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PALESTRAS VIVENCIAIS:

“SEPARAÇÃO DE CASAIS, FILHOS E O VÍNCULO


QUE NUNCA SE DESFAZ”
CONSTELAÇÕES FAMILIARES SISTÊMICAS APLICADAS À JUSTIÇA

A abordagem criada por Bert Hellinger como ferramenta para promoção de conciliações e indicação
da melhor solução para questões judiciais

Autor: Juiz Sami Storch (TJ-BA)

JULHO/2013

Vara Cível da Comarca de Castro Alves/BA

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1ª Edição da PALESTRA VIVENCIAL: “SEPARAÇÃO DE CASAIS, FILHOS E O
VÍNCULO QUE NUNCA SE DESFAZ” (18/10/2012)

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Meditação: pede-se aos participantes que fechem os olhos e se visualizem no contexto de sua
família de origem, trazendo à imagem as muitas dificuldades enfrentadas na própria vida, assim
como as dificuldades enfrentadas por seus pais, avós, bisavós, e assim sucessivamente. Durante a
meditação, busca-se incluir na imagem todas as pessoas que foram excluídas, causando dor e
transtornos na família (abortos, vítimas ou perpetradores, abandonos, adoções, relacionamentos mal
resolvidos, mortes precoces, acidentes ou doenças graves, etc.).

Com isso, os participantes sentem que não são tão livres, pois estão vinculados ao destino de sua
família, traçado ao longo de muitas gerações, e que suas vivências pessoais são em grande parte
resultado dessa longa história.

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Em seguida, a meditação é direcionada à visualização do(a) ex-companheiro(a) e de sua família,
que ao longo das gerações também condicionou, em grande parte, o seu destino.

Fica mais fácil, assim, cada um se sensibilizar e compreender os motivos que fazem com que cada
um seja exatamente como é.

Cada pessoa se visualiza com o ex-companheiro e os filhos que ambos têm em comum. E
reconhecem a importância do outro na vida desses filhos. E se imagina dizendo ao ex-companheiro
frases como: “muito obrigado por ter me dado algo tão precioso”. E dizendo aos filhos frases como:
“eu te amo desse jeito que você é, e você é assim por ser filho dele(a)”; “quando eu olho pra você,
vejo o seu pai/sua mãe”; “eu e seu pai/sua mãe estaremos sempre juntos, em você”.

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Em seguida, com os participantes já sensibilizados pela palestra e pela meditação, iniciamos as
constelações familiares.

Neste caso, o casal estava se divorciando e não estava entrando em acordo quanto à guarda dos
filhos e ao pagamento de alimentos.

Colocamos representantes para o homem, para a mulher e para seus dois filhos (um homem e uma
mulher).

Com a dinâmica da constelação e o movimento espontâneo dos representantes, evidenciou-se que os

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filhos eram colocados entre o pai e a mãe e, nessa posição, se sentiam muito mal.

O pai é representado pelo homem de camisa listrada. A mãe é representada pela mulher de vestido
listrado. O homem de amarelo e a mulher de vermelho representam os filhos.

O casal (homem e mulher sentados) confirmou que essa posição, formada espontaneamente pelos
representantes, mostra exatamente o que acontece na realidade.

A representante da mãe disse sentir medo do pai. Este disse se sentir mal por ser excluído e seus
filhos ficarem longe dele. O filho demonstrou se sentir mal por estar no meio do conflito entre seu
pai e sua mãe. E a filha chorava muito, por estar longe do pai, isolada dele pela mãe.

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Por sugestão do juiz, o pai diz aos filhos: “meus filhos, eu e sua mãe temos problemas. Mas isso não
tem nada a ver com vocês. Vocês são só nossos filhos.” A mãe diz a mesma coisa aos filhos.

Ao ouvirem isso, os filhos dizem sentir um grande alívio.

O pai e a mãe são colocados frente a frente. Quando é tirado do meio do conflito e colocado ao lado
da irmã, o filho diz se sentir bem melhor assim.

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Os representantes do homem e da mulher dizem um ao outro frases como: “foi muito difícil pra
mim”; “que pena que não deu certo”; “eu assumo minha parte por não ter dado certo”; “quando eu
olho para nossos filhos, vejo você”. Se emocionam com isso e reconhecem que existe amor entre si.

2ª Edição da PALESTRA VIVENCIAL: “SEPARAÇÃO DE CASAIS, FILHOS E O


VÍNCULO QUE NUNCA SE DESFAZ” (06/03/2013)

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As vivências de constelações familiares (método terapêutico criado por Bert Hellinger) trataram de questões
propostas pelos próprios participantes e abrangeram temas como a violência doméstica, alienação parental, os
vínculos com o passado familiar de cada um e a necessidade de preservar os filhos, deixando-os fora dos
conflitos da separação.

