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HISTÓRIA DA IDADE

MÉDIA ORIENTAL

autor
GABRIEL NAVA LIMA

1ª edição
SESES
rio de janeiro  2016
Conselho editorial  luis claudio dallier, roberto paes e paola gil de almeida

Autor do original  gabriel nava lima

Projeto editorial  roberto paes

Coordenação de produção  paola gil de almeida, paula r. de a. machado e aline


karina rabello

Projeto gráfico  paulo vitor bastos

Diagramação  bfs media

Revisão linguística  bfs media

Revisão de conteúdo  bruno uchoa borgongino

Imagem de capa  neale cousland | shutterstock.com

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida
por quaisquer meios (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em
qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Editora. Copyright seses, 2016.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)

L732h Lima, Gabriel Nava


História da idade média oriental / Gabriel Nava Lima.
Rio de Janeiro: SESES, 2016.
200 p: il.

isbn: 978-85-5548-413-1

1. Idade média oriental. 2. Europa oriental. 3. Império bizantino.


4. Cruzadas. 5. Mundo árabe. 6.Islã. I. SESES. II. Estácio
cdd 940.1

Diretoria de Ensino — Fábrica de Conhecimento


Rua do Bispo, 83, bloco F, Campus João Uchôa
Rio Comprido — Rio de Janeiro — rj — cep 20261-063
Sumário

Prefácio 7

1. A Idade Média Oriental 9


1.1  Conceito de oriente no período 10
1.2  Espaços de estudo 13
1.3  Revisão sobre a expansão helenística e a dominação romana 16
1.3.1  Expansionismo Alexandrino 16

2. Império Bizantino 29

2.1  De Constantino a Teodósio: o cristianismo e a divisão imperial 30


2.2 Cristianismo 31
2.3  A divisão do Império em dois: Ocidente e Oriente 33
2.4  Organização socioeconômica do Império Romano do Oriente 39
2.5  Da crise à reorganização: O governo de Justiniano 41
2.6  O Império Bizantino 44
2.6.1  A arte bizantina 47
2.6.2 Religião 49
2.6.3 Sociedade 51

3. Mundo Árabe: Pré-islâmico ao califado omíada 55

3.1  Os Gassanidas e a organização da Península Arábica 57


3.1.1  O Crescente Fértil 59
3.1.2  Os Gassânidas. 60
3.2  Cultura e economia árabe 61
3.3  Maomé e a o início do Islamismo 63
3.3.1  A Doutrina Islâmica 65
3.4  O povo dos livros: organização de judeus e cristãos no Oriente 68
3.4.1 Judeus 69
3.4.2 Cristãos 70
3.5  Expansão e o califado Omíada 70
3.5.1  O califado Omíada 74
3.5.2  O fim do califado Omíada 76

4. Abássidas: do auge à fragmentação 81

4.1  O governo Abássida 82


4.2  Cultura, economia e as cidades. 85
4.2.1 Cultura 85
4.2.2 Economia 88
4.2.3 Cidades 90
4.3  A organização administrativa do Califado Abássida. 93
4.4  Fragmentação política: almohades, fatímidas e seldjúcidas. 94
4.4.1 Almohades 94
4.4.2 Fatímidas 96
4.4.3  Fim do califado 98
4.4.4 Seldjúcidas 99

5. O mundo falava árabe 105

5.1  As Casas de Cultura 106


5.1.1  As Casas de Cultura 108
5.1.2  A importância do papel para a difusão do saber 110
5.2  Documentos medievais e trocas culturais 111
5.2.1  Documentos medievais 112
5.2.2  Trocas Culturais 113
5.3  O grande Oriente: China, Índia e Mongol 115
5.3.1 China 115
5.3.2 Índia 117
5.3.3  Império Mongol 121
6. Novas forças no espaço oriental 127

6.1 Húngaros 129
6.1.1  O nascimento da cultura húngara 130
6.1.2  A última fronteira cristã 131
6.2 Búlgaros 132
6.2.1  O Bogomilismo 136
6.2.2  O controle de Bizâncio 136
6.3  Russos 138
6.3.1  O controle Mongol 141
6.3.2  O Surgimento da Rússia Imperial 142
6.4 Mongóis 143
6.4.1  A dinastia Yuan 145
6.4.2  A Horda de Ouro 146

7. O Império Bizantino e as Cruzadas no Oriente 153

7.1  A Querela Iconoclasta e a função da religião no Império Bizantino 155


7.2  A dinastia dos Macedônios, a diplomacia dos
Comnenos e as Cruzadas 159
7.2.1  A Dinastia Macedônica 159
7.2.2  A Dinastia Comneno. 160
7.2.3 Cruzadas 163
7.3  Crise e reorganização: Zinki, Nuredin, Saladino
e a reconquista muçulmana. 166
7.3.1 Zinki 166
7.3.2  Nureddin 167
7.3.3 Saladino 169

8. Os novos donos do Oriente 177

8.1  Quarta Cruzada: pelo comércio, à destruição de Constantinopla 179


8.1.1  A Bula Dourada 179
8.1.2  A Quarta Cruzada 179
8.2  A resistência e a Península Ibérica: Granada 185
8.2.1  Antecedentes 185
8.2.2  A reconquista 186
8.3  A chegada e vitória dos Otomanos 190
8.3.1  Origens Otomanas 190
8.4  A dinâmica do poder no Mediterrâneo 192
Prefácio
Prezados(as) alunos(as),

Os historiadores ocidentais que escrevem os livros de História sobre a Idade


Média, partem do continente europeu para explicar a construção do mundo
moderno e da contemporaneidade. De forma sistêmica, é excluída a História de
outros povos que viviam no mundo naquele período e é fácil entender porque
isso acontece: a história é contada pelos vencedores.
O mundo ocidental “criou” o mundo moderno e, graças a isso – de forma
direta ou indireta –, dita as regras que norteiam o momento atual que vive a hu-
manidade. Mas, sempre foi assim? Não. Podemos afirmar que somente a partir
do final do século XVII a Europa, com o advento da Revolução Industrial e das
mudanças sociais nascidas nesse período, começou a se firmar como potência
econômica, política e militar capaz de fazer frente às potencias orientais.
Se os livros de História que tratam do medievo tivessem uma abordagem
mais ampla, discutindo os múltiplos eventos que marcaram o período haveria
uma outra narrativa da História. Ao invés de analisar exclusivamente a Europa
ocidental, os livros tratariam igualmente da História dos povos da Europa orien-
tal e do Oriente Próximo. Neste caso, enfatizariam o papel desempenhado pelo
Império Bizantino no processo que culminou com o nascimento do Ocidente.
O mundo árabe e suas contribuições no campo científico e da tolerância a
comportamentos culturais diferentes dos seus, também seriam os temas prin-
cipais a serem abordados em tais livros. Por este prisma, o nascimento do Islã,
sua expansão e, consequentemente, sua influência no Oriente Médio, Ásia e
África ocupariam bastante espaço nestas obras.
Esse livro didático que ora apresentamos, busca fazer isso. Seu objetivo é
mostrar, mesmo que de forma superficial, a história de povos orientais que
de certa forma, influenciou no processo de desenvolvimento do Ocidente.
Portanto, conhecer a História dos povos orientais implica em um esforço para
que possamos entender a nossa própria História.

Bons estudos!

7
1
A Idade Média
Oriental
1.  A Idade Média Oriental
Quando se fala em História da Idade Média, a primeira ideia que vem à cabeça
está ligada a misticismo e a religiosidade. O movimento Iluminista tendeu a
ligar esse momento histórico à um “período de trevas”, no qual a busca por co-
nhecimento cientifico era visto como bruxaria. Entretanto, tais características,
ao menos no contexto oriental, não corresponderam à realidade. Lá, a busca
por conhecimento e a produção de riquezas fazia parte do convívio social. Exis-
tia religiosidade, guerras, doenças e outras características passíveis de compa-
rações com a Idade Média Ocidental, mas ao invés de “trevas”, os orientais bus-
cavam a “luz” do conhecimento científico.
Entretanto, para entendermos a Idade Média Oriental, é necessário pri-
meiro conhecer alguns conceitos que serviram de baliza para as discussões
que serão travadas no decorrer do curso e perceber a partir de uma perspectiva
diferente, alguns fatos históricos que marcaram o período medieval oriental e
também ocidental.

OBJETIVOS
•  Entender a construção do Conceito de Idade Média;
•  Entender a construção do Conceito de Oriente;
•  Contextualizar os conceitos de Idade Média e Oriente historicamente;
•  Delimitar social e geograficamente a região que era entendida pela Europa como Oriente;
•  Entender a importância do helenismo para o desenvolvimento da cultura ocidental e do
Oriente Próximo;
•  Fazer um resgate histórico do nascimento e declínio do Império Romano.
.

1.1  Conceito de oriente no período

Deixar claro o que foi o Oriente na Idade Média é difícil, principalmente porque
hoje, quando nos referimos ao Oriente, China e Japão são os primeiros países
que veem a cabeça. Todavia, quando olhamos os mapas desenhados na Idade
Média vemos que os estudiosos colocavam a cidade de Jerusalém como o cen-
tro do mundo e a terra era dividida em três partes: Europa, Ásia e África.

10 • capítulo 1
©© WIKIMEDIA.ORG

Figura 1.1  –  Mapa Mundi de Beato de Liébana. (Século IX).

ATENÇÃO
Desde o ano de 292 d.C a Europa já dividia o Mundo em Ocidente e Oriente. Diocleciano,
imperador romano nesse período, dividiu o Império em duas partes, cada uma administrada
por um Augusto. O Império ocidental tinha como centro de poder, Roma e o Oriente ficou
conhecido como Império Bizantino, pois, o centro do poder estava na cidade de Bizâncio,
atual Istambul.

Muito mais que uma divisão geográfica, definir o Oriente passa por enten-
der várias dimensões que se interligam. Não dá para pensar uma região tão
complexa como uma coisa só. É necessário pensar sua divisão política, cultural
e ideológica.
Por isso, antes de começarmos a falar do Oriente, é necessário deixar uma
coisa bem clara: os chamados orientais não se viam como orientais e nem sa-
biam o que isso significava aos olhos do Ocidente.
Edward Said (1990) ao discutir o nascimento do conceito de Oriente, afir-
ma que o mesmo foi criado pelo Ocidente como uma forma de estabelecer
um contraponto. O objetivo era deixar claro que o Ocidente era diferente do
Oriente e também que o Oriente representava tudo o que Ocidente não queria

capítulo 1 • 11
ser. Segundo Said, o Ocidente “criou” o Oriente para afirmar sua superiorida-
de em relação a regiões tidas como arcaicas, e para destacar a homogeneidade
europeia frente a diversidade de povos que viviam fora do continente europeu.
O Oriente é um Conceito e não uma posição meramente geográfica.
Entretanto, os ocidentais tendem a identificá-lo geograficamente, por isso,
todo o caldeirão cultural existente entre os “orientais” é simplificado geografi-
camente: o Oriente “se encontra” nas regiões da Europa Oriental e da Ásia. O
mundo ocidental passou a chamar toda a Ásia de Oriente e a subdividiu em três
grande regiões: Oriente Próximo, Oriente Médio e Extremo Oriente. Essa gra-
dação criou a dualidade: nós e eles. Traduzindo: o Ocidente criou uma série de
ideias, imagens e conceitos que foram entendidos por eles como se fossem do
Oriente ou orientais. O objetivo foi marcar a diferença entre as duas culturas.
Segundo Costa (2006, p.14),

O Oriente do Orientalismo, ainda que remeta vagamente a um lugar geográfico, expres-


sa mais propriamente uma fronteira cultural e definidora de sentido entre um nós e um
eles, no interior de uma relação que produz e reproduz o outro como inferior, ao mesmo
tempo em que permite definir o nós, o si mesmo em oposição a este outro, ora como
caricatura, ora como estereótipo sempre como uma síntese aglutinadora de tudo aquilo
que o nós não é nem quer ser.

Entretanto, durante quase todo o período da Idade Média os ditos orientais


desprezavam os ocidentais vendo-os, normalmente, como bárbaros. A citação
seguinte nos ajuda a entender porque o Oriente enxergava o Ocidente como um
local de bárbaros.

[...] Escute a velha máxima sobre o som do vento. Se ele puder ser solto sem ruído, isto
será melhor. [...] O som do peido, especialmente das pessoas que se encontram em lugar
elevado, é horrível. [...] Aqueles que, porque estão embaraçados, não querem que o vento
explosivo seja escutado, simulem um ataque de tosse. (ELIAS, 1994)

A citação foi compilada do Livro De civilitate morum puerilium, escrito por


Erasmo em 1530. Se no século XVI o Ocidente ainda passava por um “processo
civilizador”, não é de se estranhar que os orientais os vissem como bárbaros
na Idade Média. Havia, no Oriente, um código de postura e etiqueta que não se
assemelhava com o comportamento dos ocidentais.

12 • capítulo 1
Segundo Norbert Elias (1994, p.23)

O conceito de “civilização” refere-se a uma grande variedade de fatos: ao nível de tec-


nologia, ao tipo de maneiras, ao desenvolvimento científico, as ideias religiosas e aos
costumes. Pode se referir aos tipos de habitações ou à maneira como homens e mulhe-
res vivem juntos, a forma de punições determinada pelo sistema judiciário ou ao modo
como são preparados os alimentos [...] mas se examinarmos o que realmente constitui a
função geral do conceito de civilização [...] partiremos de uma descoberta simples: este
conceito expressa a consciência que o Ocidente tem de si mesmo. [...] ele resume
tudo em que a sociedade ocidental dos últimos dois ou três séculos se julga superior
as sociedades mais antigas ou a sociedades contemporâneas “mais primitivas” (grifos
nossos)

1.2  Espaços de estudo

Existem várias formas de dividir e estudar o período que vai de meados do sé-
culo V até o início da dita História Moderna ocidental. A ONU, Organização das
Nações Unidas, denomina de medieval ou Idade Média, o período histórico que
fica entre dois outros momentos: a Antiguidade Clássica e a Era Moderna.
Dividir e estudar esse momento histórico seria fácil, se fosse fácil dizer
onde um termina e o outro começa. Existem muitas divergências entre os
historiadores.
Quando começa o período medieval? Existem vários marcos Históricos para
responder esta pergunta:
•  A inauguração de Constantinopla em 330 d.C.;
•  A divisão definitiva do Império Romano em 395;
•  As invasões maciças bárbaras nos séculos IV e V;
•  A chamada “Grande Invasão” de 406;
•  A queda do Império Romano do Ocidente em 476;
•  A expansão ocidental do Islã nos séculos VI e VII d.C.;
•  A destruição da unidade do Mediterrâneo (tese de Pirenne);
•  A coroação de Carlos Magno em 800 d.C.

Qual deles melhor define o nascimento da Idade Média? Alguns estão li-
gados diretamente aos acontecimentos históricos que fazem referência ao

capítulo 1 • 13
mundo oriental e outros ao ocidental. A Europa e a historiografia moderna
tendem a enfatizar os marcos ligados às invasões bárbaras e a queda de Roma.
Mas, isso foi mais importante que o nascimento do islamismo e sua expansão?
Foi mais importante que a consolidação do poder do Império Bizantino? Este
é o problema de se periodizar os momentos sócio-políticos. Não existe o mais
importante, existe o que melhor se adequa ao ponto de vista de quem “conta
a História”.

COMENTÁRIO
As Expressões Idade Média, medievo ou medieval foram criadas na Era Moderna. É fruto
da necessidade natural do ser humano classificar, ordenar e separar para compreender as
realidades ou transformações que o cercam. Na História essa necessidade fez com que os
historiadores fizessem periodizações que chamaram eras, idades, períodos etc. sempre com
o objetivo de entender aquele momento histórico, todavia, quando ocorre a passagem de um
período para outro, não ocorrem rupturas totais. Prossegue existindo continuidades, aspec-
tos que se mantém sem grandes mudanças ou transformações.

Se definir um marco histórico é difícil, imagina um marco geográfico em


uma região onde isso não existia? “Simplificando” a pergunta para que se possa
entender o dilema: como delimitar uma área geograficamente determinada em
uma região onde existem várias culturas diferentes que se misturavam constan-
temente? Como definir um país se nesse momento o poder nascia e emanava
de uma cidade? Roma, Constantinopla, Bagdá, Damasco, Meca, Medina, Cairo
etc. Qual a mais importante? Impossível afirmar!
O Oriente e o Ocidente foram, e ainda são influenciados pelos acontecimen-
tos que nasceram nessas cidades ou regiões próximas a elas.
Mesmo assim dá para situar geograficamente o Oriente Medieval? De forma
simples, sim. Mas, é complicado. Por quê? Vejamos...
O Oriente medieval era um território que ia mais ou menos do mar
Mediterrâneo até ao Golfo Pérsico. Dele faziam parte a Europa, a Ásia e a
África. Dito assim parece fácil, mas, quando falamos em países temos que di-
zer que faziam parte do Oriente: a Turquia, a Arábia Saudita, Bahrein, Chipre,
Egito, Emirados Árabes Unidos, Iémen, Israel, Irã, Iraque, Jordânia, Kuwait,
Líbano, Palestina (que inclui a Cisjordânia e a Faixa de Gaza), Omã, Qatar, Síria,

14 • capítulo 1
Afeganistão e Paquistão. Isso é o Oriente Próximo e Médio, se incluirmos aí o
Extremo Oriente, há ainda a Índia, o Japão a China... Como falamos, é simples,
porém complicado.

FEDERAÇÃO RUSSA

DENMARK

KAZKAHSTAN MONGÓLIA

UZBEQUISTÃO CORÉIA DO
GEORGIA NORTE
JAPÃO
ARMENIA AZERBAIJÃO TURCOMENISTÃO CORÉIA
TURQUIA DO SUL
CHINA
SÍRIA AFEGANISTÃO CASHIMIR
CHIPRE
LÍBANO IRAQUE IRÃ
ISRAEL
JORDÂNIA PAQUISTÃO
KUWAIT NEPAL
BUTÃO
ARÁBIA
QATAR BANGLADESH
SAUDITA EAU TAIWAN
MIANMAR

ÍNDIA LAOS
OMAN
NIGER
TAILÂNDIA
IÊMEN VIETNÃ
CAMBÓDIA FILIPINAS
NIGERIA SRI
LANKA
MALÁSIA

CABINDA
(ANGOLA) INDONÉSIA

COMOROS
MAYOTTE
(FRANCE)

Figura 1.2 – Oriente Médio e Ásia.

REFLEXÃO
A cidade de Damasco e suas construções nos ajudam a entender como a História das duas
regiões estão interligadas graças ao seu cosmopolitismo. A Síria é um país islâmico, mas,
ainda é possível ver em Damasco o Templo de Júpiter (erguido no Império Romano), o bazar
Al-Hamidiyah (centro comercial que vende tecidos e especiarias para visitantes a séculos),
a mesquita Omíada (erguida no século VII) e o túmulo de Saladino (Líder militar que tomou
Jerusalém dos cruzados no século XII).

capítulo 1  • 15
CONCEITO
Cosmopolitismo é uma palavra derivada de Cosmopolita. Significa um lugar em que vivem
pessoas de todas as partes do Mundo ou, uma pessoa que se vê como um “cidadão do
mundo”, que acredita ser possível deixar de lado as diferenças de nacionalidade e criar uma
cidadania universal.

Não é simples entender a política, a sociedade e a cultura do Oriente medie-


val, por isso, é necessário voltar um pouco no tempo. Para entender o Oriente
medieval e sua influência no Ocidente, é melhor começarmos por enten-
der como o Império Romano e, consequentemente, sua cultura chegou até o
Oriente, lá se estabeleceu e, se mesclou a outras culturas.

1.3  Revisão sobre a expansão helenística e a dominação romana

1.3.1  Expansionismo Alexandrino

Você já deve ter ouvido falar em Alexandre, o Grande, mas, você sabe o que ele
fez e quais as consequências desses feitos para todo o mundo ocidental? Não
sabe? Não lembra? Vejamos como podemos ajudá-lo a relembrar.
Alexandre, O grande, era filho de Filipe II, rei da Macedônia. Seu pai foi o
responsável por expandir o reino da Macedônia até a Grécia e pôr fim a hege-
monia Grega no mar Egeu. Quando seu pai morreu, Alexandre continuou com
o processo expansionista começado pelo pai. No período que comandou a
Macedônia, seus domínios estendiam-se da Macedônia até a Índia.
Isso foi importe? E como! Mas, mais importante que a expansão militar, foi
o legado cultural criado e expandido por ele para o mundo. Em todas as áreas
controladas por Alexandre foram implantadas práticas culturais que mescla-
vam a cultura ocidental grega com a Oriental. Esse intercâmbio cultural ficou
conhecido como Helenismo.

CURIOSIDADE
O Helenismo foi a expansão da cultura grega pelos territórios conquistados por Alexandre. A
expansão da cultura grega fez nascer uma cultura sincrética. Nela estavam presentes influên-
cias das culturas macedônicas, orientais e gregas. Nessa mistura sincrética haviam as mais

16 • capítulo 1
©© WIKIMEDIA.ORG
variadas visões sobre religião, filosofia e co-
nhecimento das Ciências. A matemática, a
física, a medicina, a filosofia, a história, a geo-
grafia, a astronomia, a gramática e a literatura
foram algumas das áreas que se beneficiaram
com a fusão dos conhecimentos ocidentais
e orientais.

Figura 1.3  –  Busto de Alexandre, o Grande.

CURIOSIDADE
A cidade de Alexandria foi fundada por Alexandre, o Grande. Situada no Egito, a cidade foi
idealizada e construída para ser um centro de difusão da cultura helenística. Lá foi construído
um museu para ser ao mesmo tempo um Jardim Botânico, um Zoológico e Observatório As-
tronômico. Em Alexandria existiu o que se dizia ser a maior biblioteca do mundo. Nela haviam
pelo menos 250 mil livros e diversas salas onde filósofos e copistas trabalhavam em oficinas
com um único objetivo ambicioso: escrever ou traduzir para o grego todo o conhecimento
existente no mundo conhecido.
©© WIKIMEDIA.ORG

Figura 1.4  –  Uma das salas da Biblioteca


de Alexandria retrata em gravura do
século XIX.

capítulo 1 • 17
A expansão da cultura helenística (também chamada de greco-romana) não
está ligada só a Alexandre, o Grande. Ele foi o primeiro a mesclar a cultura oci-
dental com a oriental, entretanto, o Império romano, durante o período de ex-
pansão iniciado na República e finalizado no Império (como veremos a seguir)
tratou de expandir a cultura helenística por todos os seus territórios. Os roma-
nos conquistaram o território grego, mas, a Grécia conquistou os romanos atra-
vés de sua cultura.

Origens do Império Romano

Você sabe que os romanos foram o povo que mais influenciaram a socie-
dade europeia e ocidental, mas você sabia que eles influenciaram também o
Oriente? Vamos estudar agora o desenvovimento da cidade de Roma para en-
tendermos como isso aconteceu.

O Império Romano em 117


CALEDÔNIA MAR
GERMÂNICO Províncias senatoriais
HIBÉRNIA Eboraco
Províncias imperiais
Deva Estados clientes
BRITÂNIA
Londínio

MAGNA
OCEANO GERMÂNIA
INFERIOR Colônia
Agripina GERMÂNIA
BÉLGICA
Lutécia Augusta
Treveroro
1. ALPES PENINOS
2. ALPES COTIOS
LUGDUNENSE
GERMÂNIA
Augusta
Vindelicoro Vindobona
SARMÁTIA
SUPERIOR
3. ALPES MARÍTIMOS Limono Lauriaco
RÉTIA Aquinco
AQUITÂNIA Lungduno NÓRICA PANÔNIA
SUPERIOR
Napoca REINO DO
Ólbia
Burdigala Mediolano BÓSFORO
Aquileia Apulo
PANÔNIA
INFERIOR
DÁCIA IBÉRIA
NARBONENSE Cremona MÉSIA
Sarmisegetusa
Massília DALMÁCIA INFERIOR
Salamântica César Augusta Narbo Márcio
Naisso
Tomis
PONTO EUXINO
LUSITÂNIA TARRACONENSE ITÁLIA Salona Durostoro
Trapezo ARMÊNIA
Toleto CÓRSEGA MÉSIA
Emerita Augusta Tarraco SUPERIOR Filípolis
BITÍNIA E Artaxata
Aléria PONTO
Itálica Nápoles
TRÁCIA Bizâncio CAPADÓCIA
Dirráquio
MACEDÔNIA GALÁCIA
Córduba
SARDENHA Tessalônica
Gades
BÉTICA ÉPIRO Niceia Ancira ASSÍRIA
Nova Cartago Tarento
Butroto Cesareia IMPÉRIO
Caralis ACAIA ÁSIA
Edessa
PARTO
Panormo Nisibis
Cesareia Éfeso
Tingi CILÍCIA
Útica Antioquia MESOPOTÂMIA
MAURITÂNIA MAURITÂNIA SICÍLIA Corinto Atenas Mileto
Tarso
TINGITANA
Cartago
Siracusa LÍCIA E SÍRIA
CESARIENSE Cirta
ÁFRICA PANFÍLIA Ctesifonte
Tarso
CHIPRE Salamis

PROCONSULAR Mare Nostrum CRETA


Babilônia

GETÚLIA Tiro

E JUDEIA
Léptis Magna Jerusalém

Cirene
Alexandria
ARÁBIA
Petra
CIRENAICA ARÁBIA
FAZÂNIA Mênfis
PÉTREA

EGITO

Figura 1.5 – Mapa dos territorios conquistados pelo Imperio Romano.

18 • capítulo 1
CURIOSIDADE
Alexandre, o Grande, teve como tutor o filósofo Aristóteles, um dos maiores pensadores gre-
gos. Aristóteles influenciou grandes teólogos da Idade Média como Santo Agostinho. Além
disso, a sua discussão sobre o que é Justo e o que é Justiça ainda é debatida constantemen-
te no Ocidente, principalmente no Direito.

CURIOSIDADE
Há uma lenda que diz que cidade de Roma foi fundada por dois irmãos: Rômulo e Remo.
Eles seriam filhos do Deus grego Marte. Recém-nascidos os irmãos foram colocados em um
cesto jogados no rio Tibre. O cesto encalhou no sopé dos montes Palatino e Capitolino, onde
foram encontrados por uma loba que os amamentou. A lenda diz que os dois irmãos entraram
em uma disputa sobre quem criaria uma cidade no local onde os dois foram encontrados.
Rômulo assassinou Remo e fundou a cidade de Roma.
©© JEAN-POL GRANDMONT | WIKIMEDIA.ORG

Figura 1.6  –  Lupa Capitolina: Rômulo e Remo sendo amamentados pela Loba.

Monarquia

A Monarquia romana teve início em 753 a.C. e foi até 509 a.C. Na monarquia
romana o rei era ao mesmo tempo o chefe militar, religioso e tinha a função
de juiz, mas, seus poderes eram limitados pelo Senado. Foi durante o período
da monarquia que Roma criou seu modelo de desenvolvimento econômico e
social: guerras por territórios e escravidão dos vencidos.

capítulo 1 • 19
Não foi só aqui no Brasil que o escravo foi a base da mão-de-obra. A História
de Roma foi construída a partir da escravidão. A maioria dos escravos era oriun-
da das guerras de conquistas, mas, também existiam escravos por dívida. Assim
como no Brasil, a escravidão era hereditária.

COMENTÁRIO
Durante toda a existência de Roma o Senado Romano teve um papel determinante na or-
ganização e controle social. Na Monarquia os senadores aconselhavam o rei na tomada de
decisões. A República romana nasceu de um golpe político organizado pelos senadores pa-
trícios. Durante o Império tiveram seu poder limitado pelo Imperador, mas, mesmo assim,
ainda influenciavam nas tomadas de decisões.

República Romana

O nascimento da República aconteceu no ano de 509 a.C. O governo era che-


fiado por dois cônsules. Eram eleitos, mas, graças a leis criadas pelo Senado, só
podiam exercer o cargo por um ano. O objetivo da criação dessa lei era controlar
o poder do magistrado.
A palavra República significa coisa pública, coisa do povo, mas, na Roma re-
publicana o poder estava nas mãos dos Patrícios, por isso, o período republica-
no foi marcado por lutas entre Patrícios e Plebeus. Por serem mais numerosos e
porque Roma necessitava deles, paulatinamente os plebeus foram alcançando
direitos através das leis:
•  Em 471 a.C. foi criado o cargo de Tribuno da Plebe (Magistrado com direi-
to de vetar decisões lesivas aos plebeus.);
•  Em 450 a.C. foi editada a Lei das Doze Tábuas (que garantia que todas as
leis fossem escritas);
•  Em 445 a.C. foi editada a Lei da Canuléia (permitia o casamento entre ple-
beus e patrícios, até então proibido).

A edição dessas e de outras leis fizeram com que algumas poucas famílias
plebeias tornassem membros da aristocracia romana.
Se internamente Roma começou a dividir o poder com a plebe, no plano
externo amplia-se a expansão romana pelo Mediterrâneo. Entre o século V e o
século III a. C. Roma consegue pacificar e tomar para si toda a Península Itálica.

20 • capítulo 1
O passo seguinte foi o mar Mediterrâneo. Com o objetivo de dominar o co-
mércio marítimo no mediterrâneo, Roma começou uma guerra com a cidade
de Cartago que entrou para a História com o nome de Guerras Púnicas. Ao final
da Guerra, Roma tinha o controle sobre o comércio no mediterrâneo e Cartago
foi destruída.
Rômulo e Remo eram tidos por filhos de Marte, o Deus da guerra, por isso
sua descendência, os patrícios, acreditava fielmente que ele os guiava. Durante
quase quatro séculos o poder da cidade de Roma se expandiu por todo o medi-
terrâneo, através de guerras que tinham como objetivo conquistar terras e fazer
escravos para trabalharem para a cidade.

Figura 1.7  –  Pintura do século XIX representando o do Senado Romano: Cícero


Discursando.

As principais consequências desse expansionismo foram:


•  O enriquecimento da cidade de Roma graças ao fluxo de riquezas prove-
nientes das conquistas;
•  A mudança no modelo econômico que passa a ter como base o comércio;
•  O acúmulo de terras por parte da aristocracia e, consequentemente, o êxo-
do da população do campo para a cidade;
•  O crescimento do número de escravos em decorrência das guerras
de conquistas;
•  O aumento da desigualdade social;
•  A difusão da cultura helenística pelos territórios conquistados.

capítulo 1 • 21
CURIOSIDADE
Os patrícios eram descendentes das primeiras famílias de Roma e detinham o poder de fato
durante a maior parte do período da República. Os Plebeus era as pessoas que não possuíam
origens nobres, eram o povo.

Figura 1.8  –  A República Romana – 509 a.C a 31 a.C. Expansão territorial de roma durante
período republicano.

REFLEXÃO
A escravidão é uma instituição social que desde sempre foi usada como expediente para
produção de riquezas pela humanidade. Tanto no Ocidente, quanto no Oriente, o ato de ex-
plorar o ser humano com o objetivo de ganhar dinheiro já foi visto como algo natural, correto
e amparado por lei. No Brasil, escravo é para a maioria das pessoas sinônimo de negro; de
africano. Mas, essa visão é errada. Historicamente, toda grande civilização possuía escravos
dentre os grupos sociais que a formavam.
No Brasil, a escravidão aconteceu a partir da exploração de uma etnia específica. No
restante do mundo não foi assim. Haviam escravos advindos de guerras, de dívidas. O motivo
de ter escravos, independentemente da cor e da raça sempre foi um só: explorar mão-de-o-
bra para produzir riquezas para outros. No Brasil e em diversos lugares do mundo, o ato de
explorar uma pessoa a partir da instituição escravidão ainda é uma realidade. Por mais que
haja a proibição e a punição, alguns seres humanos se acham superiores ao ponto de tirar a
liberdade e obrigar um outro ser humano a trabalhar como escravo.

22 • capítulo 1
Império
As disputas internas pelo poder durante o período da República fizeram nas-
cer o Império Romano. Os séculos II e I a. C. foram marcados por revoltas e dis-
putas pelo poder que ameaçaram desestabilizar a estrutura política, econômica e
social de Roma. Para minimizar essas disputas foi necessário criar o triunvirato.

COMENTÁRIO
Triunvirato é um governo formado por três representantes. Roma foi governada por dois triun-
viratos. O primeiro era formado por Pompeu, Júlio César e Crasso. O segundo foi formado por
Lépido, Marco Antônio e Otávio, que virou Imperador com o título de Augustus, que significa
“o escolhido por Deus”.

ATENÇÃO
O governo de Otávio Augusto, o primeiro Imperador Romano ficou conhecido como o Século
de Ouro. Roma foi embelezada e vários prédios imponentes foram construídos, como o Coliseu.
O imperador criou a guarda pretoriana, que tinha a função de lhe proteger, mas, com o passar
do tempo, passou a ser vista como símbolo de poder e força. Também foi criada a política do
“pão e circo” (para controlar o povo, o Imperador promovia lutas de gladiadores no Coliseu e dis-
tribuía comida para a plebe). Por último, mas, não menos importante, foi declarada a “pax roma-
na”. Roma acabou com a política expansionista, o que trouxe prosperidade e paz para o Império.
©© TILL NIERMANN | WIKIMEDIA.ORG

Roma chegou ao seu apogeu em


meados do século IV. O Império ficou
tão vasto que, para que fosse possível
governá-lo de forma plena foi necessá-
rio dividi-lo em dois: um no Ocidente,
com a capital em Roma e o outro
no Oriente, com a capital na cidade
de Constantinopla.

Figura 1.9  –  Estátua Augusto de Prima Porta.

capítulo 1 • 23
capítulo 1
24 •
Figura 1.10 – Mapa do território do Império Romano. Fonte: Wikipédia
O declínio do Império, segundo alguns historiadores, está ligado direta-
mente a “Pax Romana”. Sem guerra não havia escravos e, em uma economia
onde a produção dependia do trabalho escravo isso significou “falência”. A paz
romana foi o início do fim do Império.
Quando o salário de uma pessoa diminui, é necessário fazer ajustes para
que ela possa viver com uma renda menor, você sabe disso. Roma não sabia.
Com a queda da arrecadação em decorrência da diminuição da produção,
Roma passou a emitir moeda para manter o padrão de consumo, ocasionando
inflação. A diminuição da arrecadação também trouxe consigo uma crise mili-
tar e o enfraquecimento das fronteiras do império.
Barros (2009, p.567) afirma que no século III a “desorganização começa a
se fazer notar nos âmbitos econômico, político e militar” e no século IV ela se
instala de vez. Para respaldar sua afirmação ele enumera vários fatores que so-
mados, destruíram as bases imperiais de Roma:
•  Conflitos sociais diversos;
•  Distúrbios ocasionados pela crise do Escravismo;
•  O Atrito crescente entre o poder do Imperador e o Senado;
•  A partilha do poder imperial, vaticinando a divisão do Império em duas
unidades políticas;
•  A quebra da unidade do Exército através de um decreto imperial, criando
divisões por províncias e territórios de atuação;
•  A criação e imposição de castas profissionais em fins do século IV indi-
cando a necessidade de fazer frente a tendências de desorganização no âmbi-
to econômico.

ATENÇÃO
O Império Romano no Ocidente teve seu fim no final do século V, mas, seu legado e influên-
cia no mundo ocidental perduram até hoje. As línguas latinas (francês, português, espanhol
etc.) são oriundas do latim, língua oficial do Império Romano. O Direito Ocidental tem suas
raízes fincadas no Direito Romano. O conceito de República é Romano. A influência da ar-
quitetura romana é vista cotidianamente nas grandes cidades do Ocidente e do Oriente e o
Cristianismo, difundido por Roma quando se tornou a religião oficial do Império é a religião
do Ocidente.

capítulo 1 • 25
Nos próximos capítulos discutiremos as disputas pelo poder no Império
Romano, a divisão do Império em Ocidente e Oriente e o que foi o Oriente
Medieval. Analisaremos as formas de governos, as culturas, seus povos, suas
cidades, seu poder comercial, as lutas pelo poder em regiões imensas. Nós per-
correremos um caminho e estudaremos uma História que, normalmente, não
está nos livros de História que tratam do período Medieval.

REFLEXÃO
Todos os dias nós vemos imagens de guerra na televisão. Guerras religiosas; guerras pela
disputa de territórios; guerras cujo único objetivo é eliminar uma etnia (África), guerras pelo
controle de uma região rica em metal precioso. A Guerra sempre fez parte da História da
humanidade e, talvez seja por isso que quando vemos essas imagens, apesar de chocantes,
“esqueçamos” logo depois. Pior, normalmente nem nos interessamos em saber o motivo real
dos conflitos. Talvez seja a hora de nos interessarmos. Viver em um estado de guerra perma-
nente não permite o desenvolvimento social, pior, destrói um país inteiro, como a Síria.

RESUMO
Até aqui discutimos:
•  O conceito de Idade Média Oriental e percebemos que fazer um recorte temporal ou um
marco teórico para analisar esse período histórico é difícil, pois houve inúmeros aconte-
cimentos que marcaram de forma profunda o período e cada um foi importante para um
determinado povo ou região;
•  Percebemos que a visão que nós temos do Oriente foi criada pelo Ocidente no período
moderno. Assim, buscamos diferenciar a Europa (que se expandia pelo mundo dominando
todos os povos que encontravam com o argumento que estavam levando a civilização) e o
Oriente (que era sinônimo de desordem social e fanatismo religioso);
•  Aprendemos que no período medieval era o Ocidente que vivia fragmentado sob a configu-
ração dos Reinos Germânicos enquanto o Oriente estava em franco desenvolvimento social,
econômico e científico, muito em função do Império Bizantino;
•  Começamos a estudar a influência que o conhecimento Oriental exerceu no Ocidente, no
período medieval e, como essa influência ajudou o Ocidente a se desenvolver econômica,
política e socialmente;

26 • capítulo 1
•  Aprendemos o que foi o Helenismo e sua importância para o desenvolvimento das socie-
dades da Antiguidade Clássica;
•  Aprendemos como o nascimento, a expansão e o declínio do Império Romano influencia-
ram de forma decisiva na construção do mundo moderno.

ATIVIDADES
01. (FUVEST - ADAPTADA) A chamada Ásia Ocidental constitui importante área de encon-
tro de três continentes: a Ásia, a África e a Europa. É marcada, principalmente, pela insta-
bilidade dos limites políticos, diversidade étnica da população e multiplicidade das crenças
religiosas. A região foi um local onde a cultura Ocidental e Oriental se mesclaram na Antigui-
dade Clássica. A essa mescla se convencionou chamar de:
a) Islamismo d) Helenismo
b) Cristianismo e) Judaísmo.
c) Budismo

02. (UEMG-2007) Leia, a seguir, o fragmento de uma obra do historiador Marc Bloch. “De
um lado, a língua de cultura, que era, quase uniformemente, o latim; do outro, na sua diver-
sidade, os falares de uso diário. [...] Esse dualismo era característico da civilização ocidental
propriamente dita e contribuía para a colocar fortemente em oposição aos seus vizinhos: os
mundos celta e escandinavo, que possuíam ricas literaturas, poéticas e didáticas, em línguas
nacionais; o Oriente grego; o Islão, pelo menos nas zonas realmente arabizadas”. Assinale
a alternativa que completa CORRETAMENTE o seguinte enunciado: Nesse fragmento, o
historiador trata:
a) do choque entre culturas, que tem marcado as relações Ocidente e Oriente.
b) da experiência feudal vivida no Ocidente europeu.
c) do desdobramento do Humanismo renascentista no campo das letras, com a afirmação
dos falares nacionais
d) do obstáculo que o processo de formação dos Estados Nacionais Modernos encontrou
para a criação de um idioma comum aos seus habitantes.
e) Nenhuma das Anteriores

03. (UNIFESP-2008) Podemos dizer que antes as coisas do Mediterrâneo eram dispersas,
mas como resultado das conquistas romanas é como se a história passasse a ter uma unida-
de orgânica, pois, as coisas da Itália e da África passaram a ser entretecidas com as coisas

capítulo 1 • 27
da Ásia e da Grécia e o resultado disso tudo aponta para um único fim. (Políbio, História, I.3.)
No texto, a conquista romana de todo o Mediterrâneo é:
a) criticada, por impor aos povos uma única história, a ditada pelos vencedores.
b) desqualificada, por suprimir as independências políticas regionais.
c) defendida, por estabelecer uma única cultura, a do poder imperial.
d) exaltada, por integrar as histórias particulares em uma única história geral.
e) lamentada, por sufocar a autonomia e identidade das culturas.

04. (Fatec-1995) O Império Romano expandiu-se pelo Mar Mediterrâneo durante o período
republicano; isso gerou, no decorrer do século II d.C., várias repercussões, entre as quais
podemos destacar:
a) surgimento da classe média de pequenos proprietários rurais e desaparecimento dos
latifundiários.
b) aumento da população rural na Itália e consequente declínio da população urbana.
c) crescimento do número de escravos e grande fluxo de riquezas.
d) criação de grande número de pequenas propriedades e fortalecimento do sistema
assalariado.
e) difusão do Cristianismo e proscrição das manifestações culturais de outras regiões.

05. (UNICAMP-1997) “Augusto conquistou os soldados com presentes, o povo com pão
barato, e todos os homens com os frutos da paz. Assim tornou-se progressivamente mais po-
deroso, congregando em si as funções do Senado, dos magistrados e das leis.” [Tácito, Anais
1.2, (MOSES HADAS, ED., THE COMPLETE WORKS OF TACITUS, NEW YORK, RAND OM
HOUSE, 1942, p. 3)].
a) Identifique o período da história de Roma tratado nesse texto.
b) A partir dos elementos indicados no texto, caracterize o Estado romano durante esse
período.

28 • capítulo 1
2
Império Bizantino
2.  Império Bizantino
No capítulo anterior discutimos como nasceu o conceito de Idade Média e o
conceito de Oriente. Aprendemos que o conceito de Idade Média foi criado para
demarcar o momento em que o pensamento filosófico da Antiguidade Clássi-
ca ocidental foi interrompo pelo dogma religioso e o momento em que ele foi
retomado no Ocidente. Aprendemos que o conceito foi criado para demarcar
o momento de declínio do Ocidente – quando um conjunto de fatores que vão
desde o enfraquecimento econômico do Império Romano até as invasões das
tribos germânicas – e seu renascimento.
Também estudamos o problema de definir geograficamente, socialmente
e culturalmente o Oriente. Percebemos que fazer isso, mesmo hoje, é difícil.
Estudamos a expansão da cultura helenística e por fim, fizemos uma retrospec-
tiva histórica, relembrando como se deu o nascimento, a expansão e o declínio
do Império Romano.
Agora iremos estudar como nasceu e se expandiu o Império Romano do
Oriente, sua organização socioeconômica, a ruptura política com o Ocidente e
o nascimento do Império Bizantino.

OBJETIVOS
•  Estudar a expansão do cristianismo e a separação do Império Romano em duas unidades
administrativas: Ocidente e Oriente;
•  Entender como se deu a organização socioeconômica no Império Romano no Oriente;
•  Compreender a crise estrutural que pôs fim ao Império Romano do Oriente;
•  Estudar o Império Bizantino, sua origem e desenvolvimento.

2.1  De Constantino a Teodósio: o cristianismo e a divisão imperial

Você deve ter aprendido nos livros de História que Constantino foi o primeiro
Imperador cristão do Império Romano. E foi, mas sob quais circunstâncias?
Fé em Cristo? Oportunismo político? Forma de unir um Império que estava se
esfacelando a partir de uma religião que estava se expandindo?

