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AMOR DE PERDIÇÃO

Simão Botelho era filho do corregedor Domingos Botelho, tinha um irmão mais velho, Manuel,
com quem tivera algumas desavenças, e irmãs mais novas. Sua mãe chamava-se Rita e por
vezes tinha uma atitude de soberba. Simão era um jovem que envergonhava a família. Suas
amizades eram apenas com aqueles que pertenciam às classes mais pobres. E por tais atitudes
desgostava muito a seus pais, eles na verdade nem sentiam amor pelo filho. Porém, passado
um tempo Simão mudou totalmente. Não saía mais de casa, suas más amizades findaram, suas
desordens também e passava seus dias em casa junto com Rita, sua irmã. A mudança no
comportamento dele devia-se á sua paixão por Teresa Albuquerque, filha de Tadeu
Albuquerque, haviam-se apaixonado, Simão e Teresa eram membros de famílias rivais.
Moradores de casas vizinhas, em Viseu. Os jovens apaixonados, logo perceberam a
impossibilidade da realização desse amor por meio do casamento, pois suas famílias eram
inimigas. Pouco tempo depois começam sentir ódio por seus pais. Todavia mantêm um
namoro silencioso através das janelas próximas. Ambas as famílias, desconfiadas, fazem tudo
para combater a união amorosa. Tadeu de Albuquerque, pai de Teresa, ao descobrir o
romance, trata de prometer a mão de sua filha a seu sobrinho Baltasar Coutinho. No entanto,
a menina o negou até pelo facto de o seu primo a irrita muito e foi então que começaram as
ameaças a Teresa, casava-se ou não seria mais considerada filha, seria mandada para um
convento. Na casa de Simão, o pai, muito irritado com aquela paixão resolve pôr fim ao
romance entre seu filho e Teresa, enviando o jovem Simão a Coimbra para concluir seus
estudos, pretendia com isso sufocar o amor dos jovens pela distância. Simão, enlouquecido
pela saudade de sua amada, decide ir a Viseu encontrar-se com Teresa. É hospedado pelo
ferreiro João da Cruz, homem destemido, forte e fiel que devia favores a seu pai. Após uma
tentativa falhada de se encontrar com Teresa Simão sai ferido. O rapaz busca refúgio na casa
de João da Cruz para recuperar, dos ferimentos. Os amantes ainda mantinham comunicação
por meio de uma velha mendiga que passava com frequência sob a janela do quarto de Teresa.
Para castigar a filha, Tadeu de Albuquerque decide mandá-la para um convento do Porto.
Antes, porém, a jovem é recolhida num convento na própria cidade de Viseu, enquanto Tadeu
aguardava a resposta do Porto. Em Viseu, na casa do ferreiro, Mariana, filha do ferreiro acaba
por se apaixonar por Simão, amor esse não revelado pela moça. Simão ao tomar
conhecimento dos factos, fica furioso e, num acesso incontido de raiva, decide tentar raptar
Teresa. O jovem defronta-se com Baltasar, na tentativa de resgatar Teresa. Mesmo diante de
várias testemunhas o jovem Simão atinge Baltasar com um tiro mortal. Simão é preso e
condenado à morte. Porém, devido à interferência do corregedor Domingos Botelho, pai de
Simão, a pena é convertida ao degredo nas Índias. A sentença do desterro sai, Simão é
condenado a ficar dez anos na Índia. Teresa começa a ter sua saúde abalada, cada vez mais
triste e muito magoada, parece ter perdido a vontade de viver. Ao embarcar rumo à Índia,
Simão vê, pela última vez no mirante do convento Teresa. Também Teresa contempla o navio
que levava seu amado. Logo após, Teresa morre. Simão, antes de seguir seu destino, toma
conhecimento da morte de Teresa e segue rumo ao degredo. Relê cartas de Teresa, seu corpo
vai sendo consumido pela morte. Alguns dias após o início da viagem, Simão adoeceu, tinha
febres e delírios, Simão morre. Mariana, não resistindo à perda de Simão, no momento em
que vão lançar o corpo ao mar, lança-se ao mar também.
Enredo

Nesta obra, há uma coincidência com a vida do autor: é certo que a obra de Camilo e a sua
vida foram lidas uma em função da outra, como reforço mútuo. E essa conjunção produzia um
determinado sentido, tinha uma consequência estética. A maneira como Camilo, que era um
homem que vivia da pena, fez render esse ponto, com a legenda que criava em torno de si
mesmo.

