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Alberto Caeiro:

Alberto Caeiro nasceu a 16 de Abril de 1889 (um ano depois de Fernando


Pessoa), em Lisboa. Passou quase toda a sua vida no campo, numa quinta no
Ribatejo. Era órfão de pai e de mãe. Vivia com uma tia-avó. Tinha estatura média e
frágil. Era louro, de olhos azuis e cara rapada. Frequentou apenas a instrução
primária. Os últimos meses da sua vida foram passados em Lisboa. Aí escreveu os
poemas intitulados “O Guardador de Rebanhos”. Morreu em 1915, tuberculoso.
Apareceu em Fernando Pessoa, no dia 8 de Março de 1914. Pessoa afirma que
este foi o dia triunfal da sua vida, pois aparecera em si o mestre. Caeiro representa a
antítese de Fernando Pessoa ortónimo, o “remédio para a sua ansiedade e para a sua
angústia perante o mistério da existência, inacessível ao Homem. Para este
heterónimo, a única via para atingir a felicidade é não pensar, é recusar a essência,
para acreditar que apenas existe a aparência.

“Mestre dos outros”


Caeiro é. Em Caeiro há a inocência e a constante novidade das coisas. Procura
captar apenas o que as sensações lhe oferecem na realidade imediata. E a sua
linguagem torna-se quase infantil, sem os mecanismos de subordinação e
pronominalização.
Para si, o tempo surge eterno, uno, feito de instantes de presente. Com a
intelectualidade do seu olhar liberta-se dos preceitos, recusa a metafísica (=
incompreensível), o misticismo e o sentimentalismo social e individual.
Os ensinamentos de Caeiro, quer ao trazer o ser humano ao quotidiano e ao
integrá-lo na simplicidade da Natureza, quer ao encarnar a essência do
sensacionismo, tornam-no mestre. Ao anular o pensamento metafísico e ao voltar-se
apenas para a visão total perante o mundo, elimina a dor de pensar que afecta
Pessoa.
Caeiro ensina a filosofia de não filosofar, ou seja de não pensar.
Fernando Pessoa ortónimo descrê da possibilidade de, pela razão, compreender
o mundo tal como Caeiro, mas, enquanto este aceita, tacitamente, a realidade, o
Ortónimo decepciona-se e experimenta o desespero.
Álvaro de Campos, que, como Caeiro, recorre aos versos livres, é o homem da
cidade, que procura aplicar a lição sensacionista ao mundo da máquina. Mas, ao não
conseguir acompanhar a pressa mecanicista e a desordem das sensações, sente uma
espécie de desumanização e frustração. Falta a Campos a tranquilidade olímpica de
Caeiro.

“O mestre da sensação”
A Caeiro só lhe interessa vivenciar o mundo que capta pelas sensações. Recusa
o pensamento metafísico – “pensar é não compreender” -, insistindo em aprender a
não pensar, para se libertar de todos os modelos ideológicos, culturais ou outros, e
poder ver a realidade concreta. O pensamento gera infelicidade. A verdadeira vida
deve reduzir-se ao “puro sentir”, ao “saber ver sem estar e pensar”. É o realismo
sensorial.
No poema “Sou um guardador de rebanhos” (Poema nono), Caeiro mostra como
recusar o pensamento se reduz a um “sentir” com os sentidos: “penso como os olhos
e com os ouvidos /e com as mãos e os pés /E com o nariz e a boca”. O pensamento
passa a identificar-se com uma complicada de sensações: “Pensar uma flor é vê-la e
cheira-la /E comer um fruto é saber-lhe o sentido”. A felicidade do “guardador de
rebanhos” reduz-se ao saber a verdade do pensamento feito em sensações. E alguma
tristeza que aparece resulta do excesso de sensações, por gozar “tanto” “um dia de
calor”.
Decorrente desta atitude perante a vida, Caeiro põe em causa o significado das
coisas ou o que pode ser marca desse significado – palavras, conceitos, ideologias,
religiões, cultura, arte. Para Caeiro, as coisas não têm sentido. O sentido das coisas
reduz-se à percepção da cor, da forma e da existência: “As coisas não têm
significado: têm existência”. A realidade vale por si mesma: “Cada coisa é o que é”.
Como afirma, “o único sentido das coisas /É elas não terem sentido oculto nenhum”.

Ver a Natureza em si mesma, sem gente


Poeta do real objectivo, Caeiro afirma: “fui o único poeta da Natureza”. Vive de
acordo com ela, na sua simplicidade e paz. Ama a Natureza. Ele mesmo afirma: ”Se
falo na Natureza não é porque saiba o que ela é, /Mas porque a amo, e amo-a por
isso”
Na metáfora do pastor de rebanhos, no Ribatejo, Caeiro faz uma poesia da
Natureza, procurando, no seio, ver as coisas simples da vida. Em Caeiro há a
inocência que lhe permite saber ver sem abstracções ou formulação de conceitos. Vê
a Natureza na sua constante renovação e crê na “eterna novidade das coisas”. A
“recordação é uma traição à Natureza”. Interessa-lhe o presente, o concreto, o
imediato, uma vez que é aí que as coisas se apresentam como são.

Alberto Caeiro aceita o mundo tal como ele é, vivendo apenas a realidade
presente, pelos sentidos, de uma forma livre e despreocupada

Características da poesia de Alberto Caeiro

• Recusa do pensamento
• Vivência pelas sensações
• Privilégio do olhar (puro e ingénuo) sobre as coisas
• Identificação e comunhão com a Natureza
• Atitude pagã e anti-metafísica
• Postura despreocupada instintiva e espontânea perante o mundo
• Aceitação pacífica e serena da vida tal como ela é
Temas
• Poeta do real objectivo, da Natureza e do olhar

• Linguagem simples, espontânea e denotativa


• Predomínio do polissíndeto, do paralelismo, da comparação e da
metáfora
• Primazia da coordenação
• Privilégio do presente do indicativo e do gerúndio
Linguagem/For • Liberdade estrófica e métrica
ma • Ausência de preocupações estilísticas
• Versos soltos ou brancos