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ENSAIO REFLEXIVO

“ABORDADEGEM DA TEMÁTICA MATERIAIS AVANÇADOS NO ÂMBITO DO


PROGRAMA HORIZONTE 2020 DA UNIÃO EUROPEIA”

Aluno: Felipe Silva Bellucci


Professor: Caetano C. R. Penna
Disciplina: O Estado como Agente no Desenvolvimento de Ciência, Tecnologia e Inovação
Curso: Especialização em Gestão de Políticas de Ciência, Tecnologia e Inovação.

1. Sumário do Ensaio Reflexivo:


Este Ensaio Reflexivo apresenta uma análise da abordagem área de Materiais Avançados
no âmbito do Programa Horizonte 2020 de fomento à Ciência, Tecnologia e Inovação na União
Europeia. O tema foi escolhido pela relevância da área de materiais avançados para o
desenvolvimento industrial da sociedade, por se tratar de uma nova área implantada no Ministério da
Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) e pela necessidade de desenvolvimento
de um “Plano Nacional de Materiais Avançados”. No âmbito do eixo Liderança Industrial do
Programa Horizonte 2020, a área de key enabling technology (KET), em especial a temática Materiais
Avançados têm recebido especial atenção. No âmbito dos eixos Liderança Industrial e Excelência
Científica, a temática de Materiais Avançados foi abordada diretamente nos três Programas de
Trabalho (2014-15, 2016-17 e 2018-20) com o objetivo de obter níveis de prontidão tecnológica
equivalentes a TRL 6-7, bem como os principais esforços são discutidos ao longo do ensaio reflexivo.

2. Motivação da Escolha do Tema:


O tema de interesse para a elaboração do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) é o de
Materiais Avançados e o título tentativo selecionado para o pré-projeto de TCC foi “Política
Pública na área de Materiais Avançados: Principais Características e Tendências”. Durante a
realização da Disciplina 02, apresentamos uma síntese do eixo “Excelência Científica” do Programa
Horizonte 2020 da União Europeia e foram identificadas inúmeras interfaces entre as ações deste eixo
e a área de materiais avançados, bem como a possibilidade de aplicar os conceitos de “Estado como
fomentador da Ciência, Tecnologia e Inovação” na análise da área de materiais avançados no escopo
do Programa Horizonte 2020. Além disto, já estava previsto no escopo inicial do Projeto de Conclusão
de Curso analisar este iniciativa na parte de Materiais Avançados.

1
Cabe registrar também que, com a edição do Decreto nº 8.877, de 18/10/2016*, que
alterou a estrutura do Ministério da Ciência Tecnologia e Inovação (MCTI), transformando-o em
Ministério da Ciência Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), a Coordenação-Geral de
Desenvolvimento e Inovação em Tecnologias Convergentes e Habilitadoras (CGTC), antiga
Coordenação-Geral de Micro e Nanotecnologias, da Secretaria de Desenvolvimento Tecnológico e
Inovação – SETEC, coordenação onde estou lotado, passou a ser responsável pelas áreas de
Nanotecnologia, Materiais Avançados, Manufatura Avançada e Fotônica. Diante deste fato, surge
uma excelente oportunidade de utilizar os conhecimentos trabalhados durante a disciplina 02 para o
estabelecimento de subsídios para o desenvolvimento de um “Plano Nacional de Materiais
Avançados”.

3. A Área de Materiais Avançados:


Uma das principais vertentes do desenvolvimento da civilização humana foi sua
capacidade de extrair, desenvolver, caracterizar, moldar e aplicar Novos Materiais, o que os levou a
servir como marco temporal de diferentes etapas da evolução das sociedades, como por exemplo,
idades da pedra, bronze e ferro. Em grande parte, devido a corrida espacial e a necessidade industrial
de materiais com melhor performance física, nas últimas décadas, a relevância dos materiais no
desenvolvimento tecnológico tem aumentado significativamente, tornando-os, em muitos casos,
fatores determinantes para a introdução de novas tecnologias e agentes fundamentais do processo de
inovação. É de fácil constatação que a temática “Materiais Avançados” tem grande interface com
diversos setores econômicos como: energia de diversas fontes, telecomunicações, saúde, defesa e
meio ambiente†.
Materiais Avançados, definidos livremente como materiais e seu processo tecnológico
associado, com potencial para ser explorado em produtos e aplicações de alto valor agregado. Trata-
se de uma temática multidisciplinar (envolvendo, por exemplo, as áreas de física, química e
Matemática aplicada), transversal (perpassando áreas tecnológicas como eletrônica, fotônica e
biociências) e com mercado multissetorial (abrangendo os mercados de energia, transporte, cuidados
de saúde e embalagem).