30 • capítulo 2
Figura 2.1  –  Letras do alfabeto Grego que justapostas representam a palavra Cristo. Usá-
las representa um ato de fé no mundo cristão.

Todas essas perguntas podem ser respondidas com um sim ou um não, de-
pende do ponto de vista de quem escreve a história. Sendo bem direto: não há
como afirmar se a conversão e o fim da perseguição ao cristianismo decretada
pelo Imperador Constantino foi um ato político ou de fé.
Entretanto, para o nosso estudo, isso tem pouca importância. O que nos in-
teressa é entender como esse momento histórico influenciou política e social-
mente o Império Romano.

2.2  Cristianismo

O cristianismo se expandiu no Império Romano em um ambiente totalmente


hostil. A religião romana era politeísta e haviam perseguições frequentes aos
seguidores do Cristo. A crença num Deus único, onipotente e onipresente foi
um dos principais motivos para a perseguição, mas, não o único:
•  O culto ao imperador era uma forma de fé, de professar lealdade ao
Império e para os cristãos a divindade do imperador não existia;
•  Os seus primeiros devotos eram oriundos das camadas mais pobres da
população, sobretudo escravos e plebeus e, como o cristianismo não fazia dis-
tinção entre classes sociais, a defesa da “igualdade entre as classes” os fez se-
rem vistos como verdadeiros revolucionários.
•  O ato de considerar todos os homens iguais era visto como um questiona-
mento direito da estrutura aristocrática romana.
•  Como as revoltas de escravos eram temidas e, como o cristianismo tinha
grande influência nesse meio social, ele também passou a ser visto como um
meio de propagar a subversão do sistema e da ordem social.

capítulo 2 • 31
ATENÇÃO
A crença na existência de dois mundos, ou reinos – o dos homens e o dos Céus – e a certeza
de que pertencia ao Reino dos Céus, fazia com que o cristão sempre que existisse um confli-
to entre as leis divinas e a lei dos homens, optasse por seguir a lei divina. A não ser por estes
momentos, o cristão normalmente respeitava as leis do Império (dos homens).

Mas, mesmo com o crescimento das perseguições, a crença no Cristo conti-


nuou a se expandir. Alguns historiadores chegam a afirmar que as perseguições
foram um dos motivos que levaram à expansão, pois, a abnegação e o destemor
do cristão diante da morte criaram as figuras dos mártires da fé.
Alguns historiadores como Tim Dowley afirmam que:

Anos de perseguição fortaleceram-lhe [a Igreja] a organização e seus adeptos se con-


venceram que sua Igreja (ecclesia) era una e indivisível, instituição peculiar e poderosa,
um Estado divino (civitas dei) isolado dos reinos deste mundo. À medida que a deca-
dência do Império se acentuava, a força da Igreja crescia. A filiação ao estado trazia
apenas sofrimento, ao passo que a filiação a Igreja representava um conforto moral
e material. A doutrina de Cristo exigia que todos amassem e ajudassem o próximo.
(1961, p.279)

Outras leituras desse momento aventam outros motivos para as persegui-


ções. De Boni (2014) levanta três dessas hipóteses ligadas a legislação da época:
•  Houve a criação de uma legislação especial para as perseguições;
•  “Uma segunda opinião via a perseguição como condenação devido à recu-
sa dos cristãos, por inertia, pertinácia ou obstinatio, a celebrar os cultos tradi-
cionais de Roma.”
•  [...] Uma terceira posição considerava a perseguição como punição por
parte do poder policial, em defesa da ordem pública. Os cristãos eram punidos,
portanto, pelo direito penal comum, do qual os funcionários se valiam para im-
por a pena que julgassem cabível, e os cristãos seriam então punidos não pelo
fato de serem cristãos, mas por violarem as leis romanas, como nos crimes de
ateísmo, lesa-majestade, magia, superstição e os flagitia.

32 • capítulo 2
A primeira hipótese é negada por ele por não existir um documento que pro-
ve a afirmação. Segundo Boni há éditos imperiais que tratam da punição para
quem pratica culto religioso diferente do oficial, todavia, nenhum é específico
para cristãos. A segunda interessava mais aos governadores de províncias que
ao Império. A possibilidade de aplicar as leis era usada como meio para manter
a ordem pública, por isso não seguia um rito processual. Era o poder discricio-
nário dos governadores que definiam o crime e a punição ao transgressor. A
terceira é a mais aceita pela historiografia vigente.
De Boni (2014) termina sua análise afirmando que:

De fato, leis e editos imperiais, contra os cristãos, bem como determinações do senado,
válidos em todo o império, foram poucos e só surgiram a partir do ano 250. O que hou-
ve, geralmente, foram medidas tomadas por governadores, por procônsules e outros
administradores locais, quando não pela turba amotinada. Nem havia, então, legislação
classificando como sacrilégio o fato de não se prestar culto aos deuses: o culto pres-
tado pelos cristãos a seu Deus podia ser motivo de desconfiança para os pagãos, mas,
nos primeiros tempos, não era considerado crime.

Controvérsias à parte, é fato que o papel desempenhado pelo cristianismo


foi importante e decisivo para a transformação e o declínio do Império Romano.

2.3  A divisão do Império em dois: Ocidente e Oriente

A cidade de Roma era a capital do maior império do Ocidente, com braços es-
tendidos que chegavam ao Oriente. Por possuir estas dimensões geográficas,
era um império difícil de governar.
A grandiosidade do Império Romano fez nascer, entre os anos de 235 a 284,
uma crise institucional e social. As fronteiras do Império eram acossadas por
tribos bárbaras e o exército, bem como o Senado, tinham perdido autoridade
e autonomia. Essa crise entrou para a História como a crise escravista e, para
muitos estudiosos, foi o principal motivo do declínio e fim do Império Romano.
A economia do Império Romano foi estruturada a partir das guerras de expan-
são de fronteiras, dos saques dos territórios conquistados e da escravidão dos
povos dominados. No século III o Império se tornou tão vasto que ficou muito
caro manter as guerras expansionistas e por isso foram suspensas. O fim das

capítulo 2 • 33
guerras de expansão fez diminuir a entrada de mão-de-obra escrava. Além dis-
so, boa parte dos soldados que foram dispensados do exército não voltou para
o campo. Os ex-soldados migraram para as cidades, causando uma crise de de-
sabastecimento, pois, houve escassez de mão-de-obra para trabalhar nas áreas
rurais e excesso de pessoas sem ocupação nas cidades.
A soma de todos esses fatores teve como consequências:
•  Disputas violentas pelo poder entre os imperadores militares;
•  Desintegração do sistema de arrecadação de impostos;
•  Crise monetária;
•  Revoltas camponesas;
•  Falta de mão-de-obra;
•  Ruralização e autossuficiência das terras que pertenciam à aristocracia
como forma de sobrevivência. (Colonato).

O Imperador Diocleciano, na tentativa de resolver esses problemas, dividiu


o Império em dois: Ocidental e Oriental. Administrativamente os dois impé-
rios eram independentes. Politicamente, o poder ainda estava nas mãos do
Imperador Diocleciano, em Roma.
Mesmo com a divisão do império em dois, administrá-lo ainda era difícil.
Diocleciano, com o objetivo de dinamizar a administração, fez uma nova di-
visão de poder, nomeando mais dois administradores. Eles foram chamados
de Césares e designados para governar as regiões mais distantes do Império
em nome do Imperador. Esse sistema de governo passou para história com o
nome de Tetrarquia. O objetivo inicial era diminuir as lutas internas pelo poder
e facilitar a administração. Não funcionou, ao contrário, ampliou a luta e a de-
gradação do poder político.

CONCEITO
Tetrarquia define qualquer forma de governo onde o poder está dividido em quatro partes,
não necessariamente com a divisão dos poderes em base de igualdade entre as partes.

34 • capítulo 2
© WIKIMEDIA.ORG Império Romano do Ocidente
Império Romano do Oriente

Figura 2.2 – Mapa da divisão do Império Romano em Ocidental e Oriental.

Dividir a administração do Império serviu para dirimir a crise administrati-


va do século III, mas, ao invés de diminuir as lutas internas pelo poder, surtiu
um efeito contrário. A disputa se tornou violenta e no final o César Constantino
reunificou a administração e se tornou o único Imperador Romano.
O Imperador Constantino foi uma figura histórica controversa. Foi o pri-
meiro Imperador Romano a se converter ao cristianismo e pôr fim as perse-
guições aos cristãos, todavia, sua conversão ainda é posta a prova por alguns
historiadores. Para os marxistas, Constantino se valeu da Igreja para fortale-
cer o poder Imperial. Para outros historiadores, das mais diferentes vertentes,
ele viu no cristianismo dinamismo e organização, características que ele pró-
prio admirava.
Pragmatismo, ação política, ou ato de fé? Fato é que a conversação do im-
perador foi uma das principais razões da expansão do cristianismo dentro do
Império Romano. A religião cristã não foi imposta por Constantino aos seus sú-
ditos, mas, como a pessoa do imperador influenciava nas questões administra-
tivas, no exército, na coleta de impostos e na nomeação de pessoas para cargos
públicos, aos poucos o cristianismo foi ganhando força de comando dentro da
estrutura administrativa do Império.

capítulo 2 • 35
No início do reinado de Constantino o cristianismo foi apresentado como
mais uma religião que existia no Império, todavia, a organização do Concílio de
Nicéia convocado por Constantino e principalmente, a mudança da capital do
Império para Bizâncio, demonstravam que o cristianismo possuía influência
de fato dentro da estrutura do Império Romano e, que o Oriente passava a se
destacar frente ao Ocidente na estrutura de poder.

Assim o imperador Constantino concedeu aos cristãos, por meio do chamado Edito de
Milão, em 313, liberdade de culto. Em seguida, esse mesmo imperador procurou tirar
vantagem e interveio nas questões internas que dividiam os próprios cristãos e con-
vocou um concílio, uma assembleia da qual participavam os principais padres cristãos.
Nos concílios foram discutidas as diretrizes básicas da doutrina cristã. Depois, Constan-
tino cuidou pessoalmente para que as determinações do concílio fossem respeitadas,
ou seja, passou a ter um controle muito maior dos cristãos e suas ideias. Antes de
morrer, o imperador resolveu batizar-se também (FUNARI, 2002, p. 143).

ATENÇÃO
O Concílio de Nicéia marcou um novo momento dentro do cristianismo. Nele foram resolvidas
questões doutrinárias que dividiam a Igreja Cristã. A Trindade divina (Pai, Filho e Espirito San-
to) foi confirmada. A data da Páscoa foi estabelecida, bem como a lei canônica e as ideias
consideradas heréticas, como o arianismo, foram rechaçadas.

CONCEITO
Concílio é uma reunião de autoridades eclesiásticas Cristãs que tem como objetivo decidir
sobre assuntos ligados a fé e aos costumes cristãos. Nele também são discutidos temas
ligados a doutrina e a disciplina dos membros da Igreja. Normalmente após um concílio a
religião cristã passa por mudanças nos seus ritos ou, alguma doutrina é considerada herética.

Constantino transferiu o centro de poder do Império para a cidade de


Bizâncio pela sua localização geográfica estratégica (localizada entre o

36 • capítulo 2
continente europeu e asiático) e, pela fragilidade de Roma a ataques e cercos
em caso de guerra.
Mario Sanfilippo, ao discutir a cidade de Roma no Dicionário Temático do
Ocidente Medieval – Le Goff e Schmitt (2006) – afirma que:

Em meados do século V, a população está reduzida a 300.000 ou a 350.000 habitan-


tes – o que indica verdadeira queda demografia em relação aos 800.000 habitantes
da época de Constantino. Durante esse tempo, Constantinopla tornou-se a cidade
mais povoada do Mediterrâneo. Ao logo desse mesmo século V, a cidade conhece
duas transformações concomitantes. De uma parte, a romanização do cristianismo faz
progressos, de sorte que perde muito de seus traços orientais. De outra parte, a cris-
tianização aparece claramente através do controle simbólico do espaço e do tempo
urbanos. [...] Em particular, os representantes das grandes famílias senatoriais
proprietárias de terras [...] entram na estrutura da Igreja de Roma. (p.431 grifos
nossos)

Além desses motivos, alguns historiadores lembram que ao transferir a ca-


pital para Bizâncio, Constantino proibiu a construção de templos para cultos
pagãos e que incentivou à construção de Igrejas Cristãs. Essa diminuição da
tolerância religiosa é vista como uma influência inconteste do cristianismo no
Império e por isso, a mudança da capital para Bizâncio representaria também a
“purificação” do poder imperial através do Cristianismo.
Silva (2002) chama atenção para esse fato:

[...] no entanto, a ênfase na mística cristã que envolve a cidade de Constantino é re-
produzida sem maiores reservas por diversos historiadores, os quais se apressam a
concluir pela filiação cristã da cidade em detrimento das suas permanências pagãs. 
Essa é a posição adotada por Barnes (1981:212), para quem a nova capital deveria
ser uma cidade cristã na qual os imperadores cristãos poderiam residir em um ambiente
não maculado pelos edifícios, ritos e práticas de outras religiões.  Opiniões semelhantes
são compartilhadas por outros autores, como por exemplo Baynes (1996:14), Stein
(1959:128) e, em certa medida, Norwich (1989:63). 

capítulo 2 • 37
Já outros historiadores não veem Constantinopla como uma cidade erigida
para “purificar” o Império através da fé Cristã. Para estes, a cidade foi erguida
sob bases religiosas sincréticas. Constantinopla nasceu dominada pela religio-
sidade, pelo misticismo.
Silva, no mesmo trabalho, também chama atenção para o fato ao lem-
brar que:

Em primeiro lugar, tendo sido construída para exaltar a grandeza do poder imperial,
Constantinopla expressava em seus monumentos a nova representação da realeza que
se afirmar na passagem do Principado para o Dominato, conforme sugere muito cor-
retamente Diehl (1961:53). Suas festividades e seus monumentos se ajustam com
perfeição ao conjunto de símbolos que configuram a basileia, a realeza sagrada  he-
lenístico-cristã, a qual possui como uma das suas características mais significativas
a conversão do imperador em uma entidade de natureza divina e sua realeza em algo
arquetípico, autêntica mimesis da realeza sobrenatural, com a reestruturação do culto
imperial de modo a enfatizar os atributos místicos do soberano reinante em detrimento
dos demais divi já falecidos.  Nesse sentido, Constantinopla é dominada pela figura de
seu criador, o qual faz da cidade um espelho a refletir toda a sua majestade celestial.

REFLEXÃO
É muito discutido nos meios acadêmicos se Bizâncio foi reconstruída por Constantino para
ser uma cidade livre do paganismo presente em Roma. Para ampliar a controvérsia cha-
maremos a atenção do leitor para uma cerimônia anual romana conhecida como Dedicatio
que pode ser traduzida de forma literal do latim como dedicação da cidade a Deus. Após a
morte de Constantino, no dia da cerimônia, uma imagem do Imperador era exposta para ser
adorada pela população. Essa forma de culto emula o auge pagão do Império Romano no
Ocidente, onde o Imperador era tido como um Deus. Outra referência do paganismo romano
é vista na cerimônia: na mão direita da estátua de Constantino foi entalhada a Deusa Fortuna,
fundadora ou protetora de cidades.
É fato que a influência cristã foi decisiva no que se refere a construção da cidade e da estru-
turação da sociedade em classes, entretanto, não é possível negar a influência, ainda que em
menor proporção dos cultos pagãos. O significado do título de basileus (representante de Deus
da terra) é uma prova da presença do paganismo, pois torna a figura do imperador sagrada.

38 • capítulo 2
Durante grande parte do século IV o Império se manteve unificado, mas em
395, com a morte do Imperador Teodósio, dividiu-se oficialmente o Império
em Ocidental, com capital na cidade de Roma e Oriental, que ficou conhecido
como Império Bizantino, cuja capital ficava na cidade de Bizâncio, rebatizada
para Constantinopla.
No Ocidente, a divisão teve como consequências:
•  A transferência do poder de fato para as mãos dos chefes militares – a gran-
de maioria de origem bárbara – e dos aristocratas que haviam abandonado a
cidade e transferindo-se para o campo, implantando o colonato em suas terras;
•  A ampliação do poder político da Igreja Cristã;
•  O crescimento da crise econômica;
•  A diminuição demográfica que agravava ainda mais a crise econômica por
diminuir a produção de bens e alimento.

A transferência da capital para o Oriente, além de marcar simbolicamente


a divisão do Império Romano em dois, antecipou a decadência do Ocidente.

2.4  Organização socioeconômica do Império Romano do Oriente

A mudança da Capital do Império Romano para o Oriente não alterou de forma


brusca a estrutura administrativa herdada do Ocidente. O latim continuou a
ser a língua oficial do Império e os nomes das instituições burocráticas conti-
nuaram a ter origem romana. O grego só se tornou a língua oficial do Império
Romano do Oriente no século VII, quando a etnia e as culturas grega e asiá-
tica tornaram-se predominantes. Isso não quer dizer que a orientalização do
Império romano fez a população negar suas origens. Eles ainda se viam como
romanos, entretanto, não renegavam sua descendência grega, daí chamarem a
si mesmo de romioi.

ATENÇÃO
A crise econômica, gerada pela diminuição do comércio, trouxe consigo a política do Colo-
nato. Tribos germânicas foram admitidas em territórios do Império como colonos com obri-
gações de cultivar as terras e pagar tributos. Além disso, eram proibidas de deixar as terras
onde moravam. A crise obrigou os plebeus a migrarem para o campo em busca de trabalho
e alimento. Como os trabalhadores não eram donos das terras e como havia escassez de

capítulo 2 • 39
moedas, os trabalhadores passaram a pagar pelo uso da terra com o que produziam. Essa
migração transformou as bases produtivas do Império, fazendo entrar em declínio a escravi-
dão. O imperador Diocleciano, em decorrência da crise na produção de alimentos, estendeu o
Colonato à plebe romana que vivia no campo. O Colonato se transformou em uma instituição
oficial do Império e lançou uma das bases fundantes do feudalismo

CURIOSIDADE
Romioi significa povo grego com cidadania romana. Esse termo era usado pelos bizantinos
como afirmação de uma identidade nacional que aparece principalmente na literatura da
época. Historicamente falando, o Império Bizantino nunca existiu de fato.

Outras características podem ser apontadas para diferenciar o Império


Romano do Oriente, do Império Romano do Ocidente e explicar a prosperidade
do primeiro em relação segundo:
•  Poder central forte, personificado na figura do Imperador;
•  Economia estável;
•  Estrutura administrativa eficiente;
•  Comandantes militares controlados pelo Imperador (o que não acontecia
no Ocidente);
•  Igreja submissa ao poder imperial.

Somado a isso, o desenvolvimento da produção agrícola e comercial fez


o Império Romano do Oriente sofrer pouco com as invasões germânicas que
varreram o Ocidente. A agricultura produzia alimento suficiente para manter a
população do Império abastecida e o comércio garantia a pujança da economia
do Império oriental.
O Imperador controlava o comércio interno e externo bem de perto e o
monopólio sobre a emissão de moeda foi a principal estratégia usada pelo
Império. O monopólio obrigava os comerciantes que usavam o porto da cida-
de de Bizâncio para transportar suas mercadorias e adquirirem a moeda do
Império. Só assim podiam fazer negócios na cidade. Esse controle sobre o câm-
bio garantia o pagamento dos impostos.

40 • capítulo 2
Figura 2.3  –  Mapa das Rotas Comerciais.

2.5  Da crise à reorganização: O governo de Justiniano

Durante os séculos IV e V o Império Romano Oriental viveu diversos momentos


de crise.
As “invasões bárbaras” que assolaram o Ocidente foram contidas pelos bi-
zantinos, umas através do pagamento de tributos, outras pelo uso da força ar-
mada e outras ainda pela diplomacia. Esses problemas externos ameaçaram a
estabilidade do Império, contudo, internamente existiram momentos de insta-
bilidade, principalmente ligadas a questões religiosas.
Essas desordens internas e externas foram contidas ou suprimidas no sé-
culo IV pelo Imperador Justiniano. Ele também buscou consolidar a auto-
ridade imperial criando uma aura de santidade sob sua figura e reconstruir
o Império Romano da Antiguidade Clássica, mantendo o comércio pelo mar
Mediterrâneo como base econômica do Império.
Várias foram às medidas tomadas por Justiniano para conseguir realizar es-
ses objetivos. Dentre elas estão:
•  O reestabelecimento dos quadros administrativos romanos em todo
o Império;
•  A construção de prédios públicos com fins militares;

capítulo 2 • 41
•  A obrigação da corte retomar condutas requintadas, principalmente pe-
rante sua presença, que representava Deus na terra (Basileus).
•  A construção de monumentos com o objetivo de enaltecer o po-
der imperial;
•  A realização de campanhas militares com o objetivo de retomar o controle
total da navegação pelo mar Mediterrâneo.

Um indício do caráter teocrático do governo de Justiniano pode ser visto nas


pinturas que o retratam. Em todas, a imagem de sua cabeça é representada com
um halo tal qual os dos santos da Igreja Cristã.
©© WIKIMEDIA.ORG

Figura 2.4  –  Pintura retratando o Imperador Justiniano.

COMENTÁRIO
Esta citação demonstra como a figura do Imperador era sagrada e sua pessoa idolatrada
no Império Romano do Orientel: "Os Bárbaros contemplavam com assombro os vestíbulos,
as salas imensas e os gigantes da guarda. Viam escudos de ouro, lanças rutilantes de ouro,
capacetes de ouro, penachos escarlates (...) Contemplavam as outras maravilhas desta pom-
pa ilustre. Acreditavam que o palácio dos Romanos era um outro céu (...) Quando a cortina
foi aberta (...) o ávaro levantou os olhos para o César, cuja fronte era cingida por faiscante
diadema sagrado. Três vezes ajoelhou-se, prosternou-se, adorou o Imperador e permaneceu

42 • capítulo 2
como rosto junto ao chão." (Flávio Corippus [530-585], De Laudibus Justini. Apud GENICOT,
L. e HOUSSIAU, P., op. cit., págs.42 e 44.)

Todas as medidas que foram citadas anteriormente ajudaram a manter a


estabilidade interna e externa no Império, todavia, a revisão e atualização do
Direito Romano são vistos como a maior contribuição de Justiniano para o
Ocidente. Esse trabalho ficou conhecido como Corpus Juris Civilis. Ele é dividi-
do em quatro partes e é visto até hoje como uma das bases fundantes do Direito
ocidental moderno.
Faziam parte do Corpus Juris Civilis:
•  O Código de Justiniano, que compilava e revisava a legislação romana des-
de o reinado do Imperador Adriano;
•  O Digesto ou Pandectas, que faz uma compilação da jurisprudên-
cia romana;
•  As Institutas, uma espécie de manual para estudantes do Direito;
•  Novelas ou Autênticas, que reuniam as leis cridas por Justiniano depois
da publicação do primeiro Codex Justinianeu.

O governo de Justiniano também ficou marcado pelo esgotamento dos re-


cursos humanos e financeiros do Império Romano Oriental. Na tentativa de
revitalizar o Império Romano do Ocidente, Justiniano desguarneceu as fron-
teiras orientais e balcânicas, que foram invadidas por persas, ávaros e eslavos.
Os persas foram contidos com o pagamento de tributos elevadíssimos e as ou-
tras tribos vindas dos Balcãs foram, aos poucos, sendo incorporadas ao império
Bizantino por meio do colonato.
As conquistas territoriais advindas das batalhas travadas no Ocidente po-
dem ser consideradas dúbias. As regiões que foram retomadas estavam econo-
micamente destruídas e, as forças que garantiram a retomada dos territórios
se mostraram insuficientes e ineficientes para mantê-los permanentemente.
É necessário ressaltar que durante o governo de Justiniano a figura do impe-
rador e o poder do título nobiliárquico foram enaltecidos e ampliados de forma
significativa. Além disso, para demonstrar o poder imperial, obras monumen-
tais foram erguidas, como a Basílica de Santa Sofia.   

capítulo 2 • 43
©© ARILD VÅGEN | WIKIMEDIA.ORG

Figura 2.5  –  Basílica de Santa Sofia. Fonte: Wikipédia.

ATENÇÃO
Para manter os gastos com as guerras no Ocidente e pagar os tributos devidos os persas no
oriente Justiniano implantou uma política fiscal rigorosa, que teve como consequência ime-
diata a Revolta de Nika. A revolta não foi somente pelo aumento dos impostos. Os insurgen-
tes protestavam contra a tirania imperial e sobre questões ligadas à Religião. O movimento
foi sufocado pela tropas imperiais e milhares foram mortos.

2.6  O Império Bizantino

O termo Império Bizantino é uma convenção criada no período moderno. O


Império Bizantino era denominado por seus contemporâneos como Império
Romano ou România. Por isso, entender o que foi o Império Bizantino passa,
necessariamente, pelo entendimento que o termo bizantino é um conceito liga-
do ao Império Romano Oriental. Ser Bizantino significava ter origem romana,
significava ser herdeiro da cultura helenística e membro do Império Romano.

44 • capítulo 2
O Império Romano Oriental foi fundado a partir da hierarquia social e da
organização administrativa oriunda do Império Romano Ocidental. Sua base
religiosa era o cristianismo. Seu governante era um imperador que detinha ao
mesmo tempo o poder temporal e o poder espiritual.
A capital do Império era a cidade de Constantinopla, erguida pelo Imperador
romano Constantino para ser a sede do Império Romano no Oriente. A cidade
foi planejada e construída com o objetivo de se tornar um contraponto à cidade
de Roma, sede do Império Romano ocidental e vista a época como símbolo da
decadência do Ocidente.
A cidade de Constantinopla e sua história nos ajudam a entender como o
império Bizantino nasceu – a partir de influências romanas – e se reconstruiu
depois, a partir da influência dos povos orientais. A “Nova Roma” nasceu como
um posto avançado do Império e, no século IV já representava, como monu-
mento, a ascensão do Oriente sobre o Ocidente.

REFLEXÃO
Um dos maiores monumentos do Império Bizantino que chegou até os dias atuais foi a Basí-
lica de Santa Sófia. A história da Basílica nos ajuda em entender como a região onde antes
se encontrava o Império Bizantino é até hoje complexa. A Basílica foi erguida pelo Imperador
Justiniano, no século IV, e passou a ser utilizada como um templo da Igreja Ortodoxa Bizan-
tina. No século XIII se tornou um templo do Patriciado Latino de Constantinopla (de origem
católica romana) e no século XV, com a expansão do islamismo e a queda de Constantinopla,
foi transformada em uma Mesquita. Todas essas mudanças de “credo religioso” contam a
história da região. Ela foi conquistada pelo Império Romano, que trouxe para a região sua cul-
tura, que por sua vez foi influenciada pela cultura oriental. Posteriormente, a influência latina
na região se fez sentir outra vez com o advento das cruzadas e hoje a Basílica é um museu
secular, mas, antes de se tornar “laica”, ele representava a supremacia do Oriente na região
ao ser utilizada como uma mesquita islâmica.

capítulo 2 • 45
Figura 2.6  –  Mapa da Cidade de Constantinopla. w

CURIOSIDADE
O Imperador Constantino ergueu a cidade de Constantinopla a partir da reconstrução da
cidade de Bizâncio. Desde o século VII a.C. a cidade, graças a sua posição geográfica, foi um
centro comercial importante para a região. Ela controlava a rota do trigo, pois, pelo seu porto
o grão era escoado pelo Mediterrâneo e Oriente Próximo.

Quando o Imperador Constantino resolveu construir uma cidade no Oriente


que representasse o poderio do Império Romano, buscou na cidade de Roma
a inspiração inicial. Em Bizâncio foi construído um hipódromo, uma basílica
para o Senado e foi reservada uma área na cidade para serem erguidas as mo-
radias luxuosas patrícias (Domus). Também foram construídos os banhos pú-
blicos (termas romanas), um fórum, e foi instituída a política de distribuição
gratuita de trigo.
Porém, ao longo dos séculos a vertente romana foi sendo “contaminada”
pela cultura oriental. O cristianismo ainda era a religião oficial, mas, a Igreja

46 • capítulo 2
Bizantina se desprendeu da Romana, a língua oficial passou a ser o grego em
detrimento do latim e a arte bizantina se destacou graças as influências orien-
tais que possuía.
Em síntese, o Império Bizantino era sincrético e, para entendê-lo, é necessá-
rio fazer uma análise mais detalhada das características culturais que tornaram
o Império Romano do Oriente tão diferente do Ocidente europeu e é por isso
que a partir deste ponto estudaremos separadamente a arte, a religião e a socie-
dade bizantina, procurando características que demarquem a separação ou a
união do Ocidente com o Oriente.

2.6.1  A arte bizantina

Podemos afirmar, sem medo de errar, que a arte bizantina representa a síntese
sincrética da cultura oriental e ocidental. O ícone e o mosaico, as duas maio-
res expressões da arte bizantina, atrelaram a cultura cristã ocidental ao gosto
decorativo, vivo e luxuoso do Oriente. A síntese dessa fusão são as Igrejas cris-
tãs do Oriente. Ao contrário das basílicas romanas, as Igrejas Bizantinas eram
planejadas a partir de figuras geométricas que possuem significados místicos.
Por isso, suas bases eram circular, quadrada ou octogonal. O teto das Igrejas
em forma de cúpula, típico da arquitetura oriental, é também uma das marcas
da arte bizantina. Essa forma de construção criava ambientes que permitiam a
construção de mosaicos que decoram de forma viva e ao mesmo tempo luxuosa
esses espaços.
Apesar de ter se manifestado em outras estruturas sociais, foi na arte sa-
cra que a expressividade da cultura sincrética do Oriente e Ocidente mais se
destacou. Os mosaicos, que retratavam temáticas religiosas, tinham, não só a
função de tornar belo o ambiente, eles também representavam a doutrina cris-
tã ortodoxa ao retratarem cenas da vida de Cristo, de passagens bíblicas e, dos
imperadores, representantes de Deus na terra. Como os mosaicos serviam para
doutrinar os devotos, o clero era o responsável pela organização das artes. Os
artistas, de uma forma geral, apenas executavam as vontades do clero do impé-
rio. Isso pode explicar porque não há na arte Bizantina um grande nome que
se destacou no período medieval oriental como aconteceu no Ocidente. A arte
bizantina destaca-se pelo conjunto da obra, não pelo artista. A exceção foram
Antêmio de Trales e Isidoro de Mileto. Eles foram os arquitetos que projetaram
a Igreja de Santa Sofia, expressão máxima da arquitetura bizantina.

capítulo 2 • 47
Outra explicação que pode ser aventada é a aversão que umas partes cristãos
orientais possuíam à estátuas. No alto medievo oriental, a imagem esculpida
ainda estava ligada ao paganismo romano e por isso a escultura bizantina se
resumia basicamente a baixos relevos decorativos.

CURIOSIDADE
As imagens reproduzidas nos mosaicos produzidos no Império Bizantino são coloridas e vi-
vas, mas, as formas e a posição das pessoas pintadas nos afrescos tinham o objetivo estético
de criar uma imagem de santidade, de espiritualidade na representação

Essa possibilidade é aventada por Ostrogorsky (1984) vê como possibilida-


de para o início do iconoclasmo as influências semitas que Leão III pode ter
sofrido[...], ou seja, o islamismo e o judaísmo não eram adeptos de representa-
ções. Assim, a iconoclastia seria uma forma de buscar para a religião cristã uma
“espiritualidade pura”. Também Steven Runciman (1978) afirma que a origem
Síria do imperador teria o influenciado, devido ao fato de que a população des-
sa região tinha uma verdadeira aversão às imagens e seu culto. (FERNANDES,
2015)

CONCEITO
Sincretismo Cultural pode ser definido como o processo de fusão de várias culturas que tem
como consequência o surgimento de uma nova forma cultural, entretanto, essa “cultura nova”
mantêm traços marcantes e perceptíveis das culturas que lhes deram origem.

Contudo, a arte bizantina também foi motivo para disputas e perseguições


políticas e religiosas como a que deu origem ao movimento ou questão icono-
clasta, que será discutido posteriormente.

48 • capítulo 2
©© TESTUS | WIKIMEDIA.ORG

Figura 2.7  –  Interior da Basílica de San Vitale, na cidade de Ravena.

2.6.2  Religião

A religiosidade da população bizantina teve papel fundamental na manutenção


do Império. O cristianismo era a religião oficial do Império, no entanto, o clero
era submetido ao imperador, também chamado de basileus. Essa submissão,
definida com Cesaropapismo, foi um dos motivos que levaram a crise icono-
clasta – como veremos – e o Cisma do Oriente.

CONCEITO
O Cesaropapismo tinha como principal alicerce o controle espiritual do Imperador sobre a
sociedade cristã. Essa ascendência permitia ao imperador ditar os preceitos, a disciplina e o
ordenamento do culto cristão. Como possuía também o poder temporal, o imperador agre-
gava as funções imperiais e pontifícias e isso lhe garantia a submissão da Igreja e do clero
aos seus interesses.

O Imperador possuía ao mesmo tempo o poder temporal e espiritual. Esse


controle lhe permitia manipular a sociedade e as estruturas de poder de acordo
com seus interesses.

capítulo 2 • 49
Essa característica da Igreja Cristã Bizantina nos ajuda a entender porque
aconteceram revoltas populares, porque nasceram interpretações da Bíblia e
do Cristo tidas como heréticas e porque o imperador tomava atitudes que bus-
cavam respaldo na fé, mas que tinham como pano de fundo o controle político
ou a disputa pelo controle dos fiéis.
Três episódios ligados a religião e ao posicionamento do imperador são vis-
tos pelos historiadores como emblemáticos sobre essa temática: a crise icono-
clasta – que será discutida em outro momento – o Monofisismo e o Arianismo –
esses dois últimos nasceram de questões de cunho filosófico, de interpretações
sobre a figura do Cristo vivo que foram consideradas heréticas e seus seguido-
res foram perseguidos e morto por ordem do imperador.

2.6.2.1  Monofisismo.
O Monofisismo foi uma doutrina religiosa que defendia que Cristo só possuía
uma natureza, a divina. Para tentar resolver essa controvérsia foi realizado o
Concílio de Calcedônia em 451. Nele se definiu que Cristo possuía duas nature-
zas: divina e humana. Nele também foi declarado herético o Monofisismo. Ape-
sar de ser declarado herético o monofisismo possuía milhares de seguidores,
principalmente no Egito. Como a sede da Igreja Cristã em Alexandria se recu-
sou a aceitar a resolução do Concílio Calcedônio, aconteceu o primeiro cisma
entre as Igrejas Ortodoxas Orientais. A doutrina do monofisismo se espalhou
pela Ásia Menor, Síria e Egito e foi uma das causas da Revolta de Nika.

2.6.2.2  Arianismo
Já o Arianismo discutia se Deus Pai e Cristo eram um só ou se possuíam origens
diferentes. O movimento foi chamado de arianismo porque foi Ário, presbítero
de Alexandria que levantou a questão sobre a substância de Deus. A doutrina
afirmava que Deus Pai era Eterno, que ele sempre existiu. Já o Cristo foi criado
por Deus para criar o mundo. Ário defendia a teoria de que, se Cristo foi criado,
ele tem essência e substância, não era eterno e, se não era eterno, não podia
ser igual ao Pai. Essa teoria foi rejeitada pelo Concílio de Nicéia no século IV e
todos os seus seguidores foram declarados hereges.

50 • capítulo 2
2.6.3  Sociedade

O Império Bizantino se originou do Império Romano do Oriente e até o século VIII


o Ocidente via Bizâncio, e o Imperador que lá reinava, como o Imperador Roma-
no. Esse reconhecimento da proeminência oriental sobre a ocidental é percebi-
do principalmente através dos primeiros cânones da Igreja Cristã. O papado e os
bispos ocidentais reconheciam a posição eminente do imperador que presidia os
concílios ecumênicos e transformava seus cânones em leis do Império Romano.
A sociedade bizantina girava em torno do imperador e da família imperial.
Como líder temporal e espiritual do Império Bizantino o imperador submetia a
seu controle a aristocracia bizantina e o alto clero e, apesar de existirem produ-
tores rurais, comerciantes e artesãos ricos na sociedade bizantina, riqueza não
garantia poder político. A coroa imperial colocava-se como fonte de todo o poder.
A cidade de Constantinopla era um centro comercial cosmopolita rico, uma
referência para o mundo ocidental e oriental, pois era um entreposto comercial
entre as cidades marítimas italianas, o mar egeu e o negro.

ATENÇÃO
No ano de 800, Carlos Magno foi coroado imperador romano em Roma. Esse fato histórico,
pelo menos em teoria, reafirma o respeito e a aceitação de Bizâncio como parte do Império
Romano e seu Imperador como chefe político. Bizâncio não aceitou a coroação de Carlos
Magno como Imperador e entendeu como insulto as pretensões da cidade de Roma tomar
para si o direito de coroar o imperador romano. Para evitar o conflito Carlos Magno evitou
usar o título no início do seu Império. Só na segunda década do século IX é que Bizâncio
aceitou Carlos Magno como Imperador Romano do Ocidente.

No que se refere à mão-de-obra, ao contrário do Império Romano do


Ocidente, o do Oriente nunca teve, na escravidão, sua base de sustentação eco-
nômica. A maioria das propriedades agrícolas era controlada pelos mosteiros
utilizando mão-de-obra servil aos moldes do feudalismo ocidental.
Ademais, o Império Bizantino influenciou o Ocidente de várias formas e to-
mou parte, às vezes sem querer, de vários fatos históricos que tiveram impacto
direto na história e na cultura Ocidental e Oriental como veremos nos capítu-
los seguintes.

capítulo 2 • 51
CURIOSIDADE
A Cidade de Constantinopla teve o nome mudado para Istambul. Mesmo com um passado
turbulento, a cidade ainda impressiona o visitante em decorrência da multiplicidade de cultu-
ras lá aparentes, demostrando que sempre foi uma cidade cosmopolita e sincrética.

ATIVIDADES
01. (Fuvest 2010) Na passagem da época antiga para a época medieval, houve não só rup-
turas, mas também continuidades. Caracterize essas continuidades no campo da:
a) religião.
b) língua.

02. O Imperador Justiniano tentou unificar e expandir o Império Bizantino, mas via a neces-
sidade de criar uma legislação capaz de atender às demandas e problemas legais do período.
Para resolver essa questão o imperador ordenou que fossem redigidas e compiladas normas
que ficaram conhecidas como Corpus Iuris Civilis. Faça uma pesquisa discutindo o que foi
Corpus Iuris Civilis e qual sua contribuição para a sociedade moderna.

RESUMO
A sociedade bizantina era formada por povos das mais variadas nações e com culturas às
vezes, diametralmente diferentes. Para manter sua unidade política e territorial o Império Bi-
zantino fez uso de um sistema político administrativo eficiente, pensado de forma a pacificar
as diferenças e mantendo o respeito ao poder Imperial. Nesse capítulo percebemos isso ao:
•  Compreender que o Império Romano do Oriente nasceu sobre o declínio da autoridade
romana do Ocidente;
•  Notar que a religião foi usada para dar fundamentação ao poder imperial;
•  Entender que a fusão entre poder temporal e poder espiritual na figura do Imperador per-
mitia que o mesmo indicasse laicos para postos na hierarquia eclesiástica e controlasse o
culto religioso criando o cesaropapismo;
•  Estudar o monofisismo, o arianismo e, principalmente, a Questão Iconoclasta, que foram
todas, disputas religiosas que aconteceram durante a consolidação do poder imperial e que
tiveram grande importância na consolidação do poder do Imperador;

52 • capítulo 2
•  Ver na arte Bizantina não só a beleza, mas também o controle social que ela ajudava
a manter;
•  Perceber que desde o início da Idade Média Oriental o Império Bizantino foi uma fonte de
influência poderosa em toda a região do Mediterrâneo e áreas próximas
•  Comportamentos culturais diferentes eram tolerador e as vezes incorporados, desde que
não fossem fontes de controvérsias religiosas;
•  Havia controle supervisão e fiscalização das atividades econômicas, principalmente as liga-
das ao comércio (que garantiam uma arrecadação maior de impostos).

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2002.
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Franco Jr., H. e Andrade Filho, R. O. O IMPÉRIO BIZANTINO. São Paulo: Brasiliense, 1994.
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ROSTOVTZEFF, Mikhail. História de Roma. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1961.
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Disponível em: http://www.unicamp.br/nee/arqueologia/arquivos/historia_antiga/constantinopla.html.
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VIRGOLINO, Mariana F. Constantino, um Imperador de fé. Resenha. Disponível em: <http://www.
historia.uff.br/cantareira/v3/wp-content/uploads/2013/05/e17a10.pdf>.

capítulo 2 • 53
54 • capítulo 2
3
Mundo Árabe:
Pré-islâmico ao
califado omíada
3.  Mundo Árabe: Pré-islâmico ao califado
omíada

Até o capítulo anterior discutimos a visão do Ocidente sobre o Oriente e o Im-


pério Bizantino que, apesar de se encontrar no Oriente, possuía uma influência
forte da Cultura Ocidental.
Estudamos como nasceu o Império Bizantino e o papel que cada imperador
desempenhou no processo que transformou uma estrutura administrativa e
ocidental em um império sincrético social e culturalmente.
Também analisamos o papel preponderante que a religião possuía dentro
da estrutura do Império, os cismas e os problemas sociais que tinham como
pano de fundo as disputas religiosas.
Por fim, mas não menos importante, estudamos a arte bizantina e sua in-
fluência dentro e fora do Império.
Agora, estudaremos o mundo árabe, o islamismo e a expansão do Islã, para
perceber como é simplista ou errada a visão que o Ocidente possui do povo ára-
be e da religião islâmica.

OBJETIVOS
•  Definir o Conceito de árabe;
•  Entender a construção social do mundo árabe a partir do estudo da cultura tribal;
•  Situar a Península Arábica e seus habitantes dentro do contexto político social do Orien-
te medieval;
•  Entender como se deu o nascimento do islamismo e sua expansão dentro da Penínsu-
la Arábica;
•  Analisar o papel do Profeta Maomé e do Islã no nascimento da cultura muçulmana;
•  Compreender o Califado e a atuação dos primeiros califas dentro do processo de expansão
da revolução islâmica e;
•  Situar o nascimento do Califado Omíada dentro da estrutura política e social do mundo
árabe-muçulmano.

56 • capítulo 3
3.1  Os Gassanidas e a organização da Península Arábica

A região onde surgiu o mundo árabe foi controlada por séculos pelo Império
Romano e pelos Sassânidas, descendentes dos persas.
A região controlada pelo Império Romano ficava na bacia do mar
Mediterrâneo, onde existiam cidades cosmopolitas e sincréticas culturalmente
que dominavam o comércio que nascia do transporte de mercadorias via rotas
marítimas. Também controlava uma grande área rural que produzia alimentos
básicos, comercializados nas cidades.
Mais ao oriente estavam os Sassânidas, que também controlavam uma par-
te do mundo árabe. Tão rico culturalmente como o romano, com muitas cida-
des cosmopolitas e, formado por várias etnias, o império nascia na Pérsia (atual
Irã), englobava o Iraque e se estendia até a Ásia central. O centro de poder era a
cidade de Ctesifonte, próxima a atual cidade de Bagdá.
Como o Império Romano, o Império Sassânida buscou construir uma uni-
dade política a partir de uma administração eficiente e uma unidade cultural
pautada no zoroastrismo, (antiga religião persa que foi revivida em moldes filo-
sóficos, enfatizando o dualismo entre o Bem e Mal) com uma classe sacerdotal
e um culto formal. A estruturação da religião foi usada para respaldar o poder
da elite governante e garantir a harmonia social. Além dos seguidores do zo-
roastrismo havia cristãos e judeus dentro do Império Sassânida, evidenciando
a tolerância religiosa dentro da sociedade.

