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Texto literário e texto não-literário

Relacionando o texto literário ao não-literário, devemos considerar que o texto literário


tem uma dimensão estética, plurissignificativa e de intenso dinamismo, que possibilita a
criação de novas relações de sentido, com predomínio da função poética da linguagem.
É, portanto, um espaço relevante de reflexão sobre a realidade, envolvendo um processo
de recriação lúdica dessa realidade. No texto não-literário, as relações são mais restritas,
tendo em vista a necessidade de uma informação mais objetiva e direta no processo de
documentação da realidade, com predomínio da função referencial da linguagem, e na
interação entre os indivíduos, com predomínio de outras funções.

A produção de um texto literário implica:


· a valorização da forma
· a reflexão sobre o real
· a reconstrução da linguagem
· a plurissignificação
· a intangibilidade da organização lingüística

2.1 valorização da forma

O uso literário da língua caracteriza-se por um cuidado especial com a forma, visando a
exploração de recursos que o sistema lingüístico oferece, nos planos fônico, prosódico,
léxico, morfo-sintático e semântico.

Não é o tema, mas sim a maneira como ele é explorado formalmente que vai
caracterizar um texto como literário. Assim, não há temas específicos de textos
literários, nem temas inadequados a esse tipo de texto.

Os dois textos que seguem têm o mesmo tema - o açúcar: no primeiro, a função poética
é predominante. É uma das razões para ser considerado um texto literário. Já no
segundo, puramente informativo, há o predomínio da função referencial.

"O açúcar" (Ferreira Gullar. Toda poesia. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1980,
pp.227-228)

O açúcar

O branco açúcar que adoçará meu café


nesta manhã de Ipanema
não foi produzido por mim
nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.

Vejo-o puro
e afável ao paladar
como beijo de moça, água
na pele, flor
que se dissolve na boca. Mas este açúcar
não foi feito por mim.

Este açúcar veio


da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira, dono da
mercearia.
Este açúcar veio
de uma usina de açúcar em Pernambuco
ou no Estado do Rio
e tampouco o fez o dono da usina.

Este açúcar era cana


e veio dos canaviais extensos
que não nascem por acaso
no regaço do vale.

Em lugares distantes, onde não há hospital


nem escola,
homens que não sabem ler e morrem de fome
aos 27 anos
plantaram e colheram a cana
que viraria açúcar.

Em usinas escuras,
homens de vida amarga
e dura
produziram este açúcar
branco e puro
com que adoço meu café esta manhã em Ipanema.

"A cana-de-açúcar" (Vesentini, J.W. Brasil, sociedade e espaço. São Paulo, Ática, 1992,
p.106)

A cana-de-açúcar

Originária da Ásia, a cana-de-açúcar foi introduzida no Brasil pelos colonizadores


portugueses no século XVI. A região que durante séculos foi a grande produtora de
cana-de-açúcar no Brasil é a Zona da Mata nordestina, onde os férteis solos de massapé,
lém da menor distância em relação ao mercado europeu, propiciaram condições
favoráveis a esse cultivo. Atualmente, o maior produtor nacional de cana-de-açúcar é
São Paulo, seguido de Pernambuco, Alagoas, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Além de
produzir o açúcar, que em parte é exportado e em parte abastece o mercado interno, a
cana serve também para a produção de álcool, importante nos dias atuais como fonte de
energia e de bebidas. A imensa expansão dos canaviais no Brasil, especialmente em São
Paulo, está ligada ao uso do álcool como combustível.

Comentários sobre os textos: "O açúcar" e "A cana-de-açúcar"

O texto "O açúcar" parte de uma palavra do domínio comum - açúcar - e vai ampliando
seu potencial significativo, explorando recursos formais para estabelecer um paralelo
entre o açúcar - branco, doce, puro - e a vida do trabalhador que o produz - dura,
amarga, triste.

a) associações lexicais entre vocábulos do mesmo campo semântico:

açúcar açucareiro adoçar


dissolver usina
cana
canavial
plantar
colher mercearia
comprar
vender
b) relações antitéticas: vida amarga e dura x açúcar branco e puro

c) comparações: a comparação é o confronto de idéias por meio de conectivos, de


palavras que explicitam o que está sendo comparado. Na comparação, um termo se
define em função do que sabemos de outro:

"Vejo-o [o açúcar] puro e afável como beijo de moça

(como) água na pele

(como) flor que se dissolve na boca

No texto "A cana-de-açúcar", de expressão não-literária, o autor informa o leitor sobre a


origem da cana-de-açúcar, os lugares onde é produzida, como teve início seu cultivo no
Brasil, etc.