*
Decreto nº 8.877, de 18 de outubro de 2016, Aprova a Estrutura Regimental e o Quadro Demonstrativo dos Cargos em
Comissão e das Funções de Confiança do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, remaneja cargos
em comissão e funções gratificadas e substitui cargos em comissão do Grupo Direção e Assessoramento Superior - DAS
por Funções Comissionadas do Poder Executivo Federal – FCPE. Presidência da República, Casa Civil, Subchefia para
Assuntos Jurídicos, (2016).

Materiais avançados no Brasil 2010-2022. Brasília: Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), Ministério da
Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), 360p, 2010.
2
Cabe salientar que a área de materiais avançadas (novos materiais, materiais funcionais,
materiais sintéticos e similares) representar umas das formas mais diretas de agregação de valor em
tecnologias já estabelecidas. Neste sentido, a utilização destes materiais ou o melhoramento de
processos para obtenção de materiais tradicionais já são capazes de reduzir custos, melhorar
propriedades físicas e químicas (por exemplo: maior resistência térmica, abrasão e ao
envelhecimento, redução da densidade, aumento da condutividade elétrica, entre outras), agregar
novas funcionalidades, gerar processos mais ecologicamente sustentáveis, dar nova destinação a
resíduos e diversas outras aplicações diretas. Devido a essa versatilidade, a área de materiais
avançados exerce papel fundamental nas principais políticas públicas mundiais. Contudo, o Brasil
não dispõe hoje de uma Política ou Programa Nacional para Materiais Avançados.

4. O Programa Horizonte 2020:


O Programa Horizonte 2020 é o maior programa de pesquisa científica e inovação da
União Europeia, visando estimular a excelência científica da Europa e conduzindo a novas
descobertas, avanços e lançamento de produtos com inserção mundial. Estão disponíveis
aproximadamente € 80 milhões (R$ 270 milhões) no período de sete anos (2014-2020). Cabe ressaltar
que este valor não contempla os recursos provados que o Programa tende a atrair. Neste ponto cabe
enfatizar o conceito de Multiplicador ou impacto dos investimentos públicos em P&D, proposto por
Georghiou (2015) ‡, o qual indica que o valor geral gerado pela pesquisa pública é entre três e oito
vezes o investimento inicial durante todo o ciclo de vida dos efeitos [3-8x o investimento inicial é,
portanto, um multiplicador]. Quando calculados em termos de taxas de retorno anuais, os valores
médios estão entre 20% e 50%. Extrapolando este resultado empírico para os aportes do Programa
Horizonte 2020, estimasse que o valor repercutido na economia europeia esteja entre R$ 810 milhões
e R$ 2.2 trilhões, não contabilizando os investimentos diretos do setor produtivo.
O Programa Horizonte 2020 é avalizado pelo Parlamento Europeu, que considera
pesquisa científica e inovação como investimentos cruciais para um crescimento inteligente,
sustentável, inclusivo, geradores de soluções inovadoras, melhoria de vida da população, proteção do
meio ambiente e promoção de uma indústria europeia mais sustentável e competitiva. Como ação de
reciprocidade, tal iniciativa poderia ser sugerida ao Congresso Nacional Brasileiro, visando que a
Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação – ENCTI (2016-2022)§ goze de status de
Política do Executivo e do Legislativo.


Georghiou, L. (2015). ‘Value of Research’, Policy Paper by the Research, Innovation, and Science Policy Experts
(RISE), EUR 27367 EN.
§
Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (2016-2022), Temas Estratégicos, item 7.11 Tecnologias
Convergentes e Habilitadoras, Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), 2016.

