You are on page 1of 2

O Cerco discursivo: "Jagunços"

O interdiscurso básico de criminalização estendeu-se a um conceito-chave da guerra de Canudos: o jagunço. Posso aqui
apenas rapidamente esboçar as transformações e redefinições importantes. Até 1896, "jagunço" tinha uma definição clara e
restrita. Consultando, por exemplo, dois dicionários, de 1859 e de 1888, achamos a mesma definição: "valentão, guarda-
costas de fazendeiro ou senhor de engenho, na Bahia." 19 Um Dicionário mais recente já traz a seguinte variedade de
definições: "1. Valentão, guarda-costa, capanga. 2. sertanejo, provinciano. 3. Cangaceiro, matuto aguerrido e valente. 4.
Chuço." 20. O último significado, "chuço", remonta provavelmente ao significado original: Jagunço seria a transformação
portuguesa da palavra zarguncho de origem africana, denominando uma arma de guerra parecida com um chuço.. Segundo
Calasans, a palavra surge no Brasil pelo menos em 1878, em romance de Franklin Távora "O Matuto". 21 Esta explicação
etimológica parece a mais aceita, embora que existam outras, como aquela que o termo seria um desenvolvimento popular
do tupi "jaguar", tigre, porque os jagunços como "seres primarios gostam de comparar-se aos animais ferozes". 22
Em diversos jornais baianos antes de 1897, "jagunços" designava os capangas pagos pelos coronéis que constituíam suas
forças de combate nas lutas intra-oligárquicas. Em 1895 e 1896, preocupavam muito a opinião pública as sangrentas lutas
na chapada Diamantina, principalmente entre os coronéis Clementino de Mattos por um lado e Felisberto Augusto de Sá,
Manuel Fabrício de Oliveira e Policarpo, que contavam ainda com a ajuda das forças de linha 23. Ambos lados empregaram
numerosos contingentes de jagunços e mocós.
Ainda na segunda expedição, os conselheiristas são chamados de inimigos, fanáticos, bandidos, mentecaptos, mas não de
jagunços. Em março de 1897, achei uma notícia no jornal carioca "Don Quixote" que diz, recordando a derrota de Moreira
César:
"As peripecias do combate, as armas de que se servem os denominados jagunços, vieram denunciar que esses homens têm
quem os instrua na arte da guerra...". 24
Aqui anuncia-se a transformação discursiva do conceito. Parece que a partir da terceira expedição os conselheiristas passam
a ser denominados de jagunços. Na quarta expedição, os jornais, de modo geral, chamam os conselheiristas de "jagunços".
Em pouco tempo, acontece uma redefinição do termo: O conceito é ampliado e ao mesmo tempo é mantido seu significado;
denominando os conselheiristas de "jagunços" é uma operacionalização linguística do interdiscurso de criminalização, ou
seja: o conceito, recriado, permite estigmatizar toda a população de uma cidade como criminoso, independente de função,
profissão, sexo e idade. Euclides da Cunha descreveu esta transformação discursiva assim:
Lá se firmou logo um regime modelado pela religiosidade do apóstolo extravagante. Jugulada pelo seu prestígio, a população tinha, engravecidas, todas as condições
do estádio social inferior. Na falta da irmandade do sangue, a consangüinidade moral dera-lhe a forma exata de um clan em que as leis eram o arbítrio do chefe e a
justiça as suas decisões irrevogáveis. Canudos estereotipava o fácies dúbio dos primeiros agrupamentos bárbaros. O sertanejo simples transmudava-se, penetrando-o,
no fanático destemeroso e bruto. Absorvia-o a psicose coletiva. E adotava, aos cabo, o nome até então consagrado aos turbulentos de feira, aos valentões das refregas
eleitorais e saqueadores de cidades - jagunço" 25