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Meditação na 2ª Edição:

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Advogados da comarca participando do evento:

Constelação: a mulher tem uma ação de alimentos na qual pede que seu ex-companheiro pague
alimentos aos dois filhos do casal. Diz que ele não aparece e não paga. Ao ser perguntada sobre a
situação, ela diz que, ao ouvir a palestra percebeu que estava fazendo errado ao impedir o ex-
companheiro de ver seus filhos e que talvez seja até por isso que ele estivesse distante. Diz também
que tem certeza que dali em diante fará diferente.

Colocamos, inicialmente, representantes para o homem e a mulher:

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O homem olha para o chão, o que em constelações indica que pode estar olhando para alguém que
morreu.

Inclui-se a representante para alguém que morreu na família. Os dois passam a olhar para ela.

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Em seguida, incluímos representantes para as duas filhas do casal. Colocados ao lado da mãe,
notou-se que nenhum dos pais olhavam para as filhas, pois ambos os pais estavam com a atenção
presa nessa pessoa morta (possivelmente um filho abortado ou outra pessoa importante para os
dois).

Uma das filhas só olha para o pai; a outra (que é neném) olha para o pai e para a mãe. Ambas se
sentem bem. O pai, contudo, diz que nem notou a entrada das filhas, pois estava com toda sua
atenção direcionada à pessoa morta.

Solicito que o pai olhe para as filhas. Imediatamente, o pai se emociona e sorri. As filhas também se
emocionam.

Peço que a mãe diga para as filhas: “minhas filhas, este é o seu pai”. Ela diz. As filhas se
emocionam e uma delas chora. Peço à mãe que diga: “agora vocês podem olhar para ele. Ele é o pai
certo pra vocês”.

Ao ouvir isso, o pai sorri e se movimenta, virando de frente para as filhas. As filhas relatam que
ainda sentem uma distância em relação ao pai e não conseguem se aproximar.

Peço para o pai dizer às filhas: “minhas filhas, eu andei muito distante. Eu estava preso nisso que
aconteceu no meu passado. Eu só conseguia olhar pra cá e não conseguia olhar pra vocês. Mas
agora eu vejo vocês.” Ele fala.

Peço para a mãe dizer às filhas: “minhas filhas, está tudo bem se vocês se aproximarem do seu pai.
Eu abençoo vocês.” A mãe diz isso.

Ao ouvir isso, a filha mais velha se emociona e chora. Eu digo para todos: “estava faltando a
autorização da mãe para a filha se aproximar do pai”. E digo para a filha seguir o movimento que
estiver sentindo. A filha, então, se movimenta até o pai e os dois se abraçam.

Peço ao pai e à mãe que se olhem. Ele diz a ela: “que pena que não deu certo. Eu sinto muito.” Ela
diz para ele: “que pena que não deu certo. Que pena. Essas filhas representam o amor que a gente

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viveu. Quando eu olho pra elas, eu vejo você. Se você se aproximar delas, está bem pra mim.”

Ao dizer isso, a representante da mãe confirma estar mesmo sentindo isso. E o representante do pai
diz se sentir aliviado, agora, por poder olhar para as filhas.

A mãe diz ainda: “obrigada. Muito obrigada.”

Peço que os dois troquem de lugar, ficando o pai ao lado das filhas. A filha mais velha diz já se
sentir mais próxima ao pai.

Eu digo: “vejam que interessante. No começo, a filha só olhava pro pai e não olhava pra mãe.
Quando a mãe permitiu à filha se aproximar do pai, a filha começou a olhar para os dois. Isso
mostra algo que acontece mesmo: quando a mãe não deixa a filha olhar para o pai, a filha fica
querendo olhar para o pai e se recusa a olhar para a mãe. E muitas vezes a criança, quando cresce,
se revolta com a mãe, porque esta não deixava que ela se aproximasse do pai. É o efeito inverso.
Quanto mais a gente nega, mais o pai está presente. Vou deixar isto assim. Agradeço aos
representantes.

CONSTELAÇÃO – VIOLÊNCIA DOMÉSTICA:

A questão foi apresentada por uma advogada, que falou de uma mulher que lhe procurou para
ajuizar uma ação de divórcio. O casal tem dois filhos adolescentes. A relação já estava bastante
desgastada, tendo ocorrido inclusive atos de violência doméstica, e não se via possibilidade de
entendimento. Chamaram o marido e tentaram um acordo no escritório, mas não houve êxito, pois
as partes estavam muito resistentes, e por isso ajuizaram a ação.

Após participarem da vivência de constelações familiares em outubro/2012, as partes


surpreenderam a advogada ao comparecerem à audiência de conciliação e pedirem a suspensão do
processo, pois se reconciliaram e voltaram a viver juntos e estão conseguindo retomar o casamento.

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Nas palavras da advogada: “eles iam tentar reatar o casamento deles. Diante de tudo o que foi
conversado, eles visualizaram, viram o papel de cada um na relação, conseguiram enxergar onde é
que estava o erro, o que é que feria e magoava e o que é que poderiam fazer diferente. Por isso,
pediram a suspensão do processo. O resultado é que ainda hoje a cliente liga no escritório
frequentemente e disse que graças a Deus estão conseguindo melhorar e retomar o casamento. Com
relação à situação de violência doméstica que ocorreu, ela disse que não abriria mão da audiência
correspondente, por ser uma questão de dignidade pessoal dela, para que ele aprendesse a
respeitar”.