Para caracterizar ou explicitar a diferença entre função informativa e função artístico-


literária da linguagem, através do confronto entre um determinado dado da realidade e o
mesmo dado, reaproveitado em uma obra artística, podem ser comparadas as seguintes
situações:
a) o barulho de buzinas na rua e uma música que use esse mesmo som;
b) o som de vozes de crianças brincando e a música Domingo no Parque (Gilberto Gil);
c) o som de uma cavalgada e a música Disparada ( Geraldo Vandré );
d) uma foto de jornal - uma foto dos sem-terra e um quadro - Os retirantes, de Portinari
- com o mesmo tema da foto;
e) várias cenas do cotidiano e uma colagem de Glauco Rodrigues;
f) imagens de pessoas se movimentando e uma escultura representando pessoas;
g) uma pequena crítica sobre a passagem de uma escola de samba e a música Foi um rio
que passou em minha vida ( Paulinho da Viola).

2.2 reflexão sobre o real

Em lugar de apenas informar sobre o real, ou de produzi-lo, a expressão literária é


utilizada principalmente como um meio de refletir e recriar a realidade, reordenando-a.
Isso dá ao texto literário um caráter ficcional, ou seja, o texto literário interpreta
aspectos da realidade efetiva, de maneira indireta, recriando o real num plano
imaginário.

Refletindo a experiência cultural de um povo, o texto literário contribui para a definição


e para o fortalecimento da identidade nacional. Por isso, num país como o Brasil, onde
as características culturais precisam ainda ser revitalizadas e valorizadas, as artes
desempenham um papel muito importante.

A título de exemplo, citamos Platão e Fiorin (1991), que dizem: "Graciliano Ramos, em
VIDAS SECAS, inventou um certo Fabiano e uma certa Sinhá Vitória para revelar uma
verdade sobre tantos fabianos e sinhás vitórias, despossuídos de quase todos os bens
materiais e culturais, e por isso degradados ao nível da animalidade."

2.3 recriação da linguagem (desautomatização)


No texto literário, relacionada ao processo de recriação do real, ocorre a
desautomatização da linguagem. Assim, pela reinvenção dos procedimentos lingüísticos
normalmente utilizados no cotidiano, a expressão literária desconstrói hábitos de
linguagem, baseando sua recriação no aproveitamento de novas formas de dizer. O uso
estético da linguagem pressupõe criar novas relações entre as palavras, combinando-as
de maneira inusitada, singular, revelando assim novas formas de ver o mundo.

Apresentamos, a seguir, três textos que exemplificam esse processo: os dois primeiros,
que tratam do mesmo tema, são comparados em relação aos recursos lingüísticos
utilizados, o que os caracteriza como literário e não-literário, respectivamente.

Texto 7 - "A queimada" (Fragmento. Graça Aranha. Canaã, Rio de Janeiro,F.Briguiet,


pp.111-113)

Texto 8 - "Incêndio destrói prédio de 4 andares no Centro" (Jornal do Brasil, 19/02/97)

Texto 9 - "Carnaval" (Graça Aranha, A viagem maravilhosa. Apud William Cereja e


Thereza Magalhães. Português: linguagens. São Paulo, Atual, 1990, p.178)

Texto 7

A queimada

Num alvoroço de alegria, os homens viam amarelecer a folhagem que era a carne e
fender-se os troncos firmes, eretos, que eram a ossatura do monstro. Mas o fogo
avançava sobre eles, interrompendo-lhes o prazer. Surpresos, atônitos, repararam que a
devastação tétrica lhes ameaçava a vida e era invencível pelo mato adentro, quase pelas
terras alheias. (...) O aceiro foi sendo aberto até que o fogo se aproximou; a coluna,
como um ser animado, avançava solene, sôfrega por saciar o apetite. Sobre a terra
queimada na superfície, aquecida até o seio, continuava a queda dos galhos. O fogo não
tardou a penetrar num pequeno taquaral. Ouviam-se sucessivas e medonhas descargas
de um tiroteio, quando a taboca estalava nas chamas. O fumo crescia e subia no ar
rubro, incendiado, os estampidos redobravam, as labaredas esguichavam, enquanto a
fogueira circundava num abraço a moita de bambus.

