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Oferta ao Aluno

Ent e

PORTUGUÊS
António Vilas-Boas
Manuel Vieira

• Explicações concisas
dos conteúdos
de Educação Literária
Ent e

11 Leituras
em dia

“ Padre António Vieira, «Sermão de Santo António» 2


“ Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa 6
“ Almeida Garrett, Viagens na minha terra 10
“ Camilo Castelo Branco, Amor de perdição 14
“ Alexandre Herculano, «A abóbada» 18
“ Eça de Queirós, Os Maias 20
“ Eça de Queirós, A ilustre Casa de Ramires 24
“ Antero de Quental, Sonetos completos 28
“ Cesário Verde, Cânticos do Realismo 30
A vaidade entre os vícios é o pescador
mais astuto, e que mais facilmente engana
os homens.

Padre António Vieira, «Sermão de Santo António», in Obra completa, capítulo IV

Contextualização histórico-literária
«SERMÃO
DE SANTO O Barroco
ANTÓNIO»
O
Barroco é, de um modo geral, o estilo de arte vigente no século XVII na
PADRE ANTÓNIO VIEIRA Europa e em territórios de outros continentes que eram colónias de paí-
ses europeus, principalmente Portugal e Espanha. A arte barroca concre-
tizou-se na literatura, na pintura, na música, na escultura e na arquitetura.
Esta é uma arte teatral, no sentido em que valoriza o espetáculo formal, quer
nas palavras quer nos sons ou nas cores. Caracteriza-se, assim, pela exuberância.
No que respeita à literatura, o estilo barroco distingue-se do renascentista no
sentido em que se torna muito rebuscado e requintado através da composição de
textos ou de discursos engenhosos, isto é, nos quais a palavra tem toda a liberdade
para se apresentar em frases sabiamente construídas, com duas ou mais secções.
Consegue-se, desse modo, um ritmo específico, que se apresenta em construções
antitéticas e surpreende através de associações inusitadas, como na comparação
ou na metáfora. Estas técnicas estão ao serviço da apresentação de uma visão
do mundo muito marcada pela preocupação com o Além e a salvação da alma:
de facto, a literatura barroca apresenta cristãmente o ser humano como um ser
marcado pela transitoriedade da vida – que não deve nunca deixar de refletir na sua
fragilidade, na morte certa e no que virá depois.

O homem e a obra

A
vida do Padre António Vieira acompanha o século XVII, pois nasceu em
Lisboa em 1608 e faleceu na Baía, Brasil, em 1697. Foi muito cedo para
o Brasil, onde fez os seus estudos de teologia e foi ordenado.
Padre pertencente à ordem dos Jesuítas, desde novo que lhe foram reconhecidos
grandes dotes intelectuais e de pregador. Regressou a Portugal para acompanhar
os tempos da Restauração, tendo servido o novo rei D. João IV na sua luta contra
Espanha e como embaixador de Portugal em vários países europeus. Espírito li-
vre, foi perseguido pela Inquisição. Entretanto, pregou em vários países europeus,
sempre com grande sucesso, nomeadamente Itália, mais propriamente em Roma.

2
Homem de grande atividade, fez várias vezes a viagem entre Portugal e Brasil.
Empreendeu a sua luta mais conhecida a favor dos índios brasileiros, dizimados e
escravizados pelos colonos portugueses. No âmbito dessa luta, pronunciou o fa-
moso «Sermão de Santo António», na cidade de São Luís do Maranhão, em 1654.
Devido à sua intensa atividade a favor das minorias e da denúncia das injustiças
para com elas cometidas pelos portugueses, a atualidade do seu pensamento é
inquestionável. É, por isso, um dos maiores escritores portugueses de sempre.
Deixou-nos como obra fundamental muitos volumes de Sermões e as Cartas.

Visão global e estrutura argumentativa

Capítulo I – O pregador apresenta a


tese que vai defender: A terra está
corrupta, não se deixa salgar – «[…]
EXÓRDIO quando a terra se vê tão corrupta
como está a nossa, […]».
Capítulo II – O pregador indica o
plano do Sermão – louvores e
repreensões aos peixes: «[…] di-
EXPOSIÇÃO vidirei, peixes, o vosso Sermão em
dois pontos: no primeiro louvar-vos-
-ei as vossas virtudes, no segundo
repreender-vos-ei os vossos vícios.».

Capítulo II – O pregador louva as virtudes dos peixes em geral:


«[…] entre todas as criaturas viventes, e sensitivas, vós fostes as
primeiras, que Deus criou.».
CONFIRMAÇÃO
Capítulo III – O pregador louva alguns peixes em particular
cujas virtudes os homens deviam imitar: «[…] infinita matéria
fora, se houvera de discorrer pelas virtudes, de que o Autor da
Natureza a dotou, e fez admirável em cada um de vós.».
Capítulo IV – O pregador repreende defeitos gerais aos peixes,
mas próprios dos homens: «[…] assim como ouvistes os vossos
louvores, ouvi também agora as vossas repreensões.».
Apresenta argumentos a favor da tese inicial:
• argumento da exploração do homem pelo homem;
• argumento das discórdias entre os homens;
PERORAÇÃO • argumento da vaidade dos homens.
Capítulo V – O pregador analisa defeitos de peixes específicos.
«Descendo ao particular, direi agora, peixes, o que tenho contra al-
guns de vós.»
Capítulo VI – O pregador termina, exortan- Apresenta mais argumentos a favor da tese inicial:
do os ouvintes a louvar a Deus: «Louvai, • argumento da presunção, do orgulho e da soberba: o peixe
Peixes, a Deus, os grandes, e os pequenos, roncador;
e repartidos em dois coros tão inumeráveis, • argumento do compadrio e do parasitismo: o peixe pegador;
louvai-O todos uniformemente.». • argumento da vaidade e da ambição desmedida: o peixe voador;
• argumento da traição: o polvo.

3
Objetivos da eloquência
(docere, delectare, movere)

1.
Através da oratória, o pregador ensinava (docere) as verdades da doutri-
na cristã, no sentido de denunciar e corrigir comportamentos individuais
ou sociais que dela se desviavam.

Ao fazê-lo, procurava interessar o auditório na doutrina através da utili-

2.
zação de uma grande variedade de recursos expressivos que o encanta-
«SERMÃO vam ou deleitavam (delectare). Corria, deste modo, o risco de os ouvintes
DE SANTO darem mais atenção à arte verbal do que à doutrina.
ANTÓNIO»

3.
PADRE ANTÓNIO VIEIRA Todo este trabalho de ensinar através da palavra engenhosamente traba-
lhada tinha como objetivo a persuasão (movere) do auditório no sentido da
conversão à prática das verdades cristãs.

Intenção persuasiva e exemplaridade

N
o sentido de obter êxito na persuasão, isto é, na conversão das práticas
erradas da vida em práticas de acordo com a doutrina cristã, o pregador
apresenta exemplos de virtude a seguir:

santos como Santo António;


peixes virtuosos referidos na Bíblia como o Santo Peixe de Tobias, a rémora ou
o torpedo;
peixes cujo comportamento não deve ser imitado pelos homens: os roncado-
res, os pegadores, os voadores e o polvo;
uma série de personagens bíblicas: ou porque se comportaram devidamente
e devem ser imitadas ou porque erraram e devem ser rejeitadas.

Crítica social e alegoria

O
Padre António Vieira apresenta uma galeria alegórica de peixes com inten-
ção didática, isto é, com intenção de denunciar e corrigir comportamen-
tos errados dos homens. Esta crítica social concretiza-se essencialmente
na descrição dos comportamentos simbolizados através dos seguintes peixes:

peixe roncador a soberba humana

peixe pegador o oportunismo humano

peixe voador a ambição humana

polvo as práticas de traição


entre os homens

4
Linguagem e estilo
Discurso figurativo
Exemplos

Alegoria Comparação Metáfora

«O Polvo com aquele seu capelo na «Vê, Peixe aleivoso, e vil, «É possível que sendo vós uns
cabeça parece um Monge, com aque- qual é a tua maldade, pois peixinhos tão pequenos haveis
les seus raios estendidos, parece uma Judas em tua compara- de ser as roncas do mar?»
Estrela, com aquele não ter osso, nem ção já é menos traidor.» (Capítulo V)
espinha, parece a mesma brandura, a (Capítulo V)
mesma mansidão.» (Capítulo V) «[…] e o Polvo dos próprios bra-
Nota: todo o Sermão é uma alegoria, no entanto, ços faz as cordas.» (Capítulo V)
o exemplo do polvo é o mais paradigmático.

Outros recursos expressivos


Exemplos

«Louvai, Peixes, a Deus, […], louvai-O todos uniformemente. Louvai a Deus,


Anáfora
porque vos criou em tanto número. Louvai a Deus, […]». (Capítulo VI)

«[…] deu-lhes dois olhos, que direitamente olhassem para cima, [...], e ou-
tros dois, que direitamente olhassem para baixo, […].» (Capítulo III)
Antítese
«[…] traçou a traição às escuras, mas executou-a muito às claras.»
(Capítulo V)

«Este é, peixes, em comum o natural, […]» (Capítulo III)


Apóstrofe
«Tenho acabado, Irmãos Peixes, os vossos louvores, […].» (Capítulo V)

«No mar pescam as canas, na terra pescam as varas (e tanta sorte de


varas), pescam as ginetas, pescam as bengalas, pescam os bastões, e até
os cetros pescam, […],» (Capítulo III)
Enumeração
«Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes aquele con-
correr às praças, e cruzar as ruas; vedes aquele subir, e descer as calçadas,
aquele entrar, e sair sem quietação nem sossego?» (Capítulo IV)

«[…] num momento passa a virtude do peixezinho, da boca ao anzol, do an-


Gradação zol à linha, da linha à cana, e da cana ao braço do pescador.» (Capítulo III)
«[…] um monstro tão dissimulado, tão fingido, tão astuto, tão enganoso, e
tão conhecidamente traidor?» (Capítulo V)

5
JORGE – Romeiro, romeiro, quem és tu?
ROMEIRO (apontando com o bordão para o retrato
de D. João de Portugal) – Ninguém!

Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, ato II, cena XV

Contextualização histórico-literária
FREI LUÍS Contexto político: o Liberalismo
DE SOUSA
N
a sequência do regresso de D. João VI a Portugal em 1821, vindo do
ALMEIDA GARRETT
Brasil, para onde fugira em 1807 devido à Primeira Invasão Francesa,
o rei absolutista é levado a outorgar a Portugal uma Constituição liberal,
assim terminando o Antigo Regime entre nós. No entanto, o seu filho mais novo,
D. Miguel, em 1823, dirige uma revolta militar que faz regressar o Absolutismo.
Depois da morte de D. João VI, em 1826, o filho mais velho, D. Pedro, de ideologia
liberal, abdica do estatuto de imperador do Brasil e vem para Portugal defrontar o
irmão. Trava-se uma guerra civil entre 1831 e 1834, que termina com a vitória de
D. Pedro e a implantação do Regime Liberal e Constitucional em Portugal. Este
regime vai passar, nos anos seguintes, por várias fases que lançam o país em agita-
ção permanente, até que, em 1842, chega ao poder Costa Cabral e instaura uma di-
tadura que dura até 1846. A este curto período de sossego segue-se mais agitação
no país. Terminará com o advento da Regeneração, em 1851. Durante muitos anos
Portugal iria conhecer a paz e ser governado por dois grandes partidos políticos
que se alternavam no poder – o Rotativismo.

Contexto literário: o Romantismo

Origens Origens políticas


literárias e sociais

O Romantismo conhece uma fase preparatória de- O Liberalismo, que atribuía valor essencial à liberda-
signada por Pré-romantismo, que ocupa basicamente de, desde logo à liberdade individual, contribuiu tam-
a última década do século XVIII e a primeira do seguinte. bém de vários modos para o aparecimento da estética
Esta corrente literária caracteriza-se pela presença da romântica. O herói romântico caracteriza-se essen-
emoção e do individualismo e pela preferência pelas cialmente por um forte idealismo e amor à liberdade
temáticas da morte, da solidão e da infelicidade amo- individual. O Liberalismo contribui ainda para a intro-
rosa. A paisagem é frequentemente apresentada como dução do Romantismo em Portugal, pois jovens inte-
uma projeção de estados de alma pessimistas, concre- lectuais liberais como Almeida Garrett ou Alexandre
tizando assim cenários de solidão ou de horror (locus Herculano foram obrigados a emigrar no contexto das
horrendus). Nomes importantes do Pré-Romantismo lutas liberais e conheceram nos países de acolhimento –
português são Bocage e a Marquesa de Alorna. França e Inglaterra – a nova literatura, que trouxeram
quando regressaram.

6
1825 1851 1865
1800 1900

Primeira Segunda Terceira


geração geração geração
romântica romântica romântica

Almeida Garrett e Alexandre Camilo Castelo Branco e Soares O maior nome desta geração é
Herculano são os dois nomes dos Passos são os expoentes desta Antero de Quental, cujo idealismo
cimeiros desta geração cuja geração, também chamada ultrar- supera o sentimentalismo indivi-
produção literária apresenta romântica, que avança em direção dualista e doentio da geração an-
marcas de um forte individua- ao exagero emocional, a uma repre- terior em direção a uma literatura
lismo, idealismo e busca de sentação exacerbada da morte, à de preocupações sociais, mesmo
um Absoluto no âmbito do apresentação de cenários mórbidos. na poesia, embora de caráter vago
Amor, da Liberdade e da Pátria. e abstrato.

Almeida Garrett: vida e obra

A
lmeida Garrett nasceu no Porto em 1799 e faleceu em Lisboa em 1854.
Estudou em Coimbra, onde se formou em Direito em 1821. Teve uma vida
passional muito agitada, a qual deixou marcas profundas principalmente
na sua poesia lírica. Devido às suas opções políticas em favor do Liberalismo, foi
obrigado a exilar-se várias vezes, tendo conhecido, em França e Inglaterra, as novas
ideias literárias, que trouxe para Portugal juntamente com Alexandre Herculano.
Combateu nas lutas liberais e, mais tarde, ocupou cargos políticos.

Frei Luís de Sousa: a dimensão trágica

D
esde o início da peça que o espetador sabe estar perante um mistério que
D. Madalena implicitamente refere. Esse mistério adensa-se na cena II,
na qual ela dialoga com Telmo, e aí se percebe que tem a ver com o seu
passado. Este passado, tão presente, tão pesado e tão prenunciador de futuro, é a
primeira marca da dimensão trágica que se impõe ao espetador.
Outras marcas contribuem para intensificar o clima de tragédia:

Os pressentimentos A inquietação de Maria A mudança de espaço entre


de D. Madalena de que algo e a sua capacidade de o ato I e o ato II – que tanto A célebre exclamação do
de horrível pode vir a ocorrer entender que na vida dos aflige D. Madalena: o novo Romeiro, no final do ato II –
e a destruí-la, bem como à seus pais há um mistério – espaço torna mais presente «Ninguém!».
sua família. que a poderá atingir… o passado e fá-la aproximar-se
de D. João de Portugal.

O incêndio do próprio A chegada do Romeiro, A morte de Maria,


As crenças de Telmo em palácio por Manuel de Sousa as notícias que traz, o grito no final do ato III.
agouros e, principalmente, Coutinho, no qual arde de D. Madalena – quando
no possível regresso de o seu retrato – prenúncio se confirmam os seus piores
D. João de Portugal. da própria destruição. receios e vê ocorrer a sua
destruição e a da sua família.

7
O Sebastianismo: história e ficção

N
a sequência da batalha de Alcácer Quibir
(1578), na qual desapareceu D. Sebastião,
desenvolveu-se em Portugal a crença de que
o rei regressaria, não tendo morrido na batalha. Deste
modo se mantinha a esperança na recuperação da in-
dependência – perdida para Espanha em 1580. Estes
factos históricos foram aproveitados ficcionalmente
FREI LUÍS por Garrett em Frei Luís de Sousa: Maria e Telmo são
DE SOUSA sebastianistas, o que contribui para adensar o clima de
ALMEIDA GARRETT tragédia – se D. Sebastião, que ninguém disse ter visto
morto na batalha, poderia regressar, o mesmo poderia
acontecer, por motivo idêntico, a D. João de Portugal.

Recorte das personagens principais


D. Madalena de Vilhena Maria de Noronha
É a figura trágica por É uma figura típica de
excelência. Não só por mulher-anjo romântica,
ser a causadora invo- com a sua fragilidade
luntária da tragédia, ao acentuada pela tubercu-
apaixonar-se por Ma- lose. Caracterizada por
nuel de Sousa Coutinho na constância um forte idealismo de cariz patriótico,
do casamento com D. João de Portugal, no qual se encaixa a crença sebastianis-
como, principalmente, por não ter, como ta, revela capacidades de intuição de um
confessa na cena I do ato I, desde que mistério que envolve a família, e que virá
casou, um momento de paz – já que vive a descobrir, sendo arrastada na destrui-
debaixo da incerteza sobre a morte do ção dos pais. Assume, nas cenas finais,
primeiro marido. Refém de agouros, está a revolta contra a profunda injustiça da
marcada pela fatalidade – que chegará sua situação.
no final da peça, revoltando-se, romanti-
camente, contra o seu destino.
Manuel de Sousa Coutinho Telmo Pais D. João de Portugal
É o marido que des- É uma figura central, Na conversa que Frei
conhece em absoluto desde a cena II do ato I, Jorge tem com seu ir-
a alma de sua mulher. no adensar do clima de mão Manuel de Sousa
Adverte D. Madalena tragédia, uma vez que, Coutinho, na cena I do
relativamente às suas dada a forte ligação que ato III, fica bem exposta a
crenças, sem perceber tinha com D. João de Portugal, seu amo, desgraça deste homem – que tudo per-
verdadeiramente as lutas que a dilace- acredita no seu regresso – o que pertur- deu: a liberdade, durante muitos anos,
ram internamente. Patriota, incendeia ba enormemente D. Madalena. Contudo, e a mulher que amava. Ele próprio di-
o seu palácio para não servir o rei es- chegado D. João, Telmo revela ter en- ria a D. Madalena que não tinha família.
trangeiro. Revoltado, ergue-se, no início contrado em Maria um novo afeto, tão Apesar de ter regressado para confron-
do ato III, contra o seu destino trágico e forte, que bem gostaria que o seu antigo tar D. Madalena com o seu casamen-
o da sua família. Racional, repreende amo não tivesse regressado. to, arrepende-se de o ter feito quando
D. Madalena, quando esta tenta ainda sabe por Telmo de todos os esforços
salvar o casamento, e aceita estoica- empreendidos por ela para o encontrar.
mente o seu destino.

8
A dimensão patriótica
e a sua expressão simbólica

E
m Frei Luís de Sousa, a ideia de patriotismo está concretizada no final do
ato I quando Manuel de Sousa Coutinho lança fogo ao seu palácio para
não albergar quem governava Portugal ao serviço de Espanha. Patriotas
são também Maria e Telmo: a primeira, no melhor do seu idealismo, clama pela
necessidade de haver justiça na sociedade, de o povo ser bem governado, de haver
liberdade; o segundo encanta-se com a tomada de posição patriótica de Manuel de
Sousa Coutinho – que passa a apreciar muito mais depois da sua ação espetacular.
Frei Luís de Sousa foi publicado em 1844 –, mas imediatamente proibido de ser
representado. O poder político, a ditadura cabralista, entendeu haver na obra uma
intenção crítica a uma ditadura que não permitia as liberdades conquistadas pelo
primeiro Liberalismo. E Garrett, de facto, era um opositor a Costa Cabral.

