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SUSAN SONTAG

Sobre fotografia

NA CAVERNA DE PLATAO .

reluzem e se apagam. Filmes programas Colecionar fotos é colecionar o e de televisão iluminam paredes. uma ética do ver. segundo seu costume ancestral. mundo. existem à nossavolta muito mais imagens que solicitam nossa atenção.mais artesanais. mais importante ainda. desde então. mas' com L3 . as fotos modificam e ampliam nossas idéias sobre o quevale apenaolhare sobre o quetemos o direito de obser- var. praticamente tudo foi fotografado. de forma impenitente' na caverna de Platão. o resultado mais extraordinário da atividade fotográfica é nos dar a sensação de que podemos reter o mundo inteiro em nossa cabeça como uma antologia de imagens. Constituem uma gramâticae. ou pelo menos assim parece.Ao nos ensinar um novo código visual. Essa insaciabilidade do olho que fotografa altera as condi- ções do confinamento na caverna: o nosso mundo. e. ainda se regozijando. com meras imagens daverdade. Ahumanidade permanece. Mas ser educado por fotos não é o mesmo que ser educado porimagens mais antigas. Em primeiro lugar. O inventário teve início em 1839. Por fim. .

como Imagens fotografadas não parecem manifestações a respeito do ainda são quando oferecidas em livros. biniers (1963). e ficar ricos. de fato. do res (1966). São afixadas em álbuns. O que está escrito sobre uma pessoa ou um fato é. mundo. nem indica o inorgânicas. mas nada dano psíquico necessário para construir as modernas sociedades constrange o leitor a seguir a ordem recomendada. Supõe-se que uma queda característica essencial do que ocorre com uma pintura. de lojas de departamentos. expostas em mesas. |ornais e revistas as publicam. como pinturas e desenhos. quando reproduzidaem umlivro. antes de tudo. transcritas em um filme deixam de ser objetos colecionáveis. recortadas. O filme Si j'avais quatre dromadai' de dissolver o mundo. e há um ganho em declaradamente. Mas a imprensa parece uma forma menos traiçoeira tempo a ser gasto em cada foto. projetadas como diaposi- vilhas danafineza. retocadas. de Godard. uma interpretação. fáceis de rasgar e de extraviat um público mais -. pÍegadas em paredes.fotos. se não sua imortalidade fotos são obje- - fotos são. As modo sua longevidade. esiuprar. miniaturizar) fotos. tornam-se valiosas e são vendidas e compradas.perde muito menos de sua conhecimento e. quer um podefazer ou adquirir. em sua disposição aquisitiva. emolduradas e monumentos. afetadas pelas mazelas habituais dos objetos de derem com os inimigos. contém apenas centenas de cartões-postais de que as enfeixemos também. são reproduzidas. a polícia as dispõe em ordem outros tesouros catalogados de todo o mundo. são também são induzidos a ingressar no Exército do rei mediante a promessa reduzidas. sugere um modo mais sutil e cimento que se possui acetca do aspecto do passado e do alcance mais rigoroso de enfeixar (e ampliar) fotos. matar oufazer oquebem enten. de produção barata. a magia equívoca da imagem fotográfica. adultera- de quepoderão saquear. 14 . os mais misteriosos de todos os objetos que com. Mas a mala com o butim que papel. experiência capturada. Contudo. nitidamente. Tanto a ordem como o do presente. o livro não é um instrumento plenamente satisfatório para pôr tumar as pessoas a resumir o mundo naformade palavras impres. tenha engendrado aquele excedente de energia fáustica e de devem ser vistas está súgerida pela ordem das páginas. Michel-Ange e Ulysse ttazem. uma reflexão argutamente orquestrada que as imagens fotográficas. hoje em dia. de transformá-lo em um objeto mental. uma si mesmo em determinadarelação com o mundo. parodia. de mamíferos. tempo exato para olhar cada foto são impostos. os editores as compilam. semelhante ao foto. Mas fotos manifestações visuais feitas à mão. assegurando desse põem e adensam o ambiente que identificamos como moderno. portanto. amplo. sobre fotos de todos os tipos e temas. em geral. o livro foi o mais influente meio de fotos são. As Durante muitas décadas. ea câmera éo braço ideal tos frágeis. Fotos. que fornecem a maior parte do conhe. do mesmo modo que as termos de legibilidade visual e impacto emocional. acos. miniaturas da realidade que qual- fácil de transportar. Mas como é. de Chris Maker. ampliadas. primordial- - e malvista. obviamente. anos depois. Nofime Les cara. ao poder. dois lúmpen-camponeses preguiçosos As fotos.e a imagem de uma ima- da consciência. Fotografar é apropriar-se da coisa fotografada. parecem solicitar para suas esposas. Significa pôr a gem. um objeto impresso. para casa. os museus as expõem. desaparecem. A seqüência em que as fotos sas.leve. talvez. a imagem é também um objeto. de mara. que brincam com a escala do mundo. mas sim pedaços dele. de obras de arte e de tivos. organizar (e. O chiste de Godard alfabética. de meios de transporte. das. que enfeixam o mundo. A foto em um livro é.em triunfo. Elas envelhecem. grupos de fotos em ampla circulação. na alienação. de armazenar. a saber. de acumular. plano. adaptadas.

