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Literatura Brasileira IV

AULA 4

João Batista Pereira

Literatura Brasileira IV AULA 4 João Batista Pereira INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA PARAÍBA

INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA

PARAÍBA

Macunaíma, de Mário de Andrade: considerações sobre o herói sem nenhum caráter

1 OBJETIVOS DA APRENDIZAGEM
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OBJETIVOS DA APRENDIZAGEM
  • „ Contextualizar a influência das vanguardas europeias em narrativas brasileiras;

  • „ Identificar a identidade nacional como componente estético nas narrativas modernas;

  • „ Descrever temas e recursos formais presentes na obra de Mário de Andrade.

Macunaíma, de Mário de Andrade: considerações sobre o herói sem nenhum caráter

Macunaíma, de Mário de Andrade: considerações sobre o herói sem nenhum caráter 2 COMEÇANDO A HISTÓRIA
  • 2 COMEÇANDO A HISTÓRIA

Prezado estudante,

Entre as informações constantes na aula sobre as vanguardas europeias, lembramos o impacto causado por suas diretrizes estéticas no universo da arte. Distanciando-se das motivações que lhe deram causa na Europa, o universo artístico brasileiro foi alcançado por suas influências de várias formas, atendendo a pressupostos que reorientaram a ideia de identidade nacional, cujo ponto catalisador se deu com a Semana de Arte Moderna de 1922. Mobilizando novos princípios para a apreensão da pintura, da arquitetura e da música, na literatura as vanguardas encontraram longeva aceitação no Brasil, a exemplo do que foi produzido pelas revistas, tema de nossa aula anterior. Nesse mesmo sentido, surgem as obras de Manuel Bandeira, Ronald de Carvalho e Menotti del Picchia, que se destacaram na poesia, influenciados pelo Futurismo, Surrealismo, Dadaísmo e Modernismo francês. Entretanto, são as produções e a atuação de Mário de Andrade no âmbito cultural que realizam uma síntese do que foi desenvolvido de mais significativo no Modernismo brasileiro ao longo do século XX. É sobre a contribuição que suas obras legaram para renovar nossa literatura, permitindo a abertura e dinamização para novos elementos culturais, incentivando a pesquisa formal, centrada na linguagem, e ampliando o campo de ação da arte para os problemas da realidade nacional, que desenvolveremos esta aula.

Macunaíma, de Mário de Andrade: considerações sobre o herói sem nenhum caráter 2 COMEÇANDO A HISTÓRIA
  • 3 TECENDO CONHECIMENTO

Eis nosso primitivismo: trata-se de desembaraçar o mecanismo da poesia e as leis exatas do lirismo para começar a nova e verdadeira poética.

Mário de Andrade

A compreensão do percurso estético cumprido pela arte literária no Brasil, até chegar ao que foi revelado durante e após a Semana de Arte Moderna de 1922, pode ser apreendida a partir da necessidade dos artistas em refletir sobre a nossa formação e constituição social, apontando para o sincretismo e/ou mestiçagem como componente intrínseco de nossa sociedade. José Paulo Paes lembra que, com os modernistas de 1922, o conceito de mestiçagem cultural chegaria ao grau máximo de lucidez, transformando-se, inclusive, em bandeira de luta, processo de afirmação que comparece no Manifesto da Poesia Pau-Brasil, de 1924, com sua ênfase no “bárbaro é nosso”, até o Manifesto Antropofágico, de 1928, no

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qual o “bárbaro tecnizado de Keyserling” é sugerido como ponto de chegada da Revolução Caraíba, como propunha Oswald de Andrade.

