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ISSN: 2525-5266

BOLETIM DE CONJUNTURA
NERINT

volume 1 | número 4 | janeiro 2017


BOLETIM DE CONJUNTURA
NERINT
FOCO E ESCOPO FOCUS AND SCOPE

As Relações Intrernacionais têm conhecido notável aceleração nos The field of International Relations has experienced remarkable
anos e, inclusive, meses mais recentes. Acontecimentos impactantes accelaration in the recent years and even months. Impactful events
estão se sucedendo já a um ritmo semanal. Assim, as pesquisas are occurring in a weekly rhythm. Thus, long-term research carried out
de longo prazo desenvolvidas no NERINT (Núcleo Brasileiro de by NERINT (Brazilian Center of Strategy and International Relations)
Estratégia e Relações Internacionais) passaram a necessitar now requiers qulified and short-term analysis that can properly fit
de uma análise qualificada de curto prazo que se enquadre em its lines of research. With that in mind, we decided to publish a
suas linhas de pesquisa. Deste modo, damos início à publicação periodic Conjuncture Bulletin covering, successively, the topics of
do Boletim de Conjuntura, que abrangerá, sucessivamente, os Asia and the Middle East, Brazil (and its strategic surroundings) and
temas de Ásia e Oriente Médio, Brasil (e seu entorno estratégico) e the World System. It will be published every two months by graduate
Sistema Mundo. O boletim será publicado bimestralmente, estando and undergraduate students and researchers of NERINT, under the
a cargo dos pós-graduandos e pesquisadores de IC do NERINT, sob supervision of its professors. The conjuncture analysis, rather than
supervisão de seus professores. A análise de conjuntura, mais do a journalistic assessment of the facts, can be a valuable tool for
que uma apreciação jornalística dos fatos, pode ser um elemento monitoring NERINT’s on-going research, contributing to confirm or
valioso para acompanhamento das pesquisas permanentes do reject certain hypothesis. Therefore , NERINT seeks to contribute to
Núcleo, contribuindo para confirmar ou rejeitar certas hipóteses. the qualification of international studies in Brazil.
Assim, o NERINT busca contribuir para a qualificação dos estudos
internacionais no Brasil.

EDITOR/Editor
Paulo Visentini (Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil)
CONSELHO EDITORIAL/Editorial Board
Analucia Danilevicz Pereira (Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil)
Carlos Schmidt Arturi (Universidade Federal do Rio Grande Sul, Brasil)
Chirs Landsberg (University of Johannesburg, South Africa)
Eduardo Migon (Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, Brasil)
Érico Esteves Duarte (Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil)
Fabio Morosini (Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil)
Gladys Lechini (Universidad Nacional de Rosario, Argentina)
Immanuel Wallerstein (Yale University, United States of America)
José Miguel Quedi Martins (Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil)
Marcelo Milan (Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil)
Marco Cepik (Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil)
Ruchita Beri (Institute for Defence Studies and Analysis, India)
EDITOR ASSISTENTE/Assistant Editor
Guilherme Thudium (Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil)
ASSISTENTE DE EDIÇÃO/Edition Assistant
Maria Gabriela Vieira (Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil)
CAPA E LAYOUT/Covering and Layout
Marcela Quintela Trujillo
CONTATO/Contact:
CONTATO/Contact
Universidade Federal do Rio Grande do Sul - Faculdade de Ciências Econômicas
Núcleo Brasileiro de Estratégia e Relações Internacionais
Av. João Pessoa, 52, sala 12A - Mezanino - CEP 90040-000 - Centro - Porto Alegre/RS - Brasil
Tel:+55 51 3308-315
e-mail: nerint@ufrgs.br

Bol. Conj. Nerint Porto Alegre v.1 n.4 p. 1-91 jan/2017


EDITORIAL: TRUMP & PUTIN

A vitória eleitoral do candidato Republicano Donald Trump surpreendeu aqueles que estavam acostumados
a pensar o sistema internacional como um mecanismo consolidado e estável. Durante a campanha, chamou
atenção como os grandes atores políticos, inclusive do statu quo, atacaram Trump, assim, apoiando sua adversária.
Mas a vitória de Trump não deveria surpreender tanto, na medida em que nos últimos anos vêm se acumulando
tensões, contradições e problemas não resolvidos em todos os campos. É possível que sua agenda anti-Obama
seja mitigada ou que seu governo sofra percalços que o obriguem a mudar de rumo. Mas a Casa Branca agora
muito se parece com a que surgiu após a Primeira Guerra Mundial e durou até 1933.
Um dos elementos desse debate foi a suposta “cartada russa” do “amigo Putin”, que teria a capacidade
de definir uma eleição dos Estados Unidos. Para os grandes especialistas, entretanto, a política do Kremlin é
cautelosa e etapista, dada as debilidades do país, especialmente com as atuais sanções econômico-diplomáticas.
Assim, mais do que qualquer coisa, a russofobia ou Putinfobia, revelam os elementos intrínsecos à política das
grandes potências Ocidentais: a crise interna das nações e os difíceis realinhamentos diplomático-militares.
Apenas frente a uma Rússia ameaçadora se lograria enfrentar tais dificuldades.
A política externa brasileira da gestão Michel Temer-José Serra, por sua vez, teve um brevíssimo período
de afirmação por oposição ao discurso da anterior, mas logo teve que fazer frente a problemas reais e urgentes,
especialmente no campo econômico. Os elementos de crise doméstica e internacional só têm se agravado.
E a ascensão de Donald Trump apenas complicou a situação, havendo a necessidade de reformular a linha
diplomática, que já demonstra sua preocupação com determinadas medidas da Casa Branca. Se é verdade
que os Republicanos são predominantemente bilateralistas, a política externa brasileira se encontra num vácuo
conjuntural, porque ninguém sabe exatamente qual será a postura de Trump em relação a países como o Brasil.
Da mesma forma, o processo de pacificação na Colômbia, o relativo arrefecimento da crise venezuelana e a
normalização das relações EUA-Cuba podem estar ameaçados. O caso mexicano é quase um problema de política
interna norte-americana. Mas o triângulo Cuba-Colômbia-Venezuela pode ser um determinante para a formação
de uma política latino-americana pelos Estados Unidos. Ela poderá tender a buscar reverter as tendências atuais,
ou pode vir a distanciar-se das complicações latino-americanas. Mais do que nunca, as análises de conjuntura
precisam estar afinadas com a realidade.

***
Agradecemos aos Pesquisadores Assistentes do Núcleo Brasileiro de Estratégia e Relações Internacionais, em
particular ao Editor Assistente Guilherme Thudium, à Assistente de Edição Maria Gabriela Vieira e à designer Marcela
Quintela Trujillo. Agradecemos também a participação dos Pesquisadores do NERINT Marcelo Milan e Sonia Ranincheski,
e da Pesquisadora Associada Cristina Soreanu Pecequilo, pela colaboração e orientação temática dos artigos desta quarta
edição.

Paulo Fagundes Visentini


Coordenador1

1 Editor, Professor Titular de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Coordenador do Núcleo Brasileiro de
Estratégia e Relações Internacionais (NERINT) e Pesquisador do CNPq.

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EDITOR’S NOTE: TRUMP & PUTIN

The election of Republican candidate Donald Trump to the United States presidency surprised those who
were accustomed to think the international system as a consolidated and stable mechanism. During the campaign,
it was interesting to note the main political figures, including the status quo, attack Trump, thus, supporting his
adversary. But Trump’s victory should not be so surprising, as tensions, contradictions, and unresolved issues have
accumulated in recent years. It is possible that his anti-Obama agenda will be mitigated or that his government
will suffer setbacks that force him to change course. But the White House now very much resembles the one after
World War I, which lasted until 1933.
One of the elements of this debate was the so-called „Russian card” by the „friend Putin,” who could
supposedly be able to define the election in the United States. For some experts, however, Kremlin has a cautious
and well calculated foreign policy given the weaknesses of the country, especially with the current economic and
diplomatic sanctions. So, more than anything, Russophobia or Putinphobia, as addressed here, reveal intrinsic
elements of great Western powers politics: their internal national crises and the difficult diplomatic and military
realignments. It was only in the face of a threatening Russia that such difficulties could be dealt with.
The Brazilian foreign policy of the Michel Temer-José Serra administration, by its turn, had a very brief
period of affirmation by opposing the previous government’s diplomacy, but soon had to face real and urgent
problems, especially in the economic field. The domestic and international crisis have only worsened, and the rise
of Donald Trump only complicated the situation. There is a need to reformulate the new foreign policy approach,
which already demonstrates concerns with certain measures by the White House. If it is true that the Republicans
have a predominantly bilateral approach to international relations, Brazilian foreign policy finds itself in a temporary
vacuum, because no one knows exactly what Trump’s stance will be towards Brazil and South America.
In this sense, the pacification process in Colombia, the relative cooling of the Venezuelan crisis and the
normalization of US-Cuba relations may be threatened. The Mexican case is almost a domestic US policy problem.
But the triangle Cuba-Colombia-Venezuela can be a determinant for the formation of a Latin American policy by the
United States. Washington may want to reverse current trends, or even refrain from Latin American complications.
More than ever, conjuncture analysis need to be in tune with the reality.

***
We thank the Research Assistants of the Brazilian Center of Strategy & International Relations (NERINT), in particular
Assistant Editor Guilherme Thudium, Edition Assistant Maria Gabriela Vieira and the designer Marcela Quintela Trujillo. We
also thank the participation of the Researchers Marcelo Milan and Sonia Ranincheski, and Associate Researcher Cristina
Soreanu Pecequilo, for the collaboration and thematic orientation of the articles in this fourth edition.

Paulo Fagundes Visentini


Coordinator1

1 Editor, Full Professor of International Relations at the Federal University of Rio Grande do Sul (UFRGS), Coordinator of the Brazilian Center of Stra-
tegy and International Relations (NERINT) and Researcher for CNPq.

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SUMÁRIO

A Ascensão de Donald Trump: perspectivas para a política externa e de


segurança dos Estados Unidos
07
Guilherme Thudium e João Paulo Alves
Com a colaboração de Cristina Soreanu Pecequilo

A Russofobia Contemporânea: quem tem medo de Moscou?


Douglas de Quadros Rocha e Francine Juchem Salerno 19
Com a colaboração de Paulo Fagundes Visentini

A Política Externa Brasileira de Temer-Serra: retração política e


subordinação econômica
30
Raul Cavedon Nunes e Vitória Gonzalez Rodriguez
Com a colaboração de Marcelo Milan

Colômbia, Cuba e Venezuela: importância do triângulo para a


estabilidade latino-americana
41
Diego Luís Bortoli e Katiele Rezer Menger
Com a colaboração de Sonia Ranincheski

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SUMMARY

The Rise of Donald Trump: perspectives for the United States’ foreign
and security policies
51
Guilherme Thudium and João Paulo Alves
With the colboration of Cristina Soreanu Pecequilo

The Contemporary Russophobia: who is afraid of Moscow?


Douglas de Quadros Rocha and Francine Juchem Salerno 62
With the colaboration of Paulo Fagundes Visentini

The Brazilian Foreign Policy of the Temer-Serra administration:


political retraction and economic subordination
72
Raul Cavedon Nunes and Vitória Gonzalez Rodriguez
With the colaboration of Marcelo Milan

Colombia, Cuba, and Venezuela: importance of the triangle for


Latin American stability
82
Diego Luís Bortoli and Katiele Rezer Menger
With the colaboration of Sonia Ranincheski

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A ascensão de Donald Trump: perspectivas para a política externa e de
segurança dos Estados Unidos *
Guilherme Thudium1 e João Paulo Alves2

• Após uma polêmica campanha eleitoral, Donald Trump ascendeu à Presidência dos
Estados Unidos da América prometendo desenvolver novas diretrizes diplomáticas para o país.
• As perspectivas levantadas para a administração Trump apontam para uma retomada do
nacionalismo e do unilateralismo na esfera internacional, bem como de um relativo isolacionismo.
• As relações bilaterais com a China prometem passar por um processo de deterioração
econômico-diplomático, porém uma “guerra comercial” seria contraproducente para ambos os
países.

Apresentação

No dia 20 de Janeiro de 2017, Donald J. eleitoral iniciada em Junho de 2015. A seguir,


Trump tomou posse como 45º Presidente dos cientes da dificuldade de se fazer projeções de
Estados Unidos da América (EUA). O bilionário curto prazo no cenário atual e da característica por
do mercado imobiliário de Nova Iorque, que vezes demagógica e, portanto, de difícil predição
nunca assumira um cargo público até então, da nova administração, buscamos apontar as
venceu a candidata do Partido Democrata, Hillary principais linhas que podem vir a ser adotadas em
Clinton, como sucessor do presidente Barack política externa e de segurança. Ao mesmo tempo,
Obama (2009/2016). Para fazer uma análise utilizamos análises recentes de consolidados
das possíveis vertentes diplomáticas do governo acadêmicos de relações internacionais, muitos
Trump, mostra-se necessário olhar brevemente deles americanos, para este fim.
para a singular trajetória que o levou a ocupar o
mais alto cargo da única superpotência do sistema
Assume-se, como hipótese, que as possíveis
mundial contemporâneo. abordagens da nova política externa da
administração Trump buscam redefinir o papel
Em um primeiro momento, nesse prisma, buscamos dos EUA no sistema mundial em transformação,
traçar um panorama da trajetória de Trump à e trazem consigo inevitáveis consequências para
presidência dos EUA, abordando a campanha outras grandes potências do sistema. Antes das

1 Mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), na
linha de pesquisa “Política Internacional e Defesa”. Pesquisador Assistente do Núcleo Brasileiro de Estratégia e Relações Internacionais
(NERINT). Contato: guilherme.thudium@ufrgs.br

2 Graduando em Relações Internacionais pela UFRGS em mobilidade acadêmica na University of Texas at Austin. Pesquisador
Assistente do NERINT. Contato: joaop.ma22@gmail.com
* Com colaboração de Cristina Soreanu Pecequilo, Doutora em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP) e Pesquisadora
Associada do NERINT.
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considerações finais, nesse sentido, o artigo reality show” (Pecequilo 2016a). Trump sintetizou
apresenta perspectivas para as relações bilaterais a imagem de um outsider – assim como Bernie
com a China, atentando para as dimensões Sanders, adversário de Hillary Clinton nas primárias
econômica, política e securitária envolvidas. do Partido Democrata, porém ideologicamente
dessemelhante – que levará ordem e prosperidade
A ascensão de Trump à Washington, gerindo o país como uma empresa
(Pecequilo 2016a).
Analisando a eleição de Donald Trump, o
atual presidente é o primeiro na história dos EUA As eleições de 2016 foram marcadas por disputas
a chegar à Casa Branca sem qualquer experiência polarizadas e visões divergentes sobre os EUA e
política ou serviço militar anterior. Trump foi o 19º o seu papel no sistema mundial pós-Guerra Fria.
Presidente eleito pelo Partido Republicano, porém Ainda que o país se encontre em um processo
deixou claro desde o início da sua campanha de recuperação econômica, deixando para trás
que suas visões políticas, sejam elas domésticas a recessão de 2007/2008, os pré-candidatos de
ou externas, não necessariamente se alinham ambos partidos – à exceção de Hillary Clinton,
às vertentes ideológicas majoritárias entre que defendia a continuidade do legado de Barack
republicanos. Obama – majoritariamente apontaram a existência
de um país em profunda crise econômica, política
Muito por essa razão, Trump teve de superar não e estratégica (Pecequilo 2016a). E, embora já
só a agenda democrata, como também, de certa exista uma ofensiva que coloca em xeque as
forma, a própria doutrina política republicana. Ted previsões de declínio da hegemonia americana,
Cruz, Senador pelo estado do Texas e principal com medidas de contenção de nações como
adversário nas primárias, se recusou a apoiá- China, Rússia, Brasil e Índia (Pecequilo 2016a),
lo, mesmo depois de derrotado. Movimentos os próprios slogans dos candidatos refletiram
como “Never Trump” (ou Stop Trump Movement), essa tendência reativa: Make America Great Again
organizados durante as primárias por figuras (Trump), ou A New American Century (Rubio),
políticas republicanas, incluindo o ex-candidato por exemplo, podem ser vistos, por si só, como
à presidência em 2012, Mitt Romney, e demais manifestações hegemônicas e de política externa.
organizações conservadoras, evidenciam a forte
divisão que prevaleceu. O pleito eleitoral que levou É inegável, contudo, que os EUA possuem problemas
os republicanos à presidência foi, ainda, marcado sociais e econômicos. Assim, Trump concentrou
por fortes divergências com o Presidente da seu discurso para atingir o eleitorado trabalhador
Câmara dos Representantes, uma das principais de classe média, prometendo trazer empregos de
lideranças do Partido Republicano, Paul Ryan. volta e mobilizando uma fatia negligenciada do
eleitorado, empurrando sua agenda para o topo
Trump, dessa forma, construiu sua campanha das prioridades do país (Fukuyama 2016). Ao
apoiado em uma retórica extremamente crítica fazer isso, apontou problemas reais: a crescente
ao establishment, incluindo o seu partido. O atual desigualdade, que atingiu em cheio a antiga classe
presidente sempre fez questão de se manter à média, e a captura do sistema político por grupos
margem da política ‘tradicional’, “e comporta-se, de interesse organizados para este fim (Fukuyama
desde que se tornou pré-candidato, como em um 2016), além da questão da violência, do crime e

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das drogas – o que Trump chegou a denunciar militar, com o objetivo de reduzir os déficits e
como uma “carnificina em andamento” no país. desonerar o crescimento econômico do país.

Nos últimos 20 anos, os EUA experimentaram Em 1987, Trump desembolsou US$ 100,000
uma maciça desindustrialização, com a evasão para publicar um comentário de página inteira
de ativos e capitais para o México e para a China. em três dos principais jornais dos EUA – New York
Fora isso, a crescente automatização da indústria, Times, Washington Post e Boston Globe – no qual
que acompanha os experimentos asiáticos nesse já sintetizava suas principais críticas à política
campo, e as políticas ambientais de Barack Obama, externa e de defesa estadunidense (Wright
principalmente em seu segundo mandato, traçam 2016a). Nota-se que, ao contrário do que se possa
um cenário no qual será extremamente difícil para presumir, algumas posições de Trump não são
Trump manter suas promessas para a economia novas ou efêmeras – e o mesmo pode ser dito das
e redução do desemprego. Em política externa, suas aspirações à presidência. No mesmo ano de
apesar do discurso aparentemente retrativo, Trump 1987, Trump cogitou concorrer com George H. W.
defende a retomada do protagonismo das forças Bush pela candidatura republicana nas eleições
armadas. Tal disposição, contudo, se somada de 1988, e, em 1999, Trump foi persuadido
às políticas de redução tributária que pretende pelo governador de Minnesota, Jesse Ventura, a
implementar, pode acarretar mais problemas concorrer pelo Partido Reformista dos EUA nas
econômicos, como aumento da inflação. eleições de 2000, naquela que foi a sua primeira
campanha presidencial oficial. Trump, todavia,
Políticos e jornalistas, todavia, criticam Trump quase retirou sua candidatura no dia 14 de Fevereiro de
que unicamente em função de sua personalidade, 2000, criticando a falta de coesão ideológica do
e acabam cometendo o erro de desacreditar partido.
qualquer profundidade e consistência ao seu
discurso, principalmente sobre política externa. A Dentre todas as opiniões controversas do
gênese da política externa do novo presidente está bilionário no curso da campanha eleitoral de
baseada em uma crítica às diretrizes de defesa e 2016, entretanto, algumas das mais polêmicas
projeção tomadas pelos EUA desde o epílogo da ficam por conta das restrições migratórias que
Guerra Fria, bem como na noção de uma “América pretende implementar. O presidente americano
enfraquecida” no plano internacional, tema já planeja construir uma muralha na fronteira
há muito explorado pelos neoconservadores com o México – cujo custo pretende impor ao
norte-americanos e um discurso corrente desde governo mexicano –, principal parceiro econômico
a campanha presidencial de George W. Bush em dos EUA. Trump também sinalizou que irá
2000. Trump argumenta que muitos países aliados proibir, por tempo indeterminado, a entrada de
aos EUA estão há décadas se aproveitando da muçulmanos no país3. Tal disposição encontra
liderança norte-americana, que gasta bilhões de escopo em políticas promovidas por fundações
dólares para proteger navios que não são seus e e think tanks norte-americanos, como o Center
transportar recursos que não necessita a aliados for Security Policy, liderado pelo ex-oficial de
que não retribuem esses esforços. Ele defende defesa da administração Reagan, Frank Gaffney,
a imposição de uma espécie de ‘imposto global’ apontado como membro da equipe de transição
às nações ricas que se aproveitam da presença do governo Trump. De acordo com a politóloga

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Cristina Pecequilo (2016a), “Trump externaliza os e ‘reconstruindo nações (nation-building)’”
problemas do país, não culpando só os políticos, (Mearsheimer 2016). Igualmente, debates sobre
mas também os imigrantes, os terroristas, os se os EUA devem ou não fazer uso do seu poder
mexicanos e os chineses”. para intervir e modelar eventos ao redor do globo
“já são eternos na história americana” (Kaplan
A eleição presidencial de 2016 foi realizada no dia 2017). Trump, nessa lógica, desafia os próprios
8 de Novembro, uma terça-feira, como preconiza a pilares da poderosa comunidade de política
legislação eleitoral americana desde 1845. Contra externa norte-americana, prometendo desenvolver
todas as previsões e pesquisas que apontavam a novas diretrizes diplomáticas (Mearsheimer
vitória de Hillary Clinton – Moody’s (CNN 2016a), 2016). O recém-empossado presidente critica os
Nate Silver (FiveThirtyEight 2016), The New York gastos e os esforços demandados pela política
Times (2016) etc. –, Donald Trump venceu na de policial do mundo (world policeman), bem
maioria dos principais estados que compõem como seus efeitos colaterais, algo já reconhecido
o colégio eleitoral americano, totalizando 304 pelo ex-Presidente Barack Obama em seu último
delegados contra 227 de Hillary Clinton. Clinton, Discurso sobre o Estado da União, em 2016.
todavia, ganharia a eleição pelo voto popular, Para Mearsheimer (2016), a hegemonia liberal é
totalizando 65 844 610 votos contra 62 979 636 uma “estratégia falida”, e Trump pode deixar um
de Trump. A margem de diferença, que passa de legado positivo em termos de política externa caso
2.8 milhões, é a maior da história do país – Donald adote uma abordagem realista para as relações
Trump perdeu, em número de votos, pela maior internacionais do país.
margem que qualquer presidente dos Estados
Unidos da América (The Independent 2016). Muito se falou que a presidência de Trump pode
ser marcada por práticas isolacionistas. Seu
A inauguração de Donald Trump como 45º discurso America First, no entanto, sugere uma
Presidente dos EUA ocorreu no dia 20 de abordagem nacionalista, que busca promover
Janeiro de 2017, e pouco após a posse já os interesses da nação que se encontram
iniciou a implementação de sua política de ameaçados, ao mesmo tempo em que restringe
“América em primeiro lugar” (America First), práticas intervencionistas a uma abordagem
seja domesticamente ou em política externa. A isolacionista, no sentido histórico do termo (Kaspi
seguir, buscaremos traçar algumas perspectivas e Tolouse 2016). Para Robert Kaplan (2017), uma
e tendências que apontam para a retomada do política exageradamente intervencionista é “tão
nacionalismo e do unilateralismo durante seu absurda quanto uma isolacionista no século XXI”.
mandato presidencial. Os EUA, nesse sentido, possuem uma necessidade
histórica de projetar seu poder e não devem se
Perspectivas para a política externa e de abster das responsabilidades globais que detêm
segurança na qualidade de potência marítima (Kaplan 2017).
As visões políticas de Trump já foram comparadas
Nos últimos vinte e cinco anos, os EUA inclusive às posições políticas protecionistas e
praticaram uma política externa e de segurança mercantilistas utilizadas no século XIX nos EUA
fundamentada na hegemonia liberal e na (Wright 2016a); para André Kaspi (2016), porém,
promoção da democracia, “derrubando regimes “Trump é, basicamente, um pragmático que pouco

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se importa com reflexões doutrinárias”. organização das estruturas de segurança nacional
do país (Boot 2017).
Como forma de melhor entender o caráter
ideológico e as linhas diplomáticas que podem ser Além disso, estas escolhas dão margem para uma
adotadas no decorrer da administração Trump, série de disputas políticas em sua administração
examinaremos brevemente a seguir os principais em termos de política externa. O governo Trump,
nomes escolhidos para chefiar as pastas de argumenta-se, tomará forma a partir de duas
política externa, segurança e defesa. perspectivas em ascendente – a versão de Trump
de America First; e aqueles que ainda querem
Durante toda sua campanha, Trump entrou travar uma guerra total contra o islamismo radical
em choque com as agências de inteligência e (Wright 2016b). Para Thomas Wright (2016b),
segurança, especialmente a CIA, criando uma enquanto que o discurso pragmático e de traço
situação de descrédito nessas e em outras ‘neoisolacionista’ de Trump, compactuado pelo
instituições que Fukuyama (2016) atribui como Secretário de Estado Rex Tillerson, defende o
um dos principais sintomas do declínio da política revisionismo de acordos comerciais e alianças
americana. A candidatura de Trump, contudo, teve securitárias, o grupo comandado por Michael
respaldo de nomes de peso de outra importante Flynn vê na administração Trump um meio de
agência de inteligência dos EUA, a DIA (Defense voltar a expandir a atuação americana na Guerra
Intelligence Agency), especializada em defesa ao Terror. Também defende a reestruturação e o
e inteligência militar. Michael Flynn, general aumento das capacidades nucleares, sinalizando
aposentado que serviu como Diretor da DIA entre para uma nova corrida armamentista.
2012 e 2014, chegou a ser cogitado, inclusive,
como seu possível vice-presidente. Trump acabou A escolha de Tillerson como Secretário de Estado,
optando pelo Governador do estado de Indiana, por sua vez, foi duramente criticada em função da
Mike Pence, e apontando Flynn como Assessor de relação próxima que o executivo e suas empresas
Segurança Nacional. mantêm com a Rússia, o segundo maior país
produtor de petróleo do mundo, e com o próprio
Como forma de reforçar ainda mais o elo com as presidente Vladimir Putin. Em 2013, Tillerson foi
forças armadas, nomeou o general aposentado homenageado por Putin com a Ordem de Amizade
linha-dura do Corpo de Fuzileiros Navais dos da Federação Russa, reforçando os laços entre o
EUA, Jim Mattis, como Secretário de Defesa, empresário e Moscou.
bem como o ex-militar e deputado republicano
membro do Tea Party, Mike Pompeo, para chefiar Trump parece não partilhar da automática
a CIA. Para o principal cargo de política externa, indisposição ocidental para com o país russo e
Trump escolheu Rex Tillerson, empresário e sua assertiva política externa, o que incomoda
diretor executivo da multinacional americana de estrategistas em Washington. Uma relação
petróleo e gás, ExxonMobil. Trump foi criticado diplomática menos conflituosa, no entanto, pode
por analistas e republicanos que argumentam que ser benéfica para, por exemplo, que se chegue a um
estes nomes não preenchem de forma capacitada acordo sobre o conflito sírio, o que não foi possível
os importantes cargos que devem ser nomeados durante o segundo mandato do governo Obama.
pelo Presidente, gerando um impacto negativo na Nessa linha, Mearsheimer (2016) e Brzezinski

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(2017) concordam que foram as equivocadas sentido para criticar iniciativas como o NAFTA, o
políticas ostensivas dos EUA contra a Rússia que TPP e o TTIP – acordos de livre comércio entre
perturbaram a paz no Leste europeu, provocando os EUA e a América do Norte, a Ásia Pacífico e a
uma série de reações por parte de Moscou. Europa, respectivamente. Surpreendentemente,
manteve-se em concordância com Hillary Clinton
Se, por um lado, existem perspectivas que em suas críticas a algumas dessas iniciativas,
apontam para uma melhora nas relações bilaterais como o TPP, pela facilitação à entrada de produtos
com a Rússia, analisaremos a seguir os indícios concorrentes, e advogando em favor de acordos
que sugerem uma relação mais turbulenta, seja comerciais bilaterais com clara indicação de
do ponto de vista econômico ou diplomático- preferência por opções protecionistas. Logo em
securitário, com outra grande potência do sistema, sua primeira semana como presidente, Trump
a China. assinou uma ordem executiva que tira os EUA do
TPP, acordo que não havia nem sido ratificado pelo
Trump e a China4 Legislativo, interrompendo o processo político.