Linguagem, estilo e estrutura

A estrutura da obra
Frei Luís de Sousa divide-se em 3 atos, tendo o primeiro 12 cenas, o segundo
15 e o terceiro 12.
Pode dividir-se a peça em 3 grandes secções:

Ato I, cenas I a IV – Nestas cenas são facultadas as informações


essenciais relativas a D. Madalena, a Telmo, a Maria e a Manuel de
Sousa Coutinho; mas o ausente D. João de Portugal começa aqui
EXPOSIÇÃO
também a surgir.
Ato I, cenas V a XII – Os governadores em nome do rei espanhol de-
cidem instalar-se no palácio de Manuel de Sousa Coutinho, de modo a
afrontá-lo. Este toma a decisão de não suportar a afronta e incendeia o
seu palácio.

CONFLITO Ato II, cenas I a XV – D. Madalena reage muito mal ao incêndio e à mu-
dança para a nova residência. Maria sente mais fortemente um mistério
que envolve os pais, sentimento exacerbado pelo retrato de D. João de
Portugal. Tendo D. Madalena ficado sozinha com Frei Jorge, pois o ma-
rido teve de ir a Lisboa, chega um Romeiro, numa sexta-feira, dia que
D. Madalena confessa lhe ser aziago. O Romeiro revela que D. João de
Portugal vive ainda – em cativeiro.

DESENLACE Ato III, cenas I a IX – Manuel de Sousa Coutinho e D. Madalena deci-


dem professar a vida religiosa. O estado de saúde de Maria agrava-se.
Tomada de hábito do casal. O Romeiro, tendo sabido por Telmo que D. Madalena o procurou muito
tempo antes de casar pela segunda vez, tenta remediar o mal que fez,
Morte de Maria em cena. com a ajuda de Telmo, mas Frei Jorge não permite.

Características gerais do drama romântico


É escrito em prosa. Tem um número elevado de perso- Celebra o individualismo e o senti-
Tem três atos. nagensdeclassessociaisdiferentes. mento.
Versa um assunto nacional. Possui caráter historicista. Apresenta o herói romântico como
Apresenta marcas de realismo um ser excessivo, em rutura com a
Não apresenta unidades de tempo,
(linguagem, «cor local»). sociedade.
espaço e ação.
9
E protesto que de quanto vir e ouvir, de quanto
eu pensar e sentir se há de fazer crónica.

Almeida Garrett, Viagens na minha terra, capítulo I

Deambulação geográfica e sentimento


VIAGENS nacional
NA MINHA
O
s escritores românticos davam muita importância a tudo o que era nacional,
TERRA e Almeida Garrett não fugiu a essa regra em Viagens na minha terra. Logo
ALMEIDA GARRETT na informação que precede o capítulo I, o autor diz que resolveu viajar
«na sua terra». Além disso, no mesmo capítulo, ao traçar o seu projeto de escrita,
protesta ainda que «de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se há de
fazer crónica» durante esta viagem de Lisboa a Santarém. Tudo está preparado,
pois, para que à deambulação geográfica se una o sentimento nacional.

Seguem três exemplos essenciais:

1.
o povo português – no famoso episódio conhecido por «Campinos e
ílhavos», com que termina o capítulo I, Garrett traz para a literatura o
povo através de dois grupos de homens, comprazendo-se na descrição
das suas atitudes, do seu vestuário, da sua linguagem, tudo com extrema atenção
ao pormenor e à cor local;

2.
a paisagem portuguesa – no capítulo VIII, Garrett canta romantica-
mente a charneca: «Bela e vasta planície!». É com entusiasmo – român-
tico – que o autor e narrador louva as características da paisagem da
sua terra, Portugal, através de nomes como «doçura» ou «amenidade»
– este último a evocar o clássico locus amoenus;

3.
a História de Portugal – no mesmo capítulo, Garret revela, nas refle-
xões que o diálogo com um acompanhante proporcionam, o seu amor
entristecido e melancólico, mas nem por isso menos forte, a um Portugal
há pouco saído de uma guerra civil com consequências nefastas para os vencidos e
os vencedores: «Toda a guerra civil é triste. E é difícil dizer para quem mais triste, se
para o vencedor ou para o vencido.».

A obra termina com a confissão – romântica – de que de todas as terras que visi-
tou nenhuma o encantou tanto como a terra portuguesa… (capítulo XLIX)

10
A representação da Natureza

A
Natureza é representada como espaço no qual o Homem pode encontrar
salvação para a sua condição de sujeito submetido às duras leis da vida.
Assim, dois cenários fundamentais são representados como podendo,
pela beleza da sua paisagem, despertar sentimentos que elevam o homem da sua
condição terrena a momentos espirituais.

A charneca Sensações visuais e olfati- Espaço cuja beleza deri-


vas conduzem o observa- O vale va da «simetria de cores,
ribatejana
dor a um estado de alma de santarém de sons, de disposição em
(capítulo VIII)
elevado, confessando: «Eu
(capítulo X) tudo quanto se vê e sente»
amo a charneca.». conduz à paz do «coração».

Dimensão reflexiva e crítica

U
ma vez mais é fundamental relembrar o projeto inicial de Viagens na mi-
nha terra: porque o narrador pretende «fazer crónica» de tudo o que «vir
e ouvir», «pensar e sentir», as suas reflexões terão sempre como pano
de fundo o amor a Portugal, o interesse pela sua terra, no sentido de interpretar
criticamente Portugal.

Apresentam-se alguns exemplos: Além destes exemplos, ocorrem outros:


a reflexão crítica sobre a guerra civil e o estado de monumentos nacionais
as lutas liberais (capítulo VIII); em ruínas;
as opiniões críticas expressas sobre o confronto entre o espiritualismo e o
as mudanças nos uniformes militares materialismo;
(capítulo X);
os estereótipos da literatura romântica.
as críticas mordazes a frades e a ba-
rões, os primeiros representando o
Antigo Regime, os segundos a burgue-
sia liberal (capítulo XLIX).

Personagens românticas
Narrador Carlos Joaninha
É uma personagem É uma personagem ro- É o tipo acabado de
romântica na medida mântica na medida em mulher-anjo romântica, de
em que assume um tom que se deixa arrastar pe- beleza serena, fruto so-
confessional – desde o los sentimentos e revela mente da Natureza, infeliz
capítulo I, quando apresenta o seu pro- instabilidade – que se con- no amor, vítima da paixão
jeto de escrita. Além disso, contribui cretiza nos vários amores e na impos- que, de desilusão em desilusão – sen-
ainda para essa classificação o facto sibilidade, por isso, de amar Joaninha. do a maior Carlos –, a leva à morte.
de ele fazer comentários constantes É romântico ainda na medida em que
a propósito de tudo, assumindo a obra acredita nos seus ideais e luta por eles –
um forte caráter subjetivo. para depois os trair – suicidando-se
moralmente.

11
Linguagem, estilo e estrutura

Estrutura da obra: viagem e novela

V
iagens na minha terra é uma obra com 49 capítulos. A maior parte dos
capítulos são crónicas de viagem com as quais alternam outros que nar-
ram a novela sentimental protagonizada por Carlos e Joaninha.
Nos capítulos relativos à viagem propriamente dita, o narrador aborda uma
grande variedade de temas, desviando-se de um assunto para outro, dirigindo-se
diretamente ao leitor, meditando no presente e no passado… Nos capítulos rela-
tivos à novela sentimental, o narrador ouve contar uma história, que, por sua vez,
conta ao leitor, cuja ação se passa durante as lutas liberais no vale de Santarém
e cujo desfecho conduz os dois protagonistas à morte – moral de Carlos, física de
Joaninha.
Crónica e novela enlaçam-se pois continuamente nesta obra literária.

Coloquialidade e digressão

N
um estilo fluido, em que frequentemente se dirige ao leitor ou à leitora,
o narrador de Viagens na minha terra, tendo sempre no horizonte o seu
projeto de escrita inicialmente definido – de tudo «fazer crónica» –, re-
corda, comenta, reflete, desvia-se de um assunto para entrar noutro, pede des-
culpa por o fazer – tudo numa espécie de diálogo franco com quem o lê. Os temas
podem abordar as tradições portuguesas, a literatura, nomeadamente a romântica,
o estatuto do escritor romântico, costumes populares, descrições muito subjeti-
vas e entusiasmadas da paisagem, sem esquecer a história de amor entre Carlos
e Joaninha.
Nesta forma de escrever e de se relacionar com o leitor reside um dos grandes
encantos da obra e a sua modernidade essencial.

Dimensão irónica

O
escritor romântico frequentemente reflete sobre o seu processo de escri-
ta de modo irónico. Esta ironia concretiza-se numa autocrítica leve.
Por exemplo, logo no início de Viagens na minha terra, o autor confes-
sa ter resolvido «imortalizar-se escrevendo estas suas viagens.». Exemplo típico
de ironia romântica, esta frase assume uma evidente distanciação crítica – logo,
irónica – do autor em relação à sua obra. Esta dimensão irónica é retomada pouco
depois quando o autor apresenta o «assunto» do seu livro: este não é uma simples
viagem à volta de um quarto, como noutra obra célebre na Europa de então, mas
nem mais nem menos uma viagem de Lisboa a Santarém – «assunto mais largo».
Esta expressão está eivada de ironia, pois afinal a viagem não era assim tão longa…
E Garrett sabia que nunca o seu livro poderia competir com Viagem à volta do
meu quarto, de Xavier de Maistre…

12
Linguagem, estilo e estrutura

Recursos expressivos

«– Verdes os olhos… dela, do vulto da janela?


