
envolvidos;
Corpo Receptor de Água: Um corpo receptor de
Corpo Receptor de Água: um corpo receptor de água que recebe águas residuárias (tratadas ou não
águas residuárias (tratadas ou não tratadas), vindas tratadas) vindas das atividades industriais, agríco-
das atividades industriais, agrícolas ou domésticas; las ou domésticas.

Corpos Naturais de Água: lagos, rios, riachos, Corpos Naturais de Água: Lagos, rios, riachos,
nascentes e outros corpos de água líquida que exis- nascentes e outros corpos de água líquida que exis-
tem naturalmente; tem naturalmente.

Erosão: processo pelo qual as camadas superficiais Ecossistema: um grupo ou sistema de uma ou
do solo ou partes do mesmo são retiradas pelo im- mais comunidades biológicas (plantas, animais,

Conservação da Biodiversidade na Cafeicultura 39


etc.), junto com o meio físicodentro de uma deter- RAS: Rede de Agricultura Sustentável;
minada zona. Exemplos: áreas alagadas, florestas,
campos e lagos; Outorga de Água: a outorga é um instrumento de
gestão que assegura, ao interessado, o direito de uti-
DEPRN: Departamento Estadual de Proteção aos lizar a água de uma determinada fonte hídrica, com
Recursos Naturais; uma vazão e uma finalidade determinadas e por um
período definido. Usos de Água que Dependem de
EPI: Equipamento de Proteção Individual; Outorga: Abastecimento humano e animal; Irriga-
ção; Aqüicultura; Usos industriais e comerciais;
IBAMA: Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Lazer e turismo; Lançamento de esgotos em corpos
dos Recursos Naturais Renováveis; d’água para fins de diluição, transporte e assimi-
lação; Outros tipos de uso que alterem o regime,
IMAFLORA: Instituto de Manejo e Certificação a quantidade e a qualidade dos recursos hídricos.
Florestal e Agrícola; Empreendimentos Dispensados de Outorga: capta-
ções diretas em fontes superficiais ou subterrâneas,
Licenciamento Ambiental: instrumento da Políti- com consumo de até 2.000 l/h. Negativa de Outorga
ca Nacional do Meio Ambiente, estabelecida pela - não serão expedidas outorgas para: Lançamento
Lei Federal Nº 6938/81, é um procedimento admi- em corpos d’água de resíduos sólidos, radioativos,
nistrativo pelo qual o órgão ambiental competente metais pesados e outros resíduos tóxicos; Lança-
licencia a localização, a instalação, a ampliação e mento de poluentes em águas subterrâneas.
a operação de empreendimentos e de atividades,
que utilizem recursos ambientais, consideradas Reserva Legal: Área localizada no interior de uma
efetiva ou potencialmente poluidoras ou daquelas propriedade ou posse rural, com exceção das áreas
que, sob qualquer forma, possam causar degrada- de preservação permanente, necessária ao uso sus-
ção ambiental, considerando as disposições legais tentável dos recursos naturais, à conservação e à re-
e regulamentares e as normas técnicas aplicáveis abilitação dos processos ecológicos, à conservação
ao caso (definição segundo a Resolução CONAMA da biodiversidade e ao abrigo e à proteção de fauna
237/97); e flora nativas, de acordo com a Lei 4771.

PCA: Programa de Certificação Agrícola; Impacto Ambiental: qualquer alteração (positiva


ou negativa) das propriedades físico-químicas e
RA: Rainforest Alliance; biológicas do meio ambiente, causada por qualquer

40 Guia de Boas Práticas


forma de matéria ou energia resultante das ativida- posto por ecossistemas interativos, resultado de
des humanas que, direta ou indiretamente, afetam a influência da interação geológica, topográfica, edá-
saúde, a segurança e o bem-estar da população; fica (solo), climática e biótica.

Manancial: todo corpo d’água utilizado para o Reserva Legal: visa a garantir a biodiversidade da
abastecimento público de água para o consumo; flora e da fauna regionais. Deve ser averbada em
cartório para que se legitime;
Manejo: aplicação de programas de utilização dos
ecossistemas, naturais ou artificiais, baseada em teo- Voçoroca: último estágio da erosão. Termo regio-
rias ecológicas sólidas, de modo a manter, da melhor nal de origem tupi-guarani, que denomina o sulco
forma possível, nas comunidades, fontes úteis de pro- grande, especialmente o de grandes dimensões e
dutos biológicos para o ecossistema e também a servir rápida evolução. Seu mecanismo é complexo e in-
como fonte de conhecimento científico e de lazer; clui, normalmente, a água subterrânea como agen-
te erosivo, além da ação das águas de escoamento
Paisagem Natural: um mosaico geográfico com- superficial.

Informações

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9 788598 08123 6
da B iodiversidade de C afé

Transformando as práticas produtivas


do setor cafeeiro a fim de aumentar a demanda
por café certificado sustentável no mercado.