Um dos aspectos mais marcantes das A retórica do então presidenciável seguiu em


posições de Donald Trump diz respeito à China, direção à República Popular da China, com as
uma constante em seus discursos durante todo suas alegações de que a entrada da China na
o processo eleitoral. Nesse sentido, tem-se a Organização Mundial do Comércio, em 2001,
continuação da orientação Ásia-Pacífico, porém iniciou uma “guerra comercial” entre China e EUA,
mais agressiva, através do balanceamento via a qual os estadunidenses estariam perdendo.
Burden-Sharing5. A seguir, buscaremos aplicar, Nessa mesma linha, um dos principais assessores
de forma sintética, algumas das perspectivas já políticos de Trump, Peter Navarro, estabeleceu
introduzidas sobre as visões econômica, política três pilares centrais desse conflito econômico,
e securitária de Trump às relações bilaterais entre direcionando as suas críticas à postura chinesa:
os EUA e a China. primeiro, as políticas de desvalorização cambial
forçadas; segundo, as práticas ilegais de dumping
Na dimensão econômica, Trump segue sua diretriz para expansão das fatias de mercado; e terceiro,
majoritariamente heterodoxa e crítica do sistema, as alegadas operações de roubo de propriedade
focando nos problemas domésticos, e utilizando-os intelectual estadunidense. As violações do país,
como balizadores para as suas respectivas ações “cada vez piores e mais institucionalizadas”,
internacionais – em suas palavras: “Americanismo, seriam responsáveis por déficits comerciais e
não globalismo, será a nossa crença [...] Tudo pela desaceleração do crescimento nacional (The
começa com uma nova e justa política comercial Guardian 2016; Navarro 2016).
que protege nossos empregos e mantém nossa
postura firme ante a países que trapaceiam Em termos concretos, as práticas desleais de
– e são muitos [...] Nossos terríveis acordos comércio supracitadas seriam as verdadeiras
comerciais com a China e tantos outros países responsáveis – ao contrário da tradicional
serão totalmente renegociados”6 (Washington atribuição à mão-de-obra barata – pelas
Post 2016). O seu discurso anti-globalização vantagens comparativas chinesas no mercado
aproveita-se de uma tendência mundial nesse global. De acordo com suas avaliações, os efeitos

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domésticos dessa situação incluíam o aumento do estabelecer um espaço de incertezas, mas que
desemprego, a queda das receitas e a perda de garantem certa margem de manobra para os
aproximadamente US$ 300 bilhões em patentes. estadunidenses (Baker 2016).
Como resposta, Trump e Navarro argumentaram
em favor da adoção de políticas econômicas A controversa ligação repercutiu em análises de
protecionistas (supostamente “defensivas”) no veículos de mídia e institutos de pesquisa em
comércio EUA-China, nominalmente através de todo o globo, resultando em opiniões distintas
45% em tarifas sobre as importações chinesas, quanto à sua eficácia em termos diplomáticos.
apontando para a eventual deterioração de suas Por um lado, autores conservadores como Marc A.
relações bilaterais (Navarro 2016). No Fórum Thiessen (2016) defendem a tese de que a ligação
Econômico Mundial em Davos, 2017, o Presidente foi uma ação minuciosamente planejada e, em
Chinês Xi Jinping criticou indiretamente – sem última análise, brilhante. Isso porque tratar-se-ia
nem ao menos citar os EUA ou Donald Trump – as de uma mensagem simultânea ao establishment
posturas protecionistas indicadas recentemente, chinês e estadunidense, enquanto primeiro passo
postando-se como “um líder comunista, campeão de um esforço mais amplo de enrijecimento das
da globalização e do livre-mercado” (The Economist relações sino-americanas. Por outro, autores
2017). liberais criticam a posição alegando inexperiência
na condução das relações exteriores. Segundo
Já enquanto presidente-eleito, Trump ultrapassou essa visão, a ligação e a quebra do status quo
as questões econômicas, passando a abordar diplomático, especialmente por tratar-se de uma
questões políticas e diplomáticas de maior impacto matéria tão sensível quanto Taiwan, pode vir
nas relações internacionais. Em dezembro de acompanhada de retaliações a médio e longo
2016, Trump realizou uma ligação telefônica de prazo.
alguns minutos para Tsai Ing-Wen, presidente de
Taiwan eleita em Maio de 2016, rompendo com A ação impactou significativamente a postura
um protocolo de décadas, e abrindo espaço para chinesa, sinalizando para eventuais movimentos
uma abordagem triangular na região. Em seguida, de resposta ou retaliação. Em termos amplos, a
declarou: “Por acaso a China perguntou aos EUA nova abordagem pode ser prejudicial aos EUA por
se estamos confortáveis com a sua desvalorização criar um espectro de imprevisibilidade enquanto
cambial (que torna mais difícil para as nossas parceiro (político e comercial) na região, com a
companhias competirem), com a sua taxação China aproveitando-se dessa brecha para expandir
sobre nossos produtos (sendo que os EUA não taxa a sua estratégia de expansão de influência regional
seus produtos) ou com a sua construção massiva – através do Banco Asiático de Investimento
de complexos militares no Mar do Sul da China? em Infraestrutura (AIIB), da Organização para
Acredito que não!”7. As atitudes evidenciam a a Cooperação de Xangai (OCX) e da Parceria
chamada Taiwan Card como artifício diplomático Econômica Regional Abrangente (RCEP). Mais
de pressão de Washington sobre Pequim, em diretamente, analistas do HSBC e da JPMorgan
contraste com a One China Policy adotada pelos apontam que as ações podem afetar as relações
EUA desde a reaproximação bilateral em 1979. bilaterais por incitarem uma retaliação tarifária
Considerando Taipei como ponto significativo chinesa sobre bens e serviços estadunidenses,
da estratégia chinesa, percebe-se o intuito de prejudicando as companhias que operam dentro

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e fora do país. de patrulha e monitoramento (Sputnik 2016).

Por fim, a dimensão securitária é vista como Em resposta às recentes articulações da nova
essencial para a defesa dos interesses administração, o Global Times, veículo de política
estadunidenses na região, sendo fundamental externa da mídia estatal chinesa, direcionou
a retomada do processo de militarização duras críticas a Donald Trump em artigo intitulado
direto e indireto. Assim, Trump ressalta o seu Trump overestimates U.S. capability to dominate
comprometimento em trabalhar com o Congresso the world. Em sua matéria, o jornal critica, de
para reestruturar e incrementar as Forças forma extraordinariamente direta e incisiva,
Armadas dos EUA, especialmente a U.S. Navy e distinta do tradicional modus operandi chinês, a
a U.S. Air Force para 350 embarcações e 1200 maneira como Trump falha em compreender as
aeronaves (essenciais para a condução das limitações do poder dos EUA, ao mesmo tempo
Freedom of Navigation Operations): “Nós vamos em que despreza a importância estratégica
reconstruir completamente as nossas Forças da China. A crítica, igualmente provocativa,
Armadas [...] A história mostra que quando os EUA resume-se no seguinte trecho: “Após décadas de
não estão preparados, é quando eles correm os desenvolvimento, os interesses vitais chineses
maiores riscos. Nós queremos dissuadir, evitar e pouco se expandiram, mas a sua capacidade de
prevenir conflitos através da nossa inquestionável controlar os riscos no Estreito de Taiwan e no Mar
dominância militar”8 (CNN 2016). Portanto, do Sul da China cresceu significativamente [...] Será
o presidente recém-eleito buscará trabalhar uma batalha decisiva para Pequim salvaguardar
de forma conjunta e coordenada com os seus seus interesses vitais. Se Trump quer jogar duro, a
tradicionais parceiros militares no Leste Asiático, China não falhará”9 (Global Times 2016).
como Coréia do Sul, Índia, Japão, Mianmar e
Vietnã – além de cooptar novamente países Donald Trump parece apontar para o planejamento
afastados como Filipinas, Tailândia e até Taiwan de uma importante inflexão na estratégia para
(Gray e Navarro 2016). a região da Ásia-Pacífico, mas que se mostra
como um paradoxo em termos de inserção
Esse aspecto adquire importância primária na efetiva. As ações de Trump nos três campos das
medida em que há uma alusão clara às capacidades relações internacionais guardam suas respectivas
de A2/AD (Anti-Access/Area-Denial) da China. reações. Por um lado, podem colocar o país em
Esse conceito refere-se às capacidades militares significativa vantagem estratégica nesta atual
chinesas de controle e defesa de seu entorno “queda de braço” caso funcionem de fato como
estratégico – nominalmente, o Mar do Leste da mecanismos de barganha para retração das
China e, principalmente, o Mar do Sul da China posições chinesas nesses campos. Por outro,
– em contraposição ao acesso indiscriminado de podem afetar negativamente a sua imagem frente
marinhas estrangeiras. Nesse ponto, Trump tem aos demais países asiáticos – especialmente com
mostrado um discurso rígido, criticando a ameaça o cancelamento do TPP e o arrefecimento das
latente de interferência chinesa sobre a presença negociações do TTIP – de forma a aproximá-los da
e navegação estadunidense na região, seja através contraparte chinesa.
da construção das ilhas artificiais com sistemas
de armas defensivos, seja através das atividades

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Considerações finais As relações bilaterais com a China prometem
passar por uma eventual deterioração, porém
Independente do que foi dito no curso da uma guerra comercial com Pequim seria
sua campanha, Donald Trump chega ao poder contraproducente para ambos os países, cujas
de forma legítima e como um produto tanto das economias são complementares. Do ponto de
contradições da era Barack Obama como da vista diplomático, Trump parece estar aplicando a
fragmentação partidária republicana gerada doutrina Nixon ao contrário, como apontou Henry
por George W. Bush (Pecequilo 2016). Grande Kissinger: Nixon fez um acordo com a China para
parte do próprio legado político de Obama, nesse enfraquecer a Rússia, ao passo que Trump parece
sentido, pode ser revertido por Trump através de estar fazendo um acordo com a Rússia para
ordens executivas. O choque, contudo, não deverá enfraquecer a China (Wallerstein 2017). Nem a
ser completo, mas espera-se mais protecionismo China e nem a Rússia, todavia, dão sinais de que
e unilateralismo (Pecequilo 2016b), dentro vão abandonar suas políticas atuais – a Rússia
de um quadro global de triunfo de políticas é, novamente, uma grande potência no Oriente
‘neonacionalistas’ sobre o neoliberalismo (Blyth Médio e na sua vizinhança próxima (o ex-mundo
2016) e as tendências globalizantes. soviético), e a China, aos poucos, está afirmando
uma posição dominante no Nordeste e no Sudeste
O isolacionismo de Trump, todavia, é relativo, pois Asiático, ao mesmo tempo em que cresce seu
a ideia de America First implica uma determinada papel no sistema mundial (Wallerstein 2017). Os
presença global econômico-militar-estratégica EUA, nesse sentido, precisam repensar algumas
da qual não se abrirá mão, seja pelo desejo de das suas percepções sobre poder russo e chinês
proteção dos interesses hegemônicos, seja pela no sistema mundial.
pressão dos grupos de interesse do complexo
industrial militar e do setor energético (Pecequilo A eleição de Trump e a disputa entre os EUA e a
2016b). China também podem apresentar uma “brecha”
para a América Latina (Stuenkel 2016). O Brasil,
No âmbito interno, será importante atentar para contudo, no mundo geopolítico de Donald Trump,
as políticas migratórias que Trump pretende parece já estar reenquadrado como um país
implementar, que prometem gerar fortes impactos secundário. A nova diplomacia brasileira, nesse
sobre a grande parcela de imigrantes que vivem sentido, erra no plano internacional ao perseguir
nos EUA e às relações bilaterais com o México. uma política de alinhamento com a superpotência
Em política externa e defesa, deve-se observar em detrimento de sua autonomia.
cuidadosamente a retomada de uma estratégia
para conter o islamismo radical, uma das Por fim, conclui-se que Trump, apesar de tudo,
perspectivas securitárias levantadas. Além disso, não é um ponto tão “fora da curva”. O fenômeno
Trump já sinalizou que irá reequipar as forças Donald Trump, mais do que mistificado, deve ser
armadas norte-americanas, inclusive aumentando examinado e entendido dentro de uma nova forma
suas capacidades nucleares, e parece ter pouca de se fazer política, a qual está inserida em um
tolerância para lidar com ameaças desse porte, contexto global de desconfiança e insatisfação
como as que vêm do Irã e da Coreia do Norte. geral com as engrenagens do sistema tradicional.

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Notas

3
Tais promessas foram cumpridas na sua primeira semana como presidente de facto. No dia 27 de Janeiro, Trump assinou
uma polêmica ordem executiva que proíbe a entrada de refugiados de qualquer parte do mundo nos EUA por 120 dias, bem
como de imigrantes oriundos de sete países do Oriente Médio e da África: Irã, Iraque, Síria, Sudão, Líbia, Iêmen e Somália. O
presidente, nesse sentido, parece já ter estabelecido sua própria versão – expandida – do “Eixo do Mal” de George W. Bush.

4
Agradecemos aqui as contribuições feitas pelo professor e Pesquisador Associado do NERINT, Diego Pautasso, durante
palestra intitulada “Trump e a China: perspectivas para as relações bilaterais”, realizada pelo Instituto Sul-Americano de
Política e Estratégia (ISAPE) em parceria com o Núcleo de Estudos Estratégicos do Comando Militar do Sul (NEE/CMS) no dia
15 de Dezembro de 2016.

5
A noção de Burden-Sharing (ou Divisão de Responsabilidades) diz respeito a um conceito das Relações Internacionais
que corresponde a uma estratégia estatal de balanceamento - contra potências hegemônicas regionais - via divisão de
responsabilidades e custos com parceiros locais.

6
Tradução dos autores.

7
Donald Trump, Twitter post, 4 de Dezembro, 2016 (14:23 BRST), https://twitter.com/realDonaldTrump. Tradução dos autores.

8
Tradução dos autores.

9
Tradução dos autores.

Referências

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story.html?utm_term=.5edfd7ce84b1

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https://www.washingtonpost.com/news/the-fix/wp/2016/07/21/full-text-donald-trumps-prepared-remarks-accepting-the-
republican-nomination/?utm_term=.c400c88e33e0

Wallerstein, Immanuel. “The World in the Era of Trump: What May We Expect?”. Iwallerstein. http://iwallerstein.com/the-
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Wright, Thomas. 2016a. “Trump’s 19th Century Foreign Policy”. Politico. http://www.politico.com/magazine/story/2016/01/
donald-trump-foreign-policy-213546

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Wright. Thomas. 2016b. “Trump’s Team of Rivals, Riven by Distrust”. Foreign Policy. http://foreignpolicy.com/2016/12/14/
trumps-team-of-rivals-riven-by-distrust/

Recebido em 27 de janeiro de 2017.


Aprovado em 31 de janeiro de 2017.

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A Russofobia Contemporânea: quem tem medo de Moscou?*
Douglas de Quadros Rocha1 e Francine Juchem Salerno2

• Após o redirecionamento de sua política externa em direção ao Oriente Médio, a Rússia


se configura atualmente como um ator essencial para a geopolítica da região.
• A adoção de uma política externa assertiva por Moscou é uma resposta a expansão das
organizações ocidentais (OTAN e União Europeia) em direção aos países do entorno estratégico
russo.
• Em razão da política ocidental russofóbica de contenção a Rússia, Moscou tem buscado
novos aliados e consumidores entre os países da Ásia.

Apresentação

Um aforismo bastante conhecido afirma A outra face desta moeda constitui a histórica
que aqueles que não conhecem a história estão rejeição do Estado russo pelo Ocidente e a
fadados a repeti-la. Do ímpeto eurpeizante da disseminação de uma nova forma de “russofobia”
dinastia Romanov, no século XVII, à referência de em anos recentes – diversa do sentimento
Michail Gorbatchev à “casa comum europeia”, em antissoviético existente ao longo da Guerra Fria,
1987, a história russa deve ser compreendida a mas igualmente útil ao projeto geoestratégico de
partir de suas relações com o mundo ocidental. A Washington. Nos anos que se seguiram ao colapso
memória recente do colapso da União Soviética – da União Soviética, a grave desestruturação que
que rejeitou veementemente os valores ocidentais assolou a Rússia deixou o país absorto em sua
em quase todos seus aspectos – não deve própria crise, incapaz de oferecer resistência às
ocultar o fato de que a Rússia sempre buscou investidas norte-americana e europeia em seu
ser aceita no concerto de nações. A sistemática entorno estratégico. A expansão da OTAN e da
negação de seu status de potência pela Europa e, União Europeia em direção ao leste do continente
posteriormente, pelos Estados Unidos, constitui um encontrou resistência efetiva – e não apenas
fator fundamental para compreendermos eventos retórica – de Moscou somente a partir do início do
aparentemente tão distantes entre si como a século XXI, quando a ascensão de líderes políticos
Guerra da Crimeia (1853-1856) e sua anexação engajados em executar um projeto de inserção
pela Rússia em 2014. internacional autônomo permitiu a recuperação

1 Graduando em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Pesquisador Assistente do
NERINT. Contato: douglasqrocha@gmail.com
2 Aluna de Pós-Graduação Lato Sensu em Estratégia e Relações Internacionais Contemporâneas na UFRGS. Bacharel em Direito
pela UFRGS. Contato: francinesalerno@hotmail.com
* Com colaboração de Paulo Gilberto Fagundes Visentini, Pós-Doutorado em Relações Internacionais pela London School of Economics e
Coordenador do Núcleo Brasileiro de Estratégia e Relações Internacionais (NERINT).

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das capacidades militares do país. apoiar o regime de Bashar al-Assad. A assertividade
da política externa russa no Oriente Médio, inédita
O presente artigo busca compreender de que desde o fim da Guerra Fria e da consolidação
forma a política de contenção da Federação Russa, da preponderância estadunidense, ocorre em
praticada inadvertidamente pelos Estados Unidos um contexto de recuperação das capacidades
e seus aliados europeus desde o fim da Guerra militares russas, o que coloca o país como um ator
Fria, tem criado condições para que os governantes extrarregional relevante no Oriente Médio.
do Estado russo legitimem uma política externa
mais assertiva em seu entorno estratégico e no Em termos geoestratégicos, o Oriente Médio
Oriente Médio. Partimos da premissa de que o conecta porções importantes dos continentes
desespero do Ocidente em isolar politicamente asiático, europeu e africano, e serve como via de
Moscou, reproduzindo uma espécie de Cortina de acesso aos mares Mediterrâneo, Negro e Índico.
Ferro do novo milênio, demonstra que o Estado Desde o fim da Guerra Fria, a região esteve sob
russo permanece insensível às tentativas de forte influência ocidental, especialmente dos
subordiná-lo e dá condições políticas para que Estados Unidos, criando condições para a presença
os russos resistam às pressões do Ocidente, militar estadunidense e a consecução de uma
em especial dos Estados Unidos. Para tanto, o série de guerras travadas em nome do combate
presente ensaio segue subdividido em três seções ao terrorismo. Após as guerras do Afeganistão e
que correspondem aproximadamente aos eixos da do Iraque, a presença e envolvimento das forças
política externa russa contemporânea. Na primeira ocidentais no Oriente Médio impediram uma
parte, discutimos sua participação ativa na política influência russa consistente na conjuntura regional
do Oriente Médio como forma de responder às (Hannah 2016).
pressões ocidentais sobre os países do antigo
bloco soviético. Na segunda seção, analisamos a Para os Estados Unidos, o fim da URSS criou um
persistência do conflito com o mundo ocidental e o vácuo político-estratégico que foi parcialmente
caráter russofóbico do discurso que as lideranças preenchido, a partir de 2001, pela guerra ao terror
e a mídia ocidentais utilizam para retratar Moscou. no Iraque e no Afeganistão. A política de combate
Por fim, discorremos a respeito da projeção russa ao terrorismo, implementada após os atentados de
na Eurásia, incluindo o novo tom da relação com 11 de setembro, foi recebida com certo entusiasmo
as repúblicas da Ásia Central e, sobretudo, a diplomático pelo Kremlin, pois justificou sua
dicotomia parceria-competição com a China. ação contra separatistas chechenos na virada
do milênio. Aos poucos, contudo, restou claro
A atuação no Oriente Médio que a guerra ao terror servia de justificativa para
que Washington derrubasse governos seculares
Em setembro de 2015, forças militares não alinhados no Oriente Médio e ampliasse sua
russas intervieram na Guerra da Síria, utilizando política de contenção da Rússia e da China por
mísseis de longa-distância lançados a partir do Mar meio das guerras proxy (Pautasso 2014).
Cáspio e do Mediterrâneo, em uma demonstração
bem-sucedida de projeção de força na região. A O redirecionamento da política externa da Rússia
comunidade internacional, contudo, reagiu com em direção ao Oriente Médio se intensificou,
surpresa à eficiência logística russa utilizada para sobretudo, a partir de 2011, com os eventos da

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chamada Primavera Árabe. Considerada como naval de Sebastopol, na Crimeia, e o cruzamento
um evento-chave para o Grande Oriente Médio, a dos Estreitos turcos de Bósforo e Dardanelos a
eclosão de manifestações populares reivindicando cada reparo e reabastecimento das embarcações
maior democracia nos países da região, e as (Harmer 2012). O aprimoramento do porto em
consequentes mudanças de regime em muitos uma verdadeira base naval, com capacidade
destes países, resultaram em uma configuração para receber os maiores navios russos, está
política diversa. A conjuntura adquiriu novas em concordância com a nova política externa
proporções quando a onda de manifestações adotada por Putin para a região, a qual prevê a
alcançou a Síria e o governo de Bashar al-Assad, expansão e melhoramento das frotas meridionais
considerado um aliado tradicional de Moscou. O (correspondentes ao Mar Negro e ao Mar Cáspio) e
governo de Damasco representa o último bastião uma maior capacidade e presença no Mediterrâneo
da influência russa na região, e a possibilidade Leste (Bugajski e Doran 2016).
de que se repetisse o mesmo destino de alguns
países afetados pela Primavera Árabe – com a Para realizar o redirecionamento de sua política
implementação de governos pró-ocidentais – foi externa em termos diplomáticos, a Rússia tem
percebida como uma ameaça aos os interesses da buscado manter uma balança de poder entre
Rússia (Roberto 2012, Harmer 2012). os principais atores da região, se aproximando
de forma pragmática de países com interesses
A Síria possui grande importância para a política convergentes (Geranmayeh e Liik 2016). Dos
externa russa na região, pois controla a parte países da região, o Irã se mostrou desde o início
Leste do Mar Mediterrâneo, servindo de ligação um aliado em potencial, em concordância com
com o Mar Negro, onde a Rússia é atualmente os principais interesses russos na região, os
preponderante (Aktürk 2016). Nesse sentido, a quais incluem a oposição à presença militar e
política externa de Vladmir Putin visou aumentar influência estadunidense no Oriente Médio, além
a presença da Marinha russa no Mediterrâneo, um da manutenção do regime de Bashar al-Assad na
objetivo geoestratégico existente desde o período Síria. Em conjunto com a Rússia, o Irã é um dos
czarista, em sua busca pelos chamados “mares principais apoiadores do regime sírio e ambos os
quentes” e pelo acesso aos grandes oceanos países contribuíram decisivamente com os meios
(Bugajski e Doran 2016). O aumento da presença militares necessários para reverter a situação
militar russa no Mediterrâneo cria uma potencial em favor de Assad ao longo da Guerra da Síria
barreira aos Estados Unidos e seus aliados na (Geranmayeh e Liik 2016).
região e impõe que grupos opositores de Bashar Com relação aos países tradicionalmente pró-
al-Assad considerem o risco de um engajamento Ocidente, aliados dos Estados Unidos, como
total de Moscou no conflito armado (Cordesman Israel e Arábia Saudita, Moscou buscou um
2016). entendimento diplomático de forma a evitar
possíveis tensões após a intervenção militar na
O aprimoramento do porto de Tartus, na costa Síria e o estabelecimento de uma presença mais
mediterrânea síria, representa atualmente a única significativa na região (Geranmayeh e Liik 2016).
base de operações russas fora de seu entorno Tal situação só foi possível como consequência da
próximo. Tartus constitui um ponto de apoio política de desengajamento estadunidense iniciada
para as embarcações de Moscou localizadas por Barack Obama, causando desgaste diplomático
no Mediterrâneo, evitando o retorno até a base com alguns aliados na região. Em relação a Tel-
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Aviv, a Rússia tem buscado uma aproximação Médio – legitimou a adoção de uma política
com vistas a conquistar uma posição central externa assertiva por parte do Kremlin na região,
no processo de discussões de paz entre Israel e em especial para apoiar um aliado, como é o
Palestina. Ao propor um avanço nas negociações, caso de Bashar al-Assad. Caso se confirme a
após as tentativas lideradas pelos Estados retórica externada por Donald Trump durante sua
Unidos não terem avançado desde 2014, Moscou campanha presidencial de maior aproximação com
percebe nesta questão uma nova oportunidade de a Rússia, abre-se a possibilidade de uma distensão
aumentar sua influência diplomática no Oriente nas relações com o Kremlin e de um acordo de
Médio (Geranmayeh e Liik 2016, Barmin 2016). paz na Síria, uma vez que ambos os países são
fundamentais para a manutenção de um eventual
Outro ator importante para a política externa russa cessar-fogo na região.
referente ao Oriente Médio é a Turquia. A tensão
diplomática causada pelo abatimento de uma A Rússia e o Ocidente
aeronave russa pelo Exército turco, em 2015,
foi superada e as relações russo-turcas foram O colapso da União Soviética em 1991
normalizadas, em especial, a partir da tentativa não pôs fim apenas ao breve século XX, descrito
de golpe de Estado contra o Presidente Recep por Hobsbawm3, mas também significou “um
Erdogan, em julho de 2016. A falta de apoio dos dos maiores desastres geopolíticos do século
países membros da OTAN ao governo de Ancara XX”, nas palavras do Presidente Vladimir Putin4.
levantou suspeita de participação estadunidense A Federação Russa foi submetida à chamada
na tentativa de golpe (Hannah 2016). A partir “terapia de choque” de Boris Iéltsin, a partir de sua
de então, Rússia e Turquia buscaram articular ascensão à Presidência em 1992. A schock therapy
o cessar-fogo sírio, através de negociações que caracterizou-se por uma guinada ao capitalismo
incluem o Irã, e executando bombardeamentos através de um amplo processo de privatizações
conjuntos em posições do Estado Islâmico em e da adoção do receituário liberal, causando
uma guerra de contraterrorismo (Sly e Haidamous profunda desorganização política e econômica.
2017). As recentes conversações em Astana, A postura do então Presidente Iéltsin baseava-se
no Cazaquistão, iniciadas em janeiro de 2017 e na crença de que uma “renúncia à sua posição
coordenadas por Moscou e Ancara, dão ideia da antagônica [ao Ocidente] seria premiada com a
importância russa na resolução do conflito sírio, o inserção no concerto das potências desenvolvidas”
qual, embora longe de ser resolvido, depende da (Visentini 2015). A adoção do modelo econômico e
concordância da Rússia para ser efetivo. político liberal não apenas retirou a Rússia do rol
de potências mundiais, mas também significou o
O envolvimento russo no conflito da Síria constitui, avanço da coalizão ocidental sobre a região da ex-
em parte, um desdobramento do crescente atrito URSS.
existente entre Moscou e o Ocidente, devendo ser
compreendido dentro da lógica norte-americana A inserção passiva da Rússia na ordem
de contenção da Rússia. A contínua ingerência internacional do pós-Guerra Fria não refreou
ocidental no entorno estratégico russo – desde o ímpeto de Washington, conforme atestam
a Guerra dos Balcãs, passando pela expansão as sucessivas expansões da OTAN e da União
da OTAN em direção aos países da ex-URSS e a Europeia em direção aos países do antigo bloco
ocupação de países da Ásia Central e do Oriente soviético (Pautasso 2014), cujas maiores inclusões
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de novos membros ocorreram justamente em Henry Kissinger, “a demonização de Vladmir Putin
1999 e 2004, no caso da OTAN e em 2004 e não constitui uma política ocidental, mas antes um
2007 para a União Europeia, quando Moscou álibi para ausência de uma”5.
encontrava-se extremamente fragilizado pela
grave crise política e econômica que assolou o A título exemplificativo, o acordo firmado entre a
país. Da mesma forma, a atuação da OTAN na OTAN e a Rússia em 1997 previa textualmente
Guerra dos Balcãs no apagar das luzes do século que, naquele contexto securitário, a organização
XX – sem mandato internacional e em um país comprometia-se a não realizar o aumento
não pertencente à organização – deu indicações permanente de forças de deslocamento e
claras de que a política de Washington no entorno de forças combatentes nas proximidades do
estratégico russo teria por objetivo tirar proveitos Estado russo6. Entretanto, não apenas a OTAN
da fragilidade russa. Conforme afirmado por Mello dobrou o número de países membros em menos
(1999, 131-132), a política norte-americana de de uma década – com a inclusão de Polônia,
contenção geopolítica e geoestratégica da Rússia Hungria e República Tcheca em 1999; Bulgária,
baseia-se na premissa de que quem controlar a Estônia, Letônia, Lituânia, Romênia, Eslováquia e
Eurásia controla o mundo, naquilo que McKinder Eslovênia, em 2004 e Albânia e Croácia em 2009
denominou de heartland. –, como também instituiu em 2015 seis centros
de comando em países que fazem fronteira com
Diante do fracasso das políticas de distensão com o a Rússia. Não menos simbólico foi o recente
Ocidente implementadas por Iéltsin e do crescente deslocamento de tropas e material bélico para
acirramento de tensões nas fronteiras russas, a exercícios militares na Polônia, em janeiro de
resposta da Moscou iniciou-se com a nomeação 2017. Sempre que necessário, os países do leste
de Eugênio Primakov para a Chancelaria russa em europeu agitam a bandeira do perigo russo, de
1993. Ao afirmar como interesses permanentes da modo a obter vantagens de seus aliados ocidentais
Rússia o fortalecimento da integridade territorial, a (Chiesa 2016).
recuperação do prestígio no antigo espaço soviético
e a prevenção de conflitos, especialmente étnicos, O sinal de alerta foi dado ao Kremlin quando da
em seu entorno regional, Primakov lançou as bases eclosão das chamadas Revoluções Coloridas
de uma nova política externa. A eleição de Putin em países vizinhos – Geórgia (2003), Ucrânia
em 2000 e a nomeação de Serguei Lavrov para (2004) e Quirguistão (2005) – e quando, em
o cargo de Ministro de Assuntos Estrangeiros, em 2008, a OTAN postulou uma nova inclusão de
2004, aprofundaram esta tendência pragmática membros desta vez para incluir precisamente
e assertiva, que busca pacientemente recuperar Geórgia e Ucrânia. A resposta russa ocorreu em
seu status de grande potência. A resposta do duas etapas distintas. Inicialmente, forçando o
bloco ocidental à reemergência russa pautou-se fechamento das bases aéreas norte-americanas
pela ampliação do discurso russofóbico, através no Uzbequistão e no Quirguistão em 2005 e 2014,
de uma “demonização” das lideranças políticas respectivamente; e, posteriormente, com a invasão
russas e da caracterização da Rússia como uma da Geórgia em 2008 e a anexação da Crimeia em
nação belicosa e expansionista, especialmente 2014, demonstrando a falta de compromisso de
desde a anexação da Crimeia em 2014. De acordo Washington com a segurança de países localizados
com o ex-Secretário de Estado dos Estados Unidos, na periferia russa (Stratfor 2017). O politólogo e