Essa promoção culta da barbárie que assenhoreava nossa história não surgiu de forma gratuita: para sua emergência foi decisivo o impulso recebido da moda primitiva que assolou a Europa a partir do início do século XX, vinculando-se aos movimentos vanguardistas. Seguindo essa tendência, ao aderir à voga do primitivismo, os modernistas brasileiros de 1922 não estavam apenas copiando mais uma vertente artística europeia: eles tateavam um caminho que buscava descobrir a identidade brasileira por um processo de retomada cultural. A legitimidade dessa ação no Brasil se explicava porque era fato corrente a presença das culturas primitivas incorporadas à vida cotidiana ou, ainda, por elas comparecerem como reminiscências vivas de um passado recente. Diante dessa onipresença, que se fazia natural, deveriam ser relativizadas as ousadias sugeridas pelos vanguardistas europeus, caracterizadas pelas deformações e/ou simplificações da arte primitiva, assimilação que seria mais coerente com a herança cultural do Brasil do que com a cultura que vigorava naquele continente. (Cf. PAES, 1990, p. 64-65).

Deve-se notar, ainda, algo importante no resgate desse universo passadista adotado pelo Modernismo brasileiro, cuja volta ao primitivismo era motivada por razões alheias àquelas que justificaram sua permanência no itinerário adotado pelos modelos europeus. Por ter como motivação o fastio, a descrença, quando não a desistência de valores ditos decadentes da civilização ocidental, o primitivismo das vanguardas punha à mostra um caráter de fuga do que era familiar rumo ao exótico, ao desconhecido. Em sentido oposto rumavam os modernistas brasileiros, motivados pela busca das suas raízes mais remotas, supostamente mais autênticas, de uma cultura perdida nos desvãos do passado, mas ainda presente em nosso dia a dia. Essa remissão às origens históricas da nacionalidade, ao momento mítico do encontro do índio com o europeu, por exemplo, equivalia à recuperação daquele estado de inocência em que viveram os nossos primeiros habitantes. Nesse sentido e imbuídos do propósito de dar voz ao passado acondicionado em vestes modernas, os modernistas brasileiros buscaram renovar radicalmente o código literário: ignorando a erudição e a gramática, eles se centraram em valorizar a cultura popular do campo e da cidade, a língua cotidiana e natural, forjada pela contribuição de tudo que valorizava os “erros” e as marcas de coloquialidade (Cf. PAES, 1990, p. 68).

Vistas sob um prisma formal e estrutural, para além dos temas requeridos para expor uma nova face do Brasil no campo da estética, as inovações trazidas pelos modernistas encontraram sua síntese nos vários estratos da linguagem, desde os caracteres materiais de pontuação e do traçado gráfico até as estruturas fônicas,

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Macunaíma, de Mário de Andrade: considerações sobre o herói sem nenhum caráter

lexicais e sintáticas do discurso. Com a exploração desses novos recursos, se consubstancia a apreensão de que o texto ultrapassa a mera função expressiva, de que ele teria um momento formativo no qual o escritor se empenha em encontrar a melhor definição e função da palavra, nas variações do ritmo e nos vários traços e possibilidades oferecidas pela linguagem (Cf. COUTINHO, 1995). É na confluência das potencialidades oferecidas pela tríade fundo-forma-conteúdo que emerge Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, obra magna de Mário de Andrade, com a qual ele legou à posteridade uma incisiva reflexão sobre as contingências, princípios e valores de um delirante herói nacional.

  • 3.1 Macunaíma: um herói além do seu tempo

É consenso entre os estudiosos que o programa literário de Mário de Andrade, durante e após a Semana de Arte de 1922, oscilou entre as solicitações da biografia nacional e o fascínio pela construção do objeto estético, cujas viagens pelo Brasil, na tentativa de resgatar tradições em vias de esquecimento e registrar expressões populares desconhecidas, são uma amostra da grandeza do seu legado. Endossando o propósito de uma harmoniosa convivência entre esses dois polos, o livro Paulicéia desvairada abre-se com o famoso “Prefácio interessantíssimo”, no qual o poeta declara ter fundado o desvairismo, que pregava a liberdade de pesquisa estética pela renovação da poesia e criação de uma língua nacional. Na busca para alcançar esse objetivo, é patente a influência que as vanguardas europeias exerceram em sua produção, principalmente, a vertente que encontrava, nas demandas do inconsciente, uma fonte de inspiração e caminho para a realização artística.