3
O Programa Horizonte 2020 esta alicerçado em três pilares nos quais o Parlamento
Europeu considera como suficientes para sustentar o crescimento económico: excelência científica,
desafios sociais e liderança industrial **. A seguir, a ideia associada a cada uma das temáticas:
(i) Excelência Científica: Este pilar do Programa Horizonte 2020 objetiva reforçar a
posição da UE enquanto líder mundial na área da ciência, atraindo os cérebros mais brilhantes e
ajudando os cientistas a trabalhar em estreita colaboração e a partilhar ideias em toda a Europa.
Ajudará pessoas talentosas e empresas inovadoras a promover a competitividade europeia, criando
postos de trabalho e contribuindo para um melhor nível de vida para bem de todos.
(ii) Desafios Societais: A UE identificou sete desafios prioritários em que o investimento
direcionado para a investigação e inovação pode produzir um impacto real em benefício dos cidadãos:
Saúde, alterações demográficas e bem-estar; Segurança alimentar, agricultura e silvicultura
sustentável, investigação marinha, marítima e de águas interiores, e bioeconomia; Energia segura,
não poluente e eficiente; Transportes inteligentes, ecológicos e integrados; Ação climática, eficiência
na utilização de recursos e matérias-primas; A Europa num mundo em mudança – sociedades
inclusivas, inovadoras e reflexivas; e Sociedades seguras – Proteger a liberdade e a segurança da
Europa e dos seus cidadãos.
(iii) Liderança Industrial: Para a manutenção e ampliação dos nichos industriais nos
quais a UE atua, é imperioso que a Europa invista em tecnologias promissoras e estratégicas para a
indústria de ponta. Mas atualmente tem-se claro que somente o financiamento público não basta. A
UE precisa incentivar as empresas a investirem mais em pesquisa científica de fronteira em áreas
chave. As empresas lucram, tornando-se mais inovadoras, eficientes e competitivas. Isto, por seu
turno, cria novos postos de trabalho e oportunidades de mercado. Cada euro investido pela UE gera
cerca de 13 euros direta e indiretamente para as empresas. Estima-se que aumentar o investimento
europeu para 3 % do PIB até 2020 criaria mais 3,7 milhões de postos de trabalho.
Explorando o pilar “liderança industrial” identificam-se três frentes de atuação bem
definidas, a saber: Liderança em tecnologias habilitadoras e industriais; Suporte a micro e pequenas
empresas; e Acesso ao capital de risco. O programa Horizonte 2020 apoia as tecnologias portadoras
de futuro e disruptivas necessárias para a consolidação da inovação, como as tecnologias da
informação e espacial. As tecnologias habilitadoras chaves ou Key Enabling Technologies (KETs)
como os materiais avançados, fotônica, nanotecnologia e biotecnologia estão no centro de produtos
inovadores como, por exemplo, smartphones, sistemas de armazenamento de energia, estruturas mais
leves, nanomedicamentos, tecidos inteligentes e outros. A relevância das tecnologias habilitadoras

**
Programa Horizon 2020 em Breves Palavras: O Programa-Quadro de investigação e inovação da UE. Comissão
Europeia, Direção-Geral da Investigação e da Inovação, (2014).

4
também está refletida no montante destinado a essa área no Programa, que supera os 13 bilhões de
euros ou mais de 40 bilhões de reais.
Cabe salientar que, o Estado brasileiro, por intermédio do Ministério da Ciência,
Tecnologia, Inovações e Comunicações, compreendendo a relevância e potencial de disrupção das
tecnologias convergentes e habilitadoras, em especial a nanotecnologia, biotecnologia, fotônica,
materiais avançados e manufatura avançada, implementou a Coordenação-Geral de Desenvolvimento
e Inovações em Tecnologias Convergentes e Habilitadoras no MCTIC com vistas a prospectar,
elaborar, implementar, executar e avaliar políticas públicas nesta temática. Esta Coordenação-Geral
representa uma aplicação de escopo da extinta Coordenação-Geral de Micro e Nanotecnologias,
implementada em 2003 para fomentar a nanotecnologia no Brasil.

5. Key Enabling Technologies (KETs), em específico os Materiais Avançados, e Inovações pelo


lado da Demanda:
Os termos convergente e habilitadora chaves ou Key Enabling Technologies (KETs) estão
relacionados com a capacidade de tecnologias causarem mudanças tecnológicas radicais que
transformam a humanidade e sua cultura, bem como tem o potencial e a tendência de gerar um ciclo
acelerado de desenvolvimento e criar tecnologias derivadas aplicadas virtualmente a todos os campos
de conhecimento, beneficiando o aumento do desempenho humano, seus processos e produtos,
qualidade de vida e justiça social. Convergente se refere à habilidade das tecnologias combinarem
esforços para sustentar um desenvolvimento maior. Habilitadora se refere a capacidade de cada
tecnologia contribuir para reforçar o avanço tecnológico. No Ministério de Ciência, Tecnologia,
Inovações e Comunicações (MCTIC) compreende-se como tecnologias convergentes e habilitadoras
as áreas de Nanotecnologia, Nano-eletrônica, Fotônica, Materiais Avançados, Manufatura Avançada
e Biotecnologia.
As atividades relacionadas a essa parte do programa Horizonte 2020 pretendem atender
toda a cadeia de inovação, com destaque para tecnologias com altos valores de nível de prontidão da
tecnologia (Technology Readiness Level – TRL), associadas a produção em massa e superação do
vale da morte (Valley of Death). Tais atividades serão baseadas em agendas de pesquisa e inovação
definidas pelos setores industrial e empresarial, ouvida a comunidade científica e tendo como foco a
forte alavancagem de investimentos do setor privado. Neste ponto cabe uma comparação da origem
da demanda científica. Neste eixo do Programa Horizonte 2020 (Liderança Industrial), a origem da
demanda é do setor produtivo, empresas e indústrias, após ouvir o setor acadêmico-científico. Desta
forma, novas invenções e melhorias de processo, com TRL superior a 7 são priorizados e,
consequentemente, terão mais chances de serem efetivadas no setor produtivo, gerar novos produtos,