ATENÇÃO
Na cidade de Ctesifonte os cristãos tinham um papel importante dentro do sistema admi-
nistrativo, e os judeus mantinham um importante centro de educação religiosa. A cidade
também era um porto seguro para filósofos e estudiosos pagãos, principalmente os oriundos
do Império Bizantino. Por ser cosmopolita, na cidade se falavam vários dialetos persas, além
do grego e aramaico.

Mesmo depois de convertidos ao islamismo os persas mantiveram sua auto-


nomia cultural e linguística. O persa que se converteu ao islamismo era, de uma
forma geral, bilíngue. Nas cerimônias religiosas o árabe era a língua oficial,
como pregava Maomé, mas no dia a dia a língua falada era o persa, inclusive na
estrutura administrativa.  

capítulo 3 • 57
Você deve estar se perguntando: se a região onde nasceu o Mundo Árabe era
controlada por cristãos ou persas, quem era o árabe?
Definir quem era o árabe na Idade Média oriental é difícil, principalmente
porque a palavra virou sinônimo de muçulmano. Além disso, na tentativa de
“organizar” o Mediterrâneo depois da 2ª Guerra Mundial, o Ocidente passou a
usar tal termo para definir de forma genérica como árabe o indivíduo que nasce
em um país que tenha como idioma oficial o árabe, e que esteja situado geogra-
ficamente no Oriente Médio ou, no norte do continente africano.
Essa forma ocidental de “organizar” a região deturpou o conceito de árabe.
Sabe-se que esta etnia é semita na origem e natural da Península Arábica – por
isso os habitantes da região são chamados de árabes. Antes da revolução islâ-
mica a sociedade da região, formada basicamente por nômades e pastores, era
organizada quase sempre a partir de um oásis (vale fértil no meio do deserto)
e o poder de comando estava nas mãos de tribos nômades e dos mercadores
das aldeias.
Os costumes e comportamentos culturais desses povos faziam o poder girar
em torno de um chefe tribal que controlava seu território a partir de um oásis.
Ele mantinha relações com os comerciantes que atravessavam seu território
cobrando tributos ou vendendo segurança – era comum o saque a caravanas
de mercadores, e isso tornava precário o equilíbrio de poder entre nômades
e comerciantes.

COMENTÁRIO
A Península Arábica é uma região de vegetação escassa ou desértica. Essa característica
geográfica ajudou a preservar a cultura original da região por séculos, pois não despertava o
interesse das duas potências da época: o Império Bizantino e o Império Sassânida.

Simplificando, podemos afirmar que o árabe, na Idade Média oriental, era


um indivíduo que vivia na Península Arábica, perto de um oásis e que tinha
como referência de poder um chefe tribal que dominava um território dentro
desse perímetro. Um país, um Estado ou um império que abarque todo o mun-
do árabe não existia e até hoje não existe na região.

58 • capítulo 3
ATENÇÃO
No zoroastrismo existia um Deus que estava acima de tudo e o universo era um local de
lutas entre espíritos bons e maus. No final das batalhas, os bons espíritos sempre venciam
os maus, graças à existência de homens e mulheres virtuosos e puros. Alexandre, o Grande,
levou a cultura helenística para o oriente e trouxe para o ocidente uma vertente da cultura
oriental, o maniqueísmo, que buscou criar um sistema religioso que incorporasse todos os
profetas e líderes religiosos do passado.

3.1.1  O Crescente Fértil

Só é possível entender o mundo árabe no Oriente medieval se conseguirmos


entender a influência que o Império Sassânida e Bizantino tinham sobre os po-
vos árabes.
A região, hoje conhecida como Crescente Fértil, que engloba o interior da
Síria, uma parte do Iraque e a região situada entre os rios Tigre e Eufrates foi um
polo de atração para as tribos árabes nômades que viviam do pastoreio ao norte
e na região central da Península Arábica. Essa migração aconteceu em decor-
rência de disputas tribais nas suas regiões de origem ou, em consequência do
poder e controle que os dois impérios possuíam sobre essa região.
Quando chegaram, os grupos nômades passaram a viver de acordo com sua
cultura original: organizaram-se em aldeias perto de oásis e o poder era exer-
cido pelo chefe tribal. Alguns desses chefes tribais foram usados pelos dois
impérios, principalmente para manter distante de seus domínios outras tribos
nômades e, para recolher os tributos dos que lá residiam.
Na região controlada pelos sassânidas, os lakhmidas exerciam esse controle
social e na região que sofria influência do Império Bizantino eram os Gassans
a fazer isso. Esses acordos políticos propiciaram o nascimento de núcleos de
povoamentos estáveis nas regiões onde os poderes imperiais não exerciam um
controle direto.

capítulo 3 • 59
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Figura 3.1 – Mapa da região Crescente Fértil.

3.1.2 Os Gassânidas.

A tribo árabe que deu origem ao Estado Gassânida se transferiu para a região
do Crescente Fértil por volta do século V. Conhecidos como Gassans, a tribo foi
convertida pelo Império Bizantino ao cristianismo e depois, usada como fonte
de guerreiros para defender as fronteiras do Império contra invasões sassâni-
das e de outras tribos árabes que pudessem afetar o poder político de Bizâncio
na região. Para poderem estruturar suas comunidades, os Gassans recebiam
subsídios financeiros de Bizâncio. O objetivo de Bizâncio era criar um estado-
tampão forte e leal para proteger seu território.
O território controlado por eles era extenso, e por isso viviam se deslocando
ao longo desse território. Entretanto, existiam cidades gassânidas. A maior era
Resafa. Além de centro comercial, a cidade também era um grande centro reli-
gioso ligado ao cristianismo.
No fim do século VI os acordos políticos entre Bizâncio e os gassânidas fo-
ram rompidos. Segundo alguns historiadores, foram as disputas religiosas que
aconteciam no interior do Império Bizantino que levaram ao rompimento. Os

60 • capítulo 3
gassânidas foram convertidos ao cristianismo a partir do credo monofisita e,
quando essa corrente de pensamento foi declarada herege, todos os povos que
a seguiam foram hostilizados pelo Império. Outra corrente defende a tese de
que o rompimento aconteceu pelo descontentamento do Estado Gassânida
com o fim dos subsídios dados por Bizâncio.
Além de soldados, os gassânidas também mantinham o Império Bizantino
informado sobre os acontecimentos políticos e sociais que aconteciam na re-
gião. A perda desse aliado na região teve como principal consequência para
Bizâncio a’’ demora em perceber a expansão do Islã e a unificação árabe.

3.2  Cultura e economia árabe

Hoje, os árabes são majoritariamente islâmicos, entretanto, antes da revolução


maometana não existia uma religião árabe sistematizada, existiam crenças tri-
bais. Algumas tribos viam sinais sagrados no céu, outras viam esses sinais em
pedras, árvores e em outras coisas da natureza, outras ainda acreditavam em
espíritos que interferiam de forma direta na sociedade.
Definir a religião árabe antes de Maomé é uma tarefa difícil.
Os habitantes da Península Arábica falavam inúmeros dialetos árabes e pos-
suíam comportamentos sociais distintos, porém, a ideia de pertencimento a
um grupo ligado culturalmente sempre existiu na região, mesmo que de forma
difusa. Eles se entendiam como os descontentes de Sem, um dos filhos de Noé.
A palavra semita vem daí. Se pensarmos em genealogia, as origens árabes re-
montam à tradição bíblica e aos livros do velho testamento, mais precisamente
ao Gênesis.
Isso aparece de forma clara quando se estuda o nascimento das tribos ára-
bes. Os árabes não eram controlados, eram liderados. Só sabendo a diferença
entre controlar e liderar é que se consegue entender a cultura árabe.
O conceito de controlar está ligado à coerção, a repressão social. Já o signifi-
cado de liderar está ligado à coesão, a aceitação, a seguir alguém ou um grupo.
No mundo árabe se seguia um chefe tribal, e a lealdade a ele se dava a partir de
uma ancestralidade comum.
Assim, a identidade cultural árabe estava ligada a:
•  Lealdade ao grupo familiar do qual se faz parte (nós iremos discutir essa
característica de forma mais detalhada quando tivermos estudando a luta pelo
poder entre os califas.);

capítulo 3 • 61
•  Hospitalidade (isso ajuda a explicar a tolerância religiosa que existia no
mundo árabe não maometano e depois, durante a expansão muçulmana);
•  A coragem (essa característica sempre foi um dos pilares da cultura árabe,
principalmente a beduína);
•  Ao orgulho dos ancestrais (antes do mundo árabe se tornar muçulmano,
era os laços sanguíneos que distinguiam uma tribo árabe de outra, principal-
mente quando havia disputas políticas ou por territórios entre elas).

CURIOSIDADE
O camelo é o principal meio de sobrevivência dos nômades no deserto. Eles podem trans-
portar até duzentos quilos, percorrer cem quilômetros num dia e podem caminhar até 20 dias
sem água num calor de 50 °C. A partir do pelo dos camelos, as mulheres nômades costuram
diversos equipamentos como sela, rédea, sacos e cordas. Quando os nômades precisam de
café, farinha ou tâmaras, eles vendem um camelo em um oásis e adquirem o que desejam.
(RUTTER apud LANNES, 2013:63)

A economia na Península Arábica na Idade Média oriental era diversificada


e ligada de forma direta as tribos que lá viviam. As tribos nômades viviam da
criação de animais como o camelo e a cabra e dependiam dos escassos recursos
naturais da região.
As regiões próximas aos oásis eram habitadas por agricultores que viviam
de comercializar a sua produção nas vilas existentes nas cercanias dos oásis, ou
aos mercadores que lá passavam. Também nas proximidades dos oásis haviam
pequenas vilas, onde moravam comerciantes e artesãos que organizavam feiras
para vender suas mercadorias.
Nas regiões controladas por chefes tribais existia outra fonte de renda:
o controle das rotas comerciais. Os impostos cobrados pela passagem e pro-
teção das caravanas de comerciantes que tinham que atravessar a Península
Árábica para vender suas mercadorias nas feiras das cidades portuárias do mar
Mediterrâneo ou do mar Vermelho, sempre foi um dos elementos que garanti-
ram poder ao chefe tribal.

62 • capítulo 3
Figura 3.2  –  Mapa dos povos de origem semita.

ATENÇÃO
Como é possível perceber no mapa acima, o Estado Islâmico do Irã não faz parte do mundo
árabe. Os iranianos não são árabes. A origem dos iranianos é Persa. Eles foram convertidos
ao islamismo durante a Revolução maometana. Como veremos mais a frente, ser muçulmano
é professar um credo religioso ligado às doutrinas maometanas e, nem todo povo árabe se
converteu ao islamismo.

ATENÇÃO
O controle das rotas comerciais e dos oásis dava origem a disputas tribais que traziam insta-
bilidade a região. Uma das consequências das instabilidades eram os saques às caravanas
de comerciantes que, em decorrência das disputas, ficavam desprotegidas.

3.3  Maomé e a o início do Islamismo

O marco histórico que delimita o nascimento da religião muçulmana é a fuga


do profeta Maomé da cidade de Meca para a cidade de Medina em 622 da
era cristã.

capítulo 3 • 63
Esse fato histórico ficou conhecido como Hégira. Segundo a maioria dos es-
tudiosos, isso teria acontecido devido a perseguições realizada pela tribo corai-
xita que não aceitava o seu posicionamento religioso.
Que posicionamento era esse? Ele acreditava que os líderes tribais que co-
mandavam sua tribo haviam esquecido os laços tribais e passaram a valorizar
mais os bens materiais que os laços sanguíneos. Isso ia contra o conceito de
solidariedade tribal, um dos pilares de sustentação da cultura árabe.
Suas pregações nasceram de uma revelação. Segundo os escritos do Alcorão,
Maomé foi visitado por um anjo que o convocou a se tornar o mensageiro de
Deus. Na religião muçulmana esse dia é conhecido como a Noite do Poder ou
Noite do Destino.

ATENÇÃO
O Islã e o Cristianismo possuem no seu cerne algumas semelhanças:
• As duas são religiões monoteístas e fazem alusão ao mesmo Deus;
• As duas têm como princípio o expansionismo e a conversão do pagão;
• As duas tiveram divisões político-religiosas nas suas origens.

Depois desse dia Maomé passou a fazer pregações. Ele afirmava que havia
um único Deus, Alá, que julgaria a todos e garantiria os prazeres do Céu apenas
àqueles que se submetessem à sua vontade. Os que se converteram passaram a
ser conhecidos como muçulmanos e a religião, Islã.
É necessário frisar que o conceito de honra e lealdade tribal árabe estava
presente na pregação de Maomé. Esse conceito partia do princípio que todos
tinham que buscar uma sociedade justa, onde os membros mais pobres da tri-
bo tinham que ser ajudados e a busca por riquezas não deveria ser um fim em si
mesmo. Suas pregações contrariavam os interesses dos grandes comerciantes
da cidade de Meca que o perseguiram.
A cidade de Medina era composta por tribos árabes e judaicas. Quando Maomé
chegou à cidade havia uma disputa político-econômica entre as tribos e ele foi esco-
lhido como mediador do conflito. Depois de resolvida a disputa, Maomé passou a
pregar na cidade, que apesar de muitos conflitos, acabou aderindo a nova religião.
A doutrina maometana se espalhou rapidamente pela região próxima a
Medina. Em menos de duas décadas o Islamismo se tornou a religião predomi-
nante da Península Arábica.

64 • capítulo 3
3.3.1  A Doutrina Islâmica

Apesar de possuir, em sua fundação, a cultura e a tradição tribal árabe, o isla-


mismo seguiu a tradição judaico-cristã quando se trata da revelação profética:
há pessoas que se dizem encarregadas por uma missão divina para levar sua
mensagem aos homens.
Também é de origem judaico-cristã a crença na existência de um livro sagra-
do que ajuda os crentes a entender e a seguir a doutrina religiosa.
Sobre o Alcorão, é correto afirmar que possui um viés judaico-cristão quan-
do trata dos profetas do Velho Testamento, especificamente Abraão. Na visão
muçulmana Abraão não é judeu, nem cristão, ele é um ancestral comum às três
religiões e o criador do santuário de Meca. Ainda sobre o Alcorão é correto afir-
mar que se trata de um livro sagrado que tem por princípio a preocupação de
reafirmar ao fiel a necessidade de preservar os rituais. Também é correto afir-
mar que foi escrito de modo a inspirar um comportamento moral específico,
um guia a ser seguido pela sociedade muçulmana.
São seis crenças principais que regem o Islã (IDN, 2009:04):
•  A crença em Alá (único Deus existente);
•  A crença nos Anjos (seres criados por Alá);
•  A crença nos Livros Sagrados, entre os quais se encontram a Torá, os Salmos
e o Evangelho. (O Alcorão é o último e o mais completo livro sagrado, constituin-
do a coletânea dos ensinamentos revelados por Alá ao profeta Maomé);
•  A crença em vários profetas enviados por Deus para levar sua mensagem
(Maomé foi o último profeta);
•  A crença no dia do Julgamento Final, no qual as ações de cada pessoa se-
rão avaliadas;
•  A crença na predestinação: Alá tudo sabe e possui o poder de decidir sobre
o futuro de cada pessoa.
E são cinco os pilares do Islamismo (IDN, 2009:05):
1º - A recitação e aceitação do credo (em árabe Chahada ou Shahada: o tes-
temunho ou afirmação de fé)
2º - Orar cinco vezes ao longo do dia (em árabe Salat ou Salah)
3º - Pagar tributo (em árabe Zakat ou Zakah)
4º - Observar o jejum no Ramadã (em árabe Saum ou Siya)
5º - Fazer a peregrinação a Meca (em árabe Hajj ou Hadj)

capítulo 3 • 65
©© WIKIMEDIA.ORG

Figura 3.3  –  Peregrinação a Meca.

CURIOSIDADE
O local onde os muçulmanos fazem suas preces em conjunto se chama Mesquita. Todas
elas possuem uma arquitetura básica. Há um pátio aberto que leva a uma área coberta. A
organização dessa área coberta se dá de forma tal que os fiéis fiquem perfilados, voltados
para Meca. Uma mihrab (um nicho em forma de arco) aponta a direção de Meca. A direita do
Mihrab existe um púlpito (minbar), onde o Imã faz o sermão às sextas-feiras. Ligado a Mes-
quita é erigido um minarete, donde um responsável conclama os muçulmanos a realizarem
suas preces diárias, nas horas adequadas.

Foi a junção da tradição cultural árabe com a religião nascente que permi-
tiu o expansionismo islâmico pela Península Arábica e, de lá para o Império
Sassânida e Bizantino. O Islamismo dirimiu as disputas tribais árabes por ter
uma doutrina universal. Ser muçulmano significava ter um credo onde a fé
igualava os indivíduos. Maomé criou uma identidade Islâmica entre seus se-
guidores onde as diferenças tribais tinham que ser postas de lado em nome da
nova religião.

66 • capítulo 3
A cultura tribal árabe que distinguia os membros de uma tribo através da
ancestralidade foi usada para moldar a nova Religião. A fé em Alá e na palavra
do Profeta Maomé passaram a ser a referência que distinguia os indivíduos.
Havia o muçulmano e o pagão, essa era a nova distinção.
A expansão muçulmana se deu a partir de Maomé. Como líder espiritual
e político, ele uniu o mundo árabe a partir da religião. No início da expansão
islâmica não havia exército organizado, nem uma administração eficiente. A fé
recrutava o crente para a guerra; mantinha o tesouro público cheio; os acordos
políticos firmados e garantiam o fim de conflitos locais.
A historiografia tradicional tende a explicar o advento do islã e sua expan-
são a partir de questões econômicas. (Karen Armstrong e Albert Hourani são
os mais conhecidos defensores dessa visão). Entretanto, outras visões sobre a
origem desta religião são aventadas atualmente, umas ligadas a temática social
e outras ligadas ao avanço militar e a busca por territórios.
Um tema tão complexo como o nascimento de uma religião e de uma identi-
dade cultural não pode ser explicado a partir de um único ponto de vista. Lannes
(2013, p.121) chama a atenção para essa questão ao afirmar que a Revolução
Islâmica aconteceu por uma soma de fatores:

[...] a construção de uma identidade una árabe atrelada a religião islâmica, que, teori-
camente, estaria acima das rivalidades tribais. Por meio dessa construção ideológica
centrada em um sentimento de pertencimento a um grupo, a conquista começou a ser
possível. A união árabe-islâmica teve reflexos no campo militar, o que proporcionou a
elaboração de um objetivo político comum, isto é, um objetivo público – expansão do
Islã –, e a aquisição de conquistas territoriais que se aproxima dos interesses privados
dos indivíduos, já que ela proporcionava riqueza e novos lugares para morar.

CONCEITO
Por Identidade Islâmica subtende-se a ideia de pertencer a um grupo coeso que compartilha
de tradições passadas, todavia, no contexto religioso. A noção de identidade islâmica fica
mais clara ao trabalhar com a ideia da ummah, uma comunidade islâmica universal que abar-
caria todos os fiéis sem definições geográficas. É o análogo da Cristandade. (NASER, 2015)

capítulo 3 • 67
3.4  O povo dos livros: organização de judeus e cristãos no Oriente

Não há como falar dos povos árabes sem falar do povo judeu. Além de possuí-
rem antepassados comuns – os dois povos possuem origem semita – durante
muito tempo viveram juntos no mesmo território se respeitando, ao ponto de
judeus possuírem cargos importantes na administração de alguns Califados e,
quando se trata do período que se convencionou chamar de Idade Média, não é
possível falar dos povos árabes sem falar dos Cristãos. O cristianismo ortodoxo
havia chegado à Península Arábica naquele momento histórico e, muitas tribos
árabes foram convertidas ao cristianismo.
Antes da revolução maometana e mesmo depois dela, os judeus e cristãos
eram aceitos na sociedade árabe. Depois da revolução, mesmo com restrições,
eles ainda possuíam certa autonomia social. Isso só foi possível porque para os
muçulmanos, judeus e cristãos eram povos que deviam ser respeitados, pois
receberam escrituras reveladas por Deus.
Cristãos e Judeus eram chamados pelos muçulmanos de Povos do Livro e
possuíam legislação especial e mais autonomia social que os outros povos sub-
metidos ao controle islâmico:
•  Podiam professar sua religião desde que respeitassem certas restrições,
como a de pagar impostos para professar a fé e restringir o culto a lugares espe-
cificamente designados para isso;
•  Podiam manter suas propriedades e morar nas cidades muçulmanas em
locais previamente designados;
•  Tinham seus tribunais e o direito aplicar suas leis e arbitrar conflitos li-
gados a herança, casamento e outras matérias que tivessem ligação de algum
modo com a sua fé, desde que não interferissem na estrutura de controle social
muçulmana;
•  Podiam apelar aos tribunais muçulmanos quando tinham seus direi-
tos desrespeitados.

Essa mesma legislação que lhes dava autonomia, também lhes impu-
nham restrições:
•  Eram obrigados a usar roupas que os diferenciassem dos muçulmanos e,
proibidos de usar cores que fizerem alusão ao islamismo, como o verde;
•  Não podiam usar armas nem andar a cavalo;
•  Não podiam construir prédios que ofuscassem os templos muçulmanos;
•  Não podiam fazer parte do exército muçulmano;

68 • capítulo 3
•  Não podiam receber herança de um muçulmano;
•  Não podiam casar com uma muçulmana.

BRANDÃO (2008) reforça essas afirmações ao definir Dimma:

Os Dimma, “comunidade protegida”, compreendendo as minorias religiosas, são auto-or-


ganizadas de acordo com seus costumes, e detém direitos e deveres diferenciados dos
muçulmanos. Podem constituir uma dimma os grupos cristãos, judaicos e zoroastristas,
mas não os pagãos ou politeístas. Estes últimos são obrigados a optar entre a morte ou
a fé, enquanto aos primeiros é garantido o direito de exercer sua religião. Mesmo se au-
to-considerando possuidores da fé mais verdadeira, os muçulmanos estavam cientes da
antiguidade e respeitabilidade das religiões monoteístas. A cultura árabe-muçulmana
também é herdeira da tradição abraâmica, assim como os judeus e cristãos. Mohammed
e a grande parte dos califas e sultões, seus sucessores no comando político do mundo
islâmico, na maioria das vezes respeitaram esta tradição de convivência. (p.44)

Mesmo existindo um arcabouço legal que lhes garantia certos direitos após
a revolução maometana, na prática, a situação desses povos era instável. Os
acordos de convivência podiam ser suspensos de uma hora para outra e isso os
mantinha em estado de insegurança social permanente.

3.4.1  Judeus

Os judeus foram os mais perseguidos quando a legislação que os protegia era


desrespeitada. Massacres de populações judaicas não eram incomuns nos ter-
ritórios controlados pelos muçulmanos (isso também acontecia nos estados
cristãos da Europa Ocidental). Nas regiões do continente africano que foram
submetidas ou, convertidas ao islamismo, os judeus foram obrigados a viver
em áreas especificas (na Europa medieval os judeus também eram obrigados a
viver em bairros separados dos cristãos chamados de guetos). Há registros que
falam em destruição de templos judaicos e conversões forçadas ao Islã.
Após a conversão do mundo árabe ao islamismo, aconteceu o que conven-
cionou chamar na historiografia judaica de segunda diáspora. Os Judeus mi-
graram para Europa, Ásia e Norte da África.
A perseguição aos judeus ao longo da história da humanidade é conhecida,
mas, ainda hoje se confunde muito o conceito de Judaísmo. É quase certo falar
que toda comunidade judaica do Oriente Médio oriental era bilíngue. Os judeus

capítulo 3 • 69
aprendiam a língua dos povos que os conquistavam, entretanto, não deixavam
de usar o hebraico nos momentos litúrgicos. Manter o hebraico como língua li-
túrgica foi a forma que encontraram de manter sua cultura religiosa. O Judaísmo
tem como alicerce a tradição oral e a lembrança. No judaísmo, o ato de lembrar
firma e reafirma a aliança entre o povo escolhido e Deus. A Torá é o livro sagrado
do Judaísmo, porém, a maior característica do judaísmo é o rito litúrgico, é seguir
a tradição milenar transmitida, e debatida nas sinagogas em hebraico.

3.4.2  Cristãos

O cristianismo oriental não diferia em essência do cristianismo romano. Entre-


tanto, a influência helenística aos poucos foi transformando a forma do culto
cristão no Oriente, fazendo nascer cismas que dividiram a Igreja Cristã. Ele não
foi imposto inicialmente aos povos do Oriente. Aos poucos, eles foram se con-
vertendo em diferentes níveis a religião oficial do Império.
Como já foi discutido no capítulo anterior, no Concilio da Calcedônia(451d.C)
foi decidido que Cristo possuía duas naturezas: a divina e a humana. Essa era
a posição oficial do Império Bizantino, porém, algumas comunidades cristãs,
depois de Calcedônia, ainda sustentavam que Cristo tinha uma única nature-
za, a divina. Esta, a doutrina monofisista, era sustentada pela Igreja armênia
na Anatólia, pela maioria dos cristãos egípcios (conhecidos como “coptas”, do
nome antigo do Egito) e por muitos dos cristãos naturais, de língua siríaca, da
Síria (chamados de ortodoxos sírios, ou “jacobitas”). (HOURANI, 2006)
Outros faziam uma divisão ainda mais precisa entre as duas naturezas, a fim
de manter a total humanidade de Jesus. Eles achavam que a Palavra de Deus
estava no homem Jesus; essa era a doutrina daqueles comumente conhecidos
como nestorianos, nome derivado de um pensador identificado com a doutri-
na; a Igreja nestoriana foi mais importante entre os cristãos do Iraque, além da
fronteira oriental do Império Bizantino. (HOURANI, 2006)

3.5  Expansão e o califado Omíada

A morte Maomé em 632 criou um impasse dentro do centro de poder Islâmico.


O Profeta não se preocupou em criar uma estrutura administrativa para orde-
nar o mundo muçulmano nem a nova religião. Também não estabeleceu uma
regra para a escolha do seu sucessor.

70 • capítulo 3
Era consenso entre os grupos que controlavam a revolução que, sem a figu-
ra de um guia, de um líder, expansão do islamismo poderia sofrer retrocessos
ou mesmo acabar. Também estava claro que a escolha deveria ser rápida, pois
já havia sinais de descontentamentos e de desconfianças entre as tribos ára-
bes que foram convertidas. Esse vazio político-religioso foi preenchido por Abu
Bakr (632-634). O argumento usado para garantir sua eleição foi o fato de ter
seguido as palavras do Profeta desde o início.
Entretanto, essa escolha não aconteceu sem disputas. Uma corrente contrá-
ria à nomeação de Abu Bakr como califa defendia que o líder do islamismo de-
veria ser eleito a partir do parentesco com Maomé, deveria sair de sua família.
Esse grupo dizia que Ali, primo e genro do Profeta, deveria ser o califa. Os parti-
dários de Ali perderam a disputa, mas, não fizeram oposição ao primeiro califa.
Maomé deu um caráter universal à revolução islâmica ao afirmar que era
dever dele e de seus seguidores levar a mensagem de Deus a todos os povos.
Mas, não havia nenhuma estrutura administrativa que controlasse a revolução,
nem um exército organizado para fazer guerra. Enquanto o Profeta viveu, o Islã
se expandiu essencialmente pela fé, mas depois de sua morte, foi necessário
organizar administrativamente a revolução islâmica para garantir a unidade do
mundo árabe e a identidade muçulmana criada pelo Profeta.
A morte de Maomé e a nomeação de Abu Bakr como califa trouxe consigo
vários problemas que ameaçaram a revolução islâmica internamente e o pro-
cesso de expansão do Islã externamente.

ATENÇÃO
O título de califa não tinha um caráter sagrado. O califa era o sucessor de Maomé como líder
temporal e guia dos muçulmanos, mas Deus não falava com o califa, ele não era um Profeta.

Dentre esses problemas estavam:


•  O fato de algumas tribos árabes acharem que não lhe deviam lealdade;
•  A necessidade de reunificar as tribos árabes que haviam abandonado a
revolução islâmica após a morte do Profeta;
•  O surgimento de vários “profetas” que reivindicavam para si o direito de
guiar a revolução e os muçulmanos.

capítulo 3 • 71
Para sanar esses problemas, o primeiro califa teve que usar a diplomacia e às
vezes a força para garantir sua posição como líder da comunidade muçulmana.
Para submeter às tribos que haviam abandonado o islã, foi criado um exér-
cito organizado e treinado para a guerra. Depois de submetê-las, o califa usou
o exército recém-criado para continuar a expansão islâmica. Maomé pregava
que o Islã não tinha uma fronteira física. Essa visão da revolução islâmica fez os
califas expandirem o islamismo para além da Península Arábica, adentrando as
terras que faziam limites com o Império Bizantino e com o Império Sassânida.
Depois de tomados esses territórios fronteiriços, a revolução chegou ao interior
dos dois impérios.
Em mais ou menos duas décadas o Califado expandiu a revolução islâmica
para além da Península Arábica, incluindo o Império Sassânida e os territórios
bizantinos da Síria e Egito.

Figura 3.4  –  Mapa da expansão islâmica no período dos primeiros califados.

Quando se lê textos que tratam da expansão islâmica no período da Idade


Média oriental, é comum encontrarmos como explicação para sua ocorrên-
cia e rápida expansão a junção dos ideais da religião islâmica com o interesse
econômico.

72 • capítulo 3
Mas, será a explicação de um fato tão marcante da história mundial simples
assim? Não. Existem outros fatores que devem ser levados em consideração.
Quais sejam:
•  As regiões conquistadas viveram quase sempre dominadas por algum
grande império e por isso, para os moradores das cidades, a origem étnica de
quem os governava pouco importava, desde que cobrassem um valor justo pe-
los impostos a serem pagos e lhes garantissem o mínimo de ordenamento so-
cial a partir de uma legislação clara;
•  Os nômades e os pequenos agricultores que viviam no interior dos territó-
rios conquistados possuíam costumes próprios e seguiam seus próprios líderes
tribais. Quem governava as cidades era irrelevante.
•  Para a população cristã monofisista ou nestoriana que vivia em territórios
bizantinos, a conquista muçulmana representava a possiblidade de expressar
sua fé em Cristo sem serem perseguidos;
•  Havia tribos de origem árabe que viviam nos territórios que pertenciam
ao Império Bizantino ou ao Império Sassânida que foram conquistados. Nesses
territórios a aceitação do domínio islâmico foi mais fácil, inclusive a conver-
são dessas tribos por não existir uma Igreja muçulmana ou um ritual elaborado
para a conversão: bastavam apenas poucas palavras de aceitação no novo credo.

CONCEITO
Os califas conhecidos como os Corretamente Guiados, possuem essa denominação por-
que conviveram com Maomé e ouviram da boca do Profeta os ensinamentos. Com a morte de
Ali, nasceram novas discussões sobre a sucessão do Califa e sobre interpretações de textos
dogmáticos do Alcorão

À medida que a revolução islâmica dominava territórios, mais necessário


era a criação ou aprimoramento das estruturas administrativas do Islã. As re-
giões dominadas passaram a ser administradas a partir de acampamentos mi-
litares com soldados árabes. Nas regiões onde havia cidades, o acampamento
ficava no interior, ou nas cercanias destas. Nas regiões onde não havia cidades,
foram criados núcleos de povoamento que se tornaram polos de atração de ára-
bes e não árabes e, com o tempo, se transformaram em cidades.

capítulo 3 • 73
O controle do califado e dessas novas cidades estava nas mãos de um grupo
islâmico recém-convertido que antes fazia oposição a Maomé, os coraixitas, da
cidade de Meca. Isso aconteceu porque o terceiro Califa, apesar de ser coraixita,
foi um dos primeiros seguidores de Maomé. A ampliação do poder desse grupo
dentro da revolução, patrocinada pelo califa, trouxe descontentamentos entre
os seguidores mais antigos, que não viam com bons olhos a ascensão ao poder
de recém-convertidos.
Como já foi dito anteriormente, desde a eleição do primeiro Califa havia um
grupo conhecidos partidários de Ali que defendia a nomeação de um parente
de Maomé como o califa. Após a morte do terceiro califa (Otman), os partidá-
rios de Ali voltaram a reivindicar sua nomeação para este cargo em detrimento
de Muawiyah, primo de Otman. Depois de uma disputa política Ali saiu vence-
dor. Ele foi o último dos califas corretamente guiados.
A eleição de Ali como califa foi contestada por Muawiyah e uma guerra foi
travada entre as duas facções rivais. Após a Batalha de Siffin, como nenhum dos
lados saiu vencedor, os familiares de Otman propuseram uma arbitragem para
que fosse decidido quem seria o novo califa. Ali aceitou a proposta. Ao fazer isso
um grupo que o apoiava na luta se retirou da disputa por entender que homens
não podiam decidir uma disputa que só Deus tinha o poder de julgar. Essa foi a
primeira cisão dentro no Islã, e dela nasceu o ramo dos Kharijitas.

3.5.1  O califado Omíada

Após a morte do quarto Ali, Muawiyah se alto-proclamou o califa e criou uma


fórmula para eleição de seus sucessores de modo a garantir que sua família
sempre ocupasse a posição de Califa, ou seja, sucessão hereditária. O argumen-
to usado para a criação desse modelo foi o de acabar com as disputas pelo títu-
lo. O modelo de eleição criado por ele deu origem ao califado Omíada.
Apesar dos omíadas serem do clã coraixita e, originários da cidade de
Meca, a sede do Califado foi transferida da Península Arábica para a cidade de
Damasco, na Síria. Um dos motivos dessa mudança foi o fato de Muawiyah ter
sido governador da Síria quando seu primo Otman era o Califa. Mas, outros fa-
tores também pesaram a favor da mudança: a região de Damasco era mais rica
e podia gerar riqueza capaz de manter a corte, a administração eficiente e um
exército regular.

74 • capítulo 3
Foi durante o califado Omíada que a revolução islâmica chegou a Europa
ocidental, na Península Ibérica e se expandiu ainda mais rumo a Europa orien-
tal, a Ásia central, ao Paquistão e ao norte do continente africano.
Embora tenha sido no período Omída que a expansão islâmica tenha che-
gado ao seu auge, o seu califado é visto de forma negativa por boa parte dos
historiadores islâmicos que vieram depois dele. Um dos motivos que geraram
essa visão foi a forma como administraram o Império. Eles foram acusados de
deturpar o motivo da expansão – religioso – buscando apesar alcançar “valo-
res mundanos”.
Outra forma de ver o Califado Omída é dizer que ele teve que se adaptar as
necessidades surgidas depois da expansão rápida do Império islâmico, e isso
teve como consequência a perda de uma parte das raízes tribais árabes, que
foram substituídas por comportamentos sociais mais próximos da corte bizan-
tina no que se refere ao comportamento refinado e aos cerimoniais.
As principais mudanças implantadas pelo califado Omíada para organizar
e controlar os domínios do Império islâmico foram:
•  A substituição dos soldados árabes, guiados pela fé, por um exército re-
gular pago;
•  A criação de um novo núcleo de poder formado pelos líderes do exército e
chefes tribais leais;
•  A diminuição da influência política das famílias que detinham poder na
Península Arábica;
•  Garantir a lealdade das cidades conquistadas a partir da nomeação de go-
vernantes leais ao califado, e que não viam com bons olhos a modelo de lideran-
ça árabe baseado na solidariedade tribal;
•  A introdução da língua árabe para fins administrativos e como requisito
necessário para a conversão, o que garantiu a disseminação da língua;
•  A cunhagem de moedas que não possuíam imagens de imperadores,
como era comum do Ocidente, mas mensagens religiosas que enalteciam o islã
e reforçavam a identidade muçulmana.

capítulo 3 • 75
© WIKIMEDIA.ORG

Mapa da expansão dos califados árabes


Expansão até à morte de Maomé, 622-632

Expansão durante o Califado Ortodoxo, 632-661

Expansão durante o Califado Omíada, 661-750

Nota: os países e suas fronteiras não são os da época, mas os atuais

Figura 3.5 – Mapa das áreas controladas pelo Califado Omíada.

3.5.2 O fim do califado Omíada

A expansão do islã e o crescimento do número de pessoas que aceitavam a


identidade muçulmana teve como consequência a diminuição do poder do Ca-
lifado isso parece contraditório, mas não é. A revolução islâmica teve início na
Península Arábica, porém, durante o processo de expansão vários povos foram
se convertendo e aderindo a religião islâmica fazendo com que a revolução co-
meçasse a perder sua “base geográfica”. Somado a isso, a migração de povos
árabes para as regiões conquistadas, fizeram nascer chefes tribais que às vezes
desafiavam o Califado Omíada. Dentre os vários motivos que podem ser levan-
tados para confirmar essa afirmação podemos citar:
•  Nas áreas conquistadas já existiam grandes cidades que tinham uma estru-
tura socioeconômica que foi abalada pela política expansionista dos omíadas.
•  Algumas cidades e regiões que foram dominadas se tornaram polos de
atração de imigrantes, principalmente árabes e persas.
•  O nascimento e crescimento de cidades a partir da imigração árabe, o que
garantiu mais liberdade política para seus habitantes.

76 • capítulo 3
As cidades situadas na região do Iraque, ou na fronteira com a Ásia central,
foram as que mais passaram por esse processo, em decorrência, principalmen-
te, da abundância de terras cultiváveis e de pastos para o pastoreio.
Os árabes que chegaram a essas regiões foram, aos poucos, se misturando
à população iraniana e isso teve como consequência a entrada de iranianos na
estrutura de poder que controlava a revolução e a expansão islâmica.
A entrada da comunidade iraniana nas estruturas de comando, somada a
conversão ao islamismo os tornando muçulmanos, fez nascerem desavenças
ligadas a origens étnicas, tribais e religiosas. Existiam privilégios que eram
dados a árabes que foram contestados pelos muçulmanos convertidos. Eles
alegavam que a conversão os tornava muçulmanos, e por isso tinham que ser
tratados de forma igual aos árabes.
Além disso, a chegada de soldados vindos da Península Arábica trouxe a cul-
tura tribal árabe para as regiões conquistadas, ampliando os conflitos. Nas re-
giões para onde migraram os árabes, a ancestralidade comum serviu para criar
núcleos que fortaleceram a lealdade tribal e fazer ressurgir a luta pelo poder.
Esses conflitos refletiram nos processos de sucessão dos califas e nas dis-
cussões acerca da autoridade sobre os grupos que possuíam identidade muçul-
mana. Havia correntes que defendiam que a origem tribal não dava poder de
mando. Para essas correntes era a virtude que deveria ser o pilar de sustentação
do líder da comunidade muçulmana.
Uma das correntes que discordava do poder exercido pelos omíadas
era os partidários de Ali. Eles, por serem em última instância, descenden-
tes de Maomé, afirmavam que possuíam uma visão mais aprofundada dos
significados dos textos do Alcorão. Essa corrente passou a ser conhecida
como Xiita.
Até meados do século VIII o Califado Omíada conseguiu controlar os
movimentos de oposição e administrar o Império fortalecendo a base fis-
cal e militar. Depois desse período o califado entrou em decadência mui-
to rapidamente.
O fim do Califado começou com uma guerra civil que uniu várias corren-
tes de descontentes com o governo do califado. A guerra começou na porção
oriental do império, influenciada pela sociedade iraniana local e pelos mu-
çulmanos xiitas (essa corrente do islamismo era muito difundida na Síria,
mas, não existia estrutura organizada que os unisse). Interesses comuns

capítulo 3 • 77
uniram as varias correntes descontentes com o califado Omíada sob a ban-
deira da corrente xiita.
No ano de 650, o último Califa Omíada foi morto no Egito pondo fim a
este Califado.

ATENÇÃO
O califado Omíada foi substituído no Oriente pelo Abássida, entretanto, um membro da fa-
mília conseguiu chegar a Península Ibérica e lá fez nascer uma dinastia Omíada, que não
reconhecia o Califa de Bagdá. O governo Omíada se estabeleceu em Córdoba e seu líder se
declarou emir e declarou a independência da região. Posteriormente os Omíadas fundaram
o Califado de Córdoba.

ATIVIDADES
01. (Uespi 2012) As pregações de Maomé não agradaram a grupos importantes, politica-
mente, da sociedade árabe. Suas concepções e crença:
a) adotavam o monoteísmo e tinham relações com o cristianismo, conseguindo adesão de
muitos que visitavam Meca.
b) eram elitistas, sem preocupação com a situação de miséria da época e a violência das
guerras entre as tribos.
c) desconsideravam as questões sociais e visavam firmar um império poderoso para com-
bater os cristãos no Ocidente.
d) defendiam a liberdade para todos os povos e prescindiam da adoção de um livro sagrado
para orientar as orações.
e) tinham relações com a filosofia grega, desprezando o espiritualismo exagerado e orga-
nizando o poder dos sacerdotes.

02. (Puc-Camp) Para compreender a unificação religiosa e política da Arábia por Maomé, é
necessário conhecer:
a) a atuação das seitas religiosas sunita e xiita, que contribuíram para a consolidação do
Estado teocrático islâmico.
b) os princípios legitimistas obedecidos pela tribo coraixita, da qual fazia parte.
c) os fundamentos do sincretismo religioso que marcou a doutrina islâmica.

78 • capítulo 3
d) as particularidades da vida dos árabes nos séculos anteriores ao surgimento do islamismo.
e) a atuação da dinastia dos Omíadas que, se misturando com os habitantes da região do
Maghreb, converteram-se à religião muçulmana e passaram a ser chamados de mouros.

03. (OSEC) A Hégira assinala:


a) um marco histórico para o início do calendário judaico;
b) a reunificação do Império Romano sob Justiniano;
c) a fuga de Maomé de Meca para Medina;
d) o domínio dos navegantes escandinavos sobre os mares Báltico e do Norte;
e) a tomada de Constantinopla pelos turcos.

04. (UFG-GO) A história do Mediterrâneo é a história das migrações populacionais e da


circulação de valores de culturas distintas. Discorra sobre a expansão árabe, a partir da uni-
ficação islâmica na Idade Média.