Nesse sentido, sua percepção sobre os caminhos a serem seguidos para elaboração do objeto literário encontra afinidades com a escrita automática que os surrealistas pregavam como forma de libertar as zonas noturnas do psiquismo, tidas como únicas fontes autênticas da poesia. Nessa concepção, as vozes do intelecto viriam depois se juntar ao ditado do inconsciente. Diz o autor:

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Quando sinto a impulsão lírica escrevo sem pensar tudo o que meu inconsciente me grita. Penso depois: não só para

corrigir, como para justificar o que escrevi. Daí a razão deste

Prefácio interessantíssimo. (

...

).

Um pouco de teoria? Acredito

que o lirismo, nascido no subconsciente, acrisolado num pensamento claro ou confuso, cria frases que são versos inteiros, sem prejuízo de medir tantas sílabas, com acentuação determinada. (ANDRADE apud BOSI, 2006, p. 371).

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No mesmo “Prefácio”, Mário de Andrade menciona os processos de estilo que conferem à obra a medida de sua modernidade. A teoria das palavras em liberdade, tema do Futurismo italiano, é aqui sua influência mais próxima. Outra área que concorre para acentuar a conotação de modernidade implicada nessa poética é a música, auxiliando o autor a estabelecer dois sistemas de composição poética:

o melódico e o harmônico. No primeiro, que teria vigorado até o Parnasianismo, o verso não passa de um arabesco horizontal das vozes (sons) consecutivas, contendo um pensamento inteligível, a exemplo deste excerto de Olavo Bilac:

“Mnezarete, a divina, a pálida Frineia / Comparece ante a austera e rígida assembleia

/ Do Areópago supremo

...

”.

No segundo, o verso organiza-se em palavras sem

ligação imediata entre si: essas palavras, pelo fato mesmo de não se seguirem

intelectual e gramaticalmente, se sobrepõem umas às outras, formando não

mais melodias, mas harmonias. O exemplo dessa vertente criativa é do próprio

autor: “Arroubos

...

Lutas

...

Setas

...

Cantigas

...

Povoar.” (BOSI, 2006, p. 372-373).

 

Um dos principais articuladores da Semana, Mário de Andrade foi um teórico central

 

do Modernismo brasileiro. O prefácio de “Pauliceia desvairada”, publicado pouco depois da Semana, inspirou a fase inicial do movimento. A pesquisa folclórica e a linguagem inventiva de Macunaíma definiram o lugar que o Modernismo ocupa até a atualidade no imaginário nacional. Nas décadas seguintes, foi interlocutor de autores das novas gerações,

 
do Modernismo brasileiro. O prefácio de “Pauliceia desvairada”, publicado pouco depois da Semana, inspirou a fase
 

como Carlos Drummond de Andrade e Fernando Sabino, além de publicar trabalhos importantes sobre música tradicional brasileira.

Figura 1

A adesão à riqueza combinatória da linguagem e suas infinitas possibilidades apontam para as influências vanguardistas presentes na sua produção literária e nos ensaios teóricos desenvolvidos por Mário de Andrade. Os princípios da colagem (ou montagem), que caracterizavam a pintura da época, o registro que atentava para o uso das matrizes pré-conscientes da linguagem, aludindo à experiência cubista que, por meio da deformação abstrata, rompe os moldes pseudoclássicos da arte acadêmica, demonstram a receptividade do autor em absorver os ditames transgressores preconizados pelas vanguardas, incorporando e redimensionando sua eficácia estética para a realidade brasileira no início do século XX.