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adepto do realismo ofensivo, John Mearsheimer, e sua grande demanda por recursos energéticos
aponta que a coalisão ocidental iludiu-se ao abundantes na Rússia e na Ásia Central, tornam
acreditar que poderia substituir o realismo político Beijing um parceiro viável, especialmente após a
pela aplicação desenfreada de ideias liberais no terceira rodada de sanções impostas pela coalizão
entorno estratégico da Rússia7. ocidental à Rússia em razão da crise ucraniana
(Spivak 2016).
Embora a anexação da Crimeia e o apoio dado
por Moscou às províncias do leste ucraniano A União Econômica Eurasiana (UEE), gestada ao
tenham aumentado as confrontações entre longo de quinze anos de negociação entre Rússia,
russos e europeus, evitando a formação de um Cazaquistão, Quirguistão, Armênia e Bielorrússia,
eixo Berlim-Moscou (Salerno e Thudium 2016), a constitui uma união aduaneira e tem por escopo
política norte-americana de contenção da Rússia, promover a integração e o livre comércio entre os
baseada no unilateralismo e na desestabilização países membros, marcada pelo peso político da
de seu entorno estratégico, tem por efeito colateral Federação Russa sobre os demais integrantes.
o aprofundamento do senso de nacionalismo e A OCX, por sua vez, foi criada em 2001, com
patriotismo russo, fortalecendo as capacidades o objetivo inicial de trazer estabilidade à Ásia
estatais e estimulando uma política externa Central, mas ampliou seu escopo de atuação a
autônoma (Pautasso 2014). Ao isolar a Rússia do partir da projeção de interesses norte-americanos
mundo ocidental, os Estados Unidos possibilitam para a região, especialmente após as guerras no
que o Estado russo crie novas alianças e retome Afeganistão e no Iraque. A admissão formal de Índia
antigas parcerias, tal é o caso do aprofundamento e Paquistão à OCX, a partir de janeiro de 2017,
das relações sino-russas e da retomada da aumenta significativamente o peso da organização,
influência de Moscou nos países da Ásia Central. não apenas pela ampliação de recursos humanos,
Se Washington tem conseguido barrar qualquer econômicos e energéticos, mas também por
aproximação do Kremlin com a União Europeia – incluir entre seus países membros dois inimigos
mesmo que a um alto custo político –, é possível históricos (Ribeiro e Vieira 2016), permitindo
que o efeito desta política seja a criação de um que os países possam articular entre si decisões
imprevisível eixo Moscou-Beijing. relativas à segurança e ao desenvolvimento da
região, precisamente em um momento de ensaio
Rússia e China na Eurásia da multipolaridade com a ascensão de núcleos
decisórios importantes na Eurásia (Visentini 2015).
A excessiva tensão criada pelos Estados Em termos econômicos, os megaprojetos chineses
Unidos e pela União Europeia na periferia russa na região, como o Cinturão Econômico da Rota da
colabora para que Moscou busque firmar novas Seda (Silk Road Economic Belt – SBER, na sigla
alianças políticas, econômicas e securitárias, com em inglês), o oleoduto Leste Siberiano-Oceano
destaque para a Organização para a Cooperação Pacífico (East Siberian Pacific Ocean – ESPO, na
de Xangai (OCX), para a União Econômica sigla em inglês) e o gasoduto Força da Sibéria
Eurasiana (UEE) e outras organizações que (Power of Siberia, em inglês) são essenciais tanto
projetam a Rússia em sua zona de influência na para Beijing quanto para os países da Ásia Central
Ásia Central e no Cáucaso. Da mesma forma, os e para a Rússia. Para Beijing, o SBER permite o
maciços investimentos chineses em infraestrutura escoamento da produção por via terrestre e os

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gasodutos-oleodutos garantem o abastecimento na Eurásia – OCX, UEE, SREB – obrigam Moscou
de recursos energéticos essências às indústrias a rever seu relacionamento assimétrico com os
chinesas, tornando a China menos dependente de países do antigo bloco soviético, bem como dosar
produtores do Oriente Médio aliados dos Estados sua aproximação com a China. Se a russofobia e
Unidos. Por sua vez, tanto Moscou quanto os a rejeição sistemática do Ocidente empurram os
países da Ásia Central necessitam com urgência russos em direção a Beijing, a aparente lógica
dos investimentos em infraestrutura trazidos pelos econômica existente por trás dos investimentos
projetos chineses no setor energético. Para a chineses na região pode vir a ter desdobramentos
Rússia, em especial, a entrada em funcionamento políticos que coloquem o Kremlin em desvantagem.
do ESPO, em 2012, não apenas fez de Moscou Contudo, a acomodação de diferenças no seio
o maior fornecedor de petróleo cru da China da Eurásia parecer ser mais viável, uma vez que
(ultrapassando a Arábia Saudita em 2014), como a compreensão do conceito de soberania entre
também mandou uma mensagem aos países países asiáticos difere daquela proposta pelo
europeus de que Moscou é capaz de encontrar Ocidente, em que o princípio de não intervenção
consumidores mais rapidamente do que a Europa em assuntos domésticos tem maior peso nas
é capaz de encontrar novos fornecedores de relações interestatais (Hantke 2016).
hidrocarbonetos (Pautasso 2014).
Se confirmado o discurso protecionista do recém-
A penetração chinesa na Ásia Central, sobretudo empossado Presidente dos Estados Unidos, Donald
por meio de empresas estatais do setor energético, Trump, será aberta uma possibilidade para que
coloca Moscou em uma posição por vezes a China preencha a eventual lacuna deixada por
desconfortável. Se por um lado o Kremlin não Washington, sobretudo na Eurásia. Neste cenário
pode se dar ao luxo de rejeitar os investimentos e hipotético, o eixo Moscou-Beijing pode facilmente
os capitais da China, por outro a possibilidade de oscilar da cooperação para a competição, uma
que a Rússia venha a perder sua influência sobre vez que a iniciativa liderada por Moscou – a UEE
os países da ex-União Soviética coloca limitações – pode ser facilmente eclipsada pelas iniciativas
à cooperação sino-russa. As negociações bilaterais de infraestrutura chinesas – SBER, oleodutos
– sem intermediação russa – que resultaram na e gasodutos. De qualquer forma, não restam
construção de um gasoduto no Turcomenistão dúvidas de que a disputa pela influência política na
e de um oleoduto na Cazaquistão fizeram com Ásia Central e por seus recursos energéticos será
que empresas chinesas se tornassem donas de uma questão delicada nas relações sino-russas,
25% do setor energético cazaque e colocaram onde a ascensão histórica e cultural da antiga
Beijing como o maior comprador de gás natural União Soviética terá de competir com os vultosos
do Turcomenistão. Tal cenário indica que as recursos chineses. Contudo, os termos desta
repúblicas da Ásia Central não são mais atores competição aparentam ser menos problemáticos –
passivos dependentes da política de Moscou e que e certamente menos belicosos – do que as relações
podem barganhar vantagens econômicas com a existentes entre Rússia e a coalização ocidental
China (Spivak 2016). tem se mostrado. Sobretudo porque as relações
intraeurasiáticas mostram-se menos propensas a
A inferioridade econômica russa diante da China elaboração de discursos maniqueístas do papel
e a pluralidade de iniciativas regionais existentes dos Estados no sistema internacional.

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Considerações finais Estados Unidos no leste da Europa e no Cáucaso,
especialmente face à instabilidade surgida pela
A partir das modificações introduzidas pelo multiplicação de conflitos étnico-religiosos na
colapso da União Soviética e pelo fim da disputa região. As sucessivas ondas de ampliação da
bipolar, o locus geopolítico e geoestratégico fronteira oriental da Organização do Tratado do
da Rússia no sistema mundial alterou-se Atlântico Norte (OTAN) – com a incorporação de
profundamente. Em que pese o fim da confrontação mais de dez países do antigo bloco socialista entre
Leste-Oeste tenha conduzido o sistema a uma 1999 e 2004 –, coloca dificuldades adicionais
aparente unipolaridade centrada nos Estados ao relacionamento do Kremlin com as potências
Unidos, pode-se afirmar que está em andamento ocidentais. Conflitos no Azerbaijão e na Armênia
uma multiplicação dos núcleos decisórios de poder, em meados dos anos 1990 e a guerra da Geórgia
o qual se desloca em direção à Eurásia, naquilo no biênio 2003-2004 são apenas exemplos do
que pode ser caracterizado como um “ensaio atrito crescente entre as potências ocidentais e o
de multipolaridade”. Tal cenário altera o papel espaço pós-soviético, cujo ápice materializou-se na
da Federação Russa - o Estado eurasiático por crise da Ucrânia de 2014.
excelência – na reconfiguração da ordem mundial
que se descortina no século XXI, ampliando as Por outro lado, a promessa de aproximação
potencialidades e, simultaneamente, os desafios com a Rússia, veiculada pelo recém-empossado
que se colocam para Moscou. Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump,
oferece uma aparente margem de manobra para
A caracterização da Rússia pela imprensa ocidental o Estado russo em um momento de renegociação
como uma nação belicosa e expansionista reflete das relações entre China e Estados Unidos, mas
não apenas a pouca compreensão que se tem o espírito prático de Vladmir Putin exigirá mais
do Estado russo contemporâneo, ainda muito do que apenas a retórica grandiloquente de
baseada em estereótipos herdados da Guerra Fria, Trump, uma vez que o papel da OTAN, enquanto
mas também uma tentativa de recriar um inimigo organização criada para simultaneamente proteger
para além do Reno. O escalonamento de tensões interesses norte-americanos na Europa e confinar
no leste Europeu e no Oriente Médio – a exemplo a então União Soviética, mantém-se o mesmo, na
do conflito na Ucrânia, da anexação da Crimeia medida em que a expansão do organismo sugere o
em 2014, do recente deslocamento de tropas da cerceamento do entorno russo.
OTAN para a Polônia e da ativa participação russa A decisão de Putin de fazer uso da força tanto a
no conflito sírio – são efeitos da política externa Síria quanto na Ucrânia faz parte do conjunto de
de contenção das administrações Bush e Obama, ações que Moscou tem adotado para sinalizar
as quais tem levado o Estado russo a buscar à Washington de que não serão mais toleradas
novas alianças, aumentando a viabilidade de uma políticas que visem mudanças de regime no entorno
parceria sino-russa mais efetiva. estratégico russo – as chamadas Revoluções
Coloridas (Codersman 2016) e Primavera Árabe,
O desmembramento geográfico da União Soviética ocorridas nos países da ex-URSS e no Oriente
em mais de uma dezena de novos países, Médio, respectivamente. A dinâmica da política
somado à debilidade do Estado russo, ampliou as externa nesses países e em outros pontos de seu
possibilidades de extensão da zona de influência dos entorno estratégico deve, portanto, ser analisada

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sob a perspectiva de um aumento das ameaças
externas. A lição que devemos reter da história nos
ensina que a nação russa dispõe, acima de tudo, de
recursos morais, tão mais facilmente mobilizados
quanto mais intensas são as hostilidades externas.

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Notas

3
Hobsbawawm, Eric. A Era dos Extremos: O Breve Século XX (1914 – 1991). São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

4
A Afirmação foi feita em 25 de abril de 2005, por ocasião do discurso presidencial diante do parlamento russo. Disponível
em: http://en.kremlin.ru/events/president/transcripts/22931. Acesso em: 19 de outubro de 2016.

5
Kissinger, Henry. To Settle the Ukraine Crisis, start at the end. The Washington Post, Opinions, 5 de março de 2014. Acesso
em: 19 de outubro de 2016. Disponível em: https://www.washingtonpost.com/opinions/henry-kissinger-to-settle-the-ukraine-
crisis-start-at-the-end/2014/03/05/46dad868-a496-11e3-8466-d34c451760b9_story.html.

6
NATO. Disponível em http://nato.int/cps/en/natohq/official_texts_25468.htm. Acesso em 15 de janeiro de 2017.

7
Mearsheimer, John. Why the Ukraine Crisis is the West’s Fault: The Liberal Delusions That Provoked Putin. Foreign Affairs,
Set./Out., 2014.

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Visentini, Paulo. 2015. O Caótico Século XXI. Rio de Janeiro: Alta Books

Recebido em 27 de janeiro de 2017.


Aprovado em 31 de janeiro de 2017.

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A Política Externa Brasileira de Temer-Serra:
retração política e subordinação econômica*

Raul Cavedon Nunes1 e Vitória Gonzalez Rodriguez2

• A “Nova Política Externa Brasileira”, resumida por José Serra em seu discurso de posse,
alterou o padrão de inserção internacional do Brasil do multilateralismo para o bilateralismo, mas
suas consequências ainda estão por serem avaliadas.
• No âmbito regional, foram priorizados o projeto de isolamento da Venezuela, os acordos
bilaterais e a reaproximação com o México, a OEA e a Aliança do Pacífico.
• No campo extrarregional, a política Temer-Serra manteve um low profile nos fóruns
multilaterais e impulsionou as negociações do Acordo Mercosul-União Europeia..

Apresentação

Em maio de 2016, Michel Temer assumiu Lula e Dilma ou somente pequenas adaptações de
a chefia do Palácio do Planalto interinamente, uma matriz já existente?
quando do afastamento de Dilma Rousseff. O vice
presidente foi empossado como presidente em Contextualização da nova política externa
agosto, quando o processo aberto contra Rousseff brasileira
teve desfecho, após a segunda votação no Senado.
No entanto, cabe considerar que já desde maio O começo do mandato-tampão de Michel
o novo ocupante do cargo presidencial alterou Temer, com a nomeação dos novos ministros,
políticas importantes do país, dentre as quais a seus discursos, e a consecução de suas políticas,
Política Externa Brasileira (PEB). apontam para claras mudanças com relação ao
governo anterior. Uma das primeiras “guinadas”
Depois de mais de oito meses de novo mandatário, vistas foi a nomeação de José Serra para o
é importante avaliar, mesmo que preliminarmente, Ministério das Relações Exteriores (MRE): o chefe
a Nova PEB. Afinal, quais foram suas diretrizes e do Itamaraty passou a ser um político strictu sensu3,
prioridades nos âmbitos regional e extrarregional? diferentemente de seus antecessores imediatos
Houve uma grande ruptura com a PEB dos governos - Celso Amorim, Antonio Patriota, Luiz Alberto

1 Mestrando em Estudos Estratégicos Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Pesquisador Assis-
tente do Núcleo Brasileiro de Estratégia e Relações Internacionais (NERINT). Contato: rcavedonnunes@gmail.com
2 Graduanda em Relações Internacionais pela UFRGS, em mobilidade acadêmica na Universidad Nacional Autónoma de México
(UNAM). Pesquisadora Assistente do NERINT. Contato: vitoria.grodriguez@gmail.com
* Com colaboração de Marcelo Milan, Doutor em Economia pela University of Massachusetts Amrest e Pesquisador do NERINT.
30
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Figueiredo e Mauro Vieira –, todos formados pelo competição internacional nos âmbitos econômico,
Instituto Rio Branco. A dita nomeação difere-se não político e militar. Lucas Rezende (2016) ressalta
só dos últimos chanceleres brasileiros, pois “das que a “principal metamorfose é a suposta
dez nomeações para a chefia do MRE feitas entre desideologização da PEB e o redirecionamento
1985 e 2003, apenas três foram para políticos das relações internacionais do eixo Sul-Sul para o
com filiação partidária” (Lima 2005, 7). Segundo Norte-Sul, em um retorno à tradição americanista
Coronato e Leite (2016), a indicação de um nome de nossa política externa”.
desconectado do Itamaraty representou a quebra
de uma tradição tácita, de buscar um substituto no Nesse sentido, destacam-se questões relacionadas
próprio corpo diplomático. à política comercial, com ênfase para a preferência
do bilateralismo em detrimento do multilateralismo,
Nesse sentido, cabe apontar o debate existente para o livre comércio e para a parceria com
sobre o insulamento político do MRE, que lhe países dito tradicionais (como Estados Unidos e
assegura considerável autonomia decisória. Japão). Muitas das diretrizes relacionam-se com a
Segundo Maria Regina Soares de Lima (2005), um abertura de mercado e com um redirecionamento
fator que explica essa tendência é o desinteresse da posição brasileira - em termos regionais, no
da opinião pública pela política externa do país. Mercosul, ou multilaterais, na Organização Mundial
Por outro lado, existem pressões no sentido do Comércio (OMC) ou nos BRICS. Serra destacou,
contrário - de maior participação de outros setores ainda, a redução do “custo Brasil” para maior
do governo e da sociedade na formação da PEB, competitividade e produtividade, e a necessidade
de “conformação de um processo de produção da de proteção das fronteiras (Ministério das Relações
política externa que seja mais poroso, plural ou Exteriores 2016).
democrático” (Faria 2012, 312). A indicação de
um político como Serra, como afirmado, quebra a O novo encarregado da PEB afirmou que “a nossa
tendência de não se ter políticos no mais alto cargo diplomacia (...) terá de, gradualmente, atualizar-
do MRE. Isso, ao mesmo tempo em que diminui o se e inovar, e até mesmo ousar, promovendo uma
insulamento do órgão, pode colocar em xeque a grande reforma modernizadora nos objetivos,
tradição de o Itamaraty não estar completamente métodos e técnicas de trabalho.” (Ministério das
à mercê de disputas político-partidárias, além de Relações Exteriores 2016, grifo nosso). Não só
propiciar uma tendência de que a PEB oscile ainda pelas diretrizes e posicionamentos apresentados
mais a cada troca de governo. no discurso de posse, mas por atitudes tomadas
nos meses subsequentes, fica clara uma mudança
Em seu discurso de posse, José Serra delineou no direcionamento e na condução da PEB. Ilustram
os pilares da denominada “Nova Política Externa isso tanto notas emitidas pelo Itamaraty4, quanto o
Brasileira”, resumida em dez diretrizes. Em suma, posicionamento adotado com relação à Venezuela
o discurso do novo ministro-político buscou, ao no impasse referente à Presidência Pro Tempore
mesmo tempo, alinhar-se às diretrizes do novo do Mercosul. Natalia Fingermann (Editoria
governo nacional, liderado pelo então interino Mundorama 2017) ressalta, ainda, o impacto dos
Michel Temer, e também lidar com a nova conjuntura novos posicionamentos do Itamaraty para projetos
internacional, marcada pelo acirramento da de Cooperação Sul-Sul já existentes, como o

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Programa de Aquisição de Alimentos (PAA África) Esta seção revisa as principais ações6
e o ProSAVANA. do MRE e da Presidência da República quanto
à Política Externa de Michel Temer-José Serra.
Santos (2016) argumenta que as atitudes do novo Segundo a Constituição Federal, Artigo 84,
Ministro-político demonstram uma ruptura com “compete privativamente ao Presidente da
relação à PEB “altiva e ativa” iniciada e liderada República (…) manter relações com Estados
por Celso Amorim e Lula. Altivez e ação foram estrangeiros e acreditar seus representantes
as características que pautaram uma inserção diplomáticos, celebrar tratados, convenções e atos
autônoma e dinâmica do Brasil no cenário internacionais, sujeitos a referendo do Congresso
internacional - com destaque para a cooperação Nacional” (Brasil 1988). Ainda que existam
Sul-Sul e a diversificação de parcerias. Ainda contrapesos do Poder Legislativo7 e de órgãos
que se possa argumentar que a política “altiva e burocráticos como o Itamaraty e as Forças Armadas,
ativa” começou a decair já no governo Rousseff, a primazia do Poder Executivo permite mudanças
passando por um período de declínio e não mais de orientação na PEB, o que de fato ocorreu no
de ascensão (Cervo e Lessa 2014), é importante período estudado. Entretanto, as limitações do
considerar que a ruptura da transição Dilma-Temer novo formato de inserção internacional decorrem
não se compara ao declínio na condução da PEB de aspectos estruturais internos e externos à
da transição Lula-Dilma5. Presidência da República.

Cervo (2008 apud Amorim Neto 2011) concluiu Trabalha-se com a hipótese de que, apesar
que a orientação ideológica dos governos tem das grandes mudanças de orientação político-
mais influência sobre a política externa do que estratégica implementadas Temer-Serra, há
a mudança de regime político. Isso fica claro poucas inovações quanto à forma e intensidade nas
na transição das gestões Lula-Amorim e Dilma- relações exteriores do país, o que é demonstrado
Patriota-Figueiredo-Vieira para Temer-Serra. Assim, pelo caráter das reuniões e dos acordos firmados.
Amorim Neto (2011), em uma tentativa de traçar Inclusive, houve uma retração do país quanto aos
um arcabouço teórico sobre a política externa seus objetivos no Sistema Internacional, priorizando
brasileira (pautando sua relação com estruturas os acordos de livre comércio e a promoção
institucionais e com constrangimentos e incentivos das exportações em detrimento do projeto de
externos e internos), destaca três determinantes desenvolvimento, das capacidades estatais e das
da política externa, aliando o nível internacional parcerias estratégicas de grande envergadura,
e o doméstico. Dessa maneira, tanto fatores como a firmada com a França na gestão Lula. Isto
sistêmicos, quanto “atributos de líderes, regimes, decorre, em parte, da instabilidade interna política,
governos e legislaturas” (Amorim Neto 2011, 43) econômica e securitária que passa o Brasil, e em
e burocracias militar e diplomática determinam a parte pela estratégia traçada pela Nova PEB.
política externa. Assim, ao analisar-se a Nova PEB,
é importante ter em mente tais determinantes.
No âmbito regional, o processo de integração por
meio da UNASUL e da IIRSA foram substituídos por
Análise da atuação do MRE e da Presidência reuniões bilaterais e pela busca pela exclusão da
no âmbito regional e extrarregional Venezuela do Mercosul. No campo extrarregional,
o governo manteve um low profile nos fóruns

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multilaterais, e visou progredir nas negociações do do Planalto 2016).
Acordo de Associação Mercosul-União Europeia, Em 12 de junho, os chanceleres de Argentina,
uma parceria com benefícios duvidosos para Brasil, Chile e Uruguai divulgaram um Comunicado
ambas as partes, e sem frutos até o momento. Conjunto acerca da situação na Venezuela,
particularmente lamentando os atos de violência
A primeira ação diplomática da parceria Serra- registrados em Caracas. Dois dias depois, Serra
Temer foi no âmbito regional. Logo após a posse recebeu a visita do Governador do Estado de
de Temer (23 de maio), em caráter interino até 31 Miranda, o venezuelano Henrique Capriles, líder da
de agosto, foi criado o Mecanismo de Coordenação oposição ao governo de Nicolás Maduro.
Política Brasil-Argentina Logo após, Serra publicou
uma resposta a artigo do Finantial Times, que Outra prioridade da nova gestão foi a continuidade
afirmava existir uma rivalidade entre o Mercosul e a da aproximação econômica com o México, um
Aliança do Pacífico. Em sentido contrário, o Ministro processo iniciado ainda no governo de Dilma
afirmou que os dois blocos mantém relações cada Rousseff. Dia 25 de julho, Serra visitou o país com o
vez mais próximas, buscando firmar acordos de fim de retomar a agenda bilateral, visando ampliar
livre comércio, visando aumentar a participação de o acordo bilateral de preferências comerciais
seus Estados-membros no comércio internacional. (Acordo de Complementação Econômica nº 53
- ACE 53). Em agosto e em setembro ocorreram,
De certa forma, as duas primeiras iniciativas respectivamente, a IV e V Rodada Negociadora
prepararam o terreno para o que seria uma do ACE 53, tratando de temas como acesso
das tônicas do Brasil em sua política regional: o a mercados, facilitação do comércio, regras
isolamento diplomático da Venezuela. Em junho, de origem, barreiras técnicas ao comércio,
o MRE lançou nota sobre a situação do conflito compras governamentais, serviços e solução de
entre o governo de Nicolás Maduro e a oposição, controvérsias. Buscou-se, mais especificamente,
apontando para o agravamento da situação ampliar as preferências tarifárias e incluir tanto
humanitária e de direitos humanos no país produtos agrícolas quanto industriais.
(Ministério das Relações Exteriores 2016b).
Em setembro, os quatro países fundadores
No dia 8 de junho, houve a primeira visita oficial do Mercosul – Brasil, Argentina, Paraguai e
diplomática ao Brasil na nova gestão, realizada Uruguai – aprovaram a “Declaração Relativa ao
pelo Ministro das Relações Exteriores do Paraguai, Funcionamento do Mercosul e ao Protocolo de
Eladio Loizaga. Nesta ocasião, foram assinados Adesão da República Bolivariana da Venezuela”. Em
dois acordos, um na área de aviação e outro para resumo, a Declaração estabeleceu que a Venezuela
construção de uma ponte rodoviária internacional não poderia assumir a presidência do bloco, que
sobre o Rio Paraguai, entre as cidades de Porto passaria a ser ocupada por uma coordenação
Murtinho, no Mato Grosso do Sul, e Carmelo Peralta, conjunta entre os quatro países. Além disso, o país
do Departamento do Alto Paraguai (Richard 2016). seria suspenso do bloco em dezembro caso não
Esta iniciativa faz parte de um projeto maior, de “cumprisse suas obrigações” em relação ao Acordo
interligação entre o Oceano Atlântico e o Oceano de Complementação Econômica nº 18 (1991), o
Pacífico, particularmente dos portos de Santos Protocolo de Assunção sobre Compromisso com
(Brasil) e de Iquique, em Antofagasta (Chile) (Portal a Promoção e Proteção dos Direitos Humanos do