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alcançar novos mercados, ofertar novos empregos e reforçar a posição da empresa ou indústria no
cenário econômico.
Neste sentido, fica claro a predominância conceitual da inovação induzida pela demanda
(demand-pull) e não pela oferta (supply-push), uma vez que cabe ao setor produtivo a orientação
sobre os rumos do desenvolvimento tecnológico. No caso do Programa Horizonte 2020, grande parte
das chamadas públicas destina-se a formação de consórcios envolvendo diversos setores da sociedade
e, necessariamente, precisam conter representes de diversos países europeus, com vistas a expansão
de mercados, integração europeia, ganho de competitividade, união dos melhores parceiros europeus
para o consórcio e diversas outras vantagens. Em geral, nesta classe de chamadas é discriminado o
atual estágio da tecnologia ou processo, exemplo, “a União Europeia considera que na Europa os
materiais vítreos para células solares encontram-se no estágio de prontidão tecnológico TRL 5††”,
bem como o próximo nível que se deseja alcançar da tecnologia, por exemplo, TRL 7‡‡. Na chamada
também constam as características da formação do consórcio, em termos de expertise, regras de
proteção e partilha intelectual, experiência, composição, demonstração de trabalho conjunto prévio,
entre outros. De acordo com Huenteler et al.¸2015 §§, as políticas públicas orientadas pela demanda,
além de ser uma distinta ferramenta de fomento, se dispõe a diversas outras funções com diferentes
características como, por exemplo: (i) produção em massa de produtos; (ii) produtos com maior valor
agregado; (iii) maior interação entre usuário-produtor-cientista; e (iv) curva de aprendizado associado
ao desenvolvimento tecnológico.
Similarmente ao proposto na União Europeia para o eixo Liderança Industrial, o antigo
Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação lançou em 2015, por meio do Decreto 8.269, de 25 de
junho de 2014 *** ainda vigente, o Programa Nacional de Plataformas do Conhecimento (PNPC). O
objetivo do Programa é promover o desenvolvimento de setores que podem transformar o Brasil em
uma potência mundial de produção e aproximar o País da fronteira do conhecimento, bem como
elevar o patamar e o impacto da CT&I no Brasil. Uma das metas do programa é criar, em 10 anos, 20
plataformas do conhecimento em áreas como agricultura, saúde, energia, aeronáutica, tecnologia da

