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PRESIDENTE DA REPÚBLICA

Luiz Inácio Lula da Silva


MINISTRO DA CULTURA
Gilberto Gil Moreira

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO/UFRJ


Reitor Aloisio Teixeira
. Vice-Reitora Sylvia Vargas
Coo!denador do Forum de Ciência e Cultura Carlos Antonio Kali! Ta nnus

EOI TORA UFRJ


Diretor Carlos Nelson Coutinho
Editora Executiva Cecilia Moreira
Coordenadora de Edição de Texto Lisa Stuart
Coordenadora de Produção Janise Duarte
Conselho Editorial Carlos Nelson Coutinho (presidente),
Charles Pessanha, Diana Ma ui de Carvalho,
José Luís Fiori, José Paulo Netto,
Leandro Konder, Virgínia Fontes

INSTITUTO 00 PATRIMÔNIO HISTÔRICO E ART ISTICO NAClONAUIPHAN


Presidente Antonio Augusto Arantes Neto
Chefe de Gabinete . Marcelo Brito
Procuradora-Chefe Sista Souza dos Santos
Coordenadora-Geral de Pesquisa,
Documentação e Referência Lia Moita
Coordenadora-Geral de Promoção
do Património Cultural Grace Elizabeth
Diretora de Patrimônio Imaterial Mareia Sant'Anna
Diretora de Património Material Sonia Rabello de Castro
Diretor de Museus e Centros Culturais José do Nascimento Junior
Diretor de Planejamento e Administração Sergio Abrahão
Gerência de Editoração Ana Carmen Amorim Jara Casco
1

O PATRl/r\ÔNJO EM PROCE~SO
rRAJETÓRIADA POLÍTICA fEOfRAl Df PRHERVACÃO NO 8RA51l

/1\ ARIA CEC ÍLI A l ONDRf S fON H CA

2• fD I ( i D
ED 11aR A UFRJ/ M1H(- ! , m
20 05
Copyrighl © 1997 by Maria Ceci!i1 Londres Fonseca

Ficha Cataiogràfica elaborada peia Divisão de


Processamento Técnico - SIBIIUFRJ

F676p Fonseca, Maria Cecília Londres


O ?atrímór,io em proce:;so: trajetória da política federal de
preservação no Brasil I Maria Cecília Londres Fonseca. 2. ed. rev.
arnpl. Rio de Janeiro: Editora UFRJ; Mine . lphan. 2005.
296 p.; 16 x 23 cm.
1. Patrimônio cultural - Brasil. 2. Pa!rirnónio Cultural • História. 1.
Unive;sidade Federal do Rio de Janeiro. li Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional (Brasil). Ili. Titulo
CDD 363.69098 1

Estante 344.09400981 / F676p / 2.ed.


ISBN 85-7108-149-2 (Editora UFRJ)
Obra 77385 C. Sociais
ISBN 85·7334-006·1 (lphan)

1• edição - 1997 Registro


117011
1~}\\\ ~l(\ I\}\\\ll\\11\\\MII J\I\ \11\
Edição de Texto
Núbia Mel hem dos Santos (lpha n} e
~osé Antônio Nonalo (lph.an) (1' ediç.v 1
t1 ~
• _
AI varo Mendes (\phan) (2' edição} D ATA f_C§__}_ Z,ÇCB
Revisão LIVRARIA 2'..A-tn.~,-.E,
Álvaro Mendes (1 phan) e
Sylvio Clemente da Motta (2 ' edição)
RS 23 4?.>
Capa
UNI DESIGN
Projeto Gráfico
Janise Duarte
Editoração Eie!rõnii;a
Marisa Araujo

Universidade Fe~eral do Rio de Janeiro Instituto do Palrimónio Histórico


Forum de Ciência e Cultura e Artístico Nacional - lphan
Editora UFRJ SBN Quadra 2, Bloco F
Av. Pasteur. 250/sala 107 Edificio Central Brasília
Praia Vermelha • Rio de Ja~eiro CEP 70040·904 Brasília · DF
CEP: 22290-902 Te:.: (61) 414-6176, 414-6186,
Tel /Fax: [21) 2542-7646 e 2295-0346 414-6199
(21) 2295-1595 r. 124 a 127 Fax: (21) 414-6126, 414-5198
htlp:liwww.edilora.ufrj.br http: //www.iphan.gov. br
webma ste r@iph an. gov.br

Apoio ,tr
UI
F.; nd.iç ãe_ ~n.lvers(d.rla
Josíi 80111he Lo
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Para João Luís e José Pedro


Em memória de Stel/a Londres

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Em geral. as pessoas se referem ao período de elaboração de tese como um


tempo de isolamento, de renúncias, de tra balho árduo e tenso. Não foi essa, no
entanto, a impressão que me ficou do período em que preparei meu trabalho para
a obtenção do título de doutora em Sociologia pela UnB. Além do profundo envol-
vimento com o tema, pude sempre contar com a va liosa colaboração de colegas,
' ·'
parentes e amigos .
Em Angélica Madeira encontrei a orientadora de todos os momentos e a dispo-
nibilidade para acompanhar, mesmo quando distante, todos os passos do meu
trabalho.
A Clara de Andrade Alvim devo, entre muitas outras coisas, a sugAstão de
estudar os processos de tombamento. Foi com ela que descobri os ricos pontos
de contato entre o mundo das palavras e o mundo dos objetos. De dona Graciema,
esposa de Rodrigo Melo Franco de Andrade, obtive informações que jamais encon-
.'
l :· traria em qualquer documento,

1 ' Dos professores do Departamento de Sociologia da UnB sempre recebi estí -


'mulo e apoio. Devo a Vilma Figueiredo a sugestão para procurar na sociologia
(
o caminho para elaborar as questões suscitadas por minha experiência profissio-
f CC, nal na área da cultura. Maria Stella G. Porto me orientou com sensibilidade no difí cil
momento de elaboraçào do projeto. De Christianne e Brasilmar F. Nunes recebi ·~
sugestões muito oportunas. que corrigiram rumos e apontaram trilhas ainda não
exploradas. Mariza Veloso, minha parceira no estudo do patrimônio, trouxe con tri-
buições valiosas em função do conhecimento que acumulou sobre o assunto.
Contei sempre com a colaboração de meus colegas da entào Fundação Nacio-
nal pró-Memória. Xavier Maureau é sempre um interlocutor estimulante, em busca
de novas formas de abordar a questào do patrimônio. Antônio Herculano Lopes e
Antônio Luís Dias de Andrade também me ajudaram, de diferentes maneiras. Maria
Alice de Castro me deu acesso à sua pesquisa sobre os Livros do Tombo. Dora
e Pedro Alcântara me repassaram sua riquíssima experiência na área da pedra
e cal. dr. Lúcio Costa, dona Judith Martins e dona Ugia Martins Costa, heróis de
um Patrimônio que não conheci. me possibílitaram conhecer e entender melhor o
entusiasmo e mesmo a devoção despertados pelo Sphan naqueles que tiveram a opor-
tunidade de dele participar. José Silva Quintas, Luís Felipe P. Serpa, Ana Gita de
Oliveira, Helena Mussi, Ann-Maj Meirelles, companheiros da referência. me forne-
ceram informações que, de outro modo, não poderia obter.
Aos funcionários do Arquivo Central do lphan agradeço a atenção com que
sempre atenderam a minhas solicitações.
Ao então Instituto Brasileiro do Patrimônio Cultural devo a dispensa de meus
encargos funcionais durante o período de elaboração da tese. Da Capes e do CNPq
recebi apoio financeiro em diferentes momentos de meu curso de doutorado.
Ge!son participou desde o início, e suas sugestões foram fundamentais para
que eu pudesse me distanciar de um ponto de vista predominantemente funcional
e alcançasse um nível de análise política.
A Vladimir Murtinho, Paulo Sérgio Pinheiro, Celso Lafer. Joaquim Falcão, João
Geraldo Piquet Carneiro, Marisa Peirano e Lu is Antônio de Castro Santos agra-
deço as contribuições e sugestões feitas. De Célia 8. Nogueira e Eduardo Slerca
recebi uma assessoria jurídica de inestimável valor para a linha de investigação
que desenvolvi.
E não poderia esquecer daqueles que, embora ausentes, deixaram sua marca
na minha vida pessoal e profissional, e também neste trabalh o. A Aloisio Magalhães,
com quem tive o privilégio e o prazer de conviver desde os primeiros tempos do
CNRC, e a Fausto Alvim Júnior, personalidade instigante e criativa, devo, entre mui-
tas outras coisas, o exemplo da busca constante e entusiasmada do novo, mesmo
'i. nos c:::ninhos estreitos da burocracia.
rnft\ÁRIO

Lista de siglas -lv~

Prefácio à segunda edição 17


Introdução 21

Parte 1 - A noção de patrimônio: características e história 33

Capítulo 1 - O patrimônio: uma questão de valor 35


1.1 A noção de património como categoria jurídica 37
1.2 O patrimônio como forma de comunicação social 41
1.3 O patrimônio como objeto de uma política pública 45
Capítul o 2 - A construção do pa trimônio: perspecti va histórica 51

2.1 Os primórdios da preservação de monumentos e autonomização


das noções de história e de arte 54
2.2 A legitimação do patrimônio pelo valor de nacionalidade 57
2.3 A teoria dos va lores de Alo'is Riegl 65
2.4 A ampliação da noção de patrimônio e a legitimação via direitos
culturais 70
Parte 2 - O patrimônio no Brasil 79

Capitulo 3 - A fase heróica 81


3.1 O contexto cultural 82
3.2 O movimento modernista e o património 88
3.2.1 O sentido de ruptura no modernismo brasi,eiro 88
3.2.2 Os modernistas e Minas Gerais 92

.
3.3 A criação do Sphan 94
3.3.1 As iniciativas precursoras 94
3.3.2 A institucionalização da proteção do patrimônio ~
96
3.3.3 O anteprojeto de Mário de Andrade e o decreto-lei 112 25 98
3.4 O programa de trabalho do Sphan 106
3.4.1 As prioridades e os limites 106
3.4.2 A construção de um saber verdadeiro 110
1:
3.4.3 Um retrato em pedra e cal 112
3.5 Os colaboradores e os adversários 116
3.5.1 O papel da equipe e do Conselho Consultivo 116
3.5.2 As vozes discordantes 118
\

3.6 Uma autonomia fraca 120

Capitulo 4 • A fase moderna 131

4.1 O contexto cultural 131

4.2 O Sphan pós-Estado Novo 139


4.3 As alternativas do (e ao) lphan 141
t
4.3.1 Os caminhos da descentralização e a busca de novos
sentidos para a preservação 141
4.4 O Centro Nacional de Referência Cultural 143
4.5 A unificação da política federal de preservação:
a fusão lphan/PCH/CNRC 154
4.6 Uma proposta de democratização da política cultural:
a criação da Secretaria da Cultura do ME C 158
4.7 O alcance e os limites da política federal de preservação
nos anos 70-80: um balanço 160

Capítulo 5 - A prâtica de tombamento: 1970-1990 179

5.1 A sistemática dos processos de tombarnen:o 180


5.1.1 A origem dos pedidos 183
5.1.2 Juslificativas, pareceres e impugnações 186
5.2 Os principais problemas 188
5.2.1 As concepções de valor histórico e de valor artístico 188
5.2.2 As concepções de valor excepcional e de valor nacional 195
5.2.3 Os conceitos de centro hi stórico e de entorno 198
5.2.4 Sobre a legitimidade do processo de atribuição
de valor nos tombamentos 200
5.3 A atuação do Conselho Consultivo 205
5.4 Observações finai~ 20~

Conclusão 213

Referências bibliográficas · 225

Anexo s

Anexo I Cronologia da política de preservação no Brasil 239


Anexo ll Decreto-lei nº 25, de 30 de novembro de 1937 245
Anexo li! Parecer de Carlos Drummond de Andrade 253
Anexo IV O compromisso cultural da Nova Republica 255
Anexo V Processos de tombamento abertos de 1.1.1970
a 14.3.1990 259
Anexo VI Processos de tombamento abertos de 1990 a 2004 279
Anexo VII Decreto nº 3.551, de 4 de agosto de 2000 289
Anexo VIII Processos de registro abertos de 2000 a 2004 293
Anexo IX Bens culturais e naturais do Brasil inscritos na
lista do patrimônio cultural mundial da Unesco 295
1

llSTh DE SIGLhS

ABA Associação Brasileira de Antropologia


i
ABC Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano
ABI Associação Brasileira de Imprensa
ABL Academia Brasileira de Letras
AIS Ação Integralista Brasileira
ALN Aliança Libertadora Nacional
CC Conselho Consultivo do Spha n
Cebrap Centro Brasileiro de Análise e Planejamento
CN R C Centro Nacional de Referência Cultural
Condephaat Conselho do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Tecnológico
Corephaae Comission Régionale du Patrimoine Hi storíque, Artistique,
Archéologique et Ethnographique
CP C Centro Popular de Cultura
'
DAC Departamento de Assuntos Culturais
Das p Departamento Administrativo do Serviço Pú blico
1
DC Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo
DeR Divisão de Conservação e Restauraçã o

OET Divisão de Estudos e Tombamento


DtP Departamento de Imprensa e Propaganda

!
Dphan Departamento do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional

DR Diretoria Regia nal

OTC Diretoria de Tombamento e Conservação

Embratur Empresa Brasileira de Turismo

Esaf Escola Superior de Administração Fazendária

FNpM Fundação Nacional pró-Memória

Funai Fundação Nacional do [ndio

Funarte Fundação Nacional de Arte

IAB Instituto dos Arquitetos do Brasil

lbama Instituto Brasileiro do Meio Ambiente

lBPC Instituto Brasileiro do Patrimônio Cultural

!cornos lntemational Couhcil of Monuments and Sites

ldesp Instituto de Estudos Econômicos, Sociais e Políticos de São Paulo

IHGB Instituto Histór'1co e Geográfico Brasileiro

INF Instituto Nacional do Folclore

lphan Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional

lseb Instituto Superior de Estudos Brasileiros

LAA Livro de Artes Aplicadas

Laep Livro Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico

LBA Livro de Belas Artes


LH Livro Histórico
MD B Movimento Democrático Brasileiro
ME C Ministério da Educação e Cultura
MES Ministério da Educação e Saúde
MinC Ministério da Cultura
OAB Ordem c:is Advogados do Brasil

ONU Organize.ção das Nações Unidas

PC Partido C8munista

PCH Prograrr:a de Reconstrução das Cidades Históricas

PD Partidc Democrático
PMDB Partido do Movirnen1o Democrático Brasileiro
PN DA Prog rama Nacional de Desenvolvimento do Artesanato
PP Partido Progressista
PSD Partido Social Democrata
PSDB Partido da Social Democracia Brasileira
PT Partido dvs Trabalhadores
PTB Partido Trabalhista Brasileiro
Sear Secretaria de Assuntos Culturais do MEC
Seac ::.ubsecretaria de Assuntos Culturais do MEC
Senalba Sindicato dos Empregados em Entidades Culturais, Recreativas. de
Assistência Social, de Orientação e Formação Profissional, de Brasilia
Seplan Secretaria de Planejamento da Presidência da República
Span Serviço do Património A, ,ístico Nacional
Sphan Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
Sphan Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
Sphan Subsecretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
Suden e Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste
UDN União Democrática Nacional
UNE União Nacional dos Estudantes
Une se o United Nations Educalional, Scientific and Cultural Organization
(Organização da s Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura)
PREf ÁC IO À SfGUNDÂ EDIC ÃO

/1\ ARI A [ Hí ll t LONDRES ÍONl!CA

'

A reedição de um livro o transforma, de algum modo, em uma nova obra. A


receptividade que obteve, a distância na avaliação de seu conteúdo, as reações
dos leitores são elementos que contribuem para aprimorar a primeira versi.io, ade-
quando-a às necessidades do momento atual.
As intervenções feitas nesta segunda edição têm como objetivo contribuir para
que este livro cumpra sua priricipa l fina lidade: servir de subsidio tanto para os 1

que estudam a temática do patrimônio cullural brasileiro, nas universidades e em


outros centros de ensino e pesquisa, quanto para os que, no setor público e tam-
(
bém nas várias instâncias da sociedade civil, trabalham na formulação e imple-
mentação de políticas de patrimônio.
Nesse sentido, além de uma revisão criteriosa do texto, foram acrescentados
anexos para facilitar o acesso a dados e documentos referidos nos vários capitu-
las. E, embora a pesquisa mantenha, como não poderia deixar de ser, o seu cará-
ter datado - uma vez que foi concluída em 1994 -, é importante assinalar ~ue os
rumos tomados pela questão do patrimônio, nas esferas nacional e internacional,
constituíram, em grande parte, desdobramentos de tendências que já se esboça-
vam no período focado na pesquisa. Nos limites deste prefácio, procurarei resumir
os fatos que me parecem mais significativos.

i
No cenário internacional, a Unesco tem desenvolvido uma série de iniciativas
que visam à ampliação da noção de patrimônio cultural e, mais especificamente, ao
reconhecimento, à valorização e à salvaguarda do patrimônio cultural imaterial. Os
),
programas Tesouros Humanos Vivos e Prodamação das Obras-Primas do Patrimô-
nio Oral e Imaterial da Humanidade, e a Convenção para a Salvaguarda do Patri-
mônio Cultural Imaterial, aprovada em 2003, resultam de uma avaliação crítica da
aplicação da Convenção sobre a Salvaguarda do Patrimônio Mundial, Cultural e Na-
tural, de 1972, q~e, devido aos critérios adotados, tem privilegiado as expressões
monumentais e as tradições de origem européia e cristã. Outra tendência recente
é a valorização do patrimônio natural e a elaboração de figuras inovadoras, como a
de "paisagem cultural". No diálogo dos países com a Unesco, o Brasil tem tido par-
ticipação ativa, apresentando candidaturas e contribuindo com suas experiências.
As idéias, propostas e projetos desenvolvidos nos anos 70 e 80, em grande
parte por inspiração de Aloisio Magalhães - e que são objeto de análise nos capí-
tulos 4 e 5 -, foram retomados no final dos anos 90, sobretudo a partir do seminá-
rio internacional realizado pelo lphan em Fortaleza, denominadó Patr.imõnio Imate-
rial: estratégias e formas de proteção. Na Carta de Fortaleza, recomendava-se o
"aprofundamento da discussão sobre o conceito de patrimônio imaterial e o desen-
volvimento de estudos para a criação de instrumento legal instituindo o 'registro'
como seu principal modo de preservação". 1
Depois de mais de dois anos de trabalho, em 4 de agosto de 2000 foi editado
o decreto-lei n2 3.551, que "institui o Registro dos Bens Culturais de Natureza Ima-
terial e cria o Programa Nacional do Patrimônio Imaterial". E, como ocorreu com o
decreto-lei 11 2 25, de 30 de novembro de 1937, o instrumento legal elaborado pelo
Brasil para a preservação de um campo tão significativo de seu patrimônio a.Jltural -
o dos bens culturais de caráter processual e dinâmico - caracterizou-se pela abran-
gência de seu alcance e por buscar adequar-se à especificidade do patrimônio
em questão, sobretudo no que diz respeito às ações de salvaguarda. Mas, como
também foi o caso com a legislação que regulamenta o tombamento, a legitimidade
desse instrumento legal ainda está por ser conquistada, o que dependerá, fundamen-
talmente, das políticas desenvolvidas a partir de sua aplicação e, principalmente,
de sua apropriação pela sociedade brasileira.
A seu favor, o decreto-lei n2 3.551 tem a experiência de quase setenta anos
de vigência do decreto-lei 11 2 25/1937, e, sobretudo, a consolidação, não apenas
em nível federal, como em estados e municípios, de políticas de patrimônio cultu-

OI] O PA!RIMÔHI O E~ PRO( OSO


ral, no desejável sentido da descentralização. Como desafios , encontra a dificul-
dade de se aproximar e de definir seu objeto - amplo e fluido por natureza - , de
incluir na sua aplicação os sujeitos sem cuja participação esse objeto não poderá
ser preservado - criadores, produtores, usuários e parceiros - , de definir critérios
para a outorga do registro, de elaborar formas diversificadas e adequadas de sal-
vaguarda. De todo modo, o decreto-lei n2 3.551/2000 é, sem dúvida, um marco na
trajetória das políticas de patrimônio, não apenas no Brasil, mas também no con-
texto intern acional.
Em outros dois campos - o da preservação de centros históricos e o dos do-
cumentos - ocorreram fatos significativos em termos de políticas de patrimônio
em âmbito federa l. O Programa Monumenta, desenvolvido com recursos do Banco
lntera mericano de Desenvolvimento (810), poderá beneficiar mais de vinte cidades
brasileiras. Nesse mesmo sentido, a elaboração do Termo Geral de Referência
do Plano de Preservação de Sítio Urbano Histórico veio contribuir para que a con-
servação e a gestão dessas áreas protegidas seja compartilhada com outras ins-
tâncias do poder público e com a sociedade. O Projeto Resgate veio viabilizar
o amplo acesso a fontes documentais da história brasileira no periodo colonial sob
a nuarda de instituições estrangeiras. Já a preservação de sítios e remanescentes
arqueológicos, por exemplo, ainda carece de atenção à altura de suas necessida-
des. Mas trabalhos rotineiros e pouco visíveis em andamento no lphan, desenvol-
vidos em parceria com en tidades públicas e privadas, contribuem para pavimentar
uma base sólida para o desenvolvimento de políticas de patrimônlo. São exemplos
o cadastro dos sítios arqueológicos e o dos bens culturais procurados, assim co-
mo os diferentes inventários de bens culturais em curso.2
A questão do patrimônio cultural tem se beneficiado, no Brasil e no contexto
internacional, da difusão da ncçáo de diversidade cultural, que será objeto de
cnnvenção a ser elaborada no âmbito da Unesco. Essa discussão chega à área
da cultura mais de dez anos após a Convenção da Diversidade Biológica (CDB),
e num momento em que jà se alcançou uma razoável pP.rcepção dos prejuizos -
materiais e simbólicos - que podem decorrer do desgaste dos recu rsos naturais
e da extinção de espécies vegetais e animais. Entretanto, como jà havia obser-
vado. a acelerada perda de expressces culturais e artísticas. de linguas e tradi-
ções orais, de conhecimentos tradicionais, ainda não chega a provocar o mesmo
impacto que a degradação ambiental, e é até considerada uma conseqüê ncia
inevitável do desenvolvimento Essas questões têm levantado novos e instigantes

PRHÁC IO À SEG UNDA EOl(dO i:·-- .. . ,. \ -,:·:::, :;;~;t, SETORIAL { lliJ


l . : ,: : ' - p'. :::u ·., l ,. .'J, ' ... ,... 1" 1
i , • ··- . . ',., 1 A~ ( • i'\, \à "°'
problemas que - pela multiplicidade e variedade de atores envolvidos - eviden-
ciam a complexidade de que se reveste hoje a questão do patrimônio cultural.
Aos agradecimentos expressos na primeira edição, quero acrescentar minha
gratidão aos colegas do Ministério da Cultura e das entidades a ele vinculadas
com quem tive a oportunidade de partilhar reflexões e projetos nesses últimos
anos. Como assessora do ministro Francisco Weffort, e depois como coordenado-
ra do Secretário Octávio Elísio Alves de Brito, encontrei condições excepcionais
para ampliar e enriquecer minha experiência com as questões da cultura e, parti-
cularmente, do patrimônio cultural. Por outro lado, é com pesar que constato a
perda de vários companheiros de percurso: Antônio luís Dias de Andrade, Pedro
Alcântara, Luís Felipe Perret Serpa, e essa pessoa visionária e generosa que foi
o embaixador Vladimir Murtinho.
Devo a possibilidade de._ compartilhar esta experiência com um público mais
amplo a Glauco Campello e Antônio Augusto Arantes, que, como presidentes do
lphan, viabilizaram as duas edições deste livro; à Editora UFRJ, que agora reitera
o seu apoio; a Ana Carmen Jara Casco, por sua perseverança e paciência com
meus prazos; e a Álvaro Mendes, por seu rigor e cuidado na revisão do texto.
Novos e bons amigos vieram ampliar o círculo de parceiros dessa minha traje-
tória profissional e pessoal, e contribuíram, das mais diferentes formas, para o tra-
balho que desenvolvo. Destaco Mequita e Quentin, companheiros fraternos de to-
das as horas; Elisa Leonel, sempre presente desde o nosso reencontro; Márcio
Carvalho, apoio constante em tantas travessias; e Rogério, cujo entusiasmo, com-
panheirismo e carinho trouxeram mais luz e cor à minha vida.
A meus filhos, com quem compartilho afeto. experiências e valores, e a minha
mãe, que, entre tantos legados, nos ensinou a envelhecer, dedico este livro.

Brasília, agosto de 2004.

Nom
Patrimônio imaterial: o registro do patrimônio ílnaterial. Dossiê final das atividades da Co-
missão e do Grupo de Trabalho P3trir..6nio lma!enal. 2. ed. Brasília: Ministério da Cultura -
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, 2003.