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Mercosul (2005) e o Acordo sobre Residência para No encontro com o presidente do Paraguai,
Nacionais dos Estados Partes do Mercosul (2002). Horacio Cartes, foi discutida a assinatura de um
Acordo Automotivo, o encaminhamento do início
Em 22 de outubro os Estados-Membros da OEA – das obras da segunda ponte sobre o Rio Paraná,
Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Costa e outra sobre o Rio Paraguai, entre Porto Murtinho
Rica, Estados Unidos da América, Guatemala, e Carmelo Peralta. O projeto de infraestrutura
Honduras, México, Paraguai, Peru e Uruguai – denominado Corredor Bioceânico inclui o corredor
publicaram um comunicado acerca da situação rodoviário Campo Grande-Porto Murtinho (Brasil) –
política da Venezuela. Quatro dias depois, foi Carmelo Peralta-Mariscal Estigarribia-Pozo Hondo
divulgada uma nova nota, assinada por Argentina, (Paraguai) – Misión La Paz-Tartagal-Jujuy-Salta
Brasil, Colômbia, Costa Rica, Chile, Guatemala, (Argentina) – Sico-Jama-Porto de Antofagasta e
Honduras, México, Panamá, Paraguai, Peru e outros portos do norte do Chile. O comunicado
Uruguai. conjunto também menciona a reunião dos
Ministros de Relações Exteriores e de Defesa
No dia 1º de dezembro, a Venezuela foi suspensa (2+2), realizada em 4 de abril de 2016, que
do Mercosul. Logo após, José Serra participou de prorrogou o Acordo de Cooperação Militar entre
reunião Extraordinária do Conselho do Mercosul, os dois países. Além do comunicado conjunto, foi
juntamente com os ministros da Argentina, do assinado um Memorando de Entendimento para
Paraguai e do Uruguai. O objetivo do encontro foi a Implementação do Projeto “Fortalecimento da
tratar da liberalização do comércio intrabloco, da Conectividade”, que tem como objetivo criar redes
negociação de um protocolo para a cooperação de fibra ótica entre os provedores e os cabos
e facilitação de investimentos, da revisão submarinos que chegam à costa brasileira.
do protocolo de contratações públicas e da
dinamização das negociações extrarregionais. No dia 6 de outubro, o secretário-geral da
Além disso, a Argentina assumiu a presidência Pro Organização dos Estados Americanos (OEA)
Tempore do Mercosul para o primeiro semestre de Luis Almagro foi recebido por José Serra. Na
2017. oportunidade, foram examinados temas da agenda
regional e o relacionamento entre o Brasil e a OEA.
Em outubro, Michel Temer realizou visitas à A primeira visita extrarregional de José Serra foi no
Argentina e ao Paraguai. Na Argentina, ressaltou- dia 28 de maio a Cabo Verde para uma reunião
se a cooperação nas áreas de Defesa, Nuclear, com seu homólogo Luis Filipe Tavares, com o
Espacial e em Ciência e Tecnologia. Sobre o primeiro-ministro Ulisses Correia e Silva e com o
Mercosul, o comunicado conjunto destacou a presidente Jorge Carlos Fonseca. Entretanto, este
necessidade da negociação de um novo Protocolo pareceu ser um compromisso derivado da gestão
de Compras Governamentais, um acordo sobre anterior, devido à ausência de maior detalhamento
cooperação e facilitação de investimentos, a da visita.
aproximação com a Aliança do Pacífico e com a
União Europeia. No âmbito estratégico, o presidente No começo de junho, o Ministro participou da
reiterou o respaldo brasileiro à soberania argentina Reunião Ministerial Anual da OCDE (sessão
sobre as Malvinas, Geórgias do Sul, Sandwich do denominada “Todos a bordo para 2030”) e de
Sul e os espaços marítimos circundantes. discussões no âmbito da Reunião Ministerial

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da OMC. Na OCDE, Serra adotou um tom Promoção de Exportações e Investimentos (Apex).
conciliatório e cooperativo, dividindo o conceito O evento contou com a participação do MRE;
de sustentabilidade em três esferas: ambiental, Transportes, Portos e Aviação Civil; Agricultura,
econômica e social. Já na OMC, o Ministro Pecuária e Abastecimento, e Fazenda. Os
demandou uma maior abertura de seus parceiros principais painéis foram os referentes ao setor de
comerciais, pois a demanda global estaria aquém infraestrutura, logística, indústria e agronegócio,
da produção global. Destacou, inclusive, que “a cujos representantes também fizeram-se
capacidade da OMC em continuar sendo um fórum presentes.
de negociação relevante ainda está em questão”, e
que por isso devem-se “experimentar novas rotas” Nos dias 4 e 5 de setembro, Michel Temer
(Serra 2016a). participou da XI Cúpula do G20, em Hangzhou,
China. Em seu discurso, destacou que, apesar
Neste sentido, em 22 e 23 de junho foi realizada dos esforços coletivos, a economia global ainda
reunião dos negociadores-chefe do Acordo de apresenta um crescimento econômico inferior ao
Associação Mercosul-União Europeia. Na ocasião, observado antes da crise internacional iniciada
os dois blocos responderam a perguntas técnicas em 2008. Assim, permanece um ambiente
sobre as ofertas intercambiadas em 11 de maio, internacional repleto de incertezas (Temer 2016b).
de bens, serviços, investimentos e compras
governamentais, e passaram em revista os Entre as “incertezas”, destacou a evolução dos
textos normativos do Acordo. Trataram, ainda, do preços das commodities, os reflexos da política
cronograma negociador do segundo semestre, monetária dos países desenvolvidos, a volatilidade
que incluirá reunião do Comitê de Negociações dos mercados financeiros e o terrorismo.
Birregionais em outubro, em Bruxelas (Ministério Internamente, pontuou que o principal desafio do
das Relações Exteriores 2016c). Estado brasileiro é de ordem fiscal, no sentido de
“promover um ajuste estrutural dos gastos públicos
Interessante notar que o Brasil iniciou uma série num horizonte de 20 anos” (Temer 2016b).
de reuniões com países europeus, como Países Neste sentido, o controle da inflação, a reforma
Baixos, Suíça, Finlândia e Dinamarca, a fim de previdenciária e as parcerias público-privadas são
avançar nas negociações do acordo entre os projetos centrais de seu governo.
blocos. De 10 a 14 de outubro, ocorreu a 10a
Rodada de Negociações Mercosul-União Europeia, Simultaneamente ao início da Cúpula do G20,
a primeira rodada plena de negociações desde houve uma reunião de líderes dos BRICS, em
2012. Entretanto, não ocorreu um grande avanço que Temer discursou sobre a necessidade de
a ser destacado. atualização das estruturas de governança global,
como o Fundo Monetário Internacional e o Banco
Em encontro prévio à XI Cúpula do G20, dia 2 de Mundial. No âmbito estratégico, saudou a criação
setembro, Temer viajou a Xangai para participar do do Grupo de Trabalho Antiterrorismo dos BRICS.
Seminário Empresarial de Alto Nível Brasil-China,
uma realização do Departamento de Promoção Em 20 e 21 do mesmo mês, paralelamente à 71a
Comercial e Investimentos do Ministério das Assembleia Geral da ONU, o Brasil participou de
Relações Exteriores e da Agência Brasileira de duas reuniões. Na primeira, José Serra reuniu-se

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com os demais países do G4 – Alemanha, Índia nossos sistemas nacionais de inovação”. Meio
e Japão –, cujo principal objetivo é a reforma do ambiente e terrorismo também foram assuntos
Conselho de Segurança. Em seu discurso, afirmou tratados no discurso.
que “no que tange à paz e segurança, o progresso
tem sido muito mais lento”, pois “o Conselho de Em 30 de setembro, José Serra viajou a Israel
Segurança da ONU ainda tem um grupo central de por ocasião da morte do ex-presidente Shimon
participantes que reflete o mundo de 1945” (Serra Peres. Além disso, encontrou-se com o primeiro-
2016b). ministro israelense Benjamin Netanyahu, com o
objetivo de reforçar as relações econômicas, com
A segunda reunião consistiu no encontro dos destaque realce para produtos israelenses de
ministros das Relações Exteriores dos BRICS, alta tecnologia, segurança e defesa. Nos dias 18
cujo comunicado conjunto ressaltou temas como e 19 de outubro, Michel Temer realizou visita ao
a reforma da ONU, a condenação do terrorismo, Japão nassinando o Memorando de Cooperação
cooperação com países em desenvolvimento, para a Promoção de Investimentos e Cooperação
sustentabilidade e meio ambiente, governança Econômica no Setor de Infraestrutura, com foco
econômica global, desigualdade de renda, saúde, nas áreas de transporte e logística, tecnologia da
e instabilidade no Oriente Médio e na África. informação e comunicações, e energia.
Serra, em seu discurso, destacou os avanços do
Banco de Desenvolvimento dos BRICS, inclusive Nos dias 31 de outubro e 1º de novembro, foi
a possibilidade da entrada de outros países na realizada a XI Conferência de chefes de estado e
iniciativa. Além disso, apontou que a economia de governo da Comunidade dos Países de Língua
internacional, apesar de apresentar sinais de Portuguesa (CPLP). Ainda no dia 1º houve também
recuperação, ainda possui riscos de retração, a XII Cimeira Brasil-Portugal, cuja Declaração
particularmente com a saída do Reino Unido da Conjunta tratou de temas como economia, finanças,
União Europeia. Por fim, apontou a necessidade de comércio, cultura, educação e desenvolvimento
cooperação nas áreas financeira e de saúde. sustentável. Além disso, foi discutida a situação na
Guiné-Bissau e o Acordo de Associação Mercosul-
Nos dias 15 e 16 de outubro, Temer participou União Europeia. Por fim, houve a assinatura do
da VII Cúpula dos BRICS, em Goa (Índia). Em seu Memorando de Entendimento sobre cooperação
discurso, alertou para o “retorno da tentação antártica.
protecionista”, e que a superação da crise
econômica brasileira ocorrerá por meio da De 21 a 23 de novembro, José Serra realizou uma
“combinação da responsabilidade fiscal com a visita à Espanha, onde voltou a abordar o tema
responsabilidade social” (Temer 2016c). No âmbito do acordo de livre comércio entre o Mercosul e
externo, Temer destacou que os BRICS constituem a União Europeia. No dia 7 de dezembro, Serra
“parceiros comerciais prioritários e fontes de reuniu-se com o secretário de Estado de Comércio
investimento” para o Brasil, e que “os chamados Internacional e presidente do Conselho de
‘ecossistemas de inovação’, que tiveram destaque Comércio do Reino Unido, Liam Fox, com o objetivo
durante a presidência chinesa do G-20, merecem de repassar temas econômicos, comerciais e
ser traduzidos ao BRICS. Este é espaço oportuno financeiros da agenda bilateral. No mesmo dia, foi
para buscarmos complementaridades entre realizada em Davos uma reunião entre os países

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da Associação Europeia de Livre Comércio – EFTA Sistema Internacional, e a abordagem brasileira
(integrada por Islândia, Liechtenstein, Noruega e parece deter-se na busca do livre comércio, sem
Suíça) – e o Mercosul, com o objetivo de negociar grandes inovações. Por outro lado, pode angariar
um acordo de livre comércio. frutos ao Brasil se possibilitar a manutenção da
parceria estratégica com a França, e alçar o país
Considerações finais a negociações de grande porte com as demais
grandes potências como EUA, China e seus aliados
A Política Externa Brasileira da dupla Temer- do IBAS, G4, entre outros.
Serra tomou novos rumos, ainda que mantendo
alguns pontos do governo de Dilma Rousseff. A Segundo Rezende (2016), “é verdade que a PEB de
priorização do Acordo de Associação Mercosul- Dilma Rousseff não prosseguiu com o protagonismo
União Europeia, o isolamento diplomático da dos anos Lula. Mas também não regrediu nos
Venezuela e o baixo perfil nos fóruns multilaterais, avanços feitos”. Por outro lado, pode-se dizer que
aliado à busca de acordos bilaterais, foram a a regressão na Nova PEB de Temer-Serra é notória
marca da Nova PEB. Assim, o binômio “retração já no discurso de posse de Serra. As diretrizes do
política e pragmatismo econômico” parece refletir mencionado discurso, bem como notas emitidas
a orientação externa do novo governo brasileiro, pelo MRE e ações da instituição, apontam para a
em detrimento de um projeto de médio e longo redução das diferentes dimensões da PEB em favor
prazo, voltado ao desenvolvimento, à inserção de uma: econômica-comercial. Nesse sentido,
internacional autônoma do país e à elevação do destaca-se a presença de um discurso que, de
Brasil à condição de grande potência. maneira geral, retoma o livre comércio, a ortodoxia
econômica e as parcerias tradicionais com o Norte
Entretanto, não estão claras as consequências (Coronato e Leite 2016), podendo ser ilustrado
nacionais e regionais desta política. No âmbito pelo binômio retração política e subordinação
nacional, a manutenção da retomada do econômica, como mencionado.
superávit comercial e a atração de investimentos
dependerá da sustentabilidade do novo modelo Por fim, cabe pautar que, enquanto política pública
de desenvolvimento e de inserção internacional. (Milani e Pinheiro 2013), é natural que a política
Regionalmente, a priorização da OEA e a externa sofra alterações de um governo para outro,
reaproximação com o México e com a Aliança já que há diferentes interesses e inclusive projetos
do Pacífico pode diminuir o poder de barganha em jogo dentro do Estado. No entanto, manter
brasileiro frente aos EUA, que com o governo certa continuidade e estabilidade, bem como
de Donald Trump parece visar sua recuperação honrar princípios defendidos historicamente pela
produtiva e comercial com base no mercado diplomacia brasileira, são atitudes esperadas com
interno. relação à PEB, uma política de caráter estratégico
para a inserção internacional e o desenvolvimento
Assim, cabe perguntar qual será a postura brasileira do Brasil.
frente ao acirramento político e econômico entre
as grandes potências como EUA, China e Rússia. A
escolha pela União Europeia parece ser arriscada,
já que não consiste em um player conciso no

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Notas
3
Serra foi deputado federal e senador pelo estado de São Paulo no começo dos anos 90. Durante o governo de Fernando
Henrique Cardoso, foi ministro do Planejamento e Orçamento e da Saúde. Posteriormente, prefeito e governador da cidade e
do estado de São Paulo e, em 2014, voltou a ser eleito senador.

4
Exemplos delas são as redigidas em resposta ao questionamento de países latino-americanos sobre o impeachment de
Dilma, e a de uma possível revisão do voto brasileiro na Unesco com relação à Autoridade Palestina e ao patrimônio histórico
em territórios palestinos.

5
Nesse sentido, destaca-se que, o declínio da PEB de Dilma não está descolado do contexto de seu governo: além da crise
interna político-econômica e da crise econômica mundial, cabe destacar que as possibilidade de expansão da PEB, depois
do governo Lula, eram pequenas.

6
As informações não referenciadas deste tópico foram retiradas do site do Itamaraty.

7
Segundo o Artigo 49, “é da competência exclusiva do Congresso Nacional1 (I) resolver definitivamente sobre tratados ou
atos internacionais que acarretem encargos ou compromissos gravosos ao patrimônio nacional (Brasil 1988).

Referências
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Elsevier.

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constituicao.htm

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https://www.mundorama.net/2017/01/12/sera-o-fim-dos-projetos-de-cooperacao-sul-sul-brasileira-por-natalia-n-
fingermann/

Faria, Carlos Aurélio Pimenta de. 2012. “O Itamaraty e a Política Externa Brasileira: Do Insulamento à Busca de Coordenação
dos Atores Governamentais e de Cooperação com os Agentes Societários.” Contexto Internacional 34 (1): 311-355. http://
www.scielo.br/pdf/cint/v34n1/v34n1a09.pdf

Lima, Maria Regina Soares de. 2005. “A política externa brasileira e os desafios da cooperação Sul-Sul.” Revista Brasileira de
Política Internacional 8 (1): 24-59. http://www.scielo.br/pdf/rbpi/v48n1/v48n1a02.pdf

Milani, Carlos e Letícia Pinheiro. 2013. “Política Externa Brasileira: Os Desafios de sua Caracterização como Política Pública.”
Contexto Internacional 35 (1): 11-41.

Ministério das Relações Exteriores. 2016. “Discurso do Ministro José Serra por ocasião da Cerimônia de Transmissão do

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Cargo de Ministro de Estado das Relações Exteriores.” http://www.itamaraty.gov.br/pt-BR/discursos-artigos-e-entrevistas/
ministro-das-relacoes-exteriores-discursos/14038-discurso-do-ministro-jose-serra-por-ocasiao-da-cerimonia-de-transmissao-
do-cargo-de-ministro-de-estado-das-relacoes-exteriores-brasilia-18-de-maio-de-2016

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Temer, Michel. 2016b. “Discurso do senhor Presidente da República, Michel Temer, durante Reunião de líderes do BRICS.”
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da-republica-michel-temer-durante-reuniao-de-lideres-do-brics-hangzhou-china.

Recebido em 27 de janeiro de 2017.


Aprovado em 31 de janeiro de 2017.

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Colômbia, Cuba e Venezuela: importância do triângulo para a
estabilidade latino-americana*

Diego Luís Bortoli1 e Katiele Rezer Menger2

• O processo de pacificação na Colômbia, apesar do resultado negativo do plebiscito,


teve seguimento e os pontos estabelecidos no acordo de paz já começaram a ser implantados.
• Cuba aparece como importante ator em dois processos que afetam diretamente a
estabilidade da América do Sul: os diálogos de paz na Colômbia e a continuidade do governo
Maduro.
• A persistência da crise econômica na Venezuela, o crescimento da oposição interna e da
pressão externa e a ascensão de governos de direita na América do Sul trazem incertezas sobre
a continuidade do chavismo.

Apresentação

As negociações de paz do governo como mediador central dos diálogos de paz na


colombiano com as FARC, e o prosseguimento da Colômbia e como principal aliado da Venezuela na
instabilidade do governo Maduro na Venezuela são região. Compreender a relação destes três países,
processos que se relacionam diretamente com a e a sua influência na conjuntura sul-americana, é
estabilidade do subcontinente sul-americano. O central para se projetar os rumos da América do
conflito armado na Colômbia, que já dura 52 anos, Sul num momento em que o ciclo dos governos de
e as políticas chavistas na Venezuela, que tem sido esquerda na região parece chegar ao seu fim.
cada vez mais combatidas pela oposição dentro e
fora do continente trazendo cada vez mais incertezas Processo de pacificação na Colômbia:
sobre a continuidade de um governo bolivariano, resultado do plebiscito e implementação do
são processos cujo desenrolar tem impactos diretos Acordo de Paz
sobre as políticas dos países sul-americanos para
o subcontinente. Cuba se insere nesse cenário, e O resultado do plebiscito que buscava
forma o triângulo que aqui se buscará apresentar, a aprovação popular do Acordo de Paz entre o
como um Estado revolucionário que hoje se coloca governo colombiano e as FARC (Forças Armadas

1 Graduando em Relações Internacionais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Pesquisador Assistente do Nú-
cleo Brasileiro de Estratégia e Relações Internacionais (NERINT). Contato: diegolbortoli@gmail.com

2 Graduanda em Relações Internacionais na UFRGS. Pesquisadora Assistente do NERINT. Contato: katiele.menger@gmail.com


* Com colaboração de Sonia Ranincheski, Doutora em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB) e Pesquisadora do NERINT.
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Revolucionárias da Colômbia), em que o “não” da Colômbia pós conflito.
venceu com uma pequena margem de diferença
(50,2% dos votos), não foi capaz de impedir que Apesar disso, em dezembro de 2016, o congresso
as negociações que desde 2012 vem acontecendo da Colômbia aprovou o acordo de paz revisado,
em Havana resultassem em encaminhamentos que não foi colocado em referendo nacional. Pode-
favoráveis ao fim do que pode ser considerado o mais se dizer que a diferença substancial com o outro
longo conflito armado na América Latina. A partir acordo pode-se dizer que foi o aclaramento de
do resultado negativo o presidente Juan Manuel colocações que antes eram postas de maneira
Santos, que se manteve firme no compromisso de indefinida. Deste modo, aclarou-se, entre outros
levar o acordo adiante, se dispôs a negociar com as pontos, a questão de que as FARC entregarão
FARC a incorporação de algumas das demandas os seus ativos para reparação de danos e quais
dos partidários do ‘não’ no acordo. Concluída essa seriam as punições que os membros das FARC
etapa de revisão e alteração do acordo, este foi poderiam vir a sofrer.
aprovado diretamente no Congresso colombiano e
já começa a ser implementado. A implementação do acordo já mostra seus
resultados dado que o cessar-fogo permanece,
A polarização aguda do resultado do plebiscito, e os guerrilheiros já começam a se mover
somada à baixa adesão da população à votação para as chamadas ‘zonas veredales’, espaços
(apenas 37% da população compareceu à temporários e transitórios definidos pelo governo
votação), é, segundo Atilio Boron (2016), resultado e pelas FARC que englobam acampamentos a
do desgaste das instituições políticas colombianas serem monitorados, onde vai se iniciar a entrega
as quais têm profunda tradição oligárquica e cujos de armas das FARC. O estabelecimento destas
laços com o tráfico de drogas e o paramilitarismo zonas foi feito concomitantemente à garantia do
as trazem baixa credibilidade. Isto, segundo cessar-fogo (Colômbia 2017). Além disso, dada
Boron (2016), pode ser uma das justificativas a aprovação da participação política das FARC,
para que apenas as regiões que de fato foram estas já se organizam para formar um partido.
teatro de operação dos confrontos das FARC e do Conforme explicitado no acordo, enquanto se dá
Estado Colombiano tenham sido os espaços onde sua implementação as FARC ainda não podem
a opção pelo ‘sim’ teve mais de 80% dos votos, se constituir como um partido, ficando então
enquanto os centros em que os conflitos nunca se definido que neste período de transição elas serão
passaram foram os locais de massiva vitória do representadas no congresso pelo agrupamento
‘não’. Os votos desfavoráveis ao acordo vieram, político formado por movimentos sociais ‘Vozes de
em sua maioria, dos espaços onde o conflito Paz e Reconciliação’, o qual terá voz mas não voto
nunca se materializou, favorecendo a criação de e acompanhará a realização do acordo.
concepções fantasiosas sobre o que são as FARC
e qual seria o cenário posterior ao fim do conflito. Os diálogos com o ELN (Exército de Libertação
Álvaro Uribe, ex-presidente colombiano e uma Nacional), segundo maior grupo guerrilheiro do
das lideranças do “não”, fortaleceu a campanha país, seguem em andamento e a etapa pública
carregada de maniqueísmos quanto ao processo de formulação do acordo de paz começará em
de incorporação das FARC à sociedade civil e seu fevereiro, no Equador. O encaminhamento para
reconhecimento como ator político na construção

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esta etapa final das negociações de paz foi foi uma visita histórica ao país.
condicionado pela libertação do ex-congressista
Odín Sánchez, sequestrado desde abril de 2016. Em relação aos Estados Unidos, a Colômbia pode
Firmar um acordo de paz com o ELN é fundamental ser definida como o país da América do Sul com
para o sucesso do acordo com as FARC, dado maior alinhamento com os norte-americanos.
que ambos são os principais grupos guerrilheiros A opção de firmar o Plano Colômbia3 em 1999
envolvidos no conflito armado ao qual o país está no governo Andrés Pastrana (1998 - 2002)
submetido há 52 anos. radicalizou a vinculação política entre ambos
os países e fez da Relação com os Estados
O papel mediador de Cuba e as políticas Unidos o eixo estruturante da política externa
conciliadoras de Juan Manuel Santos nos governos de Pastrana e Álvaro Uribe (2002 -
2010) (Carmo e Pecequillo 2015 p.157). Durante
Nos últimos anos, os irmãos Castro o governo Uribe, se intensificou o combate às
reforçaram a grupos rebeldes de esquerda a FARC, reduzindo a possibilidade de um processo
importância de usar meios mais pacíficos para de diálogo como possibilitador do fim do conflito.
chegar ao poder, esse incentivo ao engajamento Para tal foi implementada a Política de Segurança
no processo político eleitoral, somado à grande Democrática, a qual ficou conhecida por aumentar
credibilidade do país com grupos guerrilheiros e a as violações dos direitos humanos, dado que
sua boa relação com os países da América Latina, houve comprovação de inocentes assassinados
fez de Cuba um importante mediador que angariou por militares para forjar a eliminação de membros
confiança de ambos os lados do conflito armado das FARC (Carmo e Pecequillo 2015).
entre a Colômbia e as FARC. Cuba desempenha
um importante papel no processo de construção Com a chegada de Juan Manuel Santos ao poder, a
do Acordo de Paz (participam também como política da Colômbia em relação às FARC assumiu
mediadores das negociações Chile, Equador, um perfil mais conciliatório e se fortaleceu o
Noruega e Venezuela), dado que parte significativa diálogo como a alternativa mais promissora para
das reuniões do governo com as FARC se deu em a consolidação da paz. Apesar de o país seguir
Havana, local oficial dos encontros. seu profundo alinhamento com os Estados Unidos,
tendo assinado um acordo de livre comércio já
Desde a revolução, Cuba sempre se colocou como negociado desde o governo Uribe com o país,
um player regional e global, e ao fazer parte deste o governo Santos reconhece a importância
processo tão aguardado de pacificação para o qual estratégica da América Latina em suas relações
o mundo voltou os olhos, o país ganha visibilidade e exteriores, tendo se aproximado da UNASUL e
reconhecimento inclusive norte americano de sua reatado as relações com a Venezuela e o Equador
relevância para a paz e a estabilidade na América (Cepik et al 2012). Apesar da aproximação com os
Latina. Cabe ressaltar que em 2014 o presidente vizinhos latinos, a Colômbia segue buscando sua
Barack Obama iniciou o processo de retirada do entrada na Cooperação Econômica Ásia-Pacífico,
embargo econômico ao país, em 2015 o país a APEC, como estratégia de aproximação aos
saiu oficialmente da lista de países considerados mercados do pacífico. O país também buscava o
terroristas do Departamento de Estado Norte- ingresso no TPP, mas com a retirada do Estados
Americano e, no começo de 2016, o presidente fez