(Fragmento. Graça Aranha. Canaã, Rio de Janeiro,F.Briguiet, pp.111-113)

Texto 8

Incêndio destrói prédio de 4 andares no Centro

Um incêndio, possivelmente provocado por um curto-circuito, destruiu no início da


madrugada de ontem um prédio de quatro andares na Rua Teófilo Otoni, 38, no Centro.
O fogo começou no primeiro andar, onde funcionava uma empresa especializada na
venda e fabricação de componentes eletrônicos, a Mec Central. O prédio era de
construção antiga e estava em obras; como havia grande quantidade de madeira
estocada, a propagação do fogo foi rápida. A ação dos bombeiros evitou que prédios
vizinhos fossem atingidos pelas chamas. Não houve feridos.

(Jornal do Brasil, 19/02/97)


Comentários sobre os textos 7 e 8 : "A Queimada" e "Incêndio destrói prédio de 4
andares no Centro"

Reconhecemos o texto 7, "A Queimada", como um texto literário, por apresentar


inúmeros recursos expressivos: metáforas (folhagem/carne; troncos/ossos; o ar rubro) e
comparações (a coluna, como um ser animado, avançava solene). O autor fala da
queimada como se ela fosse um ser vivo, atribuindo-lhe características próprias de seres
animados, como solene, sôfrega, cheia de apetite. Neste texto, o plano do conteúdo, a
descrição de uma queimada, é recriado no plano da expressão.

No texto 8, "Incêndio destrói prédio de 4 andares no Centro", o leitor passa pelo plano
da expressão e vai direto ao conteúdo para entender, informar-se. Trata-se, por isto, de
um texto não-literário, cuja finalidade é documentar, transmitir notícias. A linguagem
deste texto é denotativa, não apresenta nenhuma combinação nova ou inusitada de
palavras; seu conteúdo pode ser resumido sem prejuízo da informação que ele contém.

Texto 7 Texto 8

"a coluna avançava solene e sôfrega"


"o incêndio começou no primeiro andar"
"a propagação foi rápida"

adjetivação metafórica:
troncos firmes e eretos
descargas medonhas
ar rubro
ausência de adjetivação: o incêndio,
o fogo,
o prédio,
propagação do fogo,
a ação dos bombeiros.

Texto 9

Carnaval

Maravilha do ruído, encantamento do barulho. Zé Pereira, bumba, bumba. Falsetes


azucrinam, zombeteiam. Viola chora e espinoteia. Melopéia negra, melosa, feiticeira,
candomblé. Tudo é instrumento, flautas, violões, reco-recos, saxofones, pandeiros, liras,
gaitas e trombetas. Instrumentos sem nome inventados subitamente no delírio da
improvisação, do ímpeto musical. Tudo é encanto. Os sons se sacodem, berram, lutam,
arrebentam no ar sonoro dos ventos, vaias, klaxons, aços estrepitosos. Dentro dos sons
movem-se cores, vivas , ardentes, pulando, dançando, desfilando sob o verde das
árvores, em face do azul da baía no mundo dourado. Dentro dos sons e das cores,
movem-se os cheiros, cheiro de negro, cheiro mulato, cheiro branco, cheiro de todos os
matizes, de todas as excitações e de todas as náuseas. Dentro dos cheiros, o movimento
dos tatos violentos, brutais, suaves, lúbricos, meigos, alucinantes. Tatos, sons, cores,
cheiros se fundem em gostos de gengibre, de mendubim, de castanhas, de bananas, de
laranja, de bocas e de mucosa. Libertação dos sentidos envolventes das massas
frenéticas, que maxixam, gritam, tresandam, deslumbram, saboreiam, de Madureira à
Gávea, na unidade do prazer desencadeado. (Graça Aranha, A viagem maravilhosa.
Apud William Cereja e Thereza Magalhães. Português: linguagens. São Paulo, Atual,
p.178)
Comentários sobre o texto 9 - "Carnaval"

Neste texto, os cinco sentidos são explorados de maneira simbólica e inusitada: sons,
cores, cheiros, tatos e gostos vão se sucedendo para descrever o carnaval, seu ambiente,
a mistura de raças, o contato físico entre as pessoas, a euforia da festa.