O detalhe notável é a constante referência de Camilo ao fato de escrever para viver, e de ter,
assim, de dar ao público o que ele quer comprar. A novela passional é originada pelo clima
emocional da época que foi absorvido pelo mundo novelístico de Camilo e nessa atmosfera
satura de paixão e lágrimas, de grandezas e misérias, as personagens movem-se, tal como
acontece com o seu criador, não só pelos impulsos próprios, mas também pela estimulação do
meio mórbido em vivem. E, ainda, que a família de Camilo era da mesma espécie de “brigões”
e “cobiçosos” que havia a rodo em Portugal no correr do século XIX, na crise que se seguiu à
independência do Brasil.

Quanto à família da qual proveio Camilo, eis o apanhado mais geral: um avô magistrado
reconhecidamente corrupto; um tio assassino – o tema de Amor de Perdição – que, depois de
mil tropelias pouco românticas, acabou degredado para a Índia; uma tia de má fama,
concubina de um ricaço, cuja fortuna esbanjou depois de espoliar a herança da filha de seu
primeiro casamento e também a dos seus sobrinhos (Camilo, entre eles); o pai, que viveu
amancebado sucessivamente com três criadas.

Esta obra-prima da ficção de língua portuguesa parece ter encontrado na tragédia Romeu e
Julieta, de Shakespeare, uma referência marcante da novela passional de Camilo, que segundo
o filósofo e escritor espanhol Miguel de Unamuno é a maior novela de amor da península
Ibérica.

O romance reúne, em síntese, elementos típicos de uma mundividência que tem raízes na
cultura portuguesa, particularmente na sua expressão literária, desde épocas remotas.

Dois quartos da novela constam de uma lenta narração sobre o namoro entre Simão Botelho e
Teresa de Albuquerque, a separação do casal por rixas familiares, a obstinação de Teresa
mantendo-se fiel a Simão, não cedendo à insistência do pai, Tadeu de Albuquerque, em casá-la
com o fidalgo Baltasar Coutinho.

Por outro lado, Simão, estudante em Coimbra, regressa a Viseu, resolvido a resgatar a amada,
mantida num convento, à guisa de castigo por sua teimosia. Simão, que não conta com o apoio
de sua própria família, mantém-se escondido na casa de João da Cruz, um ferrador. Contando
com a cumplicidade do ferrador e da filha Mariana, o jovem está a salvo. Mariana apaixona-se
pelo hóspede e auxilia-o de todas as formas, no sentido de que comunique com a amada
Teresa.

O capítulo 10 pode ser considerado o clímax da narrativa: é quando se dá a morte de Baltasar


Coutinho. Simão Botelho tenta encontrar-se com Teresa, aquando da mudança do convento
de Viseu para Monchique. Baltasar provoca-o e Simão atira matando-o. Assim os
acontecimentos precipitam-se.
Os outros dois quartos da novela, ou seja, do capítulo 11 em diante, preparam o desenlace
trágico. Simão é preso na cadeia da Relação, no Porto. Teresa é mantida enclausurada no
convento de Monchique, também no Porto. Julgado e condenado à morte na forca, Simão
passa os dias em desespero, tendo ao lado a fiel companhia de Mariana. Domingos Botelho,
pai de Simão e corregedor, nega-se a auxiliar o filho e só o faz tardiamente, quando então
consegue comutação da pena e um degredo para as Índias.

O final trágico dá-se quando da partida de Simão para o exílio. Teresa assiste do mirante do
convento à passagem do navio que leva a seu amado e vem a falecer. Simão, não resistindo à
dor de perder a amada, também morre, no navio. Mariana suicida-se, abraçada ao cadáver do
jovem, já lançado ao mar.

Aplicação das categorias da narrativa:

Acção:

A acção é fechada, pois o público é informado sobre o destino final das personagens centrais
(Simão, Teresa e Mariana). A ação é formada a partir de uma sucessão de sequências
narrativas, ligadas por casualidade. Contudo os acontecimentos posteriores são sempre uma
consequência dos anteriores - encadeamento.

· Sequências narrativas ligadas à intriga central:

- nascimento de Simão Botelho;

- visão mútua de Simão e de Teresa e nascimento do seu amor;

- relação secreta entre Simão e Teresa;

- simão hospeda-se em casa de João da Cruz;

- encontro entre Simão e Baltazar;

- Teresa é mandada para o convento de Monchique e, posteriormente, para um convento no


Porto;

- Simão mata Baltazar e recusa fugir à polícia;

- Simão é condenado à morte, por enforcamento;

- morre João da Cruz;

- partida de Simão para o degredo;

- morte de Teresa;

- morte de Simão;

- suicídio de Mariana.