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Unidos do TPP a própria continuidade do acordo Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) –,
segue uma incógnita. marcadamente inspirado no Partido Comunista
Segundo Pecequillo (2015), a Colômbia ainda Cubano (Gonzalez 2016, Moreira, Quinteros e Silva
relaciona a problemática com narcotráfico e 2010).
guerrilha nas fronteiras como uma questão de
omissão dos vizinhos, sendo a fronteira com a No plano internacional, a Venezuela de Chávez
Venezuela uma das mais problemáticas, pois além produziu uma diplomacia independente e
da geografia da região que prejudica a presença antissistêmica, promovendo sua inserção
de ambos os Estados na fronteira, os incidentes internacional. Levantando críticas ao
nesse espaço são por vezes instrumentalizados neoliberalismo e às ingerências norte-americanas
na confrontação ideológica entre os países. Esse no continente sul-americano, o presidente se opôs
processo também é resquício do governo Uribe, à implantação da Alca e à intervenção multilateral
que rompeu relações com a Venezuela em razão na vizinha Colômbia, e liderou os esforços regionais
da suposta ligação de Chávez com as FARC. É para unificar as esquerdas latino-americanas em
fundamental a participação venezuelana nos torno de novas instituições. Em 2004, Venezuela e
processos de paz na Colômbia para o fortalecimento Cuba inauguram a Alternativa Bolivariana para os
de uma relação de confiança entre os países e Povos da Nossa América, a Alba, sob o propósito
para a garantia de um trabalho conjunto, dada a de integrar as economias de governos de esquerda
porosidade das fronteiras entre eles e a influência do hemisfério ocidental. Progressivamente,
na estabilidade de ambos que a pacificação da Bolívia, Equador, Nicarágua e diversas nações do
região de atuação das guerrilhas representa. Caribe ingressaram na Alba. Uma das primeiras
iniciativas da aliança foi a criação do Petrocaribe,
Divergências políticas e crise na Venezuela em 2005, por meio da qual a Venezuela passaria
a fornecer aos países-membros petróleo a tarifas
A eleição de Hugo Chávez Frías na reduzidas. Fora da Alba, Chávez apoiou a criação
Venezuela, em 1998, foi emblemática para a crise de organismos regionais que excluíssem os EUA
do modelo neoliberal na América Latina. Valendo-se e o Canadá: a União das Nações Sul-Americanas
das riquezas acumuladas pelo Estado venezuelano (Unasul), em 2008, e a Comunidade dos Estados
com o alto preço internacional do petróleo, Chávez Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), em 2011.
empreendeu uma série de transformações Além disso, sob pressão brasileira, a entrada da
que caracterizaram a chamada “revolução Venezuela no Mercado Comum do Sul (Mercosul),
bolivariana”: ampliou o acesso popular a direitos foi aprovada em 2006 e ratificada em 2012,
básicos, como saúde, educação e habitação fortalecendo o bloco tanto econômica quanto
por meio das “Missões”, promoveu reformas politicamente (Gill 2016, Moreira, Quinteros e Silva
institucionais, redistribuiu renda e riqueza, deteve 2010, Smilde e Pantoulas 2016).
privatizações, reforçou o protagonismo da OPEP
e valorizou o preço do petróleo e aumentou os Chávez notabilizou-se, ainda, pela forte parceria
poderes dos militares. Em 2006, após tentativa com Cuba, seja por laços ideológicos, seja por
de golpe e um referendo revogatório por parte de motivos estratégicos, citando constantemente Fidel
uma oposição conservadora, foi reeleito com mais Castro e a Revolução Cubana como inspirações.
de 60% dos votos e fundou um novo partido – o Ainda anteriormente à implantação da Alba, ele

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assinou em outubro de 2000 o Acordo Bilateral continuidade das manifestações em 2015, não
Cuba-Venezuela, pelo qual forneceria petróleo se observou a mesma intensidade das de 2014
ao país caribenho a preços abaixo do mercado, (Costa, Carvalho e Tancredi 2016, International
em troca do auxílio de profissionais cubanos em Crisis Group 2016).
território venezuelano na implantação das Missões.
Os acordos envolviam a transferência de mais Ao mesmo tempo em que se desenrolavam
de 100 mil barris de petróleo por dia para a ilha as tensões políticas, a economia venezuelana
e o emprego de 45 mil especialistas cubanos na entrava, desde o início da gestão de Maduro, em
Venezuela. Muitos desses especialistas têm servido um período de grande recessão, com seu PIB
nas missões médicas e educacionais no país, contraindo 3,9% em 2014 e 5,7% em 2015. Em
embora o governo cubano também tenha enviado 2013, o aumento da oferta de moeda e os gastos
tropas militares e de segurança, especialistas deficitários do governo, especialmente para a
em inteligência e instrutores esportivos para manutenção de programas sociais, conduziu o país
aconselhamento ao governo venezuelano (Arce e à hiperinflação que o atinge atualmente – neste
Silva 2014, Smilde e Pantoulas 2016, 2). primeiro mês de 2017, ela atingiu a taxa de 800%.
Tais programas, vale dizer, são majoritariamente
Em março de 2013, Hugo Chávez falece em financiados pelas receitas da empresa petrolífera,
decorrência de um câncer. Seu vice, Nicolás a Petróleos de Venezuela S.A., as quais não têm
Maduro assume interinamente a presidência da sido suficientes, especialmente com a drástica
Venezuela, sendo eleito presidente nas eleições queda nos preços internacionais do petróleo a
do mês seguinte. A pequena margem de vitória partir da segunda metade de 2014. A inflação
de Maduro em relação ao candidato da oposição, provocou a desvalorização do câmbio real do
Henrique Capriles, levantou dúvidas em relação país, embora o governo tenha optado por não
à lisura do processo eleitoral, levando a oposição desvalorizar a taxa oficial, sobrevalorizando a
a reiteradamente contestá-lo. A rejeição a tais moeda nacional, o bolívar. A política chavista de
contestações, primeiro por parte do Conselho contenção de preços de bens de consumo não
Nacional Eleitoral da Venezuela (CNE), e depois da duráveis criou incentivos para o contrabando e
própria Suprema Corte venezuelana, reforçaram mesmo para a retenção proposital de produtos por
o questionamento sobre a independência dos empresas. Somado a isso, a limitação venezuelana
poderes em relação ao governo. No ano seguinte, de reservas internacionais tem causado déficits de
uma série de manifestações populares se espalhou moeda estrangeira, o que tem provocado a redução
pelo país. Inicialmente com uma pauta de demanda significativa de importações e, consequentemente,
por maior segurança pública, tais protestos o aguçamento de uma série crise de abastecimento
aumentaram sua popularidade e logo passaram a de alimentos e medicamentos (Costa, Carvalho e
ser liderados pela oposição, abarcando pautas cada Tancredi 2016, Smilde e Pantoulas 2016).
vez mais amplas, desde a corrupção e a crescente
inflação até o suposto intervencionismo cubano no Em dezembro de 2015, após dezessete anos de
país. Houve um acirramento das tensões: mais de derrotas, a oposição conquistou a maioria nas
quarenta pessoas morreram em 2014 em razão eleições legislativas para a Assembleia Nacional
de meses de confronto entre forças de segurança, da Venezuela. O resultado animou aqueles que,
governistas e facções da oposição. Apesar da descontentes com a crise, esperavam mudanças

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na condução da política econômica. A Mesa de la mais radical. Todas as facções do PSUV, apesar
Unidad Democrática (MUD), coalizão vitoriosa, logo de suas divergências, apoiam Maduro, visto que
passou a debater estratégias para a deposição sua deposição implicaria a realização de eleições
de Maduro. Após a Suprema Corte negar a e a quase inevitável derrota do regime como um
possibilidade de uma emenda constitucional que todo. As Forças Armadas constituem outro setor
reduzisse o tempo de mandato do presidente, fundamental à sustentação do atual regime, e a
os esforços da oposição se concentraram na elite que as comanda possui interesse no controle
realização de um referendo revocatório. O governo de qualquer transição que eventualmente ocorra,
de Maduro, em reação, buscou aumentar seus a fim de manter seus privilégios. A repressão sobre
poderes e minar aqueles conferidos à Assembleia as agitações tem recaído, em primeira instância,
Nacional. Para isso, nomeou à Suprema Corte sobre forças paramilitares, como a Milícia
juízes que tivessem ligação com seu governo, de Nacional Bolivariana, criada em 2007. Tais forças
forma a frear diversas decisões tomadas pela têm frequentemente atacado manifestantes da
oposição na Assembleia. A Corte também conferiu oposição e possuem presença nacional. As relações
ao executivo o poder de governar por decretos e entre o governo e o setor privado, por sua vez,
de declarar estado de exceção. Além disso, feito o têm sido hostis desde a tentativa de golpe contra
pedido de referendo revogatório perante o CNE, o Chávez, em 2002. Maduro insiste que os atuais
órgão eleitoral, composto por uma maioria chavista, problemas econômicos do país são decorrentes
impôs atrasos e obstáculos à sua decisão, a fim de de uma “guerra econômica” promovida pelo
que um eventual referendo apenas possuísse como capital privado em parceria com a MUD e aliados
efeito prático a substituição do atual presidente estrangeiros, especialmente os EUA. O número
pelo vice, e não a realização de novas eleições4. No de empresas venezuelanas privadas diminuiu
dia 20 de outubro, decisões judiciais de tribunais substancialmente desde a ascensão de Chávez.
de cinco estados suspenderam o processo para Não obstante, o setor privado é indispensável
a consulta revogatória. Insistentemente, a MUD para que o governo solucione a inflação e a crise
procurou abrir o processo de impeachment de de abastecimento em curso (International Crisis
Maduro, propondo declará-lo “politicamente Group 2016).
responsável” pela crise, mas, sem o apoio de outras
instituições (todas controladas pelo executivo), o Outro ator na crise do país é a comunidade
legislativo não possuía a competência de destituir internacional, a qual tem desempenhado
o presidente (International Crisis Group 2016, importante papel na busca de diálogo entre as
Smilde e Pantoulas 2016). partes conflitantes. As iniciativas conduzidas pela
Unasul são, talvez, o maior esforço multilateral em
Dinâmica da crise venezuelana e suas curso, já que o governo venezuelano e seus aliados
implicações acusam a OEA de ser porta-voz dos interesses
estadunidenses6. Em outubro do ano passado, uma
A dinâmica da crise na Venezuela caracteriza- comissão da Unasul, composta pelo seu secretário-
se por fissuras internas de ambos os lados da geral, o ex-presidente colombiano Ernesto Samper,
disputa. A MUD é uma coalizão heterogênea, os ex-presidentes Leonel Fernández (República
composta por 21 partidos divididos em uma ala Dominicana) e Martín Torrijos (Panamá), o ex-
mais moderada (favorável ao diálogo) e outra chefe de governo espanhol José Luis Rodríguez

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Sapatero, e o Vaticano, instituiu processos de do Mercosul. Em dezembro, o país foi suspenso por
diálogo entre governo e oposição. Os resultados tempo indeterminado do bloco sob a invocação da
foram insipientes, com alguns poucos logros chamada “cláusula democrática” e por ter falhado
como a libertação de presos políticos, além de em adaptar suas regulações econômicas às
interpretações conflitantes a respeito do que tem normas mercosulinas (International Crisis Group
sido acordado (International Crisis Group 2016). 2016). É um tanto precipitado, porém, afirmar que
Em dezembro, acusações de descumprimento dos a Venezuela perdeu sua aceitação e prestígio entre
acordos vindas sobretudo da oposição paralisaram as nações latino-americanas. O apoio de muitos
o processo, inaugurando uma “fase de revisão”. aliados regionais ainda permanece. Na Cúpula do
Neste mês de janeiro, a Unasul apresentou Movimento dos Países Não-Alinhados, sediada na
proposta de relançamento dos diálogos, incluindo Venezuela no último mês de setembro, mais de
o que chamou de mecanismo de “verificação e de 120 países se fizeram presentes, e os líderes de
garantias” para tramitar as denúncias de violação Cuba, Bolívia, Equador e Nicarágua demonstraram
do diálogo. A MUD, no entanto, rechaçou a seu total apoio ao evento e ao governo de Maduro
proposta, afirmando que os diálogos, se mantidos (Gill 2016).
nas condições em que se encontram, não serão
retomados (El País 2017). É difícil predizer como se desenrolará a crise
na Venezuela e o que se espera do chavismo. A
A crise não tardou em produzir efeitos às relações economia não apresentou melhoras neste primeiro
internacionais da Venezuela. Desde 2015, o mês de 2017, e tampouco Maduro tem engendrado
governo reduziu suas contribuições ao Petrocaribe. esforços no sentido de reverter a situação e
Os EUA têm buscado diminuir a influência fortalecer a moeda nacional. Os prospectos para
venezuelana no Caribe preenchendo o vácuo uma solução negociada são fracos, e a esperança
energético deixado pelo Petrocaribe e promovendo de muitos ressurge apenas com a perspectiva das
a energia limpa na região. A histórica parceria eleições presidenciais de 2018. Na população,
entre Venezuela e Cuba, por sua vez, demonstra percebe-se que o descontentamento com o
arrefecer-se. Os carregamentos diários de petróleo chavismo não se traduziu necessariamente
venezuelano subsidiado à ilha se reduziram no massivo apoio à oposição. De fato, muitos
pela metade desde 20137. Com a diminuição do venezuelanos alimentam desconfianças dos
petróleo venezuelano, o governo cubano também dois lados do embate. A herança dos anos
está reduzindo seu lado na barganha, convocando Chávez conferiu voz a populações historicamente
o retorno dos profissionais cubanos que ajudaram marginalizadas da vida política do país, a tal
a tornar Chávez tão popular (Kurmanaev 2016, ponto que a cultura socialista que se desenvolveu
El País 2016). Na América do Sul, a vitória de dificilmente se esvaziará quando o PSUV não mais
Mauricio Macri nas eleições argentinas de 2015 e estiver na presidência (Gill 2016).
os impeachments de Dilma Rousseff no Brasil, em
2016, e de Fernando Lugo no Paraguai, em 2012, No nível regional, os tradicionais aliados ideológicos
tornam claro o avanço da direita e a consequente do governo venezuelano continuarão a oferecer
deterioração da relação do regime chavista com suporte retórico. Aliados mais periféricos, no
esses países. Em setembro de 2016, a Venezuela entanto, cuja aliança fora forjada pela capacidade
foi impedida de exercer a presidência pro tempore venezuelana de auxiliá-los economicamente, podem

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começar a demonstrar sinais de distanciamento colombiana, ainda alinhada ao norte, começa
do país. Inspiração para a revolução bolivariana, a dar para os vizinhos sua devida importância.
Cuba mantém sua “solidariedade revolucionária” Cabe aguardar a relevência que espaços como a
com o regime de Maduro, ao qual Raúl Castro UNASUL assumirão a partir de então e como os
recentemente se referiu como “governo legítimo”. Estados Unidos seguirão operando no país com a
Não obstante, a queda na capacidade da extinção do combate à guerrilha.
Venezuela de fornecer petróleo e finanças à ilha,
aliada à morte de Fidel Castro, pode comprometer A Venezuela, que apoiou Cuba no incentivo
a relação simbiótica desenvolvida entre os dois à decisão das FARC de deixar a guerrilha e
países. Apesar da recente abertura econômica concordar com um processo de paz negociada,
de Cuba, a parceria estratégica venezuelana é também se insere como importante ator neste
de vital importância à ilha, especialmente em um acordo, dada a porosidade das fronteiras com a
momento em que a política externa de Trump Colômbia e a responsabilidade do país em auxiliar
impõe dúvidas. O potencial mediador desenvolvido no cumprimento do acordo.Com a continuidade
pela diplomacia cubana pode reservar no futuro da crise político-econômica na Venezuela, e a
uma solução criativa à crise na Venezuela. Com dificuldade de manter os princípios do chavismo
os ganhos da direita no hemisfério, por fim, em um ambiente cada vez mais conturbado por
Caracas deve enfrentar maior pressão estrangeira, pressões internas e externas, o país tem em
especialmente dentro das organizações regionais, Cuba seu parceiro ideológico a quem interessa a
que até então se mantinham silenciosas quanto manutenção e a estabilidade de um governo com
aos problemas político-econômicos enfrentados princípios alinhados. Todavia, a crise do modelo
pelo país (Gill 2016, International Crisis Group bolivariano, somada à ascensão de governos
2016). de direita em toda América do Sul, enfraquecem
as possibilidades de a Venezuela estabilizar-se
Considerações finais nos moldes que segue hoje e simultaneamente
fortalecer as bases da esquerda no cone-sul.
A implementação do acordo de paz na
Colômbia, apesar da polarização do plebiscito, A democracia, a paz e a estabilidade econômica
é um marco no fortalecimento da estabilidade são os pontos que o triângulo Colômbia, Cuba
da América do Sul. Finalizar o conflito armado e Venezuela precisa alcançar para possibilitar
mais longo do continente aponta para um novo seu desenvolvimento. Como se analisou, os três
capítulo na região conhecida como o ‘arco de países se afetam quando um desses pontos não é
crises andino’. Além disso, a possibilidade de atingido. Na sequência, sua instabilidade inviabiliza
reconhecer as FARC como ator político, a ser o avanço das instituições sul-americanas rumo
formalizado futuramente em um partido, enseja a consolidação do desenvolvimento da região.
o fortalecimento da democracia colombiana e É preciso que as instituições construídas para
a ampliação de sua representatividade em um viabilizar a paz e estabilidade da América do Sul,
país com sistema político ainda tão arraigado como a UNASUL, dêem a relevância necessária
em tradições oligárquicas. A presença de países às questões da paz na Colômbia e à crise político-
latinos no processo de negociação, com destaque econômica na Venezuela. Caso contrário, corre-se
para Cuba, também aponta que a política externa o risco de a inoperância dos países sul-americanos

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em priorizar a solução das crises no subcontinente
abra um espaço cada vez maior para atores externos
aqui se projetarem e nos trazerem soluções não
condizentes com os interesses regionais.

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Notas
3
Plano de ajuda militar-financeira elaborado pelos Estados Unidos a fim de combater a produção e o tráfico de cocaína, bem
como guerrilhas de esquerda, no território colombiano.

4
No dia 11 de abril daquele ano, Hugo Chávez foi levado preso após confrontos próximos ao Palácio de Miraflores, enquanto
Pedro Carmona, dirigente da confederação empresarial venezuelana (Fedecámaras), assumiu o poder e dissolveu as
instituições nacionais. O golpe foi fugaz: em dois dias, contando com apoio popular e de parte do exército, Chávez foi libertado
e reassumiu o poder.

5
Se Maduro tivesse sido derrotado em um referendo revogatório realizado antes de 10 de janeiro deste ano, novas eleições
presidenciais teriam sido realizados, oferecendo à oposição a oportunidade de pôr fim aos quase dezoito anos de regime
chavista na Venezuela. A sua derrota em um referendo realizado após essa data simplesmente resultaria na transferência do
poder ao vice-presidente Tareck El Assumi, que Maduro nomeou no início do mês (Huffington Post 2017, online).

6
O secretário-geral da OEA, Luis Almagro, tem constantemente declarado sua preocupação a respeito do regime venezuelano,
insistindo na aplicação da Carta Democrática Interamericana. Em agosto, quinze membros da OEA assinaram declaração
pedindo não só o diálogo, mas que também o CNE não atrasasse as etapas do processo do referendo revogatório (International
Crisis Group).

7
Em novembro de 2016, Cuba teve de comprar petróleo do mercado aberto pela primeira vez em 12 anos em razão da
queda das exportações venezuelanas. Ao mesmo tempo, o país anunciou ter entrado em recessão ao registrar pela primeira
vez em duas décadas uma queda de 0,9% do PIB em 2016, desempenho negativo explicado em grande parte pela crise na
Venezuela (Kurmanaev 2016, El País 2016).

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Recebido em 27 de janeiro de 2017.


Aprovado em 31 de janeiro de 2017.

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The Rise of Donald Trump: perspectives for the United States’ foreign
and security policies*
Guilherme Thudium1 and João Paulo Alves2

• After a turbulent election campaign, Donald Trump rose to the presidency of the United
States promising to develop a new foreign policy direction for the country.
• The prospects raised for the Trump administration point to a resumption of nationalism
and unilateralism in the international sphere, as well as relative isolationism.
• Bilateral relations with China promise to undergo a process of economic and diplomatic
deterioration, but a “trade war” would be counterproductive for both countries.

Presentation

On January 20th, 2017, Donald J. Trump the main lines that should be adopted in foreign
took office as the 45th President of the United and security policy. In order to do so, we sought
States of America. The New York real estate to use recent analysis of consolidated international
billionaire, who had never held public office before, relations scholars and strategists, many of them
beat Democratic Party candidate Hillary Clinton Americans, for this purpose.
as the successor of President Barack Obama
(2009/2016). In order to analyze the possible It is hypothesized that the possible approaches of
diplomatic strands of a Trump government, it is the new foreign policy of the Trump administration
necessary to look briefly at the unique trajectory aim to redefine the role of the United States in the
that led him to occupy the highest position of the changing world system, bringing with it unavoidable
only superpower of the contemporary world system. consequences for other major powers. Before
the final considerations, in this sense, the article
At the outset, in this perspective, we sought to presents perspectives for the bilateral relations
outline Trump’s trajectory to the presidency of the with China, considering the economic, political and
United States, focusing mainly on the electoral security dimensions involved.
campaign initiated in June 2015. Next, aware of the
difficulties of making short-term projections in the The rise of Trump
current scenario, and of the sometimes demagogic
nature of the new administration, we seek to identify Analyzing the election of Donald Trump, the current

1 Master candidate in Political Science at the Federal University of Rio Grande do Sul (UFRGS), in the research line “International Po-
litics and Defense”. Research Assistant at the Brazilian Center of Strategy & International Relations (NERINT). Contact: guilherme.thudium@
ufrgs.br
2 Undergraduate student in International Relations at UFRGS, in academic mobility at the University of Texas at Austin. Research
Assistant at NERINT. Contact: joaop.ma22@gmail.com
*With the collaboration of Cristina Soreanu Pecequilo, PhD in Political Science from the University of São Paulo (USP) and Research Asso-
ciate at NERINT.
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president is the first in the history of the United The 2016 elections were also marked by polarized
States to reach the White House without any disputes and divergent views about the United
previous political experience or military service. States and its role in the post-Cold War world
Trump was the 19th President elected by the system. Although the country is undergoing a
Republican Party, but he has made clear from the process of economic recovery, leaving behind the
start of his campaign that his political views for 2007/2008 recession, pre-candidates from both
the United States, whether internal or external, do parties – with the exception of Hillary Clinton, who
not necessarily align with the majority ideological advocated the continuity of Barack Obama’s legacy
strands among Republicans. – pictured a country under deep economic, political
and strategic crisis (Pecequilo 2016a). And while
For that very reason, Trump had to defeat not there is already an ongoing reaction that questions
only Democrats during his campaign, but also, to the declining predictions of US hegemony, with
a certain extent, the Republican political doctrine measures to contain nations such as China, Russia,
itself. Ted Cruz, a Senator from Texas and his main Brazil and India (Pecequilo 2016a), the candidates’
opponent during the primaries, refused to support own slogans reflected a reactive trend: ‘Make
Trump as the Republican candidate against Hillary America Great Again’ (Trump), or ‘A New American
Clinton, even after defeated. Movements like Century’ (Rubio), for example, can be seen as
“Never Trump” (or the Stop Trump Movement), hegemonic and foreign policy manifestations.
organized during the primaries by Republican
political figures, including former presidential It is undeniable, however, that the United States
candidate Mitt Romney, among other conservative has social and economic problems. Thus, Trump
organizations, highlight the strong political concentrated his speech to reach the middle-class
divide caused by the rise of Donald Trump in the worker electorate, promising to bring jobs back
Republican Party. The election campaign that led to the United States. Trump managed to mobilize
the Republicans to the presidency was also marked a neglected and underrepresented slice of the
by strong disagreements with the Speaker of the electorate, and pushed its agenda to the top of
United States House of Representatives, a leading the country’s priorities (Fukuyama 2016). In doing
Republican Party politician, Paul Ryan. so, he has identified real problems in American
politics: growing inequality, which has hit the old
Trump built his campaign backed by an extremely working class very hard, and the capture of the
critical rhetoric of the American establishment, political system by well-organized interest groups
including his own party. The current president has (Fukuyama 2016), as well as increasing violence,
always made a point by staying on the sidelines of crime rates and drug trafficking – what Trump
‘traditional’ politics, “and behaves, ever since he even denounced as a ‘carnage’ taking place in the
became a pre-candidate, as if he were in a reality country.
show” (Pecequilo 2016a). Trump synthesized the
image of an outsider – as did Bernie Sanders, Over the past 20 years, the United States has
Hillary Clinton’s adversary in the Democratic experienced massive de-industrialization, with
primaries – that will bring order and prosperity to the evasion of assets and capital to Mexico and
Washington, managing the country as a company China. Moreover, increasing automation of the
(Pecequilo 2016a). industry, following Asian developments in this

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field, and Barack Obama’s environmental policies, time, the entry of Muslims into the country3. This
especially in his second term, set a scenario in provision, by its turn, is backed by policies promoted
which it will be extremely difficult for Trump to keep by American foundations and think tanks such as
his promises related to the economy and reduction the Center for Security Policy, led by former Reagan
of unemployment. In foreign policy, despite the administration defense official Frank Gaffney,
seemingly retractive speech, Trump defends the appointed as a member of the Trump government.
resumption of the leading role of the American According to political scientist Cristina Pecequilo
Armed Forces. This provision, however, if added (2016a), “Trump externalizes the problems of
to the tax reduction policies that he intends to the country, blaming not only politicians, but also
implement, can lead to more economic problems, immigrants, terrorists, Mexicans and Chinese.”
such as an increase in inflation.
In 1987, Trump spent $ 100,000 to publish a
Politicians and journalists, however, sometimes full-page commentary on three top United States
criticize Trump solely because of his personality, newspapers – the New York Times, the Washington
and end up making the mistake of discrediting any Post and the Boston Globe – in which he summarized
depth and consistency to his speech, especially his main critics of the county’s foreign and defense
regarding international politics. The genesis of policies (Wright 2016a). It is noteworthy that,
Trump’s foreign policy is based on a critique of contrary to what may be assumed, some of Trump’s
the diplomatic lines set by the United States since positions are not new or ephemeral – and the
the end of the Cold War, as well as the notion of same can be said of his presidential aspirations. In
a ‘weakened America’ at the international level, the same year of 1987, Trump considered running
a subject long explored by neoconservatives and against George H. W. Bush in the Republican ticket
a recurrent topic since George W. Bush’s 2000 for the 1988 elections, and, in 1999, Trump was
presidential campaign. Trump argues that many persuaded by the governor of Minnesota, Jesse
countries allied with the United States have for Ventura, to run for the Reform Party of the United
decades been taking advantage of its leadership, States in the 2000 elections, in what was his first
costing Americans billions of dollars to protect official presidential campaign. Trump, however,
ships and transport resources that it does not need withdrew his candidacy on 14 February 2000,
to allies who do not reciprocate those efforts. He criticizing the party’s lack of ideological cohesion.
advocates the imposition of a ‘global tax’ for rich
nations that take advantage of the United States’ The presidential election of 2016 was held on
military presence in order to reduce the country’s November 8, a Tuesday, as it has been determined
internal debt and boost economic growth. by the United States electoral legislation since
1845. Against all odds and forecasts which pointed
Among all polemic opinions of the billionaire in the towards Hillary Clinton’s victory – Moody’s (CNN
course of his campaign, however, some of the most 2016a), Nate Silver (FiveThirtyEight 2016), The
controversial are due to the migratory restrictions New York Times (2016) etc. –, Donald Trump
that he intends to implement. The newly elected emerged victorious in most of the major states
president plans to build a wall on the border with that compose the American electoral college,
Mexico – and compel the Mexicans to pay for it –, totaling 304 delegates against 227 of Hillary
the main economic partner of the United States. Clinton. Clinton, however, would win the election by
Trump also said that he would ban, for an indefinite the popular vote, with 65,844,610 votes against
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62,997,663 of Trump. The difference margin of Much has been said that the Trump presidency can
2.8 million is the highest in the country’s history be marked by isolationist practices. His America First
– Donald Trump has lost in number of votes by discourse, however, suggests a rather nationalist
a greater margin than any president in the history approach that seeks to promote the interests of the
of the United States of America (The Independent nation where they are threatened, while at the same
2016). time restricting interventionist practices, over an
isolationist approach in the historical sense of the
The inauguration of Donald Trump as the 45th term (Kaspi and Tolouse 2016). For Robert Kaplan
President of the United States occurred on (2017), “militant interventionism, which ignores
January 20, 2017, and he did not take long to the pressing needs of the continental interior”, is
start implementing his strategic plan of ‘putting “just as absurd as an isolationist approach” in the
America First’, whether domestically or in foreign 21st century. The US, in this sense, has a historical
policy. In the next section, we will seek to outline need to project its power and must not refrain from
perspectives as well as the tendencies that point “the global responsibilities of a maritime nation”
to the resumption of nationalism and unilateralism (Kaplan 2017). Trump’s political views have
in his administration. already been compared to 19th-century “high-
tariff protectionism and every-country-for-itself
Perspectives for foreign and security policies mercantilism” (Wright 2016a); for André Kaspi
(2016), however, “Trump is basically a pragmatist
Over the past twenty-five years, the United who cares very little for doctrinal reflections.”
States has pursued a policy of liberal hegemony,
which calls for the promotion of democracy around As a way to better understand the doctrinal
the globe by “toppling regimes and then doing character and the diplomatic lines that can be
nation-building” (Mearsheimer 2016). At the adopted during the Trump administration, we will
same time, “debates about the extent to which briefly examine the main officials chosen by Trump
the United States should use its power to lead and to lead the foreign policy, security and defense
shape events around the world, and when and how agendas.
it should intervene, are eternal in American history”
(Kaplan 2017). Trump, in this sense, challenges Throughout his campaign, Trump engaged in open
the core foundations of America’s powerful foreign confrontation with American intelligence and
policy community, promising to develop a new security agencies, especially the CIA, promoting
foreign policy for the country (Mearsheimer 2016). disrepute in these and other institutions, which
He criticizes the costs and efforts demanded by Fukuyama (2016) accounts as one of the main
the status of world policeman, as well as its side symptoms of the American political decay. Trump’s
effects, something already recognized by Barack candidacy, however, was backed by leading
Obama during his last Discourse on the State of the figures from another major intelligence agency
Union, in 2016. For Mearsheimer (2016), liberal in the United States, the Defense Intelligence
hegemony is a “bankrupt strategy”, and Trump can Agency (DIA), specialized in defense and military
leave behind a positive legacy in terms of foreign intelligence. Michael Flynn, retired general who
policy if he chooses to embrace a realistic foreign served as Director of the agency between 2012
policy approach. and 2014, was even considered as a possible vice