LONDRES, Cecília. Os inventários nas políticas de patrimônio imaterial. Celebrações e sabe-


res da cultura popular. pesquisa, inventário, critica. perspectivas. Rio de Janeiro: Centro
Nacional de Folclore e Cultura Popular/Funarte-lnstituto do Patrimônio Histórico e Artí stico
Nacional, 2004.

O]] O PA!i l/1\ÓHIO E/li PROCEIIO


INTROD U(ÀO

Se o zelador do Museu de Kolmar quiser mostrar ao visitante qual,


entre os seus tesouros, mais preza, leva-o' para longe do altar de
Grünewald, para uma sala cheia de tricolores, pompier e outros
elmos e lembranças de natureza aparentemente insignificante; são
de uma época que, para ele, é a idade heróica.
Max Weber, Ensaios de sociologia.
I

~--~?nstituição de patrimônios históricos e artísticos nacionais é uma prática


característica dos Estados modernos que, através de determinados agentes, re-
:: ; " crutados entre os intelectuais, e com base em instrumentos jurídicos específicos.
delimitam um conjunto de bens no espaço público. Pelo valor que lhes é atribuído,
.enquanto manifestações culturais e enquanto simbo\os da nação, esses bens pas-
sam a ser merecedores de proteção, visando à sua transmissão para as gerações (

futuras. Nesse sentido, iJS políticas de preservação se propõem a atuar, basica -


m~nte, n9 nível simbólico, tendo como objetivo reforçar uma identidade coletiva,
(
a educação e a formação de cidadãos. Esse é, pelo menos, o discurso que cos-
tuma justificar a constituição desses patrimônios e o desenvolvimento de políticas
públicas de preservação.
Aparentemente, essas políticas alcançam um alto grau de eficácia simbólica:
(
é muito raro ocorrerem contestações quanto ao valor dos monumentos que são
\
objeto de proteção. No Brasil, por exemplo, não ocorreria a ninguém atualmente
duvidar da pertinência do tombamento das grandes obras do Barroco - igrejas,
palácios, chafarizes, conjuntos urbanos etc. - realizado, principalmente, nas dé-
cadas de 1930 e 1940. Nesse sentido, o trabalho feito pelo Serviço do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional teria sido muito bem sucedido, pelo reconhecimento
que alcançou no país e no exterior.
Na verdade, porém, esse "poder simbólico" 1 dos patrimônios nacionais é rela·
tiva e tem um alcance limitado. Pois se o objetivo dessa política estatal é amplo,
na medida em que não se dirige a setores, grupos ou atividades pertlculares, mas
diz respeito a toda a sociedade nacional, de fatu o campo de sua produção é bas-
tante restrito:_ tr.ata-se de urna política conduzida por Intelectuais, que requer um
grau de especialização em determinadas éreas do saber (arte, história, arquitetura,
arqueologia e, mais recentemente, etnologia e antropologia} e, por parte dos usuá-
rios, algum domínio desses códigos. A leglllmldade --~.? C()!}_Stjt_yí~~~urny~Jri-'\
mônio assenta, para seus mentores, nao apenas no seu valqr como símbolo da { ,1
nacionalidade, mas também em valores culturais atribuídos a partir de critérios )
formulados por aquelas di~c!JJlinas.
A produção de um universo simbólico é, nesse caso, o objeto mesmo da ação
polltica, dai a importância do ~apel que exercem os intelectuais na construção dos
patrimônios culturais. Nesse sentido, são dois os desafios com que se defrontam:
o primeiro é o de, através da seleção de bens "móveis e imóveis" (conforme o
preceito legal vigente na maioria dos países), construir uma representação da
oação qu_e, levando em conta a pluralidade cultural, funcione como propiciadora
de um se~tlmento comum de pertencimento, como reforço de uma identidade na-
cional; o segundo é o de fazer com que seja aceito como consensual, não-arbi-
trário, o que é resultado de uma seleção - de determinados bens - e de uma ·-•
convenção - a atribuição, a esses bens, de determinados valores. Ou seja, de,
ao mesmo tempo, buscar o consenso e incorporar a diversidade. ·
Os intelectuais que estão direta ou indiretamente envolvidos em uma política
de preservação nacional fazem o papel de mediadores simbólicos, já que atuam
no sentido de fazer ver como universais, em termos estéticos, e nacionais, em
termos políticos, valores relativos. atribuídos a partir de uma perspectiva e de um
lugar no espaço social. E são também os intelectuais que, ao apontarem, no exer-
cício de sua função crítica, o caráter arbitrário da representação vigente de patri-
mônio, atuam no sentido de sua transformação.'
Os processos de seleção e proteção do patrimônio cultural nacional são regu-
lados por leis, procedimA11tos e rituais bastante específicos, e costumam ser con-
duzidos por agentes com um perfil intelectual definido (Bourdieu, 1980, p. 69).3
No contexto brasileiro, é preciso levar em conta o papel político que, desde
o período colonial, têm aqui exercido os homens de cultura: o de atuarem como
porta-vozes das massas desprovidas de recursos para se organizarem política-

LflJ O PAlW!ÓHIO EM PROCf lSO


mente, função que é legitimada por seu compro1uisso com a construção da nação
e com a luta pela cidadania. Dado o caráter inescapavelinenle ambiguo da posição
desses intelectuais, sobretudo nos períodos autoritários, vou lentar apreender co-
mo lidaram com os diferentes compromissos, os impasses e os limites com que
se defrontaram. Pois, devido ao grau extremamente restrito, no Brasil, da partícipa-
çao da sociedade nas pollticas culturais em geral, e particularmente nas políticas
de prescrvaçao, as decisões desses intelectuais foram fatores cruciais na orien-
tação dessas politicas.
Em geral, as politicas de preservação são conduzidas por intelectuais de perfil
tradicional (historiadores, artistas, arquitetos, escrilores etc.) que se propõem a
atuar no Estado em nome do interesse público, na defesa da cultura, identificada
com os valores das camadas cultas. Ao protegerem a cultura desses grupos, con-
vertida em valor universal, não teriam dificuldade em conciliar, sem maiores con-
flitos, sua identidade de intelectu ais e de_ homens públicos. No caso do Brasil,
essa foi a situação dos intelectuais modernistas que participaram do Serviço do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan) desde 1937, e que instauraram uma
política cultural cuja continuidade e prestígio se mantiveram durante mais de trinta
anos. Entretanto, diferentemente do que ocorria então na Europa, esses intelec-
tuais eram figuras que, nos seus respectivos campos de atuação. tinham posições
de vanguarda, o que conferiu a sua atuação na área do patrimônio uma autoridade
difa renciada.
Mas, a partir da década de 1970, sobretudo quando o regime militar en trou em
cri se , essa política começou a ser criticada. e seu caráter nacional contestado.
por se referir apenas às produções das elites. Nesse momento, coube a intelec-
tuais com um novo perfil (especialistas em ciências físico-matemâlicas e sociais,
administradores, pessoas ligadas ao mundo industrial) defini r novos valores e no-
vos interesses. Dura nte as duas décadas que se seguiram, essa mudança evoluiu
de uma modernização da noção de patrimônio - o gue significou vincular a temá·
!ic.a da preservação à questão do desenvolvimento - à politização da prática de
p~eservação, na medida em que os agentes institucionais se propuseram a atuar
como mediadores dos grupos sociais marginalizados junto ao Estado. Esses inte-
lectuais viram na área da cultura, marginal no conjunto das políticas estatais, um
espaço possível de resistência ao regime autoritário. Seu objetivo último era justa-
mente o de ampliar o alcance da política federal de patrimônio, no sentido de de·
mocratizá-la e col ocá-'a a serviço da construção da cidadania_

r~~-
,.-~- .. ..--·:...:.1-';,.. ... - - - -.... - .......- - -

IH l RODUCÃO t~ :_f §;.Jo·rtC;\ st i c;~:A~.. 23


Dt. (;,;;:r.~C lAS soc;A;.3
·.,:::.·.. .. ·....:..-·· :-·"··-·~;:.;,;. ~ ~ · ~ ·
~.;,.;,
O problema é que, como observa Bourdíeu, qualquer luta no interior de um
campo "pressupõe um acordo entre os antagonistas sobre o que merece ser objeto
de luta" (1980, p. 115), ou seja, no caso, sobre o que seria o objetivo especifico ~

da preservação. Esse. como veremos, foi um dos impasse~ que,.caracterizou a


política federal de patrimônio desenvolvida no Brasil nos an~70-80/ Nesse perío~
do, coexistiram duas linhas de atuação paralelas num mesmo campo, - a da pedra \ 'f
e cal, continuidade do antigo Sphan, e a da referência, oriunda do Centro Nacional
de Referência Cultural (CNRC), criado em 1975 - que não conseguiram convir em
um mínimo de definições comuns. A hegemonia do grupo de referência, na verda-
de, se limitou ao plano discursivo; na prática, foi através dos tombamentos efetua·
dos pela Sphan que continuou a ser construido o patrimônio histórico e artístico
nacional.
Oufro problema das políticas de preservação em geral é o fato de que as even-
tuais demandas da sociedade em relação â cultura são extremamente difusas. Se
entre os produtores culturais - cineastas, atores, músicos, escritores etc. - essas
demandas são mais definidas e, freqüentemente, veiculadas por meio de organiza-
ções corporativas (associações, sindicatos etc.), falar de uma demanda social em
termos da constituição de um patrimônio cultural da nação é bastante problemático,
sobretudo em uma sociedade como a brasileira, na qual, ao lado da pluralidade
dos contextos culturais, existem profundas desigualdades econômico-sociais, e a
autonon1ia de uma esfera cultural sequer faz sentido para alguns grupos da socie-
dade nacional. Nesses casos, fica mais complexo o papel político dos intelectuais
que atuam, dentro do Estado, como organizadores de uma demanda cultural ainda
não explicitada, no sentido de defender os interesses de grupos carentes de orga-
nização própria. Foi com base nessa realidade que se formularam, nos anos 70-
80, vários projetos do CNRC, posteriormente integrado à Fundação Nacional pró-
Memória.'
- Em resumo, em ambos os momentos decisivos - o momento fundador, no final
da década de 1930, e o momento renovad~r. na segc:nda metade da década de
1970 \:; início da de 1980 - a posição dos intelectuais que conduziram a política
federal de preservação foi marcada por algum grau de ambigüidade, se bem que
com resu ltados diferentes. Durante o Estado Novo, os modernistas gozavam de
franca hegemonia no meio intelectual e conseguiram resolver razoavelmente bem.
naquele momento, a dicotomia entre o que consideravam seu papel de homens de
cultura a serviço do interc:se público e sua inserção na administração de um

DTI O ?A!W\ÓNIO !/Is PRO( flS O


(

governo au toritârio, mantendo junto ao MEC e ºº governo federal um invejâvel


grau de autonomia. Jâ nos anos 70 e 80, na fase de abertura do regime militar.
de crise da modernidade e diante de uma comunidade científica mais independente,
estruturada e diversificada (cf. Pécaut, 1990, p. 257-308), os intelectuais que se
propuseram a reorientar a políti ca federal de preservação - em um sentido que
implicava, ao contrário do que havia ocorrido no Sphan, uma articulação com
r
outra s áreas do governo e com os movimentos sociais, tendo em vista uma idéia
de democracia participativa - viram, muitas vezes, seu trabalho e sua atuação jun-
to a um governo autoritário serem postos sob suspeita por outros intelectuais de
renome. De um lado, porque se estariam deixando cooptar pela ditadura militar,
já em crise de legitimidade; de outro, por se arvorarem em porta-vozes dos inte-
resses populares (cf. Mice!i, 1985, p. 127) no momento em que a sociedade civil
se rees:ruturava, tanto por meio dos mecanismos de representação política ·quanto
por meio de novas formas de organização não-governamentais. I

Essa trajetória que acabei de esboçar muito rapidamente, e que será apre-
sentada nos capítulos 3 e 4, indica, a meu ver, que o grande desafio, ainda hoje, (

de uma política federal de preservação no Brasil é desenvolver. numa sociedade


como a brasileira, uma políflca de patrimônio que seja, efetivamente, uma política
pública. Em que medida essa politica não tem funcionado antes como uma ativi-
dade implantada e conduzida pelo Estado, com a parti cipação de determinados
intelectuais, como mais um recurso ideológico para obter consenso, para legitimar
um projeto nacional do próprio Estado ou, simplesmente, para inserir o pais no
concerto das nações civilizadas?
No entanto, nas décadas de 1970 e 1980, a orientação da política cultu ral de-
senvolvida no nível federal foi no sentido de ampliar a noção de patrimônio e de
.estimular a participação social, propondo uma relação de colaboração entre Esta- i

do e sociedade. Não teriam esse período e essa nova orientação deixado marcas
no sentido de propiciar uma democratização da política federal de patrimônio? Ou
tratou-se apenas da afirmação de uma boa intenção de agentes institucionais,
carente, no entanto, de condições sociais e poiíticas para ser implementada? Pro-
curar elementos para responder a essas indagações é um dos objetivos deste tra-
balho.
O panorama atua!, relativamente às políticas culturais no Brasil, parece indicar
que nada mudou nesse campo periférico das po\i ticas estatais: 2 questão cultural
ra ramente aparece na agenda dos partidos políticos ou nos discursos de eventuais

IH!ROD U( ÂO DIJ
candidatos; os cargos públicos na área da cultura não despertam maior interesse
por parte da classe política; e, da parte da sociedade, raras são as ocasiões em
que ocorrem mobilizações em torno de demandas especificamente voltadas para
a questão da cultura. A facilidade e a profundidade com que foi realizado o "des-
mantelamento da área da cultura" no infcio do governo Collor seriam um indício
dessa situação.
No caso da política federal de preservação, os cerca de mil bens tombados
(incluindo-se aí desde monumentos isolados a conjuntos da extensão do Centro
Histórico de Salvador, com aproximadamente trezentos imóveis, e cidades intei-
ras,· roma Ouro Preto, Tiradentes, Olinda, Antônio Prado) funcionam mais como sím-
bolos abstratos e distantes da nação do que como marcos efetivos de uma identi-
dade nacionc1I com que a maioria da população se identifique, e que integrem a ima-
gem externa do Brasil. Na ve~dade, a identidade brasileira tem sido representada
basicamente pelo samba, pelo futebol, pelo carnaval e, mais recentemente, pelas
telenovelas e pela Fórmula 1. No exterior, o Brasil continua sendp valorizado sobre-
tudo por seus recursos naturais, pela sua natureza tropical - salvo nos meios inte-
lectuais e nos organismos internacionais de cultura, como a Unesco, onde o Brasil
tem vários bens inscritos como Patrimônio Cultural da Humanidade (ver Anexo IX).
Isso não significa, porém, que os bens culturais que se acham sob a proteção
legal do Estado - em função do tombamento - não sejam reconhecidos como de
valor, e que a sua preservação não seja considerada uma causa justa. Objeções
frontais só costumam ocorrer quando a ação do Estado vem contrariar interesses
particulares, como, por exemplo, de empresários da construção civil, proprietários
de imóveis antigos, prefeituras de cidades históricas com projetos de urbanização
modernizadores etc. ;Para a população em geral, os bens tombados costumam ser
valorizados por sua antiguidade, por sua riqueza, por sua beleza, cobrando-se
inclusive da instituição federal maior zelo na tarefa de protegê-los .. Já vão longe
os tempos em que os agentes do Patrimônio corriam o risco de serem apedrejados
por populações enraivecidas, que não hesitavam, inclusíve, em ocupar um imóvel
em vias de ser tombado com leprosos, para forçar sua demolição. 5 As reações
à ação do Estado, representado pela instituição federal encarregada da proteção
do patrimônio, hoje, quando ocorrem, se dão nos tribunais, na imprensa, na luta
política e no tráfico de infiuências.6
Valioso, trata-se, porém, de um patrimônio pesado e mudo. Pesado, não só
por sua monumentalidade, pela solidez dos materiais e pelo lugar qu_e ocupa no

[ill D PAI WI.ÔN 10 EII. ?kOC fllO


espaço público. Pesado porque mudo, na medida em que, ao funcionar apenas
como símbolo abstrato e distante da nacionalidade, em que um grupo muito redu-
zido se reconhece, e referido a valores estranhos ao imaginári o da grande maioria
da população brasileira, o ônus de sua proteção e conservação acaba sendo con-
siderado como um fardo por mentes mais pragmáticas. Não foi outro o sentido das
emendas apresentadas, em 1994, ao texto consti tucional de 1988, que ampliava
consideravelmente a noção de patrimônio cultural. Essas emendas, apresentadas
por ocasião da revisão constitu cional, visavam a reduzir tamu o universo do patri-
mônio como as atribuições da instituição responsável por sua proteção.7
Pesado porque mudo, essa é, portanto, uma das idéias que movem este traba-
lho. Protegidos, a maior parte do tempo, do acesso do público que, em geral, vê
a preservação como uma atividade culta, própria dos países civilizados, esses
bens parecem guardar a sete chaves, para a grande maioria da população, as
informações, sentidos e valores que teriam justificado sua inclusão no patrimônio
histórico e artístico nacional. A distância entre as tradições culturais, as diferentes
identidades coletivas, entre a pluralidade cultural da nação e a memória nacional
construida p~lo Estado, fica, desse modo, mais aguda, assim como os limites
dessa política estatal enquanto política pública. Nesse sentido, tudo leva a crer
que as novas propostas dos anos 70-80 não chegaram a mudar significativamente
essa realidade.
Além disso (ou, talvez, por isso), o tema do patrimônio e a questão das polí·
.ticas de preservação despertam pouquíssimo interesse entre os cientistas sociais
no Brasil. Dentre esses, são sobretudo os antropólogos que, eventualmente. abor-
dam esse tema, na medida em que se interessam pelos processos de construção
de identidades culturais difarenciadas.
Seus trabalhos/ no entanto, têm-se concentrado na análise dos discursos
oficiais. Mas, ao abordarem esse discurso desligado de uma prática social mais
ampla, e também da prática institucional específica, deixam de fora o nível propria-
mente político da questao, a dimensão do conflito, na forma, mais velada que
- contundente, como se manifesta especificamente nesse campo.
Este trabalho pretende se distinguir de outros estudos já produzidos sobre o
mesmo tema em três aspectos: em primeiro lugar, o objeto da pesquisa é o pro-
cesso de construção do patrimônio histórico e artístico no Brasil, considerado en-
quanto uma pratica social produtiva, criadora de valor em diferentes direções.
como observa Antônio Augusto Arante s:

INIRODUCÃO LnJ
(... ) de valor econômico que poJe ser aumentado ou diminuído, dependendo do lrata-
men!o que se dê aos bens preservados; de valor simbólico, constitutivo da memória,
da terrilorialídade e da identidade nacional, além de outras identidades mais específicas
e locais; e de valor politíco, levando ao aspecto da hegemonia e ao dos direitos culturais.
(1988, p. 16)

Nesse sentido, é importante considerar não apenas a atuação dos agentes ins-
titucionais, como também a participação - direta ou indireta - da sociedade nessa
construção, ou seja, a apropriação que é feita dessa prática pc!it::3 pe!::is dife-
rentes grupos sociais.
Em segundo lugar, considero os discursos oficiais produzidos sobre o patrimó·
nio como um aspecto dessa prática, por meio da qual diferentes atores, em diferentes
momentos, tentam resolver nesse campo específico algumas das grandes questões
que têm ocupado tradicional[!lente a refiexiio sociológica: a tensão entre o universal
e o particular, entre o públiro e o privado, entre tradição e modernidade, entre cultura
e política, entre Estado e sociedade. Nesse sentido, parto do pressuposto de que
uma política de preservação é uma prática bem mais amp!a que um conjunto de
atividades visando à proteção material de determinados bens.
Em terceiro lugar, procuro me situar criticamente em relação às análises so-
bre os dois períodos em questão. Considero que os fundamentos tanto de algumas
críticas feitas, nas duas últimas décadas, ao que seria o caráter excludente e eli-
tista da construção do patrimônio realizada pelos intelectuais modernistas nos
anos 30 e 40, quanto de certas objeções feitas ao trabalho desenvolvido pelo CNRC,
reduzindo-o a um recurso legitimador de um regime autoritário em crise, como fru-
tos de um anacronismo, 9 no sentido de que analisam problemas de uma época a
partir de questões e critérios formulados em outra. Por esse motivo, um dos obje-
tivos deste trabalho é tentar a maior aproximação possível do ponto de vista dos
agentes que conduziram, naqueles dois momentos decisivos, a política fede ral de
preservação no Brasil.
Ao analisar a representação do patrimônio histórico e artístico nacional cons-
truída pelo Estado, não a considero como reflexo das classes dominantes ou da
pluralidade cultural brasileira. Procuro, sim, adotar uma posição de critica ao modo
como esse objeto tem sido construído e ideologicamente elaborado por determina-
dos sujeitos sociais, que têm detido, no Brasil, o monopólio dessa construçã o. Em
suma, o objeto desta análise não é um produto - o conjunto de bens culturais que
compõem o patrimônio histórico e artístico nacional no Brasil, ou os discursos que

[I[J O Pd!Rll<IOHIO EM P! OCE\SO


legitimam essa produção - e sim o próprio processo de construção desse patri- (

mônio, ou seja, as práticas institucionais desenvolvidas por determinados atores,


que podem ser mais ou menos democráti cas.
A perspectiva do trabalho é primordialmente histórica: procurei montar uma
narrativa a partir da qual seja possível distinguir categorias universais como me-
mória, tradição, monumento, de formulações particulares - como pa trimónio e
pre,ervação - e continuidades de diferenças.
Em termos de periodização (ver Anexo 1), recorri a um critério já conszJrado
(cf. MEC/Sphar.{FNpM, 1980), pois reflete o modo como a própria instituição conta
sua história: o que distingue a fase heróica, que vai desde a criação, ainda em
caráter provisório, do Sphan, em 1936, a 1967 , quando termina a longa gestão de
Rodrigo Melo Franco de Andrade, da fase moderna, iniciada com a ascensão de
Aloísio Magalhães na poiítica cultural, quando se elaboram novas propostas de
atuação. A gestão de Renato Soeiro (1967-1 979) constitui um período intermediá-
rio, quando o Sphan tenta se adaptar a urna nova conjuntura buscando ajuda inter-
nacional e coexistindo com outras instituições federais atuantes na esfera da pre-
servação.
Um pressuposto fund amental de minha reflexão é a distinção entre política
estatal - no sentido da atividade con centrada e conduzida no interior do aparelho
do Estado - e política pública - no sentido de articulada, inclusive por mecanismos
°
formais, com os interesses múltiplos da sociedade.1 Considero que falar de uma
política pública de preservação supõe não apenas levar em conta a representati-
vidade do patrimônio oficial em termos da diversidade cultura\ brasileira e a aber-
tura à participação social na produção e na gestão do património, como também as
condições de apropriação desse universo simbólico por pnrlc da população. E falar
em democratização implica, nesse caso, considerar um conjunto de ações, em vá·
rios níveis, visando a desprivatizar esse campo.
Essa afirmação parte do pressuposto de que os pa trimônios históricos e artís-
ticos nacionais devem ser entendidos n5o como universos fechados, representa-
ções de uma nação una e coesa, identifi cada a um Estado centralizador, e sim
em sua relação com prática s sociais ele con slrução e de objetificação de identida-
des coletiva s, que, em termos políti cos, representam, em muitas oportunidades,
·interesses conflitantes entre si e com um projeto nacional, às vezes apresentado
sob a égide do interesse público. Ou seja, trata-se de, 30 mesmo tempo, atu alizar
um ponto de vista analítico ~ no sentido de tentar adequar a perspectiva da pes·

1mODUCÀO lliJ
quisa às condições atuais do Estado e da sociedade brasileiros, sob um regime
democrático - e tentar vislumbrar possibilidades de participação social ainda não
exploradas. 11
Qual a relação, no Brasil, entre as múltiplas memórias coletivas e urna memó-
ria nacional? E como é conduzida a apropriação da pluralidade cultural, enraizada
em práticas sociais diferenciadas, por uma práijca estatal de produção de um pa-
trimônio nacional e vice-versa? Essas questões, centrais nas políticas de preser-
vação, remetem à investigação do papel exercido pelos agentes dessa medidação,
enquanto intelectuais e enquanto homens públicos. 1i
Neste trabalho, privilegiei um periodo da politica federal de preservação no
Brasil - os anos 70 e 80 - sobre o qual existem pouquíssimos estudos, e vou
limitar-me a abordar um aspecto dessa política: o processo de seleção e ·de valo-
ração de bens para integrarem o patrimônio histórico e artístico nacional. Ficam de
fora, portanto, outras práticas constitutivas dessa política - as atividades, eminen-
tement~ técnicas, de conservação e de restauração, a proteção de bens móveis
nos museus, a questão específica dos. centros históricos, a promoção etc. Fica de
fora também a questão fundamental da apropriação que a sociedade faz desses
bens e da própria política federal de patrimônio, que só poderia ser analisada a
partir de casos particulares. Esse ângulo da questão será abordado apenas suma-
riamente, e, sobretudo, no capítulo 5, onde me concentro na pesquisa dos pro-
cessos de tombamento abertos a partir de 1° de janeiro de 1970, dirigidos ao Insti-
tuto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (lphan). 13
Resumindo o roteiro deste trabalho, no capítulo 1 procuro explicitar o modo
como, no Brasil, foi tormulada, a parti, de um estatuto jurídico próprio, a noção
de patrimônio, enquanto objeto de uma política pública. No capítulo 2, procuro tra-
çar a história dessa noção, distinguindo invariantes, ou noções de alcance univer-
sal - como as noções de monumento e de coleta - de variantes, noções histori-
camente produzidas - como as de patrimônio e de preseM1ção. Nos capítulos 3,
4 e 5, procedo à análise da trajetória dessa política pública no Brasil, relacio-
nando-a com o contexto cultural mais amplo.