Pode ser considerada uma obra de ação aberta: Camilo convida o leitor a fazer uma reflexão
acerca dos preconceitos existentes e caducos, em Portugal, sobre o amor.
· Interação das personagens centrais:

- afastamento crescente dos amantes, partindo de uma rua até à despedida de Teresa que
parte para o convento de Monchique;

- adiamento do encontro dos amantes no Céu: representação metafísica e romântica do amor.

- Mariana cada vez se aproxima mais de Simão, apesar de classes sociais diferentes, desde o
primeiro encontro até ao suicídio de Mariana;

- movimento ultrarromântico, há a ligação em vida e após a morte.

Narrador

Não participante – heterodiegético – é apenas narrador, não é personagem, recorrendo à


terceira pessoa gramatical; é omnisciente, pois tem um conhecimento total e absoluto sobre a
história e as personagens dessa história: sabe o que é exteriormente observável, mas também
o que faz parte do interior das personagens; o narrador é judicativo/ parcial, pois expressa
opiniões e emoções.

Espaço

O espaço físico, em Amor de Perdição, conhece um afunilamento progressivo à medida que a


acção trágica se encaminha para o seu clímax e, posteriormente, para o desenlace final. Assim,
de um espaço amplo exterior onde as personagens evoluem livremente, passa-se para um
espaço fechado e reduzido onde as personagens são encarceradas. Este espaço reduzido
simboliza a prisão da própria vida, visto que estão enclausuradas na dimensão da própria
tragédia.

Verifica-se, ainda, que, quanto maior é a privação de liberdade, menor é o espaço onde
evoluem as personagens.

Alguns elementos relacionados com os espaços que adquirem uma simbologia importante
nesta obra:

· as grades: além das grades materiais que impressionam Simão, simbolizam os obstáculos
sociais que motivam o seu encarceramento.

· a janela: é a ligação entre o interior e o exterior; é conotada, simbolicamente, com a


interioridade de Simão e de Teresa e com a sociedade. Funciona, ainda, como a cisão entre as
personagens e ao espaço social onde estão inseridos. Associada aos olhos, que são o “espelho
da alma”, refletem o interior psíquico das personagens que se situa a outros níveis presentes
na obra, através dos sentimentos dos protagonistas: aqui (hostil) que se opõe ao além
(esperança e ilusão fecundante).
· os fios: simbolizam a ligação eterna dos amantes (cartas) que não se desfaz após a morte, é
uma união total do par amoroso. Os próprios amantes acreditam nessa união eterna (as cartas
são testemunhas dessa teoria). O fio é também o símbolo do destino (mito das 3 moiras). O
tempo liga-se directamente ao destino que terá de ser cumprido. Com a morte esse fio
quebra-se, Mariana antes de suicidar lança as cartas e o seu avental ao mar reatando de novo
os amantes.

· o mar: é fonte de vida, o corpo de Simão, metaforicamente, sítio de renascimento. O mar


espelha o céu, espaça onde os amantes poderiam consumar o seu amor puro, pois na terra
eram condenados pelos homens.

· o avental: assume um valor polissémico, ligado à condição social de Mariana e o seu


sofrimento; ela limpa as suas lágrimas quando chora por Simão. Referências ao seu estado de
loucura, quando Simão está na prisão, num caixote encontram-se as cartas de Teresa e o
avental de Mariana. A sua simbologia reúne o trabalho e o martírio, significando o percurso de
Mariana na terra que é uma forma de purificação.

Desta forma, continua presente, simbolicamente, a tragédia do triângulo amoroso, vitimado


por um destino que os conduz à morte, única solução para a realização de uma vida cujos
anseios mais profundos das personagens eram irrealizáveis.

Tempo:

· tempo diegético (tempo vivido pelas personagens) – acção decorre entre os finais do século
XVIII e início do século XIX.

O tempo diegético (tempo da história) caracteriza-se por:

· a cronologia;

· a linearidade.

Na introdução, abarcam-se 40 anos, são os antepassados de Simão.

A acção decorre em 6 anos (1801 - 1807):

· 1801, Domingos Botelho corregedor em Viseu, Simão tem 15 anos.

· 1803, Teresa escreve uma carta a Simão, revelando as intenções de seu pai de a enviar para
um convento.

· 1804, Simão é preso.