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president. Trump, however, ended up choosing the Putin himself. In 2013, Tillerson was honored by
Indiana Governor Mike Pence, and naming Flynn Putin with the Order of Friendship of the Russian
as National Security Adviser. Federation, reinforcing the relation between the
magnate and Moscow.
As a way to further strengthen the link with the
United States military, he named the retired US Trump does not seem to share the automatic
Marine Corps general Jim Mattis as Secretary Western indisposition towards the Russian country
of Defense, as well as the former military and and its assertive foreign policy, which bothers
Republican deputy, member of the Tea Party, strategists in Washington. A less conflictive
Mike Pompeo, to head the CIA. For the top foreign diplomatic relationship, however, may be beneficial,
policy post, however, Trump chose Rex Tillerson, for example, to reach an agreement on the Syrian
the businessman and chief executive officer of the conflict, which was not possible during the second
American oil and gas giant, ExxonMobil. Trump has term of the Obama administration. Along these
been widely criticized by Republicans and analysts lines, Mearsheimer (2016) and Brzezinski (2017)
for these and other choices, which, they argue, agree that it was the United States who precipitated
do not adequately fill the important positions that an unnecessary crisis with Russia that upset the
must be appointed by the President, generating a peace in Eastern Europe, provoking a series of
negative impact on the organization of the country’s reactions from Moscow.
national security structures (Boot 2017).
If, on the one hand, there are prospects for an
In addition, these choices give way to a series of improvement in bilateral relations with Russia,
political disputes within his administration when it below we will analyze the indications that suggest
comes to foreign policy. The Trump administration, a more turbulent relationship, either from the
it is argued, will take office with two perspectives economic or diplomatic-security point of view, with
in the ascendant – “Trump’s version of America another great power of the world system, China.
First, and those who want to wage all-out war
against radical Islam” (Wright 2016b). For Thomas Trump and China4
Wright (2016b), while Trump’s pragmatic and
neoisolationist rhetoric, coined by Secretary of One of the most striking features of Donald Trump’s
State Rex Tillerson, advocates for the revisionism of positions concerns his views on China, a constant
trade agreements and security alliances, the group in his speeches during the primary and final
led by Michael Flynn sees Trump “as a means of elections. In this sense, there is a continuation of
waging the war on terror, but they do not fully buy the Asia-Pacific orientation, but more aggressively,
into the rest of his worldview” (Wright 2016b). In through a Burden-Sharing5 balancing process.
addition, Trump also defends the restructuring and In the following, we will briefly apply some of the
increase of the nuclear capabilities of the United perspectives already introduced on Trump’s
States, signalizing for a new arms race. economic, political and security visions to the
bilateral relations between the United States and
Tillerson’s choice, by its turn, was harshly criticized China.
because of the close ties of the businessman and
his companies with Russia, the world’s second- In the economic dimension, Trump follows his
largest oil producer, and President Vladimir largely unorthodox and critical systemic approach,
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focusing on the domestic problems of the United Guardian 2016, Navarro 2016).
States, and using them as a beacon for their
respective international actions – in his own words: In concrete terms, the unfair trade practices
“Americanism, not globalism, will be our belief ... mentioned above would be the true culprits –
It all starts with a new and fair trade policy that unlike the traditional cheap labor argument – of
protects our jobs and holds our stance against China’s comparative advantages in the global
countries that cheat – and there are many [...] market. According to their assessments, the
Our terrible trade agreements with China and so domestic effects of this situation included rising
many others countries will be fully renegotiated” unemployment, falling revenues, and the loss of
(Washington Post 2016). His anti-globalization approximately $300 billion in patents. In response,
discourse takes advantage of a worldwide trend in Trump and Navarro argued in favor of adopting
this direction to criticize initiatives such as NAFTA, protectionist (supposedly “defensive”) economic
TPP and TTIP – free trade agreements between policies for US-China trade, nominally through
the United States and North America, Asia Pacific 45% tariffs on Chinese imports, paving the way to
and Europe, respectively. Surprisingly, he was in a possible deterioration in their bilateral relations
agreement with Hillary Clinton in her criticisms (Navarro 2016). At the World Economic Forum
of some of these initiatives, such as the TPP, for in Davos, in 2017, Chinese President Xi Jinping
facilitating the entry of competing products, and indirectly criticized – without even citing the
advocating for bilateral trade agreements with a United States or Donald Trump – the protectionist
clear preference for protectionist options. On his positions indicated recently, defining himself as “a
first week as acting President, Trump signed an communist leader, champion of globalization and
executive order determining the withdrawal of the free -market” (The Economist 2017).
United States from the TPP, an agreement which
was not yet ratified by the American Congress, As president-elect, Trump overcame the economic
interrupting the entire political process. layer and began to address political and diplomatic
issues with greater impact on international
The rhetoric of the then-presidential contender relations. In December 2016, Trump made a
continued towards the People’s Republic of China, phone call of a few minutes to Tsai Ing-Wen,
with its claims that China’s entry into the World the Taiwanese president elected in May 2016,
Trade Organization in 2001 initiated a “trade breaking with a protocol of decades, and making
war” between China and the United States, which room for a triangular approach in the region. He
Americans were supposedly losing. Along the same then stated: “Has China ever asked the United
lines, one of Trump’s main political advisors, Peter States whether we are comfortable with its
Navarro, established three central pillars of this currency devaluation (which makes it more difficult
economic conflict, directing his criticisms about the for our companies to compete), with its taxation on
Chinese position: first, forced exchange devaluation our products (whereas the United States does not
policies; second, illegal dumping practices for tax their products) or with its massive construction
expansion of market shares; and third, the alleged of military complexes in the South China Sea?
intellectual property theft operations. Violations I do not think so!”6. These attitudes highlight the
from that country, “increasingly worse and more so-called Taiwan Card as a diplomatic device of
institutionalized”, would be responsible for trade Washington’s pressuring strategy over Beijing, in
deficits and slowing American national growth (The contrast to the One China Policy adopted since
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the bilateral rapprochement in 1979. Considering
Taipei as an extremely significant point in China’s Finally, the security dimension is seen as an
grand strategy, there is the perceived attempt to essential feature for the defense of American
create uncertainty, which could provide a certain interests in the region, and it is fundamental to
margin of maneuver for Americans (Baker 2016). observe the continuing process of direct and
indirect militarization. This way, Trump underscores
The controversial call has spurred analyzes of media his commitment on working with Congress to
outlets and research institutes across the globe, restructure and expand the US Armed Forces,
resulting in differing opinions as to its effectiveness especially the US Navy and the US Air Force towards
in diplomatic terms. On the one hand, conservative 350 vessels and 1,200 aircraft (essential for the
authors such as Marc A. Thiessen (2016) defend conduction of Freedom of Navigation Operations):
the thesis that the call was a thoroughly planned “We will completely rebuild our Armed Forces
and ultimately brilliant action. This is because it [...] History shows that when the United States is
would be a simultaneous message to the Chinese unprepared, it is when it is at the greatest risk. We
and American establishments, as well as the first want to deter, avoid and prevent conflicts through
step in a broader effort to stiffen Sino-American our unquestionable military dominance” (CNN
relations. On the other hand, liberal authors 2016). Therefore, the newly elected President
criticize the position of the president-elect through will seek to work together and coordinate with his
the allegation of inexperience in the conduct of traditional military partners in East Asia, such as
the country’s foreign relations. According to this South Korea, India, Japan, Myanmar and Vietnam
view, the connection and the breakdown of the – as well as co-opting once again with remote
diplomatic status quo, especially as it is a matter countries such as the Philippines, Thailand and
as sensitive as Taiwan, may be accompanied by even Taiwan (Gray and Navarro 2016).
retaliation in the medium and long term.
This aspect is of primary importance insofar as
The action has had a significant impact on the there is a clear allusion to China’s A2 / AD (Anti-
Chinese position, signaling for possible movements Access / Area-Denial) capabilities. This concept
of response or retaliation. In broader terms, the new refers to China’s military capabilities to control
approach may be detrimental to the United States and defend its strategic environment – nominally
because it creates a spectrum of unpredictability the East China Sea and especially the South China
as a partner (for politics and trade) in the region, Sea –, as opposed to the indiscriminate access
with China taking advantage of that loophole to of foreign navies. At this point, Trump has made
expand its strategy of regional influence through a stern statement, criticizing the latent threat of
the Asian Infrastructure Investment Bank (AIIB), Chinese interference in US presence and navigation
the Shanghai Cooperation Organization (OCX) in the region, whether through the construction of
and the Comprehensive Regional Economic artificial islands with defensive weapons systems,
Partnership (RCEP). More directly, analysts at or through patrol and monitoring activities (Sputnik
HSBC and JPMorgan point out that his actions 2016).
may affect bilateral ties for inciting Chinese tariff
retaliation over American goods and services, In response to the new administration’s recent
damaging companies operating inside and outside articulations, the Global Times, China’s state
the country. owned foreign policy vehicle, has directed harsh
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Bol. Conj. Nerint | Porto Alegre | v.1 n. 4 | p. 1-91 | jan/2017 | ISSN: 2525-5266
criticism towards Donald Trump’s actions in an reversed by Trump through executive orders. The
article entitled ‘Trump overestimates U.S. capability shock, however, should not be complete, but more
to dominate the world’. The journal criticizes, in an protectionism and unilateralism is to be expected
extraordinarily direct and incisive way, distinct from (Pecequilo 2016b) within a framework of triumph
the traditional Chinese modus operandi, the way in of ‘neonationalist’ policies over neoliberalism
which Trump fails to understand the limitations of (Blyth 2016) and globalization.
the United States’ power, while despising China’s
strategic importance. The equally provocative Trump’s isolationism, however, should be relative,
critique is summarized as follows: “After decades since the idea of putting America First implies a
of development, China’s vital interests have not certain global economic-strategic presence that
expanded much, but its ability to control risks in will not be abandoned, either by the desire to
the Strait of Taiwan and the South China Sea has protect hegemonic interests or by the pressure of
grown significantly […] It will be a decisive battle the interest groups of the energy sector and the
for Beijing to safeguard its vital interests. If Trump Military Industrial Complex (Pecequilo 2016b).
wants to play hard, China will not fail “(Global Times
2016). At the domestic level, it’s important to pay attention
to the migration policies that Trump intends to
Donald Trump seems to point to the planning of a implement, which will generate strong impacts on
major inflection in the country’s strategy towards the large share of immigrants living in the United
the Asia-Pacific region, but that also presents itself States and the bilateral relations with Mexico itself.
as a paradox in terms of effective insertion. Trump’s In foreign policy and defense, the likely resumption
actions in the three fields of international relations of a strategy to contain radical Islamism must
hold their respective reactions. On the one hand, be carefully observed, one of the main security
they can put the country in significant strategic perspectives raised for the Trump administration.
advantage in this current “arm-wrenching” if they In addition, Trump has already signaled that it
actually function as bargaining mechanisms for will re-equip the US military, including its nuclear
shrinking Chinese positions in these camps. On the capabilities, and appears to have little tolerance
other hand, they may negatively affect their image for dealing with such threats, like the ones coming
vis-à-vis other Asian countries – especially with the from North Korea.
cancellation of the TPP and the cooling of the TTIP
negotiations – in order to bring them closer to the Bilateral relations with China promise to undergo a
Chinese counterpart. possible deterioration, but a trade war with Beijing
would be counterproductive for both parties,
Final Considerations whose economies are complementary. From
the diplomatic point of view, Trump seems to be
Regardless of what has been said in the applying the Nixon technique in reverse, as Henry
course of his campaign, Donald Trump rose to Kissinger pointed out: Nixon made a deal with
power legitimately and as a product of both the China in order to weaken Russia, whereas Trump
contradictions of the Barack Obama era and of the seems to be making a deal with Russia in order
fragmentation of the Republican Party, a legacy to weaken China (Wallerstein 2017). Neither China
of George W. Bush (Pecequilo 2016). Much of nor Russia, however, are showing signs of backing
Obama’s own political legacy, in this sense, can be down from their current policies – Russia is once
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again a major power in the Middle East and in
the whole ex-Soviet world, and China is slowly but
surely asserting a dominant position in Northeast
and Southeast Asia, and increasing its role in the
world system (Wallerstein 2017). The United States
needs to rethink some of its perceptions of both
Russian and Chinese power.

Trump’s election and the US-China dispute may


also present a “breach” for Latin America (Stuenkel
2016). Brazil, however, in the geopolitical world of
Donald Trump, seems to have been re-classified as
a secondary nation. The new Brazilian diplomacy,
in this sense, is wrong to pursue a policy of
alignment with the superpower in the detriment of
its autonomy.

Finally, it’s important to highlight that Trump, after


all, is not a point so “off the curve”. The Donald
Trump phenomenon, rather than mystified, must
be examined and understood as a new way of
doing politics, which is embedded in a global
context of distrust and general dissatisfaction with
the traditional political system.

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Notes

3
Such promises were fulfilled in his first week as de facto president. On January 27, Trump signed a controversial
executive order that forbids the entry of refugees in the US for 120 days, as well as immigrants from seven countries
in the Middle East and Africa: Iran, Iraq, Syria, Sudan, Libya, Yemen and Somalia. The president, in this sense,
seems to have already established his own – expanded – version of George W. Bush’s “Axis of Evil.”

4
We are grateful for the contributions made by Professor and Research Associate of NERINT, Diego Pautasso,
during the lecture “Trump and China: prospects for bilateral relations”, held by the South American Institue for
Politics and Strategy (ISAPE), in partnership with the Center of Strategic Studies of the Brazilian Southern Military
Command (NEE/CMS) on Dezember 15, 2016.

5
The notion of Burden-Sharing concerns a concept of International Relations that corresponds to a state balancing
strategy, against regional hegemonic powers, by dividing responsibilities and costs with local partners.

6
Donald Trump, Twitter post, December 4, 2016 (14:23 BRST), https://twitter.com/realDonaldTrump.

7
According to Article 49 of Constitution, “is the exclusive competence of the National Congress (I) definitively
resolve on treaties or international acts that give rise to charges or commitments to Brazil’s national wealth (Brazil
1988).

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com/2016/12/14/trumps-team-of-rivals-riven-by-distrust/

Received on January 27, 2017.


Approved on January 31, 2017.

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The Contemporary Russophobia: who is afraid of Moscow?*
Douglas de Quadros Rocha1 and Francine Juchem Salerno2

• After redirecting its foreign policy towards the Middle East, Russia is now an essential
actor in the geopolitics of the region.
• The adoption of an assertive foreign policy by Moscow is a response to the expansion
of Western organizations (NATO and the European Union) towards the countries of the former
Soviet world.
• Due to the Russophobic character of the Western containment strategy, Russia has sou-
ght new allies and consumers among Asian countries.

Presentation

A well-known aphorism states that those of a new form of “Russophobia” in recent years
who do not know history are bound to repeat it. – different from the anti-Soviet sentiment that
From the euphoric thrust of the Romanov dynasty existed throughout the Cold War, but equally
in the seventeenth century, to Mikhail Gorbachev’s useful to Washington’s geostrategic project. In the
reference to the “European common house” in years following the collapse of the Soviet Union,
1987, Russian history must be understood by the severe disruption in Russia left the country
its relations with the Western world. The recent absorbed in its own crisis, unable to resist US and
memory of the collapse of the Soviet Union – which European investment in its strategic environment.
vehemently rejected Western values in almost all The expansion of NATO and the European Union
its aspects – must not obscure the fact that Russia towards the east of the continent faced effective –
has always sought to be accepted into the concert and not just rhetorical – resistance by Moscow only
of nations. The systematic denial of its power from the beginning of the twenty-first century, when
status by Europe and later by the United States is the rise of political leaders engaged in implementing
a key factor in understanding events that seem so an autonomous international insertion project
far apart as the Crimean War (1853-1856) and its allowed the recovery of the country’s military
annexation by Russia in 2014. capabilities.

The other side of this coin is the historic rejection This article seeks to understand how the policy
of the Russian state by the West and the spread of containment of the Russian Federation,
1 Undergraduate student in International Relations at the Federal University of Rio Grande do Sul (UFRGS). Research Assistant at
the Brazilian Center of Strategy & International Relations (NERINT). Contact: douglasqrocha@gmail.com
2 Academic specialization student in Strategy and International Relations at UFRGS. B.A in Law at UFRGS. Contact: francinesaler-
no@hotmail.com
* With the collaboration of Paulo Gilberto Fagundes Visentini, PhD in International Relations from the London School of Economics and
Coordinator of the Brazilian Center of Strategy & International Relations (NERINT).
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inadvertently practiced by the United States and places the country as a relevant extra-regional
its European allies since the end of the Cold actor in the Middle East.
War, has created conditions for the rulers of the
Russian state to legitimize a more assertive foreign In geostrategic terms, the Middle East connects
policy in its strategic environment and in the important portions of the Asian, European and
Middle East. We start from the premise that the African continents and serves as a gateway to the
Western desperation to politically isolate Moscow, Mediterranean, Black and Indian seas. Since the
reproducing some sort of Iron Curtain of the new end of the Cold War, the region has been under
millennium, shows that the Russian state remains strong Western influence, especially the United
insensitive to attempts of subordination, and States, creating conditions for the US military
grants Moscow the political conditions to resist presence and the achievement of a series of wars
the pressures of the West, especially the United fought in the name of combating terrorism. After
States. To this end, the present essay is subdivided the wars in Afghanistan and Iraq, the presence and
into three sections that roughly correspond to the involvement of Western forces in the Middle East
axes of contemporary Russian foreign policy. In prevented a consistent Russian influence on the
the first part, we discuss its active participation in regional conjuncture (Hannah 2016).
Middle Eastern politics as a way of responding to
Western pressures on the countries of the former For the United States, the end of the USSR created
Soviet bloc. In the second section, we analyze the a political-strategic gap that was partially filled, as of
persistence of the conflict with the Western world 2001, by the war on terror in Iraq and Afghanistan.
and the Russophobic character of the discourse The counter-terrorism policy, implemented after
that Western leaders and media use to portray the September 11 attacks, was perceived with
the Russian state. Finally, we discuss the Russian some diplomatic enthusiasm by the Kremlin, as
projection in Eurasia, including the new tone of the it justified its action against Chechen separatists
relationship with the Central Asian republics and, at the turn of the millennium. Gradually, however,
above all, the competitive partnership dichotomy it became clear that the war on terror served as
with China. a justification for Washington overturning non-
aligned secular governments in the Middle East
Projection in the Middle East and broadening its policy of containing Russia and
China through proxy wars (Pautasso 2014).
In September 2015, Russian military forces
intervened in the Syrian War, using long-range The redirection of Russia’s foreign policy towards
missiles launched from the Caspian Sea and the the Middle East was intensified, especially after
Mediterranean, in a successful demonstration of 2011, with the so-called Arab Spring events.
force projection in the region. The international Considered a key event for the Greater Middle
community, however, reacted with surprise to the East, the outbreak of popular demonstrations
Russian logistical efficiency to support the Bashar calling for greater democracy in the countries
al-Assad regime. The assertiveness of Russian of the region and the resultant regime changes
foreign policy in the Middle East, unprecedented in many of these countries have led to a diverse
since the end of the Cold War and the consolidation political configuration. The situation took on new
of American preponderance, occurs in a context proportions when the wave of demonstrations
of recovery of Russian military capabilities, which reached Syria and the government of Bashar al-
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Assad, considered a traditional ally of Moscow. The Eastern Mediterranean (Bugajski and Doran 2016).
Damascus government represents the last bastion
of Russian influence in the region, and the possibility In order to redirect its foreign policy in diplomatic
that the same fate of some countries affected by terms, Russia has sought to maintain a balance
the Arab Spring – with the implementation of pro- of power among the region’s main players,
Western governments – was perceived as a threat pragmatically approaching countries with
to the Russian interests (Roberto 2012, Harmer converging interests (Geranmayeh and Liik 2016).
2012). Among the countries of the region, Iran has been
an ever potential ally, in line with major Russian
Syria has great importance for Russian foreign interests in the region, which include opposition to
policy to the region, as it controls the eastern part the US military presence and influence in the Middle
of the Mediterranean Sea, serving as a link to the East, as well as the maintenance of the Bashar al-
Black Sea, where Russia is currently dominant Assad regime in Syria. Together with Russia, Iran is
(Aktürk 2016). In that sense, Vladimir Putin’s a major supporter of the Syrian regime, and both
foreign policy aimed at increasing the presence countries contributed decisively with the military
of the Russian Navy in the Mediterranean, a geo- means necessary to reverse the situation in favor
strategic objective that had existed since the tsarist of Assad during the Syrian War (Geranmayeh and
period, in its search for the so-called “hot seas” and Liik 2016).
the access to the great oceans (Bugajski and Doran
2016). The increase of Russian military presence Regarding the traditionally pro-Western countries,
in the Mediterranean creates a potential barrier to allies of the United States, such as Israel and
the United States and its allies in the region and Saudi Arabia, Moscow has sought diplomatic
requires opposition groups of Bashar al-Assad to understanding in order to avoid possible tensions
consider the risk of Moscow’s full engagement in after the military intervention in Syria and the
armed conflict (Cordesman 2016). establishment of a more significant presence in the
region (Geranmayeh and Liik 2016). Such a situation
The upgrading of the port of Tartus, on the has only been possible as a consequence of the US
Mediterranean coast of Syria, currently represents disengagement policy initiated by Barack Obama,
the sole Russian base of operations outside its causing diplomatic friction with some allies in the
immediate surroundings. Tartus is a point of region. In relation to Tel Aviv, Russia has sought a
support for the Moscow vessels located in the rapprochement with a view to securing a central
Mediterranean, avoiding the return to the naval position in the process of peace talks between
base of Sevastopol in Crimea, and the crossing Israel and Palestine. In proposing a breakthrough
of the Bosphorus and Dardanelles Turkish Strait in the negotiations, as the US-led attempts have
for every repair and refueling of the vessels not advanced since 2014, Moscow sees in this
(Harmer 2012). The port’s development into a issue a new opportunity to increase its diplomatic
true naval base, capable of receiving the largest influence in the Middle East (Geranmayeh and Liik
Russian ships, is in accordance with Putin’s new 2016, Barmin 2016).
foreign policy to the region, which provides for the
expansion and improvement of the Southern fleets Another important actor for Russian foreign policy
(corresponding to the Black Sea and the Caspian in the Middle East is Turkey. The diplomatic tension
Sea) and a greater capacity and presence in the caused by the Turkish Army’s downing of a Russian
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warplane in 2015 has been overcome and Russian- geopolitical disasters of the twentieth century”, in
Turkish relations have normalized, particularly the words of President Vladimir Putin4. The Russian
since the attempted coup against President Recep Federation was subject to Boris Yeltsin’s so-called
Erdogan in July 2016. The lack of support from “shock therapy” with his rise to presidency in 1992.
NATO member countries to the Ankara government Shock therapy was characterized by a shift towards
raised suspicion of US involvement in the coup capitalism through a broad process of privatization
attempt (Hannah 2016). Since then, Russia and the adoption of liberal prescriptions, which
and Turkey have sought to articulate the Syrian caused deep political and economic disorganization.
ceasefire, through negotiations that include Iran, President Yeltsin’s position was based on the belief
and carrying out joint bombardments in positions that a “renunciation of his antagonistic position [to
of the Islamic State in a war of counterterrorism the West] would be rewarded with the insertion in
(Sly and Haidamous 2017). The recent talks in the concert of the developed powers” (Visentini
Astana, Kazakhstan, begun in January 2017 and 2015). The adoption of the liberal economic and
coordinated by Moscow and Ankara, give an idea political model not only removed Russia from the
of ​​the Russian importance in addressing the Syrian list of world powers but also signified the advance
conflict, which, although far from being resolved, of the Western coalition over the region of the
depends on Russia’s agreement to be effective. former USSR.

Russian involvement in the Syrian conflict is part Russia’s passive insertion into the post-Cold War
of the growing friction between Moscow and the international order did not restrained Washington’s
West and must be understood within the American momentum, as attested by the successive
logic of containment of Russia. Continued Western expansions of NATO and the European Union
interference in Russia’s strategic environment towards the countries of the former Soviet bloc
– from the Balkan War to the expansion of NATO (Pautasso 2014). These greater inclusions of new
to the countries of the former USSR and the members occurred precisely in 1999 and 2004 in
occupation of countries of Central Asia and the the case of NATO and in 2004 and 2007 for the
Middle East – legitimized the Kremlin’s adoption of European Union, when Moscow was extremely
an assertive foreign policy to the region, especially fragile by the serious political and economic crisis
to support an ally, as occurs with Bashar al-Assad. that devastated the country. Similarly, NATO’s role in
If the rhetoric voiced by Donald Trump during his the Balkan War in erasing the lights of the twentieth
presidential campaign of closer rapprochement century – without an international mandate and in
with Russia is confirmed, it opens the possibility of a country not belonging to the organization – gave
easing relations with the Kremlin and of a peace clear indications that Washington’s policy in the
agreement in Syria, since both countries are Russian strategic environment would aim to profit
fundamental for the maintenance of a possible from Russian fragility. As stated by Mello (1999,
cease-fire in the region. 131-132), US policy of geopolitical and geostrategic
containment of Russia is based on the premise
Russia and the West that whoever controls Eurasia controls the world,
in what McKinder called the “heartland”.
The collapse of the Soviet Union in 1991 did
not end only the brief twentieth century, described Faced with the failure of the détente policies with
by Hobsbawm3, but also meant “one of the greatest the West implemented by Yeltsin and the growing
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tension of Russian frontiers, Moscow’s response The warning signal was given to the Kremlin at
began with the appointment of Eugenio Primakov the outbreak of the so-called Color Revolutions in
to the Russian Chancellery in 1993. Stating as neighboring countries – Georgia (2003), Ukraine
permanent interests of Russia the strengthening (2004) and Kyrgyzstan (2005) – and when in 2008
of territorial integrity, the restoration of prestige NATO postulated a new membership, this time to
in the former Soviet space and the prevention of precisely include Georgia and Ukraine. The Russian
conflicts, especially ethnic conflicts, in its regional response occurred in two distinct stages. Initially,
environment, Primakov laid the foundations for a forcing the closure of US air bases in Uzbekistan
new foreign policy. Putin’s election in 2000 and and Kyrgyzstan in 2005 and 2014, respectively;
the appointment of Serguei Lavrov to the post of and subsequently with the invasion of Georgia in
Foreign Minister in 2004 deepened this pragmatic 2008 and the annexation of the Crimea in 2014,
and assertive trend, which patiently seeks to regain demonstrating Washington’s lack of commitment
its status as a great power. The response of the to the security of countries located in the Russian
Western bloc to Russian reemergence was based periphery (Stratfor 2017). Political analyst and
on the broadening of the Russophobic discourse, offensive realist John Mearsheimer points out that
through a “demonization” of Russian political the Western coalition was deluded by believing that
leadership and the characterization of Russia as a it could replace political realism by the rampant
bellicose and expansionist nation, especially since application of liberal ideas in Russia’s strategic
the annexation of Crimea in 2014. According to environment.
the former US Secretary of State Henry Kissinger,
“the demonization of Vladimir Putin is not Western Although the annexation of Crimea and the support
policy but rather an alibi for the absence of one”. given by Moscow to the provinces of eastern
Ukraine have increased the confrontations between
As an example, the agreement signed between Russians and Europeans, avoiding the formation of
NATO and Russia in 1997 stated textually that, a Berlin-Moscow axis (Salerno and Thudium 2016),
in that security context, the organization was the US policy of containment of Russia, based on
committed not to carry out the permanent unilateralism and the destabilization of its strategic
increase of deployment of combat forces near environment, has the collateral effect of deepening
the Russian state. However, not only has NATO the Russian sense of nationalism and patriotism,
doubled its membership in less than a decade strengthening state capacities and stimulating
– with the inclusion of Poland, Hungary and the an autonomous foreign policy (Pautasso 2014).
Czech Republic in 1999, Bulgaria, Estonia, Latvia, By isolating Russia from the Western world, the
Lithuania, Romania, Slovakia and Slovenia in United States allows the Russian state to create
2004 and Albania and Croatia in 2009 – but also new alliances and retake old partnerships, such as
established six command centers in countries the deepening of Sino-Russian relations and the
bordering Russia in 2015. No less symbolic was resumption of Moscow’s influence in the countries
the recent deployment of troops and armaments to of Central Asia. If Washington has managed to bar
military exercises in Poland in January 2017. When any approach to the Kremlin with the European
necessary, Eastern European countries wave the Union – even at a high political cost – the effect of
flag of Russian danger in order to gain advantages this policy may be the creation of an unpredictable
from their Western allies (Chiesa 2016). Moscow-Beijing axis.