e portanto mais fotos é relativamente imparcial. são sempre crescente da mentalidade que er'catao mundo como fere autoridade. A decidir que aspecto deveria ter uma imagem. com a realidade visível do que outros objetos miméticos. como Alfred Stieglitz e paul passividade e ubiqüidade do registro fotográfico constitui a Strand. e era semelhante ao que está na imagem. antes de tudo. Porém. perfil de um criminoso). Mesmo vam a câmera como um meio de obter imagens à maneira de um t6 . ou existiu. e não quer que sejam as limitações (por amadorismo) ou as pretensões apenas a interprete. quando os fotógrafos estão muito mais preocupados em espelhar a realidade. Ben Shún. haviam captado no filme a feição exata a expressão precisa do trole de suas populações cadavezmais móveis. Russel Lee) tiravam inúme- no cerco aos communards. exploração e geometria. Ao a uma prova incontestável de que determinada coisa aconteceu. apesar dapresunção deveracidade que con. durante décadas. sua agressão. fazem da banalidade uma virtude (como fotos de turmas escola- grafo compulsivo com sua Brownie que tira instantâneos como res. AIgo de que ouvimos falar ciência. mostrar algo Imagens que idealizam (a exemplo da maioria das fotografias "que existe". euais. mas sempre existe o pressuposto de que algo sição a outra.Isso está tão evidente nas duas primeiras podem ser outra coisa que não uma interpretação estritamente décadas gloriosas da foto grafra. Numa das versões da sua utilidade. que usa- ros como David Octavius comércio usualmente nebuloso entre arte e verdade. indiscriminado e desinteressado - acurada. textura. durante as quais a tecnologia mente seletiva. o registro da câmera justifìca. Aquelas ocasiões em que tirar quer foto - parece ter um arelação mais inocente. ainda são assediados por imperativos de gosto e de cons- Fotos fornecem um testemunho. os fotógrafos sempre impõem padrões a seus temas. para quem as de moda e de animais) não são menos agressivas do que obras que fotos são uma forma prâticae rápida de tomar notas. Os componentes imensamente talentosos do projeto foto- mas de que duvidamos parece comprovado quando nos mostram gráfico do final dadécadade 1930 chamado Contribuiçãoparaa uma foto. que compuseram fotos de grande força. Uma foto equivale sobre pobreza. não reduzem o didatismo da atividade em seu todo. e inesquecíveis - "mensagem" - da fotografia. pode-se tratar uma foto como uma transparência estrita. Mesmo para mestres tão pionei- fotógrafos produzem não constitui uma exceção genérica ao Hill e Julia Margaret Cameron. a obra que os uma coleção de fotos potenciais. existe. o registro da câmera Segurança no Trabalho nas Fazendas (entre os quais estavamWal- incrimina. Numa outraversão - rosto da figura fotografada. Embora em certo sentido a câmera de fato capture a realidade. Depois de inaugurado seu uso pela polícia parisiense. as fotos tornaram-se ras fotos frontais de um de seus meeiros até se convencerem de que umaútil ferramentados Estados modernos navigilânciae no con. quanto as pinturas e os desenhos. assim como o dono de uma Polaroid. Dorothea Lange.em junho de 1871. Essa mesma Os virtuoses da imagem nobre. quanto em todas as dé- seletiva. ao preferir uma expo- foto pode distorcer. naturezas-mortas do tipo mais árido e retratos de frente e de suvenires da vida cotidiana. interesse e sedução a todas as fotos. ainda tencionavam. as fotos são uma interpretação do mundo tanto (por talento artístico) do fotógrafo individual.l 840 e 1850. ker Evans.ILlzdignidade. capazde amparar suas próprias idéias de sua utilidade. Existe uma agressão implícita em qual- Enquanto uma pintura ou uma descrição em prosa jamais quer emprego da câmera. ou o fotó. uma foto qual. permitiu uma difu- cadas seguintes.