Nor.11
"O poder simbólico como poder de constituir o dado pela enunciação, de fazer ver e fazer
crer, de confirmar ou de transformar a visão de mundo e, deste modo, a ação sobre o
mundo, portanto o mundo; poder quase mágico que permite obter o equivalente daquilo que
é obtido pela força (física ou econômica), graças ao efeito específico de mobilização, só

00 o PAJRl!\ÕNIO [li, p~ocrno


se exerce se for reconhecido, quer dizer, ignorad o como arbilrário. Isto significa que o poder
simbólico não reside nos 'sistemas simbólicos' em forma de uma illocu/ionaty force mas
que se define numa relação determinada - e por meio desta - entre os que exercem o
poder e os que lhe estão sujeitos, quer dizer, na própria estrutura do campo em que se
produz e se reprod uz a crença.
O que faz o poder das palavras e das palavras de ordem, poder de manter a ordem ou
de a subverter, é a crença na legitimidade das palavras e daquele que as pronuncia, crença
cuja produção não é da competência das palavras.' (Bourd1eu, 1989, p. 14-15)
A complexa relação entre cultura e pc!1.,: 3, e 2 questão do papel dos intelectuais enquanto
homens públicos, são t~:-:ias recorrentes na refiexã: ~ociológica. Max Weber (1982), no texto
"A política como vocação', distingue a ética da responsabilidade - em que ações são avalia-
das segundo seus resultados - da ética da convicção - em que ações são aval1adas segun-
do sua coerência com valores. Para Weber, não se pode exigir do político que se exima
em nome de valores, nem do sábio que ponha seu saber a serviço do poder.
Em texto recente, o cientista político Norberto Bobbio (1993) retoma a temática weberiana
das duas éticas, e a reelabora. Para Bobbio, "o compromisso primeiro dos inteleduaisdeveria
ser o de impedir que o monopólio da força se tome também o monopólio da verdade'.
Um texto clássico sobre essa questão, mas com base em outras premissas. é o do marxista
Antônio Gramsci (s/d.), que distingue os intelectuais tradicionais- que se acreditam 'av!ônomos
. e independentes do grupo social dominante', mas que, na verdade, estão a serviço de grupos
sociais cujo poder está em declínio - dos intelectuais orgãnicos - que atuam como organiza-
dores da hegemonia social, identificados com os interesses dos grupos emergentes.
Por esse motivo, é pertinente considerar que essa po!itica estatal constitui um campo, con-
forme a definição de Pierre Bourdieu: "Compreender a gênese social de um campo, e apree n-
der aquilo que faz a necessidade especifica da crença que o sustenta, do jogo de linguagem
que nele se joga, das coisas materiais e simbólicas em jogo que nele se geram, é explicar,
tornar necessário, subtrair ao absurdo do arbitrárío e do não-motivado os actos dos produ-
tores e as obras por eles produzidas e não, como geralmente se julga, reduzir ou destruir."
(1989, p. 69 )
Por exemplo, projetos voltados para a relação da cultura indígena com a questão fundiária,
a especificidade do trabalho do artesão relativamente à legislação trabalhista, a adequação dos
currículos e dos períodos letívos às peculiaridades dos diferentes contextos culturais etc.

A teoria do controle cultura l. desenvolvida pelo antropólogo mexicano Guíllermo Bonfil Balalla
(1988), trata dessa questão.
Cf. Edgard Jacintho, em Memória oral n" 4 (MinC/SphanlFNpM, 1988), sobre os trabalhos
de inventário que rea lizou na cidade de São João dei-Rei, na década de 1940.
Exemplos interessantes de mobilização da sociedade ocorreram no tombamenlo do Hotel
Copacabana Palace e do Parque Lage (Rio de Janeiro, RJ), da Serra da Barriga (União dos
Palmares, AL) e do Terreiro da Casa Branca (Salvador, BA). e. mais recentemente. no asfal·
lamento de área tombada em São João dei-Rei (MG) e na construção de um complexo imo-
biliário na encosta tombada do Morro Dois Irmãos (Rio de Janeiro, RJ).

31
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Ver as emendas que foram encaminhadas pelos senadores Élcio Alvarez (PFL-ES), Jutahy
Magalhães (PSDB-BA) e Pedro Teixeira (PP-OF) e pelo deputado Germano Righotto (PMDB-
RS), que propõem a restrição da proteção, pelo poder público, aos bens de propriedade da
União e a prévia aquiescência a esses tombamentos pelo Serviço de Patrimônio da União.
Ver, a respeito, o trabalho já publicado de Milet (1988), e as teses, ainda inéditas, de Gon-
çalves (1990), Rubino (1991) e Santos (1992).

Sobre o conceito de anacronismo na pesquisa histórica, diz o historiador Luís Felipe de Alen-
castro: 'Ao mover-se do presente para outras épocas, e vice-versa, ao lidar com as conti-
nuidades, as passagens, as rupturas, as derivações, o historiador deve constantemente pre-
munir-se contra o pecado capital de sua disciplina: o anacronismo. Vestir uma determinada

10
sociedade com as roupas talhadas em outras épocas, eis em que consiste o anacronismo."
(1991, p. 63)
Essa distinção (assim como a diferença entre coisa e valor, feita no início do capitulo 1)
1
t
i
é utilizada neste trabalho como recurso ana litico. para esclarecer certos aspectos da ques-
tão do patrimônio. Na bibliografia consultada, os termos política estatal e política pública ::
:. ,
costumam ser tomados como equivalentes. ,
11

Alguns textos recentes têm abordado a questão do patrimônio nesse sentido, corno a série
Les Lieux de mémoire, do historiador francês Pierre Nora (1984-1992). No Brasil, os traba-
lhos do antropólogo Antônio Augusto Arantes também exploram essa perspectiva.
12 .4
Como parte da pesquisa, foram realizadas entrevistas com atores dessa política, visando
a colher informações de bastidores, que não constavam dos documentos oficiais, e também
no sentido de apreender a visão que esses atores tinham das instituições em que traba- •·~
lhavam e da atividade por elas desenvolvida. Essas entrevistas se revelaram especialmente
valiosas para a análise do período 1970-1980, e. sobretudo, da atuação do Centro Nacional
de Referência Cultural (CNRC), dada a carência de material documental arquivado sobre
essa instituição e sobre as iniciativas e contatos feitos por Aloisio Magalhães e seus colabo-
radores. Foram realizadas entrevistas com Lúcio Costa, Ligia Martins Costa, Judith Martins,
Dora e Antônio Pedro Alcântara, Embaixador Vladimir Murtinho, Clara de Andrade Alvim, José
Silva Quintas, Luís Felipe Perret Serpa, Paulo Sérgio Pinheiro.
Contribuíram também com informações valiosas Maria Alice Siaines de Castro, Ann-Maj
Beckman Meirelles, Ana Gita de Oliveira e Helena Mussi.

·~ A instituição federal encarregada da proteção do patrimônio histórico e artístico nacional foi


criada em 193b (ainda em caráter experimental) c9m o nome de Serviço do Patrimõnio Históri-
co e Artístico Nacional (Sphan). Em 1946 passou a se chamar Departamento (Dphan) e,
em 1970, se transformou em Instituto (lphan). Com a reforma institucional ocorrida no MEC
em 1979, é criada a Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan). que,
com a criação da Secretaria da Cultura em 1981, se converteu em Subsecretaria. Com a
criação do Ministério da Cultura em 1985 voltou a ser Secretaria, e foi extinta por decreto
do governo Collor em 1990. Foi então criado o Instituto Brasileiro do Patrimônio Cultural
(IBPC) que, em 1994, voltou a se chamar lphan (ver Anexo 1).

Ll_2_J O P!IIIMÓ~IO EM PROCfl lO


PARTE 1
A NOCÃO OE PATRIMÔNIO:
CARACIERÍSTICAS E HIHÓRI A
C~PÍTUlO l
O PhfRIMÔN IO: UMh QUEST~O DE VALO R

Nao importa quais sejam os direitos de propriedade, a destruição


de um prédio histórico e monumental não deve ser pennilida a
esses ignôbeis especuladores, cujo interesse os cega para a
honra. (...) Há duas coisas num edifício: seu uso e sua beleza.
Seu uso pertence ao proprietário, sua beleza a todo o mundo;
destrui-lo é, portanto, extrapolar o que é direito.
Victor Hugo

A questão dos patrimônios históricos e artísticos nacionais costuma ser abor-


dada tendo como foco o conjunto de objetos que os constituem, ou, quando muito,
os discursos que os legitimam. Neste trabalho, o centro da investigação serão os
processos e as práticas de construção desses patrimônios, conduzidos por atores
definidos e em circunstâncias específicas. São essas práticas e esses atores que
atribuem a determinados bens valor enquanto patrimônio, o que justificaria sua
proteção. Nesse sentitido, é a noção de valor que servirá de base a toda a refiexão
aqui desenvolvida, pois considero que são esses processos de atribuição de valor
que possibilitam uma melhor compreensão do modo como são progressivamente
constru idos os patrimônios.
Na medida em que um dos traços que diferencia as sociedades simples das
sociedades complexas é a existência, nestas últimas, de um aparelho estatal, com
regras próprias e maior ou menor autonomia em relação aos diferentes grupos so-
ciais e, conseqüentemente, à distinção en tre mem órias coletivas diversificadas e
uma memória nacion al, neste capitulo procuro analisar o modo especifico de cons -
trução do universo simbólico dos patrimônios culturais nacionais: a sua constitui-
ção, a partir de um estatuto jurídico próprio, a sua proposição, como uma forma
de comunicação social, e a sua institucionalização, enquanto objeto de uma políti-
ca pública.
No artigo "A história da arte", Giulio Carie Argan' parte de uma distinção -
entre coisa e valor - que servirá de base para a discussão, neste capítulo. da
noção de patrimônio:
Uma vez que as obras de arte são coisas ás quais está relacionado um valor. há
duas maneiras de tratá-las. Pode-se ter preocupação pelas coisas: procura-las, identificá·
las, classificá-las, conservá-las, restaurá-las, exibi-las, comprá-las, vendê-las: ou, então,
pode-se ter em mente o valor: pesquisar em que ele consiste, como se gera e transmit",
se reconhece e se usufrui. (1992a, p. 13)
Essas duas maneiras de abordar os fenômenos artísticos ocorrem também no
tratamento dos chamados bens patrimoniais. É próprio das políticas de preserva-
ção estarem voltadas para as coisas e mesmo serem absorvidas por elas. A ne·
cessidade de resistir a pressões no sentido da destruição (tanto por fatores natu-
rais como humanos), aliada à responsabilidade, inclusive penal, do Estado e de
eventuais proprietários, em relação aos bens tombados, faz com que o objetivo
dessas políticas acabe se reduzindo à proteção de bens, convertendo-se assim
as coisas no objeto principal da preocupação dos atores envolvidos.
Conseqüentemente, o valor cultural que se atribui a esses bens tende a ser
naturalizado, sendo considerada sua propriedade intrínseca, acessível apenas a
um olhar qualificado. Essa costuma ser a visão do técnico, do restaurador, dos
responsáveis, enfim, pela conservação da integridade material dos bens, mas ter-
mina por predominar também entre os formuladores daquelas políticas.
Entretanto, considero que uma politica de preservação do patrimônio abrange
necessariamente um âmbito maior que o de um conjunto de atividades visando à
proteção de bens.' É imprescindível ir além e questionar o processo de produção
desse universo que constitui um patrimônio, os critérios que regem a seleção de
bens e justificam sua proteção; identificar os atores envolvidos nesse processo
e os objetivos que alegam para legitimar o seu trabalho; definir a posição do Esta-
do relativamente a essa prática social e investigar o grau de envolvimento da socie-
dade. Trata-se de uma dimensão menos visível, mas nem por isso menos signi·
ficativa, das políticas de preservação.
No caso dos patrimônios históricos e artísticos nacionais, o valor que permeia
o conjunto de bens, independentemente de seu valor histórico, artístico, etnográ·
fico etc., é o valor nacional, ou seja, aquele fundado em um sentimento de perten-
cimento a uma comunidade, no caso a nação. Como observa José Reginaldo Gon·

O PURl~ÓklO !~. ;Rê(:;10


00
çalves {1990), esses bens viriam objetivar, conferir realidade e também legitimar
essa "comunidade imaginada".
Essa relação social, mediada por bens, de base mais afetiva que racional e
relacionad~ ao processo de c9nstrução de uma identidade coletiva - a identidade
nacional - pressupõe um certo grau de consenso quanto ao valor atribuído a esses
bens, que justifique, inclusive, o investimento na sua proteção. No caso dos patri-
mônios, essa capacidade de evocar a idéia de nação decorreria da atribuição, a
esses bens, de valores da ordem da cultura - basicamente o histórico e o artístico.
A noção de patrimônio é, portanto, datada, produzida, assim como a idéia de na-
t '--
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/\- ·,
(1
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Ição, no final do século XVIII, durante a Revolução Francesa, e foi precedida, na
civ~lização oci~e~tal, pela autonomização das no~es de_a~e e de história. O his-
tónco e o art1st1co assumem, nesse caso, uma d1mensao instrumental, e passam
J ~ ser utilizados na construção de uma representa ção de nação. Já dizia Guizo!,
~ o século XIX, que o solo da França é simbolizado por seus monumentos.2
Enquanto prática social, a cons:Huição e a proteção do patrimônio estão
assentadas em um estatuto jurídico próprio, que torna viável a gestão pelo Estado,
em nome da sociedade, de determinados bens, selecionados com base em certos
critérios, variáveis no tempo e no espaço. A norma jurídica, nesse caso, funciona
como linguagem performativa de um modo bastante peculiar: não apenas define
direitos e deveres para o Estado e para os cidadãos como também inscreve no es-
paço social determinados ícones, figurações concretas e visíveis de valores que se
quer transmitir e preservar.
A seguir, com base na idéia de patrimônio tal como é form ulada em textos jurí·
dicas brasileiros,3 vou procurar especificar o modo como, no Brasil, se constituiu
essa noção enquanto fato jurídico e enquan to fato social.

1.1 A NOCÀO OE Ph!RIMÔNIO COMO ChtH ORI~ JURiOICh

Em termos jurídicos, a noção de patrimônio histórico e artístico nacional é re·


ferida pela primeira vez no Brasil (embora não exatamente com essa denomi·
nação), como sendo objeto de proteção obrigatória por parte do poder público, na
Constituição de 1934. Diz o art. 10 das disposições preliminares:
Art. 10 · Compete concorrentemente à União e aos Estados:

Ili. proteger as belezas naturais e os monumentos de valor histórico cru artí stico. po-
dendo impedir a evasão de obras de arte.

O PAIRIMÓ NIO: UMA QU!IIÀO OE V!lOR T~fO


É, no entanto, somente com o decreto-lei nª 25, de 30 de novembro de 1937,
que se regulamenta a proteção dos bens culturais no Brasil. Esse texto, além de
explicitar os valores que justificam a proteção, pelo Estado, de "bens móveis e
imóveis", tem como objetivo resolver a questão da propriedade desses bens.
Desde então, todas as Constituições brasileiras têm ratificado a noção de patri-
mônio em termos de direitos e deveres, a serem observados tanto pelo Estado
como pelos cidadaos. 4
A primeira linha de reflexão que desenvolverei diz respeito à questão do valor.
Em todos os textos jurídicos, .é o valor cultural atribuldo ao bem que·····jusfüica seu
····-· · ·- ---- --
\
reconhecimento como patrimônio e, conseqüentemente, sua proteção pelo Estado.
A segunda linha de reflexão - vinculada à primeira - remete especificamente
à questão da propriedade, crucial nas implicações práticas do instituto_do tom~a-
mento, sobretudo quando consideramos que a maior parte dos bens que compõem
os patrimônios, e, certamente, os mais significativos, são bens arquitetônicos. Na
medida em que são considerados de interesse público, os bens tombados se con-
vertem, em certo sentido, em propriedade da nação, embora não percam seu cará-
ter de mercadorias apropriáveis individualmente.
O instituto do tombamento - dispositivo por meio do qual, no decreto-lei n~ 25,
de 30.11.37, se efetiva a proteção de bens culturais pelo Estado no Brasil - incide
sobre o sistema de valores dos bens por ele atingidos e sobre o estatuto da pro-
priedade desses ber.s de forma peculiar, específica. Para entender essa espe-
5
cificidade, é preciso retomar a distinção referida por Argan entre coisa e valor.
Do ponto de vista jurídico - e para fins de regulamentação do direito de pro-
priedade -, tanto o Código Civil como o Código Penal brasileiros distinguem bens
materiais, ou coisas, de bens imateriais O Direito das Coisas, no Código Civil, "tra-
ta da coisa, enquanto valor econômico apropriável individualmente, e de suas rela-
ções privadas" (Castro, 1991, p. 25). Distingue a coisa, apropriável, dos bens ima-
teriais, não econômicos, que, no dizer do jurista Ctóvis Bevilacqua, "são irradia-
ções da personalidade que, por não serem suscetíveis de medidc1 de valor, não
fazem parte de nosso patrimôrio" (apud 'castro, 1991, p. 34).
Esses bens imateriais, ou valores, são objeto especifico, por exemplo, do Títu-
lo Ili do Código Penal de 1940. Do ponto de vista jurídico, são inapropriáveis indi·
vidualmente - à diferença dos bens materiais - e a relação dos indivíduos com
esses bens se expressa juridicamente sob a forma de direitos: o direito à liberda-
de, à vida, à instrução etc. Nessa linha se inscreveriam também os direitos cul·

O Prnl/1,ÓHIO [/1, PR OCE ISO


00
turais, mencionados no art. 215 da Constituição de 1988 e re conhecidos pela
Unesco, desde 1948, na Declaração Universal dos Direitos do Homem.
O direito, portanto, além de ter por objeto interesses que se realizam dentro
do círculo da economia, volta-se também para interesses outros, tanto do indiví·
duo, c;uanto da família e da sociedade. São os direitos meta-individuais, que têm
como titular não o individuo, mas uma coletividade mais ou menos abrangente.
Entre esses interesses figura o intere'>Se público de que fala o art. 12 do decreto-
lei nQ25, de 30.11.37. Pelas características do sujeito desse Upa de interesse -
indeterminado (a sociedade nacional, a humanidade etc.) - do seu objeto - flu ido
(a identidade nacional, a qualídade de vida, o meio ambiente etc.} e, também, pela
intensa litigiosidade de seus parãmetros e pelo caráter mutável de seu conteúdo
(cf. Mancuso, 1991, p. 67-80), o interesse público se insere na categoria dos inte-
resses difusos.
...... O próprio direito à propriedade - enquanto direito do indivíduo, consagrado
pelo Direito romano, fonte para o Direito brasileiro - é, no Código Civil Brasileiro,
limitado pelo que seria a função social da propriedade, regulamentada pela legisla·
ção. Nesse sentido, o exercício do direito de propriedade sobre as coisas não se
pode contrapor a outros valores, não-econômicos, de interesse geral, e, por isso,
o exercício desse direito é tutelado pela administração pública.
No caso específico do bem tombado, a tutela do Estado recai sobre aqueles
aspectos do bem considerados de interesse público - valores culturais, refe-
rências da nacionalidade. O valor patrimonial é qualificado no texto legal: "quer
por sua vinculação a fatos memoráveis da história do Brasil, quer por seu ex-
cepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artísUco" (art. 1Qde-
creto-lei n° 25, de 30.11.37). De acordo com o mesmo texto, o agente encarregado
da atribuição desse valor, para fins de tutela pública, é a autoridade estatal compe-
tente - no caso, o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, através
de seu Conselho Consultivo.
Cabe ao poder público, portanto, exercer tutela no sentido de proteger "os
valores culturais ínsitos no bem material, público ou particular, a cujos predica -
mentos, particularidades ou peculiaridades é sensível a coletividade e importa de·
fender e conservar em nome da educação, como elementos indicativos da origPm,
da civilização e da cultura nacionais" (Rocha, 1967, P- 31 ).
Esse é, lato sensu, o objetivo das políticas de preservação: garantir o direito
à cultura dos cidadãos, entendida a cultura, nesse caso, como aqueles valores
que indicam - e em que se reconhece - a iden tidade da nação.

O PAIRl/1,ÕH IO: U/1,! QUfllÃO O[ VAl OR l~f9]


Entretanto, embora a p;-oteção incida sobre as ooisas, pois estas é que cons-
tituem o objeto da proteção jurldica, o objetivo da proteção legal é assegurar a
penmanência dos valores culturais nelas identificados. Esses valores só são alcan-
çáveis através das coisas, mas nem sempre coincidem exatamente com unidades
materiais. Essa distinção se torna mais clara quando consideramos o tombamento
de conjuntos, seja de bens móveis (por exemplo, coleções de museus) ou imóveis
(por exPmplo. centros históricos}. Nesses casos, o objJto do tombamento é um
único valor - o ':9m coletivo {no sentido gramatical do termo. de conjunto de uni-
dades), embora _materializado em uma multiplicidade de coisas, geralmente hete-
rogêneas.
No caso do patrimônio, os valores não econômicos a serem protegidos (valo-
res culturais} estão inscritos na própria coisa, em função de seu agenciamento
físico-material, e só podem ser captados através de seus atributos. Mas, com o
tombamento, o bem não perde o valor econômico que lhe é próprio, enquanto coisa,
passível da apropriação individual. Por esse motivo, é preciso regular mais rigida-
mente ainda, nesse caso, o exercício do direito de propriedade.
Sobre o mesmo bem, enquanto bem tombado, incidem, assim, duas modalida-
des de propriedade: a propriedade da coisa, alienável, determinada por seu valor
econômico, e a propriedade dos valores culturais nela identificados que, por meio
do tombamento, passa a ser alheia ao proprietário da coisa: é propriedade da na-
ção, ou seja, da sociedade sob a tutela do Estado.
Esse duplo exercício de propriedade sobre um mesmo bem gera, obviamente,
uma série de problemas, pois o exercício de um tipo de propriedade limita neces-
sariamente o exercício do outro. É evidente que os conflitos de interesses - sobre-
tudo entre o interesse público e o privado - ficam, nesse caso, mais agudos,
mesmo porque o chamado valor cultural de um bem não é regulado por um mer-
cado específico, mas se define no nível da "economia das tro.cas simbólicas".
De tudo que foi dito, fica claro que o ãmbito de uma política de preservação
do patrimônio vai muito além da mera proteção de bens móveis e imóveis em sua
feição material, pois, se as coisas funcionam como mediação imprescindivel dessa
atividade, não constituem, em princípio, a sua justificativa, que é o interesse pú-
blico, nem seu objeto último, que são os valores culturais. E, se os valores que se
pretende preservar - conforme está explícito na abordagem jurídica da questão -
são apreendidos na coisa e somente nela, não se pode deixar de levar em consi-

O PAlRIIIIÓNIO Eil': PROCUI O


[]iJ
deração o fato óbvio de que os significados nela não estão contidos, nem lhe são
inerentes: são valores atribuidos em função de determinadas relações entre atores
sociais, sendo, portanto, indispensável levar em consideração o processo de pro-
dução, de reprodução, de apropriação e de reelaboração desses valores enquanto
processo de produção simbólica e enquanto prática social.