††
TRL 5 – “Technology validated in relevant environment (industrially relevant environment in the case of key enabling
technologies)”, Technology readiness levels (TRL), HORIZON 2020 – WORK PROGRAMME 2014-2015, General
Annex G, Extract from Part 19 - Commission Decision C(2014)4995.
‡‡
TRL 7 – “System prototype demonstration in operational environment”, Technology readiness levels (TRL),
HORIZON 2020 – WORK PROGRAMME 2014-2015, General Annex G, Extract from Part 19 - Commission Decision
C(2014)4995.
§§
J. HUENTELER; T. S. SCHMIDT; J. OSSENBRINK; V. H. HOFFMANN. Technology life-cycles in the energy sector
- Technological characteristics and the role of deployment for innovation. Technological Forecasting and Social Change,
v. 104, 2016, 102-121.
***
Programa Nacional de Plataformas do Conhecimento (PNPC), Decreto 8.269, de 25 de junho de 2014,
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2014/decreto/d8269.htm
6
informação e comunicação, naval e equipamentos, dentre outras. Na sua essência, o programa
também trabalha com a ideia de identificação do desafio tecnológico, produto ou melhoria de
processos em conjunto, setor produtivo e setor acadêmico, bem como com a formação de consórcios
para desenvolver, testar, produzir e vender o produto-objetivo da Plataforma específica. Exemplo:
Plataforma Aeronáutica tinha como um dos alvos a construção de um avião com tecnologia
totalmente verde e, para isso, congregaria empresas e os institutos tecnológicos do setor para definir
as especificações do desafio, características dos consórcios, orçamento necessário, etapas de
desenvolvimento e tempo de cada etapa.
Em uma análise inicial, as principais diferenças entre as chamadas da União Europeia e
o Programa Nacional das Plataformas do Conhecimento em seus mecanismos de execução são: (i) a
forma de fomento da União Europeia se assemelha ao fomento fornecido pelas agências, porém com
uma orientação pelo lado da demanda, enquanto o Programa das Plataformas organiza um ambiente
com começo, meio e fim direcionado pela inovação pretendida; e (ii) no programa da União Europeia
o desafio é sabido desde o início, contudo as chamadas são “fracionadas” e os consórcios são
reajustados em cada chamada, exemplo: Chamada 1: TRL 3 para 4; Chamada 2: TRL 4 para 5 e etc,
enquanto no Programa das Plataformas não há esse fracionamento e o mesmo consórcio começaria e
terminaria o desafio tecnológico. Cabe enfatizar que o fracionamento dos desafios tecnológicos
permite a redução do risco, correção de rumo e, principalmente, a reformulação dos consórcios de
execução. Contudo, para os moldes das políticas públicas brasileiras de inovação, o fracionamento
da execução de um determinado desafio poderia ser fragilizado por fatores externos como a não
continuidade de ações, mudanças de prioridades e outros. Um outro ponto não claro no Programa de
Plataformas é a contrapartida do setor privado, uma vez que a grande parte dos recursos citados no
programa tem origem pública e poderia ser contraproducente ou uma perda de oportunidade a não
vinculação de uma contrapartida privada.

6. Materiais Avançados no Eixo Liderança Industrial do Programa Horizonte 2020:


Realizando uma busca na plataforma da União Europeia e nos Programas de Trabalho
†††
(2014-2016, 2016-2018 e 2018-2020) , em especial os três eixos do programa: excelência
científica, desafios sociais e liderança industrial; e os sete referenciais temáticos (flagships): (i)
Agenda digital para a Europa; (ii) União da Inovação (Innovation Union); (iii) Juventude em ação;
(iv) Europa com economia de recursos; (v) Uma política industrial para a era da globalização; (vi)
Uma agenda para novas habilidades e empregos; e (vii) Plataforma europeia contra a pobreza, o temo

†††
A preparação dos programas de trabalho envolve a consulta das partes interessadas. Neste sentido 19 Grupos
Consultivos Horizonte 2020 foram criados como órgãos consultivos que representam o coletivo geral das partes
interessadas, desde indústria e pesquisa até representantes da sociedade civil. Fonte: www.ec.europa.eu
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“advanced materials”, como esperado, foi encontrado mais expressivamente nos eixos Liderança
Industrial e Pesquisa de Excelência.
Contudo, é de conhecimento comum que a temática Materiais Avançados é uma temática
transversal com sobreposição em praticamente todas as áreas industriais e tecnológicas (energia,
segurança, defesa, saúde, agricultura, automotivo e muitas outras) e que promove agregação de valor,
melhora de performance, redução de custos e outros benefícios. Tal fato dificulta a formulação de
políticas específicas para a área de materiais avançados e dificulta a identificação de quais políticas
tem a temática materiais avançados como pilar fundamental.
Como um exemplo para reflexão, uma das temáticas de grande interesse na atualidade é
a Manufatura ou Indústria Avançada e, neste escopo, será necessário a utilização massiva de materiais
de referências para nortear a tomada de decisão do sistema. Logo, materiais de referência são uma
das temáticas chave para o desenvolvimento da Manufatura ou Indústria Avançada.