Em primeiro lugar, ruídos e sons de diversos instrumentos enchem o ar. Acompanhando


esses sons, as cores da natureza e das fantasias se movem, desfilam. Ao ritmo dos sons e
cores, movem-se as pessoas das diversas raças, misturando seus cheiros, variados e
inebriantes, tocando-se das mais diversas formas: pela luta, pelo carinho, pela
sexualidade. Esse contato íntimo conduz a uma fusão de bocas e gostos.

Tudo isto é o carnaval - "libertação dos sentidos", proporcionando um "prazer


desencadeado". O autor, observador atento de uma cena, expressa seu modo de ver o
mundo, suas preferências, seu estado emocional. Ele não descreve o que vê, mas o que
pensa ver, o que sente, combinando as palavras de forma inesperada, revelando novas
imagens decorrentes dessas combinações.

Sons:
· viola chora e espinoteia
· os sons se sacodem, berram, lutam, arrebentam no ar sonoro ...
Cores:
· movem-se cores, vivas, ardentes, pulando, dançando, desfilando ...
Cheiros:
· movem-se os cheiros, cheiro de negro, cheiro mulato, cheiro branco,
cheiro de todos os matizes, de todas as excitações e de todas as
náuseas.
Tato:
· o movimento dos tatos violentos, brutais, suaves, lúbricos, meigos,
alucinantes.
Gosto:
· gostos de gengibre, de mendubim, de castanhas, de bananas, de
laranja,
de bocas e de mucosa.

2.4 Plurissignificação

O trabalho de recriação que se efetiva na construção do texto literário é uma atividade


lúdica, uma brincadeira com a linguagem. Por isso, o texto literário provoca um prazer
estético em seu fruidor, como acontece nas outras manifestações artísticas. Enquanto
atividade de recriação, a expressão literária se caracteriza pela conotação , criando
novos significados, ao passo que a expressão não-literária se reconhece pelo seu caráter
denotativo . No texto literário, faz-se igualmente um amplo uso de metáforas e
metonímias, com o objetivo de despertar no leitor o prazer estético. Isto é o que define
seu caráter plurissignificativo.

Texto 10 - "Acrobatismo" (Cassiano Ricardo)

Acrobatismo

Parou o vento. Todas as árvores


quiseram ver o salto original.
Então
quedaram-se todas
com os seus anéis azuis de orvalho
e os seus colares de ouro teatral,
prestando muita atenção.

Foi como se um silêncio fofo de veludo


Começasse a passear seus pés de lã por tudo.
Nisto uma folha sai, muito viva, de uma rama,
e vai cair sem o menor rumor
sobre o tapete da grama.

É um louva-a-deus lépido e longo


que se jogou de um trapézio
como um pequeno palhaço verde
e lá se foi a rodopiar
às cambalhotas
no ar.

Comentários sobre o texto 10 - "Acrobatismo"

Neste poema, há um amplo uso de metáforas, isto é, uso de palavras fora do seu sentido
normal. Segundo Mattoso Câmara Jr. (1978), a metáfora "consiste na transferência de
um termo para um âmbito de significação que não é o seu". Fundamenta-se "numa
relação toda subjetiva, criada no trabalho mental de apreensão."

Assim, por exemplo, entre a folha e o louva-a-deus traços comuns como a leveza de
movimento, a cor, permitem que se estabeleça entre eles uma relação, a partir da qual se
cria uma metáfora. O mesmo acontece entre o trapézio e o galho de onde o inseto se
jogou no ar (um traço comum entre eles é, por exemplo, a forma); entre o palhaço verde
e o louva-a-deus (traços comuns: a cor, a acrobacia de um e outro); entre o tapete de
grama e o chão recoberto de vegetação (têm em comum a cor, a maciez).

Mais informações sobre os conceitos de conotação e de denotação são apresentados no


item 1 do índice.

2.5 intangibilidade da organização lingüística

Uma das características do texto literário é a sua intangibilidade, sua intocabilidade. As


palavras que foram utilizadas e a maneira escolhida pelo autor para combiná-las são
próprias de cada texto, e não devemos alterá-las sob o risco de mutilar ou comprometer
a intenção do autor. Não podemos, portanto, num texto literário, mudar a posição em
que as palavras foram colocadas, suprimir ou acrescentar vocábulos, substituir
vocábulos por sinônimos, resumir as idéias. A esse respeito, o poeta francês Paul Valéry
diz que, quando se resume um texto não-literário, apreende-se o essencial; quando se
resume um texto literário, perde-se o essencial.