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Russia and China in Eurasia (SBER), the East Siberian Pacific Ocean (ESPO)
English) and the Power of Siberia gas pipeline are
The excessive tension that the United States essential for both Beijing and for the Central Asian
and the European Union created on the Russian countries and Russia. For Beijing, the SBER allows
periphery helps Moscow to seek to establish new the production to be disposed of by land and the
political, economic and security alliances, notably gas and oil pipelines ensure the supply of essential
the Shanghai Cooperation Organization (SCO), energy resources to the Chinese industries, making
the Eurasian Economic Union (EEU) and other China less dependent on producers of the Middle
organizations that project Russia in its influence East allied with the United States. In turn, both
zone in Central Asia and the Caucasus. Similarly, Moscow and the countries of Central Asia urgently
China’s massive investment in infrastructure and need the infrastructure investments brought by
its large demand for abundant energy resources Chinese projects in the energy sector. For Russia,
in Russia and Central Asia make Beijing a viable in particular, the entry into operation of ESPO in
partner, especially after the third round of sanctions 2012 not only made Moscow the largest supplier
imposed by the Western coalition on Russia of crude oil in China (surpassing Saudi Arabia in
because of the Ukrainian crisis (Spivak 2016). 2014), but also sent a message to European
countries that Moscow is able to find consumers
The Eurasian Economic Union (EEU), which has faster than Europe is able to find new suppliers of
been established over the course of fifteen years hydrocarbons (Pautasso 2014).
of negotiations between Russia, Kazakhstan,
Kyrgyzstan, Armenia and Belarus, is a customs Chinese penetration in Central Asia, especially
union and aims to promote integration and free through state-owned energy companies, puts
trade among member countries, marked by the Moscow in a sometimes uncomfortable position.
Russian Federation’s political influence on the other While on the one hand the Kremlin cannot afford to
members. SCO, in turn, was created in 2001 with reject China’s investments and capital, on the other,
the initial objective of bringing stability to Central the possibility that Russia might lose its influence
Asia, but expanded its scope of action with the over the countries of the former Soviet Union places
projection of US interests to the region, especially limitations on Sino-Russian cooperation. Bilateral
after the wars in Afghanistan and the Iraq. The negotiations – without Russian intermediation –
formal admission of India and Pakistan to SCO, that resulted in the construction of a gas pipeline
starting in January 2017, significantly increases in Turkmenistan and an oil pipeline in Kazakhstan
the organization’s strength, not only by expanding have led Chinese companies to own 25 per cent of
human, economic and energy resources, but also the Kazakh energy sector and have placed Beijing
by including two historic enemies (Ribeiro and Vieira as the largest buyer of natural gas in Turkmenistan.
2016), allowing countries to articulate decisions Such a scenario indicates that the Central Asian
regarding security and development of the region, republics are no longer passive actors dependent
precisely at a time of experiment in multipolarity on Moscow’s policy and can bargain for economic
with the rise of important decision-making centers advantages with China (Spivak 2016).
in Eurasia (Visentini 2015).
Russia’s economic inferiority vis-à-vis China and
In economic terms, the Chinese megaprojects in the plurality of existing regional initiatives in Eurasia
the region, such as the Silk Road Economic Belt – SCO, EEU, SREB – compel Moscow to review
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its asymmetrical relationship with the countries Russia’s geopolitical and geostrategic locus in the
of the former Soviet bloc, as well as assess its world system has deeply changed. Although the end
rapprochement with China. If Russophobia and of the East-West confrontation has led the system
the systematic rejection of the West push the to an apparent unipolarity centered in the United
Russians toward Beijing, the apparent economic States, it can also be said that a multiplication of
logic behind China’s investments in the region may the decision-making centers of power is underway,
have political ramifications that put the Kremlin which moves towards Eurasia as an “multipolarity
at a disadvantage. However, accommodating experiment”. Such scenario alters the role of the
differences within Eurasia seems to be more Russian Federation – the Eurasian state par
feasible, since the understanding of the concept excellence – in the reconfiguration of the world
of sovereignty among Asian countries differs from order that emerges in the 21st century, enhancing
that proposed by the West, in which the principle of the potential and, simultaneously, the challenges
nonintervention in domestic affairs has a greater for Moscow.
importance in inter-state relations (Hantke 2016).
Russia’s characterization by the Western press as
If confirmed the protectionist speech of newly a bellicose and expansionist nation reflects not
sworn-in US President Donald Trump, a possibility only the little understanding of the contemporary
will be opened for China to fill in the possible gap Russian state, still largely based on stereotypes
left by Washington, especially in Eurasia. In this inherited from the Cold War, but also an attempt
hypothetical scenario, the Moscow-Beijing axis can to recreate an enemy beyond the Rhine. The
easily shift from cooperation to competition, since escalation of tensions in Eastern Europe and the
the Moscow-led initiative – the EEU – can be easily Middle East – such as the conflict in Ukraine,
eclipsed by the Chinese infrastructure initiatives the annexation of Crimea in 2014, the recent
– SBER and gas and oil pipelines. In any case, deployment of NATO troops to Poland and the
there is no doubt that the dispute over political active Russian involvement in the Syrian conflict
influence in Central Asia and its energy resources – are effects of Bush’s and Obama’s containment
will be a delicate issue in Sino-Russian relations, foreign policy, which has motivated the Russian
where the historical and cultural connections of state to seek new alliances, increasing the viability
the former Soviet Union will have to compete with of a more effective Sino-Russian partnership.
the large Chinese resources. However, the terms of
this competition appear to be less problematic – The geographical disintegration of the Soviet Union
and certainly less bellicose – than what has been in more than ten new countries, coupled with the
seen between Russia and the Western coalition weakness of the Russian state, has widened the
have shown. This because intra-Eurasian relations possibilities for the extension of the US zone of
are less prone to the elaboration of Manichean influence in Eastern Europe and the Caucasus,
discourses on the role of states in the international especially in light of the instability arising from
system. the multiplication of ethnic and religious conflicts
in the region. The successive waves of NATO’s
Final Considerations eastward expansion – with the incorporation of
more than ten countries of the former socialist bloc
From the changes introduced by the collapse between 1999 and 2004 – add further difficulties
of the Soviet Union and the end of the bipolar dispute, to the Kremlin’s relationship with the Western
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powers. Conflicts in Azerbaijan and Armenia in the
mid-1990s and the 2003-2004 Georgian war are
just examples of the growing friction between the
Western powers and the post-Soviet space, which
culminated in the Ukraine crisis of 2014.

On the other hand, the promise of rapprochement


with Russia by newly sworn-in US President Donald
Trump offers an apparent room for maneuver for the
Russian state at a time of renegotiation of China-
US relations. But Vladimir Putin’s pragmatic spirit
will require more than just Trump’s grandiloquent
rhetoric, since NATO’s role, as an organization
created to simultaneously protect US interests in
Europe and confine the then Soviet Union, remains
the same, to such an extent that the expansion of
the organism suggests that the Russian contours
are tightening.

Putin’s decision to use force both in Syria and in


Ukraine is part of a set of actions that Moscow has
taken to signal Washington that it will no longer
tolerate policies that promote regime changes
in its strategic environment – the so-called Color
Revolutions (Cordesman 2016) and the Arab
Spring, which occurred in the countries of the
former USSR and the Middle East, respectively.
The dynamics of foreign policy in these countries
and the rest of the Russian ‘near abroad’ must
therefore be analyzed from the perspective of an
increase in foreign pressures. The lessons we must
draw from history teach us that the Russian nation
has, above all, moral resources so more easily
mobilized the more intense are external hostilities.

69
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Notes

3
Hobsbawm, Eric. 1995. A Era dos Extremos: O Breve Século XX (1914 – 1991). São Paulo: Companhia das Letras.

4
The statement was made on April 25, 2005, on the occasion of the presidential address before the Russian parliament.
Available at: http://en.kremlin.ru/events/president/transcripts/22931. Accessed on: October 19, 2016.

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Visentini, Paulo. 2015. O Caótico Século XXI. Rio de Janeiro: Alta Books

Received on January 27, 2017.


Approved on January 31, 2017.

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The Brazilian Foreign Policy of the Temer-Serra administration:
political retraction and economic subordination*

Raul Cavedon Nunes1 e Vitória Gonzalez Rodriguez 2

• The “New Brazilian Foreign Policy”, summarized by José Serra in his inauguration speech,
altered the pattern of Brazil’s international insertion from multilateralism to bilateralism, but its
consequences are yet to be evaluated.
• At the regional level, it prioritized the project of Venezuela’s isolation, bilateral agreements,
and the rapprochement with Mexico, with the OAS and with the Pacific Alliance.
• In the global field, the new government kept a low profile in multilateral relations and
focused on the negotiations of the Mercosur-European Union Association Agreement.

Presentation

In May 2016, Michel Temer took over the BFP or there were only small adjustments to an
leadership of the Brazilian’s Presidency on an orientation that already existed?
interim basis, after the removal of Dilma Rousseff.
The vice president was sworn in as de facto president Contextualization of the new Brazilian
in August, when the impeachment process opened Foreign Policy
against Rousseff had ended, after the second vote
in the Senate. However, it is considered that since The beginning of the Michel Temer’s
May, the new occupant of the presidential post has mandate, with the appointment of new ministers,
changed the political orientation of the country, their speeches, and the announcement of its
in which the Brazilian Foreign Policy (BFP) was political orientation, point to a clear change in
included. respect to the previous government. One of the
first turning points seen was the appointment of
After more than eight months of the new José Serra for the Ministry of Foreign Affairs (MFA):
government, it is important to preliminary evaluate the head of Itamaraty has come to be a politician
the new BFP. After all, what were its guidelines and strictu sensu3, unlike his immediate predecessors
priorities at the regional and international fields? - Celso Amorim, Antonio Patriota, Luiz Alberto
Was there a big break from Lula’s and Dilma’s Figueiredo and Mauro Vieira - formed by the Rio
1 Master candidate in International Strategic Studies at the Federal University of Rio Grande do Sul (UFRGS). Research Assistant at
the Brazilian Center of Strategy & International Relations (NERINT). Contact: rcavedonnunes@gmail.com
2 Undergraduate student in International Relations at UFRGS in academic mobility at the Universidad Nacional Autónoma de
México (UNAM). Research Assistant at NERINT. Contact: vitoria.grodriguez@gmail.com
* With the collaboration of Marcelo Milan, Ph.D. in Economics from the University of Massachusetts Amrest and Researcher at NERINT.
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Branco Institute. Such appointment differs not only intensification of competition in the economic,
from the recent Brazilian chancellors, because political and military sphere. Lucas Rezende
“from the ten nominations for the leadership of (2016) points out that the “main metamorphosis
the MFA made between 1985 and 2003, only was the supposed “de-ideologization” of BFP and
three were for politicians with party affiliation” the redirection of international relations from the
(2005, 7). According to Coronato & Leite (2016), south-south axis to the north-south relations in a
the appointment of a name disconnected from return to the tradition of our Americanistic foreign
Itamaraty represents a break of a tacit tradition policy”.
of searching for a substitute on the diplomatic
bureaucracy. In this sense, the new administration emphasized
the preference of bilateralism in detriment of
Thus, it is worth pointing out the debate that exists multilateralism, focused in free trade agreements
about the relative political isolation of the MFA, and partnership with traditional countries such as
which assures it a considerable decision-making the United States and Japan. Many of the guidelines
autonomy. According to Maria Regina Soares de are related to the pursuit of market opening and
Lima (2005), a factor that explains this trend is the with a reorientation of the Brazilian political posture
lack of public opinion influence over the country’s in Mercosur, in the World Trade Organization (WTO)
foreign policy. On the other hand, there are and in the BRICS. José Serra also pointed to the
pressures in the opposite direction – to a greater necessity of reduction of the “Brazilian cost” for
participation of other sectors from government increased competitiveness and productivity, and
and society in the formation of the BFP, that is, the the need to protect the regional frontier (Ministério
“formation of a foreign policy’s production process das Relações Exteriores 2016).
that is more porous, plural, and democratic” (Faria
2012, 312). The indication of a politician as Serra, The new chancellor stated that “our diplomacy
as said, breaks the tendency not to have politicians (...) must gradually upgrade and innovate, and
in the highest office of MFA. So, while it reduces the even dare, promoting a great modernizing reform
ministry’s isolation component, it can put in check in objectives, working methods and techniques.”
the Itamaraty’s tradition of not being completely (Ministry of Foreign Affairs 2016, emphasis added).
influenced by political-party disputes, in addition to Not only the guidelines and positions presented in
providing a tendency that the BFP will swing even the inauguration speech, but the attitudes taken in
more with every government’s change. subsequent months, represented a clear change
in direction and in the conduct of the BFP. Both
In his inauguration speech, José Serra outlined the notes issued by the Foreign Ministry, and
the pillars of the so-called “New Brazilian Foreign the position adopted with respect to Venezuela
Policy”, summarized in ten guidelines. In short, in the impasse on the Pro Tempore Presidency
the discourse of the new minister sought, at the of Mercosur symbolize this. Natalia Fingermann
same time, to align itself with the guidelines of (Editora Mundorama 2017) also emphasizes the
the new national government, led by the interim impact of the new positions of Itamaraty for South-
president Michel Temer, and also to deal with South cooperation projects that already exist, such
the new international conjuncture, marked by the as the Food Acquisition Program (FAP) and the

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ProSAVANA4. President of the Republic (…) to maintain relations
with foreign States and to designate its diplomatic
Santos (2016) argues that the attitudes of the new representatives, sign treaties, conventions and
Minister demonstrate a break from the “active” international acts, subject to the referendum from
BFP initiated and led by Celso Amorim and Lula da the National Congress” (Brasil 1988). Even though
Silva. The previous BFP was characterized by the there are balances from the Legislative7 and from
search for Brazilian autonomy in the international bureaucratic structures as the Itamaraty and the
scenario - with an emphasis on South-South Armed Forces, the primacy of the Executive Power
cooperation and the diversification of partnerships. allows changes of direction in BFP, what occurred
Though one could argue that this policy began to during the studied period. However, the limitations
decline in the government Rousseff (Cervo & Lessa of the new BFP are due to structural internal and
2014), it is important to consider that the rupture external aspects.
of the transition Dilma-Temer cannot be compared
to the decline in the conduct of the BFP on the Lula- It is assumed that, despite the changes of
Dilma transition5. political and strategic direction in the Temer-
Serra administration, there weren’t innovations
Cervo (2008 apud Amorim Neto 2011) concluded in the form and intensity in the country’s foreign
that the ideological guidance of governments relations, which is demonstrated by the character
has more influence on the foreign policy than of the meetings and agreements signed. Also,
the change of political regime. This is was clear there was a retraction in terms of its objectives in
in the transition of managements Lula-Amorim, the international system, with an emphasis on free
Dilma-Patriota-Figueiredo-Vieira and Temer- trade agreements and the promotion of exports
Serra. Amorim Neto (2011) outlined a theoretical at the expense of a broader development project
framework on Brazilian foreign policy (focusing for achieving state-building capacities and large
on its relationship with institutional structures, scale strategic partnerships like the signed with
constraints, and external and internal incentives), France in the Lula administration. This occurs in
highlighting three determinants of foreign policy. part because of the internal political and economic
In this way, both systemic factors, as “attributes of instability and in part due to the strategy outlined
leaders, regimes, governments, and legislatures” by the New BFP.
(Amorim Neto 2011, 43), and military and
diplomatic bureaucracies determine foreign policy. At the regional level, the process of integration
Thus, when considering the new BFP, it is important through UNASUR were seconded by bilateral
to bear in mind such determinants. meetings and the objective of excluding Venezuela
from Mercosur. In the international field, the
Analysis of the actions of the MFA and of the government has maintained a low profile in
Presidency on regional and global affairs multilateral fora, and aimed to make progress in
the negotiations of the Mercosur-European Union
In this section, we sought to review the main Association Agreement, a partnership with dubious
actions6 of the MFA and of the Presidency of the benefits for both parts, and with no resolution so
Republic in reference of the foreign policy in Michel far.
Temer-José Serra administration. According to the
Federal Constitution, Article 84, “it is up to the The first diplomatic action of the Serra-Temer
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alliance was at the regional level. Shortly after the leader of the opposition to the government of
Temer’s inauguration (May 23rd 2016), as interim Nicolás Maduro.
president until August 31st, it was created the Another priority for the new management was
Mechanism for Policy Coordination between Brazil the continuity of economic rapprochement with
and Argentina. Soon after, Serra has published a Mexico, a process initiated in the Dilma Rousseff
response to a Finantial Times article, who claimed government. On July 25th, Serra visited the country
the existence of a rivalry between Mercosur and aiming to expand the bilateral trade preferences
the Pacific Alliance. In contrast, the minister said (Economic Complementation Agreement No 53
that both regional blocks maintain good relations, - ACE 53). In August and September took place,
with the objective of signing free trade deals and respectively, the IV and V Negotiating Round of ACE
to increase its member-state’s global trade market 53, dealing with issues such as market access,
share. trade facilitation, rules of origin, technical barriers
to trade, government procurement services and
These two first initiatives paved the way for what settlement of disputes. More specifically, these
would be one of the tonics of Brazil’s regional policy: meetings sought to expand the preferential tariffs
the diplomatic isolation of Venezuela. In June, the and include more agricultural and industrial
MRE has released a note about the situation of products on Brazil and Mexico trade relations.
conflict between the government of Nicolás Maduro
and the opposition, pointing for the worsening of In September, the four founding countries of
the human rights situation in the country (Ministério Mercosur - Brazil, Argentina, Paraguay, and
das Relações Exteriores 2016b). Uruguay - have adopted the “Declaration on the
Mercosur’s operation and on the Protocol of
In June 8th occurred the first official diplomatic visit Accession of the Bolivarian Republic of Venezuela”.
to Brazil in the Temer’s administration, held by the In sum, the declaration stated that Venezuela
Minister of Foreign Relations of Paraguay, Eladio couldn’t take over the presidency of the bloc, which
Loizaga. On this occasion, two agreements were would be occupied by a joint coordination between
signed, one in aviation and another for construction the four countries. In addition, the country would
of a bridge over the Paraguay River, between the be suspended from the block in December if not
cities of Porto Murtinho in Mato Grosso do Sul, “fulfilled its obligations” in relation to Economic
and Carmelo Peralta, at the Department of Alto Complementation Agreement No 18 (1991), to
Paraguay (Richard 2016). This initiative is part of the Protocol of Asunción on the commitment to
a larger project, the interconnection between the the promotion and protection of human rights
Atlantic and the Pacific Oceans, particularly the of Mercosur (2005) and on the Agreement on
ports of Santos (Brazil) and Iquique, in Antofagasta residence for nationals of States Parties to the
(Chile) (Portal do Planalto 2016). Mercosur countries (2002).

On June 12, the Foreign Ministers of Argentina, On October 22nd, the member states of the OAS
Brazil, Chile, and Uruguay have issued a joint – Argentina, Brazil, Canada, Chile, Colombia,
statement on the situation in Venezuela, particularly Costa Rica, United States of America, Guatemala,
on the acts of violence in Caracas. Two days later, Honduras, Mexico, Paraguay, Peru and Uruguay
Serra received a visit from the governor of the state - issued a statement about the political situation
of Miranda, the Venezuelan Henrique Capriles, in Venezuela. Four days later, it was announced a
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new note, signed by Argentina, Brazil, Colombia, Carmelo Peralta-Mariscal Estigarribia-Pozo Hondo
Costa Rica, Chile, Guatemala, Honduras, Mexico, (Paraguai) – Misión La Paz-Tartagal-Jujuy-Salta
Panama, Paraguay, Peru, and Uruguay. (Argentina) – Sico-Jama-Porto de Antofagasta and
other ports in northern Chile. The joint statement
On December 1st, Venezuela has been suspended also mentioned the meeting of MFA and of Defense
from Mercosur. Soon after, José Serra attended (2+2), held on April 4th 2016, which extended the
an Extraordinary meeting of the Mercosur’s military cooperation agreement between the two
Council, together with the Ministers of Argentina, countries. In addition to the joint communiqué, it
Paraguay, and Uruguay. The aim of the meeting was assigned a memorandum of understanding for
was to deal with the liberalization of trade between the implementation of the project “Strengthening
member-states, the negotiation of a protocol for the Connectivity”, which aims to create optical
cooperation and facilitation of investment, the fiber networks with international providers and the
revision of the protocol of public procurement and submarine cables that come along the Brazilian
the dynamization of the negotiations outside the coast.
block. In addition, Argentina became responsible
for the Pro Tempore Presidency of Mercosur for the On October 6th, the general secretary of the
first half of 2017. Organization of American States (OAS), Luis
Almagro, was received by Minister José Serra.
Two months earlier, on October, president Michel On this occasion, it was examined themes of the
Temer took visits to Argentina and Paraguay. In regional agenda and the relationship between
Argentina, it was emphasized the cooperation Brazil and the OAS.
in the areas of Defense, Nuclear, space and
in science and technology. On the Mercosur The first Serra’s extra regional visit occurred on
subject, the joint statement stressed the need for May 28th to Cabo Verde for a meeting with his
a negotiation of a new protocol on Government counterpart Luis Filipe Tavares, with the prime
Procurement, an agreement on cooperation and minister Ulisses Correia e Silva, and with the
facilitation of investment, the approximation President Jorge Carlos Fonseca. However, this
with the Pacific Alliance and with the European seemed to be a commitment derived from the
Union. On the Strategic component, the Brazilian previous administration, due to the absence of
President reiterated the support for the Argentinian greater details of it.
sovereignty over Malvinas Islands, South Geórgias,
South Sandwich Islands, and over the maritime In early June, the Minister attended the annual
areas nearby. Ministerial Meeting of the OECD (a session called
“All aboard for 2030”) and the discussions within
At the meeting with the President of Paraguay, the WTO Ministerial Meeting. At the OECD, Serra
Horacio Cartes, it was discussed the signing of an has adopted a conciliatory and cooperative tone,
Automotive Agreement, the beginning of the works dividing the concept of sustainability in three
of the second bridge over the Paraná River, and spheres: environmental, economic, and social.
another one over the Paraguay River, between Porto Yet in the WTO, the Minister demanded a greater
Murtinho and Carmelo Peralta. The infrastructure opening of its trading partners, because the global
project called Bioceanic Corridor includes the demand was becoming lower than the global
roadway Campo Grande-Porto Murtinho (Brasil) – production. He stated that “the capacity of the WTO
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for being a relevant forum for negotiation is still in infrastructure, logistics, industry and agribusiness
question”, and that therefore one should “try new sectors.
routes” (Serra 2016a).
On September 4th and 5th, Temer attended the 11th
Thus, on June 22nd and 23rd it was held a meeting G20 Summit, in Hangzhou, China. In his speech,
of the negotiators of the Mercosur-European Union he stated that spite of the collective efforts, global
Association Agreement. On that occasion, the two economy is still having a lower economic growth
blocks responded to technical questions about than before the 2008 crisis started. Thus it the
the offers exchanged on 11 May 2001, including international system remains The reasons for that
goods, services, investment, and government are multiple. But there is no doubt that, between
procurement, and reviewed the normative texts them, figures an international environment full
of the Agreement. They’ve also approached the of uncertainties that aren’t restricted to national
second semester’s negotiation timing, which in borders (Temer 2016b).
October shall include the Committee Reunion of
negotiations between the two regions in Brussels Among the “uncertainties”, the Brazilian President
(Ministério das Relações Exteriores 2016c). highlighted the evolution of commodity prices,
the world consequences of the monetary policy in
It is interesting to note that Brazil initiated a series developed countries, the volatility of the financial
of meetings with European countries, such as markets, and the spread of terrorism. Internally, he
Netherlands, Switzerland, Finland, and Denmark, pointed out that the main challenge of the Brazilian
in order to make progress in the negotiations of State is of fiscal order, and that his government
the agreement between the blocks. From 10 to 14 is focused on ‘promoting a structural adjustment
October, it took place the 10th Round of Mercosur- of public spending in a 20-year horizon’ (Temer
European Union Negotiations, the first since 2012. 2016b). Thus, the inflation control, the social
However, there wasn’t a major step forward to be security reform, and public-private partnerships
highlighted. are central projects of the administration.

Also in the global arena, on a meeting prior to Simultaneously to the beginning of the G20 Summit,
the 11th Summit of the G20, September 2nd, it took place a BRICS leaders meeting, where Temer
President Michel Temer traveled to Shanghai to spoke about the need to update the structures
attend to the Brazil-China High Level Business of global governance, such as the International
Seminar, a meeting materialized by the Trade Monetary Fund (IMF) and the World Bank. At the
and Investment Promotion Department of the strategic level, he welcomed the establishment of
Brazilian Ministry of Foreign Affairs and by the the BRICS Antiterrorism Working Group.
Brazilian Export and Investment Promotion Agency
(Apex). The Minister of Foreign Affairs attended In the same month, alongside with the 71st UN
the event, such as the Ministers of Transportation, General Assembly, Brazil participated in two
Ports, and Civil Aviation; Agriculture, Livestock and meetings. At first, the Minister José Serra met the
Supply, and Finances. The main panels attended G4 – Germany, India, and Japan – whose main goal
by the Brazilian ministers were those related to is to achieve a reform of the UN Security Council.

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In his speech, Serra stated that “regarding peace with emphasis on high technology defense and
and security, progress has been much slower,” security Israeli products. On October 18th and 19th,
because “the UN Security Council still has a core President Michel Temer held a visit to Japan to sign
group of participants which reflects the world of a Memorandum for the Promotion of Investment
1945” (Serra 2016b). and Economic Cooperation in the infrastructure
sector, with a focus in the areas of transportation,
The second meeting was held by the BRICS Ministers logistics, information technology, communications,
of Foreign Affairs, whose joint statement stressed and energy.
issues such as the UN reform, the condemnation of
terrorism, cooperation with developing countries, On October 31st and November 1st, it was held
sustainability and environment, global economic the 11th Conference of Heads of State and
governance, income inequality, health, and Government of the Community of Portuguese
instability in Africa and Middle East. Minister José Speaking Countries (CPLP). At the first day, there
Serra, in his speech, highlighted the progress of the was also the 12th Brazil-Portugal Summit, whose
BRICS Development Bank, including the possibility joint statement addressed themes like economy,
of other countries to join the initiative. In addition, finance, trade, culture, education, and sustainable
he pointed out that the international economy, development. There were also discussions on
despite showing signs of recovery, still had risks the situation in Guinea-Bissau, and about the
of retraction, particularly with the United Kingdom Association Agreement between Mercosur and
exit from the European Union. Finally, he pointed to European Union. In addition, there was the signing
the need for cooperation in the finance and health of a Memorandum of Understanding on Antarctic
areas. cooperation.