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Macunaíma, de Mário de Andrade: considerações sobre o herói sem nenhum caráter

A brevidade dessas informações sobre o ideário intelectual de Mário de Andrade ao longo do Modernismo cumpre a tarefa de convidar você, caro aluno, para conhecer sua obra mais significativa, Macunaíma, o herói sem nenhum caráter. Ao nos referirmos ao livro mais conhecido do autor, muitas são as possibilidades interpretativas e abordagens possíveis a serem feitas, atendendo à sociologia, etnografia, antropologia, história, além da literatura. Entretanto, todos esses enfoques confluem para compreender essa obra como uma narrativa que se aproxima dos nossos conhecidos contos populares; assemelhada a uma rapsódia tropical, estruturada como uma epopeia medieval e comparável, ainda, a uma canção de gesta amazônica, de um herói brasileiro representado com suas qualidades relativizadas e duvidosas e limitações de ordem moral e ética. Essa apreensão surge a partir da permanente preocupação do autor em perscrutar as raízes brasileiras, sondar o que moldou o caráter nacional, descobrir o que é brasileiramente autêntico, mesmo em confronto com uma manifesta miscigenação que aponta para uma pureza de origem enganosa (TOCANTINS, 1978, p. 8-9).

De que trata exatamente esse livro e quais pressupostos embasaram sua elaboração, costumeiramente lembrado como um exemplo rigoroso do que caracteriza a visão de mundo e as formas de vida nem sempre elogiáveis do brasileiro? Correndo o risco de ser injusto com a riqueza temática apresentada em seu conjunto, o seu enredo gira em torno da viagem empreendida pelo herói e seus irmãos Juguê e Maanape, desde a beira do Uraricoera, onde ele havia nascido e onde se tornara imperador da Mata-Virgem depois do casamento com Ci, rainha do Amazonas, até São Paulo. O motivo da viagem é encontrar a muiraquitã, ou talismã da felicidade, que ele perdera e que fora presenteado por Ci antes de ela, inconformada com a morte do seu filho com Macunaíma, subir para o céu e converter-se em uma estrela. O talismã extraviado estava agora em poder do mascate Venceslau Pietro Pietra, avatar do gigante Piaimã. Depois de numerosas aventuras picarescas por São Paulo e Rio de Janeiro, onde se passa o principal da narrativa, o herói consegue recuperar a muiraquitã e volta para o local de onde viera. Mas a sua tribo havia sido liquidada por uma epidemia e seus dois irmãos também não tardam a morrer. Solitário, Macunaíma já não tem interesse pela vida. A perda definitiva do talismã, por culpa do engodo de uma iara que o atraíra para dentro d’água, retira-lhe o último meio de devolver algum sentido à sua existência, pelo que ele, despedindo-se do mundo, ascende ao céu e se transforma numa constelação.

José Paulo Paes, no artigo “Cinco livros do Modernismo brasileiro”, lembra que, com essa obra, Mário de Andrade se volta para o primitivismo antes aludido nesta aula. Era o que permitia ser entendido ante às circunstâncias definidoras dos contornos do herói e grande parte das peripécias ali narradas: elas teriam sido tomadas de

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empréstimo da rapsódia para definir sua forma narrativa. Essa adesão ao gênero pode ser entendida de duas maneiras: literariamente, no sentido de uma imitação do estilo de compor dos rapsodos ou cantadores populares; e, musicalmente, no sentido de uma fantasia livre e exuberante propiciada pelo relevo dado aos motivos folclóricos do Brasil. Ambas as acepções são pertinentes. A primeira é ilustrada na linguagem do livro, pela frequência de enumerações, refrões, frases rimadas e aliterações; pelo aproveitamento sistemático de locuções tradicionais e parlendas infantis; pelo recurso de manter interlocução com o provérbio e a hipérbole; e pela liberdade com que o mágico e o real se entrecruzam. Tudo isso dentro do espírito lúdico de quem se encantasse mais com o fluxo da própria fala do que com a coerência da exposição, condição na qual se faz reconhecível um pendor retórico herdado pelo homem do povo de seus antepassados índios.