1.2 0 PAIRiAÔNIO COMO FORMA DE COMUNICA{ÀO lOCIAl

O universo dos patrimônios históricos e artísticos nacionais se cara cteriza


pela heterogeneidade dos bens que o integram, maior ou menor .LOnforme a con-
cepção _de patrimônio e de cultura que se adote: igrejas, palácios, fortes, chafa- 1

rizes, pontes, esculturas, pinturas, vestígios arqueológicos, paisagens, produções


do chamado artesanato, coleções etnográficas, equipamentos industriais, para_ não
falar do que a Unesco denomina patrimônio não-físico ou imaterial - lendas, can-
tos, festas p_opulares, e, mais recentemente, fazeres e saberes os mais diversos.
Essa enumeração, propositalmente caótica, visa a chamar a atenção para o
íato de que os bens enumerados acima pertencem, enquanto signos, a sistemas
de linguagem disUntos: à arquitetura, às artes plásticas, à música , à etnografia,
à arqueologia etc. Cada um desses sistemas tem, por sua vez, suas especifici-
dades e seu modo próprio de funcionamento enquanto código. Além disso, esses
bens cumprem funções diferenciadas na vida econômica e social.
Do que foi dito acima, pode-se deduzir que o que denominamos patrimônio
constitui um discurso de segundo grau: às funções e significados de determin ados
bens é acrescentado um valo: especifico enquanto patrimônio, o que acarreta a res-
semantização do bem e leva a alterações no seu sistema de valores. O processo
de seleção desses bens é c:nduzido por agentes autorizados - representantes do
Estad o, com atribuições def<das - e dentro de categorias fixas. a priori definidas,
relacionadas a determinada, füciplinas (arte, história, arq ueologia, etnografia etc.).
No caso brasileiro, essa, categorias são os valores especificados no decreto-
lei nº 25, de 30, 11 .37.' A e;:;:3 s categorias se superpõe uma categoria unifi cadora,
a de valor nacional.
Os signos referidos ftr : :-nam an tes como símbolos, no sentido saussuriano
do termo. Para Saussure (' ~:9, p. 101), o símbolo nunca é inteiramente arbitrário,
ele não é vazio, pois é cor:;;:·J ido com base em uma motivação cultural. O símbolo
da justiça não poderia se· .'Tia carruagem.

O IA IRJI\Ó NIO : UM A QUHIÀO OE \' :.:;

\. .·--i'.~º:?~'. ~f;'.'0L\OIJ
No caso dos bens patrimoniais, os atributos da coisa são considerados valo-
res culturalmente relevantes, excepcionais. No caso do Brasil, determinados bens
como igrejas dos séculos XVII e XVIII, casas de câmara e cadeia, fortes , palácios,
sedes de fazendas etc. foram erigidos pelos agentes do Sphan em simbolos da
nação por sua vinculação a fatos memoráveis mas, sobretudo, por suas qualidades
construtivas e estéticas. Cabe, portanto, recorrer à noção de simbolo, pois haveria
uma motivação, baseada na cultura, na constituição desses símbolos.
Pode-se concluir que os patrimônios funcionam como repertórios nos termos
da definição de Umberto Eco: "um repertório prevê 1Jma lista de símbolos, e even·
tualmente fixa a equivalência entre eles e determinados significados" (1987, p. 40).
... Neste ponto, quero chamar a atenção para a distinção .,., até o momento não
explicitada - entre bem cultural e bem patrimonial. A intermediação do Estado no
segundo caso, através de a~~tes autorizados e de práticas socialmente definidas
e juridicamente regulamentadas, contribui para fixar sentidos e valores, priorizando
uma determinada leitura: seja a atribuição de valor histórico, erquanto testemunho
de um determinado espaço/tempo vivido por determinados aiores; Seja de valor
artístico, enquanto fonte de fruição estética, o que implica lé:lmbém uma modalidade
específica de conhecimento; seja de valor etnográfico, enquanto documento de
processos e organizações sociais diferenciados.
Ao se considerar um bem como bem cultural, ao lado de seu valor utilitário
e econômico (valor de uso enquanto habitação, local de culto, ornamento etc; e
valor de troca, determinado pelo mercado), enfatiza-se seu valor simbólico, en·
quanto referência a significações da ordem da cultura. Na seleção e no uso dos
materiais, no seu agenciamento, nas técnicas de construção e de elaboração, nos
motivos, são apreendidas referências ao modo e às condições de produção desses
bens, a um tempo, a um espaço, a uma organização social, a sistemas simbó-
licos. No caso dos bens patrimoniais selecionados por uma instituição estatal,
considera-se que esse valor simbólico refere-se fundamentalmente a uma iden-
tidade coletiva, cuja definição tem em vista unidades políticas (a nação, o estado,
o município).
Assim como ocorre na literatura, portanto, e nas artes em geral, para que
determinados bens funcionem enquanto patrimônio é preciso que se aceite uma
convenção: que esses bens conotam determinadas significações - ou seja, que
se entre no jogo, aceitando suas regras. Isso significa que o interlocutor deve ter
condições de participar do jogo não só na medida em que tenha algum domínio

LRJ O PA!RIIIIÓNIO fM PRO C!IIO


dos códigos utilizados - no caso, as diferentes linguagens - , como também que
tenha acesso a um determinado universo cultural. No caso do patrimônio não bas-
·1a, portanto, selecionar e proteger criteriosamente um conjunto de bens. É preciso
que haja sujeitos dispostos e capazes de funcionarem como interlocutores dessa
forma de comunicação social, seja para aceitá-la tal como é proposta, seja para
contestá-la, seja para transformá-la.
O que q113ro dizer é que a proteção da integridade fisica dos bens patrimoniais
não é por si só suficiente para sustentar uma política pública de preservação. Jsso
porque a leitura de bens enquanto bens patrimoniais pressupõe as condições de
acesso a significações e valores que justifiquem sua preservação. Depende, portan-
',t,". --!\ i~
to, de outros fatores além da mera presença. num espaço público, de bens a que
agentes estatais atribuíram valor histórico, artístico etc., devidamente protegidos
i em sua feição material.
!
'- Essa dimensão da questão do patrimônio - ou seja, a consideração dos bens
do ponto de vista de sua recepção - não costuma ser abordada, a não ser even-
tualmente, pelos agentes institucionais. Normalmente, é do ponto de vista da pro-
dução dos patrimônios que a questão é tratada, seja na afirmação do valor nacio-
nal dos bens tombados - tônica do discurso oficial -, seja na critica ao modo como
são selecionados esses bens. Entretanto, poucos se voltam para a análise do mo-
do e das condições de recepção desse universo simbólico pelos diferentes seto-
res da sociedade nacional - questão que é particularmente importante no Brasil,
onde a diversidade cultural é imensa, a escola cumpre muito precária e limita da-
mente uma de suas funções principais, que é a de formar cidadãos com uma base
cultural comum, e onde o hábito de consumo de bens culturais é incrivelmente
res trito. Por esse motivo, qualquer proposta de democratização da política de
preservação que não leve em conta essa realidade corre o risco de cair no vazio,
na medida em que os valores culturais que se quer preservar - fundados, como
já foi observado, nas noções de arte e de história - só fazem sentido para um pe-
queno grupo. Outro problema, na mesma linha mas em sentido inverso, é a leitura
que as classes cultas fazem da cultura popular, em geral a partir de uma pers·
pectiva folclorizante que en fatiza o exotismo ou a discutível categoria da auten·
ticidade.7
Por esse motivo, vale a pena considerar esse aspecto da questão, ou seja,
o processo de apropriação dos bens pa trimoniais. Para Roger Chartier (1988),
todo receptor é, na verdade, um produtor de sentido, e toda leitura é um ato de

O fAUl/liu NIO: UIIIA QUfHÂO OE YAlOR [ill


apropriação. As significações produzidas pelas diferentes leituras podem. inclu·
sive, estar bem distantes da íntenção ou do interesse do autor da obra - ou, no
caso dos bens patrimoniais, das significações e valores que os agentes estatais
autorizados lhes atribulram enquanto patrimônio.
De um lado, é evidente que esses bens serão tanto mais nacionais quanto
maior for o número de pessoas que os identifique como patrimônio. Por outro lado,
esse consenso não significará nece!isariamente que todos fazem a mesma leitura
do bem. Só para dar um exemplo bastante óbvio, a igreja do Senhor do Bonfim,
em Salvador, será valorizada por alguns por soas qualidades estéticas, por ou-
tros, como local de culto católico, por outros ainda, como palco para rituais de
candomblé, e pelos turistas. muito provavelmente como um dos símbolos da capi-
tal da Bahia.
O que quero dizer é que; por mais regulamentado e controlado que pretenda
ser o processo de construção dos patrimônios, e por mais fixos que possam pare-
cer os efeitos de um tombamento, tanto materiais como simbólicos, a recepção
dos bens tombados tem uma dinâmica própria em dois sentidos: primeiro, no da
mutabilidade de significações e valores atribuldos a um mesmo bem em diferentes
momentos históricos - mudança que diz respeito inclusive às próprias concepções
do que seja histórico, artístico etc.; segundo, no da multiplicidade de significações
e de valores atribuídos, em um mesmo mqmento e um mesmo contexto, a um mes-
mo bem, por grupos econômica, social e culturalmente diferenciados.
A percepção dessas dinâmicas relativamente ao patrimônio é fenômeno mais
ou menos recente. e decorre de circunstâncias específicas, que serão abordadas
no próximo capitulo. O que interessa ressaltar aqui é que é imprescindível levá-
las em conta na formulação de uma política de preservação.
O fato é que as análises críticas das políticas de preservação têm dado ênfase
ao processo de construção dos patrimônios. visando a chamar a atenção para sua
utilização como instrumento ideológico de legitimação do poder estatal. Ao critica-
rem o seu caráter elitista, atribuem-no apenas ao processo de seleção de bens,
excludente, e que privilegia os monumentos identificados com a cultura dominante -
que, no caso do Brasil, é a cultura luso-brasileira. Conseqüentemente, as pro-
postas vis ando a democratizar o patrimônio se centram no vértice de sua cons-
trução - ou seja . na ampliação do conceito de patrimônio e na participação da
sociedade na consti tuição e no gerenciamento desse patrimônio. Fica de tora a
questão da democratização da apropriação simbólica desses bens.

OI] O PA IRl~O~I O EMPR DC!ISD


A democratização da apropriação não deve, no entanto, ser entendida como
mera difusão das significações produzidas pelos agentes institucionais. Como
observa Roger Chartier, uma abordagem que leve em conta a complexidade do
processo de recepção vai chamar a atenção para os usos diferenciados que são
feitos dos mesmos bens, o que possibilita, indusive, sua apropriação diferenciada
pelos grupos sociais, mesmo em situação de desigualdade econômica e social.
Por outro lado, esse tipo de abordagem vai evidenciar os limites que se interpõem
a essa apropriação, e que decorrem da dificuldade de acesso, para grupos sociais
culturalmente desfavorecidos {entendida aqui cultura como as informações e ex-
periências veiculadas primordialmente pela educação formal), ao consumo e aos
códigos de leitura dos bens patrimoniais.
Essa perspectiva não impede que as diferenças sejam identificadas (inclusive
as diferenças com raízes econômicas e sociais), mas desloca a sua própria esfe-
ra de identificação, uma vez que não implica a qualificação social das obras como
um todo ("arquitetura luso-brasileira", "artesanato", "arte popular" etc.). Em vez disso,
caracteriza as práticas que se apropriam, distintivamente, dos materiais que circu-
lam numa determinada sociedade (Chartier, 1988, p. 233).
As análises centradas no processo de construção dos patrimônios são impor-
tantes, na medida em que procuram desvendar o modo como determinados intelec·
tuais, em nome do Eslado, concebem a "identidade nacional". Mas, uma vez que
o interesse na questão do patrimônio seja o de entender o processo especifico
de ci;-culação dos bens patrimoniais numa sociedade, a consideração do vértice
da recepção é indispensável, tendo em vista o caráter dinâmico e ativo de qual-
quer apropriação social. Apenas quando esse aspecto é devidamente incorporado
à política estatal é que se pode falar em uma política pública.

1J Ü Ph!Rl!IÔNIO (0,1\Q OBJHO Of UMA POlilJ(h PÜBLl(A

Para Oscar Ozlack e Guillermo O'Donnel, as politicas estatais seriam "alguns


acordes de um processo social tecido em torno de um tema ou questão" (1976, p.
17). Para Jobert e Muller, as políticas públicas constituem "tentativas de gerir uma
l
relação entre um setor e a sociedade global" (1987, p. 52). Em ambas as definições,
pressupõe-se um "Estado em ação", distinto da imagem de um Estado uno, que se
apresenta como identificado à nação, de que garantiria a coesão. Nessa imagem -
a do Estado como um organismo que regula os movimentos da sociedade - Estado
naç~o e sociedade praticamente se fundem no imaginário social.

O P!IRll\õ::10: UI\A QUEll!O Of VAlOR


illJ
A idéia de um "Estado em ação" implica, no entanto, a heterogeneidade, a luta
de poder e o conflito de interesses, mesmo dentro da burocracia estatal.
Logo, analisar o "Estado em ação" significa levar em conta sua dinâmica inter-
na, a partir das ações de diferentes sujeitos, tornando-se difícil recorrer, nesse
nível, a modelos analíticos que o reduzam a um instrumento de classe, a gestor
da ordem social, a promotor do desenvolvimento, ou a qualquer outra concepção
~;~
que neutralize os inevitáveis antagonismos, tanto do Estado com a sociedade
·~
quanto internamente, na máquina estatal.

,
,l
A imagem que se tem da politica federal de preservação no Brasil contradiz
essa afirmação. A idéia de uma ação política monolítica, conduzida praticamente
J
·~

sem contestações pelo Estado, em nome do interesse público, foi, inclusive, refor-
çada pela aura que, até hoje, envolve a fase heróica do Sphan. Entretanto, como 1

a trajetória dessa política estatal veio demonstrar, essa foi apenas uma entre dife- .1
rentes orientações possíveis - e que, na época, se impôs sem maiores dificul- í
dades, como a mais apropriada - para se elaborar a questão da identidade na-
cional na constituição de um patrimônio histórico e artístico.
Partindo do pressuposto de que essa imagem é formada com base em uma
situação conjuntural - o modo como essa política vem sendo conduzida no Brasil,
o que uma análise comparativa com outras po\itícas pode comprovar -, propus-
me, neste trabalho, a abordar essa política estatal na sua relação com a sociedade,
procurando apreender, ainda que nos limites de uma prática específica - os tom-
bamentos - a presença de outros atores que não apenas os agentes institucionais.
Pois é evidente que, se essa política foi instaurada e se mantém há mais de
cinqüenta anos, é porque atende a algum tipo de demanda social mais ampla.
Na pesquisa, procurei seguir os passos discriminados tanto por Ozlack e O'Donnel
quanto por Jobert e Muller para a anátise de políticas públicas: a definição da
questão e do modo como ela se tornou politicamente relevante, passando a ser
objeto de uma política pública; a discrimin~ção dos atores envolvidos, estatais e
não-estatais, de sua inserção social e das lideranças que assumem o setor; os
recursos a que esses atores recorrem para legit'imar essa politica, ou seja, a rela-
ção de um projeto setorial com um projeto global para a nação; os instrumentos
utilizados na sua implementação.
No conjunto das políticas implementadas pelo Estado, as políticas culturais se
distinguem pelo tema. Mas, assim como as demandas nessa área são bem mais

[iiJ O PA!IIMON C E/li PROCUIO


difusas e costumam se concentrar em grupos restritos, também os objeUvos des-
sas políticas nunca são claramen te apresentados, tanto nos discursos oficiais
quanto em defi nições fo rmuladas em outras instâncias.ª Nesse sentido, é mais
proveitoso verificar como diferentes lin~as de pensamento político elaboram uma
prática política nesse campo.
Numa perspectiva liberal, cabe à sociedade produzir cultura. Ao Estado, cabe
apenas gara ntir as condições para que esse direito possa ser exercido por todos
os cidadãos. Para Norberto Bobbio (1977), essas condições são, basicamente, o
reconhecimento e o respeito a valores como a liberdade {enquanto ausência de
impedimentos físicos e morais), a verdade (enquanto espírito crítico, em oposição
ao dogmatismo, à intolerância e às fa lsificações) e a confiança no diálogo.
Bobbio faz um distinção entre política cuHural e política da cultura. A primeira
é a planificação da cultura feita pelos políticos, em que a cultura figura como ins-
trumento para alcançar fins politicos. A segunda é a política dos homens de cultu-
ra, voltada para garantir as condições de desenvolvimento da cultura e o exercício
dos direitos culturais.
Se, na perspectiva liberal, cabe ao Estado simplesmente assegurar o espaço
para a produção e o consumo de bens culturais, numa perspectiva socialista o
Estado liberal constituiria um instrumento de classe. Nesse sentido, o que Bobbio
denominou política de cultura seria inviável numa sociedade de classes.
Considero que a postura liberal é irrefutável do ponto de vista de seus prin-
cípios, mas; no caso brasileiro, seus pressupostos colidem com uma realidade
em que a cidadania ainda não é um bem coletivo. Nesse caso, a formulação de
uma política cultura! democrática (atributo que tanto os liberais quanto os socia-
listas defendem em suas propostas} implica uma atuação necessariamente mais
ativa e abrangente do Estado. Trata-se não só de defender determinados valores,
como de criar condições para implemen tá-los numa sociedade onde os direitos
mínimos da cidadania, na prática, são exercidos por poucos. Ou seja, considerar
todos os cidadãos como homens de cultura, assim como propunha Gramsci, em
condições de exercer os direitos culturais, e atuar no sentido de converter esse
princípio - que no caso do Brasil é ainda um ideal - em realidade.
Na verdade, a implementação de uma proposta como essa - desafio que vem
sendo enfrentado sobretudo no âmbito das secretarias municipais de cultura9 -
requer um esforço prévio, uma atuação did2tica no sentido de sedimentar uma
nova cultura política.

O PATWIÓN IO: U~A QUEST ÃO Df VA lOR


OD
Se essa orientação tem se mostrado complexa no âmbito municipal, que dirá
uma proposta de democratização como a formulada pela politica federal de cultura
no início dos anos 80, ainda em plena vigência do regime rnílilar. Naquele momen-
to, além da fragilidade dos mecanismos institucionais de representação polltica,
que só então começavam a ser reorganizados, e das formas de participação social,
especificamente na área da cultura (a não ser entre alguns produtores culturais,
como os cineastas), inexistia1n mecanismos de mediação entre Estado e socieda-
de, e era praticamente impossível identificar atores sociais constituídos em torno
de causas culturais. Ficava no ar a pergunta (e, para alguns, a suspeita) sobre
o sentido dessa proposta: idealismo de alguns agentes institucionais, instrumen·
talização da cultura por um governo em crise de legitimidade ou estratégia política
de resistência, possível num setor à margem dos grandes interesses do capital?
lndepe,,dentemente da r_~sposta que se dê a essas indagações, o fato é que,
como observa Chantal Mouffe (1988, p. 95), a mera enunciação, através de dis·
cursos, de determinados princípios e direitos - como o direito à igualdade - cons-
titui fator que viabiliza a constituição de novos sujeitos sociais (por exemplo, os
escravos como "homens", as mulheres como "cidadãs" etc.) e a transformação de
relações de subordinação em antagonismos. Nesse sentido, nos anos que se se·
guiram á formulação da proposta da Secretaria da Cultura do MEC, em 1981, ficou
evidente que essa proposta veio atender a uma demanda social de valores demo·
cráticos, na medida em que seu discurso toi incorporado pelas mais diversas ins-
tâncias, e foi absorvido pela Constituição de 1988.
Entretanto, se partiu da área federal uma primeira reivindicação pela democra-
tização da política cultural, na prática têm sido os órgãos municipais que vêm
implementando com maior visibilidade propostas nesse sentido. E, passados vá-
rios anos da elaboração do documento Diretrizes para operacionalização da poli·
tica cultural do MEC {1981), fica no ar a pergunta: qual a proposta hoje - em face
de uma realidade politicamente outra, embora social e economicamente a·1nda for-
temente marcada pela desigualdade - da área federal para a cultura, em geral,
e para o patrimônio, em particular?
Esse trabalho não pretende - nem seria de sua atribuição - oferecer res posta
a essa pergunta, mas apenas contribuir com alguns subsídios para a formula ção
de propostas que, afinadas com a realidade presente, não deixem de levar em
conta uma experiência acumulada, em mais de cinqüenta anos, por uma política
que se tem diferenciado - tanto de um ponto de vista positivo co~'l negativo -
no conjunto das políticas estatais brasileiras.

O PAIW\ÔNIO fli m cE \10


Q!J
Nom
Historiador e critico de arte italiano, catedrático de História da Arte da Universidade
de Roma. Trabalhou de 1933 a 1955 na Administração Estatal do Patrimônio Artisti-
co. Foi eleito pre1eito da cidade de Roma, em 1976, e senador pelo Partido Comunis·
ta Italiano, em 1983.
Sobre a relação entre a história e as ideologias políticas, disse, em entrevista, o his-
toriador Eric Hobsbawm: 'A história é a matéria-prima para ideologias nacionalistas, étnicas
ou fundamentalistas, da mesma maneira como as papoulas são a matéria-prima para os
viciados em heroína. O passado é um elemento essencial, talvez até mesmo o ele-
mento essencial nestas ideologias. Quando não existe um passado adequado, ele
sempre pode ser inventado.· (O Estado de São Pauto, 16 jon. 1994. Especial Do-
mingo, p. 06)
Embora algumas das observações que se seguem tenham interesse geral - na medi-
da em que se aplicam a outros contextos nacionais - elas dizem respeito apenas
ao modo como, no Brasil, é construida juridicamente a noção de patrimônio histórico
e artístico nacional.
Cf. Barbuy, 1989, sobre as menções, nas Constituições brasileiras, relativas à cultura.
Lembro que essa distinção - entre coisa e valor - é referida aqui apenas na medida
em que é útil como recu rso para a comµreensão da noção de patrimônio. Não se
têm em mente dois termos independentes e sim duas faces de uma mesma moeda,
como o par significante/significado, em lingüística.
Para fins de inscrição dos bens tombados, devem-se considerar os quatro Livros do
Tombo: Livro Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico, Livro Histórico, Livro de Be-
las Artes e Livro de Artes Aplicadas. Esse último livro se acha em desuso, e dele
constam apenas quatro inscrições.
Foi no sentido de reelaborar criticamente esses tipos de leitura que vários projetos
do CNRC abordaram manifestações de cullura popular. A partir dessa mPsma visão
foram consideradas as manifestações das diferentes etnia s.
Sobre essa questão, sintetiza Eunice Ourham: "de um lado, é necessári o eliminar
as barreiras educacionais e materiais que impedem a maioria da população de ter
acesso aos bens culturais, que são monopolizados pelas classes dominantes; de ou-
tro lado, é impcrtante preservar e difundir a produção cultu:a! que é própria das clas-
ses populares, garantindo seu acesso a instrumentos que facilitem essa produção
e permitam sua conservação e transmissão" (apud Arantes, 1984, p. 34).
r
Tanto a definição de política cultural formulada pela Unesco quanto a de Néstor
Garcia Canclini são igualmen,e vagas e genéricas: '

n PAlRIM ÕH IO: U~ t QUtllÀO D! VblO~ OiJ


1) Para a Unesco, polilica cultural constitui ·um conjunto de práticas sociais conscien-
tes e deliberadas, de intervenções e não-intervenções, tendo por objeto satisfazer certas
necessidades culturais pelo melhor emprego possível de todos os recursos materiais e
humanos de que dispõe uma sociedade num momento dado' (1969, p. 8).
2) Para Canc!ini, política cultural é "um conjunto de intervenções realizadas pelo Estado,
as instituições e os grupos comunitários organizados a fim de orientar o desenvo: vimenlo
simbólico, satisfazer as necessidades culturais da população e obter consenso para um tipo
de ordem ou de transformação social' (1987, p. 26).
Ver Faria, Hamilton José Barreto de; Souza, Vatmir de (org.). Experiências de gestão cul-
tural democrática. Pólis, São Paulo, n. 12, 1993. Em entrevista a Gabriel Cohn, Marilena
Chaui, então secretária municipal de cultura de São Paulo, esclarece o sentido desse tipo
de proposta: "Decidimos também considerar a cultura como direito do cidadão, o direito de
ter acesso aos bens culturais, o direito de produzir cultura, e o direito de participar das
decisões na política cultural. E com isso o nosso projeto é um projeto de cidadania cultural."
(1990, p. 32)

[}Q] o PATWIÓNIO EM PRorn so


CAP ÍTU LO 2
A CONSlRU(ÃO DO PATRIMÔNIO: PERSPECllVA HIST ÓR ICA

A modernidade de uma sociedade se mede por suü. capacidade


de se reapropriar das experiências humanas distantes da sua no
tempo e no espaço.
Alain Touraine, Critique de la modemite.

A questão do patrimônio se situa numa encruzilhada que envolve tanto o papel


da memória e da tradição na construção de identidades coletivas, quanto os
recursos a que têm recorrido os Estados modernos na objetivação e legitimação
da idéia de nação. Permeando essas dimensões, está a consideração do uso sim-
bólico que os diferentes grupos sociais fazem de seus bens - e aqui me refiro
tanto à produção quanto à conservação ou destruição - na elaboração das catego-
rias de espaço e tempo. 1 Ou seja, o valor que atribuem a esses bens enquanto
meios para referir o passado, proporcionar prazer aos sentidos, produzir e veicular
conhecimento. Esses diferentes valores atribuídos são, na civiliza ção ocidental,
regulados por duas noções que se articulam sobre as categorias de tempo e espa·
ço - a noção de história e a de arte. A primeira, enquanto reelaboração do pas-
sado, a segunda, enquanto fruição in praesen tia. Nesse sentido, os ben s que
constituem os patrimônios culturais se propõem como marcas do tempo no espaço.
Mas foi apenas quando, no final do século XVIII, o Estado assumiu, em nome
do interesse publico, a proteção legal de determinados bens a que frn atribuída a

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capacidade de simbolizarem a nação, que se definiu o conceito de patrimônio his-
tórico e artístico nacional.