RESUMO
Entender o mundo árabe, mesmo nos dias atuais, é uma tarefa difícil. O processo de constru-
ção da identidade muçulmana também. Fé, política, solidariedade tribal, interesses econômi-
cos, tudo isso junto poderia ser motivo de disputas, não de união. Maomé conseguiu dirimir
esses elementos e fez surgir o muçulmano – indivíduo que possui uma identidade cultural
nascida da fé nas palavras do Profeta Maomé e na interpretação do Alcorão para pautar sua
vida, não nas origens tribais. Neste capítulo foi possível perceber isso quando:
•  Entendemos que há concepções errôneas no Ocidente sobre mundo árabe. Eles partem
do princípio que os árabes são uma só etnia, um só povo, mas há outros entendimentos sobre
esta questão. Os árabes possuem uma identidade muçulmana que os une;
•  Analisamos a região onde surgiu o islamismo, seus povos, seus costumes e suas relações
com o Império Bizantino e Sassânida;
•  Entendemos o nascimento do islamismo estudando os passos de Maomé. Sua retirada
para a cidade de Medina (Hégira). A sua pregação e forma como a fé no Islã, a partir de suas
pregações, se espalhou rapidamente pela Península Arábica;
•  Entendemos também como Maomé se inspirou na cultura árabe, pautada em vínculos tri-
bais de solidariedade, para criar a identidade muçulmana;
•  Compreendemos a importância da fé no processo de expansão da revolução islâmica;

capítulo 3 • 79
•  Analisamos a situação das comunidades não islâmicas no processo inicial do islamismo
e percebemos que no início elas foram aceitas, ou toleradas (principalmente a judaica e a
cristã) por serem entendidas como religiões que tiveram ancestrais que receberam revela-
ções divinas;
•  Estudamos as disputas pelo poder dentro da estrutura do Islã, quase sempre pautadas em
correntes que reivindicavam o poder via parentesco (partidários de Ali) ou, convívio com o
profeta Maomé;
•  E analisamos o surgimento do califado Omíada, como ele estruturou a administração do
Império e como ele foi importante para a expansão do islamismo e da identidade muçulmana.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARMSTRONG, Karen. Maomé: Uma biografia do profeta. São Paulo: Cia das Letras, 2002.
ARMSTRONG, Karen. Jerusalém: Uma cidade, três religiões. São Paulo: Cia das Letras, 2000.
BRANDÃO, Leonardo O’Reilly Além do Sabre e da Espada. Encontros e Desencontros Culturais no
Tempo de Saladino. Dissertação (Mestrado em História) –Pontifícia Universidade Católica do Rio de
Janeiro, Rio de Janeiro, 2008.
FERGUSON, Niall. Civilização: Ocidente X Oriente. São Paulo: Planeta, 2000.
HOURANI, Albert. Uma história dos povos árabes. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
JONES, Marsden. The Kitāb almaghāzī of al-Wāqidī. 3 vols London: Oxford University Press, 1966.
LANNES, Suellen Borges. A Formação do Império Árabe-Islâmico: História e Interpretações. Tese
(doutorado), 2013. Disponível em: http://www.ie.ufrj.br/images/pos-graducao/pepi/dissertacoes/
Suellen_Lannes.pdf. Acesso: 02 de maio 2016
LE GOFF, Jacques; SCHMITT, Jean-Claude. Dicionário Temático do Ocidente Medieval. Bauru, SP:
Edusc, 2006. 1v.
LE GOFF, Jacques; SCHMITT, Jean-Claude. Dicionário Temático do Ocidente Medieval. Bauru, SP:
Edusc, 2006. 2v.
NASER, A. Entre os filhos de Abraão: as interações historiográficas entre árabes e judeus no
Medievo a partir da releitura da história de Josefo/Josippon pelos historiadores árabes com ênfase no
Kitab Alibar de Ibn Khaldun. Dissertação de Mestrado, 2015. Disponível em: http://repositorio.unb.br/
bitstream/10482/18817/1/2015_AyubNaser.pdf. Acesso em: 02 de maio de 2016.

80 • capítulo 3
4
Abássidas: do auge
à fragmentação
4.  Abássidas: do auge à fragmentação
No capítulo anterior nós discutimos o nascimento do Império Árabe, sua ex-
pansão e dominação, a partir da Península Arábica, de toda a região do Mediter-
râneo; de parte da Europa Oriental e Ásia central e da Península Ibérica. Tam-
bém estudamos o início do Islamismo com Maomé e entendemos como ele foi
o grande pilar de sustentação da expansão do Islã.
Além disso, foi analisada a diferença entre os termos “árabe” e “muçulma-
no” e percebemos que o primeiro refere-se aos indivíduos que vivem na penín-
sula arábica ou seus descendentes e que o segundo, representa um conceito
cultural ligado diretamente a religião islâmica.
Por fim, discutimos a organização e as disputas pelo poder que existiu den-
tro do islã; como elas deram origem ao Califado Omíada; como esse califado foi
importante para a expansão territorial do islã e, como ele se fragmentou.
Agora iremos analisar o Califado Abássida, que substituiu os Omíadas de-
pois de uma guerra civil.

OBJETIVOS
•  Analisar o nascimento do Califado Abássida e a organização do poder após o fim do Cali-
fado Omíada;
•  Discutir a importância do Califado Abássida para a criação e ampliação do conhecimento,
e resgate de uma parte da cultura helenística;
•  Entender a Importância das Cidades para manutenção do poder dentro do islamismo, e
como polo de disputas que levaram à fragmentação política do mundo árabe;
•  Estudar a complexidade da economia e da sociedade no Império Islâmico;
•  Entender o nascimento das duas grandes correntes político-religiosas que dividem o Mun-
do Islâmico: Sunitas e Xiitas.

4.1  O governo Abássida

Como foi estudado no capítulo passado, o Califado Abássida nasceu da coalizão


de grupos político-religiosos que tinham como objetivo comum a derrubada do
Califado Omíada. A bandeira de luta que uniu esses grupos foi a reivindicação
da descendência do Profeta Maomé sobre o controle do Império islâmico.

82 • capítulo 4
A chegada da família do Profeta ao poder, em meados do século VIII, fez
nascer uma discussão sobre qual ramo da família deveria chefiar o Império. De
um lado estavam os descendentes de Ali e Fátima, filha de Maomé. Do outro es-
tavam os descendentes de um tio do Profeta, Abbas. Os descendentes de Abbas
foram os vencedores da disputa fazendo nascer o Califado Abássida e também
deu início a divisão do mundo árabe em sunitas e xiitas.
Depois de derrubado o Califado Omíada, os Abássidas se viram obrigados
a resolver as disputas internas dentro da coalização, e definir o papel que cada
membro desta desempenharia no Califado nascente.
Uma das formas encontradas para resolver as disputas e manter a integrida-
de do califado, foi nomear familiares como governantes de algumas províncias,
mas isso fez nascer governadores poderosos, o que gerou conflitos dentro da
própria família Abássida.
Para organizar administrativamente o califado nascente, os abássidas no-
mearam persas recém-convertidos. Isso teve duas consequências: fez nascer
uma elite persa dentro do califado (que com o tempo apoiaram a corrente xii-
ta), e descontentou as famílias árabes que apoiaram a luta dos abássidas contra
os omíadas.

COMENTÁRIO
Essa disputa dividiu o Islã em dois grupos político-religiosos que perdura até hoje: Sunitas
e Xiitas.
Os Sunitas deram origem ao Califado Abássida (o nome Abássida é uma referência ao tio
de Maomé, Abbas). A corrente de pensamento que fez nascer o califado parte da afirmação
que Maomé não nomeou nenhum sucessor. Segundo os Sunitas, o Profeta deixou nas mãos
dos muçulmanos a escolha de seu líder, que deveria ser escolhido pelo voto e digno de guiar
os muçulmanos e o Islã. O termo sunita vem da expressão "Ahl al-Sunna" que significa, ao
pé da letra, as pessoas da tradição. Os muçulmanos sunitas afirmam que os islâmicos devem
seguir os ensinamentos de Maomé e as ações que foram realizadas por ele segundo relatos
históricos. Para essa vertente do Islamismo, os profetas que são citados no Alcorão devem
ser respeitados, mas Maomé foi o último profeta.
Os Xiitas afirmam que Maomé designou um sucessor, Ali, casado com Fátima, sua filha.
Por isso a palavra "Shiat Ali", que deu origem ao termo xiita significa literalmente partidários
de Ali. Para essa corrente, o líder do Islã deve ser um descendente direto do Profeta. Eles
acreditam que os descendentes de Maomé são os únicos que possuem a capacidade de

capítulo 4 • 83
interpretar o Alcorão da forma correta, porque receberam esse conhecimento diretamente
de Deus. Essa crença permitiu e ainda permite, aos líderes religiosos Xiitas interpretarem o
Alcorão e outros textos doutrinários. É essa liberdade interpretativa que permite aos Aiatolás
atualizarem os textos islâmicos de acordo com o contexto histórico, político ou religioso.

Uma das formas escolhidas para acabar com as revoltas que aconteciam de
forma intermitente dentro do império, e manter o califado unido ao mesmo
tempo, foi a compra de escravos e a contratação de soldados turcos e de outras
tribos não árabes para criar um exército leal ao Califa. Por não serem de origem
árabe, esses soldados contratados não tinham nenhum tipo de ligação de ori-
gem tribal. Além disso, eram pagos pelo Califa, e isso mantinha sua lealdade.
Outra forma de acabar com instabilidade política foi a construção de uma
nova capital para o Califado Abássida, Bagdá (762 d.C.). Sua construção repre-
sentou um marco simbólico no Império Islâmico, pois serviu para demarcar
geograficamente a mudança de poder dentro do mundo islâmico e muçulmano.

COMENTÁRIO
No século IX o exército Abássida possuía um número tão grande de soldados turcos que eles
tomaram para si o poder sobre o exército, e passaram a influenciar de forma direta a adminis-
tração civil, fiscal e das províncias do Califado. O Poder do Califa foi se restringindo a esfera
religiosa, e a temporal aos poucos passou para as mãos dos turcos e das elites provinciais.

A criação de Bagdá não teve como único objetivo demarcar o nascimen-


to de um novo Califado. O local escolhido possuía também uma localiza-
ção estratégica:
•  Afastava o centro de poder da influência de outros grupos políticos e da
comunidade árabe muçulmana;
•  Controlava os territórios onde ainda existiam grupos leais ao
Califado Omíada;
•  Possuía um solo fértil, garantindo alimento para a população da cidade e
impostos para sustentar todas as estruturas que garantiam o poder do Califa;
•  Sua localização geográfica garantia o controle de rotas comerciais estraté-
gicas, e ficava no caminho que ligava as regiões mais descontentes com o novo
califado – Síria e Egito.

84 • capítulo 4
Bagdá foi construída de forma a separar o Poder – Califa, administradores
e exército – das demais áreas da cidade. É interessante notar que em alguns
aspectos, o Califado Abássida não se diferenciou muito do Califado Omíada.
Os abássidas adotaram na sua corte comportamentos e cerimônias que tinham
como objetivo assinalar a diferenciação social, a riqueza e poder do Califa.
A expansão do Império Islâmico chegou ao auge no Califado Abássida, mas o
crescimento rápido do império trouxe consigo as bases que poriam fim a expan-
são territorial e causariam também a fragmentação do poder árabe sobre o Islã.

Figura 4.1  –  Mapa da expansão do Islã durante o Califado Abássida.

A extensão do império fez nascer nas regiões conquistadas chefes locais; o


crescimento das cidades as fez importantes – e essa importância trouxe poder
para seus governantes –, e a conversão dos dominados ao islamismo aumentou
o número das comunidades muçulmanas que não tinham origem étnica árabe.
A soma de todos esses fatores teve como consequência imediata a fragmen-
tação do poder central em detrimento de chefes locais e dos governadores das
províncias e cidades. Nominalmente as províncias e as cidades ainda eram con-
troladas pelos Abássidas, mas na prática, o poder era exercido pela elite local.
Ao longo do século IX as tensões sociais se ampliaram, principalmente en-
tre as comunidades muçulmanas de origem árabe e as recém-convertidas. O
enfraquecimento do poder central ainda teve uma consequência última: as dis-
putas políticas renasceram de forma consistente dentro do Império islâmico e
puseram em cheque a dominação e a supremacia árabe no mundo muçulmano.

4.2  Cultura, economia e as cidades.

4.2.1  Cultura

Os abássidas chegaram ao poder levantando a bandeira da religião e dessa pre-


missa construíram sua administração. Entregaram o controle administrativo a

capítulo 4 • 85
funcionários qualificados e deram prioridade a função religiosa. O Califa era o
líder espiritual do Islã e seu poder era oriundo de interpretações do próprio Al-
corão e das chamadas Regras de Boa Conduta, que tinham origem no compor-
tamento de Maomé. Para reforçar o simbolismo do cargo, os Califas passaram
a usar objetos e ornamentos que enfatizavam sua ligação ancestral ao Profeta.
Foi durante esse califado que a figura do Cádi (espécie de Juiz) passou a ter
maior importância. Ele passou a ter a função de dirimir os conflitos sociais
à luz das Regras de Boa Conduta. Essas regras nasceram dos relatos sobre o
comportamento de Maomé e de seus companheiros. Estes relatos são chama-
dos de Hadith e a junção destes com o Corão deu origem a Sharia, conjunto de
leis muçulmanas.
No Califado Abássida houve também uma inversão cultural importante. Até
o Califado Omíada a cultura árabe estava intrinsecamente ligada ao movimen-
to de expansão islâmico, mas com a ascensão abássida ao poder, essa ligação
foi aos poucos sendo quebrada. A Identidade Árabe foi sendo substituída pela
Identidade Muçulmana, graças a influência dos muçulmanos de origem persa.
O fator étnico perdeu importância dentro da revolução, mas a língua oficial do
Islã continuou a ser o árabe.
O Califado Abássida ainda foi marcado pela busca constante por
Conhecimento e por criar inovações tecnológicas com bases científicas. Foi
nesse califado que nasceu o conceito de Hospital (local onde se busca a cura
de doenças e não para onde se leva os doentes) e Bagdá foi a primeira cidade a
contar com uma fábrica de papel.

“Nos tempos de Mamun, as escolas de medicina eram extremamente ativas em Bagdá.


O primeiro hospital público gratuito foi aberto em Bagdá durante o califado de Harun
Al-Rashid. Ao desenvolver este sistema, médicos e cirurgiões eram obrigados a dar
aulas nas escolas de medicina, e entregavam diplomas a aqueles que consideravam
qualificados para exercer a medicina. O primeiro hospital no Egito foi aberto em 872,
e a partir daí se espalhou por todo o Império, desde o Al-Andalus (Espanha) até a Pér-
sia (Irã).” (BLUGG, 1976)

Além disso, foi no Califado Abássida que foram criados ou resgatados co-
nhecimentos que serviram para produzir e expandir o movimento renascentis-
ta Ocidental.

86 • capítulo 4
Também foram eles que:
•  Conceberam a ideia de que necessitaria existir um local onde os estudio-
sos pudessem se reunir para criar e transmitir conhecimentos específicos e ti-
dos como verdadeiros (esse é o conceito de Universidade no Ocidente);
•  Criaram a álgebra ao resgatar a cultura helenística ligada ao estudo das
ciências exatas e da lógica;
•  Ampliaram o estudo da óptica e criaram as primeiras lentes que posterior-
mente permitiram o nascimento dos óculos modernos;
•  Expandiram os conhecimentos sobre astronomia;
•  Difundiram e ampliaram a prática do experimentalismo científico dentro
e fora do Império;
•  Ampliaram os conhecimentos sobre Cartografia e Matemática permitin-
do aperfeiçoar instrumentos como o Astrolábio.

CURIOSIDADE
O astrolábio foi utilizado pelo islamismo para controlar o tempo e assim determinar a hora
correta das orações que devem ser realizadas diariamente. Ele foi introduzido no mundo
árabe a partir da tradução de textos gregos, mas sua capacidade de precisão foi aprimorada
depois de estudado pelos árabes. Depois que chegou ao Ocidente – a partir do mundo árabe
– foi readaptado e passou a ser usado por portugueses e espanhóis para calcular a latitude
em mar aberto, lhes garantindo a primazia nas viagens atlânticas e consequentemente o
descobrimento das Américas.

É consenso entre os estudiosos que essas descobertas são fruto da impor-


tância dada pelos árabes ao Conhecimento. Essa característica marcante foi
essencial para a integração dos mais diversos conhecimentos literários e de
cunho científico – o mecenato Abássida teve grande importância para o nasci-
mento desse movimento científico-cultural, por trazer para Bagdá tradutores e
eruditos de todas as partes do império e até mesmo de fora dele.
Outra característica marcante do período Abássida foi o nascimento de
uma unidade cultural dentro das tribos nômades, percebida, principalmen-
te, pelo nascimento de uma linguagem poética em dialetos de origem árabe.
Era formal, de vocabulário rico e gramaticalmente correto. Nascida nos oásis e
nos acampamentos tribais essa forma de expressão cultural se expandiu pelas

capítulo 4 • 87
cortes árabes. As poesias não eram escritas, nisso lembrando os bardos euro-
peus, apesar do uso da escrita já ser disseminado no mundo árabe.

©© DANIELINESS | WIKIMEDIA.ORG

Figura 4.2  –  Manuscrito da época do Califado Abássida.

CURIOSIDADE
O primeiro livro dedicado exclusivamente a álgebra foi escrito em árabe no século IX e se
chamava Livro Compêndio sobre Cálculo por Restauração e Balanceamento, escrito pelo
matemático árabe al-Khwarizmi

4.2.2  Economia

A economia do Califado Abássida teve como base fundante a estrutura admi-


nistrativa Omíada, entretanto, houve expansão das relações comerciais com
outros povos e maior arrecadação de impostos. Isso só foi possível por que:
•  O comércio nas cidades sofreu uma expansão e diversificação nascida da
urbanização;
•  O controle das rotas comerciais que saiam do Oriente para o Ocidente
(principalmente as rotas ligadas as especiarias e aos produtos de luxo) foi ex-
pandido com a integração do Mar Mediterrâneo ao Oceano Índico;

88 • capítulo 4
•  A agricultura passou por uma revolução, graças a expansão das áreas
cultiváveis;
•  Cresceu a oferta de crédito para a ampliação da produção de mercadorias;
•  A escravidão passou a ter um papel importante dentro da estrutu-
ra produtiva;
•  A administração ficou mais eficiente graças a entrada de funcionários de
origem persa e bizantina que tinham experiência na administração de gran-
des impérios.

Entretanto, houve uma mudança na forma de cobrança de impostos que


passou a ser utilizada durante o Califado Abássida que deve ser assinalada.
O califado criou dois tipos de impostos que dividiu a população que vivia den-
tro do Império entre muçulmanos e não muçulmanos. Essa divisão com base em
preceitos religiosos remonta a práticas ligadas ao início da revolução islâmica.
Havia um imposto ligado a produção de alimentos, mas existia uma diferen-
ciação entre os produtores muçulmanos, que pagavam um imposto menor so-
bre o que era produzido, e não muçulmanos, que pagavam um imposto maior
sobre sua produção. A outra mudança foi a cobrança de um imposto específico
a não muçulmanos que variava de acordo com a fortuna de cada um.

REFLEXÃO
Apesar de existir diferenciação entre muçulmanos e não muçulmanos (tratados de uma for-
ma geral como inferiores) dentro do islamismo, uma parte dos funcionários que controlavam
a cobrança dos impostos e a entrada e saída de dinheiro dos cofres do califado eram Judeus
e/ou Cristãos. Mesmo nos períodos de perseguição a esses grupos, o Califa tendia a man-
ter seus administradores não muçulmanos. Mesmo quando se viam obrigados a demiti-los
por conta de insatisfação social, era comum a recontratação depois de terminada a pres-
são popular.

Além desses impostos que se pautavam na cultura religiosa, também exis-


tiam impostos sobre os produtos que eram importados e exportados e vários
outros que insidiam sobre as cidades e produtos produzidos por elas, que varia-
vam de acordo com as necessidades dos cofres do Califado.

capítulo 4 • 89
4.2.3  Cidades

Figura 4.3  –  Cidade de Bagdá.

A cidade de Bagdá representou um marco na estrutura de poder do Império


islâmico, mas essa cidade não foi a única que teve papel de destaque. A origem
do Mundo Árabe está ligada ao oásis e ao deserto, mas seu centro de poder esta-
va nas cidades. Meca, Medina, Damasco, Córdoba, e Cairo, são só alguns exem-
plos de grandes cidades que fizeram parte, ou nasceram no Império islâmico.
As cidades garantiam a riqueza dos Califados, porque estavam situadas ao
longo das rotas comerciais ou, porque seus habitantes pagavam impostos em
grande quantidade. A Conquista de um território no processo de expansão do
Islã estava ligada a conquista da maior cidade da região.
A cidade também dava poder ao Califa ou, podia representar o poder deste.
Damasco era o centro de poder no Califado Omíada; Bagdá foi construída para
ser o centro de poder do Califado Abássida e Cairo foi criada para ser a capital
da dinastia Fatímida.
Entretanto, uma cidade não podia ser governada sem que houvesse a coope-
ração dos seus habitantes. Nas cidades onde existia o Califado ou, nas controla-
das pelos Califados, eram eleitos representantes que serviam como porta-vozes
dos moradores urbanos. Eles eram responsáveis pela manutenção da ordem e
pela cobrança dos impostos.

90 • capítulo 4
COMENTÁRIO
As cidades desempenharam um papel importante para a economia dos Califados. Elas eram
o ponto de partida ou de chegada das grandes caravanas de comerciantes que percorriam
o Oriente próximo, o Oriente Médio e o Extremo Oriente fazendo comércio, e todas pagavam
impostos aos Califados, que variavam de acordo com a mercadoria transportada.

Eleger um membro das comunidades que vivia nas cidades como porta-voz
e coletor dos impostos diminuía o atrito entre o Califado e os moradores das
cidades conquistadas. Nas cidades existiam vários tipos de representantes. Uns
ligados aos locais de moradia, outros ligados ao setor comercial e ainda outros
ligados às minorias étnicas ou culturais que residiam nas cidades:
•  Os chefes de Bairros eram os responsáveis por levar os pedidos de melho-
rias urbanas e também pela coleta dos impostos residenciais;
•  Os chefes dos artesãos e dos mercadores eram escolhidos de acordo com
o local onde praticavam seus ofícios ou realizavam suas transações comerciais,
e eram os responsáveis por negociar o valor dos impostos e a segurança dos
locais onde trabalhavam;
•  Os judeus e os cristãos também possuíam representantes que cobravam
os impostos que lhes permitiam morar na cidade e professar seus credos. Esses
representantes também eram os responsáveis por garantir a lealdade dos mem-
bros da comunidade ao Califado.

A região central das cidades islâmicas ou conquistadas pelo Islã tinha uma
divisão arquitetônica parecida. Havia uma parte do centro da cidade reservada
para a construção da Mesquita; um local onde eram realizados os julgamentos e
um local onde era aplicada à justiça. Os Centros de Cultura também eram cons-
truídos nessa parte da cidade, bem como as lojas dedicadas a venda de artigos re-
ligiosos. Em outra parte do centro havia o centro comercial, onde eram vendidas
e trocadas mercadorias de toda espécie: panos, pedras preciosas, especiarias etc.
Resumindo, no período Medieval Oriental as cidades eram:
•  Centros de produção de mercadorias que eram vendidas na própria cida-
de ou exportadas para outras regiões;
•  O local onde os agricultores e pastores iam vender sua produção;

capítulo 4 • 91
•  O lugar para onde se deslocavam estudiosos para ensinar e aprender, pois,
eram nelas que se encontravam as maiores bibliotecas e centros de estudos;
•  O local onde os Califas e a corte escolhiam para residir.
©© HAMERYKO | WIKIMEDIA.ORG

Figura 4.4  –  Antiga Mesquita da Cidade de Córdoba.

CURIOSIDADE
A cidade de Córdoba já nasceu como um símbolo de resistência ao Califado Abássida. Ela foi
fundada por um membro do Califado Omíada que conseguiu fugir para a Península Ibérica
durante a guerra que culminou com o nascimento do Califado Abássida.
O futuro Califado Omíada na Espanha (chamada de al-Andalus pelos árabes) foi fundado
por Abd al-Rahman I em meados do século VIII. Com o auxílio de povos do norte da África e
de árabes oriundos da Síria e fieis ao Califado Omíada, a Península Ibérica foi, aos poucos,
sendo dominada pelos árabes muçulmanos. A cidade de Córdoba se tornou a capital do
Emirado Independente (756-929), e depois do novo Califado Omíada (929). Na Espanha
moderna a cidade de Córdoba é um dos grandes centros turísticos exatamente por possuir a
riqueza arquitetônica do período em que foi dominada pelos muçulmanos.

92 • capítulo 4
4.3  A organização administrativa do Califado Abássida.

A construção da cidade de Bagdá e a forma como foi planejada arquitetonica-


mente, já trazia em si uma forma de diferenciação social – ao criar uma área
para a morada do Califa totalmente separada das áreas residenciais da cidade
– e também administrativa, pois, a residência do Califa representava o poder
espiritual, e os funcionários que entravam e saiam delas representavam o po-
der temporal.
Administrativamente, a mudança mais significativa criada pelos abássidas
foi a criação da figura do vizir. Ele desempenhava o papel de conselheiro do
Califa e chefiava a administração temporal em seu nome. A partir desse cargo,
os abássidas foram estruturando a administração do Califado de modo a garan-
tir o funcionamento de todas as engrenagens que mantinham o poder político
e religioso do Califa.
A administração foi dividida em setores:
•  Um dos setores tratava exclusivamente do exército – para controlá-lo e
mantê-lo leal ao Califa;
•  Outro setor tratava dos documentos oficiais do Califado, os manten-
do ordenado;
•  Também havia um setor específico que cuidava do tesouro, mantendo os
registros dos pagamentos de impostos e todas as despesas do Califado;
Além dessa divisão primária, o Califado Abássida mantinha outras estru-
turas administrativas que lhes garantiram, nos primeiros tempos, o controle
político e social do Império.
Dentre outras medidas, eles criaram uma estrutura de comunicação que
permitia ao Califa ficar sabendo dos principais fatos ocorridos nas províncias
e se utilizavam do expediente de audiências públicas, onde eram ouvidas as re-
clamações e atendidos os pedidos dos súditos – isso tinha a função de apazi-
guar possíveis atritos ou descontentamentos.
Se no início essa divisão de tarefas teve como efeito imediato a separação
entre os poderes temporal e espiritual, com o tempo, essa divisão representou o
fim do poder temporal dos Califas Abássidas sobre o império muçulmano uni-
ficado. Nominalmente o Califado de Bagdá detinha o poder sobre o Império
Muçulmano, todavia, desde o final do século IX, o poder temporal passou de
forma lenta, mas contínua, para as mãos dos governadores de províncias e che-
fes locais.

capítulo 4 • 93
4.4  Fragmentação política: almohades, fatímidas e seldjúcidas.

4.4.1  Almohades

Os almohades formaram uma dinastia a partir de tribos berberes naturais da


região do atual Marrocos, e sua origem está ligada diretamente a religião islâ-
mica. O fundador da dinastia de origem Xiita, Ibn Tumart, pregava o retorno do
Islã às origens de sua fé, o Alcorão. Eles se viam como o contraponto de outras
tribos berberes que se islamizaram e foram uma dinastia – os almorávidas –
que haviam chegado ao poder conclamando os muçulmanos a retomarem os
ensinamentos dos primeiros tempos, mas, segundo Ibn Tumart, haviam aban-
donado esse discurso, passando a praticar atos mundanos.
Após dominarem o norte da África (durante o século XI) os almohades in-
vadiram a Península Ibérica em 1145. A região já havia sido dominada pelo
Califado Omíada e era controlada pelos almorávidas a partir de principados lo-
cais – que estavam sendo acossados pelos cristãos sistematicamente.
Ao desembarcarem na Península Ibérica os almohades entraram em con-
fronto com cristãos e muçulmanos contrários as suas doutrinas. No seu mo-
mento de maior expansão, o Califado Almohade se estendia da Península
Ibérica, na Europa Ocidental e englobava todo o norte da África.

COMENTÁRIO
É um erro comum definir os berberes como uma tribo africana que se converteu ao islamismo.
Os berberes não são uma etnia. São um conjunto de tribos que viviam na região do Magrede
e possuíam uma língua comum por terem a mesma origem, a região onde hoje é o Marrocos.

94 • capítulo 4
©© WIKIMEDIA.ORG

Figura 4.5  –  Mapa do território controla pelos Almohades. Fonte: Wikipédia

A doutrina Almohade foi erigida sobre três pilares:


•  O Desenvolvimento do conhecimento científico e a sabedoria são requisi-
tos necessários para consolidar o credo islâmico;
•  A existência de Deus, inquestionável, e percebida através da Razão;
•  Alá é uno e puro. Ele não possui em sua essência nenhuma mácula terre-
na e não se parece em nenhum aspecto, com a humanidade.

Esse último pilar dá as bases para a defesa da existência de um guia único


para toda a sociedade muçulmana, que deve ser obedecido e visto como mode-
lo por ela.
Após a conquista dos territórios muçulmanos que antes pertenciam aos al-
morávidas, o Califado Almohade se estabeleceu na cidade de Marraquexe, no
Marrocos. O comando dos territórios da Península Ibérica foi entregue para os
almohades que lá residiam. Os territórios do norte da África ficaram sob o co-
mando de líderes locais.
Desde o início, a pregação radical dos almohades foi vista com ressalvas
pela população muçulmana que habitava a Península Ibérica, que estava acos-
tumada a coexistência relativamente pacífica com os cristãos.

capítulo 4 • 95
O radicalismo religioso, somado a descentralização do poder, foram os
principais motivos que puseram fim ao Califado Almohade. Aos poucos as
províncias do califado na Península Ibérica foram sendo tomadas pelos reinos
cristãos, e os territórios do Norte Africano foram se tornando independentes.
O califado não foi conquistado, ele se desintegrou em meados do século XIII.

COMENTÁRIO
Como os outros Xiitas, os Fatímidas acreditavam que a descendência de Maomé possuía
tanto o poder temporal como espiritual sobre islã e que podiam fazer interpretações dos tex-
tos sagrados, porque eram inspirados por Deus. Esse direito de interpretar os textos sagra-
dos fez nascer a crença de que o último líder espiritual do islamismo não morre, desaparece.
Segundo essa corrente, ele ficará “escondido”,
Refugiado em um lugar secreto, e no momento indicado por Alá, sairá desse lugar se-
creto como mahdi (o bem dirigido), e restaurará o Islã e conquistará o mundo em nome da
verdadeira doutrina.

4.4.2  Fatímidas

Os Fatímidas são uma corrente do Islã nascida a partir de uma dissidência Xii-
ta. A partir do século X, essa corrente se expandiu pela Síria e norte da África,
chegando até a Sicília, graças a conversão de tribos berberes a seu credo. Eles
usaram a solidariedade étnica existente entre as tribos para formar um exército
e expandir sua influência política sobre todo o norte da África e Egito.
O primeiro califado Fatímida foi fundado na região da atual Tunísia, entre-
tanto, o objetivo do Califado era a tomada da província do Egito – maior res-
ponsável pela produção de grãos para o império Abássida – e depois, a cidade
de Bagdá.
Em meados do século X, o Egito foi conquistado com o apoio financeiro
e político dos Xiitas que lá residiam. Após a Conquista, os fatímidas erigiram
uma cidade – o Cairo – para ser a Capital do seu Califado. Na cidade também foi
construída uma Mesquita e uma caserna para proteger al- Um’izz, Imã fatímida
e primeiro Califa, al Mu’izz.

96 • capítulo 4
©© OLAF TAUSCH | WIKIMEDIA.ORG

Figura 4.6  –  Mesquita da Cidade do Cairo. Fonte: Wikepédia

Além de construir a cidade do Cairo, os fatímidas também tiveram que pa-


cificar o Egito. Para fazer isso, as primeiras ações tiveram como objetivo ganhar
a confiança dos líderes religiosos e da população islâmica. As principais ações
nesse sentido foram: prometer a retomada da jihad contra os não convertidos e
a peregrinação a Meca que havia sido interrompida, além garantir a manuten-
ção das mesquitas e o salário dos sacerdotes.
O Califado Fatímida foi marcado pela manutenção e expansão do comércio
dentro dos seus domínios e a manutenção do poder via relações diplomáticas.
Eles controlavam regiões produtoras de trigo na Síria, que permitia impor-
tar o cereal para o Egito em tempos de escassez ou, exportar a produção para
Bizâncio. Usando a diplomacia, criaram protetorados dentro das províncias
que haviam se rebelado, evitando assim, uma guerra por território e mantendo
as relações econômicas estáveis na região.
Sob o reino do primeiro Califa, al ‘Aziz (975‑996), o Egito foi pacificado e
floresceu economicamente ao ponto de influenciar, ou manter o controle ter-
ritorial sobre toda Península Arábica, o mediterrâneo meridional, o norte da
África e partes da Síria.

capítulo 4 • 97
COMENTÁRIO
O nascimento do Califado Xiita Fatímida no Egito dividiu os muçulmanos no século X em três:
um com sede na cidade do Cairo, governado pelos Fatímidas; outro com sede na cidade de
Bagdá, governado pelos Abássidas e um terceiro, cuja sede era a cidade de Córdoba, e era
governado pelos Omíadas.

4.4.3  Fim do califado

Até o início do século XI os fatímidas conseguiram manter o controle dos


territórios conquistados usando o exército berbere, entretanto, acordos polí-
ticos e diplomáticos fizeram nascer dentro dos territórios controlados, líderes
tribais que tiveram que ser combatidos.
O exército foi expandido e passou a reunir várias etnias berberes e de ori-
gem árabe; escravos negros e mercenários. Quando não estavam em guerra os
soldados recebiam um soldo para se manterem e em tempo de guerra recebiam
um soldo complementar. Nesse período, ser soldado representava garantia de
renda.
Com o tempo, manter as regalias do Califa, o pagamento dos funcionários
públicos e dos sacerdotes e o salário dos soldados, fez nascer conflitos de in-
teresses dentro da estrutura administrativa do Califado – a arrecadação de im-
postos não cresceu na mesma proporção das despesas.
Somado a isso outros problemas surgiram:
•  As cidades estavam superpovoadas;
•  Os camponeses eram mortos nas invasões de tribos nômades;
•  A elite se refugiara no interior da cidade do Cairo, com medo de invasores
e dos próprios moradores da cidade;
•  Os comerciantes não tinham segurança para trabalhar e por isso, o co-
mércio começou a definhar;
•  As tribos nômades que viviam no deserto se uniram em confederações e o
controle sobre o deserto foi perdido.

Para tentar manter a ordem, o Califado Fatímida pediu ajuda para o gover-
nador da Palestina. Ele restabeleceu a ordem dentro do califado, mas, tomou

98 • capítulo 4
para si o poder de comando proclamando-se vizir. Desse momento em diante
os califas fatímidas passaram a ser controlados pelos vizires militares.
No século XII, o Califado Fatímida foi conquistado por tropas Sírias e a dou-
trina sunita voltou a comandar o Egito.

4.4.4  Seldjúcidas

Os seljúcidas eram uma confederação de tribos de etnia turca que habitava ini-
cialmente regiões da Ásia Central. No século X, uma parte dessa tribo teve con-
tato com a cultura muçulmana e se converteu ao islamismo.
No início do século XI eles saíram da Ásia central e se deslocaram para a
região do atual Irã, na antiga Pérsia. Ao logo desse século os seljúcidas conquis-
taram a região central da Síria, e ali fundaram o Império Seljúcida, adotando a
cultura e a língua persa ao se misturarem com a população local.
A chegada da tribo seljúcida ao Oriente Médio representou o marco da as-
censão turca sobre esta região. Apesar de estarem nominalmente submetidos
ao Califado Abássida de Bagdá, na prática, criaram um império bem organiza-
do graças a inclusão de persas na estrutura administrativa.
A influência de administradores persas garantiu a unidade do Império e o
poder político dos seljúcidas na região. Além disso, a administração do Império
criou escolas que ensinavam aos recém-convertidos os pilares do islamismo e o
conhecimento científico e filosófico criado, ou assimilado pelos muçulmanos.
Entre os anos de 1038 e 1077 o império se expandiu de tal forma que chegou
a rivalizar com os Califados Omíada e Abássida. Entretanto, no final do século
XI os territórios foram divididos em unidades administrativas independentes,
enfraquecendo o poder do império, que aos poucos foi se desintegrando em
cidades ou regiões independentes. Entretanto, os turcos seljúcidas tiveram pa-
pel importante na Idade Média Oriental, principalmente nos confrontos com o
Império Bizantino, inclusive participando do cerco a Constantinopla na última
década do século XI.

capítulo 4 • 99
©© MAPMASTER | WIKIMEDIA.ORG
Cazares
Império
Bizantino Sínope Qaracanidas
Amasis (vassalos)
Constantinopla Trebizonda
Galípoli Amásia Kars
Nicomédia Desde 1089
Niceia Ancira Neocesareia Teodosiópolis Ani
Adramitião Dorileu Bucara
Pérgamo Melitene
Filadélfia Cesareia Samarcanda
Sardis
Esmirna Filomélio Manziquerta
Icônio Estados Armênios Amida
Éfeso Laodiceia
Ataleia
Heracleia
Edessa
1071 Tabriz
Tarso Germanícia
Harã
Antioquia Alepo Dandanaqã
Rodes
Mira Selêucia
Mossul 1040
Emessa
Trípoli
Creta Chipre
Beirute
Sídon Bagdá
Tiro Damasco (desde 1055)
Acre
Jafa
Alexandria Ascalão Jerusalém
Gaza Ispaã
Damieta Domínio seljúdica
desde 1071; reconquista
Cairo fatímida em 1098
Califado
Arábia
Fatímida

Figura 4.7  –  Império Seljúcida.

Embora alguns generais turcos já tivessem alcançado um poder considerá-


vel na Mesopotâmia e no Egito, durante os séculos X e XI, a chegada dos seljú-
cidas assinalou a penetração em grande escala dos turcos no Oriente Médio.

ATIVIDADES
01. Leia o texto abaixo e depois responda as perguntas.
A execução de um importante clérigo xiita iraniano pela Arábia Saudita, reino de maioria
sunita, expôs as delicadas relações entre sunitas e xiitas na região.
A Arábia Saudita, de maioria sunita, é rival tradicional do Irã, a grande potência xiita no
Oriente Médio, que monitora - com grande interesse - a questão de minorias xiitas em ou-
tros países.
O clérigo Nimr Al-Nimr era conhecido por manifestar o sentimento da minoria xiita
na Arábia Saudita, que se sente marginalizada e discriminada, e por suas críticas à família
real saudita.
O clérigo e outras 46 pessoas foram executadas no sábado, após serem condenadas por
crimes de terrorismo na Arábia Saudita.
Após as execuções, manifestantes iranianos invadiram a embaixada saudita em Teerã. Na
noite de domingo, o governo saudita anunciou o rompimento das relações diplomáticas com o
Irã e deu um prazo de 48 horas para que diplomatas iranianos deixassem o país.
Fonte: BBC. Disponível em: <http://www.bbc.com/portuguese/noticias/
2016/01/160104_diferencas_sunitas_xiitas_muculmanos_lab>.

100 • capítulo 4
a) Disputa entre sunitas e xiitas pela liderança da comunidade muçulmana começou na
Idade Média Oriental. Partindo dessa afirmação pesquise os motivos que levam a essa
disputa pelo poder dentro da comunidade muçulmana.
b) Faça a diferenciação entre muçulmanos sunitas de muçulmanos xiitas.

02. A cidade de Bagdá foi construída pelo Califado Abássida. Sua construção represen-
tou um marco simbólico no Império Islâmico, pois serviu para demarcar geograficamente a
mudança de poder dentro do mundo islâmico e muçulmano. Sobre o motivo de sua criação
podemos afirmar ainda:
I. Sua localização afastava o centro de poder da influência de outros grupos políticos e
da comunidade árabe muçulmana;
II. Sua localização possibilitava o controle dos territórios onde ainda existiam grupos leais
ao Califado Omíada;
III. A região onde foi construída possuía um solo fértil, garantindo alimento para a popula-
ção da cidade e impostos para sustentar todas as estruturas que garantiam o poder do Califa.
a) Somente as afirmativas I e II estão corretas
b) Somente as afirmativas I e III estão corretas
c) Somente as afirmativas II e III estão corretas
d) Todas estão corretas
e) Todas estão incorretas

03. Sobre a administração do Império Abássida é correto afirmar:


I. Havia um setor que tratava exclusivamente do exército – para controlá-lo e mantê-lo
leal ao Califa;
II. Havia um setor que tratava dos documentos oficiais do Califado, os mantendo ordenado;
III. Havia um setor específico que cuidava do tesouro, mantendo os registros dos paga-
mentos de impostos e todas as despesas do Califado;
a) Somente as afirmativas I e II estão corretas
b) Somente as afirmativas I e III estão corretas
c) Somente as afirmativas II e III estão corretas
d) Todas estão corretas
e) Todas estão incorretas

capítulo 4 • 101
RESUMO
O fim do califado Omíada e a ascensão da dinastia Abássida colocou a descendência de
Maomé, os partidários de Ali, no controle do Império muçulmano, entretanto, causou ruptu-
ras no interior do mundo islâmico que perduram até hoje.
A disputa interna pelo poder no Império Abássida fez nascer duas correntes político-re-
ligiosas: Xiitas e Sunitas. A primeira, Xiita, defende a tese que diz que o líder religioso do Islã
pode interpretar os textos sagrados. A segunda, Sunita, acredita que o Alcorão e a tradição
devem guiar o islamismo. Essas duas correntes disputam até os dias atuais o controle es-
piritual sobre a fé muçulmana e traz instabilidade política aos países de cultura muçulmana.
Foi no califado abássida que os árabes começaram a perder o protagonismo no mundo
muçulmano graças a conversão dos povos conquistados. Grande parte não tinha origem ára-
be – como os persas e os berberes – e defendiam que o islamismo não era uma revolução
de origem étnica, mais sim cultural.
A disputa entre árabes e recém-convertidos fragmentou o poder político. Bagdá conti-
nuou a sede do poder espiritual, tendo na figura do Califa seu representante, mas, o comando
do império foi dividido entre os administradores das províncias, os chefes locais e os admi-
nistradores das cidades.
Ainda no califado Abássida três correntes de pensamento político-religioso tiveram pro-
tagonismo: os almohades, os fatímidas e os seldjúcidas.
Os almohades e os fatímidas eram muçulmanos Xiitas que não aceitavam o Califa Abás-
sida como líder espiritual. A partir da conversão de tribos berberes criaram grandes exércitos,
e fundaram seus próprios Califados. As duas correntes entraram em confronto com Bagdá e
chegaram a controlar grandes territórios, principalmente no norte da África.
Os seldjúcidas eram tribos de origem turca que foram convertidos ao islamismo a partir da
corrente sunita. A conversão dessas tribos representou a ascensão turca ao poder. Os seldjú-
cidas dominaram a região da Síria e criaram uma estrutura administrativa independente. No-
minalmente se submetiam ao poder de Bagdá, na prática, eram seus próprios governantes.
O final do IX marcou a perda o controle Abássida sobre o mundo muçulmano. O controle
político ficou nas mãos das elites provinciais, e Califa passou a ser, na maioria das vezes,
somente uma figura decorativa controlada pela burocracia administrativa personificada na
figura do vizir.

102 • capítulo 4
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARMSTRONG, Karen. Jerusalém: uma cidade, três religiões. São Paulo: Cia das Letras, 2000.
ABED AL-JABRI, Mohammed. Introdução à crítica da razão árabe. São Paulo: Editora UNESP, 1999.
BLUGG, J.B. Haroon Al Rasheed and the Great Abbasids, Hodder & Stoughton, 1976.
FERGUSON, Niall. Civilização: Ocidente X Oriente. São Paulo: Planeta, 2000.
LE GOFF, Jacques, O Apogeu da Cidade Medieval, S. Paulo, Martins Fontes, 1992;
LE GOFF, Jacques; SCHMITT, Jean-Claude. Dicionário Temático do Ocidente Medieval. Bauru, SP:
Edusc, 2006. 1v.
LE GOFF, Jacques; SCHMITT, Jean-Claude. Dicionário Temático do Ocidente Medieval. Bauru, SP:
Edusc, 2006. 2v.