AULA 4 empréstimo da rapsódia para definir sua forma narrativa. Essa adesão ao gênero pode ser

Figura 2

A segunda leitura, atrelada ao contexto musical entranhado na obra, remete à sua estrutura, constituída como uma fantasia, combinando livremente, numa mesma tapeçaria de deliberado desenho transregional, motivos folclóricos derivados das diversas regiões do país. Desse transregionalismo dão prova, no nível da fabulação (em que, por repetitivas vezes, assumem categoria de procedimento formal), as correrias do herói e seus perseguidores e/ou perseguidos por todos os quadrantes da nação, numa movimentação cuja rapidez oblitera as distâncias de ordem geográfica e cultural. Corroborando essa adesão ao gênero rapsódico, remetemos à exuberância da fantasia que ultrapassa livremente os limites da paráfrase para invadir os da invenção: o rol de episódios míticos tradicionais é enriquecido por outros novos, ainda que neles consubstanciados, como se a inventividade e a criação das novas peripécias se folclorizasse por contaminação e derivação. É o que avulta nos lances em que usos e artefatos da vida moderna são explicados pela via mítica (por exemplo, o caso da onça transformada em

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Macunaíma, de Mário de Andrade: considerações sobre o herói sem nenhum caráter

automóvel no capítulo XIV), à maneira dos contos etiológicos, que visavam dar a razão de ser de um aspecto, propriedade ou caráter de qualquer ente natural.

À luz desse registro narrativo que rememora e reinterpreta literariamente a cultura primitiva brasileira, voltemos para a composição do protagonista. Ao escolher um herói folclórico cujo nome significa “o grande malvado” e em cuja personalidade a soma dos defeitos sobrepuja sobremaneira a das qualidades, Mário de Andrade não escondia o propósito de crítica que o subtítulo da obra, “o herói sem nenhum caráter”, só fazia realçar. Alegando tratar-se de um “livro de pura brincadeira”, ele negou-lhe a condição de símbolo nacional, como se fosse uma representação arquetípica do brasileiro. Entretanto, foi inescapável, ao longo do tempo, que o perfil do protagonista assumisse essa conotação simbólica, principalmente quando sua definição foi calcada na negatividade de suas atitudes e ações. Ao fim e a cabo, esses traços do protagonista passaram a revisitar continuamente os percalços da formação histórica da nacionalidade brasileira: a ambição da riqueza fácil, a lascívia sem freio, o individualismo anárquico, a carência de espírito de cooperação, a hipertrofia da imaginação, a loquacidade, as alternativas de entusiasmo e apatia, além de uma congênita indolência e difusa melancolia.

Como pode ser observado na descrição acima, todos esses traços ressoam negatividade, próprios de uma visão crítica do caráter e da realidade nacionais, refletindo um distanciamento da ufania e patriotismo que caracterizava a visão um tanto quanto idealizada do Brasil no início do século XX. E, ainda que esse catálogo de traços estivesse longe de dar conta da personalidade contraditória e múltipla de Macunaíma, seria preciso acrescentar-lhe, no mínimo, os traços conexos de esperteza, o prazer de mistificar e o dom da improvisação, o que bastaria para destacar, na criação individual do protagonista, o débito para com um ideário coletivo. Nesse manancial de poucas qualidades e muitos defeitos, ressoa, na figura do personagem, um lado menino ou moleque, afigurado da irreverência um tanto quanto infanto-juvenil requisitada pelas vanguardas, resíduo estético de uma postura independente que buscava contestar o universo social, político e ideológico instituído no Brasil (Cf. PAES, 1990, p. 85-87).

Finalizando esta aula, lançamos mão de uma pergunta, elucidativa do ideal que envolveu o campo cultural da Semana de Arte Moderna de 1922, cujos pressupostos estiveram em estreito contato com a obra de Mário de Andrade:

como os componentes estéticos do movimento modernista comparecem e repercutem na atualidade, atualizando-se continuamente no universo cultural brasileiro?