No entanto, a mulher não quis desistir da ação de violência doméstica, pois ainda se sentia magoada
e a ação era importante para a preservação de sua dignidade pessoal.

A advogada propôs que colocássemos a constelação, para que ela pudesse ver se havia algo a ser
feito por ela.

Colocamos representantes para o casal, conforme a foto acima.

Colocados um de frente para o outro, a mulher não conseguia olhar nos olhos do marido.
Perguntado ao marido o que estava acontecendo, ele disse que sentia mágoa. Ele olhava fixamente
para a mulher, mas esta não correspondia.

Colocamos, então, dois representantes para os filhos.

Imediatamente, o pai olha para um dos filhos e começa a chorar. A mãe continua olhando para o
mesmo lugar, sem reagir à presença dos filhos. Pergunto ao filho para quem o pai olhou o que ele
está sentindo e ele responde: “minha mãe não me deixa olhar para ele”.

A advogada, ao ver isso, diz que um dos filhos presenciou a agressão do pai contra a mãe.

Eu observo (e digo) que o filho para o qual o pai olhou fechou os punhos, da mesma forma que fez
o pai, o que demonstra a identificação do filho com o pai, o forte vínculo entre eles. Às vezes, numa

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situação como a de agressão física no casal, o pai é tido como vilão e o filho toma o partido da mãe.
No entanto, inconscientemente se identifica com o pai, como forma de compensar o desequilíbrio
por ter tomado partido. E pode vir a assumir os mesmos padrões negativos do pai. Pudemos ver essa
identificação, nesse caso. E o pai se emocionou ao ver isso.

Digo ainda que na constelação não há julgamento, não se faz juízo de culpa. Mas a pessoa não deixa
de ter culpa. Se houve crime, a pessoa pode responder por seus atos, inclusive criminalmente. A
constelação não absolve a pessoa. Mas, sistemicamente, podemos ver outras dinâmicas envolvidas
nisso. O pai pode ter tido culpa, mas não é um monstro. É um ser humano, em um relacionamento, e
tem sentimentos também.

Peço ao homem que diga à mulher: “dói em mim quando você não me olha. Eu fico sem saber o
que fazer”.

A mulher continua com o olhar perdido, como se procurasse alguma coisa, mas não consegue olhar
nem para o marido e nem para os filhos.

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Coloco mais uma pessoa (homem de camisa listrada), representante alguém do passado familiar da
mulher.

A mulher continua indiferente. Eu comento que essa pessoa parece ser alguém com quem a mulher
se relacionou no passado.

Eu peço a ela que diga ao marido: “Eu não tenho conseguido olhar para você. Meu coração está em
outro lugar. E você não tem nada a ver com isso. Eu sinto muito.”

Pergunto ao pai como ele se sente ao ouvir isso. “Um alívio muito grande”, responde ele.

Peço que diga a ela: “Eu não soube lidar com isso. Eu sinto muito.”

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Em seguida, eu peço ao marido que se coloque ao lado da mulher. E peço a ele que diga à mulher:
“Eu reconheço o que aconteceu no seu passado. Agora eu entendo”.

Pela primeira vez, a mulher se emociona. Eu digo: “isso tocou o coração dela”. Pergunto a ela como
se sente ao ouvir isso, e ela responde que se sente bem.

Peço que os representantes sigam o movimento que estiverem sentindo.

Espontaneamente, o pai vai até os filhos e abraça cada um deles.

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Peço ao pai que diga aos filhos: “Vocês são só nossos filhos. Os problemas entre eu e sua mãe,
vocês não têm nada a ver. Vocês são pequenos, nós somos grandes. Fiquem fora disso.” Ele diz.

Peço que a mãe diga aos filhos: “Os problemas que eu tenho com seu pai, eu resolvo. Vocês são só
os filhos”. Ela diz.

Pergunto aos filhos como se sentem ao ouvir isso. O primeiro diz: “É um alívio”. O segundo diz: “É
uma tranquilidade no coração”.

Pergunto aos pais como se sentem depois de dizer isso pros filhos. “Aliviada”, responde a mãe.
“Aliviado”, responde o pai.

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3ª EDIÇÃO DA PALESTRA VIVENCIAL – NA CÂMARA MUNICIPAL DE RAFAEL
JAMBEIRO/BA, destinada aos moradores daquele município, que integra a Comarca de
Castro Alves (27/5/2013)

Fomos até o município de Rafael Jambeiro, tendo em vista a dificuldade de acesso à sede da
Comarca, pelas pessoas que lá residem.

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4ª EDIÇÃO DA PALESTRA VIVENCIAL – FÓRUM DE CASTRO ALVES (28/5/2013)

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