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104 • capítulo 4
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O mundo falava
árabe
5.  O mundo falava árabe
No capítulo anterior analisamos o nascimento e a ascensão do Califado Abássi-
da. Entendemos como nasceu a divisão do mundo islâmico em Sunitas e Xiitas.
Estudamos, também, como o império abássida se organizou administrativa-
mente, e como essa forma de organização, com o tempo, levou a fragmentação
do califado em províncias autônomas.
Neste Capítulo iremos estudar como os abássidas foram importantes para
o desenvolvimento da filosofia árabe. Como a busca por Conhecimento tentou
criar uma cultura árabe com base na Razão, não na interpretação religiosa.
Somado a isso, faremos um contraponto entre o conhecimento Ocidental
e Oriental no período Medieval para compreendermos como o islamismo,
e a cultura muçulmana, tiveram papel de destaque na construção do mun-
do Ocidental.
Também estudaremos o extremo Oriente, buscando entender como a cul-
tura, a tecnologia, e o comércio com os povos orientais influenciaram o desen-
volvimento do Ocidente.

OBJETIVOS
•  Estudar as Casas de Cultura e como elas ajudaram difundir o conhecimento científico e
racional dentro do mundo árabe-muçulmano;
•  Entender como a cultura árabe teve papel importante no desenvolvimento do Ocidente;
•  Entender as trocas culturais que aconteceram entre os povos orientais, árabes e ocidentais;
•  Entender o papel da Índia no comércio e no imaginário do Ocidente Medieval;
•  Entender a organização social e administrativa chinesa no período Medieval;
•  Estudar a expansão do império Mongol e suas consequências tanto para o Ocidente como
para o Oriente Medieval.

5.1  As Casas de Cultura

Já discutimos como a chegada dos abássidas ao poder fez surgir uma ruptura
na cultura religiosa árabe-muçulmana no que se refere a liderança temporal
e espiritual do Império Islâmico. De um lado estavam os sunitas, defendendo
que só os dignos poderiam guiar os muçulmanos, e do outro estavam os xiitas,

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alegando que só a linhagem do profeta poderia guiar os muçulmanos, porque
Deus lhes havia dado o poder de interpretar os textos sagrados.
Apesar de parecer uma disputa religiosa, essas duas correntes travaram, e
ainda travam, uma luta ideológica ligada a dicotomia Razão x Tradição ou, em
outras palavras, a proeminência do poder temporal sobre o poder religioso.
O Califado Abássida teve que se impor para garantir que a sociedade muçul-
mana se guiasse a partir da Razão sem perder a identidade muçulmana – ligada
intrinsecamente a religião islâmica.
Para implantar o pensamento racional, eles seguiram o que ficou conhecido
como a Regra da Boa Conduta. Segundo esse princípio, as leis islâmicas deve-
riam nascer da análise do comportamento de Maomé e de seus companheiros
quando resolveram problemas que não estavam necessariamente ligados a reli-
gião islâmica. Seguindo essa linha de pensamento, a Razão guiaria a resolução
dos conflitos sociais. Haveria um juiz para resolver as disputas. Esse princípio
deu origem aos sunitas e a soma dos relatos ao Alcorão deu origem ao conjunto
de leis muçulmanas, a Sharia.
O contrário da Razão é a Tradição. Ela parte do princípio que a resposta para
qualquer conflito se encontra, impreterivelmente, na religião islâmica. Não ha-
veria espaço para julgamentos racionais. A iluminação; a inspiração divina se-
ria a respostas para os conflitos. Esse princípio deu origem aos xiitas.
O califado Omíada já fazia separação entre Razão e Tradição, – dando ênfa-
se ao poder temporal – mas, foi no Califado Abássida que essa política se inten-
sificou. O sétimo califa abássida, al-Ma’mun, adotou como doutrina oficial do
Império Abássida o mu’tazilismo e fez a separação entre o credo religioso, sob
a orientação e controle direto do califa e a estrutura administrativa do Império,
que tinha no cargo do Vizir sua expressão física. Essa separação permitiu ao ca-
lifado Abássida lutar contra a influência crescente da aristocracia persa dentro
do Império Árabe-muçulmano.
Era a cultura muçulmana que garantia o poder secular ao Califa. Se essa
cultura fosse influenciada por interesses tribais, ou de uma classe social espe-
cífica, toda a estrutura do império poderia ruir. Para combater a ação dessas
forças, além do mu’tazilismo, os abássidas investiram na tradução e difusão
de obras científicas e filosóficas da Antiguidade Clássica. O califado passou a
propagar o progresso científico e social e a usá-los como meio para combater
o discurso tribal e o discurso sectário da elite persa. Para garantir que esse dis-
curso se difundisse por todo o mundo islâmico os abássidas criaram as Casas
de Cultura.

capítulo 5 • 107
COMENTÁRIO
O pensamento teológico mu’tazilita partia do princípio da unicidade de Deus (transcendência
absoluta em relação ao mundo) e da Justiça divina (afirmavam que o homem é responsável
por seus atos).

5.1.1  As Casas de Cultura

A expansão territorial e o contato com outras culturas permitiram aos árabes


expandir suas perspectivas culturais e visão de mundo. O conhecimento cientí-
fico e filosófico passou a ser valorizado e a busca, a preservação e a difusão des-
se tipo de conhecimento passou a ser uma das características que marcaram o
império árabe-muçulmano no período da Idade Média Oriental.
O califado abássida foi o grande patrocinador dessa busca pelo saber cien-
tífico e filosófico. Os califas resgataram conhecimentos gregos sobre ciência e
filosofia, aprenderam e copiaram a tecnologia chinesa e redescobriram a ciên-
cia da antiga Pérsia e da Índia.
Para garantir que esses conhecimentos não fossem perdidos outra vez, e
para garantir que eles fossem difundidos por todo o mundo árabe-muçulmano,
os abássidas criaram as Casas de Cultura. Elas foram criadas inicialmente para
guardar documentos de grande valor científico ou filosófico de origem grega,
persa e indiana que estavam sendo encontrados, e também era o lugar onde se
faziam a tradução e a cópia desses documentos.
Logo que foram criadas, as Casas de Cultura foram estruturadas fisicamen-
te para possuírem um espaço específico para o trabalho dos eruditos e foram
dotadas de um aparato administrativo e auxílio financeiro fixo que permitia
seu funcionamento mais ou menos autônomo.
Além de criar as Casas de Cultura os califas abássidas praticaram o mece-
nato. Eles patrocinaram tradutores e eruditos de todos os locais, inclusive de
fora das fronteiras do império. Bagdá se transformou em um grande centro
de conhecimento para onde se dirigiam toda sorte de pessoas. Algumas iam
morar na cidade para ter acesso aos textos dos grandes sábios da Antiguidade,
outros queriam aprender com os grandes mestres que lá ensinavam e outros
ainda iam para a cidade copiar livros e difundi-los dentro e fora do mundo
árabe-muçulmano.

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Com o decorrer do tempo, e o crescimento de importância dentro da es-
trutura social do império, elas foram se transformando realmente em grandes
centros de conhecimento. Foram criadas salas específicas para copistas, tradu-
tores e ilustradores. Também foi criada uma grande biblioteca, e uma estrutura
para ordenar os textos de acordo com o tema ou origem. E por último, mas não
menos importante, foram criados espaços físicos para que os grandes eruditos
e pesquisadores, advindos de todas as partes, trabalhassem ou ministrassem
aulas. Essa última característica fez nascer uma base de conhecimento originá-
rios do próprio mundo árabe.
No início, o conhecimento produzido nas Casas de Cultura foi usado em
prol da religião. Foi o conhecimento científico nascido nas Casas de Cultura
que ajudaram o muçulmano a encontrar a direção geográfica da cidade de Meca
para rezar ou peregrinar. Foi também graças ao conhecimento científico que o
muçulmano aprendeu a controlar o tempo para fazer as cinco orações diárias.

Figura 5.1  –  Manuscrito do século XIV.

Já no final do século IX quase todas as grandes cidades do império árabe-


muçulmano possuíam uma Casa de Cultura que criava e difundia conheci-
mento. Elas passaram a ser verdadeiras universidades, onde grande parte do
conhecimento científico produzido pela humanidade poderia ser encontrado
e estudado.

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A ascensão do Mundo Árabe durante a revolução maometana, além de re-
formular e transformar o equilíbrio de poder entre Ocidente e Oriente ainda
trouxe uma mudança significativa para o mundo erudito: o grego clássico foi
substituído pelo árabe como língua oficial do Conhecimento Científico.
Essa mudança fez com que renascimento Ocidental sofresse influência
direta da cultura árabe-muçulmana ou, em alguns aspectos, dependesse dela
de forma direta. A mais marcante dessas influências foi obrigar a maioria dos
eruditos ocidentais a aprenderem a língua árabe ou, possuírem um tradutor.
Como a maioria dos livros que chegavam ao Ocidente eram escritos em árabe,
foi necessário, para estudá-los, aprender a língua para fazer a tradução para o
latim ou para o grego.

COMENTÁRIO
O trabalho dos copistas e ilustradores de livros nas Casas de Cultura muçulmanas, e nos
Mosteiros no Ocidente, eram muito valorizados. O ato de copiar o texto e ilustrar suas páginas
era um trabalho realizado por artistas. O livro era visto não só como uma fonte de informação
e conhecimento. Ele era tratado como uma obra de arte.

5.1.2  A importância do papel para a difusão do saber

Buscar e reunir o conhecimento de povos de várias partes do mundo em um


único lugar foi uma tarefa difícil, mas, sua difusão foi relativamente fácil graças
ao domínio do processo de fabricação do papel. A tecnologia chinesa de fabri-
cação do papel a partir do linho e do cânhamo tornou a confecção de livros rela-
tivamente barata. Antes do papel, os livros eram escritos em peles de animais.
Além de difícil fabricação, pois tinham que ser esticadas, raspadas e secas – o
que demandava muito tempo –, as peles se danificavam com mais facilidade.
Fazendo um contraponto com a Europa Ocidental, o controle do proces-
so de fabricação do papel permitiu ao mundo árabe difundir conhecimento e
sua cultura de forma mais rápida, e isso teve como efeito colateral a busca por
mais conhecimento. Essa busca pelo saber fez nascer uma “cultura do livro”
no mundo árabe. Foram construídas grandes bibliotecas públicas, com locais
para leitura e transcrição de texto, e nasceu um comércio ligado a produção e
venda de livros. Saber ler e ter livros significava conhecimento, refinamento e
possibilitava a entrada na estrutura administrativa do império.

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Apesar de ter sido valorizada por mais de três séculos, a partir da segunda
metade do século X a importância das Casas de Cultura foi diminuindo. O prin-
cipal motivo para isso ter acontecido foi a fragmentação do poder no mundo
islâmico. A luta pelo poder temporal e espiritual dentro do império fez com que
a busca pelo saber fosse posta de lado. O nascimento do califado Omíada na
Espanha, e do califado Fatímida no Egito, fez o califado de Bagdá mudar sua
política administrativa buscando fortalecer o controle do império pelas armas.
As disputas fragmentaram o império e fizeram nascer pequenos reinos ou ter-
ritórios independentes.
Num ambiente marcado pela violência, a busca por conhecimento e preser-
vação de conhecimento tornou-se irrelevante. Com exceção do conhecimento
médico e matemático, as Casas de Cultura e a busca pela erudição foi sendo pos-
ta de lado pelo mundo árabe-muçulmano. Mas, seu legado foi importantíssimo
para o Ocidente Medieval. Sem a contribuição árabe, preservando e difundin-
do os textos de filósofos e cientistas da antiguidade clássica a Europa Medieval
não teria sofrido as mudanças socioculturais que permitiram o Renascimento
Cultural e o pensamento Iluminista.

5.2  Documentos medievais e trocas culturais

Como já foi dito, a busca e a difusão de conhecimento foi uma característica do


califado abássida, e o controle do processo de fabricação do papel foi um fator
preponderante para que isso fosse possível. Entretanto, o controle do fabrico
de papel não trouxe ganhos só para o mundo árabe. Ele ajudou a Europa Oci-
dental a ter acesso a conhecimentos de origem científica que reformularam a
forma como o europeu via a realidade, e possibilitou também que manuscritos
da antiguidade clássica, que há muito se acreditava perdidos fossem reencon-
trados e discutidos pelos ocidentais, acelerando, assim, o processo de renasci-
mento cultural.
Os livros de história que tratam do período medieval ocidental dividem esse
momento em dois: Alta Idade Média e Baixa Idade Média. A primeira repre-
sentaria o momento onde a razão foi substituída pelos dogmas religiosos, e a
segunda representa o ressurgimento da razão e a gradual quebra dos dogmas
ligados à religião.
No Oriente Medieval o período da Alta Idade Média representou o flores-
cimento do pensamento científico, e não é errado afirmar que as trocas cul-
turais que aconteceram entre Oriente e Ocidente, nesse momento, foram

capítulo 5 • 111
fundamentais para o retorno do pensamento científico e filosófico no Ocidente
no período da Baixa Idade Média.
A cultura árabe-muçulmana transferiu para a Europa ocidental, conheci-
mentos científicos que revolucionaram a medicina, modificaram de forma per-
manente a forma dos ocidentais entenderem a astronomia e a arte de navegar,
introduziu conhecimentos sobre álgebra e trigonometria e revolucionaram a
cartografia ocidental.
Entretanto, foi no campo da filosofia que a influência árabe se fez mais im-
portante. Os árabes resgataram os pensadores clássicos e transmitiram sua
própria filosofia para o Ocidente. Aos poucos o homem europeu percebeu e
entendeu que podia estudar o mundo sem que isso fosse uma ofensa a Deus
– essa mudança de pensamento foi acontecendo aos poucos e durou séculos,
mas, no final do processo, culminou com o Renascimento cultural europeu e
o Iluminismo.

REFLEXÃO
O movimento Humanista, nascido durante o renascimento cultural europeu, renegou ou recla-
mou para si várias descobertas científicas que tem sua origem no mundo árabe-muçulmano.
Houve uma tentativa, senão deliberada, mas pelo menos consciente, de minimizar a influên-
cia árabe no movimento renascentista. Os pensadores humanistas tentaram criar uma ponte
com a antiguidade clássica grega e romana sem mencionar o papel desempenhado pelos
árabes nesse processo. Sem mencionar que a filosofia árabe e o conhecimento científico
criado pelos árabes – como a álgebra – tiveram influência no renascimento cultural europeu.

5.2.1  Documentos medievais

Um documento possui uma função social: transmitir informação. Em fun-


ção do interesse, objetivo e motivo pelo qual foi escrito, um texto possui uma
classificação específica e é escrito de uma forma específica, de modo a ga-
rantir que a informação que se deseja transmitir seja assimilada por quem
irá lê-lo.
Na Idade Média Oriental a busca pelo conhecimento científico e filosófico
teve como efeito colateral o nascimento do gosto pela leitura e pela escrita no
mundo árabe-muçulmano. A tradição da transmissão de conhecimento através

112 • capítulo 5
da oralidade aos poucos foi ficando em segundo plano, e o documento escrito
passou a ser a fonte de saber e de informação.
Nesse contexto, várias formas de transmissão de conhecimento e informa-
ção foram criadas. As principais são:
•  O texto literário (romance): as histórias, lendas e canções tradicionais que
eram conhecidas só na forma oral passaram a ser escritas e difundidas;
•  Epístolas (cartas): eram usadas de uma maneira geral no meio adminis-
trativo e tinham a função de levar informação ou ordens;
•  Biografias: eram escritas normalmente para enaltecer a memória de al-
guém, normalmente de um governante;
•  Sermão: forma de texto nascido da tradição oral que tinha, normalmente,
objetivos religiosos;
•  Crônica: texto de cunho histórico que compilava os acontecimentos his-
tóricos, verídicos, numa ordem cronológica, mas, sem aprofundamento ou in-
terpretação dos fatos.

Esses documentos existiram tanto no Oriente como no Ocidente medieval,


entretanto, foram difundidos em maior quantidade a um número maior de
pessoas no Oriente medieval, durante o processo de racionalização do conheci-
mento pregado pelos abássidas. Saber ler e escrever ganhou conotação especial
no Ocidente somente a partir do século XIII.

5.2.2  Trocas Culturais

Aristóteles, junto com Sócrates e Platão, criaram as bases filosóficas do pen-


samento ocidental. Entretanto, boa parte de sua obra e a de outros filósofos
e cientistas da Antiguidade clássica, só chegaram aos nossos dias graças aos
árabes.
A política do califado abássida de reunir todo tipo de conhecimento cientí-
fico e filosófico, sem distinguir a origem étnica e cultural transformou a língua
árabe num meio de passagem de conhecimento. Documentos da Grécia clássi-
ca, da antiga Pérsia e escritos sânscritos (língua originaria da Índia) eram tradu-
zidos primeiro para o árabe, e só depois para o latim. Durante essa “passagem”
pela língua árabe os textos sofreram interpretações, adaptações, correções e
comentários que os enriqueceram, ou mudaram sua estrutura completamente.
Conhecer e ampliar o conhecimento sobre o que já era conhecido foi uma
característica da cultura árabe-muçulmana do período da Alta Idade Média

capítulo 5 • 113
Oriental. As trocas culturais nascidas dessa busca por conhecimento influen-
ciaram de forma decisiva a história do mundo Ocidental e Oriental.
Para o Ocidente o Oriente árabe-muçulmano deixou um legado, (criado ou
resgatado por eles) que transformou a história mundial:
•  Os conhecimentos astronômicos, náuticos e cartográficos árabes foram
essenciais para a expansão ultramarina de Portugal e Espanha;
•  A pólvora, criada pelos chineses, foi ressignificada pelos ocidentais e pas-
sou a ser uma arma que facilitou o controle do mundo moderno pelas potên-
cias europeias;
•  O papel, também de origem chinesa, mas, difundida no Ocidente pelos
árabes, foi um dos motores que possibilitaram o renascimento cultural;
•  A filosofia aristotélica, interpretada à luz do Averroísmo influenciou pen-
sadores como Roger Bacon e Tomás de Aquino;
•  Os conhecimentos sobre a álgebra e a triginometria.

O papel desempenhado pelo Oriente no processo de renascimento euro-


peu, mesmo negado, é real. Sem a introdução do pensamento árabe e as tro-
cas culturais que aconteceram através de viajantes que adentravam no mundo
oriental para buscar mercadorias, e que de lá traziam conhecimento, ou pela
busca deliberada de conhecimento empreendida por eruditos europeus e bi-
zantinos, o humanismo europeu não teria surgido de forma tão contundente.
Sem a influência árabe, a harmonização do pensamento religioso com o pensa-
mento racional grego poderia não ter acontecido da forma que aconteceu. Ao
invés de aceitação e tolerância, poderia ter acontecido expurgos e banimentos,
e muito do conhecimento que possuímos hoje sobre a Antiguidade clássica e
seus filósofos teriam se perdido.

COMENTÁRIO
O Averroísmo foi uma corrente de pensamento que influenciou vários pensadores europeus
da Idade Média no século XIII. Sua origem se remete ao filósofo islâmico Averroes, que fez
uma tentativa de harmonizar a filosofia aristotélica com a fé islâmica. O estudo dessa ten-
tativa fez com que pensadores ocidentais tentassem fazer o mesmo com a ideologia cristã.

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5.3  O grande Oriente: China, Índia e Mongol

5.3.1  China

No fim de uma viagem de cinco dias chega-se à esplêndida cidade de Zaiton, onde
fica o porto para onde se dirigem todos os navios que chegam da Índia, carregados de
produtos caros e pedras preciosas de grande valor, e pérolas grandes da melhor qua-
lidade. Também o porto dos mercadores de Manzi, isto é, do território vizinho, de modo
que o tráfico de gemas e de outras mercadorias que entram e saem deste porto um
espetáculo digno de ser visto. Desta cidade e de seu porto são exportadas mercadorias
para todas as províncias de Manzi. E eu lhe asseguro que para cada navio que vai para
Alexandria buscar pimenta para exportar para a Cristandade, Zaiton é visitada por ou-
tros cem. (Marco Polo apud CLYDESDALE, 2012)

A descrição feita por Marco Polo do porto de Zaitan, cidade chinesa situada
no estrito de formosa, nos permite vislumbrar o poderio comercial chinês na
Idade Média Oriental.

REFLEXÃO
A influência do islamismo não se deu somente na região do Mediterrâneo, no norte do conti-
nente Africano e Oriente Próximo. No século VIII a presença árabe-muçulmana na China era
uma realidade e no século IX já havia inúmeras comunidades muçulmanas na rota da Seda.
No século XIII a presença muçulmana já era sentida na Indonésia, e em algumas regiões
da Índia o controle político estava nas mãos de muçulmanos. Essa presença muçulmana no
Grande oriente teve inúmeras consequências, mas, a principal foi com certeza a ampliação
das rotas comerciais entre o Oriente e o Ocidente.

Entre os séculos VII e XIII a China se tornou uma das maiores, senão, a
maior potência econômica do mundo. É um fato pode ser atribuído tanto a sua
posição geográfica, como a nova situação política nascida naquele período.
O fim do feudalismo chinês no século VII fez nascer uma estrutura admi-
nistrativa governamental controlada por mandarins. A palavra mandarim é as-
sociada, hoje, à língua falada na China, todavia, o termo era usado na China

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Medieval para definir um funcionário, escolhido por concurso, que trabalhava
para o imperador chinês. Para exercer o cargo, o aspirante a mandarim tinha
que estudar direito, arte, poesia, matemática e engenharia, com base nos prin-
cípios filosóficos do confucionismo.

COMENTÁRIO
O Confucionismo foi criado pelo filosofo chinês Confúcio no século V a.C. Ele é uma filosofia
idealista que busca a harmonia social a partir de princípios morais como o respeito, submis-
são, humildade e obediência.

Segundo a filosofia confucionista o imperador só manteria o poder de con-


duzir o império se governasse de forma justa e competente. Essa interpretação
filosófica foi usada pelos imperadores chineses para manter o controle social a
partir da manutenção da ordem econômica e social no império, e os mandarins
desempenharam um papel importante nesse sentido ao administrar os recur-
sos e controlar a economia do Império.
Administrativamente, os mandarins eram responsáveis por:
•  Administrar os celeiros públicos para garantir comida para a população
em períodos de fome ou em casos de desastres naturais;
•  Controlar as vias fluviais, pois, por elas trafegavam todas as riquezas e
mercadorias produzidas pelos chineses;
•  Controlar e ampliar a produção agrícola;
•  Construir e fazer a manutenção de todas as obras públicas;
•  Organizar a defesa do império contra ataques de potências estrangeiras.

Além da organização administrativa, outros fatores contribuíram para a


ascensão chinesa no período medieval, mas, o principal foram as mudanças
na economia – que passou a produzir para o mercado. Enquanto na Europa
Ocidental e Oriental a maioria da produção, agrícola ou não, era para subsis-
tência, a China produzia mercadorias para o comércio.
A introdução de sementes melhores e a criação de mecanismo para contro-
lar as cheias dos rios fizeram a produção agrícola chinesa produzir exceden-
tes que eram comercializados. A indústria de cerâmica foi expandida e houve
investimentos para melhorar a qualidade dos produtos a serem vendidos aos
mercadores estrangeiros. O comércio da seda foi expandido graças a melhorias

116 • capítulo 5
técnicas ligadas a criação do bicho da seda, da tinturaria e da tecelagem – e se
tornou uma das vigas de sustentação do comércio internacional chinês.

Figura 5.2  –  Rota da Seda.

O crescimento da riqueza na sociedade chinesa no período medieval gerou


um desenvolvimento científico e tecnológico tão intenso, que se fez sentir no
Ocidente. Dentre esses avanços podemos citar:
•  O surgimento da prensa de madeira, criada por monges budistas e que
precederam a prensa de Gutemberg;
•  A criação de bibliotecas com livros das mais diversas áreas do conhecimen-
to, que fez aumentar significativamente os números de chineses alfabetizados;
•  O uso ábaco como instrumento para calcular o valor das mercadorias du-
rante as trocas comerciais;
•  A criação uma espécie rudimentar de letra de câmbio para evitar o trans-
porte de grandes somadas de moedas;
•  A criação da bússola magnética, que revolucionou o transporte marítimo;

Mesmo depois da invasão mongol no século XI e XII a China continuou a


ser uma referência comercial, tanto para o mundo muçulmano, quanto para o
Ocidente Europeu – seus produtos eram fonte de desejo e cobiça nos grandes
reinos europeus.

5.3.2  Índia

A História da Índia pode ser contada através da invasão de seus territórios por
potências estrangeiras e, como essas potências acabaram sendo conquistadas
pela cultura indiana.

capítulo 5 • 117
Também pode ser contada através das tentativas fracassadas de vários go-
vernantes locais em conquistar o controle sobre um vasto território. Assim,
de forma simplista, é possível afirmar que até meados do século X a Índia me-
dieval se caracterizou pela ausência de uma estrutura político-administrativa
que unisse todas as suas regiões. Nesse momento histórico, o poder político se
concentrava nas mãos de pequenos reinos regionais que viviam em disputas
territoriais, mas, por mais que alcançassem pequenas vitórias, o poder de in-
fluência desses reinos limitava-se a seus próprios territórios.

REFLEXÃO
A letra de câmbio chinesa funcionava da seguinte forma: os mercadores depositavam uma
soma de dinheiro vivo em uma província, e recebiam um comprovante que lhes garantia o
saque dessa mesma quantia em uma outra província.
Essa forma de realizar transações comerciais só surgiu na Europa no período conhecido
como renascimento comercial, em princípios do século XII, mas, o ocidente reclama para si a
criação dessa forma de transação comercial.

Entre os séculos III e VIII as diferenças regionais nascidas dentro da estrutu-


ra fragmentada de poder começaram a aparecer, e fortaleceram os sistemas de
castas, principalmente, porque a economia agrícola se expandiu, e incorporou
as tribos que viviam do pastoreio e que tiveram as terras usadas para o plantio.
Também foi nesse período que a Índia passou a fazer parte das rotas comer-
ciais que uniram o extremo Oriente ao mediterrêneo e a Europa. Essa inclusão
possibilitou aos comerciantes indianos venderem produtos que eram valoriza-
dos no ocidente, principalmente tecidos e especiarias. Posteriormente, rotas
marítimas foram criadas para facilitar o comércio e isso expandiu ainda mais
as trocas comerciais entre os dois continentes.

118 • capítulo 5
Figura 5.3  –  Estrutura social da indiana a parte da divisão por castas.

CONCEITO
O sistema de castas que existe na Índia pode ser definido como um sistema social, determi-
nado hereditariamente, que define a posição de cada indivíduo na sociedade de acordo com
o tipo de função social que ele realiza. Ela estabelece uma segregação social que garante
privilégios e criam obrigações socialmente determinadas, instituindo uma hierarquia social
rígida e com pouca mobilidade social.

REFLEXÃO
Na Índia moderna a diferenciação social por castas é proibida, todavia, relatos de agressões
e preconceito a pessoas de origem “inferior” são comuns. As mulheres são as principais
vítimas, porque já são vistas e tratadas, não importa a casta, como seres inferiores. Levanta-
mentos feitos por ONG’s e pela própria ONU demonstram que o estupro e a violência física
às mulheres são os crimes mais comuns.

capítulo 5 • 119
5.3.2.1  Hinduísmo
O hinduísmo é uma estrutura social com base religiosa. Nessa estrutura não
exitem regras que controlam os rituais. O que norteia os hindus são as crenças
e costumes socialmente aceitos pela comunidade da qual faz parte, por isso,
o pluralismo de crenças é a maior característica do hinduísmo. Sobre isso é
necessário chamar a atenção para o fato de que cultos, deuses e seitas que se
remetem ao hinduísmo, são conhecidas há milênios. Algumas escavações ar-
queológicas encontraram traços da cultura hindu que possuem quase três mil
anos.
Entre os séculos VI e VII, o hinduísmo teve um papel importante no proces-
so de revigoração da estrutura econômica indiana. O culto fez com que o co-
mércio ligado às cidades que possuíam templos sagrados ou que tiveram tem-
plos construídos pela nobreza local, atraísse peregrinos, transformando essas
cidades em grandes centros comerciais. A expansão econômica e urbana teve
outra consequência: a arte, a literatura e a ciência se desenvolveram de forma
significativa, patrocinada pelas elites urbanas.

COMENTÁRIO
O livro dos Vedas norteia o hinduísmo, entretanto, é possivel encontrar traços na cultura
hindu do cristianismo, do islamismo, do jainismo, do sufismo, do budismo e muitas outras
religiões. Essa mistura sincrética, ligada à religião, está na gênese da própria religião hindu

REFLEXÃO
A cultura islâmica até hoje influencia a região. A disputa pela região da Caxemira é a mais
conhecida, pois o território é reclamado pelo Paquistão – de maioria muçulmana – e pela
Índia – de maioria Hindu.

5.3.2.2  Invasão islâmica


A chegada do islamismo na Índia transformou culturalmente algumas regiões
da Índia. Ao contrário de outras culturas que foram assimiladas, transformadas
e incorporadas à cultura hindu, o islamismo manteve sua base religiosa.

120 • capítulo 5
As primeiras invasões muçulmanas aconteceram no século VIII, se expandi-
ram no século IX, e no século XIII os muçulmanos criaram o Sultanato de Déli,
que controlou boa parte do norte da Índia. Como acontecia na maioria das in-
vasões islâmicas, os muçulmanos tomaram para si o poder político, pregaram o
Islã, mas não obrigaram os indianos submentidos a aderiarem a nova religião.

5.3.3  Império Mongol

Os historiadores até hoje têm dificuldades em precisar a origem exata das tri-
bos mongólicas. Sabe-se que eles habitavam as planícies da atual Mongólia, en-
tretanto, não se sabe por que migraram para a região ou se sempre estiveram
ali. A dificuldade de se entender a origem dos mongóis, está no fato de ser um
povo cuja história sempre foi contada através de relatos orais. De concreto so-
bre suas origens só sabemos que se dividiam em tribos ou clãs e viviam em uma
disputa permanente por territórios.
©© STEFFEN WURZEL | WIKIMEDIA.ORG

Figura 5.4  –  Estátua de Gêngis Khan.

No século XIII os clãs mongóis foram unidos por Gêngis Khan e começa-
ram uma campanha militar de grandes proporções pela conquista de territó-
rios. No seu ápice, os territórios dominados pelos mongóis iam da atual Coreia,
até o mar Báltico, englobando toda a Ásia menor, o Oriente Médio e próximo à
Rússia europeia.

capítulo 5 • 121
©© GABAGOOL | WIKIMEDIA.ORG

Figura 5.5  –  Mapa do Império Mongol.

O controle Mongol desse vasto território permitiu que antigas rotas comer-
ciais fossem restauradas. A principal delas, a rota da seda, unia o mar medi-
terrâneo à China. A retomada do comércio entre essas duas regiões, via rotas
marítimas e terrestres, possibilitou a ampliação das trocas comerciais entre as
duas regiões, que teve como consequência última, o renascimento comercial
na Europa.
Foi também pelas mãos dos mongóis que o império árabe-muçulmano che-
gou ao fim. Vários principados e emirados continuaram a existir, mas, depois
da tomada da cidade de Bagdá pelos mongóis em 1258, o califado Abássida dei-
xou de existir.
A principal característica do povo mongol era a ferocidade durante as ba-
talhas. Os mongóis eram guerreiros por natureza, e essa é a maior explicação
para as suas vitórias no campo de batalha. Outra característica marcante dos
mongóis era a forma violenta com que tratavam os povos dominados logo no
início da expansão.
Ainda assim, é importante que se destaque o caráter organizacional que os
mongóis atravessaram, sobretudo a partir da ascensão de Gêngis Khan.

122 • capítulo 5
Longe da pura barbárie pela qual ocidentais e chineses costumam se referir, Gêngis
Khan conseguiu unificar tribos mongólicas sob sua bandeira. Declarando liberdade re-
ligiosa irrestrita e se valendo de táticas econômicas, como estímulo ao comércio re-
gional e internacional e isenção de impostos; Gêngis Khan atraiu seguidores de todas
as partes da Ásia. Além disso, implementou esforços para alfabetizar a nascente elite
intelectual de seu império utilizando do alfabeto dos Uigur, povo de origem turcomana
(MACIEL, 2013, p.22)

Como não há registros históricos dos mongóis sobre seu império, muitos
historiadores acreditam que eles nunca quiseram realmente construir um im-
pério e formar uma estrutura burocrática que lhes permitissem controlar todos
os territórios que eram tomados. Portanto, o saque e a pilhagem de territórios
apresentam-se, possivelmente, como os principais motivos para a empreitada
expansionista mongólica.

REFLEXÃO
Quando o mundo ocidental tomou conhecimento das vitórias mongóis sobre os muçulma-
nos, eles acreditaram que as batalhas se davam em nome da fé. Esse erro fez com que os
europeus propusessem uma aliança entre mongóis e cristãos para atacar o mundo islâmi-
co, que foi rechaçada prontamente. Os mongóis não queriam aliança, queriam a submissão
dos europeus.

Entretanto, essa visão é simplista. Se a ferocidade era uma característica


durante a disputa por territórios, após conquistada e submetida o dia a dia da
população voltava a normalidade.
Sob o julgo mongol, os habitantes dos territórios ocupados possuíam liber-
dade religiosa; o comércio era expandido graças ao fim das fronteiras, e até in-
centivado, pois gerava impostos; a paz era imposta dentro do território, e toda
forma de banditismo era reprimido de forma dura, trazendo segurança para às
pessoas. Somado a isso tudo, o desenvolvimento científico e das artes floresceu
nas regiões pacificadas pelo império mongol.
A unificação de territórios possibilitou, pela primeira e única vez, via-
gens intercontinentais relativamente seguras por via terrestre. Diplomatas,
comerciantes, missionários e toda sorte de pessoas que viam no Oriente a

capítulo 5 • 123
possibilidade de enriquecimento percorreram as rotas comerciais reabertas,
criadas ou expandidas pelos mongóis.

CURIOSIDADE
Durante o processo de fragmentação do império Mongol, Kublai Khan, neto de Gêngis Khan,
ainda conseguiu assegurar o controle mongol sobre a China. Ele fundou a dinastia Yuan.
Apesar de relativamente curta, essa dinastia e o próprio imperador viraram lenda da Europa,
graças a Marco Polo, que descreveu no seu livro de viagens as riquezas da China e da corte
de Kublai Khan.

RESUMO
Os árabes tiveram um papel importante no processo de preservação, construção e difusão do
conhecimento filosófico e científico, e a criação das Casas de Cultura foi fator preponderante
para que isso acontecesse. Elas foram criadas inicialmente para guardar conhecimento, to-
davia, passaram a desempenhar outros papéis: eram biblioteca, local de estudo, sala de aula
e local de tradução e reprodução de livros.
A partir das Casas de Cultura, e da política do Califado Abássida de coletar e difundir co-
nhecimento, os textos da antiguidade clássica de origem grega, persa, sânscrita e de outras
culturas puderam ser, novamente, estudados no Oriente e também do Ocidente Medieval.
Na realidade, se não fosse pelo mundo árabe, muito do conhecimento da Antiguidade
clássica ocidental teria se perdido e as mudanças estruturais que permitiram a Europa res-
surgir como potência econômica e cultural poderiam não ter acontecido, porque boa parte
dessas mudanças estruturais tiveram inspiração na Antiguidade clássica, foi o caso do hu-
manismo e do renascimento cultural.
As trocas culturais que aconteceram nesse período permitiram a Europa Medieval obter
conhecimentos e técnicas nas mais diversas áreas do saber: medicina, astronomia, matemá-
tica, filosofia, engenharia etc. Esses conhecimentos permitiram ao europeu revolucionar, em
médio e longo prazo o próprio conceito de ciência, mas a gênese desse movimento foram as
trocas culturais que foram feitas com o mundo árabe.
O Extremo Oriente também sofreu mudanças nesse momento da História do Oriente
medieval. A China sofreu uma mudança drástica no processo de administração do Império.
A partir da filosofia confucionista, a economia e produção de mercadorias foram transfor-
madas. A fabricação de mercadorias para serem comercializadas foi incentivada e a pro-

124 • capítulo 5
dução científica também. O império chinês percebeu que o desenvolvimento tecnológico e
científico era essencial para que as trocas comerciais se realizassem de maneira a produzir
ganhos maiores.
A Índia medieval também passou por mudanças estruturais importantes: a venda de es-
peciarias e tecidos para o Ocidente cresceu e se expandiu; a cultura hindu foi fortalecida
graças a ação dos chefes políticos regionais, mas, isso teve como consequência o fortale-
cimento do sistema de castas. Foi também durante o medievo oriental que a cultura muçul-
mana floresceu na Índia. Esse fato foi, e ainda é motivo de tensão social e política na região,
como é o caso da luta pela posse e controle da região da Caxemira.
Outro fato marcante desse período histórico foi a ascensão e declínio do Império Mongol.
Ele foi construído a partir de invasões de territórios e no seu auge teve sobre seu domínio
todo o território que ia do mar Mediterrâneo até a China. Apesar de ter nascido de forma
extremamente violenta, o Império Mongol garantiu as trocas comerciais e de conhecimen-
tos entre Oriente e o Ocidente, através da reabertura das rotas terrestres que uniam os
dois continentes.

ATIVIDADES
01. Na Índia moderna a diferenciação social por castas é proibida. Todavia, relatos de agres-
sões e preconceito a pessoas de origem “inferior” são comuns. As mulheres são as principais
vítimas, porque já são vistas e tratadas, não importa a casta, como seres inferiores. Levanta-
mentos feitos por ONG’s e pela própria ONU demonstram que o estupro e a violência física
contra as mulheres são os crimes mais comuns.
O texto acima trata da discriminação social que até hoje existe na Índia e que tem origem
no sistema de castas. Faça uma pesquisa sobre o sistema de castas enfatizando a situação
da mulher dentro dessa estrutura.

02. Analise o papel desempenhado pelo Império Mongol no processo de renascimento do


comércio entre oriente e ocidente.

03. Analise o papel do Mandarim dentro da estrutura administrativa Chinesa.

04. Sobre as Casas de Cultura podemos afirmar que:


I – Tiveram a função de preservar e difundir o conhecimento científico e filosófico;
II – Resgataram e preservaram textos da antiguidade clássica que influenciaram de for-
ma significativa o Ocidente medieval;

capítulo 5 • 125
III – Foram locais de pesquisa e de ensinamento de conhecimento
a) Somente as afirmativas I e II estão corretas.
b) Somente as afirmativas II e III estão corretas.
c) Somente as afirmativas I e III estão corretas.
d) Todas estão corretas.
e) Todas estão incorretas.

05. Sobre as trocas culturais na Idade medieval Oriental podemos afirmar que:
I – Os conhecimentos astronômicos, náuticos e cartográficos árabes foram essenciais
para a expansão ultramarina de Portugal e Espanha.
II - A pólvora, criada pelos chineses, foi ressignificada pelos ocidentais e passou a ser
uma arma que facilitou o controle do mundo moderno pelas potências europeias.
III – O papel, difundido no ocidente pelos chineses, foi um dos motores que possibilitaram
o renascimento cultural.
a) Somente as afirmativas I e II estão corretas.
b) Somente as afirmativas II e III estão corretas.
c) Somente as afirmativas I e III estão corretas.
d) Todas estão corretas.
e) Todas estão incorretas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ABED AL-JABRI, Mohammed. Introdução à crítica da razão árabe. São Paulo: Editora UNESP, 1999.
BITTAR, Eduardo C. O aristotelismo e o pensamento árabe: Averróis e a recepção de Aristóteles no
mundo medieval. Revista Portuguesa de História do Livro n.24. Lisboa, 2009 Disponível em: http://
www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0874-13362009000200004 Acesso em 17
de maio de 2016.
CLYDESDALE, Greg. Cargas: como o comércio mudou o mundo. Rio de Janeiro: Record, 2012.
FERGUSON, Niall. Civilização: Ocidente X Oriente. São Paulo: Planeta, 2000.
HOURANI, Albert. Uma história dos povos árabes. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.
LYONS, Jonathan. A Casa da Sabedoria: como a valorização do conhecimento pelos árabes
transformou a civilização ocidental. Trad. Pedro Maia Soares. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2011.
SAID, Edward. Orientalismo: O Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras,
1996

126 • capítulo 5
6
Novas forças
no espaço oriental
6.  Novas forças no espaço oriental
Na unidade anterior nós discutimos a importância do mundo árabe para a pre-
servação do conhecimento científico produzido na Antiguidade, como esse co-
nhecimento se disseminou pelo Mediterrâneo e como ele lançou as bases para
o Renascimento europeu a partir do século XV.
Também estudamos a importância do comércio com o Extremo Oriente
para o mundo árabe e para a Europa. Além disso, estudamos as culturas india-
na, chinesa e mongólica procurando perceber a importância que tiveram para o
desenvolvimento do conhecimento científico no mundo, por isso nos detemos
na história e cultura dessas civilizações do período medieval.
Agora no aproximaremos outra vez da Europa, mais precisamente da região
conhecida como Balcãs, área de fronteira que separa a Ásia da Europa – por isso
que essa região também pode ser conhecida como Eurásia.
Esse território foi e ainda é motivo de disputas que têm origem no processo
de formação dos reinos que lá foram fundados e na submissão e dominação
dos povos que lá viviam.
Estudaremos quatro povos distintos: búlgaros, húngaros, russos e mongóis.

OBJETIVOS
O objetivo deste estudo será perceber:
•  Como se deu o processo de invasão e dominação dos povos que viviam na região antes da
chegada das tribos invasoras;
•  Como foi o processo de assimilação dos povos que viviam nos territórios que foram invadi-
dos por eles quando migraram para a região da Eurásia;
•  As novas relações de poder que nasceram naquela região com a chegada dessas tribos;
•  O processo de cristianização das tribos que chegaram a Europa e as implicações políticas
e religiosas nascidas desse processo;
•  Entender como a Horda de Ouro mongol influenciou a construção social, cultural e política
nesses territórios.

128 • capítulo 6
6.1  Húngaros

Originários dos montes Urais – cordilheiras de montanhas que divide a Euro-


pa da Ásia – as tribos nômades magiares, que ficaram conhecidas do Ocidente
como húngaras, migraram para a Europa Central em meados do século IX, fu-
gindo de ataques de tribos originárias da atual Bósnia e dos búlgaros, e fixaram-
se na bacia dos Cárpatos – a população eslava e ávara, que vivia naquela região
foi absolvida pelos invasores.
Antes da conquista da bacia dos Cárpatos (896 d.C.) o povo magiar, por pos-
suir costumes e economia ancoradas no nomadismo, fazia incursões e ataques
para praticar pilhagens em quase todas as áreas da Europa Ocidental. Depois
que se fixaram à terra, essas ações foram diminuindo, mas, existem registros
de ataques até o século X, principalmente no norte da Itália, na Germânia e na
Gália. Depois desse momento teve início um processo de aproximação dos hún-
garos com as nações cristãs ocidentais.
Géza, líder tribal magiar, buscou aproximação com o ocidente cristão atra-
vés de algumas ações políticas, a saber:
•  Envio de uma delegação aos principados alemães para demostrar que não
tinha pretensões expansionistas;
•  Convite ao bispo de Praga para uma visita ao reino como gesto de boa von-
tade para com a Igreja cristã;
•  Permissão para missionários cristãos pregarem o evangelho junto ao
povo magiar;
•  Doação de dinheiro para a construção do Mosteiro de Pamplona;
•  Conversão ao cristianismo através do batismo.