· Prisão de Simão de 1805 a 1807. Antes de embarcar para o degredo, fica 20 meses na prisão.

· 17/3/1807, Simão parte para a Índia.

· 28/3/1807, ao romper da manhã, Simão morre.


· tempo do discurso (forma como o narrador elabore o seu relato).

Visto que o discurso é linear, o narrador segue a ordem cronológica dos acontecimentos
(podemos referir, no entanto, a analepse em que João da Cruz conta a forma como matou o
almocreve; há resumo na introdução).

Conotações simbólicas do estado do tempo:

Simão morre “ao amanhecer, depois de um formoso dia de Primavera” (o dia 28 de Março),
que se seguiu a vários dias de tempestade. A primavera e a manhã estão conotadas com a luz,
com a pureza de um tempo, ainda libertos de corrupção. Trata-se de um momento de
promessa e de felicidade. Assim, da escuridão e da morte, relacionadas com o caos, nasce o
amor verdadeiramente purificada por um tempo transcendente ao dos humanos – é o período
da realização e da plenitude.

É ainda importante notar que, ao sétimo dia de viagem, acalmou a tempestade – o número 7
corresponde ao dia da Ordem, aquele em que, após a criação do mundo, Deus descansou. O 7
remete para a luz e para a plenitude temporal. E, ao nono dia, Simão delira pela última vez e
são as cartas e as promessas de felicidade que ecoam na sua memória. O 9 é o número da
gestação, o do final de um ciclo para iniciar outro.

Personagens:

· Simão

- nasceu em 1784.

- tinha 15 anos, à data de inicio da ação, em 1801; estuda humanidades em Coimbra.

- apresenta características hereditárias psíquicas e fisionómicas (anúncio do realismo): “génio


sanguinário”, rebeldia e coragem, inconformismo político – herança de seu tio paterno, Luís
Botelho (que matara um homem, em defesa de seu irmão Marcos) e de seu avô paterno,
Fernão Botelho (que fora encarcerado por suspeita de uma tentativa de regicídio, em 1758 (cf.
Cap. I) e ainda de seu bisavô Paulo Botelho Correia (que era considerado “o mais valente
fidalgo que dera Trás-os-Montes” (cf. Cap. I). É belo como a sua mãe, ainda que viril.

- após a visão de Teresa, Simão transforma-se: distancia-se da ralé de Viseu; torna-se caseiro;
cumpre os seus deveres de estudante; passeia pelo campo, procurando o espaço natural, em
detrimento do espaço social.

- quando Teresa é obrigada a sair da janela, local onde via Simão e, posteriormente, quando
lhe comunica o desejo do seu pai de que ela se case com o seu primo Baltasar, Simão revela-se
de novo rebelde. A par desta faceta, irá porém surgir uma outra: a sua nobreza de alma, que se
manifesta no momento em que deseja poupar um dos criados de Baltasar, que tentara matar
Simão, pelo facto de o homem se encontrar ferido.

- surge, entretanto, mais outra faceta de Simão: a de poeta, que se manifesta nas cartas que
escreve a Teresa (cf. Cap. X).
- o seu sentimento exacerbado de honra é também notável – ele manifesta-se pelo facto de
Simão enfrentar sempre aqueles que se lhes opõem, pelo facto de se ter negado a fugir,
depois de ter morto Baltasar, em legítima defesa, e ainda por recusar qualquer ajuda da
família, aceitando a sua condenação à forca e, depois, ao degredo. O seu código de honra
conduzi-lo-á, em última análise, à sua tragédia. Este sentimento valer-lhe-á a admiração de
personagens como João da Cruz e ainda daquelas que se situam numa esfera social marcada
por valores conservadores, como é o caso do desembargador Mourão Mosqueira.

- o sentimento de dignidade é, por outro lado, inseparável da possibilidade de realização do


seu amor – é assim que Simão não acede ao pedido de Teresa, para que cumpra os dez anos
de pena, em Portugal, na cadeia, afirmando: “Quero ver o céu no meu último olhar, não me
peças que aceite dez anos de prisão. Tu não sabes o que é a liberdade cativa dez anos! Não
compreendes a tortura dos meus vinte meses.” Com efeito, para Simão o amor associa-se à
liberdade e à sua integridade pessoal. Simão representa o herói romântico antissocial, por
excelência. Ele significa a oposição a uma sociedade podre e aos seus valores anti-humanos.
Na sua última carta a Teresa, incluída no Cap. XIX, escreve: “Vou. Abomina a pátria, abomina a
minha família; todo este solo está nos meus olhos coberto de forcas, e quantos homens falam
a minha língua, creio que os ouço vociferar as imprecações do carrasco. Em Portugal, nem a
liberdade tem opulência; nem já agora a realização das esperanças que me dava o teu amor,
Teresa!”.