Esta "adoção" que descreve Euclides da Cunha, não foi, porém, um ato deliberativo dos canudenses. Pelo contrário, eles
nunca se auto-denominaram "jagunços". Tratava-se de uma recriação, uma usurpação de um conceito que assim integra
como elemento forte o interdiscurso da criminalização. Como já disse, nos anos anteriores a guerra, devido principalmente
às lutas coronelistas na Chapada Diamantina, o sertão vivia nas páginas dos jornais como lugar de desordem, anarquia e
guerra, estado qualificada invariavelmente como não-civilizado. Pela recriação do termo "jagunço", a população de
Canudos vê-se posta em conexão direta com esta anarquia ameaçadora, sem necessidade de acréscimo ou explicação. Antes
que as tropas de Artur Oscar fechassem o cerco em torno de Canudos, em setembro de 1897, o cerco discursivo já se
fechara contra a sua população.
No entanto, é aparentemente com Euclides da Cunha que o conceito jagunço passa por uma segunda transformação e
ampliação. Ele já não denomina apenas o "individuo do grupo de fanáticos e revolucionarios de Antonio Conselheiro na
Campanha de Canudos" 26 como passa a englobar o sertanejo do norte em geral, o sertanejo como "sub-categoria étnica já
constituida" como o classificou Euclides. 27
Analisando obras posteriores sobre o sertão, nota-se uma certa confusão no uso do conceito "jagunço". A concepção oscila
entre o significado da primeira e da segunda transformação, isto é, entre " conselheirista" e "sertanejo".
Parece-me que o sinônimo jagunço - sertanejo não é um sinônimo no sentido puro. Quando se usa jagunço neste sentido,
aplica-se uma sobrecarga semântica que provém do outro significado, aquele que (não esqueçamos disto) introduziu o
conceito no português do litoral. Jagunço frisa então as qualidades de valentão, de agressividade instintiva, da força bruta no
sertanejo. Levando em consideração o interdiscurso hegemônico, esta recriação de jagunço aponta ainda uma criminalidade
pelo menos latente.
Há uma outra transformação, ou melhor, tentativa de transformação, que é a de lhe atribuir uma conotação explicitamente
positiva, transformando jagunço em título de honra. Disse Rui Barbosa em discurso parlamentar:
Jagunços?....Deus dê ao Brasil muitos desses homens, quando perigar a liberdade ou se houver de medir com o inimigo estrangeiro. Imposto a tais homens, esse
nome, em vez de os desdourar, se enobrece a si mesmo.
Não seria a primeira vez que, na História, uma expressão de vilipêndio se convertesse em título de honra." 28

A professora baiana Yara Ataíde escreve em 1993 uma homenagem ao maior conhecedor da história de Canudos, o Prof.
José Calazans, homenageando-o como "sertanejo e jagunço honoris causa". O grande pesquisador da história de Canudos,
por sua vez, chama certas ex-alunas suas de "minha jaguncinha".
Se é, então, hoje possível em certas ocasiões de usar "jagunco" de uma forma carinhosa (o que sempre inclui uma leve
ironia), eu queria apelar a um uso adequado do conceito "jagunço" em trabalhos "sérios", principalmente científicos, sobre
Canudos. Peço que neles não se use o termo "jagunço" para denominar a população de Canudos nem os sertanejos do
nordeste - a não ser, é claro, como conceito histórico, colocando-o, consequentemente, entre aspas. "Jagunço" é uma palavra
historicamente marcada, preenchida e, por assim dizer, poluida pela semântica acima descrita. Do mesmo modo que na
Alemanha não podemos mais usar certos termos marcados pelo racismo letal dos nazistas, tais como "Zigeuner",
Blutschande", "Endlösung", o "jagunço" entrou na lista destas palavras poluidas. Querendo fazer justiça ao movimento de
Canudos, pesquisando as suas causas e motivos, devemos fazer justiça ao povo de Canudos e não denominá-lo com a
mesma palavra com a qual o denominaram os seus destruidores.

Biografia.
http://www.portfolium.com.br/Sites/Canudos/conteudo.asp?
IDPublicacao=66http://www.portfolium.com.br/Sites/Canudos/conteudo.asp?IDPublicacao=66