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Y-"-··' ~~._:.;;:~C;:AIS \
Os principais valores culturais atribuídos aos bens patrimoniais são o valor
artístico e o valor histórico. Embora a legislação possa se referir a outros valores -
o decreto-lei nQ 25, de 30.11.37, por exemplo, menciona também os valores ar-
queológico, etnográfico, paisagístico etc. - esses, na realidade, são tributários das
noções de história e de arte.
A percepção da especificidade da questão do valor na abordagem dos bens
que são considerodos monumentos históricos e/ou artísticos só se tornou possível
a partir de uma postura inovadora, que, segundo Françoise Choay, se iniciou com
o austriaco Alo"is Riegl, ligado, assim como Panofsky, Wólfflin e Gombrich, á ico-
nologia anglo-saxã. Diz ela, na introdução à edição francesa dt: Le Cu/te modeme
des monuments. publicado pela primeira vez em 1903, com o título de Der mo-
deme Denkmalkultus:
Único no seu gênero desde sua aparição, esse pequeno texto continua até hoje inigua-
lável.(... ) Basta indicar que, pela primeira vez na história da noção de monumento histórico
e de suas aplicações, Riegl !orna distância. Sua posição de observador não é nem a dos
arquitetos. que desde Alberti integraram a questão do monumento histórico na teoria de
sua disciplina, nem a dos homens de letras, que fizeram do patrimônio monumental oobje-
to de uma cruzada passional. Graças a essa distância, ele pôde, antes de qualquer outro,
realizar o inventário dos valores não ditos e das significações não explicitadas, subjacentes
ao conceito de monumento histórico. De imediato, este perde sua pseudotransparência
de dado objetivo. Torna-se o suporte opaco de ·,alares históricos transitivos econtraditórios.
de procedimentos complexos e confli1antes. (Riegl, 1984, p. 16-17)

É esse olhar distanciado que possibilita a desconstrução das noções de monu-


mento, monumento histórico, preservação, e o mapeamento de sua história. Assim,
Riegl pôde distinguir traços que seriam considerados universais, de formas culturais
específicas da civilização cristã-ocidental.
Para Riegl, o ato de erigir monumentos2 - entendidos como "uma obra criada
pela mão do homem e edificada com o objetivo preciso de conservar sempre pre-
sente e viva na consciência de gerações futuras a lembrança de uma ação ou de
um destino" (1984, p. 35) -, pode ser identificado nas épocas mais remotas da hu-
manidade. Segundo Françoise Choay. "o monumento se assemelha bastante a um
universal cultural" (1992, p. 15). Esse tipo de monumento, visando à reme moração
celebrativa, é chamado por Riegl monumento "intencional".
Ourante a Antiguidade e a Idade Média, esse seria o único tipo de monu-
mento conhecido, mas a partir do Renascimento teria começado a perder impor-

LRJ O PATW\ÓNIO E/1, PROCfHO


tância, sendo atualmente pouco freqüente .3 O próprio termo monumento foi mu-
dando de significação e passou a ser en tendido como monumento histórico e artís-
tico, ou seja, toda obra tangível de valor histórico e artístico. Essa atribuição de
valor, ao contrário do que ocorre com os monumentos intencionais, é a posteriori,
e só passa a ocorrer a partir do momento em que, na cultura ocidental, as noções
de arte e de história adquirem alguma autonomia. No contexto da história, que Le
Goff considera "a forma cientifica da me~ória coletiva", a noção de monumento
passa a ser pensada na sua relação com a noção de documentu (1990, p. 535-553).
Também a noção de preservação deve ser entendida nessa dupla dimen-
são, de invariante e de variante cultural. A propósito, diz o antropólogo norte-ame-
ri cano James Clifford:
Coleta, posse, classificação e valor não estão, certamente, restritos ao Ocidente;
mas, em outras regiões essas atividades não precisam ser associadas à acumulação
(em vez da redistribuição) ou à preservação (emvez da decadência histórica ou natural).
A prática ocidental de coleta da cultura tem sua própria genealogia loca!, imbricada em
noçcas européias distintas de temporalidade e ordem, (1988, p. 218)

As noções modernas de monumento histórico, de patrimônio e de preseNação


só começam a ser elaboradas a partir do momento em que surge a idéia de estu-
dar e conservar um edifício pela única razão de que é um testemunho da história
e/ou uma obra de arte.
1

Sendo a preservação de monumentos uma atividade necessariamente seletiva,


uma constante opção entre o con servar e o destruir (ativo ou passivo, no sentido
de não impedir a destruição),4 ela será exercida por determinados agentes, e se-
gundo dete rminados critérios, que orientam e também legitimam o processo de atri-
buição de valores - e, conseqüentemente, a preservação. É exatamente nesse pro-
cesso - que tem uma dimensão explicita, regulamentada, como, no caso do Brasil,
a inscrição de bens nos Livros de Tombo, e outra implícita, e muitas vezes até deli-
beradamente ocultada, que remete às relações de poder entre os agentes envol-
vidos com a preservação - que se manifestam os conflitos de interesse em jogo
na prática aparentemente tranqüila da preservação de bens culturais em nome do
interesse público.
É no sentido de tentar apreender esses focos de conflito, que se manifes tam
tanto entre os diferentes grupos sociais envolvidos com a questão quanto no inte-
rior da atividade insiitucional, que orientarei a análise da prática de preservação
exercida no Brasil, em nível federa\, nas décadas de 1970-1 980. Neste capítulo.

A COHS TRU CÃO DO HTW\ÓHIO: PER\? ECTIVA HIS1 ÓR l(A QlJ


a partir dos trabalhos de Alofs Riegl 5 (1984). de André ChastP.1, 6 Jean-Pierre
Babelon 7 (1980) e de Françoise Choay& (1992), procurarei elaborar um conjunto
de referências para pensar a história dos valores atribuídos a bens culturais para
fins de preservação.
Esses autores vão chamar a atenção não apenas para as condições de trans-
formação das noções de monumento histórico, patrimônio e preservação, como
também para as tensões presentes no processo de preservação. É importante ob-
servar que a maioria desses aut:::~Js (assim como Giulic C:arlo Argan, já citado no
·I

l
capítulo anterior) desenvolveu, além de uma atividade acadêmica, trabalhos em
agências estatais voltadas para a preservação de monumentos. Possivelmente, foi
essa experiência, mais que seus estudos e pesquisas universitárias, que lhes chamou l
a atenção para a diversidade de valores atribuídos a um mesmo bem, enquanto !
i
monumento histórico e artístiço, e para os problemas decorrentes dessa realidade.

2.1 ÜS PRIMÓRDIOS DA PRESERVACÃO DE Ji\ONUJi\ENlOS


E A AUIONO/ltlZA(ÃO DAS NO(ÕES OE H!llÓRIA E DE ARIE

Tanto Riegl quanto Chastel e Babelon detectam no sentimento de piedade reli-


giosa e de devoção às relíquias, característico da civilização européia, a origem
do sentimento de apego a bens simbólicos que evocam a idéia de pertencimento
a uma comunidade, ainda que imaginária. São Chastel e Babelon que dizem:
Em toda sociedade, desde a pré-história, (... ) o sentido do sagrado intervém con-
vidando a tratar certos objetos, certos lugares, certos bens materiais, como escapando
à lei da utilidade imediata. A existência dos lares familiares, a do palladium da cidade,
provavelmente deve ser recolocada na origem ou na base do problema do patrimônio.
É preciso aprox:rnar seu destino do de certos objetos comuns. armas e jóias, e mesmo
edificios. que, por diversas razões, escaparam da obsolescência e da destruição fatal
para se verem cotados de um prestigio particular, suscitar uma ligação apaixorada, até
mesmo um verdadeiro culto. (1980, p. 1)

Esse estatuto atribuído a certos bens materiais implica, como no caso dos
bens religiosos, uma forma de propriedade coletiva, visando a preservá-los e a
garantir sua transmissão através das gerações. Na Idade Média, a aristocracia
projetava nos seus castelos e em outras representações de suas linhagens um
sentido de símbo'os de sua continuidade, e, por essa razão, esses bens se torna-
vam também objeto de preservação.

lliJ O PAfWIÓHIO E/li PRO CES SO


Se, no caso da tradição cristã, foi a Igreja a guardiã dos objetos de culto e
a gestora de sua transmissão, o que chamamos patrimônio só vai constituir-se
efetivamente como corpus de bens a serem cultuados, preservados e legados para
uma coletividade, em função de valores leigos, como os valores histórico e artís-
tico, e enquanto referências a uma identidade nacional. Por outro lado, como mos-
tram Chastel e Babelon, a preservação, embora sentida como necessidade por
certos indivíduos ou grupos, impressionados com o que consideravam a beleza,
a antiguidade, ou o poder de evocação de certos monumentos, se manifestava, até
o final do século XVIII, apenas em inlciativas isoladas, formadoras do que chamam
"o sentido do patrimônio".
Se as categorias que vão fundamentar a constituição dos chamados patri-
mônios históricos e artísticos começaram, portanto, a ser formuladas e aplicadas
a bens, desde o Renasciment~! foi a idéia de nação que veio garantir seu estatuto .
ideológico, e foi o Estado nacional que veio assegurar, através de práticas especí-
ficas, a sua preservação. Pois, como diz Vera Milet,

A efetivação da preservação dos bens culturais só se encontra socialmentedefinida,


ou seja, só aparece como fato social, quando o Estado assume a sua proteção e,
através da ordenação juridica, os institui e delimita oficialmente enquanto bem cultural,
regulamentando o seu uso, a finalidade e o caráter desses bens dentro de leis espe-
cíficas de propriedade, zoneamento, uso e ocupação do solo. (1988, p. 18)

t=oi preciso, portanto, que a noção de monumento - no seu sentido moderno -


fosse formulada, enquanto monumento histórico e artístico, para que a noção de
patrimônio se convertesse em categoria socialmente definida, regulamentada e
delimitada, e adquirisse o sentido de herança coletiva especificamente cultural.
Como diz Françoise Choay na introdução já citada ao livro de Riegl, "a invenção
do monumento histórico é solidária com a dos conceitos de arte e de história"
(Riegl, 1984, p. 11).
Essa noção pressupõe a idéia de distância e a percepção da alteridade de
uma civilização em relação a outras, o que só vai ocorrer no Renascimento, quan-
do, pela primeira vez, uma cultura distante mais de um milênio no tempo é consi-
derada ancestral da presente. Françoise Choay considera que o advento desse
olhar "distanciado e esteta, liberto das paixões medievais", que metamorfoseia as
edificações antigas em "objetos de reflexão e de contemplação", se situa por volta
da primeira metade do sécu!a XV. Até então, só era possível se aproximar da cul-
tura antiga, pagã, ressemantizando-a, retraduzindo-a em tennos cristãos. Os pré-

A CO HHRUCÃO 00 PATWIÕHIO : PHSPHl lVA Hlílf{N Pt 1 ~ ~13LIOTECASETORlAL1· OI]


I DE C\ENCIAS SOCiAIS
dios antigos que não haviam sido destruídos eram reutilizados, ou tinham seus
elementos aproveitados em outras construções (1992, p. 37).s
Não foi por acaso que Roma se tornou o berço d~ sensibilidade moderna. Ali
se tinha acesso à presença simultânea de dois tipos de monumentos - os antigos,
pagãos, e os cristãos - que remetiam a duas tradições distantes. Sintomatica-
mente, foi no século XV que ocorreram as primeiras medidas de preservação, em-
preendidas por papas através de bulas, visando à proteção de edificações antigas
e cristãs. Também nesse momento ocorreu, no tratamento dos vestígios da Anti-
guidade greco-romana, o cruzamento de três discursos: o da perspectiva histórica,
o da perspectiva artlstica e o da conservação.
O interesse pelas antiguidades, que começou então a surgir, era objeto de dois
tipos de abordagem: a letrada, pelos humanistas, que as consideravam enquanto
ilustrações dos textos àntigos - estes, os testemunhos confiáveis da Antiguidade -
e a artistica, por parte dos artífices (arquitetos, escultores etc.), interessados nas
formas - por eles consideradas testemunhos involuntàrios e, por esse motivo,
mais reveladores. A noção de monumento histórico surgiu, pois, com as antigui-
dades, e, segundo Françoise Choay, "a descoberta das antiguidades é também a
da arte como atividade autônoma, desvinculada de sua tradicional vinculação á
religião cristã" (1992, p. 63).'º A mesma autora assim caracteriza a atividade dos
antiquários:
O primeiro objetivo dos antiquários é, portanto, tomar visível o passado, espe-
cialmente o passado silencioso ou não-dito. Mas eles não se limitam a uma soma. A
imagem é posta a serviço de um método comparativo que lhes permite estabelecer
séries tipoí6gicas, às vezes até seqüências cronológicas, e realizar assim uma espécie
de história natural das produções humanas. (lbid.)

A atividade dos antiquários se desenvolveu por toda a Europa, produzindo far-


ta iconografia e inúmeras coleções. O objeto de interesse, porém, era só um: a
Antiguidade. A Idade Média era considerada um periodo intermediário. A partir do
final do século XVI, os antiquários passaram a' se interessar também por antigui-
dades de outras civilizações que não apenas a da greco-romana. Foram documen-
tados e recc :nidos os vestígios do que se passou a considerar as antiguidades
nacionais. O estilo gótico se tornou o símbolo das antiguidades nacionais, sendo-
lhe atribuído. no entanto, apenas um valor histórico. Já na Grã-Bretanha, devido
ao triunfo da Reforma e à penetração tardia do estilo italiano na arquitetura, esse
estilo continuava vivo, mesmo durante o classicismo. e foi reconhecido também

UlJ O fAJR l/4ÓH IO E~ PROCEIIO


como de valor artístico. A trajetória das pesquisas dos antiquários pode ser exem-
plificada na seqüência dos trabalhos de Monlfaucon, que, tendo pesquisado as an-
tiguidades greco-romanas, veio a estudar posteriormente os testemunhos das mo-
narquias francesas.
O saber produzido pelos antiquários tinha um caráter eminentemente univer-
,
1 salista, caracterizado pelas viagens e trocas de informações. Na Inglaterra, esse
.j
· tipo de atividade, intensificado como reação ao vandalismo religioso da Reforma,
perdurou até o início do século XX: eram as sociedades de antiquários que prote-
giam as antiguidades nacionais. Já na França, essas sociedades entraram em de-
dínio quando, a partir da Revolução, no final do século XVIII, o Estado aSStJmiu
e passou a centralizar a preservação.
Como observa Françoise Choay (ibid.), o amor à arte e ao saber histórico não
foi suficiente para implantar, de forma sistemàtica e definitiva, a prática da preser-
vação. Foi preciso que surgissem ameaças concretas de perda dos monumentos,
jà então valorizados oomo expressões históricas e artísticas - o vandalismo da
Reforma e o da Revolução Francesa - e uma mlslica leiga vinculada a um interes-
se político definido - o culto à nação - para que a preseNação dos monumentos
se tornasse um terna de interesse público.

2.2 ALEGlll,I\A(ÀO DO PAIRlr\10010 PHO VAlOR DE NACIONALIDADE

Até o século XVIII, as ações deliberadas, voltadas para a preservação de mo-


numentos, eram ocasionais, e, quando ocorriam, eram realizadas pelos segmentos
sociais dominantes, basicamente a Igreja e a aristocracia, visando a conservar
seus bens. Para os antiquários, os objetos antigos interessavam primordialmente
como documentos, dotados também de valor artistico, e o interesse na coleta e
na guarda era partilhado apenas pelos membros dessas sociedades.
Chastel e Babelon (1980, p. 15), que fizeram um estudo da proto-histócia da
preservação na França, detectaram na segunda metade do século XVIII algumas
iniciativas, em Paris, visando a evitar a destruição de edificações pelo motivo de
estarem identificadas à fisionomia da cidade. 11 Nesse caso, a defesa de edifi-
cações civis publicas - como uma fonte, um arco do triunfo e uma coluna de ob-
servações astrológicas - sugere a formação de um patrimônio do cidadão.
1

Mas foram ameaças de destruição e perda de monumentos jà considerados


de valor histórico e/ou artístico que mobilizarr1m as sociedades nacionais para o

ACOHIIRUCÀO 00 PAIRIAIÓH\O: PER IPHII VA HtHó;1c~ IJD :


investimento na preservação. Na Inglaterra, o vandalismo reformista, que destruiu
igrejas e sobretudo imagens, levou as sociedades de antiquários a assumirem essa
função.
Na França, no final do Antigo Regime, a monarquia, influenciada pelas idéias
iluministas, tomou iniciativas no sentido de dar act:lsso a seus acervos através
da criação de museus. Com a instauração de um novo Estado, em 1789, e a der-
rubada do poder da aristocracia e da Igreja, a questão assumiu dimensões mais
complexas: em primAiro lugar, havia o prob!<>rna econômico de gerir os bens con-
fiscados aos nobres e ao clero; em segundo lugar, simbolicamente, essa proteção
J
era. em princípio, contraditória com os ideais revolucionários de instauração de
um poder popular e de uma nova era, livre da opressão dos antigos dominadores.
O projeto de inaugurar um novo tempo (inclusive com um calendário e símbolos
próprios) justificava, aos olhos da população, a destruição dos bens identificados
com aqueles dois grupos sociais.
Os atos de vandalismo, que se intensificaram após a prisão do rei em Va-
rennes, repugnavam aos eruditos e contrariavam os ideais iluministas de acumu-
lação e difusão do saber. Por esse motivo, desde 1789, o governo revolucionário
tentou regulamentar a proteção dos bens confiscados, justificando essa preocu-
pação pelo interesse desses bens para a instrução pública .
Esses bens, que, para a Comissão de Artes, criada em 1793, 12 "a história con-
sulta, as artes estudam, o filósofo observa, nossos olhos se comprazem em fixar''
(apud Chastel e Babe!on, 1980, p. 18), passaram a ter também um valor como docu-
mentos da nação, e se converteram em objeto de interesse não apenas cultural
como também político. Chastel e Babelon (1980, p. 18) observam que "não se defi-
ne apenas um domínio original, identifica-se um poder de cultura; a noção moderna
de patrimônio começa a aparecer através da preocupação moral e pedagógica".
A idéia de posse coletiva como parte do exercício da cidadania inspirou a utili-
zação do termo patrimônio para designar o conjunto de bens de valor cultural que

passaram a ser propriedade da nação, ou seja, do conjunto de todos os cidadãos.
A construção do que chamamos patrimônio histórico e artístico nacional partiu, por-
tanto, de uma motivação prática - o novo estatuto de propriedade dos bens confis-
cados - e de uma motivação ideológica - a necessidade de ressemantizar esses
bens. A idéia de um patrimônio da nação, ou "de todos", conforme o texto legal,
homogeneiza simbolicamente esses bens heterogêneos e de diferentes procedên·

Ll!J o PmlMÕNIO IM PRG,rno


cías, que passam a ser objeto de medidas administrativas e jurídicas: formulação
de leis, decretos e prescrições, criação de comissões especificas, instituição de
práticas de conservação (inventário, classificação, proteção) e, principalmente,
definição de um campo de atuação política. Paralelamente, criou-se uma ordem
discursiva própria, um corpo de conceitos. Aos critérios tipológicos dos anti-
quários foi acrescentado um novo: a distinção entre bens móveis e imóveis, em
função de exigências distintas de conservação. Para os primeiros foram criados
museus, para os segundos se apresentava o problema complexo de sua reuti-
lização.
Chastel e Babé!on observam:
Osentido do patrimônio, ou seja, dos bens fundamentais, inalienáveis, se estende
pela primeira vez na França às obras de arte, ora em função dos valores tradicionais
que se vinculama esses bens e que os explicam, ora em nome desse sentimento novo
de um elo comum, de uma riqueza moral de toda a nação. Provavelmente essa dupla
raiz nunca deixou de existir. (1bid.)

A noção de patrimônio se inseriu, portanto, no projeto mais amplo de cons-


trução de uma identidade nacional, e passou a servir ao processo de consolidação
d<i,; Estados-nações modernos. Nesse sentido, vinha cumprir inúmeras funções
simbólicas:
1. reforçar a noção de cidadania, na medida em que são identificados, no espa-
ço público, bens que não são de exclusiva posse privada, mas propriedade de
todos os cidadãos, a serem utilizados em nome do interesse público. Nesse caso,
o Estado atua como guardião e gestor desses bens;
2. ao partir da identificação, nos limites do Estado nacional, de bens represen-
tativos da nação - demarcando-a assim no tempo e no espaço - a noção de patri-
mônio contribui para objetivar, tornar visível e real, essa entidade ideal que é a
nação, simbolizada também por obras criadas expressamente com essa finalidade
(bandeiras, hinos, calendário, alegorias e mesmo obras de artistas plásticos. co-
mo IJavid).13 A necessidade de proteger esse patrimônio comum reforça a coesão
nacional;
3. os bens pa trimoniais, caracterizados desde o início por sua heterog enei-
dade,14 funcionam como documentos, como provas materiais das versões oficiais
da história nacional,15 que constrói o mito de origem da nação e uma versão da
ocupação do território, visando a legitimar o poder atual;

A CONílRU(ÀO 00 PATR! ~ÔNIO: PER SPHT!VA NISTÔRICA uu


4. a conservação desses bens - onerosa, complexa e freqüentemente contrária
a outros interesses, públicos e privados - é justificada por seu alcance peda-
gógico, a serviço da instrução dos cidadãos.
Durante o período revolucionário, o wilor nacional dos bens se sobrepunha a
todos os outros valores, sendo seguido pelo seu valor de conhecimento histórico,
pelo seu valor econômico e finalmente pelo seu valor artístico.
A preservação como atividade sistemática só se tornou possível, portanto,
porque ao interesse cultural se acrescentaram um interesse politico e uma justifi-
cativa idAológica. Aparentemente essa foi uma fórmula bem sucedida, e que será
repetida em outros momentos revolucionários (como na Rússia, em 1917, e tam-
bém, mais recentemente, em Cuba, após a revolução liderada por Fidel Castro)
como meio de conciliar os interesses da cultura - a preservação de bens por seu
valor histórico e artístie,o - -com os interesses políticos voltados para urna mudança
social.
Entretanto, como a história desde então tem demonstrado, a administração dos
conflitos entre interesses imediatos e os interesses específicos da preservação
não é fácil: prova disso são, ainda no século XVIII, as denúncias de Quatrême
1i
de Quincy em suas Lettres à Miranda (1989), que condenavam a pilhagem feita
i'
·•i
pelas tropas napoleónicas na Itália em nome de um interesse pedagógico - à for-
mação dos artistas franceses; no século XIX, a polêmica entre John Ruskin e Viollet-
le-Duc quanto à forma e ao sentido da preservação dos monumentos; e, no século
XX, a discussão em torno da transformação do patrimônio em objeto de consumo
cultural.
+ A institucionalização definitiva da atividade de preservação pelo Estado, na
França, só veio a ocorrer efetivamente a partir de 1830, quando o historiador Gui-
zo! propôs a criação do cargo de Inspetor dos Monumentos Históricos. O escritor
Prosper Mérimée, ao assumir o posto em 1832, percorreu toda a França, reali-
zando um notável trabalho de inventário não só de bens, como de atitudes da po·
pulação em relação ao patrimônio. E percebeu que: apesar dos bons propósitos
dos convencionais revolucionários, apenas uns poucos intelectuais se sensibili·
zavam com o valor cultural dos monumentos. A população, ou lhes era indiferente,
ou se apegava a alguns bens por outros motivos, por exemplo, seu valor religioso,
enquanto local de culto ou de peregrinação. Essa situação era particularmente
grave nas províncias, devido à alividar:l~ centralizadora do Estado. A estrutura ins·
titucional montada nesse período vai perdurar até meados do século XX, tendo

LJ_QJ O PATWIÓNIO flli PROCEHO


como princípio a idéia mestra de Mérimée, de "descobrir o pais através de sua
paisagem histórica" (Chastel e Babelon, 1980, p. 21 ).
Os conceitos estabelecidos pela Revolução Francesa continuaram vigentes no
século XIX, mas adquiriram novas significações em função de novos fatores: a
Revolução Industrial, que gerou uma ruptura no modo de produzir e de viver arte·
sanai, e o romantismo, que, inclusive em decorrência dessa ruptura, privilegiava
os valores da sensibilidade e o lugar do sujeito na percepção do mundo.
No período româ ntico, o distanciamento em relação às obras do passado, que
se manifestou pela primeira vez no Renascimento, assumiu, devido à Revolução
Industrial, uma segunda mediação, mais drástica: o passado longíílquo não era
mais recuperado enquanto cânone, fonte de conhecimento e de modelos, como no
Renascimento; era um passado irremediavelmente perdido, e só através da mernó·
ria afetiva, da sensibilidade estética, era passivei, de algum modo, revivê-lo. Pode-
se dizer que o sentimento predominante não era mais o de reverência, e sim o
de nostalgia. Considerava-se que os monumentos legados por esse passado esta·
vam fadados à deterioração, ao desaparecimento e à morte. Esse era o ciclo irre- '
mediável da natureza e também das coisas e dos homens. As ruínas, assim como
outros sinais do tempo (as pátinas, o musgo, a veg etação selvagem que toma
conta das edificações abandonadas), seriam um documento dessa realidade,
prova de sua autenticidade. daí sua importância no imaginário romântico.
Por outro lado, o interesse dos historiadores pelas antiguidades entrou em ex·
tinção. Ocupados com a história política e das instituições, visando a construir
a história nacional, os historiadores se voltaram para os textos, para os doeu·
mentos escritos. As obras anUgas passaram a ser objeto de uma apreciação emi-
nentemente estética, embora não desprovida de interesse cognitívo. A viagem con·
tinuava a ser o meio privilegiado para o acesso a esses bens, mas agora tratava-
se de "viagens pitorescas" e não propriamente científicas.16 Nesse momento, as no-
ções de histúria e de arte ficaram mais distantes uma da outra, assim como ficou
mais evidente a diferença entre valores do conhecimento e valores da sensibili-
dade. Consolidou-se a noção de monumento histórico e a relação entre os valores
que lhe são atribuídos foi redimensionada em deccrrência das novas circunstâncias.
O monumento histórico foi integrado ao culto à arte que se desenvolveu no
período romântico, sem perder, no en tanto, sua conotação de testemunho do tempo
passado. Enquanto documento histórico, passou a ser primordialmente vinculado
e utilizado pelo Estado - com o reforço dos historiadores, que, então, se voltavam
para a história polítíca - na afirmação da nacionalidade.