§ morre a 28 de março de 1807, no beliche do navio que o transportava para o degredo e o


seu corpo é lançado ao mar.

· Teresa

- tem 15 anos.

- destaca-se pela sua beleza.

- é o paradigma da mulher-anjo, pela sua delicadeza e pela grandiosidade dos seus


sentimentos.

- revela autonomia, para a época, sobretudo, quando se recusa a casar com Baltasar.

- é astuta, determinada e orgulhosa.

- manifesta uma força de vontade e uma desenvoltura viris.

- esta personagem não tem uma evolução psicológica, pelo que é considerada uma
personagem plana.

· Mariana

. tem 24 anos.
- o narrador salienta a sua beleza física.

- caracteriza-se pela sua intuição, pelo poder de predição, enfim, pelo misticismo popular.

- apresenta complexidade humana, ao nível das emoções que experimenta e da esperança que
acalenta de poder ser amada por Simão e ficar junto dele.

- esta personagem apresenta a evolução psicológica, pois o seu amor motiva as suas
esperanças e os seus desalentos, oscilando entre emoções que fazem vibrar a sua dimensão
humana.

· João da Cruz

- é uma personagem que se aproxima bastante do protótipo do homem popular português.

- pela antítese das emoções que experimenta e pelas atitudes que apresenta, é considerado o
tipo do “bom bandido”.

- ele é, simultaneamente, bondoso, grato, corajoso e violento.

- caracterizam-no, ainda, a sua linguagem de cariz popular, pelo realismo da expressão.

· Baltasar

- é a personagem que, pelos seus defeitos, se opõe a Simão, fazendo sobressair as qualidades
exemplares do herói.

- é cobarde, mesquinho e vingativo.

- a sua vaidade torna-o incapaz de esquecer o seu orgulho ferido e de compreender o amor
que Simão e Teresa sentem um pelo outro.

- representa os valores sociais instituídos e fossilizados, contribuindo para a tragédia final.

· Tadeu de Albuquerque e Domingos Botelho

- representam o antagonismo motivado pelo preconceito de honra social.

- são inflexíveis nas suas decisões e baseiam-se no seu próprio orgulho e nas suas
conveniências sociais.

- preferem perder os filhos, reduzindo-os à dimensão de objetos, a perder a dignidade social.

· D. Rita Preciosa
- representa a convencionalidade do sentimento materno – age mais por obrigação familiar do
que por motivos afetivos; ajuda Simão porque esse é o seu papel e não porque o amor de mãe
a leve a perdoar e a compreender as atitudes do filho.

· Ritinha

- distingue-se das outras irmãs de Simão pela sua capacidade afetiva.

- representa, para Simão, o único laço familiar genuíno. Porque é conduzida por aquilo que
sente e não pelas convenções que lhe são impostas.

- a sua ligação a Simão leva-a a ser ela a relatora da sua história ao autor da obra, quando este
era criança.

Figura 2 – Capa de Amor de Perdição

– Para mim, que vos prezo, é suficiente. Vinde! – Simão estendeu-lhe o braço e Mariana, ainda
que a medo, aceitou-o. Um gesto tão pequeno, que viria a alterar-lhes o futuro.

Abordagem criativa

v Acróstico

Cercada de invisibilidade,

Abelha, que na acácia procuras amarelas flores,

Mata o desespero.

Inspira da flora os olores


Livres da sociedade.

Ora e crê que é efémero.

Calma! Que na

Alma de quem ama

Surge a fé.

Talvez não ate, mas segura a vida.

Espera! Não voes já!

Lá, onde o vinho dá vida,

Onde Deus não perdoa a tua dívida,

Beberás a saudade do néctar da flor.

Ri. Ri de loucura e os

“Ai’s!” que bramires

Não serão gritos de amor.

Certo que será mais fácil…

Oscilarás? Terminarás com a dor?

Um final diferente…

– «Perdoai-me, Simão, que vos amo mas não posso fazer com que sofrais nesta vida. Meu
pobre esposo, Minh ‘alma, olhar-vos-ei nos olhos no Paraíso. Aí, seremos um só; um só
coração; um só espírito.»

Simão, o jovem de coração revoltado, na eminência de uma explosão de raiva e loucura,


rasgou o bilhete de Teresa e chorou.

