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Mário de Carvalho -
“As famílias desavindas”

Metas Linguagem, estilo e estrutura:


História pessoal e história social: as duas famílias. O conto: unidade de ação; brevidade narrativa; concentração 
de tempo e espaço; número
Valor simbólico dos marcos históricos referidos. limitado de personagens; 

A dimensão irónica do conto.
 A estrutura da obra; 

A importância dos episódios e da peripécia final. Discurso direto e indireto; 

Recursos expressivos.

Por uma dessas alongadas ruas do Porto, que sobe que sobe e não se acaba, há de encontrar-se um Narração da origem dos semáforos e
cruzamento alto, de esquinas de azulejo, janelas de guilhotina, telhados de ardósia em escama. Faltam razões para localização do aparelho – Introdução-
flanar por esta rua, banal e comprida, a não ser a curiosidade por um insólito dispositivo conhecido de poucos: os contextualização relativa aos semáforos da
únicos semáforos do mundo movidos a pedal, sobreviventes a outros que ainda funcionavam na Guatemala, no rua Fernão Penteado
início dos anos setenta.
No dobrar do século XIX, Gerard Letelessier, jovem engenheiro francês, fracassou em Paris e em Lisboa,
antes de convencer um autarca do Porto de que inventara um semáforo moderno, operado a energia elétrica, capaz
* Crítica à ação corrupta dos governantes
de bem ordenar o trânsito de carroças de vinho, carros de bois e landós da sociedade. A autoridade gostou do
projeto e das garrafas de Bordéus que o jovem engenheiro oferecia. Os semáforos estiveram ensejados para a
Ponte, mas, de proposta em proposta (sempre se tratava de uma implantação experimental), acabaram na
infrequentada Rua Fernão Penteado, na interseção com a travessa de João Roiz de Castel-Branco.
O sistema é simples e, pode dizer-se com propriedade, luminoso. Um homem pedala numa bicicleta erguida Descrição do equipamento dos semáforos e
a dez centímetros do chão por suportes de ferro. A corrente faz girar um imã dentro de uma bobina. A energia do seu funcionamento – Desenvolvimento –
gerada vai acender as luzes de um semáforo, comutadas pelo ciclista. Durante a Primeira Guerra foi introduzida apresentação das personagens e narração
uma melhoria. Uma inspeção da Câmara concluiu que a roda da frente era destituída de utilidade. Foi retirada. das peripécias associadas à relação
Houve muitos candidatos ao cargo de semaforeiro, embora um equívoco tivesse levado à exigência de que conturbada entre elas
os concorrentes soubessem andar de bicicleta. A realidade corrigiu o dislate porque acabou por ser escolhido um Relato do processo de seleção do primeiro
galego chamado Ramon, que era familiar do proprietário dum bom restaurante e nunca tinha pedalado na semaforeiro
vida*. Mas Ramon era esforçado, cheio de boa vontade. A escolha foi acertada.
Durante anos e anos o bom do Ramon pedalou e comutou. Por alturas da Segunda Grande Guerra foi
Sumário relativo às pessoas que
substituído pelo seu filho Ximenez, pouco depois da revolução de Abril pelo neto Asdrúbal, e, um dia destes, pelo
desempenharam o cargo de semaforeiro até
bisneto Paco. A administração continua a pagar um vencimento modesto, equivalente ao de jardineiro. Mas não é
ao presente da enunciação
pelo ordenado que aquela família dá ao pedal. É pelo amor à profissão. Altas horas da madrugada, avô, neto e
Os marcos históricos legitimam a
bisneto foram vistos de ferramenta em riste a afeiçoar pormenores. Fizeram questão de preservar a roda de trás e verosimilhança da narrativa e assinalam a
opuseram-se quase com selvajaria a um jovem engenheiro que considerou a roda dispensável, sugerindo que o passagem do tempo. Os conflitos
carreto bastasse. referidos podem também remeter para a
Os transeuntes e motoristas do Porto apreciam estes semáforos manuais, porque é sempre possível evolução da relação entre as famílias
personalizar a relação com o sinal1. Diz-se, por exemplo, «Ó Paco, dá lá um jeitinho!» e o Paco, se estiver bem- Descrição da relação atual entre semaforeiro,
disposto, comuta, facilita. motoristas e transeuntes