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José Paulo Paes lembra que, frente a essa questão, Mário de Andrade elencou duas respostas possíveis: ele atribui a perenidade dos valores defendidos no início do século, por um lado, à estabilidade de uma consciência criadora nacional e, por outro, à conquista do direito de pesquisar e atualizar a estética nos vários campos da criação artística. Embora palavras como estabilização e pesquisa não sejam antitéticas em sentido estrito, algumas considerações podem ser feitas a respeito do que conclui o crítico paulista, com vistas a absorver as influências do Modernismo em nossa literatura. Ao falar de estabilização, fica subtendida uma ideia de aceitação do já realizado, o que, se não leva propriamente à inércia, torna menos urgente a ânsia da busca pelo novo. O oposto surge nas entrelinhas desse discurso quando ele fala em pesquisa, em cujo cerne ressoa a conotação de insatisfação, incompletude, sentimento dominante entre os modernistas de 1922 no início da jornada histórica empreendida contra o passado.

Como conciliar esses dois polos quando um deles gera um movimento centrífugo, voltado para uma estabilização, e o outro, centrípeto, atendendo ao polo da experimentação, centrado na pesquisa? Ao unir esses extremos, se encontra o que se fez mais longevo na tradição modernista em nossa cultura: a capacidade de ultrapassar fronteiras, de unir o novo e o antigo em busca de novas formas de expressão, atuando em um campo aberto no qual as fronteiras de gênero, temas, formas e estruturas definem, cada vez mais, a força da cultura no Brasil (PAES, 1995, p. 99-100).

Exercitando

De acordo com o que foi abordado nesta aula, tente elaborar respostas para as questões abaixo:

1)

Convindo reconhecer que as vanguardas europeias influenciaram a literatura brasileira a partir da Semana de Arte Moderna de 1922, como as obras de Mário de Andrade estabeleceram um diálogo entre a cultura nacional e as novas tendências artísticas?

2)

Uma referência importante para designar os movimentos vanguardistas é a negação da tradição, a contestação ao passado e ao presente. Como essa

ideia de revisão da história cultural do Brasil é plasmada no livro Macunaíma, o herói sem nenhum caráter?

3)

As transformações operadas no universo cultural brasileiro pela Semana de Arte Moderna de 1922 repercutem até a atualidade. De que forma você identifica seus traços em nossa literatura e quais escritores e obras serviriam para exemplificar sua influência?

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Macunaíma, de Mário de Andrade: considerações sobre o herói sem nenhum caráter

Macunaíma, de Mário de Andrade: considerações sobre o herói sem nenhum caráter 4 APROFUNDANDO SEU CONHECIMENTO
  • 4 APROFUNDANDO SEU CONHECIMENTO

Caro aluno, o processo de aquisição de novos conhecimentos não deve se esgotar no que é repassado ao longo do curso, ensejando que procuremos outras fontes de informações para dar continuidade ao que estamos estudando. Pensando no aprofundamento do que foi discutido nesta aula, sugerimos que você conheça os tópicos destacados abaixo, nos quais comparecem temas e abordagens artísticas que dialogam com a literatura desenvolvida no Brasil a partir da Semana de Arte Moderna de 1922. Nesse sentido, apresentamos dois sites, nos quais constam gravação e dados biográficos de Heitor Villa-Lobos; uma antologia com os escritos de Patrícia Rehder Galvão, a Pagu, presença feminina icônica do movimento modernista brasileiro; e o site oficial de Tarsila do Amaral, uma das pintoras mais significativas do período estudado.

 

Heitor Villa-Lobos nasceu em 1887 no Rio de Janeiro e faleceu nessa cidade em 1959. Participou da Semana de Arte Moderna em

 
1922, no Teatro Municipal de São Paulo, onde apresentou três espetáculos. Nessa época Villa- Lobos já
 

1922, no Teatro Municipal de São Paulo, onde apresentou três espetáculos. Nessa época Villa- Lobos já era considerado um dos nomes mais importantes da música erudita brasileira. No site a seguir: <http://www.vidaslusofonas. pt/villa-lobos.htm> existem informações de sua biografia e trajetória musical. E, no link

Figura 3

abaixo, você poderá ouvir a sua mais conhecida composição, O trenzinho do caipira , peça emblemática de sua genialidade: https://www.