– Verdes como duas esmeraldas orientais, […]» (Capítulo X)
Comparação «[…] sou como aqueles pintores da Idade Média que entrelaçavam nos seus
painéis dísticos de sentenças, fitas lavradas de moralidades e conceitos…»
(Capítulo XX)

«[…] do outro a frescura das hortas e a sombra das árvores, palácios, mosteiros,
sítios consagrados […]» (Capítulo I)
Enumeração
«A faia, o freixo, o álamo, entrelaçam os ramos amigos; a madressilva,
a musqueta penduram de um a outro suas grinaldas e festões; a congossa, os
fetos, a malva-rosa do valado vestem e alcatifam o chão.» (Capítulo X)

«– Pois nós que brigamos com o mar, oito e dez dias a fio numa tormenta,
Interrogação de Aveiro a Lisboa, e estes que brigam uma tarde com um toiro, qual é que
retórica tem mais força?» (Capítulo I)

«[…] essa escuma descorada […]» (Capítulo I)


«[…] a congossa, os fetos, a malva-rosa do valado vestem e alcatifam o chão.»
(Capítulo X)

Metáfora «{…} Ali dormiam as paixões.


Que se levante a mais ligeira brisa, basta o seu macio bafejo para encrespar
a superfície espelhada do mar.» (Capítulo XII)
«Mas quando pinto, quando vou riscando e colorindo as minhas figuras, […]»
(Capítulo XX)

Metonímia «[…] e o Vouga triunfou do Tejo.» (Capítulo I)

«[…] é um barco sério e sisudo […]» (Capítulo I)


Personificação
«A faia, o freixo, o álamo entrelaçam os ramos amigos; […]» (Capítulo X)

Sinédoque «[…] o trato das armas, […]» (Capítulo XX)

13
Amou, perdeu-se, e morreu amando.

Camilo Castelo Branco, Amor de perdição, «Introdução»

Sugestão biográfica (Simão e narrador)


AMOR DE e construção do herói romântico
PERDIÇÃO
CAMILO CASTELO Simão e narrador
BRANCO

O
narrador de Amor de perdição apresenta uma íntima ligação a Simão,
o herói da obra, desde logo porque são familiares, mas ainda porque am-
bos sofreram a prisão no mesmo espaço – e ambos devido ao amor. Há,
portanto, uma sugestão [auto]biográfica na construção da personagem Simão.
Camilo escreve na «Introdução» do romance que ao folhear «antigos assenta-
mentos» na cadeia da Relação do Porto – onde estava preso, acusado do crime
de adultério com uma senhora casada, presa também, Ana Plácido – encontrou
registada uma informação relativa à prisão de Simão António Botelho, jovem «de
dezoito anos», e à posterior ida degredado para a Índia. Estava preso por ter amado
e o seu amor não ter sido possível devido a convenções sociais – concretizadas em
«ódio». Também Camilo e a mulher que amava estavam presos porque a socieda-
de e as suas leis não admitiam o seu amor.
O grito de indignação que Camilo lança, apelando à sensibilidade das suas leito-
ras, contra a ignomínia de que foi alvo Simão, mais não é do que o grito de indigna-
ção pela situação em que ele próprio se encontra.
Por outro lado, é uma constante em Amor de perdição a contínua intervenção
do narrador apoiando os comportamentos de Simão ou criticando – tantas vezes
sarcasticamente – quem se lhes opõe.

Construção do herói romântico

O herói romântico é Simão Botelho. É um herói construído através dos se-


guintes passos:

num primeiro momento, assume-se como irresponsável e arruaceiro,


dominado romanticamente por forças obscuras;

sobrevém a paixão inocente por uma jovem sua vizinha, Teresa, paixão
correspondida que tem de esconder, pois os seus pais e os de Teresa
são inimigos figadais – inicia-se assim o aparecimento do herói român-
tico, indivíduo vítima de uma sociedade que impede a sua felicidade;

14
a paixão por Teresa provoca uma evidente transformação no herói romântico
(apaixonado, torna-se responsável, abandonando a vida desregrada anterior,
isola-se, procurando na solidão da Natureza consolo para os seus males);

contudo, não perde a natureza violenta que o caracteriza – natureza carac-


teristicamente romântica e que o leva à revolta quando entende que o seu
amor por Teresa não será possível. Esta revolta assumirá o seu momento mais
alto quando assassina um primo de Teresa que com ela queria casar. O herói
romântico liga-se assim à morte, caminhando inexoravelmente para o seu fim;

preso, sabe que Teresa também está em reclusão num convento, muito doen-
te e com a morte perto – a construção do herói romântico chega ao momento
em que ele arrasta os que ama para a perdição (a ligação do herói romântico
à morte é cada vez mais forte);

acaba por morrer ao sair para o degredo, arrastando com ele na morte uma
mulher que o amava e que por ele se suicida – Mariana.

SIMÃO: inocência amor solidão individualismo


oposição das convenções sociais ao amor impossibilidade
do amor revolta morte (do herói e dos que o amam)

Herói romântico

A obra como crónica da mudança social

A
mor de perdição constitui uma espécie de metáfora de intenção crítica
apontada à sociedade do tempo de Camilo Castelo Branco. Esta socieda-
de burguesa – ou proclamando esse estatuto apesar de arruinada – rege-
-se por convenções sociais das quais avultam a da antiguidade da família, os seus
antepassados ilustres, a lembrança de antigos agravos feitos por outros e que têm
de ser vingados… Tudo isto se pode revelar mais importante do que a afirmação
individual de quem procura a felicidade no amor. A sociedade não hesita em pisar
quem procura seguir esse caminho. Foi o que aconteceu com Simão e com Teresa.
Eles distinguem-se nessa sociedade pela sua individualidade, pela sua vontade em
permanecerem fiéis a si mesmos, pela recusa das convenções: nesse sentido, o ro-
mance demonstra que a felicidade se pode conquistar lutando para que a sociedade
mude – atendendo ao indivíduo e às suas mais íntimas aspirações de felicidade.
É neste sentido que a obra é moderna.

O amor-paixão

O
amor-paixão, o amor marca do indivíduo romântico, o amor cujos laços
não podem ser destruídos por ninguém, especialmente pela sociedade
e suas convenções, é o que une Simão e Teresa, o par que protagoniza o
amor e a perdição – a morte. Contudo, outra personagem se caracteriza por um
amor desse tipo, que a conduzirá também à morte – Mariana. Esta é dominada Simão
por um amor impossível por um homem que ela sabe amar outra mulher, por um
homem que ela ajuda a amar essa outra mulher, por um homem que ela sabe ser
de uma classe social muito superior à sua.
Em ambos os casos não há meio-termo: ou a vida com amor ou a morte. Teresa Mariana

15
Relações entre personagens

O amor entre ambos é recíproco e surgiu numa tro-


ca de olhares, estando ambos nas janelas das res-
SIMÃO
petivas casas, que se confrontavam.
e Namoraram como puderam, conscientes dos perigos.
Uma vez descobertos, será principalmente através
TERESA
de cartas de amor, esperança, ilusão, desilusão e
AMOR DE sofrimento que ambos acabarão no caminho da re-
PERDIÇÃO signação – e da morte.
CAMILO CASTELO
BRANCO

Caso único de devoção amorosa, Mariana ama Simão


consciente da impossibilidade de receber o mesmo MARIANA
sentimento – impossível dada a diferença de classes
sociais, mas principalmente porque Mariana sabe da e
força do amor de Simão por Teresa.
SIMÃO
Mariana segue Simão na desgraça, amparando-o, e,
quando ele morre, ela morre também.

SIMÃO D. Rita Preciosa, a mãe, preocupa-se frequentemente com os problemas do filho


e ajuda-o, se necessário às escondidas do pai, que com ele tem uma má relação.
e
O pai de Simão, por odiar o pai de Teresa, mostra-se insensível relativamente às
SEUS PAIS desgraças do filho e impede a sua felicidade.

SIMÃO
Rita é a irmã preferida de Simão, sua confidente,
e
a quem ele conta os seus amores. Retribui ao irmão
a amizade especial que dele recebe. SUA IRMÃ RITA

TERESA
É péssima a relação entre Teresa e seu pai, Tadeu de Albuquerque. Este, odiando
o pai de Simão, opõe-se ao relacionamento da filha com o amado. Além disso,
e
decide casá-la com um primo, Baltasar. É o grande responsável pela desgraça
SEU PAI da filha.

TERESA
Embora muito jovem, Teresa soube resistir à pro-
posta de casamento com o primo, que despreza por e
pretender casar com ela sem que ela o ame. É-lhe
inconcebível um casamento nestas circunstâncias. SEU PRIMO
BALTASAR

16
Linguagem, estilo e estrutura

O narrador

N
o narrador de Amor de perdição encontra-se o autor Camilo Castelo
Branco. É um narrador omnisciente que se mostra ao longo do romance
profundamente implicado na história que narra, fazendo muitos comen-
tários em relação a sucessos ou a personagens. São comentários de compreensão
para com os amantes que conhecem o seu primeiro amor, comentários indignados
relativos a quem tudo faz para impedir esse amor, comentários tantas vezes marca-
dos pelo sarcasmo relativamente a quem é um obstáculo à realização amorosa de
Simão e Teresa. Nestes comentários e nestas tomadas de posição vê-se um narra-
dor que se envolve na história, que vive e conta uma história de paixão – com paixão.
Além disso, tudo faz para envolver o leitor nos acontecimentos, pois se lhe dirige
frequentemente, influenciando-o por diversos meios quer a aderir ao par amoroso
perseguido quer a rejeitar os perseguidores.

A concentração temporal da ação

A
mor de perdição é um romance estruturado em uma «Introdução»,
20 capítulos e uma «Conclusão». A ação decorre num período que vai de
1779, ano em que os pais de Simão se casam, e 1807, ano em que mor-
rem, no mesmo mês (março), Simão, Teresa e Mariana. A ação concentra-se entre
1801, o ano em que Simão e Teresa se apaixonam, e 1807. A ação decorre, a partir
de 1801, linearmente, sucedendo-se os acontecimentos cronologicamente até ao
desenlace final. A exceção é o capítulo I, no qual ocorre um curto recuo no tempo
para o leitor conhecer aspetos biográficos dos pais de Simão.