7. Materiais Avançados no Eixo Liderança Industrial do Programa Horizonte 2020:


No eixo de Liderança Industrial buscou-se identificar como a temática Materiais
Avançado foi abordada em cada Programa de Trabalho:
‡‡‡
- Programa de Trabalho 2014-2015 : Neste Programa de Trabalho a temática
Materiais Avançados foi explorada no âmbito das KETs, no sub-eixo “Liderança em Tecnologias
Habilitadoras e Industriais”, temática “Nanotecnologias, Materiais Avançados, Biotecnologia e
Manufatura e Processamento Avançado”. Nesta temática, 06 áreas/conceitos foram consideradas
prioritárias: (i) Superação da lacuna entre as pesquisas em nanotecnologia e o mercado; (ii)
Nanotecnologia e materiais avançados para cuidados mais eficazes em saúde; (iii) Nanotecnologia e
Materiais Avançados para produção de energia com baixa emissão de carbono e maior eficiência
energética; (iv) Explorar o potencial multidisciplinar das nanotecnologias e materiais avançados para
impulsionar competitividade e sustentabilidade da indústria; (v) Segurança de aplicações baseadas na
nanotecnologia e suporte para o desenvolvimento da regulamentação; e (vi) Abordar as necessidades
de suporte à governança, padrões, modelos e estruturação da nanotecnologia, materiais avançados e
fabricação e processamento avançados. Nestas 06 áreas foram realizadas 40 chamadas públicas, todas
com um desafio específico, escopo, impacto esperado, orçamento disponibilizado e tipo de ação
(pesquisa ou inovação). Neste Programa de Trabalho, em geral, o nível de desenvolvimento
tecnológico identificado foi de TRL 4-5 e o objetivo foi desenvolver a tecnologia para níveis de TRL
6-7.

‡‡‡
HORIZON 2020 – WORK PROGRAMME 2014-2015. Documento consultado em 01/11/2017 e disponível em:
http://ec.europa.eu/research/participants/data/ref/h2020/wp/2014_2015/main/h2020-wp1415-leit-nmp_en.pdf

8
§§§
- Programa de Trabalho 2016-2017 : Neste Programa de Trabalho a temática
Materiais Avançados foi explorada no âmbito das KETs, no sub-eixo “Liderança em Tecnologias
Habilitadoras e Industriais”, temática “Nanotecnologias, Materiais Avançados, Biotecnologia e
Manufatura e Processamento Avançado”. Nesta temática, 05 áreas/conceitos foram consideradas
prioritárias: (i) Materiais Avançados e Nanotecnologias para produtos e processos industriais de alto
valor agregado; (ii) Nanotecnologia e materiais avançados para cuidados mais eficazes em saúde; (iii)
Nanotecnologia e Materiais Avançados para aplicações em energia; (iv) Modelamento computacional
de materiais para o desenvolvimento de nanotecnologias e materiais avançados; e (v) Avaliação e
gestão de riscos baseados na ciência para a nanotecnologia, materiais avançados e biotecnologia.
Nestas 05 áreas foram realizadas 26 chamadas públicas, todas com um desafio específico, escopo,
impacto esperado, orçamento disponibilizado e tipo de ação (pesquisa ou inovação). Neste Programa
de Trabalho, em geral, o nível de desenvolvimento tecnológico identificado foi de TRL 4-5 e o
objetivo foi desenvolver a tecnologia para níveis de TRL 6-7.
****
- Programa de Trabalho 2018-2020 : Neste Programa de Trabalho a temática
Materiais Avançados foi explorada no âmbito das KETs, no sub-eixo “Liderança em Tecnologias
Habilitadoras e Industriais”, temática “Nanotecnologias, Materiais Avançados, Biotecnologia e
Manufatura e Processamento Avançado”. Nesta temática, 04 áreas/conceitos foram consideradas
prioritárias: (i) Testes de Inovação Aberta; (ii) Caracterização de materiais e modelagem
computacional; (iii) Governança, Avaliação de riscos baseada na ciência e aspectos regulatórios; e
(iv) Energia limpa através de materiais inovadores. Nestas 04 áreas foram realizadas 23 chamadas
públicas, todas com um desafio específico, escopo, impacto esperado, orçamento disponibilizado e
tipo de ação (pesquisa ou inovação). Neste Programa de Trabalho, em geral, o nível de
desenvolvimento tecnológico identificado foi de TRL 4-5 e o objetivo foi desenvolver a tecnologia
para níveis de TRL 6-7.
Análise: Com base nas principais informações coletadas nos Programas de Trabalho
2014-2020 fica evidente a transversalidade (abrangendo diversas áreas estratégicas como saúde,
energia e sustentabilidade) e relevância, uma vez que a temática foi recorrente em diversas partes dos
Programas de Trabalho. As áreas de atuação variaram ao longo dos 03 programas, o que pode sugerir
ajustes nas temáticas, uma vez que não há como exaurir cada tema em apenas um Programa de
Trabalho. Neste aspecto, as áreas que tiveram maior recorrência e continuidade foram as áreas de
energia, regulação e modelagem computacional. Especial atenção deve ser dada a área de modelagem