ACON í l RU (ÃO 00 PATRIM ÔNIO : PERSP fCfl VA fülÓ RIC A OI]


Lúcia Lippi de Oliveira obsel\'a que, no séc1Jlo XIX, "a ligação do nacionalismo
com o romantismo fez a nação ser concebida como uma entidade emotiva, símbolo
da singularidade, à qual todos os homens deveriam se integrar" (1986, p. 44). O ~

i
nacionalismo cultural devia sobretudo a Herder sua fundamentação. Foram predo-
minantemente os artistas, poetas e pensadvres que, nos paises germãnicos e
também na Inglaterra, exploraram essa imagem emotiva da nação. O sentimento
nacional se desenvo!veu com ênfase nos aspectos culturais típicos, difer<1ncia-
dores de cada nação. Já na França. predominava o nacionalismo político, desen-
volvido em torno da idéia de civilização, sobretudo por historiadores e homens
de letras.
No século XIX se consolidaram dois modelos de política de preservação: o
modelo anglo-saxõnico, com o apoio de associações civis, voltado para o culto
ao passado e para a valo(ação ético-estética dos monumentos, e o modelo fran-
cês, estatal e centralizador, que se desenvolveu em tomo da noção de patrimônio,
de forma planificada e regulamentada, visando ao atendime~to de interesses polí-
ticos do Estado. Esse último modelo predominou entre os países europeus, e foi
exportado, na primeira metade do século XX, para países da América Latina, como
o Brasil e a Argentina, e, após a Segunda Guerra Mundial, para as ex-colônias
francesas.
A conservação dos monumentos, na França, assumiu um caráter eminente-
mente museológico: irremediavelmente ligados ao passado, esses bens não teriam
mais lugar no fluxo da vida presente. O ideal de modernização e de progresso
difundido pela ideologia estatal conferia à preservação um compromisso com o 1
saber, um sentido de atividade racionalmente dirigida para interesses presentes.
O projeto urbanístico de Haussmann ilustra bem essa situação. Já nos países anglo-
saxões predominou, entre os principais agentes da preservação, o culto ao passa-
do e a valorização de seus vestígios enquanto reliquias, em decorrência do senti-
do mais agudo da ruptura que. na Inglaterra, decorria do confronto com a dura rea-
lidade da Revolução Industrial. Para os ingleses, o P(esente era representado pela
civilização que começava a se desenvolver na América do Norte e que, na obser-
vação crítica de Ruskin, era "um mundo sem uma lembrança nem uma ruina"
(apud Choay. 1992, p. 107).
Duas teorias distir1tas e conflitantes sobre a consel\'ação de monumentos his-
tóricos foram elaboradas, no século XIX, respectivamente, na França e na Ingla-
terra: a de John Ruskin e a de Viollet-le-Duc.

[~] O PAIRIIIÔMIO fll PiOCf ll O


Eivada de um matiz puritano, a teoria do critico de arte inglês John Ruskin
via na arquitetura um meio de conservar o passado, não só em suas produções
materiais e modos de vida, corno também em suas virtudes morais ("a maior glória
de uma edifir.ação não está em suas pedras, ou no ouro que possa conter. Sua
glória está em sua idade." [1956, p. 190]). Ético, mais que estético, o valor do mo-
numento histórico para Ruskin é o valor de piedade. Tudo que é manifestação do
esforço humano deve ser objeto de reverência, dai seu intuito de preservar não
apenas os monumentos excepcionais, como também o mundo doméstico e o do
trabalho. Na Inglaterra, pode-se dizer que o valor de nacionalidade foi eclipsado
pelo valor de humanidade, e, nesse sentido, a preservação também foi pensada
em escala mais ampla: já em 185<1, Ruskin propunha a criação de uma organiza-
ção européia de proteção dos monumentos históricos.17 Para Ruskin (1956, p. 201),
os vestígios do passado tinham valor de relíquias; valiam, portanto, em si mesmos,
enquanto objetos "sagrados", insubstituíveis, e, nesse sentido, eram intocáveis:
"Não temos direito algum de tocá-los. Eles não são nossos. Eles pertencem em
parte aos que os construíram, e em parte a todas as gerações da humanidade que
virão depois de nós" -, foram-nos legados por nossos antepassados e, do mesmo
modo, são um patrimônio também das gerações futuras. Logo, qualquer restau-
ração seria uma violação e uma impostura, pois faria o monumento parecer dife-
rente do que na realidade é, ou seja, uma criação humana sujeita ao fluxo do tem-
po ("tão impossível quanto ressuscitar um morto é restaurar o que quer que tenha
sido grandioso ou belo em arquitetura." (Ruskin, 1956, p. 199]). A arquitetura, nos
textos de Ruskin, ê associada à vida da natureza e dos homens.
Já Viollet-le-Duc, engenheiro de formação e mais voltado para uma concepção
formal da arquitetura , partia da noção de monumento ideal, que não é necessa-
riamente a do projeto original, mas a mais adequada para cada caso, a ser
buscada pelo restaurador em função de critérios técnicos, estilísticos e prag-
máticos. Segundo suas próprias palavras, "restaurar um edifício é restabelecê-lo
num estado completo que talvez nunca tenha existido" (apud Choay, 1992, p. 120).
A restauração torna-se assim uma recriação legitimada, ou "restaura ção inter-
pretativa", como o próprio Viollet-le-Duc a qualificava, e, sob sua orientação, se
voltou pi:l1a os monumentos góticos. Ele considerava que a verdadeira arquitetura
nacional fra ncesa era a do século XIII. Seus trabalhos foram mais tarde duramente
criticados, sobretudo a partir dos conceitos expressos na Carta de Veneza, e só
muito recentemente têm sido objeto de reavaliação.

ACO NS!RU( ÂO DO PATRI.I\Ó M\O : PfRS PECT IVA HIS TÓRIC A.. , ...- - - • Lill
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No final do século XIX, com Camillo Boito,18 a teoria de Viollet-le-Duc foi con-
testada no campo específico da restauração. Boito considerava que "o caráter
acrescentado, adventício. ortopédico do trabalho refeito deve ser ostensivamente
marcado, e não deve, de maneira alguma. passar por original" (Choay, 1992, p.
127). Desse modo, Boito resolveu, pelo menos de um ponto de vista contempo-
râneo. a contradição entre restaurar e conservar.
Para Françoise Choay, a doutrina de Viollet-le-Duc visava a restituir ao monu-
mento o seu valor de documento íntegro, objeto de conhecimento, em detrimento
de seu valor enquanto monumento. sujeito às marcas do tempo. Diz, a propósito,
essa autora: "reconstituindo" um tipo, ele (o restaurador) fornece um instrumento
didático, que restitui ao objeto restaurado um valor histórico, mas não sua histo-
ricidade" (ibid., p. 121-122). Essa intervenção rompia com a corrente do tempo.
Os monumentos-documentos eram selecionados entre as obras notáveis e trata-
dos como modelos que era preciso ressaltar, daí a teoria da mise-en-va/eur: para
valorizar o essencial - o monumento excepcional - tudo que fosse perturbador ou
<
acessório à sua percepção (entendida aqui como visibilidade) devia ser eliminado.
O tecido urbano era rompido em nome da funcionalidade, da higiene e da segu-
rança pelos urbanistas. e em nome de uma estética pelos arquitetos. Esses últi-
mos, ao buscarem uma suposta autenticidade estética, atingiam em cheio a auten-
ticidade histórica.
.-A dissociação entre valores do conhecimento e valores da sensibilidade foi
percebida e explicitada por Alais Riegl, no inicio do século XX. Riegl procurou ana-
lisar a questão dos monumentos históricos não do ponto de vista du Estado, ou
enquanto representações da nacionalidade, mas a partir das diferentes percepções
que o contato com os monumentos suscita nos indivíduos. A análise de sua teoria
dos valores atribuídos aos monumentos históricos, que é apresentada no pequeno
mas denso livro O culto moderno dos monumentos, publicado na Áustria, em 1903,
fornece indicações ricas e surpreendentemente atuais para se refl~tir sobre a ques-
tão da preservação em suas múltiplqs versões, sobretudo se se tem em vista não
a produção do patrimônio - até hoje sob o controle homogeneizador do Estado -
mas a complexa e diversificada recepção dos bens culturais pelos diferentes es-
tratos sociais.
Esse ângulo do problema se apresenta, atualmente, inclusive. sem escapa-
tória, aos agentes da pr1::servação, à medida que a legitimação da proteção de
bens culturais pelo Estado via nacionalismo vem declinando. junto com essa ideo-

l]I] D PAI Rl~G~IO E.li PAOC I IID


logia, nas últimas décadas. A criação, após a Segunda Guerra Mundial, de orga-
nismos internacionais específicamente voltados para a cultura e a incorporação,
pela ONU, da figura de direitos culturais, e, pela Unesco, da figura de Patrimônio
Cultural da Humanidade junta, nas mesmas expressóes, as noções difusas de

1 humanidade e de uma cultura universal, e a noção cada vez mais precisa de uma
cidadania fundada em direitos diversificados. para legitimar a atividade de pre-
servação.

2.3 A IEORIA oos VALORES DE AL0i1 Rim

- --
Pafêl Riegl (1984, p. 38}, todo monumento tem, necessariamente, uma dimensão
-- --.. - --·· ... - ·- ----·· ---- . . -·
hi~1ó.dca-e _uma dim.~nsão
· -,
.
estética, pois e_le parte
. ... -· ·· . . ~··
do pressuposto de .que
-·-- · ·· . " .
todo mo-
numento da arte é, simultaneamente, um monumento histórico, na medida em qúé
re'p(~·;enta um e~tágio determinado n~ ~volução das artes plásticas. de que não
é possível, stricto sensu, encontrar um equivalente. Por outro lado, todo monu-
mento histórico é também um monumento artístico, pois mesmo um manuscrito tão
mínimo como uma folha rasgada trazendo uma nota breve e sem importância, com-
pória, além do seu valor histórico, que concerne à evolução da fabricação do pa-
pel. da escritura, dos meios materiais utilizados para escrever etc., toda uma série
de elementos estéticos: a configuração do folheto, a forma dos caracteres e a
maneira de arrumá-los. 19
( A ngção da valor _hi~té>QÇQ.é, porém, Jl]ais extensa, na medida em que "chama-
) mo~;-hisióri~~~-1.~d.o _que foi, e hoje não é mais" (Riegl, 1984, p. 37). Nesse sen-
~tido, tudo que ficou do passado como testemunho pode pretender um valor histó-
]rico. O monumento artístico deve ser compreendido como um monumento da his-
'
ltória da arte, e seu valor, con siderado desse ponto de vista, é menos artístico que
I'
histórico. j:Qr- ~~S! .~ ativo, Riegl considera que, a rigor, não cabe mais falar em
l~_onu:nent9s__históricos e arlíst.icos, mas apenas em monumentos históricos.
No Renascimento. as noções de histórico e de artístico estava m imbricadas
e se fundamentavam em um modo de conhecer e de avaliar a Antiguidade. Pela
primeira vez se estabslec:iu um ser.tido de relação entre temporalidades distantes, '
adquirindo o passado um valor de contemporaneidade. Entretanto, diz Riegl. "esse
ponto de vista permanece normativo. diretivo (logo antigo-medieval), mas não his-
1
tórico no sentido moderno, pois não reconhece ainda nenhuma evolução" (idem,
p. 53). 20 O homem do Renascimento identificava nos grandes vultos da Antigui-
dade clássica os seus legítimos ascendentes.

ACOHHiU( 60 DO PAIRIII ÓNIO: PEi l PICI IVAHISIÓRl(A


illJ
O mesmo sentido normativo era conferido, no Renascimento, ao valor artistico,
que, nesse perlodo, era predominante. A noção da arte, no Renascimento, se ba-
seava no principio de que existiria um cânone artístico ideal, objetivo e universal-
mente válido, identificado nas produções da Antiguidade. Essa idéia, que vai ci cli-
camente retornar na história dos '3stilos artísticos, só vai ser definitivarnento supe-
rada, segundo Riegl, no início do século XX.
- Na concepção moderna de história, a idéia de desenvolvimPnlo, de evolução,
à superação da nocâo de cânone e à afirmação do valor específico de cada
Jp11::i
1
período, em função do ponto de vista contemporâneo a cada momento histôrico.2
O lugar, o tempo e o sujeito da avaliação sao, assim, relativizados. Esse fenô-
meno vai culminar, no século XX, com a emergência da consciência historio-
gráfica. Novos campos do saber, como a antropologia, já nascem sob o signo do
relativismo.
As implicações desse rela!ivismo, ou seja, da percepção de que a atribuição
de valor varia conforme o ponto de vista que se adote. vão se refleti r de forma
decisiva nas políticas de preservação, impasse que Riegl conseguiu antever em
1903. Há uma progressiva ampliação do que é considerado de valor histórico,22
até que se chegue ao interesse atual por "todas as realizações, por menores que
sejam, de todos os povos, quaisquer que sejam as diferenças que as separem de
nós; um interesse pela história da humanidade em geral, aparecendo cada um de
seus membros como parte integrante de nós mesmos" (ibid., p. 51 ).
A reflexão de Riegl é surpreendentemente inovadora por chamar a atenção
para a importância de se levar em conta, na formulação e, sobretudo, na prática
de uma política de preservação, aqueles valores não explicitados, do nível da
percepção mais imediata, intuitiva, menos culta, que são atribuídos aos bens
culturais: o valor de ancianidade e o valor de novidade.
O valor de ar1cianidade deriva do valor histórico mas se distingue dele: "Por
oposição ao valor de anciar1idade, que aprecia o passado em si, o valor histórico
tendia a isolar um momento do desenvolvimento histórico e a no-lo apresentar de
um modo tão preciso que ele parece pertencer ao preser1te" (ibid., p. 85).
Riegl se dá conta de que, para nós, modernos, o interesse susci tado por
determinadas obras advém menos de seu poder de rememoração de fa tos ou
personagens notáveis, e mais por ir1dicarem, sobretudo através de seu estado
material, o caráter de ar11igas, evocadoras de um tempo passado. Nesse sentido,
constituiriam monumentos, pois têm valor de rememoração, mas não monumentos

O WRJ/li ÓNIO E/li PROUIIO


G[J
históricos no sentido tradiciona l. :,ois remetem simplesmente "à represer1laçiío do
tempo transcorrido desde sua criação, que se trai a nossos olhos pelas marcas
de sua idade" (ibid., p. 45). Em suma , referem-se ao tempo, ao ciclo de criação
e morte, como experiência intuitiva porém difusa, comum a todos os homens. Essa
percepção dos monumentos, que já se manifestava na obra de Ruskin, seria,
segundo Riegl, um desdobramento da perspectiva histórica. Diz Riegl: "O valor
hlslórlco, Indissociavelmente ligado ao fato individual, devia se transformar progres-
slvamonle om valor de desenvol\1mento" (ibid., p. 56). Embora calcado na sensibi-
lldedo rornênllca, o valor de ancianidade só vai se difundir no século XX. Riegl
considera quo, em relaçllo ao culto dos monumentos, "se o séa.llo XIX foi o do valor
histórico, o XX parece ser o do valor de ancianidade." pois "é sobret udo a clara
percepção, om toda sua pureza. do ciclo necessário da criação e da destruição,
que agrada ao homem do século XX" (ibid., p. 56).
Essa profecia foi plenamente concrotlzada tanto na evolução das ciências
históricas, com a critica l'l historia factu('II, o surgimento da história das mentali-

'1 dades e do concei to de longa duraçao, a ampliação da noçao de documento e o


desenvolvimento da historlogrnl1a. quanto nas políticas de preservação, com a
ampliação do conceito do patrimônio.
A difusão do valor de anc:ianid,1de te ve também conseqüências importantes no
trato dos monumentos rel.itiv.irncnte à sua feição material, ou seja, sobre as ativi-
dades diretamente voltadas para sua conservação e restauração. Se, para o valor
histórico, o monumento importa e~Guanto documen to de referências externas a ele,
sendo fu ndamental para sua leibra que seja mantido íntegro - o que justifica a
restauração e mesmo even tuais 0e:riações -, para o valor de ancianidade, qual-
quer intervenção estranha ao des;2ste natural é inaceitável. Essa concepção, que
insprrou a Carta de Veneza, ela:'.l'ada em 1964, se contrapõe aos princípios da
Carta de Atenas, de 1933, fruto ~2s ideias fun cionalistas dos Ciam (Congressos
Internacionais de Arquitetura Mc :s-na)
Se o conflito entre valor hist: •:o e valor de c1nciilnidade foi agudo no século
XIX - o que ficou patente na pc~-:ca entre Viollcl-le-Duc e Ruskin -, Riegl acre-
ditava (e antevia) que, no sécu!: XX, essa tcns,io seria atenuada por uma resu l-
tan te da evolução tecnológica: o ~= .
ento das técnicas audiovisuais de reprodução,
especialmente da fotografia. Nurr~ antecipação do potencial dessas técnicas, que
Vialter Benjélmin, décadas mais :;;·:Je, explorou em outro sentido, Riegl percebeu
que, ao possibilitarem alcançar i.; ~ - equivalente quase perfeito dos documentos ori-

t CONl!RU (60 00 PAIRl!liÓNI O: P[ R\PHI IV! - I \ÓRIO 67


ginais, viabilizando assim o atendimento do interesse do historiador. essas téc·
nicas permitem um tratamento dos monumentos conforme as exigências do valor ~~
de ancianidade. i
-r Entretanto, na segunda metade do século XX, um novo imperativo passou a
se apresentar para as políticas de patrimônio, com repercussões sobre os critérios
de conservação e de restauração: a adequação a um consumo cultural de massa.
Essa ampliação do consumo de bens culturais tornou mais evidentes as expec-
tativas estéticas, por parte desse público, quanto 30 que Riegl denominou "valor
de novidade", que ele considerava o valor por excelência das massas, pois "aos
olhos da multidão, apenas o que é novo e intacto é belo~ (ibid., p. 1 ). Propostas
como a de Viollet-le-Duc seriam expressões do apelo ao valor de novidade como
apoio ao valor histórico do bem. Do mesmo modo, o interesse de párocos em res-
1
taurar ou reformar suas paróquias, assim como o de prefeitos em modernizar as
cidades antigas, evidencia uma conjugação do valor de novidade com o valor de
uso. Na mesma linha, a pFeocupação, hoje, dos agentes culturais com a mediação -
animação cultural, recursos audiovisuais etc. - se insere no objetivo de adequar
a apresentação dos monumentos ao acesso de um maior número de receptores.
' Por outro lado, não é apenas a mercantilização da vida cultural nem a difusão
de valores da modernização que vai influir, neste século, nas políticas de preser-
vação. O surgimento de novos Estados-nações, sobretudo a partir da Segunda
Guerra Mundial, no Terceiro Mundo. e, posteriormente, a luta de grupos étnicos
discriminados nos Estados nacionais por seus direitos como cidadãos, levaram
a mudanças na composição dos patrimônios históricos e artísticos nacionais. i
O connito entre valor histórico e valor de ancianidade se dá basicamente em
um meio restrito - o das camadas cultas, e, sobretudo, entre agentes diretamente
ligados às práticas preservacionístas: arquitetos. historiadores. restauradores. mu-
seólogos etc., em função do trato do bem em sua feição material. Já o conflito
entre o valor de ancianidade - que implica uma quase intocabilidade do bem e
a sacralização de tudo que é antigo ..:~e o valor de novidade, envolve setores mais
amplos da sociedade e termina por atingir de modo mais extenso outras esferas
das políticas públicas e a própria noção de desenvolvimento.
Em seu texto, Riegl considera também a questão do valor de uso dos monu-
mentos segundo :i perspectiva da preservação. São poucos os monumentos que
estariam totalmente fora de uso atualmente, entendendo-se também como uso a

O P~ IRII\ON IO Ili PiOCEIIO


[]]]
exploração turística. A utilização dos monumentos não é só um imperativo eco-
nômico, como também é essencial à sua percepção, mesmo quando prevalece o
valor de ancianidade. Riegl considera que "uma parte essencial desse jogo animé:1-
do das forças da natureza. ruja percepção dete1mina o valor de ancianidade, seria
irremediavelmente perdida se os homens cessassem de utilizar o monumento" (ibid.,
p. 91 ). Apenas ruínas ou sítios arqueológicos se prestam à apreciação unicamente
por seu valor de ancianidade. Por esse motivo Riegl considerava, em 1903, que
os conflitos entre esses valores seriam facilmente contornados.
Entretanto, considero que Riegl não viu - ou ainda não podia ver - os proble-
mas que a mercantilização dos bens culturais acrescentaria a esse quadro. A con-
versão de obras de arte em mercadori?s, o desenvolvimento do mercado de anti- '
guidades e a valorização do solo, edificado e aedificandi, sobretudo nas grandes
cidades, tomaram evidente a importância, hoje, de se considerar o valor de troca
na dinâmica dos valores atribuídos aos ·bens culturais.
Além disso, se considerarmos as exigências atuais do turismo de massa
(questão que, obviamente, não se apresentava para Riegl), veremos que os con-
flitos entre valor de uso (para exploração econômica). valor de novidade {para
atender a uma sensibilidade menos culta na apreciação dos monumentos) e valor
de ancianidade se tomaram mais agudos. O próprio uso turístico, assim como a
poluição, COilStituem hoje fatores destrutivos não naturais, portanto, não decor-
rente:-; da ação normal do tempo, e, nesse sentido. contrariam também os impe-
rativos do valor de ancianidade.23
Por outro lado, hoje é ainda mais atual que no início do século a preocupação
de Riegl com a mobilização social como fator necessário para a preservação.
Essa mobilização, para Riegl, não passa pela persuasão ideológica - e não é por
acaso que ele não aborda â questão do valor nacional, nem utiliza, em momento
algum, o termo patrimônio - mas sim pela via do saber. Diz ele: "Será necessário ga·
nhar para a causa do valor histórico camadas sociais bem mais extensas, antes
que a grande massa esteja madura para o culto do vale, de ancianidade" (ibid., p. 99).
Uma postura humanista, inspirada nos ideais iluministas, é também a de Giulio
Cario Argan, que reflete sobre a finalidade social da preservação dos monumentos
de um ponto de vista psicopedagógico:
A presença de obras de arte é sempre caracterizadora de um contexto cuja
historicidade manifesta. Uma vez que é o contexto que determina as idéias de espaço
e tempo, estabelecendo u..:a relação positiva entre indivíduo e ambiente. descaraderizar

à CONIIW(ÀO 00 Pà!R l~ÔNIO : mlPEC II VA HIIIÓI ICA uD


o ambiente destituindo-o de õ•Jas presenças artísticas tradicionais é uma mane ·a de
favorecer as neuroses coletivas, que se exprimem, mais tarde, em atos de rejei0 o à
C:vílização histórica, que vão desde o pequeno vandalismo e o banditismo organizado
até os fenômenos macroscópicos de violência e de terrorismo - e lodos sabem que ,
este é o preço a ser pago pelo não desejado triunfo da sociedade de consumo. (em t
Unesco, 1970, p. 87) ·C

Esse tipo de reflexão, assim como a de Riegl, prescinde do nacionalismo para


legitimar i:l preservação dos bens culturais. Retomando a dimensão formadora dos
valores culturais no contexto de uma cultura humanística, Riegl e Argan de algum
modo se identificam com a noção ruskiniana de humanidade, e de urna demanda
i
social fundada em valores éticos e estéticos para justificar a preservação de bens
culturais. Também transcendendo a idéia de nadonalidade, mas numa perspectiva
política, essa demanda tem sido traduzida, nas últimas décadas, na noção de di-
reitos culturais.