Os diálogos

O
s diálogos são uma constante em Amor de perdição. Exemplos como os
seguintes, retirados respetivamente do capítulo IV e do capítulo VI, reve-
lam a capacidade de Camilo de construir diálogos concisos, sem divaga-
ções, numa linguagem simples e adequada às situações, com frases curtas, que
contribuem para a rapidez da ação. Os diálogos deste romance adequam-se ainda
às personagens que falam, sejam pessoas da alta sociedade , como Teresa e
seu pai, sejam populares , como João da Cruz.

«– É vossa senhoria, fidalgo? – bradou o ferrador. «Teresa não desfitou os olhos do pai; mas tão
– Sou. abstraída estava, que escassamente lhe ouviu as
– Não o mataram? primeiras palavras, e nada das últimas.
– Creio que não – respondeu Simão. – Não me respondes, Teresa?! – tornou Tadeu,
– Este desalmado deixou fugir o melro – tornou tomando-lhe cariciosamente as mãos.
João da Cruz – mas o meu lá está a pernear na vinha. – Que hei de eu responder-lhe, meu pai? – bal-
Sempre lhe quero ver as trombas… buciou ela.
O ferrador desceu os três socalcos da vinha, e – Dás-me o que te peço? Enches de contenta-
curvou-se sobre o cadáver, dizendo: mento os poucos dias que me restam?
– Alma de cântaro, se eu tivesse duas clavinas não – E será o pai feliz com o meu sacrifício?
ias sozinho para o Inferno.» – Não digas sacrifício, Teresa…»
Capítulo VI Capítulo IV

17
A abóbada não caiu… a abóbada não cairá!

Alexandre Herculano, «A abóbada», in Lendas e narrativas, capítulo V

Imaginação histórica e sentimento


«A nacional
ABÓBADA»
T
rata-se de uma narrativa histórica, género que Alexandre Herculano intro-
duziu em Portugal, que tem como pano de fundo a construção do mosteiro
ALEXANDRE HERCULANO
da Batalha, nos finais do século XIV, para celebrar a vitória portuguesa na
batalha de Aljubarrota.
Partindo desse facto histórico, a novela faz uma reconstituição do passado, orien-
tada sobretudo pela imaginação do escritor.

1. 2.
Alguns elementos dessa reconstituição são Esta reconstituição pretende criar um senti-
os seguintes: mento nacional baseado nas condutas exem-
assunto nacional, fundado na História de plares de heróis do passado, como os seguintes:
Portugal; Mestre de Aviz ou D. João I – a exaltação das qualidades
guerreiras dos portugueses na batalha de Aljubarrota;
personagens da História de Portugal, como
Afonso Domingues versus Mestre Ouguet – a valori-
D. João I, João das Regras ou Brites de Almei-
zação das qualidades dos portugueses em detrimento
da, a padeira de Aljubarrota;
das dos estrangeiros;
o sentimento anticastelhano; Brites de Almeida (padeira de Aljubarrota) – valoriza-
a religiosidade popular, através da represen- ção da independência;
tação de um auto alegórico. Frei Lourenço Lampreia – a presença do cristianismo.
Relações entre personagens
Afonso Domingues mostra um pro- Apesar do ressentimento por ter
fundo ressentimento por ter sido subs- AFONSO sido afastado das obras do «seu livro
AFONSO
tituído por Mestre Ouguet na direção DOMINGUES de pedra», Afonso Domingues devo-
DOMINGUES
das obras do mosteiro, atribuindo essa ta ao rei a admiração e a lealdade
e substituição a influências e ao facto de e de um homem livre. Sente-se «de-
estar cego. Mestre Ouguet desdenha sagravado» na sua honra ao ser-lhe
MESTRE também das capacidades de arquiteto D. JOÃO I devolvida a responsabilidade pelo fe-
OUGUET de Afonso Domingues e dos portugue- cho da abóbada da Casa do Capítulo,
ses em geral, que considera ignorantes que entretanto tinha desabado.
e incultos.
João das Regras, homem de letras, D. João I não aprecia a arrogância
JOÃO
mantém com D. Nuno Álvares, de Mestre Ouguet e repreende- D. JOÃO I
DAS REGRAS
o Condestável, alguma rivalidade -o por ter mudado os planos da
por este não ser um homem letra- e construção da abóbada sem ter e
do. Já o Condestável era, segundo consultado Afonso Domingues,
o narrador, um homem mais de O CONDESTÁVEL que considera o maior arquiteto MESTRE
obras do que de palavras. português. OUGUET
18
Características do herói romântico

M
estre Afonso Domingues representa em «A abóbada» a figura do velho
português ferido na honra por ter sido desapossado do encargo de cons-
truir a abóbada da Casa do Capítulo do mosteiro de Aljubarrota.
É um homem cego e amargurado que se revolta contra esse facto, mas que acei-
ta voltar à direção das obras ao ser desagravado pelo rei. Mostrou a sua têmpera de
homem inabalável nas suas convicções quando jurou sentar-se durante três dias
e três noites em jejum debaixo da abóbada que reerguera. Não resistiu à provação,
mas antes de morrer pôde afirmar: «A abóbada não caiu… a abóbada não cairá!».

Linguagem, estilo e estrutura


Alexandre Herculano utiliza em geral frases longas e solenes tanto no discurso
indireto como no direto. As intervenções das personagens são, em geral, feitas de
forma enfática, quase declamatória, com um vocabulário por vezes arcaizante.

Estrutura

INTRODUÇÃO DESENVOLVIMENTO CONCLUSÃO

O cego (Capítulo I) Mestre Ouguet / O auto / Um rei O voto fatal (Capítulo V)


1. Apresentação das persona- cavaleiro (Capítulos II a IV) 1. A abóbada é reerguida.
gens e da situação inicial – 1. A chegada do rei. 2. Morte de Afonso Domingues.
Afonso Domingues fora afas- 2. Diálogo do rei com Mestre Ouguet.
tado da direção das obras do 3. A representação do auto.
mosteiro da Batalha. 4. A queda da abóbada.
5. Afonso Domingues aceita o encargo
de reerguer a abóbada.
Recursos expressivos

Comparação Enumeração Metáfora Personificação

«De repente toda aquela mul- «[…] a madressilva, a rosa «[…] aquela página do imen- «[…] a idolatria começou
tidão se agitou, remoinhou agreste, o rosmaninho e so livro de pedra a que os seu arrazoado contra a Fé,
pela igreja e principiou a bor- toda a casta de boninas te- espíritos vulgares chamam queixando-se de que ela a
bulhar pelo portal fora, como ciam um tapete odorífero e simplesmente o Mosteiro pretendia esbulhar da antiga
por bico de funil o líquido dei- imenso, […]» (Capítulo V) da Batalha» (Capítulo I) posse em que estava de re-
tado por alto.» (Capítulo II) ceber cultos de todo o género
humano, […]» (Capítulo III)
Discurso direto e indireto
«Pediu-me que o mandasse chamar apenas fosseis chegado.» (Capítulo V)

«– […] e deste a teu tio Martim Vasques o meu recado?


Senhor, sim! Envia-vos ele a dizer que tudo está prestes.» (Capítulo V)

19
A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa,
no outono de 1875, era conhecida na vizinhança
da Rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro
das Janelas Verdes, pela Casa do Ramalhete,
ou simplesmente o Ramalhete.

Eça de Queirós, Os Maias, capítulo I

Contextualização histórico-literária
OS MAIAS
EÇA DE QUEIRÓS Geração de 70

G
eração à qual pertence Eça de Queirós (1845-1900) e outros intelectuais
portugueses que procuraram aproximar Portugal dos países europeus
mais desenvolvidos, defendendo a modernização do país tanto na literatu-
ra como na política e nas questões sociais.

Questão coimbrã

P
olémica que, em 1864 e 1865, envolveu intelectuais portugueses defen-
sores da estética romântica e outros que defendiam uma nova forma de
literatura, o Realismo. Contudo, mais do que uma polémica estritamente
literária, o que estava em causa era a discussão entre formas tradicionais de cultu-
ra, de vida social, de política, e novas formas que aproximassem Portugal da Europa
evoluída. Eça de Queirós participou na polémica tomando partido pelas novas ideias.

Conferências do Casino

C
onjunto de conferências realizadas em Lisboa em 1871, nas quais elemen-
tos da Geração de 70 apresentaram uma série de propostas para fazer
avançar Portugal em direção à Europa mais desenvolvida. Uma das confe-
rências foi proferida por Eça Queirós em defesa do Realismo.

Realismo

E
stética literária que, tendo surgido na Europa em meados do século XIX, se
opõe ao Romantismo – que dava atenção especial ao indivíduo, aos senti-
mentos e ao passado –, e centra o seu interesse no presente e em temas
sociais como a educação, a política, a vida familiar, o adultério, as finanças, etc.,
com a finalidade de denunciar aspetos da vida social que precisavam de ser re-
solvidos. O romance realista mostrou-se muito apto para tratar estes temas ao
combinar narração e descrição.

Naturalismo

E
stética literária que radica no Realismo. Pratica uma análise da sociedade
mais fria e objetiva do que a levada a cabo pelo Realismo, mas sempre
com o mesmo intuito didático.