§§§
HORIZON 2020 – WORK PROGRAMME 2016-2017. Documento consultado em 01/11/2017 e disponível em:
http://ec.europa.eu/research/participants/data/ref/h2020/wp/2016_2017/main/h2020-wp1617-leit-nmp_en.pdf
****
HORIZON 2020 – WORK PROGRAMME 2018-2020. Documento consultado em 01/11/2017 e disponível em:
http://ec.europa.eu/research/participants/data/ref/h2020/wp/2018-2020/main/h2020-wp1820-leit-nmp_en.pdf
9
computacional, uma vez que a expectativa é que está área acelere o desenvolvimento de novos
materiais, reduz o tempo e o custo necessários para novos desenvolvimentos. No âmbito do MCTIC,
esta é uma área já prospectada e que conta com auxílio do Laboratório Nacional de Computação
Científica (LNCC) e do supercomputador Santos Dumont. Espera-se que, como citado por De Melo,
2016, a área de Materiais Avançados no Brasil não seja impactada negativamente com a atuação não
sistêmica do Sistema Nacional de Inovação, por meio da desarticulação das ações, representação
demasiadamente científica e dispersão de recursos e esforços.

8. Materiais Avançados no Eixo Excelência Científica do Programa Horizonte 2020:


No eixo de Excelência Científica buscou-se identificar como a temática Materiais
Avançado foi abordada em cada Programa de Trabalho:
††††
- Programa de Trabalho 2014-2015 : Neste Programa de Trabalho a temática
Materiais Avançados foi explorada no sub-eixo “Tecnologias Emergentes e Futuras”. Nesta temática,
uma das áreas prioritárias (flagship) foi o grafeno. Este tema conduz a ciência e as tecnologias para
uma nova classe de materiais, superando a era do silício, trazendo o grafeno e seu materiais
relacionados, dos laboratórios acadêmicos para indústria, fabricas e sociedade.
‡‡‡‡
- Programa de Trabalho 2016-2017 : Neste Programa de Trabalho a temática
Materiais Avançados foi explorada no sub-eixo “Tecnologias Emergentes e Futuras”. Neste ciclo do
Programa de Trabalho a temática grafeno seguiu em evidência. Contudo, uma nova área foi
explicitada “Novas tecnologias para energia e materiais funcionais”, com as seguintes subáreas:
ecossistema de engenharia e construções complexas tipo bottom-up, ambas associadas a temática
Materiais Avançados.
§§§§
- Programa de Trabalho 2018-2020 : Neste Programa de Trabalho a temática
Materiais Avançados foi explorada no sub-eixo “Tecnologias Emergentes e Futuras”. A temática
grafeno também foi mantida neste Programa. Outras linhas que contemplaram a temática Materiais
Avançados foram: Tecnologias da vida (materiais híbridos), Tecnologias disruptivas para micro-
energia e armazenamento (materiais inteligentes para gerar e armazenar energia ou o
desenvolvimento de novos tipos de baterias), Engenharia de Materiais Inteligentes e Nanoescala
(Novos materiais e sistemas que permitem a concepção e fabricação de novos componentes e

††††
HORIZON 2020 – WORK PROGRAMME 2014-2015. Documento consultado em 01/11/2017 e disponível em:
http://ec.europa.eu/research/participants/data/ref/h2020/wp/2014_2015/main/h2020-wp1415-fet_en.pdf
‡‡‡‡
HORIZON 2020 – WORK PROGRAMME 2016-2017. Documento consultado em 01/11/2017 e disponível em:
http://ec.europa.eu/research/participants/data/ref/h2020/wp/2016_2017/main/h2020-wp1617-fet_en.pdf
§§§§
HORIZON 2020 – WORK PROGRAMME 2018-2020. Documento consultado em 01/11/2017 e disponível em:
http://ec.europa.eu/research/participants/data/ref/h2020/wp/2018-2020/main/h2020-wp1820-fet_en.pdf
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dispositivos para a área de TIC) e Novo dispositivos e sistemas disruptivos de produção, conversão e
armazenamento de energia (energia renovável).
No âmbito do sub-eixo “Tecnologias Emergentes e Futuras” foram apresentados os
principais projetos apoiados nas áreas de Materiais Avançados e Nanotecnologias. A saber:
- Materiais Avançados *****: Abiomater (área: meta materiais), Flipt (área: mimetismo),
Grafeno (área: aplicações do grafeno), Icarus (área: ligas metálicas), Innosmart (área: materiais
inteligentes), Lirichfcc (área: armazenamento de energia) e Microflusa (área: micro fluídica).
†††††
- Nanotecnologias : 2D-Ink (área: semicondutores), Circle (área: governança
científica), Diacat (área: fabricação de diamantes), Grafeno (área: aplicações do grafeno),
Linabiofluid (área: mimetismo), Magicsky (área: spintrônica magnetismo), Nanosmell (área: nariz
eletrônico), Ultraqcl (área: laser) e Zoterac (área: semicondutores).
Análise: Como esperado, há grandes diferenças entre as ações associadas a temática
Materiais Avançados no âmbito dos eixos Liderança Industrial e Excelência Científica, uma vez que
o primeiro está diretamente associado a interação com o setor produtivo, enquanto o segundo está
destinado ao avanço da fronteira do conhecimento. No eixo Excelência Científica há uma maior
flexibilização e menor continuidade nas chamadas propostas, bem como, na maioria das chamadas,
não cabe a avaliação do nível de prontidão tecnológica (TRL). Consequentemente, devido a maior
flexibilização das ações de Materiais Avançados, a identificação direta das ações nessa temática exibe
maior complexidade. Cabe destacar também que neste eixo fomenta-se fortemente a interação entre
grupos distintos, preferencialmente de áreas não correlatas, com vistas a integração cientifica e
manutenção da posição de liderança europeia em algumas áreas.