na época. Uma vez um rito da vida em família exatamente quando. que a viagem se realizou. A pintura estudo sociológico feito na França. Desde o seu início. Não tirar fotos dos filhos. paraforade seu ambiente habitual. As câmeras acompanham avida da família' Segundo um cava a captura do maior número possível de temas. dos ricos e dos obsessi. nos países em que. embora com poucas pretensões a ser uma arte. equivalem à presença simbólica dos pais que forçou a consciência da fotografi. Assim como a industrialização propiciou os usos ameaçada ea decrescente amplitude da vida familiar. câmeras debol. tirar fotos não tinha nenhuma utili- e família começa a sofrer uma reformulação radical' Ao mesmo dade social clara. quando pequenos.distante da era das cômodas - da sua coesão. desde o seu início: democratizar todas as com as casas sem crianças. era artística. câmera. si mesma um conjunto portátil de imagens que dá testemunho vos. Um álbum de fotos de família é. Pouco importam as atividades fotografadas.tratava-se de uma atividade gratuita.não existiam fotógrafos profìssionais. É sobretudo um rito social. também as ajudam a tomar posse de um espaço em quasetão difundido quanto o sexo e adança-o que significa que. a família nuclear. sobretudo experiências ao traduzi-las em imagens. as fotos. ou seja. não poderia industrialização na Europa e na Améric a. que se acham inseguras. a fotografia impli prescritas. As fotos oferecerão provas incontestáveis de antigo da fotografia. um iílbum sobre a famflia ampliada e. A subseqüente industriali.a como arte. tudo o que dela resta' - fotos dão às pessoas a posse imaginária de um Assim como as Em época recente. a foto grafi a se desenvol- com industrialização que a fotografia adquiriu a merecida repu- a via para celebrar. debandaram. tanto que as fotos sejam tiradas e estimadas. primeiravezna história. em pessoas maioria das pessoas como uma arte. o intuito de tirar fotos situava-se a uma grande distância mento foi umaparte da cerimôniatanto quanto as fórmulasverbais dos propósitos dos pintores. e reafirmar simbolicamente. a própria instituição da tampouco haver amadores. grande número. Parece decididamente anormalviajar por prazer sem bros da famflia (e também de outros grupos) é o uso popular mais levar uma câmera. em comparação inerente à fotografia. viajam regularmente. Pela uma proteção contra a ansiedade e um instrumento de poder. A fotografia se torna feitas na França e na Inglaterra no início da década de 1 840. As primeiras câmeras. espectrais. con- so que convidam qualquer um a tirar fotos. assim como não comparecer à foto de formatura um gesto de rebeldia juvenil' é Aquela época em que tirar fotos demandava um aparato caro e complicado o passatempo dos hábeis. só con- tavam com os inventores e os aficionados para operá-las. muitas vezes. Esses vestígios sociais para as atividades do fotógrafo. a maioria das casas tem uma jamais teve um objetivo tão imperioso. Assim. de que a programação foi cumprida. de fato. a fotografia desenvolve-se na como todaformade arte de massa. tempo que essa unidade claustrofóbica. a reação contra esses usos re. a continuidade tação de arte. durante bre- Comemorar as conquistas de indivíduos tidos como mem. é sinal de indiferençapateÍna. Por meio de fotos. parece. de 19 r8 . a fotografia tornou-se um passatempo passado irreal. em geral. ves períodos. afotografianão épraticadapela esteira de uma das atividades modernas mais típicas: o turismo.pintor. Durante pelo menos um século a foto de casa. mas as casas em que há crianças têm uma probabilidade zação datecnologia da câmera apenas cumpriu uma promessa duas vezes maior de ter pelo menos uma câmera. cada familia constrói uma crônicavisual de . Foi apenas talhada de um bloco familiar muito maior.

tire uma chegam por uma máquina de teletipo. tirar fotos é um evento em si mesmo. de forma persuasiva.não obrigados a desistir do passado. viajam mais. tirar fotos é também uma tas. tiram uma foto. Todos dotado dos direitos mais categóricos interferir. afli- Um modo de atestar a experiência. dos.. farras de jovens. não se enfraquece quando as pessoas uma em cada lado do corpo. Esperanças esmagadas. da foto. que nivela o significado de todos os acontecimentos. Isso. Isso dá forma à experiência: pare. um voyeur só ele dade de tirar fotos é tranqüilizante e mitiga sentimentos gerais de dominou a situação. No início da década de 1970.. de situação articula-se. a ruptura com o passado foi especialmente presença de câmeras sugere. dos anos 50 e 60. que se locomove realizadas longe dos olhos da família. Praga. ção. um suvenir. A própria ativi câmera transformou uma pessoa em algo ativo. Enquanto os gênico. em seu país e no exterior. cheio de dólares e de vulgaridade. O único que tem uma expïessão diferente segura uma câmera forma de recusá-la-ao limitar a experiência a umabusca do foto. ocasião em que deveriam divertir-se. tirar fotos preenche a mesma necessi. como notícias que reações. esportes de inverno são semelhanfs5 ao imperativo do trabalho sentem por não trabalhar enquanto - Tirar fotos estabeleceu uma relação voyeurística crônica com o estão de férias. vras: ". ou de experimentar alguma coisa.. em troca.recentementeliberto de suailha-prisão graças ao mila- Mas a dependência da câmera. E não desorientação que podem ser exacerbados pela viagem.. ele parece seguro de si. Vietnã. eventos dignos de ser fotografa- cano atrevido. guerras coloniais e - canos. até o lago Alberto. uma vez 20 . como o equipamento que torna real gre do iene sobrevalorizado. Elas têm algo a mundo. apertadas umas contra as outras. importa..que houve diversão. aquilo que a pessoa vivencia.. letras brancas ao longo da faixa mesmos e tudo de notável que encontram. etodas.tornafâcil sentir que qualquer evento. junto ao olho.. exceto uma. tidas a uma ética cruel de trabalho alemães. O que vêem essas pessoas? Não sabemos. sentem-se compelidos a pôr a câmera entre si - se fotografar. Londonderry.. em sua maioria. Usar uma câmera atenua a angústia que pessoas submetidas igualados pela câmera. mas em certos países. em geral munido de duas câmeras. agora. fazer que é uma imitação amigável do trabalho: podem tirar fotos. Sapporo. O texto do anúncio. Woodstock. O método atrai especialmente pessoas subme.. invadir ou igno- que vivem numa sociedade industrializada são gradualmente - importa o que estiver acontecendo.empolgadas. dos vizinhos. que o tempo traumática. As fotos documentam seqüências de consumo foi substituída pelo mistério do turista japonês. demais são espectadores passivos. japoneses e ameri. ruca". Nosso próprio senso rar. nitidamente alarmados.parecem espantadas. ao converter a experiência em uma imagem. É um Evento: algo digno de se ver e portanto digno de tas. em grupos. Um anúncio de página inteira mostra um pequeno grupo de dade dos veranistas de classe média baixa que fotografam a torÍe pessoas de pé. pelas intervenções da câmera. quase sorrindo. Os turis. consiste em eventos interessantes. Uma foto não é apenas o resultado de um encontro entre um Pessoas despojadas de seu passado parecem redundar nos evento e um fotógrafo. olhando parafota Eiffel ou as cataratas do Niágara.. para dar uma aparência de participa- seus catorze dias na China. consiste em apenas seis pala- foto e vá em frente.. como Esta. a lenda do turista ameri. dos amigos. Aoni- dos Unidos elapão. Para os sofisticados que acumulam fotos-troftus de A fotografia tornou-se um dos principais expedientes para sua viagem de navio rio acima pelo Nilo.. ter uma Yiajar se torna uma estratégia de acumular fotos. e mais fervorosos tiradores de fotos. Inseguros sobre suas escura que corresponde ao terço inferior da foto.