Depois desse gesto de boa vontade, o controle magiar sobre a bacia dos
Cárpatos parou de ser contestado e garantiu o nascimento do reino da Hungria.
Estevão I, o Santo, foi nomeado oficialmente rei da Hungria no ano 1000, quan-
do o papa Silvestre II lhe outorgou o título de rei apostólico (esse fato é mar-
cante não só pelo coroamento do primeiro rei húngaro, ele também marca a
ascendência do papado romano sobre reino húngaro). O seu reinado foi mar-
cado pela criação do reino da Hungria. Mas, além desse fato, outros merecem
destaque:
•  Ao se casar com a filha do rei da Baviera, garantiu a paz com boa parte dos
povos germânicos;

capítulo 6 • 129
•  Fundou dioceses, construiu monastérios e igrejas e elegeu o cristianismo
como religião oficial;
•  Estruturou a administração do reino garantindo o controle dos conda-
dos reais;
•  Expandiu o território húngaro invadindo a Croácia e parte do território da
atual Eslováquia;
•  Pôs fim as revoltas internas nascidas da insatisfação de chefes tribais que
não queriam abandonar o paganismo e;
•  Acabou com as pretensões do Império Bizantino de atacar o reino a partir
de alianças firmadas com líderes tribais descontentes com o processo de feu-
dalização imposto pelo rei.

No início do século XIII o feudalismo centrado da figura do rei deu lugar


ao regime feudal tradicional, ou seja, a nobreza do reino da Hungria adquiriu
terras e privilégios, tirando do título de rei a referência de poder. Esse processo
se concretizou com a publicação da Bula de Ouro. Nela o soberano húngaro
atribui poderes aos nobres húngaros que lhes garantiam direitos antes perten-
centes somente ao rei e lhes davam poderes sobre os servos, acentuando o pro-
cesso de feudalização húngaro, mas, agora controlado pela nobreza.
Durante todo o século XIII, o reino da Hungria foi dilacerado por lutas inter-
nas. Esse fato levou a fragmentação política do reino. No início do século XIV
foi eleito rei da Hungria Károly I (1308-42). Na primeira década de seu reinado,
o monarca teve que lutar contra a nobreza para outra vez centralizar o poder.
Durante o seu reinado, a Hungria floresceu: a nobreza se tornou submissa; o
comércio foi estimulado; surgiram burgos e cidades-livres (a administração das
cidades era feita pelos próprios cidadãos que tinham como obrigação pagar im-
postos ao rei). Também foi durante o reinado de Károly que o trono húngaro
começou a se aliar com outros reinos a partir do casamento entre famílias reais.
Foi dessa forma que a Hungria se tornou um dos reinos mais importantes da
Europa Central durante o século XIV.

6.1.1  O nascimento da cultura húngara

A sociedade Húngara medieval juntou os costumes ancestrais dos magiares,


com os preceitos cristãos ocidentais e fez nascer a cultura húngara. Essa cultu-
ra, no início sincrética, garantiu um comportamento tolerante, senão pragmá-

130 • capítulo 6
tico, com outras culturas e povos que não professavam o credo cristão, princi-
palmente muçulmanos e judeus. De um modo geral, povos que não possuíam a
etnia húngara, encontravam abrigo no reino da Hungria nos primeiros séculos
de sua existência. Haviam leis que proibiam manifestações de origem pagã e
também judaica e muçulmana, mas, havia uma diferença que separava a cria-
ção de leis rigorosas e a sua execução. Se não existissem excessos, as práticas
culturais dos outros povos eram toleradas pelo reino húngaro.
Hoje, a herança cultural do leste europeu e da Ásia ainda se faz presente
na língua e no folclore popular, mas, o Ocidente imprimiu no comportamento
social dos húngaros os preceitos cristãos.

6.1.2  A última fronteira cristã

A conversão dos húngaros, nos séculos X e XI, ao cristianismo católico, fez do


reino da Hungria a fronteira do mundo ocidental com o mundo oriental. O rei-
no Húngaro fazia fronteira com o Império Bizantino, com o território domina-
do pelos turcos otomanos; com os mongóis da horda dourada e com os princi-
pados russos.
Sua posição geográfica fez do reino húngaro o primeiro alvo de invasores
vindos do leste. Além das incursões de pilhagens realizadas por eslavos, o reino
da Hungria foi atacado e devastado pelos mongóis no século XIII e travaram
uma guerra que durou décadas com os turcos otomanos no século XV.

COMENTÁRIO
O estado de guerra permanente vivido pelo reino húngaro durante mais de um século acele-
rou o processo de feudalização do reino. Com medo das guerras e das invasões de pilhagens,
a população húngara se refugiou no campo. Essa ação fez com que a agricultura e a criação
de animais se limitassem a produção de subsistência, esvaziou as zonas urbanas e fortaleceu
a influência da nobreza feudal.

Entre o século XIV e o século XV, o reino húngaro alcançou sua maior ex-
tensão territorial. Suas fronteiras chegavam ao mar Negro e ao mar Adriático e,
graças às alianças sacramentadas pela união matrimonial, o rei da Hungria se
tornou também o rei da Polônia em 1370.

capítulo 6 • 131
A soma do território húngaro ao polonês obrigou a coroa a fazer várias mu-
danças na administração dos territórios para mantê-los sob seu controle. A
primeira foi criar um exército permanente. Ela também investiu na ampliação
do comércio com o objetivo de ampliar a arrecadação de impostos. O fim da
expansão territorial húngara – através de invasão de territórios ou acordos polí-
ticos – se deu com o controle da Áustria em 1485.
A expansão das fronteiras do reino da Hungria passou pela invasão e con-
quista de territórios do reino da Bulgária. Com avanços e retrocessos entre os sé-
culos X e XIV os húngaros conquistaram os territórios búlgaros da Transilvânia
e as planícies da Panônia, antiga província do Império romano, da qual fazia
parte a Hungria, da Sérvia, da Áustria, da Croácia, da Eslovênia, da Eslováquia
e Bósnia.

Figura 6.1  –  Mapa do reino Húngaro em 1370. Fonte: Wikipédia

6.2  Búlgaros

Geograficamente a Bulgária está situada entre a Europa e a Ásia. Os búlgaros


modernos são dessedentes dos trácios, eslavos e protobúlgaros. Os primeiros
são originários na região da Trácia – antiga Macedônia – e os últimos tem ori-
gem turca.

132 • capítulo 6
Na Idade Média Oriental, a região onde hoje se encontra a Bulgária era con-
trolada pelos trácios e gregos. Durante o século III, ela foi invadida por tribos
eslavas e seus habitantes dominados, e depois incorporados aos recém-chega-
dos. Para manter o controle da região, constantemente ameaçada pelo Império
Bizantino, os eslavos criaram uma estrutura administrativa que fortaleceu a
aristocracia da região.
Entre os séculos VI e VII, outra tribo chegou a região: os protobúlgaros.
Eles formaram uma grande confederação de tribos que ficou conhecida como
Grande Bulgária e durante mais um século, invadiram sistematicamente o
Império Bizantino. No final do século VII a confederação se desfez, mas, uma
parte dos protobúlgaros ficou na região.
Esse fato foi preponderante para o nascimento do primeiro reino da
Bulgária. A aristocracia eslava que dominava a região para evitar um conflito
direto, fez uma aliança com os protobúlgaros onde estes, apesar de serem mi-
noria, ficaram com a maior parte do poder político. Foi por essa razão que o
novo Estado ficou conhecido como Bulgária e sua população, apesar de possuir
maioria eslava, ficou conhecida como búlgara.
Os protobúlgaros foram assimilados pelos eslavos, mas este processo durou
mais de um século. Os séculos VIII e IX foram marcados pela disputa de poder
entre a nobreza eslava e protobúlgara.
A partir do século VII, os búlgaros começaram um processo de expansão
rumo ao sudeste europeu. Eles invadiram diversas vezes o império bizantino
para fazer pilhagens e em consequência disso, Bizâncio enviou uma expedição
militar para acabar com as invasões. Os bizantinos foram derrotados, tiveram
territórios tomados, e foram obrigados a pagar tributos anuais para não serem
atacados outra vez. Além disso, tiveram que aceitar a existência do estado búl-
garo em 681. Esse fato garantiu ao reino búlgaro um papel relevante no cenário
político da região.
Todavia, a aceitação da existência dos búlgaros pelos bizantinos não signi-
ficou a paz entre os dois reinos. Durante os séculos VIII e IX, as expedições de
pilhagens búlgaras em território bizantino foram uma constante. Por seu lado,
Bizâncio sonhava com a retomada dos territórios perdidos durante a expansão
do reino búlgaro. Por isso, o estado de guerra foi uma constante entre os dois
reinos.
No início do século VIII os búlgaros chegaram perto dos muros de
Constantinopla, mas, disputas pela posse do trono desestabilizaram

capítulo 6 • 133
politicamente o império. Bizâncio percebendo esse a fragilidade búlgara fez
diversas investidas na região conseguindo vitórias importantes, que quase pu-
seram fim ao reino da Bulgária.

COMENTÁRIO
Como vai ser discutido no capítulo seguinte, a adoração aos ídolos no Império Bizantino teve
como consequência o que se convencionou chamar de Querela Iconoclasta. A discussão
sobre a iconoclastia dividiu internamente o império bizantino por quase um século ao ponto
de algumas derrotas militares serem atribuídas ao culto às imagens, Externamente, a crise
enfraqueceu o controle do império sobre suas fronteiras, facilitando assim a incursão de
saqueadores e permitiu que os búlgaros e outros povos invadissem e controlassem partes
de seus territórios.

O exército Bizantino, comandado pessoalmente pelo Imperador Nicéforo


I, chegou a invadir a capital da Bulgária, Pliska, no século IX, mas, quando
retornou da empreitada militar, foi atacado e morto pelos búlgaros. Depois
desses eventos, búlgaros e bizantinos fizeram um acordo de paz e se torna-
ram aliados.
Em meados do século IX, o reino da Bulgária se tornou oficialmente cristão
ortodoxo. A antiga religião búlgara foi proibida e a cristianização da população
foi imposta a todos do reino. A conversão dos búlgaros ao cristianismo acon-
teceu num momento de luta política entre o papado e Bizâncio pelo direito de
guiar a cristandade. Se aproveitando disso, o príncipe Boris I persuadiu o impe-
rador bizantino a criar um arcebispado na Bulgária. No final do século, a Igreja
búlgara se tornou autocéfala.

CONCEITO
No cristianismo ortodoxo uma Igreja reconhecida como autocéfala possui autoridade sobre
todo um território ou nação, e possui o direito de resolver todos os seus problemas internos
sem pedir orientação ou permissão para um bispo supeiror ou ao patriarca.

134 • capítulo 6
No final do século IX as relações entre o Império Bizantino e a Bulgária vol-
taram a se tornar tensas. Os bizantinos proibiram a Bulgária de fazer comércio
com Constantinopla. A proibição fez o então príncipe búlgaro, Simeão, come-
çar uma guerra contra o Império Bizantino. No final do conflito, a Bulgária ha-
via se tornado um Império que ia do Danúbio à Tessália (essa região faz parte da
Grécia atualmente) e da costa da Dálmata (mar Jônico) até as margens do mar
Negro e Bizâncio voltou a pagar tributo anual à Bulgária.
Ribas (2013), ao falar da vitória Búlgara exalta a figura de Simeão:

[...] Simeão, czar da Bulgária. Terceiro filho do cão Boris, Simeão havia sido educado em
Constantinopla com vistas a uma carreira eclesiástica. Ao tornar-se czar (o primeiro a usar
este título na Bulgária) em 893, contudo, ele revelou qualidades de governante e estrate-
gista que eram ainda mais perigosas por sua familiaridade anterior com Bizâncio (GRE-
GORY, 2005, p. 225). Os primeiros confrontos entre os impérios contaram com a partici-
pação ativa de povos nômades como os magiares e os pechenegues, e terminaram com
a parcial vitória dos búlgaros, que passaram a receber tributos anuais de Bizâncio. (p.23)
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HUNGRÍA

Transilvania
CROACIA

BULGARIA io
nub
Da

SERBIA Preslav
Mar Negro

IMPERIO
Mar Egeo BIZANTINO
Ma

Bulgária hacia 893


r Jó
nico

Territórios em disputa
Territorios
conquistados
durante o reinado
de zar Siméon

Figura 6.2 – Mapa do Império Búlgaro.

 • 135
capítulo 6
O controle búlgaro sobre a região conquistada foi rápido. Depois da morte
do Imperador Simeão, as lutas internas pela sucessão do trono enfraqueceram
o poder da Bulgária sobre os territórios conquistados. Os sérvios se revoltaram
contra o controle búlgaro e coma ajuda de Bizâncio ficaram independentes, os
croatas atacaram e venceram os búlgaros. Essa instabilidade interna obrigou
a Bulgária a selar a paz com o Império Bizantino, abrindo mão do norte do seu
território e da independência da Igreja búlgara, que voltou a ser controlada
pelo patriarca bizantino.

6.2.1  O Bogomilismo

As guerras contra o Império bizantino enfraqueceram economicamente a Bul-


gária. Os camponeses caíram em miséria, e o processo de feudalização provo-
cou um agravamento da situação ao fazer nascer uma sociedade estratificada e
por isso, excludente.
No início do século X se propagou na Bulgária uma seita herética chamada
de Bogomilismo. O nome do movimento religioso tem origem no nome do seu
fundador, o padre Bogomilo. Os adeptos da seita renegavam a religião oficial,
criticavam abertamente o clero e incitavam os camponeses a se revoltarem con-
tra a situação social a qual se encontravam.
O Bogomilismo foi reprimido em meados do século X, mas nunca desapa-
receu completamente dos Balcãs. Ele continuou a ser uma espécie de bandeira
de luta dos camponeses contra a feudalização e teve influência na formação de
outras heresias.

6.2.2  O controle de Bizâncio

A desestruturação interna do Império Búlgaro permitiu que Bizâncio contro-


lasse uma parte do seu território, entretanto, no final do século X, Samuel, um
general do exército búlgaro, ascendeu ao posto de imperador e retomou uma
parte do território perdido. As vitórias de Samuel, apesar de importantes, não
conseguiram barrar o poder crescente de Bizâncio sobre a região e no ano de
1014 o Imperador Bizantino pôs fim a independência da Bulgária.
O domínio bizantino foi marcado pela criação de diversos distritos
dentro do território búlgaro e pela submissão dos sérvios, croatas e bós-
nios, que se tonaram vassalos de Bizâncio. Nesse período, algumas tribos

136 • capítulo 6
bárbaras fizeram incursos nos territórios búlgaros para fazer pilhagens,
como os pechenegues.
A Igreja Búlgara, antes autocéfala, continuou autônoma com relação ao pa-
triarcado bizantino, mas seu líder local era nomeado pelo Imperador e os prin-
cipais cargos eclesiásticos eram entregues aos gregos.
Os gregos também controlavam os principais cargos administrativos, e a
partir de meados do século XI, o sistema fiscal bizantino passou a ser usado
para a cobrança de impostos. Isso se deu principalmente pelo fato de os bizan-
tinos terem perdido suas províncias na Ásia para os turcos Seljúcidas. Esse fato
fez com que as províncias Eslavas passassem a ser a principal fonte receitas do
império na região.
O controle bizantino sobre o reino Búlgaro teve outra consequência: a ace-
leração do processo de feudalização. Várias circunstâncias contribuíram para
que isso acontecesse, mas, a principal foi a política de distribuição dos bens
imóveis pelos bizantinos, que incluía os camponeses que residiam nas ter-
ras distribuídas.
Bizâncio controlava administrativamente todas as províncias, mas nas
províncias eslavas, a luta pela independência e contra a implantação do siste-
ma feudal continuou. Contribuíram para isso a disfunção do bogomilismo e
o apoio de alguns nobres de origem eslava. Todavia, apesar de serem frequen-
tes, as revoltas foram sistematicamente controladas pelos bizantinos com o
apoio de nobres eslavos até o início do século XII. Depois desse momento, o
império bizantino entrou em declínio e uma nova onda de revoltas teve iní-
cio. Os bizantinos tentaram refrear esses movimentos sem êxito. Em 1187
a Bulgária voltou a ter independência política e recomeçou um processo de
expansão territorial que reestabeleceu seu lugar como potência regional na
Europa Central.
Durante quase dois séculos sob a dinastia Asen, a Bulgária se impôs politi-
camente na região e dominou uma grande extensão territorial. Foi nesse perío-
do que as primeiras moedas búlgaras foram cunhadas. Isso pode até parecer
um fato corriqueiro, mas naquele momento histórico, um estado conseguir ter
sua própria moeda significava poder e estabilidade política.
A dinastia Asen chegou a fim em meados do século XIII, e a partir desse
momento a Bulgária passou a sofrer inúmeros retrocessos de origem eco-
nômica e militar, culminando com a tomada de poder pelos Otomanos no
século XIV.

capítulo 6 • 137
6.3  Russos

Para se falar do povo russo é necessário primeiro falar dos povos eslavos. De
origem indo-europeia, os eslavos vivem na região central e no oriente euro-
peu. A datação histórica é imprecisa, mas acredita-se que foi no século VIII
que as tribos eslavas se dividiram em três grandes ramos: os eslavos ociden-
tais, (ancestrais de poloneses, tchecos e eslovacos), os eslavos do sul (ances-
trais de sérvios e croatas) e eslavos orientais (ancestrais dos bielorrussos,
ucranianos e russos).

COMENTÁRIO
As tribos eslavas orientais falavam uma língua comum, entretanto, durante o processo de
migração, a língua comum começou a se transformar e dela nasceram dois dialetos, a partir
desses dois dialetos, nasceram as três línguas de origem eslava que são faladas hoje na
Rússia, Bielorrússia e Ucrânia. Quando a Lituânia conquistou as terras da Bielorrússia e
da Ucrânia, o processo de separação linguística se acelerou. Por possuir grande influência
da civilização ocidental, graças a sua ligação política com a Polônia, a Lituânia permitiu a
entrada de comerciantes, missionários e camponeses poloneses em território bielorrusso
e ucraniano. Através deles, a cultura ocidental foi sendo assimilada pelos eslavos orientais
dessas duas regiões, o que acabou por separá-los totalmente da cultura russa oriental,
típica do leste europeu.

O termo Rus deu origem à palavra Rússia, entretanto, pesquisas históri-


cas indicam que o termo foi cunhado pelos povos escandinavos quando inva-
diam as terras eslavas, situado na região do leste europeu em busca de escra-
vos. Alguns cronistas da época afirmam que foi um viking chamado Rurik que
fundou a primeira dinastia Rus. O principado de Kiev, também chamado de
Rússia Kievana ou Rus’ de Kiev, foi fundado do final do século IX e durante o
século X.

138 • capítulo 6
Segundo MOREIRA (2012):

Durante o século IX, uma nova entidade política começa lentamente a se constituir na
planície Russa. O que se observou foi o surgimento de uma série de principados, ba-
seados no controle de rotas comerciais que ligavam essa região com a Escandinávia, o
Oriente Islâmico e principalmente com o Império Bizantino. Diante da impossibilidade de
se manterem em paz, as tribos da região decidem procurar um príncipe em terras es-
trangeiras, que fosse capaz de governá-las. Este príncipe é Riurik, que começa, a partir
de 862, a impor seu poder na região, supostamente a convite dos próprios habitantes,
tal como sugerido na Crônica: “Os Chuds, os Eslavos, os Krivichianos e os Ves’ então
disseram ao povo dos Rus´ ‘Nossa terra é grande e rica, mas não há ordem nela. Venha
governar e reinar sobre nós’” (CROSS, 1968: 59).

Historicamente falando, o primeiro estado organizado pelos eslavos orien-


tais nasceu do século IX e foi fundado pela tribo Rus: o Principado de Kiev. No
século X, Vladimir, então governante do principado, se converteu ao cristianis-
mo, e depois do cisma que dividiu Igreja em Romana e Ortodoxa, o principado
abraçou o credo grego-bizantino. Kiev, desde o século X, influenciava decisi-
vamente toda a região, porque controlava as rotas comerciais ligadas ao mar
Negro e Báltico. Além disso, também era uma região que fornecia produtos de
primeira necessidade, como peles, para o comércio regional.
©© WIKIMEDIA.ORG

Figura 6.3  –  Mapa do Principado de Kiev (século X).

capítulo 6 • 139
O processo de feudalização desintegrou o Principado de Kiev e fez nascer
pequenos reinos independentes. Desses reinos surgiram cidades que se trans-
formaram em grandes centros culturais e políticos no período medieval. As
primeiras cidades a se destacarem nesse período foram Kiev e Novgorod, por
serem grandes centros comerciais.

COMENTÁRIO
As tribos eslavas orientais falavam uma língua comum, entretanto, durante o processo de
migração, a língua comum começou a se transformar e dela nasceram dois dialetos, a partir
desses dois dialetos, nasceram as três línguas de origem eslava que são faladas hoje na
Rússia, Bielorrússia e Ucrânia. Quando a Lituânia conquistou as terras da Bielorrússia e
da Ucrânia, o processo de separação linguística se acelerou. Por possuir grande influência
da civilização ocidental, graças a sua ligação política com a Polônia, a Lituânia permitiu a
entrada de comerciantes, missionários e camponeses poloneses em território bielorrusso
e ucraniano. Através deles, a cultura ocidental foi sendo assimilada pelos eslavos orientais
dessas duas regiões, o que acabou por separá-los totalmente da cultura russa oriental, típica
do leste europeu.

No século XII, outro principado surgiu como centro de poder: o Grão-


Ducado de Vladimir-Suzdal, também chamado de principado de Vladimir.
Ele estava situado na região florestal da Zalesie – para onde fugiu, depois de
atacadas pelos turcos, a população que vivia na região meridional da terra
dos Rus.
Foi desse principado que nasceu o príncipe Alexandre Newskij. Uma
das figuras mais emblemáticas da história da Rússia medieval, ele foi res-
ponsável pela expulsão dos suecos que invadiram o território russo em
meado do século XIII. Porém, mais importante que a expulsão dos suecos,
foi a vitória sobre os cavaleiros teutônicos logo depois. Essas vitórias e sua
habilidade política o fizeram ser eleito Grão-Príncipe de Vladimir – o pri-
meiro passo dado para a criação do principado de Moscovo, predecessor do
Império Russo.
Brugnara (2015) levanta outros motivos da ascensão do principado
de Moscovo:

140 • capítulo 6
[...] por outro lado, atribui a ascensão de Moscóvia a outros fatores como a localização
privilegiada entre os rios Dniepre e Volga (na rota comercial entre Ocidente e Oriente);
a tranquila sucessão do Grão-Príncipe que não teve problemas para chegar ao trono
como em outros principados; ao sistema de herança de pai para filho que criava dinas-
tias mais duradouras e unidas; e a relação cooperativa com a Igreja Ortodoxa. (p.33)

6.3.1  O controle Mongol

No ano de 1223, os mongóis invadiram a Rússia. Já dividida em principados


independentes, a região do antigo principado de Kiev foi controlada e sua po-
pulação submetida pelos mongóis. Após essa vitória, os mongóis se retiraram
e só retornaram a região da década de 30 do século XIII. Com um exército que
contava com mais de uma centena de homens, os mongóis devastaram as cida-
des russas. Ryazan, Kolomna, Moscou e a cidade de Vladimir foram incendia-
das. As cidades pequenas também foram sendo destruídas sistematicamente
pelo exército mongol. As únicas cidades que faziam parte do principado de Kiev
e que escaparam da destruição causadas por hordas mongóis foram Novgorod
e Pskov.
Depois de subjugado o território russo, os mongóis passaram a cobrar tribu-
tos anuais dos principados. Ao contrário do que aconteceu na China, o proces-
so de dominação não levou a colonização de territórios.
Muitos historiadores, quando tratam das incursões mongóis, fazem ques-
tão de frisar a violência empreendida durante o processo de invasão dos ter-
ritórios, mas depois de subjugados, os povos dominados possuíam uma certa
liberdade. Vejamos o que aconteceu na Rússia dominada pelos mongóis:
•  O culto religioso não foi proibido, nem mesmo quando os mongóis se
converteram ao islamismo;
•  A coleta de impostos passou a ser feita pelos príncipes locais, não haven-
do assim o contato direto entre os mongóis e povo russo;
•  Novos centros comerciais e políticos começaram a prosperar, especial-
mente Moscou e Tver.
•  A comunicação dentro dos territórios russos foi melhorada graças a im-
plementação de uma rede postal;

capítulo 6 • 141
•  Em decorrência da cobrança de impostos, que era feita de acordo com a
quantidade de habitantes residentes no principado, o recenseamento popula-
cional e um sistema de cobrança de impostos eficientes foi criado, e mantido,
mesmo depois do fim da dominação Mongol;
•  As rotas comerciais que ligavam o Oriente ao Ocidente fizeram “desvios”
e chegaram a Rússia, fazendo nascer centros comerciais.

6.3.2  O Surgimento da Rússia Imperial

Após a morte de Alexandre Newskij, o principado foi dividido em três partes,


uma para cada filho. O mais novo, Danielo, tomou posse da região de Zalesie.
Nessa região existia uma aldeia fortificada chamada Moscou, que foi melhora-
da e urbanizada para receber seu novo príncipe.
Rapidamente a descendência de Danielo expandiu a influência de Moscou
na região. Seu filho, Ivan I, primeiro Grão Duque de Moscou, atacou e subme-
teu ao seu controle a cidade comercial de Novgorod. O neto de Ivan I, Dymitr
Donskij, derrotou os muçulmanos que controlavam um território que ia das
terras do antigo Principado de Kiev até o mar Cáspio e de Aral. Essa vitória pos-
sibilitou a união de todo o território russo europeu.
Mas o processo de unificação do território russo não foi simples e nem fácil.
Depois da vitória de Dymitr Donskij, seus herdeiros viveram em guerra cons-
tante contra os muçulmanos mongóis e contra os outros principados. Durante
mais de dois séculos os russos lutaram para unificar os territórios que hoje
fazem parte da Rússia moderna. No século XVI, o processo foi concluído pelo
príncipe Ivan IV e este, foi eleito o primeiro czar russo.

REFLEXÃO
Até aqui estudamos a história dos povos e reinos que deram origem aos países conhecidos,
hoje, como Bulgária, Hungria e Rússia. Entretanto, o pano de fundo da história desses nasci-
mentos foi a submissão e incorporação forçada dos povos que viviam nas regiões que foram
invadidas.
Desde das primeiras invasões, até os dias atuais, essa região é motivo de disputas ter-
ritoriais e conflitos étnicos que já mataram milhões de pessoas. Para ficar em apenas três
exemplos, podemos citar a primeira guerra mundial, (que teve início com o assassinato do
herdeiro do trono do império austro-húngaro Francisco Ferdinando na Sérvia, em 1914), a

142 • capítulo 6
Guerra da Iugoslávia (que envolveu sérvios, croatas, eslovenos e bósnios e teve na limpeza
étnica e no assassinato de civis que já se encontravam dominados como fatos mais marcan-
tes) e a Guerra de Kosovo que até hoje não teve um fim definitivo, porque sua independência
é contestada por sérvios, que os veem como uma província separatista, mas aceita por um
grande número de países, dentre eles: os EUA, a França, a Alemanha e a Inglaterra.

6.4  Mongóis

Os mongóis foram uma tribo nômade que vivia nas proximidades do lago Baical
– que se encontra, hoje, em território russo. A vegetação da região era formada,
basicamente, por estepes, e por isso, o pastoreio sempre foi uma característica
cultural dos povos que viviam nesse território. Outra característica das tribos
que deram origem aos mongóis foi a pilhagem. Essas tribos eram formadas
por pastores e guerreiros, que tinham na cavalaria e no manejo com o arco seu
maior trunfo nas batalhas.
Na primeira década do século XIII, um mongol chamado Temudjin uni-
ficou os clãs mongóis. Depois de unir as tribos, esse mongol foi proclamado
Khan supremo e passou a ser conhecido como Genghis Khan. Esse fato teve
como desdobramento político o enfraquecimento do poder dos chefes tribais
em detrimento da monarquia que nascia junto com Khan Supremo. Genghis
Khan, ao se tornar imperador e chefe militar das tribos mongóis, fez nascer um
dos maiores exércitos que o mundo já viu.
O exército mongol fazia guerra montado em cavalos e usando arcos. Todo
homem mongol era treinado para ser guerreiro, se fosse necessário, por isso,
desde criança eram treinados no manejo de arco e da espada. As tropas mon-
góis eram ordenadas de acordo com o tipo de objetivo a ser alcançado. Missões
de reconhecimento eram realizadas normalmente por um número reduzido de
soldados – por volta de dez homens – já as tropas que eram preparadas para
fazer uma luta de grandes proporções possuíam no mínimo 10 mil homens. A
disciplina rígida era outra característica do exército mongol. Qualquer forma
de desobediência era punida (normalmente com a morte do infrator).
Fiel ao seu líder, o exército mongol, comandado pessoalmente por Genghis
Khan, saiu das estepes em um processo de expansão territorial e submissão
de todos os povos que viviam nos territórios que iam sendo conquistados. No
início, a horda mongol praticava a pilhagem, entretanto, junto com o processo

capítulo 6 • 143
de expansão veio o desenvolvimento de uma estrutura administrativa que pas-
sou a cobrar tributos dos povos dominados e a obrigar que alguns desses po-
vos cedessem homens para se engajarem em suas forças militares. Em 15 anos
de guerras ininterruptas, os mongóis conquistaram uma parte da Ásia central
e do leste europeu. Chineses, turcos e russos, todos se dobraram ao domí-
nio Mongol.
No início das expedições de Genghis Khan os saques eram o pagamento
dado ao soldado, e a ascensão aos postos de comando de tropas eram feitas a
partir do desempenho nas batalhas. Depois que as guerras de expansão dimi-
nuíram e consequentemente os saques, foi criado uma forma de pagamento
para os soldados. Além disso, os filhos dos oficiais puderam herdar suas pa-
tentes dentro do exército. Isso foi feito para manter a lealdade da oficialidade.

As forças militares de Gêngis Cã, extremamente organizadas e ligadas a seu chefe por
fidelidade pessoal, passaram então para as conquistas externas, ou seja, submissão
dos povos sedentários que cercavam os mongóis. Estes passaram então de uma fase
de pilhagem simples e subsequente retirada para outra de cobrança de tributos e de
exigência de participação de não-mongóis em suas forças militares. Gêngis Cã coman-
dou em pessoa as conquistas da China do Norte (1209), Turquestão (1218), Corásmia
(1220), e enviou seus melhores lugar-tenentes (Djebe e Subotai) para conquistarem
as terras caucasianas, submeterem os turcos quiptchaques do norte do mar Cáspio e
pilharem o principado de Kiev (1222). Após os sucessos no oeste, houve uma nova
campanha contra a China, durante a qual Gêngis Cã morreu, de causas naturais, não
sem antes ter orientado seus herdeiros quanto à continuação das conquistas (VICEN-
TE, 2014. p.17)

Depois da morte do grande líder mongol, o território conquistado foi entre-


gue a seus quatro filhos, dividido em quatro partes ou Canatos, de acordo com
a vontade do próprio Genghis Khan: norte da China, Ásia Central, Mongólia e o
último seria hoje a soma dos territórios do Cazaquistão e da Sibéria Ocidental.
Os quatro territórios eram propícios para a prática do nomadismo, pois pos-
suíam várias áreas de planícies, o que facilitou o controle, pois podiam se des-
locar de uma região para outra de forma rápida sobre seus cavalos.

144 • capítulo 6
O controle político sobre o Império foi entregue a Ogedei, o filho que con-
trolava o Canato situado no norte da China. Foi sob o comando dele que o
Império Mongol chegou a seu auge, unindo geograficamente o Ocidente com o
Oriente. Depois de sua morte, começaram as disputas internas pelo comando
do Império. As disputas levaram a uma guerra civil que fragmentou o poder do
Império.
Na primeira dessas disputas a Horda de Ouro se distanciou do Khanato e o
neto de Gênghis Khan, Mongke foi eleito o líder do império mongol. Ele foi o
líder mongol que estruturou a administração do império e fez com que chegas-
sem a seu apogeu político administrativo.

Sob Mongke o Império Mongol chegou ao seu auge. A Pax Mongolica (Paz Mongol)
também teve seu apogeu durante seu comando. As rotas comercias terrestres entre o
Oriente e o Ocidente foram retomadas, num renascimento da antiga Rota da Seda. O
serviço postal imperial, baseado na mobilidade da cavalaria mongol, funcionava muito
eficazmente. Eram sinais da tolerância dos mongóis para com as religiões, línguas e
costumes dos povos que aceitavam a submissão mongol, apesar da truculência com
que conquistavam muitos deles.

Ao fim da guerra civil Kublai Khan se autoproclamou o Khan supremo do


Império mongol e fundou a dinastia Yuan, mas, no leste europeu o Canato
conhecido historicamente como Horda de Ouro se rebelou contra o poder de
Kublai e começou um processo de expansão territorial.

6.4.1  A dinastia Yuan

A dinastia Yuan foi fundada em 1271 por Kublai Khan, quinto Grande Khan
Mongol. Durante o tempo que ficou no poder, Kublai controlou efetivamente
toda a China e boa parte da Ásia Oriental. Ao contrário dos outros chefes mon-
góis, que pouco ligavam para o controle administrativo dos territórios conquis-
tados, ele conseguiu construir uma estrutura administrativa eficiente.

capítulo 6 • 145
Em 1279, a dinastia Sung foi derrubada pelo líder mongol Khublai Khan, que fundou
a dinastia Yuan. Khublai Khan tinha plena consciência da importância dos negócios
para a economia, e a indústria e o comércio provavelmente receberam seu maior apoio
estatal durante seu reinado. Sendo mongol, Khublai não foi influenciado pelas atitudes
confucionistas para com os mercadores e apoiou ativamente as comunidades mercan-
tis. Atribuiu-lhes um status social superior na escala social, para grande ressentimento
da elite confucionista. (CLYDESDALE, 2012 p.42)

Kublai Khan incentivou a criação de centros de estudos, reabriu e reformou


as rotas comerciais que uniam a Europa à China e revolucionou o sistema de
comunicação interna do Império ao criar um sistema de correios eficiente a
partir do modelo persa – que mantinha estalagens e cavalos descansados para
que o mensageiro pudesse cavalgar sempre a grande velocidade sem ter que
parar várias vezes para a montaria descansar.
Seu governo também foi marcado por fracassos militares O maior deles fo-
ram as tentativas frustradas de invadir o Japão. Depois de sua morte, seus su-
cessores foram perdendo o controle do império. Considerados fracos e pouco
interessados na administração dos territórios, foram sistematicamente con-
frontados por líderes mongóis descontentes com a administração do império
e por chineses que lutavam pela independência. A somada desses fatores pu-
seram fim ao controle mongol na China em 1368, com a fundação da dinas-
tia Ming.

6.4.2  A Horda de Ouro

Depois da divisão do império em Canatos, os povos dominados foram se rebe-


lando contra o controle político mongol e retomando sua independência. O
Canato do Leste europeu foi a exceção. Entre os séculos XIII e XVI, o domínio
mongol sobre essa região ao invés de diminuir, se expandiu e chegou até as por-
tas da Europa Ocidental.
O ano de 1236 marca o início da expansão mongol rumo ao Ocidente. Os
búlgaros que viviam próximo ao rio Volga foram os primeiros a serem domina-
dos. Depois foi a vez dos principados russos serem invadidos e saqueados.
Em 1240, a Ucrânia, a Polônia, a Romênia e a Hungria tombaram frente as
tropas mongóis e em 1241, a cidade de Viena, na região da Bavária, já na Europa

146 • capítulo 6
Ocidental, só não sofreu um ataque das tropas mongóis, porque os chefes mili-
tares tiveram que retornar a Ásia para eleger quem substituiria Ogedei como o
líder supremo do Império Mongol.
A escolha recaiu sobre o filho de Ogedei. Depois da escolha, Batu, neto
de Genghis Khan, fundou o Canato da Horda de Ouro, também chamada de
Dourada, com capital da cidade de Sarai, na região próxima ao rio Volga.
A Horda de Ouro se distanciou do império mongol por não aceitar a autori-
dade da dinastia Yuan e criou sua própria estrutura administrativa. A domina-
ção dos povos submetidos era feita de forma indireta. Os governantes dos terri-
tórios dominados eram obrigados a coletar tributos a serem pagos ao Canato.
O atraso no pagamento ou o não pagamento era punida com uma intervenção
militar seguida de pilhagens.

CURIOSIDADE
Os mongóis foram os únicos povos que dominaram os russos em pleno inverno. Depois
deles, Napoleão e Hitler – para ficar só nos dois exemplos mais emblemáticos – tentaram
controlar a Rússia e foram derrotados pelo inverno russo.

O distanciamento do império mongol fez com que a população da Horda


perdesse sua identidade étnica. O poder ainda se encontrava na descendência
mongol, mas, a população passou a ser formada por povos de origem eslavas e
turcas e a fé professada pela maioria da população era o islamismo. Foi nesse
período de desestabilização política que Horda de Ouro chegou ao seu apogeu.

A Horda de Ouro, depois que Batu rompeu o vínculo de submissão à Dinastia Yuan,
transformou-se em um kanato com população variada e formada por várias etnias, mas,
com prevalência dos turcos, (dos quais foram adotando a cultura em prejuízo da própria.
Batu Khan e sua descendência instauraram e desenvolveram um sistema tributário
muito parecido com o Chinês. Os chefes das tribos dominadas eram encarregados de
levar os tributos ao khanato, manter a ordem na região que dominava e eram os encar-
regados da administração. (CLYDESDALE, 2012, 41)

capítulo 6 • 147
No século XIV, a peste negra, disputas internas pelo poder, guerra de fron-
teiras com perda de territórios para os lituanos e a revolta dos principados rus-
sos começaram a pôr fim ao controle da Horda de Ouro no leste europeu. A
fragmentação do território aconteceu durante a guerra pelo poder. Ao longo do
século XIV, vários Canatos se tornaram independentes, mas, apesar da deca-
dência paulatina, só no início do século XVI a Horda de Ouro foi destruída.

REFLEXÃO
O Império Mongol é lembrado sempre pela violência que empregou durante o processo de
expansão territorial, entretanto, a violência não foi a única característica desse povo. A tole-
rância religiosa, a garantia de segurança para os povos dominados, a reabertura das rotas co-
merciais terrestres que uniam o Ocidente ao Oriente são também características marcantes
desse império. Se a violência foi um marco no processo de expansão territorial, a tolerância
e a garantia segurança para a população civil caracterizou o controle da população

RESUMO
Neste capítulo estudamos as últimas invasões de tribos de origem indo-europeias ou asiática
no continente europeu. Estudamos o nascimento da Rússia, da Bulgária e da Hungria e como
a disputa pelo poder e controle da região aconteceu. Essa disputa nos ajuda a entender,
porque, até os dias atuais a região dos Balcãs vive em conflito permanente.
Os húngaros, de origem indo-europeia, chegaram a região dos Cárpatos no século IX.
Depois de conquistarem a região, fizeram várias incursões de pilhagem nos reinos da Europa
Ocidental. Com o passar do tempo eles foram se fixando no território dominado e se apro-
ximaram dos reinos Europeus. Firmaram a paz com os países vizinhos e se converteram ao
cristianismo. A partir do século X, eles começaram a se consolidar como uma força regional
e no século XIV, chegaram ao auge do poder, quando se transformaram na maior potência
regional da Europa Central.
Os Búlgaros viviam na região que separa geograficamente a Europa da Ásia. A chegada
e fixação dos búlgaros aos Cárpatos gerou de conflitos com o Império Bizantino e com outras
potencias regionais. Para tentar selar acordo com os bizantinos, os búlgaros se converteram
ao cristianismo ortodoxo, mas, isso não surtiu o efeito desejado e os conflitos continuaram.
Internamente também existiram disputas pelo poder entre o rei e os senhores feudais, e
também revoltas camponesas que possuíam influência de uma seita cristã considerada he-

148 • capítulo 6
rética, o bogomilismo. A soma desses conflitos foram enfraquecendo poder do reino, que
foi dominado primeiro pelo Império Bizantino, e no século XIV invadida e controlada pelos
turcos otomanos.
Outro conjunto de tribos – essas de origem eslava – depois de unificadas, teve prota-
gonismo na região no período medieval, e nos dias atuais são uma das maiores potencias
bélicas do mundo: os russos. O processo de unificação da Rússia moderna durou mais dois
séculos. Ele foi marcado por conflitos com os mongóis e com os principados eslavos que não
aceitavam a submissão ao poder do império nascente. Só no século XVI, a Rússia consolidou
seu domínio sobre as regiões que estavam em disputa, fazendo nascer assim o Império Rus-
so, com a coroação do primeiro Czar, Ivan IV.
Por último, mas, não menos importante, foi a dominação de território e a influência sobre
a região da Horda de Ouro mongol. Entre os séculos XIII e XIV, os mongóis controlaram o
leste europeu subjugando os principados russos, a Bulgária e vários outros territórios da re-
gião do Balcãs. A Horda de Ouro se diferenciava das outras tribos mongóis por não controlar
de forma direta os territórios submetidos, (só cobravam impostos que eram coletados pelos
próprios controlados) e por não aceitar o controle da dinastia Yuan e do Canato de Kublai
Khan. As disputas internas pelo poder, pragas, guerras de fronteiras e revoltas internas dos
povos dominados puseram fim ao Canato da Horda de Ouro no século XVI.

ATIVIDADES
01. A morte de Ghegis Khan teve como consequência a divisão do território Mongol em qua-
tro partes. O território mongol que ficava localizado no leste europeu se expandiu, chegando
as portas da Europa ocidental. Esse canato entrou para a História ocidental com o nome de
Horda de Ouro. Sobre ela podemos afirmar:
I – A distância geográfica do império mongol fez com que a população da Horda de
Ouro perdesse sua identidade étnica e população passou a ser formada por povos de origem
eslavas e turcas;
II – A Horda de Ouro se distanciou do império mongol por não aceitar a autoridade da
dinastia Yuan e criou sua própria estrutura administrativa;
III – A peste negra, disputas internas pelo poder, guerras de fronteiras com perda de
territórios para os lituanos e a revolta dos principados russos foram os principais motivos da
fragmentação do território da Horda de Ouro.
a) Somente as afirmações I e II estão corretas
b) Somente as afirmações I e III estão corretas

capítulo 6 • 149
c) Somente as afirmações II e III estão corretas
d) Todas estão corretas
e) Todas estão incorretas

02. Sobre o principado de Kiev podemos afirmar:


I – O processo de feudalização desintegrou o Principado e fez nascer pequenos rei-
nos independentes;
II – Controlava as rotas comerciais ligadas ao mar Negro e Báltico;
III – O principado controlava politicamente os mongóis da Horda de Ouro.
a) Somente as afirmações I e II estão corretas.
b) Somente as afirmações I e III estão corretas.
c) Somente as afirmações II e III estão corretas.
d) Todas estão corretas.
e) Todas estão incorretas.

03. Explique o que foi o Bogomilismo.

04. Faça uma pesquisa sobre a região dos Balcãs enfatizando os conflitos nascidos no pe-
ríodo medieval que se fazem sentir até hoje.

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capítulo 6 • 151
152 • capítulo 6
7
O Império Bizantino
e as Cruzadas no
Oriente
7.  O Império Bizantino e as Cruzadas no
Oriente

No capítulo 6 nós discutimos como teve início o processo de desintegração do


mundo Árabe muçulmano. Estudamos como a luta pelo controle do poder tem-
poral e espiritual entre muçulmanos xiitas e sunitas iniciou a fragmentação do
império ao ponto de existirem, ao mesmo tempo, três califados: em Bagdá, no
Cairo e em Córdoba.
Analisamos o nascimento do califado xiita dos fatímidas no Egito, seu pro-
cesso de estruturação administrativa, nascida de acordos políticos com a elite
xiita que já residia no Egito antes da fundação do califado, e acordos diplomá-
ticos com o Império Bizantino e o Império Seljúcida, que garantiram a estabili-
dade política na região por um tempo.
Nesse capítulo, estudaremos como os países cristãos influenciaram o
Oriente Medieval, e como a chegada dos turcos influenciou profundamente a
sociedade e cultura muçulmana a partir do século IX, período das Cruzadas.
Também retomaremos a análise da sociedade Bizantina. Estudaremos de for-
ma mais aprofundada a Questão Iconoclasta, as disputas pelo poder e o prota-
gonismo bizantino no período cruzadista.