Podemos, por exemplo, perguntar a diversas pessoas o que pensam sobre o tema da
separação amorosa. Poderão surgir, a partir de suas respostas, textos líricos, poéticos e
textos não-literários. No Soneto da Separação, Vinícius de Moraes revela a sua maneira
peculiar de tratar esse tema. Pelo trabalho com a linguagem, pelo uso de recursos
poéticos, seu soneto é um texto literário.

Texto 11
Soneto da Separação

De repente do riso fez-se o pranto


Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mão espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento


Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente


Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante


Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Apresentamos, a seguir, um poema de Ferreira Gullar (texto 12) , a partir do qual são
feitos comentários que evidenciam algumas características da expressão literária
apontadas no embasamento teórico.

Texto 12

Meu povo, meu poema

Meu povo e meu poema crescem juntos


como cresce no fruto
a ávore nova

No povo meu poema vai nascendo


como no canavial
nasce verde o açúcar

No povo meu poema está maduro


como o sol
na garganta do futuro

Meu povo em meu poema


se reflete
como a espiga se funde em terra fértil

Ao povo seu poema aqui devolvo


menos como quem canta
do que planta

Comentários sobre o texto 12

Quanto à relevância do plano da expressão/ desautomatização da linguagem, podemos


observar:
a) a escolha de palavras que compõem as comparações do poema: o poema nasce como
o açúcar, o povo e o poema crescem como a árvore nova. Estas comparações levam às
metáforas: povo/terra onde brota poema/árvore.
b) o jogo entre as repetições de estruturas e a quebra dessas repetições : "Meu povo e
meu poema" , "no povo meu poema", "Ao povo seu poema."
c) a rima na última estrofe: canta/planta reforça as metáforas básicas do poema:
povo/terra, poema/árvore.
d) a personificação : "Como o sol na garganta do futuro."

Dois planos foram explorados -- o do real e o da recriação da realidade:

Real -> o campo da agricultura: plantar, crescer, terra fértil.

Recriação -> o poeta associa a germinação e a fertilidade à palavra poética; o poeta é


comparado a um plantador; o poema é o fruto que ele produz (metáfora).

Um outro exemplo interessante para mostrar a desautomatização da linguagem


encontramos no poema Som, de Carlos Drummond de Andrade (texto 15), em que o
autor, ao invés de usar a expressão hoje em dia, já cristalizada na língua, cria a
expressão hoje-em-noite.

2.6 recursos fônicos característicos da literariedade

O escritor de um texto literário, ao explorar conteúdos, procura recriar a linguagem, e,


para essa recriação, utiliza recursos variados. São alguns deles:

· ritmos
· sonoridades
· rimas e aliterações

a) Ritmo - evidencia-se pela alternância de sílabas que apresentam maior ou menor


intensidade em sua enunciação.

Texto 13

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
(Casimiro de Abreu)

Textos literários em prosa também podem apresentar efeitos sonoros e rítmicos. Como
exemplo, transcrevemos um trecho do romance "Gabriela, cravo e canela", de Jorge
Amado (texto 14)

Texto 14

"Gabriela ia andando, aquela canção ela cantara em menina. Parou a escutar, a ver a
roda rodar. Antes da morte do pai e da mãe, antes de ir para a casa dos tios. Que beleza
os pés pequeninos no chão a dançar! Seus pés reclamavam, queriam dançar. Resistir não
podia, brinquedo de roda adorava brincar. Arrancou os sapatos, largou na calçada,
correu pros meninos. De um lado Tuísca, de outro lado Rosinha. Rodando na praça, a
cantar e a dançar." (Gabriela, cravo e canela, de Jorge Amado)
Este texto, em forma de prosa, apresenta um ritmo e uma sonoridade que nos fazem
lembrar os textos em verso. Existem nele:
· rimas (escutar, rodar, dançar, brincar);
· inversões que contribuem para o ritmo e a rima (os pés pequeninos no chão a dançar,
brinquedo de roda adorava brincar);
· frases curtas com um número aproximado de sílabas:

seus pés reclamavam


queriam dançar
resistir não podia
brinquedo de roda
adorava brincar

de um lado Tuísca
de outro lado Rosinha
rodando na praça
a cantar e a dançar

Seja em prosa, seja em verso, o texto poético contribui para o enriquecimento da


linguagem, explorando a sonoridade e o ritmo das palavras e atribuindo-lhes novos
sentidos, mesmo quando essas palavras são as do dia-a-dia.
b) Sonoridade - por meio da sonoridade de um texto, é possível prolongar, evidenciar ou
transformar o sentido que o léxico e a sintaxe dão às palavras e às frases.