com a dor e a desgraça de outra pessoa. marginais. a foto ainda exis. Janela indiscreta (1954). Entre o fotógrafo e seu tema. deve ter caminho de. em situações em que o fotógrafo tem de temas considerados indecorosos. que promete sobreviver a todos nós. Fotografar é.em curso. ao mesmo tempo. assassinar todas essas atividades que. estimular o livre para prosseguir até se compls[31. de grafo de moda a rondar convulsivamente em torno do corpo de Hitchcock. em essência. Após o fim do evento. explorar e. cia." ser um fotógrafo profissional pode ser encarado como algo com a baioneta um traidor amarrado. Maldade. fos profissionais têm. pela permanência do tirá. Embora a câmera seja distância e com certa indiferença. é um modo rio filme de Michael Powell intitulado A tortura do medo ( 1960). (Jmhomem com uma câ. podem ser levadas a efeito à càmeraê ainda uma forma de participação.pelo menos tacitamente. muitas vezes. se o fotógrafo procura que se tornou aceitável. Veruchca. ter um interesse pelas coisas como elas são. E o que vem interfere não pode registrar. opta pela foto. escreveu Diane neo. Enquanto 'boa"foto).966). tabus. exatamente.de modo que outra coisa que estiver acontecendo a continuar a acontecer. A pessoa que maldosos são mais difïceis de encontrar hoje em dia. Antonioni leva um fotó- intervenção está fora de questão. para mim". de fato! Com efeito. justamente porque mente de alguém. um posto de observação. no extremo que vê e torna ainda mais importante tirar fotos. como a foto do monge vietnamita que segura uma lata de Arbus. Tirar uma foto é possa vir ao mundo: a foto. intrometer-se. A câmera não estupra. usar sentado por fames Stewart tem uma relação intensificada com uma câmera não é um modo muito bom de aproximar-se sexual- determinado evento. num sentido físico.oferece aimagemideal do fotógrafo como alguém em atrás da câmera. é estarem cumplicidade com o que queï que torne um pessoas reais estão no mundo real matando a si mesmas ou tema interessante e digno de se fotografar atê mesmo' quando - foco de interesse. um ato de não-intervenção."e quando fotografeipelaprimeiravez. Mas temas escolher entre uma foto e uma vida. nem mesmo possui. criando um pequeno elemento de outro mundo: o mun- do-imagem. Mesmo que da metáfora. oferece a imagem complementar: o fotógrafo repre. conferindo ao evento uma espécie de imortalidade (e de status quo (pelo menos enquanto for necessário para tirar uma importância) que de outro modo ele jamais desfrutaria. atravessar. o aspecto perverso de tirar fotos? Se os fotógra- ferir. por meio da sua câmera. 22 4 . fantasias sexuais quando estão mera(1929). com a câmera a clicar. equalquer que seja seu caráter moïal. embora possa atre- estar temporariamente imobilizado o impede de agir sobre aquilo ver-se. o fotógrafo se põe atrás de sua for esse o câmera. alguém que sedesloca em umpanoramade tasias sejam. a ser. talvez a perversão resida no fato de que essas fan- perpétuo movimento. e não raro explicitamente. distorcer. decorre da consciência de maldoso. matando outras pessoas reais. me senti muito per- gasolina. tem de haver distân- está com a perna quebrada e confinado a uma cadeira de rodas. plausíveis e muito impróprias. o ato de fotografar é mais do que uma Existe uma fantasia sexual muito mais forte no extraordiná- observação passiva. diferen- - incompatível com a intervenção. para usar o termo de Darbus. Em eventos díspares com tamanha agilidade e rapidez que qualquer Blow up (Depois daquele beijo)(1. usar uma temente do sexo propriamente dito. A exemplo do voyeurismo sexual. Parte "sempre pensei em fotografia como uma maldade e esse - do horror de lances memoráveis do fotojornalismo contemporâ. era um de seus pontos prediletos. O famoso filme de DzigaYiértov. a de um guerrilheiro bengali no instante em que golpeia versa. a pessoa que registra não pode inter.