Acontece que, mesmo à esquina, um primeiro andar vem sendo habitado por uma família de médicos que
dali faz consultório. Pouco antes da instalação dos semáforos a pedal, veio morar o doutor João Pedro Bekett, pai Apresentação do primeiro médico e da origem
da discórdia com os semaforeiros
de filhos e médico singular. Chegou de Coimbra com boa fama mas transbordava de espírito de missão. Andava
1crítica ao recurso ao favor/cunha
pelas ruas a interpelar os transeuntes: «Está doente? Não? Tem a certeza? E essas olheiras, hã? Venha daí que
eu trato-o.» E nesta ânsia de convencer atravessava muitas vezes a rua. O semáforo complicava. Aproximou-se
do Ramon e bradou, severo: «A mim, ninguém me diz quando devo atravessar uma rua. Sou um cidadão livre
e desimpedido.» Ramon entristeceu. Não gostava que interferissem com o seu trabalho e, daí por diante,
passou a dificultar a passagem ao doutor. Era caso para inimizade. E eis duas famílias desavindas. Felizmente,
nunca coincidiram descendentes casadoiros. Piora sempre os resultados.
Ao Dr. Pedro sucedeu o filho João, médico muito modesto. Informava sempre que o seu diagnóstico era
provavelmente errado. Enganava-se, era um facto. Mas fazia questão de orientar os pacientes para um colega que Exposição das relações conflituosas entre
desse uma segunda opinião. Herdou o ódio ao semáforo e passava grande parte do tempo à janela, a médicos e semaforeiros.
encandear Ximenez com um espelho colorido.
Os semaforeiros estão ligados pelo “amor
Já entre o jovem médico Paulo e Asdrúbal quase se chegou a vias de facto. O médico passava e rosnava
à profissão”, partilham as mesmas
«Sus, galego». E Asdrúbal, sem parar de dar ao pedal: «Xô, magarefe!» Uma tarde, Asdrúbal levantou mesmo
características, atuam do mesmo modo,
a mão e o doutor encurvou-se e enrijou o passo.
sem especificidades individuais.
Este Dr. Paulo era muito explicativo. Ouvia as queixas dos doentes, com impaciência, e depois impunha
silêncio e começava: Os médicos estão ligados pelo “ódio ao
— As doenças são provocadas por vírus ou por bactérias. No primeiro caso, chamam-se viróticas, no semáforo” e são as suas particularidades
segundo, bacterianas. que desencadeiam e perpetuam o conflito
E estava horas nisto, até o doente adormecer. Colegas maliciosos sustentavam que ele praticava a
terapia do sono. Mas a maioria dos doentes gostava de ouvir explicar. Alguns até faziam perguntas. Após a *Caracterização humorística da personagem
consulta, muito à puridade, o Dr. Paulo pedia aos clientes que passassem pelo homem do semáforo e lhe (discurso indireto)
dissessem: «Arrenego de ti, galego!» Isto foi assim com Asdrúbal e, mais recentemente, com Paco.
Há dias, vinha do almoço o Dr. Paulo com uma trouxa de ovos na mão, e já trazia entredentes o «arrenego!»
Narração do acidente e da reconciliação das
com que insultaria o semaforeiro, quando aconteceu o acidente. Ao proceder a um roubo por esticão, um jovem
“famílias desavindas”
que vinha de mota teve uns instantes de desequilíbrio, raspou por Paco e deixou-o estendido no asfalto. Era
Discurso direto – nem sempre surge em
grave. O Dr. Paulo largou ódios velhos, não quis saber de mais nada e dobrou-se para o sinistrado:
forma de diálogo, mas sim como uma
— Isto, em matéria de lesões, elas podem ser provocadas por três espécies de instrumentos: contundentes,
reprodução de uma fala que caracteriza
cortantes, ou perfurantes. indiretamente as personagens (graficamente,
Uma ambulância levou o Paco antes que o doutor tivesse entrado no capítulo das «manchas de o discurso direto é apresentado de duas
sangue»*. formas)
Enganar-se-ia quem dissesse que o semáforo ficou abandonado. Uma figura de bata branca está todos os
dias naquela rua, do nascer ao pôr do Sol, a acionar o dispositivo, pedalando, pedalando, até à exaustão. É o – Conclusão – desfecho inusitado da história:
Dr. Paulo cheio de remorsos, que quer penitenciar-se, ser útil, enquanto o Paco não regressa. a reconciliação das famílias.