20
A representação de espaços sociais
e a crítica de costumes

C
omo obra que se integra na estética realista, Os Maias concretizam uma
análise da sociedade lisboeta de orientação descritiva e crítica. A crítica de
costumes liga-se intimamente a episódios nos quais participam persona-
gens que, ou pelos seus comportamentos ou pelas suas palavras, a possibilitam.
Apresentam-se alguns exemplos:

O jantar na Quinta de Santa Olávia, O jantar do Hotel Central, em Lisboa, A redação do jornal A Tarde, em Lis-
no Douro, no capítulo III, é motivo para no capítulo VI, é motivo para a análise boa, no capítulo XV, comprova o mau
a crítica ao modo como eram educa- crítica de uma série de aspetos da vida jornalismo praticado em Portugal, tan-
das as elites portuguesas: exagerada portuguesa: a permanência do gosto tas vezes ao serviço de quem o pode
proteção materna e feminina, valoriza- literário ultrarromântico, já abandona- pagar; mostra ainda um círculo de pes-
ção da memorização e não da reflexão, do pela Europa mais avançada; a má soas com responsabilidades políticas,
ausência de exercício físico, importân- educação de elementos da elite por- frequentadoras da redação do jornal,
cia da educação religiosa. tuguesa; o mau estado das finanças que se caracterizam pela ignorância e
nacionais, a má organização do exér- pelo conservadorismo.
cito; a imitação de gostos estrangeiros
O sarau do Teatro da Trindade, em desvalorizando-se o que é nosso.
Lisboa, no capítulo XVI, revela como o O jantar em casa dos Gouvarinhos,
combate às desigualdades sociais pas- em Lisboa, no capítulo XII, revela criti-
sava pela caridade cristã; demonstra, As corridas do hipódromo, em Lis- camente a impreparação dos governan-
a má educação das elites; reafirma o boa, no capítulo X, são motivo para pôr tes, a ignorância de altos funcionários e
valor da literatura romântica mais sen- em causa a imitação acrítica de mode- a má preparação dos diplomatas.
timentalista num país que continuava los estrangeiros e a má educação dos
atrasado em relação às novas tendên- portugueses.
cias literárias da Europa culta.

Espaços e seu valor simbólico e emotivo


O Ramalhete acompanhou os seus habitantes na A Toca
morte – seja ela física (a de Afonso) ou É talvez o espaço mais simbólico e pre-
Quando Carlos, no final do romance, moral (a de Carlos): desabitado, escuro, monitoriamente trágico em Os Maias. É
visita com Ega o Ramalhete, depois de fechado. o espaço da união amorosa de Carlos e
algum tempo fora do país, confessa ao de Maria Eduarda. É o espaço marcado
amigo: «– É curioso! Só vivi dois anos por terríveis agouros ligados ao incesto
nesta casa, e é nela que me parece es- inconsciente. Na alcova das intimidades,
tar metida a minha vida inteira!» a decoração simbólica não deixa dúvi-
O Ramalhete é o palacete lisboeta re- das: o «painel» com a «cabeça degola-
novado para que nele se instalem Car- da» de S. João Baptista ou a «enorme
los, terminados os seus estudos, e o avô coruja empalhada» que observa o lei-
Afonso. É o espaço central da história to do amor com olhos sinistros – tudo
de Os Maias. Durante pouco mais de um aponta, num simbolismo trágico, para a
ano, ali viverão avô e neto, num espaço A Quinta de Santa Olávia destruição final dos amantes.
que, de agradável, de preparado para É o espaço que simboliza a felicidade
a felicidade, se vai simbolicamente fe- e a inocência de Carlos; a paz e a espe-
chando, escurecendo, para nele ocorrer rança de Afonso. É um espaço rústico,
a tragédia da morte de Afonso, quando no qual Afonso vive com emoção a edu-
se apercebe de que o neto falhou a vida. cação do neto e orgulhoso do resultado
Estas palavras emotivas de Carlos tra- dessa educação que valoriza o contacto
duzem bem o simbolismo de um espa- com a Natureza.
ço que, marcado pela esperança inicial,

21
A descrição do real e o papel
das sensações

E
sensações
m Os Maias, o real é frequentemente traduzido ou apresentado a partir de
sensações de vário tipo. Seguem alguns exemplos:
«Uma frescura de campos entrava pelas janelas abertas;»
(Capítulo VI)
táteis
«[…] e entreviam-se árvores de quintal, um verde de terrenos
OS MAIAS sensações vagos, depois lá em baixo o branco de casarias rebrilhando ao
EÇA DE QUEIRÓS visuais sol;» (Capítulo VI)
«[…] interessara-se por aqueles cabelos cor de brasa […]»
(Capítulo VI)
sensações «Carlos contou a soirée. Havia dez pessoas, espalhadas pelas
auditivas duas salas, num zunzum dormente […]» (Capítulo VI)
«A rolha estalou […]» (Capítulo VI)

sensações «O sabor dos seus beijos passou-lhe de novo nos lábios, […]»
gustativas (Capítulo IX)

sensações «A sala […], enchera-se de um calor pesado, onde se ia


olfativas espalhando agora o aroma forte das chartreuses e dos licores
e visuais por entre a névoa alvadia do fumo.» (Capítulo VI)

Representações do sentimento e da paixão:


diversificação da intriga amorosa
Pedro da Maia Carlos da Maia Ega
Caracteriza-se pela Caracteriza-se, tal como Caracteriza-se somente
expressão de sentimen- o pai, pela expressão de por amores inconsequen-
tos amorosos roman- sentimentos amorosos tes que, ligados ao adul-
ticamente intensos, a muito fortes a que não tério com Raquel Cohen,
nada dando valor senão consegue resistir: sabendo que Maria o exporão à irrisão e cha-
à força desses sentimentos que cega- Eduarda era sua irmã, vai ainda passar cota da sociedade lisboeta, isto é, ao
mente o arrastam na paixão por Maria uma noite com ela, fraquejando nos ridículo.
Monforte. Sobrepõe os sentimentos seus propósitos de pôr fim à relação.
aos conselhos do pai. Antes de conhecer Maria Eduarda, ca-
racterizara-se pela prática de amores
inconsequentes ou adúlteros.

Características trágicas dos protagonistas


Afonso da Maia Carlos da Maia Maria Eduarda
Personagem duplamente Personagem trágica que É o exemplo perfeito da
trágica, reviu no neto a tra- se suicida moralmente no personagem dominada pela
gédia do filho. Falhou tragi- final da história, ao reve- força cega do Destino, que
camente ao não conseguir lar-se incapaz de dominar a destrói. Mas apresenta
para Carlos o destino para o qual o pen- pela vontade o desejo para também uma dimensão trágica na sua
sava ter educado, morrendo em conse- com uma mulher que sabia ser sua vida mesmo antes de conhecer Carlos,
quência disso. irmã. Arrasta tragicamente Afonso pois, partindo do mau exemplo da mãe,
para a morte com o seu comporta- teve uma existência algo irregular com
mento. vários amantes.
22
Linguagem, estilo e estrutura

Título e subtítulo

O
bra integrada na estética realista, ao dissecar a sociedade lisboeta com
intuitos didáticos, Os Maias, cuja ação central decorre à volta de uma fa-
mília, apresentam uma sociedade que, nas palavras de Ega, é romântica:
«– E que somos nós? – exclamou Ega. – Que somos nós desde o exame
de latim? Românticos: isto é, indivíduos inferiores que se governam na
vida pelo sentimento, e não pela razão […]» (Capítulo XVIII).
Assim se explica o subtítulo da obra: Episódios da vida romântica.

Recursos expressivos

Comparação Ironia Metáfora

«[…] os bancos feudais […], «– E diga-me […] – prosseguiu o sr. «É um canteirinho de camélias me-
solenes como coros de ca- Sousa Neto, com interesse, cheio de ladas – disse o Taveira, repetindo um
tedral.» (Capítulo I) curiosidade inteligente. – Encontra-se, dito do Ega.» (Capítulo X) [Taveira
por lá, em Inglaterra, desta literatura refere-se a um grupo de senhoras.]
amena, como entre nós, folhetinistas,
poetas de pulso? Carlos […] respon- «[…] aqueles dois seres, sacudidos
deu com descaro: – Não, não há dis- por um ardente vendaval de paixão,
so.» (Capítulo XII) […]» (Capítulo XII)

Sinestesia Uso expressivo


Personificação do adjetivo
e do advérbio

«[…] no ar macio morria


a distância um toque fino «Lisboa acordava lentamente
[…]» (Capítulo VIII) «[…] as peles apareciam murchas,
de missa.» (Capítulo VIII) gastas, moles, com um baço de pó
de arroz.» (Capítulo X) [adjetivo]

«[…] mas, vendo Carlos conforta-


velmente mergulhado na revista
[…]» (Capítulo VII) [advérbio]
Reprodução do discurso no discurso

Discurso direto Discurso indireto Discurso indireto livre

«– Tu exageras – murmurou Carlos, «Riu muito, foi abraçar Afonso, «O dr. Chaplain? Justamente, Carlos
que se apoderara vivamente do jor- explicou-lhe que se discutia o conhecia muito o dr. Chaplain. Ouvira-
nal, e relia a notícia. baile dos Cohens.» (Capítulo VII) -lhe as lições, visitara-o até intima-
– Ora essa! – exclamou Dâmaso, er- mente na sua propriedade de Maison-
guendo-se.» (Capítulo VII) nettes, […]» (Capítulo XI)

23
Desde as quatro horas da tarde, no calor e
silêncio do domingo de junho, o Fidalgo da Torre
[…] trabalhava.

Eça de Queirós, A ilustre Casa de Ramires, capítulo I

Caracterização das personagens


A ILUSTRE e complexidade do protagonista
CASA DE
Gonçalo Ramires
RAMIRES Membro da nobreza rural em decadência, jovem e solteiro, Gonçalo
EÇA DE QUEIRÓS Mendes Ramires vive das rendas que lhe pagam os caseiros que traba-
lham as suas terras. Consciente da descida de estatuto social da sua
classe, começa a escrever uma novela histórica na qual possa rever a
glória dos antepassados. Decide, entretanto, entrar na política e aca-
ba por ser eleito deputado.
É uma personagem complexa, marcada por contradições várias:
se, por um lado, louva a lisura dos se critica um dirigente político impor-
antepassados, por outro não se re- tante nos jornais, André Cavaleiro,
vela honesto nas suas relações com chegando a insultá-lo, não hesita em
um caseiro; reatar relações com ele por interesse;
se se entusiasma com a coragem se decide entrar na política para fa-
dos seus ancestrais, acaba por re- zer carreira e nada mais, acaba por
velar comportamentos cobardes – arrepender-se, abandonar a política
para mais tarde se redimir; e ir procurar a riqueza em África.