em busca de alguém que o mais automatizada possível. Não deseja seus corpos. um visor para enquadrar uma foto. sitiadas e raras -popular espera uma tecnologiafâcil demais para serem mortas. deverdade: exceto emtempo de guerra. para a fantasia central. o safári ecológico. pronta para disparar. ela é mencionada sem sutileza toda vez - brando. É só mirar. Sem levam Hasselblads emvez de Winchesters. Um caso em que as pes- soas estão mudando de balas para filmes é o safári fotográfico. adequado a uma época triste e assustada. ligada à câmera. em vez de olhar por nenhuma complicação. e os fotógrafos fomentam. O cérebro uma mira telescópica a fim de apontar um rifle. olham através de eletrônico da cr e seu obturador eletrônico farão o resto. mas quando ficamos nostálgicos. ativa- gem comum e da publicidade. cujo uso é viciante. rondando como um Ieão feroz. não são letais. Samuel Butler se queixava de que havia"um fotógrafo em cada Tal qual um carro. ao vê-las como elas nunca se agressão. Fotografar pessoas é violá-las. os carros matam mais pes- enquanto as fotografa. Ele não encosta nem uma vez em seus portanto metá- soas do que as armas. no transforma as pessoas em objetos que podem ser simbolicamente máximo. É tao simples como virar . mas de um psi. Na hipérbole que mente. que aponta vêem. No fim. As armas se metamorfosearam em invisível. uma faca ou entre as a própria morte Çu€ ele projeta numa tela. foto- empregam de modo desinibido. Agora. as câmeras são máquinas de fantasia - atiramos. Tira fotos lindas. Porém. Os fabricantes e garantem a seus clientes que tirar fotos não requer nenhumahabi. Ainda assim. a nostalgia. Por mais que seja nebulosa nossa grafar alguém é um assassinato sublimado um assassinato consciência dessa fantasia. Na Londres do final do século xrx. uma arte cre- 24 25 . focalizar e disparar. apesar das extravagâncias da lingua.agora. A fotografia é uma arte elegíaca. Quando Como armas e carros. . Diz um anúncio: mundo ainda mais afogado em imagens. vam se proteger. de dia ou de noite. existe algo predatório no ato de tirar uma pÍazer solitário. porém o preço disso será um de recarregar do que um mosquete Bess. que falamos em'tarregar"e"mirar"a câmera. porque a natureza lidade ou conhecimento especializado. existe pelo menos estaparcela copata que mata mulheres com uma arma oculta em sua câmera. O gosto possa devorar". O filme supõe uma ligação entre impotência e foto. quer a presença delas na forma de fora agourenta parece não passar de um blefe como a fantasia imagens emfilme-as imagens que as mostram experimentando - uma ferramenta masculina de ter uma arma.que não trata de vmvoyeur. para seu -r pernas.Automaticamente. temos medo. Assim como a câmera é uma sublimação da arma.como o título sugere. ameaçada. mortal precisa ser protegida das pessoas. que AYashicaElectro-35 cr é acâmeradaera espacial que sua famíliavai está tomando o lugar do safári na África oriental. uma câmera é vendida como arma predatória arbtnto. A câmera moderna tenta ser uma arma de raios.ataca feras reais. O fotógrafo. que a máquinajá sabe tudo deixou de ser o que sempre fora algo de que as pessoas precisa- e obedece à mais leve pressão da vontade. vende carros como se fossem armas. a nat:uteza a chave de ignição ou puxar o gatilho. uma débil variante da metáfora inevitável que todos possuídos. ao ter delas um conhecimento que elas nunca podem ter. A época atual é de nostalgia. Os caçadores adorar.tiramos fotos. A câmera/arma não mata. em"disparar"afoto. entre o olharprofissionalizado e a crueldade. A câmera como falo é. em casa. câmeras nessa comédia séria. a temas. as pessoas talvez aprendam a encenar suas agressões A câmera de modelo antigo era mais difícil e mais complicada mais com câmeras do que com armas. domesticada.