Os episódios relatados ilustram a origem dos conflitos entre semaforeiros e médicos, sendo que a peripécia final dá a conhecer a reconciliação entre estas famílias
através da atuação do Dr. Paulo que acaba com a quezília.

Ideias-chave
 O conto apresenta marcos históricos temporais que constituem eventos marcantes da nossa cultura (dois conflitos mundiais e a revolução do
25 de abril de 1974);
 A intriga estabelece um paralelo entre dois grupos sociais que se opõem em cada um dos marcos históricos (exploração das relações humanas,
relações ibéricas e estereótipos sociais);
 Os diversos semaforeiros constituem uma personagem coletiva que se caracteriza pelo amor incondicional aos semáforos (“pelo amor à
profissão”);
 O texto fixa breves episódios que marcam o confronto entre médicos e semaforeiros;
 O narrador recorre, frequentemente, à paródia, apostando na inversão irónica de códigos e de convenções com distanciamento crítico;
 O inusitado início transfigura-se na conclusão do conto: o acidente propicia a reconciliação das duas famílias.

Síntese
 Peripécia banal: um invento insólito e “provisório” nas ruas labirínticas da cidade do Porto.
A intriga  Retrospetiva do cargo “hereditário” de semaforeiro até à atualidade
 Acontecimento imprevisto: acidente de Paco
 Conclusão inusitada
O espaço o Alusões à cidade do Porto: “Rua Fernão Penteado, na interseção com a travessa de João Roiz de Castel Branco”
 Tempo histórico: desde o século XIX, período entre a I e a II Guerras Mundiais até à atualidade: “pouco depois da
O tempo revolução de abril”
 Passagem do tempo condensada: “durante anos e anos”
 Tempo sintetizado: do século XIX ao século XXI
 Gerard Letelessier: engenheiro francês fracassado tem sucesso no Porto com uma invenção inútil.
 Um autarca do Porto: símbolo de todos os autarcas da província; deslumbrado por um projeto estrangeiro.
 Os transeuntes e motoristas do Porto: representantes do gosto pelo facilitismo.
As personagens  Ramon: primeiro semaforeiro; pertence à geração da I Guerra Mundial.
 Dr. João Pedro Beckett: “pai de filhos e médico singular” com elevado “espírito de missão”.
 Ximenez: filho de Ramon, segundo semaforeiro, pertencente à geração da II Guerra Mundial.
 Dr. João: é um “médico muito modesto”.
 Asdrúbal: filho de Ximenez, terceiro semaforeiro, pertencente à geração de 1974.
 Dr. Paulo: médico filho do Dr. João, adormecia os doentes com explicações.
 Paco: bisneto de Ramon, segundo semaforeiro, pertence à geração do início do século XXI; sofre um acidente.
 Dr. Paulo: assume o posto de Paco para se redimir.
 O narrador de terceira pessoa narra os acontecimentos, comenta, conhece o passado e o mundo interior das
personagens (presença: não participante; ponto de vista: subjetivo; focalização: omnisciente)
O narrador  Retoma o passado para criticar o presente.
 Centra a atenção do leitor no quotidiano insólito.
 Parodia, de forma irónica, atitudes e comportamentos banais da sociedade portuguesa atual, mas que se arrastam no
tempo.
 O provincianismo português.
Dimensão paródica:  As invenções inúteis.
a atualidade da  A atribuição duvidosa de cargos públicos.
ironia  O deslumbramento nacional pelo estrangeiro.
 As relações ibéricas.
 As relações humanas.
 Os estereótipos sociais.