Outras personagens

Gracinha Ramires André Cavaleiro João Gouveia


Irmã de Gonçalo. Por Antigo amigo de Gonçalo, Amigo de Gonçalo, com
causa de ter sido namo- que com ele cortou rela- faro político, oportunista, é
rada de André Cavaleiro ções por causa da irmã e ele, administrador do con-
e este a ter deixado é que dele se reaproximou por celho de Vila Clara, quem
Gonçalo o detesta. Muito interesse político, é o Go- o convence a concorrer ao
bonita, é casada com José vernador Civil do distrito lugar de deputado, fazendo o necessá-
Barrolo, que não a faz feliz. Aquando de Oliveira, com grande influência po- rio para isso, isto é, reatando a amizade
do reatar de relações entre Gonçalo e lítica na capital, tanta, que manobra com André Cavaleiro – sem quaisquer
André Cavaleiro, este aproveita para para conseguir – e consegue – a eleição pruridos.
seduzir Gracinha. Gonçalo apercebe- de Gonçalo como deputado.
-se da fraqueza da irmã e perdoa-lhe: É um político calculista.
afinal ele fora o culpado pela aproxi-
mação dos antigos namorados.

24
José Júlio Castanheiro José Videira, o Videirinha
Tendo estudado com Amigo de Gonçalo
Gonçalo em Coimbra, é desde a juventude, este
este seu amigo, patriota poeta e tocador de vio-
sentimental, que o in- lão anima festas e jan-
centiva a elaborar a no- tares nos quais partici-
vela histórica que Gonçalo está a escre- pa a roda de amigos de
ver quando se inicia o romance. Gonçalo. Videirinha acaba por conseguir
um emprego como funcionário público
através da influência de Gonçalo.

O microcosmos da aldeia como


representação de uma sociedade
em mutação

O
espaço rural português e em particular a aldeia de Santa Ireneia, onde vive
Gonçalo, apresenta, com o advento do Regime Constitucional, no século
XIX, alterações na sociedade.
Gonçalo, fidalgo na decadência, vivendo de hipotecas e de rendas negociadas
com mesquinhez, já não tem o nível de vida dos seus antepassados – esta é uma
primeira mudança. Por outro lado, e decorrendo desta situação, Gonçalo acha-se
na obrigação de procurar um emprego – o que nunca sucedera com os seus ances-
trais. Por isso procura aceder ao lugar de deputado (o nobre rural já não consegue
viver das suas terras). Além disso, se é ainda um fidalgo respeitado na sua terra
e nas terras vizinhas, o respeito já não é o de antigamente – daí Gonçalo se ter
visto por vezes em situações de perigo ao ser insultado ou ofendido por populares.
A mutação desta sociedade rural evidencia-se ainda aquando das eleições nas quais
Gonçalo é eleito deputado: a democracia, manchada embora pela manipulação dos
eleitores por certos chefes políticos, isto é, pelo caciquismo, mas vivida com alegria
nas aldeias, é agora uma realidade desconhecida das gerações anteriores.

O espaço e o seu valor simbólico

O
espaço simbolicamente forte em A ilustre Casa de Ramires é a Torre de
Santa Ireneia. A Torre, de antiquíssima construção, acompanhou Portugal
e a sua história nos momentos mais decisivos. A Torre acompanha Gonçalo
também no momento da sua vitória eleitoral quando este a visita e sente o seu
valor simbólico – ela simboliza a perenidade do país, apesar da decadência; ela for-
talece a vontade de Gonçalo (será na Torre que Gonçalo decidirá abandonar a cin-
zenta carreira política e partir para África em busca da verdadeira redenção).
A Torre é, assim, um símbolo de continuidade e de mudança.

25
História e ficção: reescrita do passado e
construção do presente

A
ilustre Casa de Ramires é um romance que apresenta uma estrutura du-
pla. Por um lado há o presente, a história de Gonçalo Ramires e das suas
circunstâncias; por outro, e decorrendo do estado decadente da família,
há o passado. Este tempo é traduzido numa novela histórica designada «A Torre
de D. Ramires», que Gonçalo escreve para restaurar o Portugal antigo, nomeada-
mente o da Primeira Dinastia, de modo a enaltecer os valores dos seus próprios
A ILUSTRE antepassados.
CASA DE Ao escrever a sua novela, ao trazer para o presente decadente os valores do pas-
RAMIRES sado, esta serve para construir um presente que se liberte da decadência referida.
EÇA DE QUEIRÓS O passado e o presente estão, assim, entrelaçados no romance, coexistindo dois
narradores, um que conta a ação presente e outro que narra o passado.
A narrativa do presente tem nítido caráter realista, na medida em que analisa e
disseca uma sociedade, mostrando o que nela não está bem. A narrativa do passa-
do, embora de natureza romântica e idealista, pretende contribuir para aperfeiçoar
o presente, apontando caminhos que o libertem do estado a que chegou.

Linguagem, estilo e estrutura


Estruturação da obra: ação principal e novela
A obra tem 12 capítulos. Nenhum deles é dedicado na íntegra à novela (o passado).
Ela aparece encaixada na ação principal (o presente) nos seguintes capítulos: II, III, V, VIII, IX e X.

Recursos expressivos

Comparação «O Fidalgo da Torre estacara – como se uma estrela de repente se


despenhasse na rua mal alumiada.» (Capítulo V)

«O gordalhufo murmurou com importância, através do imenso


Hipérbole
charuto que mamava […]» (Capítulo V)

«O pai de Gonçalo, ora Regenerador, ora Histórico, vivia em Lisboa


Ironia no Hotel Universal, gastando as solas pelas escadarias do Banco
Hipotecário […]» (Capítulo I)

26
Linguagem, estilo e estrutura

«Por fim, uma noite em que Gonçalo, à banca, depois do chá, la-
Metáfora boriosamente escavava os fossos do Paço de Santa Ireneia[…]»
(Capítulo I)

«[…] diante de Oliveira pasmada, abraçara o homem detestado».


Personificação (Capítulo XI)

«Gonçalo sentiu um desejo de subir a esse imenso eirado da Torre».


Uso expressivo [adjetivo](Capítulo XI)
do adjetivo «Mais antigo na Espanha que o Condado Portucalense, rijamente,
e do advérbio como ele, crescera e se afamara o Solar de Santa Ireneia.» [advérbio]
(Capítulo I)

Reprodução do discurso no discurso

«– A Soledad, Videirinha! – pediu o bom Titó, pensativo, enrolando


Discurso direto um grosso cigarro.» (Capítulo II)

«Gonçalo Mendes Ramires arremessou o jornal, declarou que ia ele,


Discurso por sua conta, amanhar a propriedade, mostrar o que era um torrão
indireto rico, tratado pelo saber moderno, com fosfatos, com máquinas!»
(Capítulo I)

«Sanches Lucena sorriu, com amargura. Os médicos,


Discurso indireto livre em Lisboa, não se entendiam. Uns atribuíam ao estôma-
go – outros atribuíam ao coração.» (Capítulo III)

27
Sonho que sou um cavaleiro andante

Antero de Quental, «O palácio da ventura», in Sonetos completos

A angústia existencial
SONETOS
A
ntero de Quental, pertencente à terceira geração romântica, sonhou uma
COMPLETOS sociedade baseada na fraternidade e na justiça. Não vendo o seu sonho
ANTERO DE QUENTAL realizado, terminou a existência suicidando-se. Este suicídio constitui uma
marca biográfica da angústia existencial que caracteriza muitos dos seus sonetos.
De facto, nos Sonetos, o leitor depara-se com versos que traduzem bem a an-
gústia da vida, a desesperança nos sonhos nunca concretizados, mas também a
da consciência da morte por parte de um sujeito poético que tantas vezes tenta a
salvação na crença religiosa, mas depois lamenta e sofre com o abandono a que se
sente votado por Deus.
Os seguintes tercetos finais de vários sonetos representam a raiz dessa angústia.

1.
Abrem-se as portas d’ouro, com fragor…
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão – e nada mais!
(«O palácio da ventura»)

2.
A ideia fechou a porta à esp’rança,
Quando lhe foi pedir gasalho e pão…
Deixou-a cara a cara com o Nada!!...
(«Nihil»)

3.
Ah! se Deus a seus filhos dá ventura
Nesta hora santa… e eu só posso ser triste…
Serei filho, mas filho abandonado!
(«Lamento»)
Antero de Quental, Poesia completa – 1842-1891, organização e prefácio de Fernando Pinto do Amaral, Lisboa,
Publicações Dom Quixote, 2001, pp. 248, 570 e 218.

Configurações do Ideal

O
Ideal (continua e intensamente sonhado, nunca atingido), uma das fortes
raízes da angústia existencial, surge configurado nos Sonetos de diversas
maneiras, conforme se apresenta.

1. 2. 3.
Um «palácio» de resplande- Uma «nuvem d’ouro ideal» Uma «espada dos valentes»
cente beleza, situado num que surge no céu. empunhada pelo poeta.
alto.
(«O palácio da ventura») («Beatrice») («Enquanto outros combatem»)

28
Linguagem, estilo e estrutura

O discurso conceptual e o soneto

A
ntero de Quental é justamente considerado um dos grandes so-
netistas portugueses. Pertencendo à terceira geração romântica,
a sua poesia caracteriza-se por um forte idealismo associado a
conceitos abstratos como, por exemplo, os de «Verdade», de «Justiça»,
de «Liberdade» e de «Ideal».
Para desenvolver uma poesia relativa a estas ideias abstratas, assentes
frequentemente em imagens concretas, Antero serviu-se muito de uma for-
ma poética fixa, o soneto, marcado por regras específicas que lhe permitiam
desenvolver assuntos graves com emoção e autenticidade.
Para Antero, «a forma mais completa do lirismo puro é o soneto». Com o
seu verso longo, o soneto permitia-lhe, num molde de duas quadras e dois
tercetos, explanar, os seus conceitos, demonstrando-os.