OBJETIVOS
Assim, esse capítulo terá como objetivo:
•  Analisar a Querela Iconoclasta;
•  Entender os motivos que levaram os ocidentais a começar o movimento cruzadista;
•  Estudar as disputas políticas pelo controle do Império Bizantino nos séculos IX, X e XI;
•  Perceber como o jogo diplomático da Dinastia Comneno, durante o período da Primei-
ra Cruzada, foi importante para garantir a recuperação dos territórios perdidos para os tur-
cos seljúcidas;
•  Entender porque o movimento cruzadista não foi tão somente um movimento religioso, foi
também movimento político;
•  Analisar a influência ocidental nas disputas políticas do Oriente Médio medieval;
•  Compreender o papel do sultão Saladino no processo de unificação dos muçulmanos con-
tra a ameaça franj.

154 • capítulo 7
7.1  A Querela Iconoclasta e a função da religião no Império Bizantino

Para se entender o papel que a religião possuía no Império Bizantino é necessá-


rio compreender a função que o imperador possuía dentro desta estrutura de po-
der. Ele era ao mesmo tempo o líder espiritual e temporal. Isso acontecia porque
os bizantinos acreditavam que o imperador e toda a estrutura imperial tinham a
benção de Deus e eram protegidos por Ele. Só entendendo esta construção é que
se tem em mente a função que a religião desempenhava na sociedade bizantina.
O título de Imperador Bizantino possuía um simbolismo que acentuava
o aspecto sagrado do monarca. Ele seria ao mesmo tempo líder do Império
Romano do Ocidente e do Oriente, o escolhido para renovar a fé cristã e, por
isso, o representante Deus na terra.

Ao contacto do Oriente, ele se tornou o autocrator, o despotes, e, a partir do início do


século VII, o basileus, isto é, o imperador por excelência, o senhor que dispõe de auto-
ridade absoluta. Enfim, o cristianismo fez dele o eleito de Deus, o ungido do Senhor, o
representante de Deus sobre a terra, seu lugar-tenente à frente dos exércitos, e, como
se diziam em Bizâncio, o isapóstolos, o príncipe igual aos apóstolos. (DIEHL Apud FER-
NANDES. 2015.p. 1723)

Essas características garantiram ao imperador bizantino o controle e sub-


missão da sociedade. Num período onde a fé movia a sociedade, a função de-
sempenhada pela religião no Império Bizantino transcendia seu papel social. A
religião tinha também uma atribuição política, pois, era a base que garantia a
autoridade do imperador.
A visão do imperador bizantino como o escolhido para guiar os cristãos era
tão arraigada, que auréolas de santo eram pintadas sob as cabeças dos impe-
radores. Entretanto, o Império Bizantino não era uma teocracia. O imperador
além de possuir o poder temporal, interferia também no poder espiritual, mas a
administração religiosa da Igreja ficava a cargo do Patriarca de Constantinopla
que era escolhido pelo imperador. Todavia, com a estabilização do império e,
principalmente, com a consolidação da estrutura clerical e monacal a disputa
entre o clero e o imperador, pelo controle do poder espiritual, teve capítulos
que marcaram de forma profunda a sociedade bizantina.

capítulo 7 • 155
A mais conhecida e debatida foi a Querela Iconoclasta. Segundo o historia-
dor Hilário Franco Jr. (1994, p. 27) O ícone no Império Bizantino representava
a “revelação da eternidade no tempo, a comprovação da própria encarnação,
a lembrança de que Deus tinha se revelado ao homem e por isso era possível
representá-lo de forma visível”.
Os mosteiros eram os maiores possuidores e os principais fabricantes de
ídolos. Essa produção trazia prestígio e riquezas, influenciando de forma di-
reta a sociedade bizantina, pois o culto a imagens e relíquias era a forma mais
comum de difundir o cristianismo ortodoxo. Destaca-se ainda o fato de que a
maior parte da população bizantina era analfabeta, neste caso, as imagens ser-
viam como uma forma de difundir e ensinar o cristianismo.

CONCEITO
Teocracia é um sistema de governo onde o poder político se encontra fundamentado no
poder religioso. Quem controla o poder temporal também controla o poder espiritual. Além
disso, em uma teocracia as atitudes dos governantes tem por base a religião e são nascidas
por inspiração divina.

No século VIII o imperador Leão III proibiu o uso e a veneração de imagens


com exceção a da imagem do Cristo, e decretou pena de morte para que des-
cumprisse a proibição. As imagens e ícones foram destruídos em todos os tem-
plos religiosos e isso trouxe como consequência um longo conflito religioso,
pois, a cultura helênica oriental, que influenciou de forma direta o cristianismo
ortodoxo, tinha em suas origens a adoração a imagens e ícones.
Vários são os motivos que podemos elencar como explicação para o fato do
imperador Leão III ter proibido a veneração das imagens, e alguns vão além das
questões puramente religiosas. Assim, podemos destacar:
•  As influências semitas: o imperador, influenciado pelo judaísmo e pelo
islamismo, teria proibido o culto às imagens por entender que a Bíblia proibia
essa prática;
•  Disputa política com os mosteiros: a riqueza e o prestígio dos mosteiros,
por possuírem a maioria das relíquias sagradas, passou a ser visto como um
problema pelo o imperador, que via no crescimento da importância do setor
monástico um provável foco de disputa pelo poder.

156 • capítulo 7
•  Submissão do clero: a Querela Iconoclasta teria nascido como uma forma
de submeter a Igreja e o clero ao poder do trono bizantino;
•  Disputa por camponeses: jovens com idade para servirem o imperador
como soldados, na defesa do Império, estavam preferindo a vida nos mosteiros;
•  Cultura Síria: a proibição do culto a imagens teria nascido da influência sí-
ria, terra natal do imperador, onde o culto às imagens era visto como algo impuro;
•  Anicônismo: uma parcela da população bizantina era anicônica – a pre-
gação das palavras sagradas era a fonte da fé – e isso poderia fazer crescer a
influência da revolução islâmica em território bizantino;
•  Tradição cristã: a tentativa de retornar às origens do cristianismo, na qual
supostamente não havia representações, levou à crise iconoclasta.

Figura 7.1  –  Gravura retratando a iconoclastia.

Além disso, é preciso salientar que independente das diferentes razões atribuídas ao
início do iconoclasmo, todas perpassam pela figura do imperador, uma vez que, o mesmo
como o autokrátor instaurou a iconoclastia de acordo com os seus ideais, sem prestar
contas ao restante do Império. Além disso, é possível ainda perceber a força da influên-
cia cristã no poder imperial, o que o tornava ainda mais forte, pois o imperador enquanto
o vice-rei de Deus na terra tornava-se ainda mais respeitável e importante nessa so-
ciedade, o que tornava difícil alguma reação sobre as suas decisões. (FERNANDES.
2015.p. 1729)

capítulo 7 • 157
A crise iconoclasta nos permite perceber a influência do imperador bizan-
tino nas questões religiosas. Apesar de clero e dos monges terem seu lugar du-
rante a crise, o papel desempenhado pelo imperador foi o mais relevante. Foi
ele quem instituiu a iconoclastia a partir de sua vontade, sem consultar o clero
ou os monastérios. É por isso que o poder autocrático do imperador bizantino,
estabelecido pela influência da religião cristã, é a característica mais marcante
da civilização bizantina.
Como representante de Deus na terra, suas atitudes eram difíceis de se-
rem contestadas. Discordar de suas decisões poderia ser entendido como uma
afronta à vontade divina. Isso só foi possível porque o imperador mesclou sua
figura a ideia de santidade de tal forma que a religiosidade da sociedade era a
sua maior fonte de poder. Prova disso é a própria crise iconoclasta. As imagens
de Cristo, de Maria e dos santos foram proibidas, mas, a imagem do imperador
continuou a ser pintada com a auréola de santidade em plena crise.
A Querela Iconoclasta só foi resolvida em meados do século IX (em 843)
quando a imperatriz Teodora reestabeleceu o culto às imagens. Essa crise mar-
cou de forma profunda a história de Bizâncio e da Igreja Ortodoxa prova disso
é a comemoração, no dia 11 de março, do “Triunfo da Ortodoxia”, que faz refe-
rência ao fim da crise.
©© WIKIMEDIA.ORG

Figura 7.2  –  Ícone do triunfo da ortodoxia.

158 • capítulo 7
7.2  A dinastia dos Macedônios, a diplomacia dos
Comnenos e as Cruzadas

7.2.1  A Dinastia Macedônica

No período que vai do século IX ao século XI o Império Bizantino, governado


pela Dinastia Macedônica, experimentou grande ascensão. Neste período se
constatou grande expansão dos territórios: controlava a Península Balcânica,
a região da Ásia Menor e o norte da Síria. Em todos esses territórios havia ba-
talhas nas fronteiras – nos Balcãs contra os búlgaros e na Ásia e Síria contra
os árabes – mas, o controle territorial e político era mantido pelos bizantinos.
Também foi nesse período que Bizâncio viveu um renascimento cultural, onde
a arte e a literatura da Antiguidade Clássica voltaram a ser valorizadas pela
sociedade.
A luta contra os búlgaros pelo controle de territórios na região dos Balcãs foi
a grande marca deixada pela dinastia macedônica no campo político. Mas, foi
nesse momento histórico que aconteceu o Cisma do Oriente.

CONCEITO
O Cisma do Oriente foi uma disputa político-religiosa que separou a Igreja Católica, no ano
de 1054, em duas: Igreja Católica Apostólica Romana e Igreja Católica Apostólica Ortodoxa.
Vários foram os motivos que levaram ao Cisma. Alguns prosaicos, como a discussão sobre o
uso de fermento no pão usado na eucaristia, a origem verdadeira do Espírito Santo e outros
complexos, que tratavam principalmente sobre a primazia da Igreja Romana em assuntos de
ordem religiosa ou eclesiástica. Como não se chegou a acordos sobre esses e outros temas
o Bispo de Roma excomungou o Patriarca de Constantinopla, que por sua vez excomungou
o bispo de Roma. Só em 1966 as excomunhões foram retiradas e só em 2016, na cidade
cubana de Havana, houve o encontro oficial dos dois líderes das Igrejas católicas depois do
Cisma, com a finalidade de tratar da perseguição aos cristãos no Oriente Médio.

Entre os séculos VII e IX o Império Bizantino viu seus territórios nos Balcãs
serem invadidos pelos búlgaros. No primeiro momento, essas invasões tinham
como único objetivo a pilhagem, entretanto, em pouco tempo os búlgaros co-
meçaram a se instalar definitivamente no território bizantino.

capítulo 7 • 159
Logo no período inicial da expansão búlgara o Império Bizantino enviou
uma expedição armada para acabar com as invasões. A expedição fracassou,
Bizâncio perdeu definitivamente o controle dos territórios ocupados, e ainda
teve que pagar tributos anuais para os búlgaros para não serem atacados. Entre
os séculos VII e final do século IX os búlgaros derrotaram quase todas as inves-
tidas bizantinas que objetivavam a retomada de territórios, inclusive, mataram
um imperador Bizantino, Nicéforo II.
Só no século XI, Bizâncio retomou o controle da região e subjugou os búlga-
ros. Esse fato marca o apogeu territorial bizantino. Além de controlar o reino da
Bulgária, o imperador no período, Basílio II, também subjugou sérvios, croatas
e bósnios.
Dinastia Macedônica teve seu fim no século XI. Isso aconteceu por dois mo-
tivos: a luta travada entre os comandantes militares e a administração central
da capital pelo poder de controlar o império, e a invasão turca seljúcida em
1071, que fez a disputa política pender para o lado dos militares.

Holmes (2008, p. 271) refina a análise do final da Dinastia Macedônica, apresentan-


do como elementos que favoreceram a instabilidade o colapso econômico, rivalidades
entre aristocracias civis e militares, choques entre as grandes famílias envolvidas nas
guerras civis do século X, o desmantelamento dos exércitos organizados em temas e
tensões étnicas entre os bizantinos e diversas populações submetidas, como os búlga-
ros e os armênios. (RIBAS, 2013, p.18)

7.2.2  A Dinastia Comneno.

A disputa pelo controle do trono bizantino levou ao poder o comandante mili-


tar Isaac Comneno em 1057, entretanto, só com a ascensão ao trono de Aleixo I
a Dinastia Comneno passou a ter um comando mais efetivo do império.

160 • capítulo 7
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Figura 7.3  –  Aleixo I Comneno e Godofredo


de Bulhão.

No período de transição entre as dinastias Macedônica e Comnena a disputa


por territórios travada entre bizantinos e turcos seljúcidas, que era uma cons-
tante nesse período, se ampliou e pendeu para o lado dos turcos. A partir da
década de 70 do século XI os turcos obtiveram vitórias expressivas. Dentre elas:
A conquista do território bizantino de Manziquerta, na Ásia Menor, que
comprometeu a autoridade do Império sobre a região da Anatólia, e facilitou o
processo de invasão daquele território;
•  A destruição do exército bizantino enviado para reaver o controle da re-
gião da Anatólia;
•  A derrota em uma nova campanha militar realizada contrata mercenários
que desertaram do exército, obrigou o imperador a fazer um acordo com os tur-
cos – reconhecendo suas conquistas na Ásia Menor – com o objetivo de obter
apoio na luta contra os mercenários, que foram derrotados pelos bizantinos
com a ajuda dos turcos, em 1074.
•  A revolta de generais nos Balcãs e na Anatólia – esta última apoiada pe-
los turcos.

Além de todos os reveses militares, o império ainda passava por um mo-


mento de crise econômica, boa parte dela causada pelas despesas militares. A

capítulo 7 • 161
pressão popular e a distinção que a família Comneno alcançou durante o perío-
do das disputas com os turcos levou o Imperador Botaniates a abdicar do trono
em nome da família Comneno.
Aleixo Comneno foi o primeiro e mais emblemático imperador da nova di-
nastia. Sua figura histórica é bastante controversa, alguns historiadores afirmam
que ele foi um dos maiores estadistas do Império Bizantino, mas teve azar de
chegar ao poder em um momento de fragilidade do império; outros, o descreve
como um imperador traiçoeiro e maquiavélico, que fazia de tudo para se manter
no poder. Controvérsias a parte, o fato é que Aleixo teve papel decisivo na história
das Cruzadas, ao pedir ajuda para o Ocidente na luta contra os turcos seljúcidas.

Aleixo Comneno assumiu o Império Bizantino em 1081; e o encontrou com problemas,


já que anos antes, com as diversas disputas entre os chefes militares e uma longa guer-
ra civil, muita destruição se deu nos territórios bizantinos. Ao subir ao poder, o império
estava dilacerado e passava por tantas dificuldades que muitos afirmavam ter os dias
contados, como nos mostra Speros Vryonis. Por isso seu reinado foi marcado pelos
seus feitos, que mostram que, graças a estes, o império teve as bases dinamizadas para
se manter por mais três séculos e meio. (BASSI, 2008)

Ao pedir ajuda para o papa Urbano II em 1095 Aleixo acreditava que o


Ocidente lhe enviaria um contingente de mercenários para a luta contra os tur-
cos. Ele não esperava que seu pedido gerasse uma cruzada cristã, encabeçada
por um monge e formada na sua maioria por camponeses, contra os muçulma-
nos em nome da reconquista da Terra Santa.
©© WIKIMEDIA.ORG

Figura 7.4  –  Pedro, o Eremita, pregando a cruzada contra dos infiéis.

162 • capítulo 7
Esse foi seu primeiro grande problema diplomático de Aleixo – aceitar em
seu território, prover alimentos e alojar os cruzados, comandados por Pedro,
o Eremita, enquanto não os transportava para o outro lado Mediterrâneo. O
transporte foi feito rápido, como foi rápida a derrota sofrida por esses cruza-
dos, mortos ou escravizados pelos turcos.
A Cruzada dos Nobres, oficialmente a primeira cruzada, foi o mais sério
problema diplomático vivido por Aleixo Comneno, entanto, ela também trouxe
ganhos imediatos para o Império:
•  Conseguiu que os cruzados prometessem, em troca de ajuda para o trans-
porte das tropas cruzadas e de armas, devolver todas as cidades bizantinas con-
quistas pelos turcos;
•  A cidade de Nicéia passou a ser controlada pelos bizantinos;
•  A fragilidade militar dos turcos, nascida das batalhas com os cruzados,
permitiu ao governo bizantino retomar a maior parte da Ásia Menor, inclusive
as cidades de Esmirna, Éfeso, Sardes, Filadélfia e Poliboto graças a fragilidade
militar dos turcos, nascida das batalhas com os cruzados;
Runciman (2002. p. 143) chama a atenção para esses fatos ao tratar da ceri-
mônia onde os cruzados juraram vassalagem ao Imperador Bizantino:

A cerimônia do juramento aconteceu provavelmente dois dias depois, no Domingo de


Páscoa. Godofredo, Balduíno e seus principais nobres juraram reconhecer o imperador
como suserano de todas as conquistas que por ventura fizessem e comprometeram-se
a entregar aos seus funcionários todas as terras reconquistadas que pertencessem
anteriormente ao imperador.

Depois da morte de Aleixo I em 1118, seu filho, João II Comneno, deu con-
tinuidade à política do pai e costurou alianças que permitiram a estabilida-
de política no Império. Após a morte do filho de João II Comneno, a dinastia
Comnena entrou em declínio. A disputa pelo trono entre os próprios bizanti-
nos enfraqueceu o império, que foi invadido e controlado pelos membros da
Quarta Cruzada, que será estudada no próximo capítulo.

7.2.3  Cruzadas

Os livros de história medieval tendem a simplificar as Cruzadas como um mo-


vimento de caráter religioso. De fato, houve nas Cruzadas lutas contra os “in-

capítulo 7 • 163
fiéis”, entretanto, seus objetivos foram além da libertação da Terra Santa. O
discurso religioso tinha como função unir a cristandade. A Igreja Romana ne-
cessitava de um argumento coerente para eliminar as disputas entre os nobres
europeus que viviam em guerra, e que ao mesmo tempo garantisse a liderança
papal sobre toda a cristandade – a luta contra os “inimigos de Cristo” foi um
meio usado para chegar a esse fim.
No início do movimento cruzadista essa união aconteceu, mas não se man-
teve por muito tempo, pois os interesses particulares acabavam separando os
grupos cruzados, transformando aliados em inimigos. Havia uma base ideoló-
gica múltipla que movia os cruzados, assim presente se fazia, também, o senti-
do utilitarista das Cruzadas: além de libertar a Terra Santa das mãos dos “inimi-
gos de Cristo”, elas também eram fontes de riqueza e prestígio político.

É bem verdade que esses nobres partiram para a Terra Santa com o objetivo de expulsar
ou submeter os muçulmanos daquela região, mas não havia nenhuma determinação do
que deveria ser feito de Jerusalém após isso. Na ausência de qualquer orientação da
Santa Sé, os barões procederam segundo seus costumes guerreiros: tomaram posse
das cidades e dos territórios conquistados, estabelecendo-se aí senhorios latinos, como
foi feito em Antioquia, cujo senhor era Boemundo de Taranto; e com Edessa, cujo senhor
era Balduíno de Bolonha. Com Jerusalém tentou-se fazer parecido, mas a situação era
mais delicada, uma vez que se tratava da Terra Santa. (CHAVES,2011, p. 8)

Estudar as Cruzadas a partir dessa visão utilitarista nos ajuda a explicar o


porquê desde o início ela foi um movimento de liderança fragmentada. A pri-
meira expedição, encabeçada por nobres franceses, obteve sucesso, mas como
cada nobre tinha um objetivo quando começou o movimento, o território con-
quistado foi dividido em quatro reinos feudais.

COMENTÁRIO
A vitória dos cruzados foi facilitada porque naquele momento a região se encontrava em
uma guerra que envolvia muçulmanos xiitas (representados pelo califado fatímida no Cairo),
muçulmanos sunitas (representados pelos turcos seljúcidas) e o Império Bizantino.

164 • capítulo 7
O sucesso da Primeira Cruzada fez com que vários peregrinos rumassem
para o Oriente Médio, reforçando, assim, a imagem de Guerra Santa, entretan-
to, ao observarmos mais de perto a vitória cristã sobre os muçulmanos e os rei-
nos que nasceram dessa vitória, veremos mais que atos de fé. Durante todo o
período que esses reinos existiram, a luta pelo controle da região foi uma cons-
tante. Vejamos:
•  Ao conquistar os territórios turcos os nobres ocidentais renegaram os ju-
ramentos feitos ao Imperador Bizantino;
•  Os líderes da Igreja Ortodoxa que viviam nos territórios conquistados fo-
ram retirados e em seu lugar foram colocados bispos ligados ao papado;
•  Para manterem os territórios conquistados os cruzados contrataram mer-
cenários – que entraram na guerra por dinheiro, não pela fé em Cristo – para
fortalecer seus exércitos;
•  As incursões de pilhagem em território bizantino e turco eram comuns;
©© WIKIMEDIA.ORG

Figura 7.5  –  Iluminura do século XIII: o cerco a Jerusalém.

capítulo 7 • 165
Ao final da Primeira Cruzada quatro feudos cristãos foram criados: o
Condado de Edessa, o Principado da Antioquia, o Reino Latino de Jerusalém
e Condado de Trípoli. Todos esses estados cristãos nasceram da disputa pelo
poder e controle territorial, processo que não se embasou essencialmente na
justificativa da fé.
Contar a história das Cruzadas é analisar um processo de lutas que obje-
tivavam o monopólio do poder temporal e espiritual. Tal trajetória iniciava-se
na necessidade do poder papal de se firmar como o único líder da cristandade,
perpassava pela disputa da nobreza feudal sobre o controle de territórios no
Ocidente, pelas disputas territoriais no Oriente, pelo processo de desconstru-
ção de liderança do Império Seljúcida e pelas ações militares de Saladino.

7.3  Crise e reorganização: Zinki, Nuredin, Saladino


e a reconquista muçulmana.

7.3.1  Zinki

As derrotas militares para os cruzados e a conquista de Jerusalém marcaram


profundamente a sociedade muçulmana. A sensação de derrota e de impotên-
cia perdurou por mais de meio século até que atabeg Zinki, comandante das
tropas do sultão da cidade de Mossul, ascendeu ao poder.
Antes de Zinki, a região da atual Síria era controlada por pequenos reinos
seljúcidas e chefes tribais que sozinhos não possuíam força militar que fizesse
frente aos cruzados do Ocidente. Sabendo disso, Zinki fez acordo políticos com
as tribos curdas que viviam nas montanhas próximas a Mossul e deu início ao
processo de reconquista dos territórios que estavam sob o controle dos cruza-
dos. Meio século depois da conquista de Jerusalém surge dentre o povo muçul-
mano um líder que se propôs a enfrentar os conquistadores vindos do outro
lado do Mediterrâneo, Saladino.

COMENTÁRIO
Na maioria dos livros de História, é dito que os muçulmanos chamavam os cruzados de franj,
porque a primeira cruzada foi realizada por nobres de origem franca. É verdade que a maio-
ria dos cruzados eram oriundos do norte da atual França, mas, o termo tem um significado
mais amplo. Ocidentais de várias regiões da Europa participaram das cruzadas: normandos,

166 • capítulo 7
ingleses, franceses, italianos e germânicos. Todas essas regiões enviaram cruzados para fa-
zer a guerra contra os “infiéis”. Os muçulmanos não conseguiam distinguir esses diferenças
étnicas ou tribais. Todos os ocidentais eram brancos, possuíam cabelos grandes e claros, por
isso, termo franj passou a ser sinônimo de Ocidental durante as cruzadas.

O primeiro território conquistado foi o condado de Edessa, em 1144. Essa


conquista militar reanimou a população muçulmana, que viu nesse fato um
motivo para recomeçar a luta por todos os territórios ocupados. O número de
soldados comandos por Zinki cresceu consideravelmente e isso lhe proporcio-
nou a conquista de novos territórios na Síria e Mesopotâmia. O novo Estado
controlava regiões e cidades na Síria, no Iraque e na Palestina.

O entusiasmo tomou conta dos povos muçulmanos. Refugiados da Palestina e das ci-
dades costeiras começavam a falar que o atabeg Zinki iria reconquistar Jerusalém, um
objetivo que tornava-se cada vez mais simbólico da resistência contra os franj. A quase
indiferença do mundo muçulmano em relação à perda desta cidade transformar-se-ia
numa obsessão motivadora. O califa em Bagdá conferiu a Zinki títulos prestigiosos e
honras de todo o tipo. (BRANDÃO, 2008, p.54)

7.3.2  Nureddin

A morte de Zinki – assassinado por um escravo – possibilitou que seu filho,


Nerudin, o substituísse no governo, e na liderança do exército turco-muçul-
mano. Ao contrário do pai, um líder militar nato, Nureddin criou para si uma
imagem de líder justo, honrado e engajado na causa da Jihad. Através desta
imagem - de um líder virtuoso e preocupado com a religião muçulmana -, ele
conquistou a simpatia, o respeito e o poder de liderança do povo muçulmano
contra os ocidentais.

CONCEITO
Jihad é um termo árabe que significa “luta”, “esforço” ou empenho, não guerra ou luta
armada necessariamente. É muitas vezes considerado um dos pilares da fé islâmica, pois
é vista como uma das formas de desenvolver e demonstrar o espírito da submissão a

capítulo 7 • 167
Deus. O termo foi usado como sinônimo de guerra santa, não luta armada, porque pre-
ga a conversão dos povos ao islamismo. O uso como sinônimo de luta armada contra o
ocidente só nasceu no século XX, depois da fundação do Estado de Israel. (Adaptado de
CORREA, 2015)

Depois desse primeiro momento de afirmação política, sua atenção se vol-


tou para a elite árabe, buscando convencê-la a participar da Jihad. O discurso
empregado por ele era simples: reestabelecer os princípios da revolução islâ-
mica a partir da orientação sunita, libertar Jerusalém e expulsar os cruzados
do Oriente.

Nureddin iniciou um processo que Yussef ibn Ayyub continuou e consolidou: o uso
da mobilização religiosa como arma de propaganda política e exaltação das virtudes
do soberano para atrair a simpatia da população. Um novo corpo de funcionários de
Estado, religiosos, letrados e filósofos, tinham por missão convencer os dirigentes do
mundo árabe a se unir à causa da Jihad com Nureddin. Seus princípios são simples:
uma só religião, o Islã sunita – o que já declara um conflito com as “heresias” xiitas; um
só Estado, para fazer frente aos franj; e o objetivo final de libertação de Jerusalém e
expulsão dos invasores do Dar al-Islam. (BRANDÃO, 2008 p.65)

A aversão aos xiitas, que naquele momento controlava o Egito, e a ne-


cessidade de cercar todo o território cristão para só depois atacá-lo, levou
Nureddin a conquistar a região dominada pelos xiitas fatímidas. O coman-
do da empreitada foi dado a Xirkuh, que levou consigo Saladino, futuro he-
rói muçulmano.

COMENTÁRIO
Frisar essa tentativa de Nureddin de incluir os árabes na luta contra os ocidentais usando o
discurso da Jihad é importante, pois foi esse o discurso usado por Maomé para unir os árabes
nos primeiros tempos da revolução Islâmica. Não estamos comparando Nureddin a Maomé, o
que estamos fazendo, é frisar que a estratégia usada por ele para atrair os árabes para a luta
contra os cruzados tem inspiração na ideologia que deu origem ao islamismo

168 • capítulo 7
7.3.3  Saladino

Yussef ibn Ayyub, o futuro sultão Saladino, foi uma das figuras mais emblemá-
ticas da história medieval. Sobrinho do general curdo Xirkuh, ele foi auxiliar de
seu tio na conquista do Egito fatímida. Depois de conquistado, o Califado Fatí-
mida passou a ser controlado por Xirkuh, entretanto, o general morreu pouco
tempo depois de ser nomeado vizir pelo califa.
Esse fato obrigou o califa al-Adid a escolher outro vizir. Yussef (Saladino)
foi o escolhido. O califa e seus conselheiros partiram do pressuposto de que
ele, por ser o mais novo e mais inexperiente dos comandantes seljúcidas, seria
mais fácil de ser manipulado. Todavia, em pouco tempo o novo vizir se impôs:
eliminou os servidores fatímidas desleais e colocou em seu lugar funcionários
de sua confiança; desmantelou uma revolta das tropas egípcias e expulsou uma
tropa de cruzados que tentava se apoderar de um porto no Delta do rio Nilo.
O califa, ao conferir o título de vizir a Saladino, legitimou o controle des-
te sobre o califado, entretanto, ele era o representante de Nureddin no Egito.
Esses dois fatos somados, ao invés de fortalecer a posição de Saladino a tornava
frágil. Nureddin ainda via os xiitas como deturpadores da fé islâmica e passou a
temer que Saladino usasse seu controle sobre os egípcios como meio de se fir-
mar como único comandante do califado Fatímida. (Apesar de Saladino nunca
ter tomado nenhuma atitude que pudesse levantar essa suspeita, ao contrário,
fazia questão de deixar claro que ele era o representante de Nureddin, único
controlador daquela região.)
Foi só com a morte do califa que essa situação mudou. Saladino decretou o
fim do Califado Fatímida e obrigou a população a fazer as preces de acordo com
a forma sunita, banindo a forma xiita.

capítulo 7 • 169
©© GRAHAM VAN DER WIELEN | WIKIMEDIA.ORG

Figura 7.6  –  Estatua de Saladino em Damasco, Síria.

Com a morte de Nureddin, que não deixou herdeiros, Saladino se tornou


o principal líder muçulmano na luta contra os franj. A estabilização do poder
político fez os muçulmanos mirarem outra vez da questão da Jihad e na reto-
mada da cidade de Jerusalém. Em pouco tempo ele passou a ser visto como o
líder inconteste dos muçulmanos do Egito e da Síria, além dos territórios islâ-
micos do Norte da África e na Península Arábica. Este quadro se formou graças
às alianças que Saladino estabeleceu com os príncipes sírios e com a criação do
discurso de união entre os muçulmanos.

COMENTÁRIO
Saladino era visto como um líder honrado, leal e justo. Boa parte desse prestígio nasceu de
seus hábitos. A simplicidade era sua maior característica. Sua alimentação era simples, sem
nenhum tipo de requinte ou sofisticação. Não gostava de palácios suntuosos nem da osten-
tação de riquezas. Sua palavra ou um juramento feito eram cumpridos à risca. Respeitava os
códigos de honra ao fazer guerra, ao ponto de abdicar do elemento surpresa em uma batalha.
Essas características fizeram não só o mundo muçulmano o respeitar, o ocidente também o
admirava. Segundo alguns historiadores, os cruzados que retornaram a Europa incluíram no
código de honra do cavaleiro atitudes tomadas por Saladino durante as batalhas.

170 • capítulo 7
Uma das primeiras ações de Saladino ao tomar para si o controle dos terri-
tórios muçulmanos foi propor uma trégua nos conflitos entre árabes e cristãos,
que foi aceita por Balduíno, rei de Jerusalém. Saladino precisava de tempo para
reunir suas tropas para atacar Jerusalém e Balduíno, que se encontrava cercado
por todos os lados por muçulmanos, viu na proposta de trégua uma forma de
ganhar tempo para preparar a resistência.

Num primeiro momento, Saladino negociou uma trégua com o rei de Jerusalém, Bal-
duíno, pois não desejava ainda uma guerra aberta contra os cristãos, pois podia esperar
mais tempo e consolidar suas forças. Para os cristãos, a paz nesse momento também
era vantajosa, pois se encontravam cercados por um único inimigo muçulmano que
controlava o Egito, a Síria, o norte do Iraque e o Iêmen. Por algum tempo, a passagem
das caravanas árabes pelos territórios cristãos foi garantida. (BRANDÃO, 2008, p.71)

A paz entre muçulmanos e cristãos acabou quando Balduíno morreu. O


novo rei de Jerusalém, Guy de Lusignan, se aliou a Reinaldo de Châtillon, um
cruzado que atacou caravanas, saqueou suas mercadorias e matou todos os mu-
çulmanos em nome da luta contra “os infiéis”. Esse ato selou o destino do Reino
de Jerusalém. Em 1187 Saladino derrotou os cruzados recuperando Jerusalém e
a maior parte dos territórios que foram invadidos.

CURIOSIDADE
Saladino foi apresentado ao mundo cristão ocidental como um exemplo de generosidade e
virtude. Seus atos de generosidade durante as Cruzadas – quando, por exemplo, enviou seu
médico particular para tratar do Rei Balduíno, quando este contraiu lepra – foram motivos
de canções e contos que se espalharam pela cristandade, ao ponto de Dante, na Divina Co-
média, colocar Saladino no limbo – lugar para onde eram enviados os virtuosos que não são
castigados, mas não podem ser beatificados por não terem sido batizados

As Cruzadas tiveram várias consequências para o mundo muçulmano, mas,


uma se destaca: após o início da luta de Zinki pela reconquista dos territórios
ocupados, os muçulmanos tomaram consciência da importância simbólica
que esta retomada tinha para a fé islâmica, nesta perspectiva, a Síria era vista

capítulo 7 • 171
como o centro político e religioso no período do Califado Omíada e Jerusalém
como a cidade onde Maomé ascendeu ao Paraíso.
O processo de fragmentação política dos territórios islâmicos nos séculos
anteriores às Cruzadas e à conversão de vários povos ao islamismo fez com que
a cultura, a língua e a religião fossem colocados em segundo plano. O modelo
pessoal de jihad proposta por Maomé foi esquecida em nome da política e de
interesses pessoais. As Cruzadas serviram como catalizadores para que essa vi-
são universalista do Islã, proposta por Maomé, fosse retomada.

Saladino representou, num âmbito geográfico de certa forma restrito, mas suficiente-
mente amplo para conferir-lhe a pretensão de universalidade política e religiosa, um
momento de interrupção das ambições particularistas e a retomada de um ideal sa-
grado, de comprometimento com Deus e a Jihad – que significa ao mesmo tempo um
esforço de auto-superação interno e individual e a luta militar contra os inimigos do Dar
al-Islam. (BRANDÃO, 2008 p.74)

Figura 7.7  –  Rendição dos cruzados à Saladino.

172 • capítulo 7
A Jihad ou a satisfação de interesses particulares foram uma constante na
Idade Média Islâmica. O processo de conquista dos territórios ocupados foi um
momento onde o sentimento universalista se sobrepôs ao particularismo po-
lítico. Durante um período Saladino e seus antecessores conseguiram juntar
fragmentos do antigo território muçulmano para fazer nascer um novo Estado.
Durante um tempo os ideais maometanos foram revividos na luta contra os
franj, entretanto, esse momento passou junto com as Cruzadas. Saladino, ao
retomar Jerusalém, garantiu para si um lugar de destaque na História do mun-
do muçulmano – passando a ser visto como herói lendário e fonte de inspiração
sempre que alguém conclama os muçulmanos a unirem em prol de uma causa.

ATIVIDADES
01. Sobre a crise Iconoclasta podemos afirmar:
I – As imagens e ícones foram destruídos em todos os templos religiosos e isso trouxe
como consequência um longo conflito religioso, pois, a cultura helênica oriental que influen-
ciou de forma direta o cristianismo ortodoxo, tinha em suas origens a adoração a imagens
e ícones.
II – Foi decretada pelo Imperador para diminuir a influência dos mosteiros sobre
a sociedade
III – Teve na fé sua única fonte de inspiração.
a) Somente as afirmações I e II estão corretas.
b) Somente as afirmações I e III estão corretas.
c) Somente as afirmações II e III estão corretas.
d) Todas estão corretas.
e) Todas estão incorretas.

02. O Cisma do Oriente foi um evento religioso que marcou de forma profunda a Igreja
Cristã, entretanto, no período que o mesmo aconteceu, o Império Bizantino passava por um
momento político delicado porque:
a) O imperador Leão III proibiu o uso e a veneração de imagens e decretou pena de morte
para quem descumprisse a proibição.
b) O sultão Saladino derrotou os cruzados e recuperou Jerusalém e a maior parte dos ter-
ritórios que foram invadidos pelos cruzados.
c) Estava acontecendo naquele momento a luta contra os búlgaros pelo controle de terri-
tórios na região dos Balcãs.

capítulo 7 • 173
d) Pedro, o Eremita, havia chegado a Constantinopla e o Imperador Aleixo I teve que em-
barcar de forma rápida os cruzados para que não acontecessem lutas nem pilhagem em
território bizantino.

03. Aleixo I foi o imperador bizantino que recorreu ao papa Urbano II pedindo ajuda para
combater os turcos que ameaçavam os territórios bizantinos. Foi esse pedido de ajuda que
deu origem ao movimento cruzadista. Urbano II conclamou os ocidentais a lutar contra os
“infiéis”, mas as Cruzadas, apesar de terem nascido do discurso religioso, tiveram outros
objetivos. Sobre esses outros objetivos julgue os itens:
I – As cruzadas tiveram o objetivo de unir os nobres feudais que vivia em guerra entre si,
disputando territórios.
II – Reforçar a imagem do papa como o guia da Cristandade no Ocidente.
III – Destruir os exércitos de Saladino que haviam invadido Constantinopla.
a) Somente as afirmações I e II estão corretas.
b) Somente as afirmações I e III estão corretas.
c) Somente as afirmações II e III estão corretas.
d) Todas estão corretas.
e) Todas estão incorretas.

04. Na Divina Comédia, Dante, ao falar das almas que estavam no limbo – região para onde
iam as almas de heróis e filósofos que possuíam méritos, mas, que não podiam ir para o
paraíso por não terem sido batizados – cita Platão, Heitor, Hipócrates, Virgílio, Saladino e
outros. O fato de Dante colocar Saladino no Limbo, junto com grandes nomes da Antiguida-
de Clássica, demonstra o respeito do Ocidente por ele. Dito isso, faça uma pesquisa sobre a
figura Histórica do sultão Saladino e explique por que os europeus viam-no como uma figura
que devia ser respeitada.
Analise a frase:
Jihad é um termo árabe que significa “luta”, “esforço” ou empenho, não guerra ou luta
armada necessariamente. É muitas vezes considerado um dos pilares da fé islâmica, pois é
vista como uma das formas de desenvolver e demonstrar o espírito da submissão a Deus. O
termo foi usado como sinônimo de guerra santa, não luta armada, porque prega a conversão
dos povos ao islamismo.

174 • capítulo 7
RESUMO
Entender a dinâmica social e política no Oriente Médio durante o período cruzadista é uma
tarefa difícil. Vários atores participaram desse momento e cada um, em um determinado pe-
ríodo, teve seu momento de protagonista: Igreja Cristã, Império Bizantino, Nobreza ocidental,
turcos e Saladino. A partir da perspectiva de cada um desses atores, estudamos esse mo-
mento histórico do Oriente medieval quando:
•  Entendemos que a crise Iconoclasta foi mais do que uma disputa sobre a interpretação
dos textos bíblicos, ela estava ligada também a necessidade do imperador bizantino se impor
como chefe da Igreja, submetendo todo o clero a sua vontade e como chefe temporal, sub-
metendo os monges, que possuíam grande influência sobre os camponeses;
•  Estudamos como a necessidade do papado de se estabelecer como o guia da Cristandade
ocidental e ao mesmo tempo pôr fim às guerras internas na Europa Ocidental, teve papel
decisivo para que acontecesse o movimento cruzadista;
•  Percebemos como o Império Bizantino, que se encontrava acuado pelos turcos Seljúcidas,
usou da diplomacia para garantir que os cruzados não atacassem o território bizantino e
ainda conseguiu, usando a diplomacia e força, recuperar os territórios tomados pelos turcos;
•  Compreendemos que as Cruzadas, apesar de terem sido pregadas como uma ação do
mundo cristão contra os “infiéis” muçulmanos, foi também um movimento político e militar
que buscava a conquista de territórios, riquezas e prestígio para a nobreza;
•  Por fim – e o mais importante – estudamos o processo de reestruturação do mundo mu-
çulmano sob o discurso da Jihad e a ascensão de Saladino como o grande líder dos muçul-
manos, admirados por cristãos e muçulmanos até os dias de hoje.

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capítulo 7 • 175
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176 • capítulo 7
8
Os novos donos
do Oriente
8.  Os novos donos do Oriente
Neste último capítulo iremos estudar três momentos históricos que marcaram
de forma profunda as relações entre Ocidente e Oriente no período medieval:
a Quarta Cruzada, a luta pela Reconquista e a expansão otomana. Esses três
momentos históricos reestruturaram, cada um à sua maneira, as relações entre
Ocidente e Oriente.
A Quarta Cruzada representa o momento de ruptura entre o discurso reli-
gioso e a realidade temporal. Nascida sob o discurso da reconquista da Terra
Santa e da luta contra os “infiéis”, a Quarta Cruzada termina com a invasão e
pilhagem da cidade de Constantinopla, capital do Império Bizantino.
A Reconquista, ao contrário da Quarta Cruzada, foi vista como uma luta
santa, como uma cruzada realizada pelos reinos cristãos ibéricos contra os
invasores “infiéis”. Ela carregou consigo toda a mística cruzadista, e influen-
ciou as ações entre o papado e os reinos Ibéricos, mesmo depois da expulsão
dos muçulmanos.
Já a expansão turco-otomana marcou o fim de uma era. A conquista do terri-
tório bizantino pelos turcos pôs fim ao Império Romano do Oriente e quebrou
a última ponte entre a Antiguidade Clássica e o período Moderno.

OBJETIVOS
•  Entender os eventos históricos que culminaram com a tomada de Constantinopla pela
Quarta Cruzada;
•  Entender as estruturas sociais e econômicas que impulsionaram os cruzados rumo a Cons-
tantinopla e não a Jerusalém;
•  Compreender a importância da luta pela Reconquista para a Europa e para os reinos cató-
licos da Península Ibérica;
•  Perceber o discurso cruzadista presente na Reconquista, e sua repercussão na Europa
durante e depois da expulsão dos muçulmanos;
•  Estudar o processo de expansão do Império Otomano rumo a Europa;
•  Compreender as consequências da queda de Constantinopla para o Ocidente europeu.

178 • capítulo 8
8.1  Quarta Cruzada: pelo comércio, à destruição de Constantinopla

8.1.1  A Bula Dourada

Para se entender a Quarta Cruzada é necessário primeiro entender as relações


comerciais existentes entre o Império Bizantino e a cidade de Veneza.
A partir de meados do século XI, o Império Bizantino começou a sofrer vá-
rios reveses político-militares: os seus territórios nos Balcãs estavam sendo
atacados por búlgaros, a expansão normanda na Itália ameaçava seus últimos
territórios no Ocidente e sua marinha encontrava-se em franca decadência.
Para tentar combater os normandos e reestruturar seus territórios orien-
tais, o imperador bizantino pediu ajuda militar e financeira para a cidade de
Veneza. Em troca da ajuda financeira, foi firmado um acordo comercial em
1082 – conhecido como Bula Dourada – que garantia à cidade de Veneza vários
privilégios, dentre eles:
•  Isenção total de taxas alfandegárias aos navios venezianos nos portos con-
trolados pelos bizantinos;
•  A construção de um bairro só para venezianos em Constantinopla – o ob-
jetivo era facilitar as transações comerciais e garantir que os latinos pudessem
viver no Oriente de acordo com os costumes ocidentais;
•  A liberdade de circulação de venezianos e de suas mercadorias, por todos
os territórios do Império, exceto o Mar Negro.