 

youtube.com/watch?v=DC8oFe5bkeY.

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Patrícia Rehder Galvão, a Pagu, foi escritora, poeta, diretora teatral, tradutora, desenhista e jornalista. Destacou-se no
Patrícia Rehder Galvão, a Pagu, foi escritora,
poeta, diretora teatral, tradutora, desenhista e
jornalista. Destacou-se no Modernismo, ainda
que sem nenhuma participação na Semana
de Arte Moderna de 1922. O livro Pagu –
Vida-obra, de Augusto de Campos, resgata
sua produção artística, literária e jornalística,
incluindo ilustrações, textos e fotografias dos
seus momentos mais importantes: a adesão
às vanguardas, o casamento com Oswald de
Andrade, a viagem ao redor do mundo em
1933, a militância comunista e os anos em que
foi presa por questões políticas.
Figura 4
Tarsila do Amaral foi pintora e desenhista, cuja
obra mais conhecida é o quadro Abaporu, de
1928. Com os escritores Oswald de Andrade
e Raul Bopp, lançou “Antropofagia”, o mais
radical de todos os movimentos do período
modernista, inspirado no famoso quadro.
Dados biográficos, o contexto de sua produção
e suas obras mais conhecidas estão disponíveis
no site: www.tarsiladoamaral.com.br.
Figura 5
AULA 4 Patrícia Rehder Galvão, a Pagu, foi escritora, poeta, diretora teatral, tradutora, desenhista e jornalista.
  • 5 TROCANDO EM MIÚDOS

Prezado aluno, nesta aula buscamos destacar como as vanguardas europeias influenciaram os rumos tomados pela literatura no Brasil no século XX. Negando a tradição e assimilando um presente que deveria apontar para o futuro, Mário de Andrade foi o mais importante dos escritores a disseminar novos formatos narrativos para problematizar a ideia de autonomia e identidade nacional. Ele redimensionou, em suas obras, a noção de língua, nação, disposição narrativa, herói e estrutura formal ao negar a tradição, recusar o presente e apontar o olhar para o futuro. Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, seu livro mais conhecido, reflete artisticamente os novos contornos de uma literatura que iria influenciar decisivamente outras gerações ao absorver o que era preconizado pelos manifestos vanguardistas, adaptando-os para a realidade brasileira.

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Macunaíma, de Mário de Andrade: considerações sobre o herói sem nenhum caráter

Macunaíma, de Mário de Andrade: considerações sobre o herói sem nenhum caráter 6 AUTOAVALIANDO Chegando ao

6 AUTOAVALIANDO

Chegando ao final desta aula, devemos assegurar que ela foi compreendida satisfatoriamente. A verificação do seu aprendizado pode ser observada a partir de algumas perguntas, cujas respostas devem ser coerentes com o que foi desenvolvido:

  • „ Consigo identificar como as vanguardas europeias influenciaram os caminhos seguidos pelos escritores brasileiros na Semana de Arte Moderna de 1922?

  • „ Posso destacar quais recursos temáticos, formais e estruturais se presentificam nas narrativas de Mário de Andrade?

  • „ Compreendo como o livro Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, de Mário de Andrade, revisita a história cultural do Brasil para definir padrões narrativos a serem adotados no presente e no futuro em nossa literatura?

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REFERÊNCIAS

AULA 4

ANDRADE, Mário de. Macunaíma. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003. BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira . 43. ed. São Paulo:

Cultrix, 2006. COUTINHO, Afrânio. Introdução à literatura no Brasil. 16. ed. Rio de Janeiro:

Bertrand Brasil, 1995.

PAES, José Paulo. A aventura literária: ensaios sobre ficção e ficções. São Paulo:

Companhia das Letras, 1990.

______.

Transleituras. São Paulo: Ática, 1995.

TOCANTINS, Leandro. Macunaíma, uma interpretação em três tempos. Rio de Janeiro: José Olympio Editora / Embrafilme, 1978.

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