Texto 15
Som

Nem soneto nem sonata


vou curtir um som
dissonante dos sonidos
som
ressonante de sibildos
som
sonotinto de sonalhas
nem sonoro nem sonouro
vou curtir um som
mui sonso, mui insolúvel
som não sonoterápico
bem insondável, som
de raspante derrapante
rouco reco ronco rato
som superenrolado
com se sona hoje-em-noite
vou curtir, vou curtir um som
ausente de qualquer música
e rico de curtição
(Carlos Drummond de Andrade. Poesia e prosa.
Rio de Janeiro, Aguillar, 1979, p.784)

Neste poema, aproveitando as associações de significantes, o poeta faz a palavra som


ecoar o tempo todo, sob a forma de palavras derivadas de som, ou de vocábulos que
apresentam a seqüência fônica s o n, sem relação semântica com a palavra som.
Observe:

soneto sonouro
sonata sonoro
dissonante sonso
sonidos insolúvel
ressonante sonoterápico
sontinto insondável
sonalhas sona
Há também uma seqüência onomatopaica, reproduzindo o ruído estridente
da música moderna:

ressonante reco
derrapante ronco
raspante rato
rouco superenrolado

c) Rimas e aliterações - fonemas que se repetem com uma freqüência maior que a
esperada podem contribuir para a harmonia do poema; muitas vezes essa repetição serve
para reproduzir o ruído daquilo de que fala o poema, como nestes versos de Murilo
Araújo, em que a insistência do [i] sugere o barulho provocado pelos grilos.

Texto 16
O trilo dos grilos, tímido,
de aço fino,
esgrime, com o raiozinho dos astros, límpido,
argentino.

No poema de Cruz e Souza, a repetição do fonema [v] contribui para o efeito sonoro dos
versos e evidencia, mais uma vez, o uso poético da linguagem.

Texto 17
Vozes veladas, veludosas vozes,
Volúpias dos violões, vozes veladas,
Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.
Nesta estrofe do soneto de Alphonsus de Guimaraens, Hão de chorar por
ela os cinamomos, a repetição de vogais nasais e fechadas contribui
para reforçar o conteúdo triste e sombrio.
Texto 18
Hão de chorar por ela os cinamomos,
Murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
Lembrando-se daquela que os colhia.

Rima é a conformidade ou identidade de fonemas, que ocorre geralmente no final de


dois versos diferentes, podendo aparecer também entre vocábulos no interior dos versos.
Existem muitas possibilidades de disposição das rimas nas estrofes do poema. As mais
freqüentes são as emparelhadas, as alternadas, as opostas, as encadeadas, as misturadas.

Além disso, as rimas podem ser classificadas em função da sua riqueza, que é definida
pelo maior ou menor número de fonemas associados, pelas classes das palavras que
rimam pela raridade das terminações. Neste sentido, as rimas podem ser perfeitas,
imperfeitas, pobres, ricas, preciosas.

O texto abaixo exemplifica rimas emparelhadas, porque se sucedem duas a duas, e ricas,
pois as palavras que rimam pertencem a diferentes classes gramaticais (retalha/toalha:
verbo e substantivo; multicores/amores: adjetivo e substantivo; secreta/poeta: adjetivo e
substantivo)
Texto 19
Queixas do poeta

No rio caudaloso que a solidão retalha,


na funda correnteza na límpida toalha,
deslizam mansamente as garças alvejantes;
nos trêmulos cipós de orvalho gotejantes
embalam-se avezinhas de penas multicores
pejando a mata virgem de cânticos de amores;
mais presa de uma dor tantálica e secreta
de dia em dia murcha o louro do poeta! ...
(Fagundes Varela)

A literatura é o veículo, por excelência, da linguagem em sua função poética, mas não é
o único; podemos perceber também na publicidade, nas brincadeiras infantis, nos jogos
de palavras, nos trocadilhos a presença da linguagem poética.

Fonte:acd.ufrj.br