2. 4 A ,1./1,PUAao DA NO(ÃO DE PATRIMÓNIO


E A LEGlllil\ACÃO VIA OIREl!OI CUUURAIS

No século XX, ficou evidente o avanço do valor de ancianidade, que Riegl já


,... preconizara em 1903, e que se manifesta pela ampliação da noção de patrimônio.
,..______,Começam a ser introduzidas nos patrimônios as produções dos esquecidos pela
história factual, mas que passaram a ser o objeto principal de interesse da história
das mentalidades: os operários, os camponeses, os imigrantes, as minorias étni-
cas etc. Aos bens referentes a esses grupos se acrescentam os produtos da era
/

industrial e os remanescentes do mundo rural. A partir de 1945 .. os nacionalismos


que emergem nas ex-colônias, sobretudo as francesas, nos continentes afriCêno
e asiático, começam também a se apropriar da noção européia de pa t(môn o.
Se é difícil compatibilizar a valoração desses flpos de bens com as exigências
tradicionais do patrimônio, em te1mos de valor histórico e de valor artis: rn. fc:am
a etnografia e a antropologia que, inicialmente, legitimaram sua inclt.:s 2:i nesse
universo semântico, reforçando disciplinarmente seu valor cultural. :: - :reta~ to.
essa ampliação da noção de patrimônio. que leva à superposição das r : ções de
bem patrimonial e bem cultural, e que tem, como já foi observado uma =~ ~or•arite
conotação política, é objeto de critica contundente por parte de alguns : eó1c ; os
do patrimônio, como Chastel e Babelon. Para esses autores, o '$J:lntidc do µateis_.
mõnio" é indissociável da idéia de culto, de sagrado, que só os grandes monu-
mentos podem provocar. A conversão de objetos comuns em bens p '.,1mc:- ais

cm O PAIW\Ô~lê ,.~ PR: '.: 11 0


só serviri a para atender aos interesses mercantis dos antiquários, na medida em
que transforma esses objetos em antiguidades. Para Chastel e Babelon (1980, p. 27),
o valor etnográfico não é compatível com a noção de patrimônio:

Oobjeto visual despojado assume umvalor de signo comovente, indicador de uma


existência laboriosa, revelador humano; a fazenda, a oficina e a loja de antigamente
tornam-se agora o que haviam sido, para as gerações anteriores a igreja, o sítlo arqueo·
lógico, o castelo. Todo o equipamento antigo das residências passa assim, para a feli-
cidade dos antiquários, para o setor da curiosidade. Em que medida. no entanto, esse
---·'." equipamento entra no p<1lrimônío? Pela tipicidade, que se opõe à unicidade da obra de
i arte, respondem os especialistas. Definição que demanda uma nova abordagem, ainda
i não suficientemente definida. O objeto e o meio formam um conjunto ligado do ponto
de vista etnológico. Retirados do uso e da função, eles se dissociam. Reconhecer e
preservar não têm mais o mesmo sentido nem as mesmas conseqüências de antes.

Partidários confessas da sacralização do patrimônio, Chastel e Babelon são


profundamente céticos em relação aos novos patrimônios, e ta mbém quanto à
extensão dessa noção aos países do Terceiro Mundo de tradição cultural distinta
da cristã-ocidental. Valores como !)10numenlalidade, singularidade e excepciona-
i ~idade são considerados por eles como fundamentais para despertar o sentido do
1 patrimônio. Mas, ao criticarem a aplicação de critérios etnográficos24 para a sele-
i ção de bens patrimoniais, e ao defenderem o sentido do sagrado como ·o único
; possível em uma época de agnosticismo", esses autores deixam de levar em con-
' ta a inevitável dimensão política da questã o, reforçando, por outro lado, sua di-
mensão ideológica .
( .,. A critica de Chastel e Babelon está fundada em certos princípios da práti ca
\ de preservação superados pelas transformações sociais recentes. Em primeiro
\. lugar, a idéia de que preservação é sinônimo de guarda de bens excepcionais,
para serem objetos de contemplação e fon te de conhecimento, é, hoje, considerada
uma postura museológica anacrônica, elitista, tanto de um ponto de vista puramen-
te mercadológico quanto de um ponto de vista politico. A idéia de democratiza ção
do patrimônio implica, qualquer que seja a perspectiva, o fato de que o Estado
não deve ser o único ator social a se envolver na preservação do patrimônio cul·
tural de uma sociedade. Do mesmo modo, a ideologia do nacionalismo que, du-
rante dois séculos, sustentou as políticas estatais de patrimônio, vem sendo subs-
tituída pela noção de direitos culturais como nova forma de legitimar essas políticas.
Os direitos humanos funcionam atualmente, em vários países de democracia
não-con solidada, caso do Brasil, como vetores de uma luta política pela democra-

A COHHRU(ÀO 00 PW l!\ÕHIO: PER S?ICII VA HISi ÓR ICA IJIJ


tização que se desenvolve à margem e acima dos Estados nacionais. Essa luta
se expressa não apenas pela ação da socledade sobre os organismos estatais,
por uma descentralização administrativa e pela consolidação de mecanismos de
representação política, como também pela organização de associações civis inde-
pendentes, voltadas para questões especificas (meio ambiente, liberdades civis
etc.) (cf. Campilongo, 1988).
A noção de cidadania envolve, atualmente, uma gama diversificada de direitos:
direitos políticos (de primeira geração, fundados no valor da liberdade); direitos
econômico~. sociais e culturais (de segunda geração. fundados no valor da igual-
dade); e direitos de solidariedade (de terceira geração, fundados no valor da frater-
nidade).
À diversificação dos direitos humanos corresponde uma crescente particulari-
zação dos sujeitos a que se referem esses direitos. O homem, ou o cidadão, en-
quanto identidade política, não é mais especificado apenas por sua nacionalidade
ou classe social. Define-se também a partir de categorias como sexo, etnia, reli:
gião, cultura etc. De um certo ponto de vista, os componentes do meio ambiente
(fauna, flora, biosfera etc.) assumem também o status de sujeitos, na medida em
que passam a ser objeto de proteção especifica. Esse fato confirma a evidência
de que os direitos humanos são históricos e demonstra que sua formulação acom-
panha as transformações sociais.
Diz Norberto Bobbio (1992, p. 25) que o problema atual dos direitos humanos
não é o de seu fundamento e sim o de suas garantias. No caso dos direitos eco-
nômicos, sociais e culturais, esse aspecto é mais complexo, pois não basta seu
reconhecimento jurídico nem o estabelecimento de um regime democrático, que
respeite as liberdades individuais: é preciso que a estrutura da sociedade possi-
bilite a todos os cidadãos o acesso a esses direitos. Portanto, a real conquista
desses direitos depende de um empenho do Estado e de uma mobilização dô opi-
nião pública - o que, na maior parte dos países, sobretudo os menos desen-
volvidos, está longe de ser alcançado.
Por outro lado, é inegável que a menção a esses direitos em diferentes discur-
sos - declarações internacionais, constituições nacionais, leis. imprensa etc. - con-
tribui para lhes conferir visibilidade e para convertê-los em objeto de interesse político.
··" " A expressão direitos cu/tu[ais surgiu pela primeira vez na Constituição soviéti-
ca de 1918, mas só foi reconhecida, em nivel internacional, na Declaração Univer-

O PAlRIMÓNIO UI. PRO([I SO


wJ
sal dos Direitos do Homem, da ONU, em 1948 (art. 22). A formulação dessa de-
manda como direito só se tornou possível depois que a instrução e a educação
(esta entendida como Bildung, como formação) passaram a ser consideradas bens
ecessários a todos e não apenas interesse de alguns.25
,;-Na ve-rê:iacte, toram certas condições específicas cto segundo pós-guerra que
evaram à formulação _dos direitos rulturais enquanto direitos humano?. Por exemplo,
~
·-...._ 1. à ·extinção do colonialismo e o surgimento de Estados indepen(ipntes em
áreas de colonização européia, que precisavam reconstrn1, Jma cultura própria;
2. o aumento do consumo de bens culturais, em decorrência do maior
acesso à educação formal e do desenvolvimento dos meios de reprodução técnica:
.,,,... -
..---, ..

/ 3. a antropologização do conceito de cultura, que passou a abranger a


atividade humana em geral, e as manifestações de qualquer grupo humano, o que
. levou à consciência da necessidade de defende r as culturas primitivas, ou de
1\, minorias, ameaçadas por culturas mais poderosas.

\ ~f~i;;~ po~é~~- é que, até hoje, poucos têm conseguido traduzir a expressão
\_ ~ !!!!!.~~~ em termos de demandas definidas. A percepção da cultura - e
seria o caso de perguntar, que cultura? - como bem indispensável a todos os
homens não se exprime, nas sociedades modernas, estratificadas e com campos
autônomos, com a mesma contundência que a luta pelos meios materiais de
sobrevivência. Por esse motivo, talvez, as tentativa s de formulações no sentido
de explicitar esses direitos provocam o efeito de utopias válidas mas inexeqüíveis,
o que ocorre sobretudo em sociedades como a brasileira, marcada por tremendas
desigualdades econômicas e sociais. Além disso, é preci so lembrar que o con-
ceito de cidadania no Brasil está historicamente atrelado a uma concessão do
Estado, formalizado no que o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos
(1987, p. 68) denominou "cidadania regulada'', "cujas raízes encontram-se, não em
um código de valores políticos, mas em um sistema de estratificação ocupacional,
definido por norma legal" (1987, p. 68). Faltaria, portanto, na cultura política bra-
sileira, um solo fértil para que se possa concretizar uma prá tica política na base
de uma noção que pressupõe a crença em um conceito de cidadania universal.
Para Alain Touraine, uma das dificuldades para a implantação da democracia
na América Latina é que ela tem como pressuposto "uma consciência propriamente
politica de cidadania, de pertencimento a uma coletividade política" (1988, p. 442).

A(OHll:U(io DO FA! WI ÓNIO : PER\ PIC! IVA Hll l ÓRIU OI]


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A luta pelos direitos humanos na América Latina só pode ser compreendida
se vinculada à resistência ao autoritarismo que, nos anos 70, predominava no con-
tinente. Tratava-se de uma conjuntura diferente da européia, onde ocorria um es-
gotamento dos modelos de Estado: o do socialismo soviético e o do bem-estar
social. Dizem, o respeito. Calderón e Janlin:
Os direitos humanos surgem junto a uma revalorização da democracia como
construção, e não como algo dado e preexisten'J. Todos aqueles valores que eram
óbvios, e que conformavam algo assim como um conjunto mínimo de normas éticas
que se davam por aceitas e além das quais se dirigiam as lutas políticas e sociais.
tiveram que tomar a ser reconstruídos, recolocados e revalorizados a partir da expe-
riência de sua violação sistemática pelos governos ditatoriais. (1987, p. 80)
No caso dos direitos culturais a questão é mais complexa, sobretudo nos pai·
ses que se originaram das evlônias européias e foram marcados pela escravidão.
Esses países herdaram uma noção de cultura duplamente restrita: não apenas em
termos de classes sociais - na medida em que não se reconhecia, do mesmo
modo que nas metrópoles. o caráter de cultura às produções e práticas dos estra-
tos populares - como também em termos geográficos. pois, mesmo após a inde-
pendência, a verdadeira cultura era aquela importada das metrópoles européias.
A noção de direitos culturais é, portanto, nesses países, carente de sentido
para a maior parte da população. do mesmo modo que a noç.ão de cultura. E se,
como observa Eunice R. Durham, rios países sem uma tradição democrática con-
solidada "são os movimentos sociais que operam a transformação de necessi·
dades e carências em direitos", o que pode ser visto "como um amp\o processo
de revisão e redefinição do espaço da cidadania" (1984, p. 29). no caso dos
direitos culturais, pelo menos no Brasil, essas necessidades e carências em gran·
de parte ainda dependem, para serem formuladas enquanto direitos culturais, da
mediação dos agentes estatais.
A expressão direitos culturais foi incluída na Constituição brasileira de 1988
(art. 215), mas. até hoje, a não ser em casos excepdonais, essa -temática não
foi incorporada às poli ticas púb\icâs na forma de propostas de trabalho. Nesse
sentido, os direitos culturais no Brasil não passam de direitos fracos. meras de·
clarações de boas intenções.
Tema cada vez mais presente nas agendas políticas nacionais e internacio·
nais, a questão da cultura encontra, no Brasil, fortes resistên cias por parte da
classe política, que costuma considerar (nem sempre de forma explicita) que na

D PAl W\ÓN IO [1" Pi OCEI IO


[JIJ
sociedade brasileira há necessidades muito mais prementes a serem atendidas
(e também, muito provavelmente, que esse tipo de discurso "não dá voto"). Aos
olhos da maior parte dos po!iticos brasileiros, esse não é um campo propicio ao
exercício e à afirmação do poder; e essa postura fica evidente na ausência do
tema em programas de partidos e plataformas de eleição. Por outro lado, vem se
observando recentemente um crescente interesse de governos de estados e muni-
cípios em marcar sua atuação com iniciativas na área da cultura.
A questão se toma mais complexa quando consideramos que, também no meio
intelectual, a difusão da ideologia do relativismo cultural torna problemática qual-
quer concepção universalista de cultura ou de direitos culturais, o que significaria
legitimar uma cultura em detrimento de outras. Essa problemática define também
as relações entre países nos organismos internacionais. A propósito, o cientista
político Paulo Sérgio Pinheiro observou, sobre a Conferência Mundial dos Direitos
do Homem, realizada em Viena, em julho de 1993, que "foi o embate entre os pai-
ses que reconhecem a universalidade dos direitos humanos e aqueles que pre-
tendem afirmar a especificidade cultura! de cada sociedade" (Jornal do Brasil,
15.7.93, p. 11 ).
Resumindo, _se __a _emergência da noção de patrimônio histó;ico e artístico
_nfü,ÍQD.aLs.~.. .deu nç, âmbito da formação dos Estados-nações e da ideologia do

1 !!_~~~~mo, sua versão atual, enquanto patrimônio cultural, indica sua inserção
em um contexto mais amplo - o dos organismos internacionais - e em coritextos
~~....... -·
: mais restritos - o das comunidades locais. Nesse sentido, nas duas últimas déca-
das essa noção foi resse,r,antizada. extrapolou o seu domínio tradicional, o dos
Estados nacionais, e passou a envolver outros atores que não apenas burocratas
e intelectuais. As modificações na conceituação e no gerenciamento do patrimônio
enquanto objeto de politicas públicas indicam sua progressiva apropriação como
tema político por parte da sociedade, o que trouxe conflitos a uma prática tradicio-
nalmente exercida pelo Estado, com o concurso de intelectuais de perfil definido
e à margem das pressões sociais.
Nos próximos capítulos, vou analisar a prática de preservação do patrimônio
cultural desenvolvida no Brasil, procurando, primeiro, situá-la numa trajetória que
tem inicio no final dos anos 30, para. em seguida, me deter nas mudanças institu-
cionais que ocorrem a partir dos anos 70, com a entrada em cena de novos atores,
a adoção de uma concepção ampla e abrangente de :ultura, o ensaio de novas
formas de proteção e, sobretudo, uma proposta de democratização da política de

A CO NIIRU(ÀO 00 PAlWIÓNID: P!~IPECllVA HIII ÓRítA [ill


patrimônio em nível federal. O objetivo dessa análise é esboçar as questões e
os conflitos que emergem dessa nova orientação, no sentido de apreend er refe-
rências para uma reflexão tanto crítica quanto prospectiva.

Nom
A própria separação entre espaço e tempo é uma característica da modernidade. Diz, a
respeito, Anthony Gíddens: "Nas sociedades pré-modernas, espaço e tempo coincidem
amplamente, na medida ern que as dimensões espaciais da vida social são, para a maioria
da população. e para quase todos os efeitos, dominadas pela 'presença' - por atividades
localizadas. O advento da modernidade arranca crescentemente o espaço do tempo
fomentando relações entre outros 'ausentes', localmente d"istantes de qualquer situação dada
ou interação face a face.' [1991, p. 27)
Etimologicamente, a palavra monumento vem do latim monumentum, o que traz à memória.
A palavra alemã Denkmal é composta pelo verbo denken (pensar) e pelo substantivo Mal
(coisa).
Nos últimos anos, vem se assistindo a um novo interesse por monumentos intencionais.
Na última década, foram construídos, nos Estados Unidos, o Muro do Vietnã e o Mu seu
do Holocausto. Na França do governo Mitterand, esse foi um dos objetivos dos Grands
Travaux. No Brasil, foram idealizados monumentos em memória de Tancredo Neves, Ulisses
Guimarães e Luís Carlos Prestes, entre outros.
'Tanto a cultura quanto a economia produzidas pela prática preservacionista são resultado
de uma dialética entre o conservar e o destruir.' (Arantes. 1989, p. 16)

Historiador da arte austríaco com formação em direito e filosofia. Trabalhou durante vários
anos no Museu Austríaco de Artes [)1>r.orativas. Foi nomeado, em 1902, presidente da
Comissão Austríaca de Monumentos Históricos. e encarregado de elaborar uma nova legis-
lação para a conservação de monumentos.
Professor honoràrio do College de France; francês, autor de várias obras sobre história da
arte, dirigiu o Inventário Geral dos Monumentos Históricos, iniciado em 1964.

Inspetor Geral dos Arquivos de França; francês, antigo conservador ao Museu de História
da França e antigo conservador-chefe da Seção Antiga dos Arquivos Nacionais. Autor de
varias obras sobre história e monumentos da França.
Historiadora das teorias e das formas urbanas e arquitetônicas; francesa, professora da
Universidade de Paris VIII.
Na atividade de colonização empreendida pelos europeus em outros continentes no inicio
da Idade Moderna, esses proced"imentos foram freqüentemente utilizados também com a
finalidade específica de afirmar sua dominação sobre os povos nativos, como ocorreu na
aluai cidade do Méx"rco e em Cuzco, no Peru.

O PA!R IJ,\ÓN IO E/li PROWIO


OTI
'º 'O artista deixou de ser a:n artífice entre os artífices, pronto para executar encomend as
de sapatos, armários ou pinluras, conforme o caso. Era agora um mestre dotado de auto-
nomia, não podendo alcançar fama e glória sem explorar os mistérios da natureza e sondar
as leis secretas do universo.' (Gombrich , 1993, p. 21 8)
11 Esses autores citam um documento de 1750, onde se diz que ·1a destructíon tola/e de /'hôtef
de Soissons va nous dépayser dans notre propre vil/e" (p 15).
11 A Comissão de Monumentos havia sido criada em 1790.

13 No Brasil, pintores como Pedro Américo e Vítor Meireles se voiia1dm, e1n sua atividade
artística, para a exaltação da nacionalidade.
4
1 />,$ instruções do inventário rle 15 de dezembro de 1790 recomendavam ·a conservação dos
manuscritos, mapas, selos, livros, impressos, monumentos da Antiguidade e da Idade
Média, estátuas, quadros e outros objetos relativos às belas-artes, às artes mecânicas e
à história natural, aos costumes e usos dos povos tanto antigos como modernos,
provenientes do mobiliário das casas eclesiasticas e que integram os bens nacionais".

,; Eric Hobsbawm observa: 'não nos devemos deixar enganar por um paradoxo curioso,
embora compreensível: as nações modernas, com toda essa parafernália, geralmente afir-
mam o oposto do novo, ou seja, estarem enraizadas na mais remota Antiguidade, e o oposto
do construJdc, ou seja, serem comunidades humanas 'naturais' o ba stante para não neces-
sitarem de definições que não a defesa dos próprios interesses" (1984, p. 22-23).
16
Embora qualificassem muitas vezes como "pitorescas" essas viagens, certos viajantes,
como Debret, produziram documentação de inconteste valor cientifico.
17
Essa idéia será concrelizada por William Morris, que, em 1877. fundou a Society for the
Protection oi Ancienl Buildings.

•e Segundo Françoise Choay (1 992 , p. 126-128), o italiano Camillo Bailo (1853-1 914) foi, assim
como AJ0"1 s Riegl, um precursor. Sua ampla formação (engenheiro, arquiteto, historiador da
arte) lhe permitiu aliar o conhecimento de dois mundos que eram então considerados incon-
ciliáveis: o da arte e o da modernidade tecnológica.
Das doutrinas de Ruskin e de Viollet-Je Duc, Boito aproveitou o melhor para elaborar uma
síntese, tendo sido o inspirador das orientações para restauração de monumentos na llália
De Ruskin e Morris reteve a noçã8 de autenticidade, enquanto respeito pelas marcas do
tempo: de Viollet-le-Duc re:e·.,e o senso prático de que a restauração se justifica porqu e
o interesse atual éa consers·;o:;ão deve prevalecer sobre o respeito absoluto pelo passado.
Ao defender a exp,ic:tação cas partes restauradas (através de materiais ou cores diferentes,
legendas indicadoras etc.). Boito pode ser considerado o responsável pela instauração da
restauração como disciplina
19
Para essa visão abranger.te de monumento deve ter contribuído sua experiência. durante
dez. anos, como diretor do departamento de têxteis do Museu Austríaco de Artes Deco-
rativas.

A CO H\IRUCÀ O00 ?AIR l~ÓN IO: PE11FH ll \'A HII IÓIJCA LlLJ
20 Essa problemática já vinha sendo abordada na França. desde o final do século XV!, por
ocasião da Querelle des Anciens et des Modem es.
21 O evrocentrisrno começou a ser questionado pelos europeus no contacto com os teste-
munhos das antigas civilizações ameríndias. asiáticas e africanas.
12 O romantismo incorporou a Idade Média.· como tema e como motivo, a seu repertório
estético.
23 Cf. L'Express, ed. esp. Patrimoine - /e désastre (1988).
2~ 'A noção de bem cultural não se confunde, ou não deveri~ confundir-se, com a de h~m
patrimonial: os objetos de coleção, os testemunhos etnológicos são ou podem ser bens
culturais dignos de atenção; não são por isso, no entanto, senão metaforicamente, elementos
do patrimônio, na medida em que este é sempre definido por um valor diferente do conhe-
cimento científico. Do que resulta o. fato curioso de que ínúmeros países do Terceiro Mundo
foram levados a designar monumentos. conjuntos e sitias que pudessem constituir um "patri-
mônio". O conjunto das tradições e dos costumes, verdadeira espinha dorsal dessas socie-
dades, não implicava uma ordem de símbolos monumentais comparável â das regiões oc'i-
dentais: foi preciso, portanto, improvisar uma ordem. É uma questão de dignidade. Mas o
artifício salta aos olhos." (Chastel, Babelon, 1980, p. 29)
25 Partindo de uma distinção feita pelo padre dominicano Lebre( entre bens "compressiveis'
(de que se pode prescindir) e 'incompressíveis" (indispensáveis à sobrevivência}, Antonio
Candido observa que falar em direitos culturais significa considerar "bens incompressíveis
não apenas os que asseguram a sobrevivência física em níveis decentes, mas os que garan-
tem a íntegridade espiritual" (1989, p. 111).

O PAIRl/1\ÓNI O EM PIOUSIO
[]]]
PARTE 2
O PATRIMÔNIO NO BRA~ll .

fu F? e ~IBUOTECA SETORtAL \
l OE ClÊNClAS SOC\A!S
CAPÍlULO 3
A HH HERÓICA

l
f
i,
Nem me falta na vida honesto estudo,
t com longa experiência misturado (... ).
"- Luís de Camões, Os lusíadas.

Desde quando é de boa é\ica matar gente velha porque estoiva


o caminho?
Lúcio Costa. Parecer anexado ao processo de tombamento
da Igreja Bom Jesus dos Martírios, em Recife, Pernambuco.