On October 15th and 16th, President Michel Temer From November 21st to 23rd, José Serra conducted
attended the 7th BRICS Summit in Goa (India). In a visit to Spain, where he also addressed the issue
his speech, he warned about the “return of the of the free trade agreement between Mercosur
protectionist temptation”, and that overcoming the and the European Union. On December 7th, Serra
Brazilian economic crisis will need a “combination also met with the United Kingdom’s secretary of
of fiscal and social responsibility” (Temer 2016c). State for International Trade and chairman of the
Besides that, he claimed that the BRICS were Board of Trade, Liam Fox, approaching economic,
“priority trade partners and a source of investment” trade and financial bilateral agenda. On the same
for Brazil, and that the so-called ‘ecosystem of day, in Davos, it was held a meeting between
innovation’, which had been highlighted during the Mercosur and the countries of the European Free
G20 Chinese presidency, must integrate the BRICS Trade Association – EFTA (integrated by Iceland,
countries’ national innovation systems (Temer Liechtenstein, Norway, and Switzerland) – with the
2016c). aim of negotiating a free trade agreement.

On September 30th, the minister José Serra Final Considerations
traveled to Israel by the time of the death of ex-
President Shimon Peres. In addition, he met with The Brazilian Foreign Policy in the Temer-
the Israeli Prime Minister Benjamin Netanyahu, Serra partnership took new directions, although
with the aim of strengthening economic relations, keeping some points from the Dilma Rousseff
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government. The prioritization of the Mercosur- BFP on Dilma Rousseff administration didn’t keep
European Union Association Agreement, and the up with Lula da Silva years. But it has maintained
diplomatic isolation of Venezuela, allied with a low the progress made since then.” On the other
profile in multilateral fora, coupled with the pursuit hand, it can be said that the Temer-Serra New
of bilateral agreements, were the mark of the BFP political retraction was already visible on the
New BFP. Thus, “political retraction and economic chancellor’s inauguration speech. The discourse
pragmatism” seems to sum up the external guidelines, as well as notes issued by MRE and
orientation of the new Brazilian government, that the institution’s actions, point to the economic-
put in a second place medium and long term commercial preference. Free trade and economic
project like national development, an autonomous orthodoxy and the traditional partnership with
international insertion, and the elevation of Brazil North countries (Coronato & Milk 2016), can be
to the condition of great power. illustrated by the binomial political retraction and
economic subordination, as mentioned.
However, its consequences are still to be evaluated.
At the national level, the maintenance of trade Finally, it should be noted that, as the BFP is a
surpluses and investments attraction will depend public policy (Milani and Pine 2013), it is natural
on the sustainability of the new economic strategy that it can change from one government to another,
and the new BFP. Regionally, the prioritization since there are different interests and projects
of the OAS and the bilateral rapprochement with on conflict within the State. However, keeping
the Pacific Alliance countries can decrease the some continuity and stability, as well as honoring
Brazilian bargaining power in front of other great principles historically defended by Brazilian
powers, particularly regarding to the US, whose diplomacy, are some of the expected attitudes,
Donald Trump government seems to be focused in so as a foreign policy of strategic character based
trade and production recovery with internal market on international assertiveness and focused on
bases. Brazilian development.

Thus, it is worth asking what will be the Brazilian


posture to the rise of political and economic
conflicts between major powers such as USA,
China, and Russia and regional powers. Choosing
the European Union as an escape plan may be a
neutral approach but it’s also risky, because it is not
a single player in the International System. Besides
that, the Brazilian free trade agreements approach
doesn’t seem very innovative. Thus, the question is
to see if the new BFP is to achieve good strategic
partnerships like the one signed with France, and
take the country to negotiate effectively with the
other major powers such as USA, China and the
allies from IBAS, G4, among others.

According to Rezende (2016), “it is true that the


79
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Notes

3
Serra was a federal deputy and senator for the state of São Paulo in the early 1990s. During the government of
Fernando Henrique Cardoso, he was Minister of Planning and Budget and Minister of Health. Subsequently, it became
Mayor and Governor of the City and the State of São Paulo and, in 2014, he returned to be a senator.

4
Examples of these are the writes in response to a challenge of Latin American countries on Dilma’s impeachment, and
a possible revision of Brazilian vote in Unesco with regard to the Palestinian Authority and the historic heritage in the
Palestinian territories.

5
In this sense, it should be emphasized that the decline of the Dilma’s foreign policy wasn’t detached from the context
of her government: the internal political-economic crisis and the world economic crisis. In that context, the possibility of
expansion of the BFP was small.

6
The information not referenced in this topic have been collected from the MFA website.

7
According to Article 49 of Constitution, “is the exclusive competence of the National Congress (I) definitively resolve on
treaties or international acts that give rise to charges or commitments to Brazil’s national wealth (Brazil 1988).

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cerimonia-de-transmissao-do-cargo-de-ministro-de-estado-das-relacoes-exteriores-brasilia-18-de-maio-de-2016

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ministerial-da-ocde-paris-2-de-junho-de-2016.

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presidente-da-republica-michel-temer-durante-primeira-sessao-de-trabalho-g20.

Temer, Michel. 2016b. “Discurso do senhor Presidente da República, Michel Temer, durante Reunião de líderes do
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do-presidente-da-republica-michel-temer-durante-reuniao-de-lideres-do-brics-hangzhou-china.

Received on January 27, 2017.


Approved on January 31, 2017.

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Colombia, Cuba, and Venezuela: importance of the triangle for
Latin American stability*
Diego Luís Bortoli1 and Katiele Rezer Menger2

• The peace process in Colombia, despite the negative result of the plebiscite, was resumed
and the points established in the peace agreement have already begun to be implemented.
• Cuba appears as an important actor in two processes that directly affect the stability of
South America: the peace dialogues in Colombia and the continuity of the Maduro government.
• The persistence of the economic crisis in Venezuela, the growth of internal opposition and
external pressure, and the rise of right-wing governments in South America bring uncertainties
about the continuity of Chavismo.

Presentation

The Colombian government’s peace talks South America’s course at a time when the cycle of
with the FARC and the continued instability of the left-wing governments in the region seems to have
Maduro government in Venezuela are processes come to an end.
that are directly related to the stability of the
South American subcontinent. The 52-year armed Peace process in Colombia: result of the
conflict in Colombia and Venezuela’s Chavism plebiscite and implementation of the Peace
policies – which have been increasingly combated Accord
by the opposition inside and outside the continent,
bringing uncertainties about the continuity of a The result of the plebiscite that sought
Bolivarian government –, are processes whose popular approval of the Peace Accord between
outcome has impacts on other South American the Colombian government and the FARC
countries’ policies towards the subcontinent. Cuba (Revolutionary Armed Forces of Colombia), in which
is part of this scenario and forms the triangle that the “no” won by a small margin (50.2% of the vote)
will be presented here, being a revolutionary state has not been able to prevent the negotiations that
that today stands as the central mediator of the have been going on since 2012 in Havana from
peace talks in Colombia and as Venezuela’s main resulting in a favorable pathway to the end of what
ally in the region. Understanding the relationship may be considered the longest armed conflict in
of these three countries, and their influence on the Latin America. Given the negative result, President
South American context, is central to projecting Juan Manuel Santos, who remained firm in the
1 Undergraduate student in International Relations at the Federal University of Rio Grande do Sul (UFRGS). Research Assistant at
the Brazilian Center of Strategy & International Relations (NERINT). Contact: diegolbortoli@gmail.com
2 Undergraduate student in International Relations at UFRGS. Research Assistant at NERINT. Contact: katiele.menger@gmail.com
* With the collaboration of Sonia Ranincheski, Ph.D. in Sociology from the University of Brasília (UnB) and Researcher at NERINT.
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commitment to take the agreement forward, took the and what would be the punishments that the
initiative to negotiate with the FARC to incorporate members of the FARC could suffer.
some of the demands of the “no” supporters in
the agreement. Once this stage of revision and The implementation of the agreement already
amendment of the agreement was completed, it manifests its results, given that the ceasefire remains
was approved directly at the Colombian Congress stuck and the guerrillas are already beginning to
and is already being implemented. move to the so-called “ zonas veredales”, temporary
and transitory spaces defined by the government
The acute polarization of the plebiscite’s result, and the FARC that include camps to be monitored,
coupled with the low population adherence to the where arms are going to be delivered as guarantee
vote (only 37% of the population attended the of the cease-fire (Colombia 2016). Moreover, given
vote), is, according to Atilio Boron (2016), a result the approval of FARC’s political participation, they
of the erosion of the Colombian political institutions are already organizing to form a party. As stated in
which have a deep oligarchic tradition and whose the agreement, while it is implemented, the FARC
ties with drug trafficking and paramilitarism bring cannot yet be constituted as a party, being thus
low credibility. This, according to Boron (2016), can defined that in this period of transition they will be
be one of the justifications for the fact that only the represented at the congress by the political group
regions that were in fact the theater of operation formed by social movements “Voices of Peace and
of the confrontations between the FARC and the Reconciliation”, which shall have voice but not
Colombian state were the spaces where the “yes” vote, and shall monitor the implementation of the
option had more than 80% of the votes, while agreement.
the centers where the conflicts never took place
had a massive “no” victory. The votes against the Dialogues with the National Liberation Army (ELN),
agreement came mostly from spaces where the the country’s second largest guerrilla group, are
conflict never materialized, favoring the creation of ongoing and the public stage of the peace talks
fanciful conceptions about what the FARC are and will begin in February, in Ecuador. This final stage
what would be the scenario after the end of the of the peace talks was conditioned by the release
conflict. Álvaro Uribe, former Colombian president of former congressman Odín Sánchez, kidnapped
and one of the “no” leaders, has strengthened the since April 2016. Signing a peace agreement
Manichean campaign with regard to the process with the ELN is fundamental to the success of the
of incorporating the FARC into civil society and its agreement with the FARC, since both are the main
recognition as a political actor in the construction guerrilla groups involved in the armed conflict to
of post-conflict Colombia. which the country has been subjected for 52 years.

Nevertheless, in December 2016, the congress of The mediating role of Cuba and the
Colombia approved the revised peace agreement, conciliatory policies of Juan Manuel Santos
which was not put into a national referendum.
Compared to the other agreement, the substantial In recent years, the Castro brothers have
difference was the clarification of positions that reinforced to leftist rebel groups the importance
were previously put indefinitely. In this way, it of using more peaceful means to gain power. This
clarified, among other points, the issue about the incentive to engagement in the electoral political
FARC’s delivering their assets to repair damages process, coupled with the country’s great credibility
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with guerrilla groups and its good relationship elimination of members of the FARC (Carmo and
with the countries of Latin America, has made Pecequilo 2015).
Cuba an important mediator that has garnered
confidence on both sides of the armed conflict With the arrival of Juan Manuel Santos to power,
between Colombia and the FARC. Cuba plays an Colombia’s policy towards the FARC took on a more
important role in the building process of the Peace conciliatory tone and dialogue was strengthened as
Agreement (Chile, Ecuador, Norway and Venezuela the most promising alternative for the consolidation
are also mediators), since a significant part of the of peace. Although the country follows its deep
government’s sessions with the FARC took place in alignment with the United States, having signed
Havana, the official venue of the meetings. a free trade agreement with US already during
the Uribe government, the Santos government
Since the revolution, Cuba has always been a recognizes the strategic importance of Latin
regional and global player, and as part of this long- America in its foreign relations, having approached
awaited peace process for which the world has Unasur and resumed relations with Venezuela and
turned its eyes, the country gains visibility and Ecuador (Cepik et al 2012). Despite its proximity to
recognition, even from the United States, for its its Latin neighbors, Colombia continues to seek its
relevance to peace and stability in Latin America. entry into the Asia-Pacific Economic Cooperation,
It is worth noting that in 2014 President Barack the APEC, as a strategy to approach the markets of
Obama began the process of withdrawing the the Pacific. The country was also seeking entry into
economic embargo on the country, in 2015 the the TPP, but with the United States withdrawing
country officially left the list of countries considered from the TPP the very continuity of the agreement
terrorists of the US Department of State and, in remains unknown.
early 2016, the President paid a historic visit to the
country. According to Carmo and Pecequilo (2015), Colombia
still regards the problem of narcotrafficking and
In relation to the United States, Colombia may be guerrilla at the borders as a matter its neighbors’
considered the most American-aligned country in omission, being the border with Venezuela one
South America. The option to sign Plan Colombia3 of the most problematic, since besides the
in 1999 under the Andres Pastrana government geography of the region that harms the presence
(1998-2002) radicalized the political ties between of both states at the border, incidents in this space
both countries and made the relationship with the are sometimes instrumental in the ideological
United States the structuring axis of foreign policy confrontation between the countries. This process
in the governments of Pastrana and Álvaro Uribe is also a remnant of the Uribe government, which
(2002 - 2010) (Carmo and Pecequilo 2015, 157). broke relations with Venezuela because of the
During the Uribe administration, the fight against supposed connection of Chávez with the FARC. The
the FARC intensified, reducing the possibility of a Venezuelan participation in the peace processes in
process of dialogue as an enabler of the end of the Colombia is fundamental for the strengthening of
conflict. To this end, the Democratic Security Policy a relationship of trust between the countries and
was implemented, which was known to increase for the guarantee of a joint work, given the porosity
human rights violations, since there was evidence of the borders between them and the influence
of innocents murdered by the military to forge the in the stability of both that the pacification of the

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guerrilla-held region represents. member countries at reduced rates. Apart from
Alba, Chavez supported the creation of regional
Political divergences and crisis in Venezuela bodies that would exclude the United States and
Canada: the Union of South American Nations
The election of Hugo Chávez Frías in (Unasur) in 2008, and the Community of Latin
Venezuela in 1998 was emblematic for the crisis American and Caribbean States (Celac) in 2011.
of the neoliberal model in Latin America. Drawing In addition, under Brazilian pressure, Venezuela’s
on the wealth accumulated by the Venezuelan entry into the Southern Common Market
state with the high international price of oil, (Mercosur) was approved in 2006 and ratified in
Chávez undertook a series of transformations that 2012, strengthening the bloc both economically
characterized the so-called “Bolivarian revolution”: and politically (Gill 2016, Moreira, Quinteros and
it expanded popular access to basic rights such Silva 2010, Smilde and Pantoulas 2016).
as health, education and housing through the
“Missions”, promoted institutional reforms, Chávez was also noted for his strong partnership
redistributed income and wealth, hampered with Cuba, whether for ideological ties or for
privatizations, reinforced the role of OPEC and strategic reasons, constantly citing Fidel Castro
valorized the price of oil, and increased the powers and the Cuban Revolution as inspirations. Even
of the military. In 2006, after a coup attempt and a before the implementation of Alba, in October
recall referendum by the conservative opposition, 2000 he signed the Cuba-Venezuela Bilateral
he was re-elected with more than 60% of the votes Agreement, for which his country would provide oil
and founded a new party – the United Socialist to the Caribbean country at below-market prices, in
Party of Venezuela (PSUV) – strongly inspired by exchange for the assistance of Cuban professionals
the Cuban Communist Party (Gonzalez 2016, in Venezuelan territory in the implementation of the
Moreira, Quinteros and Silva 2010). Missions (Arce and Silva 2014). The agreements
involved the transfer of more than 100,000 barrels
At the international level, Chávez’s Venezuela of oil per day to the island and the employment
produced an independent and antisystemic of 45,000 Cuban specialists in Venezuela. Many
diplomacy, promoting its international insertion. of these experts have served in medical and
Raising criticism of neoliberalism and US educational missions in the country, although
interference in the South American continent, he the Cuban government has also sent military and
opposed the establishment of the FTAA and the security agents, intelligence experts, and sports
multilateral intervention in neighboring Colombia, instructors to advise the Venezuelan government
and led regional efforts to unify the Latin American (Smilde and Pantoulas 2016, 2).
lefts around new institutions. In 2004, Venezuela
and Cuba inaugurated the Bolivarian Alternative In March 2013, Hugo Chavez died from cancer. His
for the Peoples of Our America, the Alba, in order to vice-president, Nicolás Maduro, temporarily takes
integrate the economies of left-wing governments over the presidency of Venezuela, being elected
in the Western Hemisphere. Progressively, Bolivia, president in the elections of the following month.
Ecuador, Nicaragua and several Caribbean nations Maduro’s small margin of victory over opposition
joined the Alba. One of the first initiatives of the candidate Henrique Capriles raised doubts about
alliance was the creation of Petrocaribe in 2005, the integrity of the electoral process, prompting the
through which Venezuela would provide oil to opposition to repeatedly question it. The rejection
85
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of such pleas, first by the Venezuelan National addition, the Venezuelan limitation of international
Electoral Council (CNE) and then by the Venezuelan reserves has caused foreign currency deficits, which
Supreme Court, reinforced doubts about the have led to a significant reduction of imports and,
independence of powers from the government. The consequently, the sharpening of a series crisis in
following year, a series of popular demonstrations the supply of food and medicines (Costa, Carvalho
spread throughout the country. Initially with and Tancredi 2016, Smilde and Pantoulas 2016).
demands for greater public safety, such protests
increased in popularity and were soon led by the In December 2015, after seventeen years of
opposition, embracing broader lines that ranged defeats, the opposition won the majority in the
from corruption and rising inflation to alleged legislative elections for the National Assembly
Cuban interventionism in the country. Tensions of Venezuela. The result encouraged those who,
also increased: more than 40 people were killed in unhappy with the crisis, expected changes in the
2014 due to months of clashes between security economic policy. The Democratic Unity Roundtable
forces, government officials and opposition (MUD), the winning coalition, soon began
factions. Despite the continuity of demonstrations discussing strategies for the deposition of Maduro.
in 2015, the same intensity as in 2014 was not After the Supreme Court ruled out the possibility
observed (Costa, Carvalho and Tancredi 2016, of a constitutional amendment shortening the
International Crisis Group 2016). president’s tenure, opposition efforts focused on
holding a recall referendum. Maduro’s government,
At the same time that the political tensions were in reaction, sought to increase its powers and
unfolding, the Venezuelan economy entered, from undermine National Assembly’s. To this end, he
the beginning of the Maduro administration, in a appointed judges aligned with his government to
period of great recession, with its GDP contracting the Supreme Court, in order to block decisions
3.9% in 2014 and 5.7% in 2015. In 2013, the taken by the opposition in the Assembly. The
increase in the money supply and the deficit Court also ruled the executive’s power to govern
spending of the government, especially for the by decrees and to declare state of exception. In
maintenance of social programs, led the country addition, after the recall referendum was submitted
to the current hyperinflation it faces – in the to the CNE, the electoral body, composed of a
first month of 2017 inflation reached the rate of Chavista majority, imposed delays and obstacles to
800%. These social programs are mainly financed its decision, so that a possible referendum would
by the revenues of the oil company, Petróleos de only have as practical effect the replacement of
Venezuela S.A., which have not been sufficient, the current president by his vice president, not
especially with the drastic drop in international the holding of new elections4. On October 20,
oil prices from the second half of 2014. Inflation decisions from five state courts suspended the
has caused the devaluation of the exchange recall referendum process. Insistently, the MUD
rate, although the government has opted not to sought to open Maduro’s impeachment process,
devalue the official rate, overvaluing the national proposing to declare him “politically responsible”
currency, the bolívar. The Chavista policy of price for the crisis, but without the support of other
containment of non-durable consumer goods has institutions (all controlled by the executive), the
created incentives for smuggling and even for the legislature did not have the power to dismiss the
purposeful retention of products by companies. In president (International Crisis Group 2016, Smilde

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and Pantoulas 2016) underway as the Venezuelan government and its
allies accuse the OAS of being a spokesperson
The dynamics of the Venezuelan crisis and its for US interests5. In October last year, a Unasur
implications commission composed of its secretary-general,
former Colombian President Ernesto Samper,
The dynamics of the crisis in Venezuela former presidents Leonel Fernández (Dominican
are characterized by internal fissures on both Republic) and Martín Torrijos (Panama), the former
sides of the dispute. The MUD is a heterogeneous head of Spanish government José Luis Rodríguez
coalition composed of 21 parties divided into Sapatero, and the Vatican, instituted processes
a more moderate wing (favorable to dialogue) of dialogue between government and opposition.
and a more radical one. All factions of the PSUV, The results were insipient (International Crisis
despite their differences, support Maduro, since Group 2016). In December, accusations of non-
his deposition would imply the holding of elections compliance with agreements coming mainly from
and the almost inevitable defeat of the regime the opposition paralyzed the process, ushering in
as a whole. The Armed Forces constitute another a “revision phase”. This January, Unasur presented
fundamental sector to the support of the current a proposal to re-launch the dialogues, including
regime, and the elite that commands them is what it called a “verification and guarantees”
interested in controlling any eventual transition mechanism to deal with complaints of violation
in order to maintain its privileges. The repression of the dialogue. The MUD, however, rejected the
of the unrest has been, in the first instance, the proposal, stating that the dialogues, if maintained
task of paramilitary forces, such as the National under the conditions they have been, would not be
Bolivarian Militia, created in 2007. Such forces resumed (El País 2017).
have frequently attacked opposition demonstrators
and have a national presence. Relations between The crisis soon produced effects on Venezuela’s
the government and the private sector have in turn international relations. Since 2015, the government
been hostile since the coup attempt against Chávez has reduced its contributions to Petrocaribe. The
in 2002. Maduro insists that the country’s current US has sought to reduce Venezuelan influence
economic problems stem from an “economic war” in the Caribbean by filling the energy vacuum left
promoted by the private sector in partnership with by Petrocaribe and promoting clean energy in the
the MUD and foreign allies, especially the US. The region. The historic partnership between Venezuela
number of private Venezuelan companies has and Cuba, on the other hand, shows itself to be
declined substantially since the rise of Chávez. cooling. Daily shipments of subsidized Venezuelan
Nevertheless, the private sector is indispensable oil to the island have halved since 20136. With the
for the government to solve inflation and the decline of Venezuelan oil, the Cuban government
ongoing crisis of supply (International Crisis Group is also reducing its side in the bargain, summoning
2016). the return of Cuban professionals who helped
make Chávez so popular (Kurmanaev 2016, El País
Another actor in the country’s crisis is the 2016). In South America, the victory of Mauricio
international community, which has played an Macri in the Argentine elections of 2015 and the
important role in seeking dialogue between the impeachments of Dilma Rousseff in Brazil in 2016
conflicting parties. The initiatives led by Unasur and of Fernando Lugo in Paraguay in 2012 make
are perhaps the largest multilateral effort clear the advance of the right and the consequent
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deterioration of the relations of the Chavista may begin to show signs of detachment from the
regime with these countries. In September 2016, country. Inspiration for the Bolivarian revolution,
Venezuela was barred from holding Mercosur’s Cuba maintains its “revolutionary solidarity” with the
pro tempore presidency. In December, the country Maduro regime, which Raúl Castro recently referred
was indefinitely suspended from the bloc under the to as a “legitimate government.” Nevertheless,
so-called “democratic clause” and due to failures the decline in Venezuela’s ability to provide oil
to adapt its economic regulations to Mercosurian and finance to the island, coupled with the death
norms (International Crisis Group 2016). It is a of Fidel Castro, may jeopardize the symbiotic
little hasty, however, to say that Venezuela has relationship between the two countries. Despite
lost its acceptance and prestige among Latin Cuba’s recent economic opening, the Venezuelan
American nations. The support of many regional strategic partnership is of vital importance to the
allies remains. At the Summit of the Non-Aligned island, especially at a time when Trump’s foreign
Movement, held in Venezuela last September, policy raises doubts. The mediating potential that
more than 120 countries took part, and the Cuban diplomacy has developed may in the future
leaders of Cuba, Bolivia, Ecuador and Nicaragua present a creative solution to the crisis in Venezuela.
demonstrated their full support for the event and With the gains of the right in the hemisphere,
the Maduro government (Gill 2016). finally, Caracas may face greater foreign pressure,
especially within regional organizations, which
It is difficult to predict how the crisis in Venezuela had hitherto remained silent about the country’s
will unfold and what is expected of Chavismo. The political and economic problems (Gill 2016,
economy has not improved in the first month of International Crisis Group 2016).
2017, and Maduro has not yet made any effort to
reverse the situation and strengthen the national Final Considerations
currency. Prospects for a negotiated solution are
weak, and the hope of many resurges only with The implementation of the peace agreement
the prospect of the 2018 presidential elections. in Colombia, despite the polarization of the
In the population, it is perceived that discontent plebiscite, is a milestone in strengthening stability
with Chavismo did not necessarily translate into in South America. Putting an end to the continent’s
massive support for the opposition. In fact, many longest armed conflict points to a new chapter in
Venezuelans harbor suspicions on both sides of the region known as the “Andean arc of crisis”. In
the clash. The heritage of the Chávez years has addition, the possibility of recognizing the FARC as
given voice to historically marginalized populations a political actor, to be formalized in a party in the
in the country’s political life, to such an extent that future, promotes the strengthening of Colombian
the socialist culture that has developed will hardly democracy and the extension of its representation
vanish when PSUV is no longer in the presidency in a country with a political system still so rooted
(Gill 2016). in oligarchic traditions. The presence of Latin
countries in the negotiation process, especially
At the regional level, the traditional ideological Cuba, also indicates that the Colombian foreign
allies of the Venezuelan government will continue policy, still aligned to the north, begins to give its
to offer rhetorical support. More peripheral allies, neighbors their due importance. It is necessary to
however, whose alliance had been forged by the wait for the relevance that spaces like Unasur will
Venezuelan ability to assist them economically, assume from then on and how the United States
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will continue operating in the country with the
extinction of the combat to the guerilla.
Venezuela, which supported Cuba in encouraging
the FARC’s decision to leave the guerrillas and
agree to a negotiated peace process, is also an
important actor in this agreement, given the porosity
of the borders with Colombia and the country’s
responsibility to contribute to the compliance
of the agreement. With the continuation of the
political-economic crisis in Venezuela, and the
difficulty of keeping the principles of Chavismo
in an environment more and more troubled by
internal and external pressures, the country has
in Cuba its ideological partner who is interested
in the maintenance and stability of a government
with aligned principles. However, the crisis of the
Bolivarian model, along with the rise of right-wing
governments throughout South America, weaken
Venezuela’s chances to stabilize itself in the way it
is today and to simultaneously strengthen the left-
wing bases in the southern cone.

Democracy, peace and economic stability are


the points that the triangle Colombia, Cuba and
Venezuela need to meet in order to enable its
development. As discussed, the three countries are
affected when one of these points is not reached.
As a result, its instability makes it unfeasible for
South American institutions to advance in order
to consolidate the development of the region. It is
necessary that the institutions built to make peace
and stability in South America, such as Unasur,
give the necessary relevance to the peace issues
in Colombia and the political-economic crisis in
Venezuela. Otherwise, there is a risk that the
failure of the South American countries to prioritize
the solution of the crises in the subcontinent will
open up an increasing space for external actors to
project themselves here and bring us solutions that
are not in line with regional interests.

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Notes

3
A military-financial aid plan drawn up by the United States in order to combat cocaine production and trafficking,
as well as left-wing guerrillas, in Colombian territory.

4
If Maduro had been defeated in a recall referendum held before January 10 of this year, new presidential elections
would have been held, giving the opposition the opportunity to end the nearly eighteen-year Chavista regime in
Venezuela. His defeat in a referendum held after that date would simply result in the transfer of power to Vice
President Tareck El Assumi, whom Maduro appointed earlier this month (Huffington Post 2017, online).

5
The Secretary General of the OAS, Luis Almagro, has consistently expressed concern about the Venezuelan
regime, insisting on the application of the Inter-American Democratic Charter. In August, fifteen OAS members
signed a statement calling not only for dialogue, but also for the CNE not to delay the steps of the referendum
process (International Crisis Group 2016).

6
In November 2016, Cuba had to buy oil from the open market for the first time in 12 years because of the fall in
Venezuelan exports. At the same time, the country announced that it had entered a recession for the first time in
two decades, recording a decline of 0.9% in GDP in 2016, a negative performance explained largely by the crisis in
Venezuela (Kurmanaev 2016, El País 2016).

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Received on January 27, 2017.


Approved on January 31, 2017.

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