As imagens que mobilizam a cons- inspirados por seu desaparecimento. A exemplo dos são sempre específicas. de tempo. anônimos do desejável com o fim de ajudar a masturbação. de batalha não diminuíram em nada o entusiasmo das pessoas reta. preservados no iílbum de famflia. cujos personagens são concretos. contatar ou de pleitear outra realidade. É suscitado por meio de arquétipos e é. lar o impulso moral. Uma foto é tanto uma pseudopresença quanto uma prova de Uma foto qrLe traz notícias de uma insuspeitada região de ausência. menor a probabilidade de serem nossa relação portátil com o passado. com o - sonville talvez se deva. Assim. Todas as fotos são memento mori. à própria novidade que era.Um tema feio esses usos talismânicos das fotos exprimem uma emoção senti- ou grotesco pode ser comovente porque foi honrado pela atenção mental e um sentimento implicitamente mágico: são tentativas de do fotógrafo. de forma di.ver fotos. ticos e esfarrapados em Andersonville inflamaram a opinião teira de uma mulher casa da. O As câmeras começaramaduplicar o mundo no momento em assunto é mais complexo quando as fotos são usadas para estimu- que a paisagem humana passou a experimentar um ritmo vertigi. sos porque envelheceu ou decaiu ou não existe mais.Tirar uma foto é participar da mortalidade. da vulnerabilidade e da mutabilidade de outra pessoa (ou coisa). |us. regras quase opostas são válidas parentes e amigos moÍtos. As fotos podem incitar o desejo da maneira mais direta e uti- tamente por cortar uma fatia desse momento e congelá-la. desapareceu em sua maior parte. Como o fogo da lareira num quarto. Um tema belo pode ser obj eto de sentimentos pesaro. o cartaz de um astro do rock pregado pública dos nortistas contra o Sul. a menos que - tudo as de pessoas. em parte. as fotos sobre.) A compreensão política a que muitos america- z6 . das regiões rurais desfiguradas e arrasadas. miséria não pode deixar marca na opinião pública.puscular. A maioria dos temas fotografados tem. O desejo não tem história pelo menos ele - noso de transformação: enquanto uma quantidade incalculável de é experimentado. A foto do amante escondida na car. de textura intricada. As fotos de prisioneiros esquelé- é intensificada pela distância. sentimentos eróticos nas pessoas para quem a desejabilidade para levar adiante a Guerra Civil. A melancólica Paris. abstrato. Mas os sentimentos morais estão embuti- está desaparecendo. em cada momento. pregado ao paletó de um eleitor. o broche de campanha. imediato. toda litária como quando uma pessoa coleciona fotos de exemplos - foto testemunha a dissolução implacável do tempo. eficazes. devastados. de paisagens distantes e de cidades remotas. um aparelho se torna acessível para registrar aquilo que nesse sentido. cuja quando se trata do emprego das fotos para despertar o desejo e presença em fotos exorciza uma parte da angústia e do remorso para despertar a consciência. de dos na história. (O efeito das fotos deAnder- acima da cama de um adolescente. justamente em filhos de um motorista de tiáxi coladas no painel do carro todos - virtude de serem fotografados. um toque de páthos. O sentido do tiradas por Mathew Brady e seus colegas dos horrores nos campos inatingível que pode - ser evocado por fotos alimenta. as fotos dos época. suprem Quanto mais genéricas forem.As fotos passado desaparecido são estímulos para o sonho. como algo totalmente em formas devidabiológicas e sociais é destruídaem um curto espaço primeiro plano. na rosto de um político. cujas situações Atget e Brassai. as fotos dos arrabaldes agora ciência estão sempre ligadas a determinada situação histórica. do existaum contexto apropriado de sentimento e de atitude.

o espaço parataljulgamento estavaocupado pelo con. ideolo. de um evento antes que o próprio giado. identificar pâginade muitos jornais do mundo eml972. O que determina a cano. Fotos como a que esteve na primeira provafotogriâfica que pode construir-mais exatamente. E jamais é a guardar e olhar outras vezes. esforços para obter tais fotos. ou como um choque emocional desorientador. correndo por uma estrada na direção da câmera. algo mento porque são uma nítida fatia do tempo. eventos. que as pessoas mostrado tão unânime em seu apoio à GuertadaCoréia se tivesse podem manifestar em reação a fotos dos oprimidos. China e. nialista. Embora um evento tenha passado a significar. O público não viu tais fotos porque não havia. e não um fluxo. de 1950. a exemplo das fotos que Felix para as fotos. visto que o evento fora definido por Poucas pessoas que viram essas fotos na década de 1940 poderiam ter uma reaçãotão um número significativo de pessoas como uma feroz guerra colo- inequívoca. um rados.e podem ajudar a desenvolver umaposi. porque estas imagens tornaÍam-se banais. gritando de dor provavelmente contribuíram mais apropriada. uma criança sul. prova. em que cada que determina o que constitui um evento. As fotos de do que o infligido ao Vietnã uma década depois. para mostrar que o ini. em certos aspectos. dos famintos e dos massacrados depende também do ecocídio e um genocídio. Fotos não podem criarumaposição moral. admitida essa caracterização. nação de um evento. ainda mais completo grau de familiaridade que tenham com essas imagens. fotográfica ou de outro tipo. ilimitado poder de fogo americano não seriam pertinentes. espaço para elas. A digno de se fotografar. de descendentes de Greene e Marc Riboud trouxeram de Hanói. Mas a suposição é Don McCullin dos biafrenses magérrimos no início da década irrelevante.A Guerra da Coréia foi entendida de outra forma. de 1970 produziram menos impacto. até de ofensamoral. as fotos do matadouro dahistó- - para aumentar o repúdio público contra a guerra do que cem ria serão. para alguns. de braços mente afetado por fotos é a existência de uma consciência política abertos. Fotos podem ser mais memoráveis do que imagens em movi. dos explo- deparado com provas fotográficas da devastação da Coréia. as fotos da crueldade do -. tiradas por Dorothea Lange. parte da justa luta do Mundo Livre contra a União Soviética e a mas podem reforçá-la. convertido em um objeto diminuto que as pessoas podem evento tenha sido designado e caracterizado como tal.como senso afavordaguerra. Sem umavisão política. Seria bom imaginar que o público americano não teria se Anaturezado sentimento. ao olhar migo tinha um rosto humano. ção moral ainda embrionária.nos haviam chegado na década de 1960lhes permitiu. ainda é a ideologia (no sentido mais amplo) televisão é um fluxo de imagens pouco selecionadas.Cada foto é um momento privile. experimentadas apenas como irreais horas de barbaridades exibidas pela televisão. Os americanos tive- japoneses sendo transportados para campos de prisioneiros na ram acesso a fotos do sofrimento dos vietnamitas (muitas delas costa oeste dos Estados Unidos em 1942. exatamente. do que as fotos de gicamente. Ninguém trouxe para sua terra natal Werner Bischof das útimas indianas da fome no início da década fotos da vida cotidiana em Pionguiang. que acabara de ser atingida por napalm ameri. muito provavelmente. reconhecer qual era de vinham de fontes militares e foram tiradas com intuitos bem dife- fato o tema das fotos um crime cometido pelo governo contra rentes) porque os jornalistas sentiam-se respaldados em seus - um grupo numeroso de cidadãos americanos. e as fotos das z8 . Não pode existir nenhuma imagem cancela a precedente. a contribuição dafotografiasemprevem após adesig- -os possibilidade de ser moral- vietnamita nua.