Recursos expressivos

«Noite, vão para ti meus pensamentos,» («Nox»)

Apóstrofe «Homem! Homem! mendigo do Infinito!» («Nihil»)


«Porque descrês, mulher, do amor, da vida?» («AM.C.»)

«Tu, ao menos, abafas os lamentos


Que se exalam da trágica enxovia…» («Nox»)
Metáfora «Um dilúvio de luz cai da montanha:» («Lamento»)
«Nossa alma, em quanto cria, em quanto volve,
Nas suas próprias redes se embaraça.» («Ad Amicos»)

«A ideia fechou a porta à esp’rança,


Quando lhe foi pedir gasalho e pão…» («Nihil»)
«E tu entendes o meu mal sem nome,
Personificação A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Génio da Noite, e mais ninguém!» («Nocturno»)
«Por esses campos onde a Morte e o Fado
Dão a lei aos reis trémulos e às gentes». («Enquanto outros combatem»)

29
Subitamente, – que visão de artista! –

Cesário Verde, «Num bairro moderno», in Cânticos do Realismo

A representação da cidade
CÂNTICOS e dos tipos sociais
DO
A
cidade de Lisboa e os seus ti- a «soturnidade» e a «melancolia» da ci-
pos sociais estão presentes dade provocam nele «um desejo absur-
REALISMO em vários poemas que Cesário do de sofrer». Lisboa é representada ao
CESÁRIO VERDE dedicou à cidade onde nasceu, dos «anoitecer» e as luzes vão-se apagando
quais se destacam «Cristalizações» e no decurso do longo poema até chegar a
«O sentimento dum ocidental». noite fechada na «Triste cidade!». Esta é
A Lisboa de Cesário é tendencialmente uma cidade com ruas metaforizadas em
um espaço marcado pela negatividade. «nebulosos corredores», com «prédios
Em «Cristalizações», a cidade é repre- sepulcrais».
sentada como um espaço frio, apesar do Na cidade, o sujeito poético compraz-
«Bom tempo». Em «O sentimento dum -se na observação – por vezes comovida
ocidental», a representação negativa da – de um grande número de tipos sociais.
cidade atinge o seu auge, de tal modo que São eles que dão agitação e vida à cida-
o sujeito poético é contaminado por ela: de e a humanizam.

Deambulação e imaginação:
o observador acidental

O
sujeito poético é, na poesia de Cesário Verde, frequentemente alguém que
Tipos Sociais passeia, observa a realidade que se lhe depara e a transforma com re-
curso à imaginação. É nas ruas que o poeta caminha sem destino, aberto
ao que vê: os variados tipos sociais, as ruas, os edifícios… Contudo, não se limita a
«Cristalizações»
observar; imagina também. Essa imaginação instaura-se a partir de palavras ou
«calceteiros», «peixeiras», «rapagões» expressões como as que se seguem, destacadas, a partir de algo que foi observado.
trabalhadores braçais, «Homens de
carga!», «cavadores», uma «atriz»
Realidade observada Realidade imaginada
«O sentimento Os «carros de aluguer» que levam à «Ocorrem-me» – «exposições, países:
dum ocidental» estação quem vai partir Madrid, Paris…»

«mestres carpinteiros», «calafates»,


«as edificações somente emadeiradas» «semelham-se» – «a gaiolas»
«dentistas», «lojistas», «varinas»,
«o clero», «soldados», «patrulhas de
cavalaria», burguesas, «costureiras», «cais a que se atracam botes» «E evoco, então» – «as crónicas navais»
«floristas», «emigrados», prostitutas,
«um forjador», uma «velha» burguesa, («O sentimento dum ocidental»)
«caixeiros», um «cauteleiro», um
«velho professor», «guardas» Esta técnica é uma constante na poesia deambulatória e imaginativa de Cesário
Verde.

30
Perceção sensorial e transfiguração
poética do real
Perceção sensorial do real

É
através de uma multiplicidade de sensações que a realidade chega, fre-
quentemente, ao sujeito poético em deambulação. Eis alguns exemplos
que comprovam a frequência e a importância da perceção do real através
dos sentidos:

sensações visuais « E os edifícios […] / Toldam-se d’uma cor monótona e londrina.»


«{…} os calafates […] / enfarruscados, […]»
(« O sentimento dum ocidental»)
sensações auditivas «E em terra num tinir de louças e talheres {…}»
(«O sentimento dum ocidental»)
«Toca-se às grades, nas cadeias. Som / Que Mortifica […]»
(«O sentimento dum ocidental»)

sensações olfativas «E de uma padaria exala-se, inda quente, / Um cheiro salutar e honesto
a pão no forno.»
(«O sentimento dum ocidental»)
«Cheira-me a fogo, a sílex, a ferragem;» («Cristalizações»)
sensações gustativas «Sabe-me a campo, a lenha, a agricultura.» («Cristalizações»)

sensações táteis «Sai das embocaduras / Um sopro que arrepia os ombros quase nus.»
«Cercam-me lojas, tépidas.» («O sentimento dum ocidental»)

Em «Cristalizações», o poeta exclamou: «E tangem-me, excitados, sacudidos, / O tato,


O poeta exclamou: «E tangem-me, excitados, sacudidos, /
a vista, o ouvido, o gosto, o olfato!».
O tato, a vista, o ouvido, o gosto, o olfato!». («Cristalizações»)

Transfiguração poética do real

A
dialética entre a realidade da utilização de comparações e de um «melão» enorme lembrou-lhe
observada e a realidade metáforas. Vendo «os simples ve- «um ventre», numa «melancia» viu
imaginada atinge o cume getais» na «giga» da «rapariga» que «Uma cabeça», divisou «Bons cora-
em «Num bairro moderno» – para- os vende de porta em porta, o poeta ções pulsando» «nos tomates»…
digma da transfiguração poética do recompõe a realidade vegetal obser-
real. Lá se encontra um verso que é vada num «novo corpo orgânico»,
todo um programa: «Subitamente, – isto é, passa a ver em cada compo-
que visão de artista! –». nente da giga ou conjunto de compo-
Do que se trata é de transfigurar nentes idênticos – outra coisa –, mas
o real, isto é, passar de uma realida- sempre de modo motivado, daí os
de a outra – principalmente através dois recursos expressivos referidos:

O imaginário épico em
«O sentimento dum ocidental»
A estrutura

E
ste é o mais longo poema composto por Cesário Verde. Apresenta quatro
partes (normalmente designadas «Ave Marias», «Noite Fechada», «Ao gás»
e «Horas Mortas»). Cada parte tem 11 quadras, com o primeiro verso de-
cassílabo e os seguintes alexandrinos e esquema rimático ABBA. O verso longo é
adequado a uma poesia que descreve o que o sujeito poético observa.

31
Subversão da memória épica: o Poeta, a viagem
e as personagens

«O sentimento dum ocidental» foi de que não verá «jamais» as «Sober-


publicado em 1880, ano em que se bas naus» portuguesas de outrora.
comemorava o quarto centenário da O que ele vê é «um couraçado in-
morte de Luís de Camões. O tom ge- glês», uma soberba nau do presente
ral das comemorações era grandio- em que a Inglaterra substituiu nos
so, celebrando-se de vários modos o mares o decadente Portugal… Assim
CÂNTICOS passado extraordinário do Portugal se coloca em causa a memória épica.
das Descobertas. Não foi essa linha
DO laudatória a seguida por Cesário no
Mais adiante, no continuar do seu
passeio, o sujeito poético em deam-
REALISMO seu longo poema. Pelo contrário, bulação depara-se, admirado, não
CESÁRIO VERDE
a matéria épica cuja tradição remon- tanto com «um épico doutrora» que
ta a Camões está aqui subvertida. «ascende num pilar!», «brônzeo»
Um exemplo muito simples de- e «monumental», mas com o local
monstra-o desde já: o sujeito em onde se ergue a estátua – natural-
deambulação, que parte da realida- mente – de Camões: um «recinto
de observada para outra, lembra «as público e vulgar». Deste modo se
crónicas navais», o passado grandio- contrasta criticamente o passado
so, a partir do que o presente lhe pode grandioso com o presente comezi-
oferecer – «os cais a que se atracam nho, subvertendo-se o tom oficial das
botes». Por isso, ele está consciente comemorações.

Linguagem e estilo
Recursos expressivos

Comparação Hipérbole
Enumeração

«Como morcegos, ao cair das badala- «E, como as grossas pernas d’um gigan- Os filhos das lezírias, dos montados; / Os das
das, / Saltam de viga em viga os mes- te / Sem tronco, mas atléticas, inteiras, / planícies, altos, aprumados; / Os das monta-
tres carpinteiros.» Carregam sobre a pobre caminhante, / nhas, baixos, trepadores!»
(«O sentimento dum ocidental») Sobre a verdura rústica, abundante, / («Cristalizações»)
Duas frugais abóboras carneiras.»
(«Num bairro moderno»)
Uso expressivo
do adjetivo e
do advérbio
Metáfora Sinestesia

«Com seu rostinho estreito, friorento;»


[adjetivo] («Cristalizações»)
«E num cardume negro, […] / asso- «E fere a rua, com brancuras quentes, /
A larga rua macadamizada.» «Brônzeo, monumental, de proporções
mam as varinas.» guerreiras,» [adjetivo]
(«O sentimento dum ocidental») («Num bairro moderno»)
(«O sentimento dum ocidental»)
«Amareladamente, os cães parecem lobos.»
[advérbio] («O sentimento dum ocidental»)

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