Na primeira década do século XII, o imperador bizantino João Comneno, na


tentativa de reestruturar as finanças do Império, se negou a renovar o acordo
com Veneza. Em represália, a cidade-estado passou a fazer pilhagens em ter-
ritórios bizantinos, particularmente nas ilhas do mar Egeu. Como a marinha
bizantina não possuía forças para contra-atacar os venezianos, o acordo foi re-
novado em 1126.

8.1.2  A Quarta Cruzada

Desde o final do século XI, as cidades de Pisa, Genova e Veneza brigavam pelo
controle do comércio entre Ocidente e Oriente. Dentre elas, Veneza foi a cidade
que mais prosperou nesse período, pois, além de não estar envolvida com as
disputas territoriais que estavam acontecendo na Europa ocidental, ainda con-

capítulo 8 • 179
trolava vários portos do outro lado do Mediterrâneo, que lhe garantia acesso a
uma maior variedade de mercadorias vindas do Oriente.
Porém, essa hegemonia não aconteceu sem disputas comerciais ou guer-
ras. O exemplo mais emblemático foi o uso da Quarta Cruzada como meio de
garantir a hegemonia veneziana sobre o comércio no Mediterrâneo e regiões
circunvizinhas.
No final do século XI, a cidade de Veneza e o reino da Hungria lutavam
pelo controle das rotas comerciais que passavam pelo mar Adriático. A região
da Dalmácia, por se encontrar na costa leste do Adriático, era um dos pontos
em disputa. A cidade de Veneza não tinha interesse comercial na região, mas
não queria que o reino da Hungria tomasse posse do território, pois, dali po-
deriam surgir portos que atrapalhariam o comércio veneziano. Essa disputa
territorial que estava ligada a disputas comerciais, levou a invasão da cidade de
Constantinopla pelos soldados da Quarta Cruzada.
Quando aconteceu a Quarta Cruzada, a cidade de Veneza era a principal
ponte entre o Ocidente e o Oriente. Era dos seus portos que saía a maioria dos
navios que rumavam para Constantinopla e onde aportavam os navios carrega-
dos de mercadorias vindas dos estados muçulmanos ou do Extremo Oriente.
Era natural que os cruzados se dirigissem para os portos venezianos em busca
de transporte para o Oriente.
Como já foi dito no capítulo anterior, apesar de terem no cerne de seu dis-
curso a questão religiosa, as Cruzadas se transformaram aos poucos em expedi-
ções concentrada na obtenção de terras, prestígio e riquezas. Se até então isso
não estava claro para a Europa ocidental, a Quarta Cruzada tratou de fazê-lo.
Veneza propôs aos cruzados, que iriam lutar contra os “infiéis” que controla-
vam a cidade de Jerusalém, que primeiro atacassem a Hungria, um reino cris-
tão e católico, com o objetivo de garantir posições comerciais venezianas no
mar Adriático.
Depois de um período de negociações, os cruzados aceitaram a proposta ve-
neziana e tomaram a cidade de Zara, na região da Dalmácia. Após tal conquista,
conquistaram igualmente a cidade de Constantinopla em 1204.
Sobre esse fato, há explicações controversas. Alguns historiadores afirmam
que Constantinopla foi invadida a pedido da própria família imperial: o impe-
rador Isaac II havia sido deposto e seu filho, Aleixo IV, teria feito um acordo com
os cruzados, intermediado pelos venezianos, para que retomassem a cidade em
seu nome. Aleixo prometeu aos cruzados que depois de coroado imperador:

180 • capítulo 8
•  Pagaria o transporte e os suprimentos necessários para que chegassem
ao Oriente;
•  Submeteria a Igreja ortodoxa ao controle papal
•  Pagaria uma soma em dinheiro.

Ainda segundo esses historiadores, depois de coroado imperador, Aleixo IV


não teve condições de cumprir as promessas feitas, e por isso os cruzados inva-
diram e pilharam a cidade de Constantinopla.
©© WIKIMEDIA.ORG

Figura 8.1  –  Frota veneziana no cerco a Constantinopla (iluminura do século VX).

COMENTÁRIO
Os relatos sobre a invasão e a pilhagem da cidade de Constantinopla afirmam que a popu-
lação de Constantinopla foi massacrada e os tesouros da cidade foram roubados e levados
para o Ocidente, principalmente para a cidade de Veneza. Entretanto, não foram só tesouros
bizantinos que os venezianos conquistaram com a Quarta Cruzada: eles passaram a controlar
as rotas comerciais do Mediterrâneo oriental. Esse domínio foi possível porque os venezianos
controlavam os principais portos da região, inclusive o de Constantinopla. Além disso, a cida-
de de Veneza comprou territórios bizantinos que foram dados aos chefes da Quarta Cruzada,
como a ilha de Creta (objetivo foi consolidar o domínio veneziano sobre o mar Egeu). Durante
mais de 50 anos, o império Bizantino foi controlado por latinos e viveu sob a influência direta
da cidade de Veneza.

capítulo 8 • 181
Ainda hoje é possível encontrar na cidade de Veneza resquícios da Quarta Cruzada: na basíli-
ca de São Marcos, no Portal de Santo Alípio, encontram-se as réplicas dos cavalos de bronze
retirados do Hipódromo de Constantinopla. (Os originais se encontram em um museu).
©© TTESKE | WIKIMEDIA.ORG

Figura 8.2  –  Cavalos de bronze de Constantino. Fonte: Wikipédia

Já outros historiadores afirmam que os cruzados invadiram Constantinopla


– incentivados e ajudados pela cidade de Veneza – para cometer pilhagem pura
e simplesmente.
Controvérsias à parte, o fato é que a Quarta Cruzada, que nasceu com um
objetivo religioso, se transformou em uma cruzada secular ligada a disputas
comerciais e à pilhagem de tesouros. Ao seu final, o Império Bizantino se trans-
formou em um Império Latino e seu território foi dividido entre os líderes cru-
zados e a cidade de Veneza.
Durante o controle veneziano, algumas cidades bizantinas conseguiram
manter-se independentes e firmaram acordos ente si, e com outros estados
independentes, para tentar retomar o controle do império. O principal acordo
firmado nesse período aconteceu entre a cidade de Gênova, concorrente co-
mercial de Veneza e que tinha interesse em barrar a expansão veneziana, e o
Império de Niceia, em 1261.

182 • capítulo 8
CONCEITO
O Império de Niceia foi um estado bizantino fundado pela nobreza que conseguiu sair
de Constantinopla durante o cerco da Quarta Cruzada. Sua capital era a cidade de Niceia
e foi a partir dela que os bizantinos conseguiram se reorganizar e recuperar o controle
do Império.

O Tratado de Ninfeu, como ficou conhecido, além de ser um acordo comer-


cial, tinha também o objetivo de assegurar a ajuda militar e logística da cidade
de Gênova na luta pela reconquista de Constantinopla. Ao assinar o tratado os
bizantinos concederam aos genoveses:
•  Total isenção das taxas de entrada e de saída de mercadorias em por-
tos bizantinos;
•  Um bairro, denominado de Pera, no Chifre de Ouro – um estuário que for-
ma uma península de frente para a cidade de Constantinopla;
•  O direito de possuir um magistrado genovês dentro do território bizanti-
no com jurisdição sobre seus concidadãos;
•  O controle do Mar Negro – pois obrigava os bizantinos a fechar o tráfego
marítimo aos inimigos de Gênova.

Depois da Quarta Cruzada, o império bizantino nunca mais se recuperou


politicamente ou economicamente. Primeiro Veneza, e depois Gênova domi-
naram o império de tal forma que na segunda metade do século XIII a Igreja
Ortodoxa se submeteu por um período ao poder papal para evitar que os esta-
dos latinos invadissem outra vez Constantinopla.
No século XIV, apesar de uma efêmera tentativa de revitalização do império
realizada pelo imperador Andrônico II e pelo seu neto, Andrônico III, o poder
de Bizâncio foi se esfacelando em lutas internas pelo poder, em revoltas do
campesinato ou na perda de territórios para os otomanos que vinham desde os
Balcãs conquistando todos os territórios bizantinos.
Fracos politicamente e falidos economicamente, os bizantinos não tinham
como fazer frente aos turcos. A invasão e controle dos territórios foi se expan-
dindo e em 1453 os otomanos atacaram Constantinopla. A cidade foi tomada
em 1453, pondo fim ao antigo Império Romano do Oriente.

capítulo 8 • 183
REFLEXÃO
O Império Bizantino é normalmente retratado nos livros de história como uma estrutura à
parte do mundo Ocidental. Quando se discutem fatos históricos ou momentos da história
medieval em que há o protagonismo dos bizantinos, de uma forma geral, os mesmos são
retratados como uma espécie de contraponto do Ocidente. O Cisma do Oriente e a Crise
Iconoclasta são dois exemplos. Quando se estuda o Cisma do Oriente, a ênfase é dada
ao papel desempenhado pelo papado durante as disputas políticas e as consequências do
Cisma para o Ocidente. Quando a crise iconoclasta é analisada, os historiadores pesam a
mão na discussão religiosa, como se a questão do culto as imagens se restringisse pura e
simplesmente a uma questão religiosa.
O Império Bizantino foi um dos principais personagens do período medieval Oriental, e
também Ocidental. A abordagem clássica sobre o papel de Bizâncio está sendo revista. As
novas abordagens chamam a atenção para a importância que o Império Bizantino teve para
a origem do Ocidente Moderno.
Enquanto a Europa Ocidental se debatia com superstições no primeiro milênio cristão,
Constantinopla despontava como uma grande cidade cosmopolita. A cultura ocidental clás-
sica se misturou com a cultura oriental e dessa união nasceu uma cultura eclética e rica.
O conhecimento e a busca por conhecimento eram uma constante: matemática, medicina,
astronomia, logica, física, química e toda sorte de conhecimento ligado a ciência era estuda-
do em busca de compreensão. Nesse mesmo período na Europa ocidental, a busca por boa
parte desses conhecimentos era vista como bruxaria.
A Europa ocidental deve a Bizâncio, e muito. Não estamos falando da importância que
o Império Bizantino teve para a segurança dos ocidentais – ao barrar quase todas as ten-
tativas de invasão do continente por tribos orientais. Estamos falando da importância que
Bizâncio teve em preservar e/ou copiar do mundo árabe o conhecimento da Antiguidade
Clássica. Foi através do Império Bizantino que boa parte desse conhecimento chegou a
Europa Ocidental. E foram esses conhecimentos que deram origem ou turbinaram o mo-
vimento humanista e o Renascimento Clássico. Foi a partir dos portos controlados pelos
bizantinos, ou da própria cidade de Constantinopla, que a Idade Moderna nasceu em várias
partes da Europa Ocidental.

184 • capítulo 8
8.2  A resistência e a Península Ibérica: Granada

8.2.1  Antecedentes

O final do século XI marca o início das Cruzadas. Milhares de cristãos se dirigi-


ram para o Mediterrâneo e de lá para o Oriente Médio com o objetivo de tomar
a cidade de Jerusalém das mãos dos “infiéis”. Como já estudamos, as Cruzadas
foram mais que uma guerra santa entre cristãos e muçulmanos, elas estavam
inseridas em um contexto político e social muito mais complexo. Prova disso,
como vimos, foi a Quarta Cruzada.
É nesse contexto histórico que acontece o movimento de Reconquista. Mas,
o que foi a Reconquista? Pergunta complexa que pode ser respondida de várias
formas. Ela pode ser vista como um movimento político que buscava restaurar
o poder dos reis ibéricos sobre os territórios que lhes foi tomado pelos muçul-
manos, mas pode também ser entendida como uma cruzada que aconteceu na
Europa ocidental, cujo objetivo era retomar para a Cristandade os territórios
ibéricos que se encontravam sob o domínio dos “infiéis”. Qual a melhor respos-
ta? Analisemos o contexto histórico para responder essa pergunta.
No início de século VIII, os árabes-muçulmanos chegaram a Península
Ibérica. O califado Omíada invadiu a região controlada pelos visigodos e travou
uma luta durante cinco anos (711 a 716) pelo controle da península contra o
rei da Hispânia, Rodrigo. Durante as batalhas, o rei foi morto e a capital do rei-
no, Toledo, foi tomada sem resistência e o território muçulmano da Andaluzia
nasceu.
Depois desses fatos a população goda se dividiu: uma parte aceitou o con-
trole muçulmano, inclusive se aliando a eles, e um grupo que não se submeteu
ao domínio dos invasores fugiu para as Astúrias, uma região situada ao norte
da península, criando um foco de resistência que se transformou no núcleo do
qual se originou o movimento de Reconquista.
Nesse período histórico, duas dinastias disputavam o controle do Mundo
árabe-muçulmano: Omíada e Abássida. Esta última ganhou a disputa e os
omíadas fugiram para a Península Ibérica. Ao chegarem a região, instalaram-se
primeiro na cidade de Sevilha e depois foram para a cidade de Córdoba, onde
fundaram o emirado independe de Córdoba – depois elevado à categoria de ca-
lifado, no século X.

capítulo 8 • 185
Por quase três séculos os omíadas controlaram a Península sem grande
resistência – inclusive uma parte da população da Península se islamizou, fa-
cilitando o domínio a partir da cultura mulçumana. Porém, o fim da dinastia
Omíada (1031) trouxe consigo disputas políticas que fragmentaram o território
do Califado – fazendo nascer várias cidades-estados denominadas de Taifas.

CONCEITO
Taifa foi um termo cunhado na Idade Média, especificamente na Península Ibérica, para defi-
nir os vários reinos ou emirados que surgiram depois do fim do califado Omíada.

Por quase um século, o território muçulmano na península não possuiu um


poder central. Só em 1080, com a ascensão Almorávida, ocorreu uma reunifica-
ção parcial dos territórios com a submissão de várias taifas.

8.2.2  A reconquista

Antes de falarmos do movimento de Reconquista dos séculos XII e XIII, deve-


mos fazer algumas ponderações sobre a história da região quando da invasão
árabe-muçulmana. A tomada da Península Ibérica pelos muçulmanos aconte-
ceu no início do século VIII, entretanto, só no século XII – depois da intervenção
papal e do discurso religioso sobre o perdão dos pecados – os reinos ocidentais
resolvem se unir para expulsar os muçulmanos. Nesse intervalo de tempo a re-
gião das Astúrias (depois denominado reino das Astúrias), travou uma batalha
continua contra os muçulmanos.
A Historiografia tradicional ocidental afirma que o marco inicial do movi-
mento de Reconquista foi a vitória dos asturianos na batalha de Cavadonga, em
722. É fato que, após se refugiarem nas montanhas das Astúrias, os visigodos se
reorganizaram política, econômica e socialmente aos moldes do antigo reino
da Hispânia: recriaram a corte, copiaram o modelo administrativo, arquitetô-
nico e os códigos de leis visigóticos. Contudo, apesar da batalha de Cavadonga e
de outras mais que foram travadas contra os muçulmanos, o reino das Astúrias
representou, por mais de dois séculos, apenas um foco de resistência ao contro-
le muçulmano. A Reconquista só começa realmente depois do nascimento dos
reinos cristãos de Castela, Leão, Aragão, Navarra e do Reino de Portugal.

186 • capítulo 8
Figura 8.3  –  Península ibérica depois da conquista árabe-muçulmana.

Os reinos de Portugal e Leão nasceram da divisão do reino das Astúrias


entre a descendência do rei Afonso III. O reino de Castela era um condado do
reino de Leão que se tornou independente, e os reinos de Aragão e Navarra se
originaram na fronteira com o reino franco. Juntos, esses reinos deram origem
ao processo de Reconquista da Península Ibérica no século XI.
A primeira grande cidade tomada pelos reinos cristãos durante a
Reconquista foi Toledo, em 1085. Essa conquista foi importante porque se tor-
nou um símbolo do processo de Reconquista - Toledo era a antiga capital do
reino visigótico. Exatamente por ser um símbolo (para os dois lados), a tomada
de Toledo teve como consequência uma nova invasão na Península, dessa feita
promovida pelos muçulmanos Almorávidas – vindos do norte da África.
No momento deste processo de Reconquista, o discurso religioso foi o pro-
pulsor da invasão muçulmana. Os almorávidas eram muçulmanos que inter-
pretavam de maneira ortodoxa a religião islâmica e, por isso, a luta contra os
reinos cristãos transformou-se em uma luta religiosa, em uma espécie de Jihad.
Os almorávidas retomaram o controle sobre a maior parte dos territórios
reconquistados pelos cristãos. Do final do século XI até meados do século XII,
seu controle sobre a região não foi ameaçado, entretanto, disputas políticas di-
vidiram outra vez o território muçulmano em taifas, e outra vez o movimento de
Reconquista tomou folego. Mas, dessa vez com um ingrediente a mais: o apoio
de outros reinos da Europa ocidental.

capítulo 8 • 187
Figura 8.4  –  Mapa do processo de Reconquista da península Ibérica.

As Cruzadas do Oriente partiam de um discurso religioso relativamente


simples: a luta contra os “infiéis” era uma obrigação dos cristãos e que todos os
que participassem dessa Guerra Santa teriam seus pecados perdoados. Ora, a
luta pela Reconquista era uma luta contra os “infiéis” e isso fez vários nobres e
cavaleiros ocidentais, influenciados pelo discurso da Igreja Cristã, interpreta-
rem a luta dos reinos cristãos na Península Ibérica como uma forma de cruzada
contra os “infiéis”.
A Intervenção da Igreja e a ajuda dos outros potentados cristãos – a maioria
francos – fez o domínio muçulmano sobre os territórios da península diminuir
paulatinamente. Também aos poucos, o discurso cruzadista que se espalhou
pela Europa a partir do final do século XI, criou uma aura de guerra santa na
luta pela Reconquista e os reis católicos passaram a ser vistos como bastiões
da luta da cristandade ocidental contra os “infiéis”. Essa visão da Reconquista
como um movimento cruzadista pode ser percebido no discurso do Bispo de
Barcelona quando da tomada de Maiorca (1229):

“Este feito em que nosso senhor rei e vós estais, é obra de Deus, não nossa. Logo, de-
veis fazer esta conta: aqueles que neste feito receberem a morte, a receberão de Nosso
Senhor, e terão o Paraíso, onde terão a glória perdurável por todos os tempos; aqueles
que viverem terão honra e valor em suas vidas e bom fim em suas mortes. Assim, ba-
rões, confortai-vos com Deus, porque o rei, vosso senhor, nós e vós, desejamos destruir

188 • capítulo 8
aqueles que renegam o nome de Jesus Cristo. Todos os homens devem pensar, e
podem, que Deus e Sua Mãe não se separarão de nós hoje, pelo contrário, nos darão a
vitória”. (FRANCO JÚNIOR, 1990, p.161.)

8.2.2.1  A conquista de Granada e seus desdobramentos políticos


Por mais estranho que possa parecer, o movimento de Reconquista teve um pa-
pel importante no período das Grandes Navegações. O caráter divino dado a
luta dos reinos cristãos contra os muçulmanos influenciou de forma direta as
decisões papais.
Segundo Rucquoi (1995, p.215):

[...] O poder dos príncipes hispânicos vinha-lhes, sobretudo de uma missão divina, a da
reconquista da península aos infiéis para entregar à cristandade. Fosse em Aragão, em
Castela ou em Portugal e, indiretamente em Navarra, os reis eram justificados por essa
tarefa, e a extensão do seu território ás terras retomadas aos Muçulmanos constituía
apenas a prova da sua submissão a Deus e aos seus mandamentos.

A aura de santidade que pairava sobre os reis ibéricos foi um dos motivos
que levou a Igreja a publicar a Bula Ortodoxe Fidei (1483) conclamando os
cristãos a ajudarem os reis de Aragão e Castela a derrotar o último bastião mu-
çulmano em território ocidental, o reino de Granada. A Bula é clara quando
afirma que os cristãos que participassem das batalhas pelo reino de Granada
e contra os muçulmanos teriam como prêmio a vida eterna. Dez anos depois
da publicação da Bula Ortodoxe Fidei, o papado publicou a Bula Inter Coetera,
dividindo os territórios descobertos no continente americano entre espanhóis
e portugueses.
Enfim, a conquista Granada (1492) pois fim a quase 800 anos de domínio
muçulmano na Península Ibérica e encerrou a Reconquista, todavia, os desdo-
bramentos dessa luta puderam ser sentidos de forma indireta no período dos
descobrimentos, graças ao prestigio conseguido, pelos reinos ibéricos junto a
Sé romana.

capítulo 8 • 189
8.3  A chegada e vitória dos Otomanos

8.3.1  Origens Otomanas

A tribo turca que deu origem aos otomanos era mais uma dentre as várias que
invadiram à Anatólia a partir do início do século XIII. Essa região, que antes
pertencia ao Império Bizantino, passou a ser palco de disputas territoriais de-
pois que as tribos turcas formaram pequenos estados independentes.
No período das primeiras invasões, os cristãos conseguiram manter uma
certa estabilidade e expulsar os invasores, mas com o tempo, a capacidade mi-
litar bizantina foi sendo superada pelos turcos e a região da Anatólia, antes cul-
turalmente grega e cristã, tornou-se turca e muçulmana.

COMENTÁRIO
No momento em que acontecia a invasão das tribos turcas na região da Anatólia o Império
Bizantino se encontrava as voltas com as Cruzadas e depois em guerra com a República
de Veneza. Nesse sentido, os maiores problemas bizantinos encontravam-se no centro do
império, na própria cidade de Constantinopla e por isso suas posições territoriais foram ne-
gligenciadas por um tempo (foi suficiente para que as tribos turcas dominassem de vez a
Ásia Menor.)

O enfraquecimento da influência bizantina na região e a invasão em massa


de turcos desestruturou todo o território. Aproveitando-se disso os seljúcidas
criaram um estado mais ou menos estruturado, isto graças a migração de várias
tribos turcas – que fugiam dos mongóis quando da expansão do Império rumo
ao oeste do continente asiático.
No século XIII os mongóis chegaram à região da Anatólia e entraram em
confronto com os turcos seljúcidas. A vitória mongol desestruturou outra vez
a região e fez nascer pequenos estados turcos autônomos, dentre eles o estado
controlado por Osman I (1298-1326), fundador da tribo turco-otomana.
Desse momento em diante, a formação e a expansão do estado otomano
foi rápido. Em três séculos o Império Turco-otomano controlava a região do

190 • capítulo 8
Oriente Médio e do mar Mediterrâneo, o norte da África, uma parte da Europa
Oriental ainda possuía territórios na Ásia.
Essa expansão rápida pode ser explicada pela capacidade dos otomanos
de adaptarem-se a mudanças. A forma otomana de fazer política era flexível
e pragmática. Ao mesmo tempo em que agiam como soldados da fé em luta
contra os cristãos, eles contratavam cristãos ortodoxos para fazerem parte das
suas tropas. Esse pragmatismo fez cristãos aderirem a luta otomana em busca
de ganhos econômicos e muçulmanos se juntarem ao império por dinheiro ou
pela fé.
Segundo Quataert (2008, p.27) “o êxito obtido pelos otomanos na formação
de um Estado deveu-se sem dúvida à sua excepcional flexibilidade, à rapidez e a
uma pragmática capacidade de adaptação a condições variáveis”.
A expansão otomana pode ser contada de forma quase linear a partir das
guerras por territórios. Vejamos:
•  Em 1326 tomaram a cidade de Bursa, na Ásia Menor, quando se des-
locavam para a região dos Balcãs – a cidade foi a primeira capital do impé-
rio Otomano;
•  Em 1354 um terremoto destruiu a cidade de Gallipoli e os otomanos apro-
veitam-se desse fato para controlar a região que pertencia aos bizantinos (A to-
mada de Gallipoli é relevante, pois foi a partir dela que os otomanos invadiram
a Europa);
•  Em 1361 os otomanos conquistaram a cidade de Adrianópolis e transferi-
ram para lá a capital do Império em expansão;
•  Em 1389 os sérvios foram derrotados nos Balcãs;
•  Em 1430 os venezianos foram derrotados, e uma parte da região da
Macedônia, junto com sua principal cidade, Tessalônica, passou para o con-
trole turco;
•  “Em Nicópolis, no ano de 1396 e Varna (1444) [...] venceram poderosas co-
ligações de Estados da Europa Ocidental e Central, que tomavam [...] consciên-
cia do crescimento e do crescente perigo que [...] representavam.” (QUATAERT,
2008, p.27);
•  Em 1453 os turcos otomanos tomaram a cidade de Constantinopla e pu-
seram fim ao Império Bizantino.

capítulo 8 • 191
Figura 8.5  – 

A tomada de Constantinopla, além de todo o seu simbolismo, foi decisi-


va para a consolidação do Império Otomano, pois garantiu a expansão turca
para dentro do continente Europeu e o controle do comércio entre Ocidente e
Oriente pelo mar Mediterrâneo.

8.4  A dinâmica do poder no Mediterrâneo

A região do Mediterrâneo foi palco de disputas armadas desde a Antiguidade


clássica até a contemporaneidade. A localização geográfica estratégica – situa-
da entre os continentes europeu e asiático – e as riquezas que cruzam o Medi-
terrâneo foram e são motivos de cobiça de grandes potências.
No contexto medieval do Oriente isso não foi diferente. A localização geo-
gráfica estratégica e as riquezas que cruzavam o Mediterrâneo levaram as po-
tências da época a lutarem pelo controle dos territórios próximos a este mar.
Romanos, bizantinos, persas, árabes, venezianos, genoveses, turcos otomanos
e outras potencias foram os que travaram combates pelo controle de tal região.
Nos primeiros séculos da era cristã o controle estava nas mãos dos romanos.
Posteriormente, o Império Bizantino passou a liderar uma parte da região. O
Império Sassânida, nascido das cinzas do antigo Império Persa, foi outra gran-
de potência que controlava territórios e disputava o controle do Mediterrâneo.
Nos primeiros séculos do período medieval a luta entre o Império Romano e o
Império Sassânida tinha como pano de fundo a geopolítica regional e o nasci-
mento do Império Bizantino não mudou isso. O motivo das disputas que acon-
teciam na região continuou a ser pelo controle de territórios e do comércio.
Maomé e o advento do islamismo mudaram esse panorama inserindo um
ingrediente a mais: a religião. Se antes a disputa por territórios era o motivo das

192 • capítulo 8
guerras no Mediterrâneo, a ascensão do islã trouxe consigo a tônica na questão
também religiosa.

REFLEXÃO
O processo de expansão otomana rumo ao Ocidente foi longamente debatida pelos ociden-
tais, entretanto, essa expansão não aconteceu em uma frente única. O Império Otomano
também se expandiu rumo ao Oriente, conquistando territórios de outras tribos turcas e con-
trolando regiões que pertenciam a árabes e persas. Essa discussão não chega às salas de
aula porque a historiografia ocidental tende a ver a expansão otomana como uma cruzada
de fé, uma jihad, entretanto, esta expansão turca teve como fim a fundação de um Esta-
do Otomano.

A questão religiosa não era a única fonte que fomentava a eclosão de guerras
naquela conjuntura histórica, o interesse principal girava em torno da luta por
territórios, pelo controle de cidades ou rotas comerciais. A diferença era que
a religião do inimigo não podia ser mais esquecida ou negligenciada: cristia-
nismo e islamismo dicotomizavam o cenário das religiões que se professavam
pela maioria dos atores participantes das disputas pelo poder no Mediterrâneo,
sobretudo, a partir do século VII.
Desse momento em diante, a dinâmica de poder na região foi mudando de
acordo com a expansão do islamismo e das disputas internas pelo poder do
mundo árabe-mulçumano. Entre os séculos VII e VIII, a expansão do islamismo
alcançou grandes proporções, entretanto, os conflitos internos decorrentes do
embate entre sunitas e xiitas, acabava por provocar uma divisão no mundo islâ-
mico. Essa divisão político-religiosa redimensionou a luta pelo poder na região
do Mediterrâneo fazendo nascer novos atores políticos: os muçulmanos con-
vertidos ao islamismo que não possuíam origem árabe.
Os muçulmanos xiitas de origem persa, e os muçulmanos sunitas de origem
turca, passaram a dominar a cena política até o advento das Cruzadas modificar
outra vez a dinâmica de poder. A chegada dos ocidentais no Mediterrâneo reaque-
ceu as disputas em nome da fé. Depois do fim da expansão islâmica, o discurso re-
ligioso foi posto em segundo plano e as guerras voltaram a ser feitas pelo controle
de territórios, cidades ou rotas comerciais. As Cruzadas mudaram isso. A pregação
contra os “infiéis” e pela retomada da Terra Santa transformou o Mediterrâneo
em chamariz para cristãos pecadores que queriam fazer sua profissão de fé.
O movimento cruzadista trouxe consigo novos atores para as disputas de
poder: o papado e as cidades italianas. O papado, ao buscar firmar sua posição

capítulo 8 • 193
como o guia da Cristandade, açulou os reinos cristãos a lutar pelo controle do
Mediterrâneo e da Terra Santa, dando início dessa feita ao movimento cruzadista.
Os cruzados, por sua vez, trouxeram consigo para o centro do palco as cidades ita-
lianas a disputa pelo controle do comércio marítimo entre o Ocidente e o Oriente.
A partir do século XII, a dinâmica de poder no Mediterrâneo passará a girar
em torno desses diversos atores. Ainda outros grupos surgirão neste contexto –
como os mongóis que entram em cena de forma impactante, mas passageira -,
entretanto, os cristãos ocidentais, os bizantinos e os turcos continuaram como
os protagonistas até o fim do medievo oriental.

REFLEXÃO
A disputa pelo controle do acesso ao Oriente pelo mar Mediterrâneo na Idade Média demons-
tra a importância que a região possuía econômica e politicamente. Entretanto, este dado não
expressa a informação mais importante: que o Oriente no período medieval caracterizou-se
por riquezas, desenvolvimento científico e filosófico, sendo, portanto, equívoco chamá-lo de
período de “trevas”, como comumente se faz com o Ocidente na mesma temporalidade.
No período medieval, o Oriente foi o centro de poder e sinônimo de civilização e urbanidade.
Por este prima vemos o mundo árabe irradiando conhecimento científico; o Império Bizantino
expressando a memória viva do esplendor da Antiguidade Clássica e o Extremo Oriente era
sinônimo de especiarias e riquezas.
Guerras, epidemias, catástrofes ambientais, disputas dinásticas e religiosas foram aos pou-
cos diminuindo o dinamismo do Oriente até fazê-lo estagnar. Entretanto, seu legado influen-
ciou o Ocidente com certa presença cultural fazendo com que se experimentasse desenvol-
vimento econômico e cultural a partir do Mediterrâneo.

ATIVIDADES
01. A Reconquista foi um movimento nascido da Península Ibérica com o objetivo de ex-
pulsar os muçulmanos que haviam invadido a região no século VIII. A luta dos ibéricos foi
vista como uma cruzada: os reinos cristãos estavam em luta contra os “infiéis”. Sobre esse
momento histórico é possível afirmar:
I – A aura de santidade adquirida pelos reis católicos foi construída a partir do discur-
so cruzadista.
II – O apoio do papado e de outros reinos cristãos foram decisivos para a Reconquista,
entretanto, a falta de unidade política dos muçulmanos foi tão importante quanto.

194 • capítulo 8
III – O apoio da Igreja aos reis ibéricos durante o período da Reconquista fez nascer laços
políticos que influenciaram.
a) Somente as afirmações I e II estão corretas.
b) Somente as afirmações I e III estão corretas.
c) Somente as afirmações II e III estão corretas.
d) Todas estão corretas.
e) Todas estão incorretas.

02. Compreender a expansão otomana é necessário para a compreensão do caso do Impé-


rio Bizantino. Sobre esses dois fatos podemos afirmar:
I – A forma otomana de fazer política era flexível e pragmática e por isso a expansão
aconteceu de forma rápida.
II – A queda de Constantinopla representou o fim do Oriente medieval e fez nascer o
medievo ocidental
III – A tomada de Constantinopla, além de todo o seu simbolismo, foi decisiva para a
consolidação do Império Otomano, pois garantiu a expansão turca para dentro do continente
Europeu e o controle do comércio entre Ocidente e Oriente pelo mar Mediterrâneo.
a) Somente as afirmações I e II estão corretas.
b) Somente as afirmações I e III estão corretas.
c) Somente as afirmações II e III estão corretas.
d) Todas estão corretas.
e) Todas estão incorretas.

03. “Além de um movimento político de retomada territorial, a Reconquista foi imbuída do


ideal cruzadístico que se espalhou pela Europa durante o século XI, a partir da convocação
das Cruzadas por Urbano II no Concílio de Clermont em 1095, tornando-se uma missão di-
vina que passaria a guiar e justificar as ações dos reis cristãos ibéricos em suas campanhas
dirigidas contra os muçulmanos”. (MOCELIM, A; AUGUSTO, L. 2015, p.13)
O movimento de Reconquista representou um momento de guerra santa contra os “in-
fiéis” para uma parte da Europa ocidental. A partir desse princípio, construa um texto anali-
sando os motivos que fizeram o movimento de Reconquista da Península Ibérica ser compa-
rado com as Cruzadas do Oriente.

04. Analise a afirmação:


Leonardo Schiocchet, quando analisa o Oriente Médio e a Primavera Árabe diz:

Desde os tempos do Império Romano, do Império Bizantino e das Cruzadas, o imaginário europeu
sobre o Oriente era em grande medida definido como uma imagem especular invertida do Oci-
dente, que haveria de ser transformado (civilizado) através das conquistas imperiais europeias.
(2011, p11)

capítulo 8 • 195
Partindo da afirmação discuta as trocas culturais que existiram entre o Oriente e o Oci-
dente medieval, e aponte duas contribuições advindas do Oriente que foram importantes
para o desenvolvimento do Ocidente, explicando porque as contribuições apontadas foram
importantes para o desenvolvimento ocidental.

05.

[…] O rei dos rum (Bizantinos) fugiu sem ter combatido’, conta Ibn al-Athir, ‘e os franj (Cruzados)
instalaram seu jovem candidato no trono. Mas do poder ele tinha apenas vestígio, pois todas as
decisões eram tomadas pelos franj. Estes impuseram ao povo pesadíssimos tributos, e quando o
pagamento foi dado como impossível eles tomaram todo o ouro e as jóias, mesmo os que estavam
nas cruzes e nas imagens do Messias, a paz esteja com ele! Os rum então se revoltaram matando o
jovem monarca, depois, expulsando os franj da cidade, barricaram as portas. Como suas forças eram
reduzidas, despacharam um mensageiro a Suleiman, filho de Kilij Arslan, mestre de Ronya, para que
viesse em seu auxílio. Mas ele foi incapaz disso. Todos os rum foram mortos ou despojados’, relata o
historiador de Mossul. ‘Alguns de seus notáveis tentaram refugiar-se na grande igreja que chamavam
de Sofia, perseguidos pelos franj. Um grupo de padres e de monges saiu então, carregando cruzes
e evangelhos, para suplicar aos atacantes que lhes preservassem a vida, mas os franj não deram
nenhuma atenção às suas preces. Massacraram-nos a todos, depois saquearam a igreja (IBN AL-A-
THIR apud MAALOUF, 1988, p. 207).

A citação acima retrata o momento que a expedição da Quarta Cruzada invadiu e sa-
queou a cidade de Constantinopla. Milhares foram mortos, prédios foram destruídos e as
riquezas roubadas. Foi um dos maiores saques que aconteceram na história. Dito isso, faça
uma pesquisa e construa um texto explicando os possíveis motivos que levaram os cruza-
dos a invadiram a cidade de Constantinopla, enfatizando o papel desempenhado pela cida-
de Veneza.

RESUMO
Nesse último capitulo discutimos três acontecimentos emblemáticos do período medieval
que unem de forma direta e complexa Oriente e Ocidente. Discutimos também a relevância e
a importância que a região do Oriente Médio, mais especificamente do Mediterrâneo, possuía
nas relações entre ocidentais e orientais e os motivos que o faziam ainda palco de disputas.
Primeiro estudamos a Quarta Cruzada. Percebemos que a mesma nasceu de um discur-
so religioso que pregava a luta contra os “infiéis” muçulmanos e que se concretizou com a in-
vasão e pilhagem da cidade de Constantinopla, capital do Império Bizantino. Nesse momento

196 • capítulo 8
percebemos que o ideal cruzadista inspirado em questões religiosas, presente nas primeiras
Cruzadas, havia dado lugar a busca de riquezas pura e simplesmente.
Buscamos discutir também o movimento de Reconquista, e ao fazê-lo, analisamos o pa-
pel que o discurso cruzadista desempenhou na luta pela reconquista da Península Ibérica.
Nesse momento entendemos que o ideal cruzadista havia se entranhado de tal forma no ima-
ginário europeu que a campanha dos reinos ibéricos contra os “infiéis” muçulmanos passou
a ser visto e divulgado como uma “guerra santa”.
Analisamos a expansão turco-otomana e entendemos que apesar de um discurso religio-
so da jihad ter sido usado pelos otomanos, o objetivo da expansão não era fazer uma Cruzada
com os cristão, entendemos que o objetivo otomano era a construção de um estado turco,
como resultado desta intenção, viu-se uma expansão multidimensional: Europa a oeste, Áfri-
ca ao sul e Ásia e leste.
Por último, analisamos a dinâmica de poder que existia no Oriente Médio do período da
Idade Média Oriental, percebendo o revezamento dos diversos atores políticos que contro-
laram, cada um a seu tempo, o poder no Mediterrâneo e por fim, fizemos uma breve analise
da importância da região indicando possíveis indícios que influenciaram o desenvolvimento
do Ocidente Moderno.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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capítulo 8 • 197
NOGUEIRA, Carlos Roberto. A Reconquista Ibérica: a construção de uma ideologia. Disponível em:
<http://institucional.us.es/revistas/historia/28/09%20f%20nogueira.pdf>. Acesso em: 30 de maio
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MOCELIM, A; AUGUSTO, L. A Reconquista Cristã: uma missão divina na Península Ibérica (VIII-XV).
Rev. História Helikon, Curitiba, v.2, n.4, p.123-137, 2º semestre/2015
QUATAERT, Donald. O Império Otomano. Das origens ao século XX. Lisboa: Edições 70, 2008.
RUNCIMAN, Steven. História das Cruzadas. Rio de Janeiro: Imago Ed. 2003, Vol. 1
RUNCIMAN, Steven. História das Cruzadas. Rio de Janeiro: Imago Ed. 2003, Vol. 2
RUNCIMAN, Steven. História das Cruzadas. Rio de Janeiro: Imago Ed. 2003, Vol. 3
SOUZA, Guilherme Queiroz de. Da Reconquista hispânica à conquista do novo mundo: uma análise
do espírito cruzadístico ibérico na crux cismarina e na crux ultramarina. Anais da Jornada de estudos
Antigos e Medievais. Disponível em: <http://www.ppe.uem.br/jeam/anais/2011/pdf/comun/03058.
pdf>. Acesso em: 08 de junho de 2016.

GABARITO
Capítulo 1

01. D 02. A 03. C 04. C


05.
a) O início do Império Romano.
b) O Estado romano era autocrático, ou seja, o Imperador era a autoridade máxima.
Augusto conseguiu esse poder criando a política do “pão e circo” para distrair a
população de Roma e conter possíveis revoltas na plebe, ampliando os ganhos dos
militares, principalmente com a distribuição de terras nas áreas conquistadas, dando
início a chamada “pax romana” e tornado os povos conquistados cidadãos de Roma.

Capítulo 2

01.
a) No campo da religião, o cristianismo, oficializado no Império Romano pelo imperador
Teodósio, em 391, através do Edito de Tessalônica, sobreviveu à queda de Roma
e consolidou-se como religião dominante na Europa medieval, sobretudo devido à
conversão dos povos bárbaros. O cristianismo constituiu-se como um dos elemen-
tos de unidade cultural da Europa medieval.

198 • capítulo 8
b) No campo da língua, o latim sobreviveu como língua oficial da Igreja e idioma culto,
mesmo deixando de ser idioma corrente, pois na Idade Média conviveu com os
idiomas germânicos.
02. O aluno deve fazer uma análise dando enfoque para à contribuição do código de Justi-
niano para o Direito Moderno.

Capítulo 3
01. A. Como o cristianismo e o judaísmo, o islamismo é também uma religião monoteísta, o
que desagradava e contrariava as crenças praticadas na região de difusão do islamismo, já
que anteriormente havia a prática de religiões politeístas.
02. D. A questão refere-se ao processo de unificação islâmica sob a liderança do profeta
Maomé, e não sobre o processo de expansão, que veio logo depois.
03. C. A Hégira foi um dos mais importantes elementos da crença muçulmana, na medida
em que tal retirada foi essencial para que Maomé organizasse as forças e os seguidores
que lhe garantiriam o controle religioso da cidade de Meca. Mediante esse triunfo, Maomé
conseguiu disseminar o islamismo por toda a Península Arábica.
04. Os pilares da doutrina islâmica, associados a decência dos impérios persa e bizantino,
contribuíram para a expansão dos árabes. Além disso, devemos levar em conta os interesses
econômicos dos mercadores árabes, que foram essenciais no processo de expansão islâmi-
ca pelo mediterrâneo. O contato com os europeus resultou no aparecimento, na região da
Península Ibérica, de uma cultura híbrida, responsável pelo desenvolvimento de várias áreas
do saber.

Capítulo 4
01.
a) O aluno deve fazer a pesquisa enfatizando a disputa pelo poder dentro do califado
Abássida e, como essa disputa fez nascer dissidências que influenciaram o império
islâmico a partir do século XIII.
b) O aluno deve diferenciar as duas correntes enfatizando a discussão sobre a inter-
pretação dos textos sagrados do islã.
02. D 03. D

Capítulo 5
01. O aluno deve fazer uma pesquisa enfatizando a visão machista da sociedade indiana.
Deve ressaltar que a mulher, mesmo nos dias atuais, ainda é tratada de forma inferiorizada
na sociedade indiana, apesar de o governo da Índia negar a diferenciação social.

capítulo 8 • 199
02. O aluno deve enfatizar a importância da reabertura das rotas comerciais terrestres para
o comércio entre Oriente e Ocidente
03. O aluno deve discutir a função pública desempenhada pelo mandarim e sua importância
da estrutura administrativa do império chinês.
04. D 05. A

Capítulo 6
01. D 02. A
03. Além de explicar a origem do movimento herético, o aluno deve enfatizar a importância
que a seita teve durante as disputas internas pelo poder no reino da Bulgária.
04. O aluno deve pesquisar os conflitos armados que existiram naquela região e também
dissertar sobre os conflitos étnicos que dividem países e geram conflitos intermitentes
na região.

Capítulo 7
01. A 02. C 03. A
04. O aluno deve fazer uma pesquisa que demonstre o papel que Saladino teve nas Cru-
zadas e como sua conduta durante as batalhas foram vistas como exemplo de diplomacia,
dignidade e respeito pelo inimigo.
05. O aluno deve demonstrar no texto que a luta que fala da Jihad medieval está mais ligada
a conversão ao islamismo do que a luta armada contra os não muçulmanos.

Capítulo 8
01. D 02. B
03. O aluno deve fazer uma análise discutindo o papel do discurso religioso nos dois
processos. Além disso, deve destacar o papel do papado no processo de construção do
ideal cruzadista.
04. O aluno deve fazer uma análise comparativa demonstrando a importância do legado do
Oriente medieval para a Europa Renascentista.
05. O aluno deve discutir no texto as motivações as disputas comerciais levaram ao saque
da cidade de Constantinopla.

200 • capítulo 8