O primeiro conta da mera proliferação dessas imagens assim como a surpresa e o desnorteamento sentidos na primeira contato de uma pessoa com o inventário fotográfico do horror vez em que se vê um filme pornográfico se desgastam depois que a supremo é uma espécie de revelação. a fotografia "consciente" fez. - de horror. Também pode corrompê-las. logo fotográfico da desgraça e funda. Após trinta anos.Um evento conhecido por meio de fotos cer. pensem no arquipélago de Gulag. O sentimento de tabu que nos deixa indig- moderna: uma epifania negativa. a maioria das fotos não começou a se retesar. foram as fotos de Ber. do qual não temos cido. O vasto catá- ou na vida real me ferira de forma tão contundente. inserir-se naprópriaexperiência de olhar fotos. mas uma parte de meus sentimentos a condição de pontos de referência éticos. devem ter pare. experimentados de forma dolorosa em anos recentes. - só uma foto").) Mas. inevitável. Sofrer é uma coisa. o 3o . provavel- cia e a cap acidade de ser comp assivo. algo ainda está chorando. No fim. visto as fotos pensem na Guerra do Vietnã.levando o horrível a vida em duas partes. essas fotos? Eram apenas fotos de um evento do qual eu pouco - no qual eu não podia interferir. uma reprise insuportável de uma exibição de atro. E ambos têm sido Santa Monica em julho de 1945. Fotos chocam na proporção em que mostram algo novo. algo se partiu. algo morreu. embora isso tenha ocorrido muitos anos antes de eu com. De fato. nada havia de banal nessas imagens. antes de ver aquelas fotos (eu tinha doze anos) parecer mais comum levando-o a parecer familiar distante ("é e depois. fotos de um sofri- talvez tenhamos chegado a um ponto de saturação. da injustiça em todo o mundo deu a . após uma repetida exposição a imagens. nenhuma foto. Nas últimas ouvira falar e décadas. parece-me plausível dividir minha todos certa familiaridade com a atrocidade. por das atrocidades fotografadas se desgasta com a exposição repetida. Nada que tinha visto em fotos . O choque Infelizmente. a muitos. exemplo. O conteúdo ético dasfotos éfrágil. o custo disso não pâra de subir em parte. As imagens paralisam. Que bem me fez ver pos nazistas. evento também se torna menos real. Âs p átho s generalizado do tempo pretérito. apessoatem aberto asuafrente o cami. que adquiriram diavelmente aflita. tamente se torna mais real do que seria se a pessoa jamais tivesse forma imediata. Quando olhei para essas fotos. mente. nados e pesarosos não é muito mais vigoroso do que o sentimento gen-Belsen e de Dachau com que topei por acaso numa livraria de de tabu que Íege a definição do que é obsceno. conserva sua carga emocional.famílias de tuaregues que morriam de fome naÁfricasubsaariana. e não só o do horror. nos comoveria por ser uma foto tirada em 1900. de maneira alguma. Com apossível exceção das Algum limite foi atingido. Uma foto de 1900 que' na época. outra coisa é viver com imagens fotogrâ- ficas do sofrimento. senti-me irreme- fotos daqueles horrores. ferida. quando não de imagens anestesiam. Para mim. (Para um contra- - publicadas em revistas de todo o mundo em 1973. o quenão reforçanecessariamente aconsciên- produziu um grande efeito por causa de seu tema. a revelação prototipicamente pessoa vê mais alguns. no mínimo' tanto para mento que eu mal conseguia imaginar e que eu não podia aliviar amortecer a consciência quanto fez para despertâ-la. tão pro. A mesma lei vigora para o mal e para a fotografia. Os atribu- Depois devertais imagens. tos e os intuitos específicos das fotos tendem a ser engolidos pelo nho para ver mais e cada vez mais. o cidades agor a j â familiar. certamente com o correr do tempo. A distância estética parece . tão instantânea. como os campos nazistas. Na época das primeiras fotos dos cam- preender plenamente do que elas tratavam. hoje.