Chorou durante toda a noite e gritou a Deus, no quarto escuro e húmido e pequeno que o
encerrava do exterior como um cárcere do seu próprio coração Arrancou a roupa à cama,
calcou as flores amarelas que estavam na jarra de barro, rasgou cartas, documentos, a própria
roupa; sentiu o sabor a sangue na boca e pensou em dezenas de maneiras de terminar com a
autoridade do pai de Teresa.
Mariana e João da Cruz que o haviam ouvido soluçar e esmurrar as paredes logo entenderam
que a carta que a velha mendiga tinha trazido a troco dumas sopas na tarde anterior era
portadora de más notícias.

Partilhavam olhares cúmplices de surpresa e incompreensão e Mariana estremecia de cada vez


que um novo gemido se ouvia do quarto de Simão. Agarrando a medalha que trazia ao
pescoço, orava silenciosas preces a Nossa Senhora, para que, na sua condição de amiga
incondicional, conseguisse ajudar Simão.

Desviando o olhar para uma frecha da portada da janela de madeira, já comida pelo caruncho,
Mariana tentou absorver nos seus olhos negros alguma luz da alvorada que se adivinhava
vizinha, como se a luz conseguisse trazer-lhe paz e iluminação.

– Vou ver do fidalgo, moça! O raio do rapaz esteve a pregar ao diabo a noite toda. Vai na volta,
deu-se alguma desgraça com a fidalguinha! Deus queira que não.

– Mas, meu pai, que ides dizer a Simão? Quando o coração padece, não há palavra que o
chame à razão!

– Olha que tu agora… saíste-me cá uma entendida! Prepara o comer, que o fidalgo há-de ter
fome e eu também, que estou com uma gana.

– Sim, senhor, meu pai.

Mariana sabia-o. Não adiantariam as palavras do pai. Ela mesma conhecia aquela dor. Os
soluços de Simão, tão iguais aos seus, que a própria havia reprimido. E os pensamentos que a
assolaram, sobre a dor constantemente no seu peito, rapidamente se foram embora assim que
as lágrimas foram limpas e o pão cortado.

– Menino Simão! Ora, ora!

Simão, estendido no chão com o ferimento da bala aberto, chorava baixinho. O quarto estava
desarrumado. Entornou a tinta, rasgou papéis e tinha o lábio cortado. A mancha de sangue
que aumentava no seu ombro mostrava o quanto o pobre rapaz, que pouco conhecia do amor
a não ser das quiméricas cartas que a menina lhe mandava, desejava sair do corpo. Morrer ali,
esvaindo-se, sentindo a vida escorrer-lhe, seria a saída perfeita do mundo que o derrotara.

– Ela vai – profere, com a voz rouca e presa pelo choro, por fim.

– Ó menino! Há-de haver uma maneira de impedir o pai dela a...

– Mestre João, Teresa desistiu! Desistiu de nós. Ela vai. Diz que não lhe espera muito mais
tempo de vida, que está morrendo e que o Paraíso esperará por nós.

Mestre João da Cruz, espantado por tais palavras de uma menina que da vida só entendia de
bordado e luxo, encolheu os ombros em sinal de resignação.
Mariana arrumou o fruto da revolta de Simão enquanto arrumava os seus pensamentos,
também. Enquanto o fazia, reparou no casaco que este havia deixado na cadeira.

A medo, como se estivesse a fazer algo errado, pegou no casaco, deixou-se sentir o aroma que
exalava. Algo quente e fresco ao mesmo tempo; era doce e masculino. Mariana chorou assim
que a imagem de um futuro irreal ao lado de Simão lhe surgiu.

Mariana! Ó pobre e coitada rapariga! Tu amas! E muito! Farias tudo de novo para ajudar
Simão. Não alterarias nada!

Simão entrou no quarto e rapidamente se acercou de Mariana.

– Desculpai-me, Mariana! É tudo culpa minha! Se nunca tivesse trazido para cima de vós as
minhas desventuras, jamais sofrerias tanto.

– Não, Senhor Simão! Não digais isso! Amo-vos como a um irmão ou a um esposo. Vós sabeis!

– Mariana, Teresa não voltará. Foi o último adeus.

– O meu pai disse-me. Mas talvez tenha sido melhor assim… – sorriu timidamente, sem sequer
se aperceber disso.

– Achais?

– Senhor Simão, a minha opinião não conta.

Figura 3 – Cena do filme Amor de Perdição