9. Considerações Finais:
Como considerações finais do ensaio reflexivo, alguns pontos da temática Materiais
Avançados, no âmbito do Programa Horizonte 2020 da União Europeia, merecem especial destaque.
A saber:
- Transversalidade da área: Um ponto muito interessante da área de Materiais
Avançados que, ao mesmo tempo que reflete a multidisciplinaridade e relevância, também dificulta
a delineação e identificação das ações na área, é a transversalidade da temática Materiais Avançados.
Do ponto de vista tecnológico, a área de Materiais Avançados permite agregações de valor de 1°
Geração, no qual agrega-se valor ou melhorias de propriedades a produtos já existente, bem como já

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H2020 FET projects for technologies with new materials. Documento consultado em 01/11/2017 e disponível em:
http://ec.europa.eu/programmes/horizon2020/en/news/h2020-fet-projects-technologies-new-materials
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H2020 FET projects in nanotechnologies. Documento consultado em 01/11/2017 e disponível em:
http://ec.europa.eu/programmes/horizon2020/en/news/h2020-fet-projects-nanotechnologies
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iniciamos a geração de Materiais Avançados de 2° Geração, no qual novos dispositivos, produtos,
processos ou tecnologias são criadas a partir do Material Avançado especificamente. Tal agregação
de valor e geração de novos produtos são transversais e em áreas estratégicas como saúde, meio
ambiente, agricultura, defesa, energia e diversas outras.
- Tradição e Extensão da União Europeia: A União Europeia congrega países com
longa e notória tradição científica e de inovação (Alemanha, França, Reino Unido, Espanha e outros),
bem como exibe tradição na formação de recursos humanos especializados para as áreas científicas e
de inovação. Consequentemente, há maior probabilidade de empresas de base tecnológica serem
geradas, bem como as empresas já estabelecidas perceberem o valor da tecnologia e da inovação na
geração de valor, vantagem competitiva, aumento do faturamento, expansão do mercado e outras
vantagens.
- Continuidade do Fomento da Tecnologia e Inovação: Com base na análise dos
documentos do Programa Horizonte 2020 fica clara a continuidade temporal das ações sistêmicas de
fomento à área de tecnologia e inovação. Tal fato confere aos participantes, sejam eles públicos ou
privados, a percepção de maior segurança do investimento de recursos financeiros e esforço
operacional, maior perspectiva de retorno, aumentando assim o envolvimento sério dos parceiros,
orientados pelos desafios das chamadas do Programa.
- Comparação Brasil-União Europeia quanto ao Fomento Tecnológico e de
Inovação: É evidente a diferença de estrutura entre o sistema de fomento do Programa Horizonte
2020 da União Europeia e o Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação brasileiro, em
termos de estruturação, continuidade, orientação das chamadas, perspectiva social de retorno e
eficiência da execução. Grande parte da vantagem europeia deve-se principalmente à longa e notória
tradição europeia em pesquisa científica, desenvolvimento tecnológico e inovação. Contudo, em
termos de instrumentos de fomento à inovação, não há grandes diferenças entre os instrumentos
utilizados no Brasil (CNPq, FINEP, BNDES, CAPES, FAPs, e etc) e na União Europeia (Horizonte
2020).

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