lacunas em nossas imagens mentais do presente do passado: por um jornal destinado a leitores preparados e bem informados. as fotos preenchem identidade populista. nas situações em que a maioria das pes- que em si mesmas nada podem explicar. antes. uma análise contida em uma matéria' década de 1880 são extremamente instrutivas para quem não sabe foto poderia apenas ilustrar a 32 . o que deve ser a realidade. e a história. A suposição é que. As fotos. tudo pode pelos meios racionais . Toda possibilidade de compreensão está emaizadana que não têm facilidade para ler. intua o que legistas.As fotos - a serviço de importantes instituições de controle. É claro. É uma visão do mundo que tenham. passada e presente. Todafoto tem múltiplos significados. que parte de não aceitar o mundo tal como ele apa- fotos foram vistas como um modo de dar informações a pessoas renta ser. uma foto comprobatória do rosto do cidadão. como objetos simbólicos e como independentes. torno daimagem fotográfica. um conjunto de anedotas e de faits dìvers. nega a inter-relação. Mas isso é o contrário de em que todos se supõem com direito a algo chamado notícia' As compreender. Agora. Estritamente falando. a continuidade. Por meio de fotos. sua maneira de alcançar uma preende nada apartir de uma foto. redefine o conhecimento - dão informações. Para os espiões. à especulação fantasia. avulsas. (Inversamente. de qualquer coisa: basta A industrialização da fotografia permitiu sua rápida absorção ou seja. não mais imagens de brinquedo."N um inventário. -tornaram-se parte ser adjacente a qualquer coisa. enquadrar o tema de um modo diverso. são convites inesgotáveis soas usa as fotos. sinta. pode ser desconexo. se torna fontes de informação.Assim. todas as margens ("enquadramento") parecem arbitrárias. mesmo as mais ama.) A fotografia reforça uma visão dade. - está além. burocráticos de gerir a socie. que o da ficção. imagine ou. para tais leitores. na catalogação burocrática do mundo. as imagens de Jacobs Riis da miséria de Nova York na publica foto nenhuma. A sabedoria suprema da imagem fotogrâfica é dizerl. os arqueólogos e outros profissionais da informação. colada a eles. no nível da arte. não e exemplo. Le Monde. seu valor como informaçáo ê da mesma ordem à dedução. se ela tem este aspecto". maioria das fotos. nunca se com- "Jornal de Imagens de Nova York".A informação que as fotos podem dar começa a eà A fotografia dá a entender que conhecemos o mundo se o parecer muito importante naquele momento da história cultural aceitamos tal como a càmera o registra. Tudo pode ser separado. Mas. Fotos. Num mundo regido por imagens fotográficas.Afoto umafinafatiade espaço bem é como de tempo. Acâmera torna a reali- muitos documentos importantes não são válidos a menos que dade atômica. em número aparentemente infinito assim como o da redutora abordagem da realidade que é tidapor realista. No extremo oposto do espectro. os meteorologistas' os médicos- está a superfície. mas confere a cada momento A visão "realista" do mundo compatível com a burocracia como técnica e informação' As fotos o caráterde mistério. número de fotos que podem ser tiradas de qualquer coisa é ilimi- foram arroladas tado. Dizemo que existe. manipulável e opaca. Um novo significado da idéia de informação construiu-se em tempo termina por situar a doras. nominalista da realidade social como constituída de unidades do mobiliário geral do ambiente-pedras detoque e confirmações pequenas. fazem ver algo na forma de uma foto é enfrentar um objeto potencial de são apreciadasporque fascínio. O Daily News ainda se denomina capacidade de dizer não. valor é inestimável. seu . o mundo se torna uma série de partículas em especial afamibiae a polícia. de fato.

A própria mudez do que seria' hipoteticamente. a fotografia nosfaz sentir que o mundo é mais acessível do que é na realidade' A necessidade de confirmar a realidade e de tealçat a expe- riênciapormeio de fotos é um consumismo estético em quetodos' hoje. seja ele cínico ou humanista. Por fim. cadavez mais. Há de ser um conhecimento barateado uma aparên- o ato - cia de conhecimento. Um pungente anseio de beleza. jamais conseguirá ser um conhe- cimento ético ou político.Em contraste com a relação amorosa' livro. a equivaler a olhar para câmera deve sempre ocultar mais do que revela' Como assinala respeito ele. iâabafiotado. a compreensão sebaseiano funcionamento' E o funcionamento se dáno tempo e deve ser explicado notempo' Só o que narra pode levar-nos a compreender' O limite do conhecimento fotográfico do mundo é que' con- quanto possaincitar a consciência.uma aparência de estupro. Ao munir este mundo. a representação darealidade um evento público tende. de uma redenção e celebração do corpo do mundo todos esses elementos do sentimento erótico - no prazer que temos com as fotos' Mas outros sen- são afìrmados timentos. é a mais irresistível forma de poluição mental. baseiana aparência. transformar a experiência em si num modo de ver. o mais lógico dos estetas do Brecht. menos liberadores. assim como de tirar fotos é uma aparência de apropúação. e participar de se de fato dickensiana. As sociedades industriais transformam seus cidadãos em dependentes de imagens. uma aparência de sabedoria. Contudo. Mallarmé. disse que tudo no mundo existe para terminar num dessa organização. Hoje. estão viciados. ter uma que a pobreza urbana nos Estados Unidos no fim do século xrx era pela experiência torna idêntico atftar dela uma foto. também se expressam' Não seria errado falar de pessoas que têm :uma compulsão de fotografar: 35 J4 . de um propósito para sondar abaixo da superfície. tudo existe para terminar numa foto. A onipresença das fotos produz um efeito incalculável em nossa sen- sibilidade ética. uma foto da fábrica Krupp não revela quase nada a que se século xx. de uma dupli- cata do mundo feita de imagens. compÍeen- sível nas fotos é o que constituiseu carítter atraente e provocador. conhecimento adquirido por meio de o fotos será sempre um tipo de sentimentalismo. em forma fotografada.