1i No Brasil, a ~n.,~tjyq do patrimôniQ .- expressa como preocupação com a sal-


vação dos vestígios do passado da Nação, e, mais especificamente, com a prote-

1
í
~
ção de monumentos e objetos de valor histórico e artístico - começa a ser consi-
derada politicamente relevante, implicando o envolvimento do Estado, a partir da
década de ~920. Já estavam então em funcionamen!a os grandes museus nacio-
nais, mas não se dispunha de meios para proteger os bens que não integravam
essc1~ coleções, sobretudo os bens imóveis. A partir de denúncias de intelectuais
sobre o abandono das cidades históricas e sobre a dilapidação do que seria um
"tesouro" da Nação, perda irreparável para as gerações futu ras, pela qual as elites
e o Estado seriam chamados a responder, inclusive perante as nações civ::izadas,
o tema passou a ser objeto de debates nas instituições culturais, no Congresso
Nacional, nos governos estaduais e na imprensa.
Segundo Rodrigo Melo Franco de Andrade, essa 'foi uma idéia longamente ama-
-durecida em nosso meio" (Andrade, í987, p. 50). Mas foram alguns intelectuais
modernistas que ela bora ram, a partir de suas con ce pções sobre arte, história,
tradiçã o e nação, essa idéia na forma do conceito de patrimônio que se tornou
hegemônico no Brasil e que foi adotado pelo Estado, através do Sphan. Pois forar-ri
· esses intelectuais que assumiram. a partir de 1936, a implantação de um serv'iço
destinado a proteger obras de arte e de história no país.
Nessa tarefa, exerceram, ao mesmo tempo, a função de intelectuais e de ho-
mens públicos, e marcaram sua presença no serviço iniciado em 1936 - mJis,
talvez, que em qualquer outra instituição estatal de que tenham participado naquele
periodo - de forma tão profunda e duradoura que, até hoje, para alguns, o Sphan
dos anos 30-40, o Sphan "de doutor Rodrigo", é o verdadeiro Sphan, tenrJo se tor-
nado praticamente sinônimo de patrimônio.
Neste capítulo, tenho dois objetivos em mente: primeiro, fazer uma releitura
desse Sphan, mítico para alguns, ultrap~c;sado para outros, visando a situar essa
instituição e a problemáti~ que a justificou, no momento histórico de sua criação
e consolidação. Procurarei rastrear a emergência da questão do patrimônio no
Brasil, os diferentes pontos de vista sob os quais foi considerada, antes e depois
de sua criação, e, sobretudo, apreender os meios a que recorreram os agentes
envolvidos para torn~r socialmente visivel essa questão, através de uma política
pública - embora os funcionários do Sphan preferissem designar sua atividade
como simplesmente "o serviço", ou "a repartição". O segundo objetivo se articula
com o primeiro: reunir elementos para, no capítulo seguinte, situar e analisar a
crítica a esse modelo - que se manteve praticamente inalterado durante quarenta
anos - produzida nos anos 70 e 80, situando esse segundo momento tanto na
trajetória específica dessa atividade quanto no contexto mais amplo da complexa
relação entre atividade intelectual e ação política no Brasil.

3.1 0 CONlmO CULIURhl

A criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em 1936,


deve ser analisada à luz de dois fatos que marcaram a vida cultural e política do
Brasil na primeira metade do século XX: o movimento modernista e a instauração
do Estado Novo, em 1937, corolário da Revolução de 30. A análise do modo como
os agen!es do Sphan - recrutados, como já mencionei, entre os adeptos do rmder·
nismo - lidaram com esse duplo compromisso - com um movimento cultural reno-
vador e com um governo autoritário - é fundamental para se compreender a feição
especifica que o Sphan assumiu enquanto órgão do Estado na área da cultura.
A compreensão do contexto cultural1 em que, pela primeira vez no Brasil, se
kirmula explícitamente a temática de um patrimônio histórico e artístico nacional,
implica a sua relação com o surgimento e o desenvolvimento do movimento
cultural mais importante na primeira metade do século XX - o modernismo.

0:Zf O PAlilMÕNIO f!ls ?ROC!IIO


Na verdade, mesmo em suas primeiras manifestações, não se tratava de um
movimento homogêneo. Em termos gerais, o modernismo, nas segunda e terceira
dêcadas do século XX, se propunha como uma revolução artística; mas, sob o
lema da crítica ao passadismo e à linguagem ac3dêmica, esse movimento teve
diversas orientações estéticas e também ideológicas.
Nos anos 20, era baixa a incidência de envolvimento direto dos modernistas
na atividade política. Era o Partido Democrático (PD), de orientação liberal, que
reunia, nessa década e na seguinte, o número mais expressivo de artistas e inte-
lectuais simpatizantes do movimento modernista: Paulo Prado {autor de Retrato
do Brasil), Paulo Duarte, Prudente de Morijis Neto, Rubem Borba de Morais, Sér·
gio Mi1Jiet, Sérgio Buarque de Holanda e Mário de Andrade.
Os conservadores se concentravam no grupo católico liderado por Jackson
de Figueiredo que editava a revista A Ordem. A ele se juntou Alceu Amoroso
Lima, que se converteu , após a morte de Jackson de Figueiredo, em líder do
grupo. Outro grupos conservadores, que surgiram a partir do modernismo mas
cujos membros se voltaram posteriormente para uma militância política, foram o
Verde-amarelo (Menotti dei Picchia, Cassiano Ricardo, Cândido Mota Filho e
Plínio Salgado) e o Anta, liderado por Plínio Salgado, futuro chefe integralista.
& Esses grupos eram anti-revolucionários, temiam a anarquia e as ideologias de
esquerda, defendiam a ordem e a restauração dos valores espirituais, como as
1 virtudes crisrns e o cuiio à pátria. Embora independentes, tinham várias afinidades,
e foi freqüente que as mesmas personagens transitassem entre eles.
~ Na Semana de 22, o modernismo se apresentou como antiburguês, mas
recebeu, desde o início, o apoio de vultos expressivos da aristocracia do café,
como Paulo Prado.1 A antropofagia, de Oswald de Andrade e de Raul Bopp - que
teve na pintura de Tarsila do Amaral sua expressão crítica mais radical -. defen-
deu a valorização do primitivo e recorreu à paródia e à sátira.
Em 1926, um grupo de escritores nordestinos liderados por Gilberto Freire
produziu o Manifesto Regionalista, que chamava a atenção para os valores da
cultura popular local e para os problemas da região. Em Minas Gerais, grupos locais
reunidos em torno de revistas (A Re vista, Verde) não assumiram o mesmo tom
localista do grupo nordestino.
O maior nome do modernismo foi, sem dúvida. Mário de Andrade que. a rigor,
não se enquadrava em nenhum desses qrupos, embora tenha, em algum momento,
se declarado "antropofagista''. Inicialmente ligado ao grupo paulista, Mário de

A fAH HlRÓ/{J lliJ


Andrade serviu de elo entre vários intelectuais modernistas de todo o país através
de seus contatos pessoais, viagens e correspondência. De formação católica,
professor do Conservatórlo de Música de São Paulo, poeta, romancista, contista,
cronista, etnógrafo, Mário de Andrade assumiu, em rnP.ados da década de 1930,
no governo de Armando Sales de Ollveira, do Partido Democrático, a direção do
Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo.
Em t1;;rmos de expressão estética, nos anos 20 predominaram, na literatura e
nas artes, uma llnguagem não-realista e a incorporação de recursos expressivos
das vanguardas européias. A questão da identidade nacional era também um tema
comum a praticamente todos os grupos modernista$, que se expressavam, em
suas manifestações mais elaboradas - a antropofagia e a prosa e a poesia de Mário
de Andrade - através de umn visão crítica do Brasíl europeizado e da valorização
dos traços primitivos de nossa cultura, até então tidos como sinais de atraso. Mas
nem Macunaíma nem Cobra Norato podem ser entendidos propriamente como
simbo1os da nacionalidade. A respeito, diz Mário de Andrade em um dos prefácio~
inéditos a Macunaíma: "só não quero é que tomem Macunaíma e outros perso-
nagens como símbolos. É certo que não tive a intenção de sintetizar o brasileiro
em Macunaíma nem o estrangeiro no gigante Piamã" {Andrade [org.]. 1978, p. 23).
Ao caracterizar como "rapsódia" sua narratlva, e ao dizer no mesmo prefáclo
que "aínda não é tempo de afirmar coisa alguma", Mário de Andrade_ fugia das
sínteses simplistas e conclusivas. Para ele, o conhecimento do Brasil se fazia
na literatura, via criação, e na ciência, via observação e pesquisa. A elaboração
de uma versão sintética da identidade nacional era algo a ser realizado no futuro,
e devia ser precedida por um trabalho de análise e de conhecimento das raízes cul-
turais brasileiras.
Do mesmo modo que a llteratura e as artes plásticas, a arquitetura moderna
foi introduzida no Brasil a partir do contato com a vanguarda européia - no caso,
o racionalismo de Le Corbusier - e se insurgia contra o gosto burguês vigente,
que procurava acompanhar os padrões estéticos do edetismo da École des Beaux-
Arts francesa. Esse era o estilo que predominava nas construções que invadiam
os espaços urbanos, sendo a mais evidente expressão desse período a Avenida
Paulista, onde os barões do café construíam suas mansões. Esse era também o
gosto--oficial, presente na Avenida Centra\ (hoje Rio Branco), aberta por Pereira
Passos, no Rio de Janeiro, e nos códigos municipais de construção. Por esse mo-
tivo, o arquiteto russo Gregori Warchavchik, autor da primeira construção moderna

O 1WliilÔH I O fiil PiOCUIO


OI]
no Brasil, conhecida como Casa Modernista, na Vila Mariana, em São Paulo, em
1928, teve que recorrer a um subterfúgio para ter seu projeto aprovado: após apre-
sentar um desenho de acordo com o código de fachadas da prefeitura, alegou pos-
k
ir teriormente falta de recursos para concluir a obra, deixando, como fora sua inten-
~-
~;:; ção, a fachada retilínea e nua. Posteriormente, o apoio de representantes proemi-
nentes da aristocracia cafeeira criou um ambiente favorável a que se formasse

l uma clientela para esse tipo de arquitetura. Mas, nessa décadíl, a reação ao ecle-
tismo vinha do movimento neocolonial, de Ricardo Severo e José Mariano (filho).
Esses movimentos da década de 1920 - tanto na esfera política quanto na
intelectual - tinham em comum a crítica aos modelos políticos e culturais da Velha
República. Apesar da heterogeneldade de tendências, provocaram a progressiva
erosão da legifimidade do regime e mobilizaram a opinião pública para a idéia de '
mudança. No campo da cultura sua sedimentação foi mais lenta e apenas a partir
do final dos anos 30, e nos anos 40, alcançou um reconhecimento mais amplo.

1 ,-
também em função de apoio oficial.

j
A. p
.. arti-cipação dos intelectuais modernistas na administração pública federal
í ó teve início efetivamente após a Revolução de 30. Já no inicio do governo, Var-
1 as começou a estruturar o aparelho do Estado, criando o Minlstério da Edu·

'
cação e Saúde (1930), o Ministério do Trabalho (1930), o Departamento Nacional

i :de. P~~p~ganda (1934) e o Departamento Administrativo do Serviço Público -


Dasp
?:·

'\- ' (1938).


,.
Com a instauração do Estado Novo, a reforma administrativa foi ampliada, e
o Estado passou a ser apresentado como o representante legitimo dos interesses
da nação, por sua vez entendida como "individuo coletivo", e não mais como
\
coleção de individuas. conforme a ideologia liberal (Reis, 1988, p. 187-203). Se,
por um lado, o Estado Novo suprimiu a representação política e instaurou a cen·
sura, por outro, ao assumir a função de organizador da vida social e política, abriu
espaços para os intelectuais, tanto para os que assumiram claramente a função
de ideólogos do regime {Francisco Campos, Azevedo Amaral, Oliveira Viana.
Almir de Andrade etc.), quanto para aqueles que, sem aderirem, e até demons-
trando reservas quanto ao novo governo, viram no processo de reorganização ,jo
Estado uma possibilidade de participarem da construção da nação.
A relação entre cultura e política era o principal tema da revista do mesmo
nome (Cultura Política), veiculo da ideologia do Estado Novo no meio intelect~a!

AFAH HERÓICA [ill


A revista era dirigida por Almir de Andrade, em cuja obra as tradições culturais
brasileiras eram invocadas para legitimar o regime, Para a mobilização das
massas, as instituições oficiais recorreram sobretudo a simbolos expressamente
criados para invocar a pátria (a bandeira, os hinos, a efígie de Vargas etc.) e ao
incentivo às atividades cívicas. A preocupação de nacionalizar o ensino funda·
mental __ -:- vi~ando sobretudo à integração, em certos casos à força, das comu-
nidades de imigrantes europeus no Sul - reduzia os conteúdos culturais a uma
função instrumental. O objetivo era criar uma cultura nacional homogênea. t;"e
propiciasse a identificação dos cidadãos com a nação. Pois "o .:jJe preponderou
-:: no autoritarismo brasileiro, no entanto, não foi a busca de raízes mais populares
e vitais do povo, que caracterizava a preocupação de Mário de And rade, e sim
a tentativa de fazer do catolicismo tradicional e do culto aos símbolos e líderes
da pátria a base mítica do Estado forte que se tratava de construir" (Schwartzman
\. et ai., 1984, p. 80).
No âmbito do Estado, essa função foi exercida por órgãos da esfera do Minis-
tério da Justiça (Agência Nacional, Departamento de Imprensa e Propaganda) e
do Ministério da Educação e _Saúde. Logo após o golpe, esse último ministério
foi oferecido, a título estritamente pessoal, a Plínio Salgado, que, no entanto, o
recusou, manifestando-se inclusive publicamente contra a extinção da Ação Inte-
gralista do Brasil. Confirmado Capanema no cargo, foi empreendida uma ampla
reforma, sendo criados no MES o Instituto Nacional do Livro, dirigido por Augusto
Meyer, o ~erviço Nacional de Teatro, dirigido por Thiers Martins Moreira, o lnsti·
luto Nacional de Cinema Educativo e o Serviço de Radiodifusão Educativa. diri-
gidos por Edgar Roquete Pinto, e o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional, já sob a direção de Rodrigo Melo Franco de Andrade desde o ano ante·
dor. Funcionavam também no MES o Conselho Nacional de Cultura e o Conselho
Consultivo do Sphan,
.Para o ~rojeto_ ideológico do Estado, o rádio e o cinema eram, sem dúvida,
as áreas de atuação mais importantes, tanto que os dois órgãos criados no MES
foram disputados pelo Ministério da Justiça, evidenciando-se com isso uma tensão
entre sua caracterização, ora com o instrum2nto de propaganda, ora como recurso
pedagógico (cf. Schwartzman et ai., 1985, p. 86-89).
Entretanto, no MES, a área da cultura foi bem menos marcada por conflitos
ideológicos que a área da educação. Foi nesta última que se concentraram as
atenções do ministro, tarefa complexa devido ao alto grau de politização da ques-
tão educacional :10 período, com o confronto dos interesses dos esco!anovistas

[JIJ O PA!Rll!ÓNI O Eil PROCUIO


(Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo, Lourenço Filho) e dos católicos (Alceu
Amoroso Lima). Na verdade, foi o !ider católico que teve maior influência junto
ao ministro.
Outro fato importante na área da educação foi a criação dos cursos superiores
de ciências sociais, Em 1933 foi criada em São Paulo a Escola de Sociologia
e Política; em 1934, a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade
de São Paulo; e, em 1935, a Universidade do Distrito Federal.
Na literatura e nas artes plásticas ocorreu, na década de 1930, o que João
Luis Lafetá (1974) caracterizou como a mudança da ênfase de um projeto estético
{década de 1920) para um projeto ideológico. A produção de uma literatura
realista, de uma arte que voltava ao figurativo e de uma ensaisUca que procurava
.ser científica conferiam à noção de identidade nacional uma positividade e um tom
afirmativo que não encontramos na década anterior. Foi a época do romance
regionalista, das pinturas de Cândido Portinarí e de Emiliano Oi Cavalcanti, da
música de Heitor Villa-Lobos.
Nos anos 30, a arquitetura moderna, recém-introduzida no Brasil e praticada
por arquitetos que tinham ligações pessoais com os modernistas (Lúcio Costa,
Oscar Niemeyer, Carlos Leão, Afonso Reidy, os irmãos Marcelo e Milton Roberto,
Atílio Correia Lima etc.), recebeu apoio oficial através de Capanema, primeiro com
a nomeação de Lúcio Costa para a direção da Escola Nacional de Belas Artes,
em 1930, graças à infiuência de Rodrigo Melo Franco de Andrade junto ao minis-
tro, e, posteriormente, com o episódio da construção do novo prédio do MES, que
se converteu no monumento aos novos tempos. Em 1936, num gesto ousado, o
ministro preteriu o projeto neomarajoara do arquiteto Arquimedes Memória, ven-
cedor em concurso púbtico, chamando para executar o novo projeto uma equipe
de jovens arquitetos liderada por Lúcio Costa, todos adeptos das idéias de Le Cor-
busier. Desse projeto participaram também o pintor Cândido Portinari, o paisagista
3urte Marx e o escultor Bruno Giorgi.
Esses gestos, assim como a nomeação de Carlos Drummond de Andrade co-
mo chefe de gabinete, e a admissão, nos quadros do MES, de vários intelectuais
vinculados ao modernismo foram, nos anos 30, sinais concretos da relação que
então se estabeleceu entre o governo e aqueles intelectuais. Parã a análise da
relação entre o modernismo e o patrimônio, considero importante destacar dois
aspectos: o sentido de ruptura específico desse movimento no Brasil e a presença
de Minas Gerais como tema e dos mineiros como personagens.

A FAH 1/ERÓl[.J
LlzJ
3.2 0 /1\0VIMENlO 11,00ERNIIIA E O PA!Rl/1\ÔNIO

3.2. l O sem/ido de rupluro no moderniJmo brasileiro


A significação do modernismo na vida cultural e também, secundariamente, na
vida política do Brasil só pode ~er corretamente avaliada na relação desse movi-
mento com o con~eido cultural a que veio se opor. Caracterizado de inicio como
. -
um movimento exclusivamente artístico, na verdade desde suas primeiras mani·
festações demonstrou ter um alcance bem mais amplo.
Daniel Pécaut observa que "de maneiras diversas sucessivas gerações de
intelectuais brasileiros invocavam a realidade nacional" (1990, p. 6).3 Era o envol·
vimento na questão da identidade nacional que marcava o compromisso social do
intelectual, inclusiva._ de escritores e artistas. Nesse sentido, assumiam também ,
a função de atores políticos, e era comum que essa dupla missão unisse na mes·
ma pessoa o poeta e o abolicionista (Castro Alves). o escritor e o jornalista {Eu-
clides da Cunha), o contista sertanejo e o ardente défensot de causas nacionalis-
tas, como na questão do petróleo (Monteiro Lobato). ·
No Brasil, essa dupla inserção social dos intelectuais assumiu características
específicas, fenômeno que foi analisado por Antonio Candido em suas conse-
qüências tanto pará a produção literária quanto para o papel político do intelectual.
Ao concentrar sua reflexão sobre a literatura, Antonio Candido se refere, po-
rém, a um universo bem mais vasto, pois considera que, "diferentemente do que
sucede em outros países, a literatura tem sido aqui, mais do que a filosofia e as
ciências humanas, o fenômeno central da vida do espírito• (1967, p. 152). Esse fato,
aliado ao método de análise que emprega, possibilita que, ao falar de literatura,
Antonio Candido na verdade tenha por objeto o universo da cultura. Resumirei aqui,
nos traços mais gerais, sua an~lise_da vida cultural brasileira nos séculos XVIII,
XIX e inído do XX porque ela é extremamente elucidativa para a compreensão
do significado do modernismo como movimento cultural, e das posições assurr1jdas
por seus integrantes enquanto homens públicos. 4
Antonio Candido observa que. ,durante o Período Colonial e o Império, a socie-
dade que se formou no Brasil era quase totalmente de iletrados, e que, mesmo
entre as elites, eram muito reduzidos os grupos que tinham acesso a uma cultura
erudita. Nesse ambiente, o escritor não encontrava condições favoráveis para assu-
mir um papel social definido enquanto escritor. Da dinãmica do escritor con, esse
público resultou uma literatura feita mais para ser ouvida que lida, enfática e for-

I 88 l O PAI RIAIÕH IO EA PROC ESSO


malmente rebuscada, mas acomodada, produtora de imagens distorcidas, de que
o ufanismo de um Afonso Celso seria a caricatura. Ideologicamente, era a temática .
1 do nacionalismo - que nos séculos XVIII e XIX se expressou sobretudo através
do nativismo e do indianismo românticos - que conferia ao escritor sua legíti-
midade social. Além disso, dada a ausência de um público que, através do con-
sumo de livros, possibilitasse ao escritor o sustento material, era o mecenato do
Estado que lhe garantia a estabilidade para o exercício de sua produção inte-
lectual. Antonio Candido considera que essa literatura, de tal modo subordinada
a determinaÇOes ou interesses externos a seu campo específico, teria perdido seu
potencial crítico e, nesse sentido, teria _sido incapaz de exercer o que, na moderni·
dade, seria a sua função social própria: construir, no nível da elaboração estética,
uma representação critica do real. No Império, pode-se dizer que Machado de Assis
foi a importante exceção que confirma a regra, e, na República, aqueles escritores
que, como Euclides da Cunha e Lima Barreto, elaboraram uma crítica social mais
contundente, acabaram condenados ao isolamento.
O modernismo, para Antonio Candido, surge como movimento de ruptura com
essa tradição que a proclamação da República não alterou. No início do século,
.a literatura brasileira se caracterizava por ser "uma literatura satisfeita, sem an-
gústia formal, sem rebelião nem abismos. Sua única mágoa é não parecer de todo
(
_européia" (Candido, 1967, p. 133}. De um lado, um nacionalismo diluído numa
literatura de expressão acadêmica; de outro, o esteticismo dos parnasianos e dos
simbolistas.
Nesse contexto, não é difícil entender o caráter fundador que os próprios
fT!odernistas atribuíõm a seu movimento: fundador não apenas de uma nova ex-
i
pressão artística, afinada com as vanguardas européias e com a modernidade,
como também fundador enquanto recusa de um tipo de literatura que, por se con-
fundir com o jornalismo, o discurso político, ou por se submeter às exigências de
um formalismo acadêmico, não era, no que consideravam seu verdadeiro sentido,
literatura. Na verdade, a missão dos modernistas extrapolava o campo restrito da
literatura e das artes. Tratava-se de. ao buscar definir os limites entre a criação
literária e a militância política, repensar a função social da arte.5
Ao se alinharem à modernidade a partir de sua concepção da arte como um
campo autónomo, os modernistas brasileiros não romperam apenas com uma tra-
dição estética; romperam com toda_uma tradição cultural profundamente enraizada
não só entre produtores e consumidores de literatura e de arte, como em toda a
sociedade.

j fU! HEIÓ/(4 [BQ~,


Como se explica, porém, a retomada e mesmo o profundo envolvimento dos
modernistas com a temática do nacionalismo, e seu engajamento na vida política
e em instituições estatais? Não significaria essa atitude, após um primei ro mo·
mento de entusiasta adesão ao futurismo, ao dadaísmo e ao surrealismo europeus,
a retomada do mesmo padrão que a princípio haviam repudiado? Eduardo Jardim
de Moraes considera que não, que esse movimento é resultante da reflexão crítica
do modernismo sobre si mesmo e de sua inserção enquanto movimento artí stico
tanto no contexto brasileiro quanto no "concerto dE: nações". Vale a penR acom·
panhar seu raciocínío. 6
Para Eduardo Jardim de Moraes, o interesse dos modernistas pela questão
da brasilidade decorreu de uma elaboraçào no próprio campo da criação artística,
que teria ocorrido por volta de 1924, e que implicou a introdução do conceito de
tradição como elem~nto estruturante de uma produção artística que se queria ao
mesmo tempo universal e particular - no caso, nacional. Ou seja, que se queria
singular, artística no sentido moderno.
Esse autor oonsidera que foi no contato com as vanguardas européias que os
modernistas perceberam que a modernização da expressão artística, entendida
como rompimento radical com o passado, só tinha sentido em países onde havia
uma tradição nacional intemalizada. Em países de formação mais recente, como o
Brasil, cuja tradição ainda estava por construir, a adesão imediata ao novo desca·
racterizaria a produção artística no que ela teria de particular - o seu caráter na·
cional -, perdendo assim também o seu valor universal, enquanto arte. Diz Eduardo
Jardim de Moraes:
É como se o ingresso na ordem mundial, portanto na vida moderna, ao ex"igir da
p1odução cultural feita no Brasil uma contribu'ição própria, nacional, exigisse ao mesmo
tempo que esta explicitasse na sua visão do· passado relações de cumplicidade que
7
viessem definir para o caso brasileiro uma fom,a especifica de modernidade. ( 1988,
p. 231)
Além disso, havia um fc1to que caracterizava a tradição brasileira em relação
às descobertas que os vanguardistas europeus faziam en tão das culturas prí·
mitivas e da cultura africana: se para esses artistas se tratava de realidades dis·
lantes no tempo e/ou no espaço, no Brasil essas manifestações estavam vivas
no presente, embora fossem negadas ou mitificadas pela cultura europeizada do·
minante. O indianismo romântico exemplifica bem essa situação.

O PAIRl/1.ÕN IO EIII PROCESSO


D.2J
A dialética da particularidade e da universalidade da criação artística é assim
elaborada pelos modernistas no campo estrito da arte, indicando-lhes o que será
um aspecto de sua missão social: a construção de uma tradição brasileira autêntica.
O movimento que os escritores modernistas fizeram r,a direção da tradição -
e que é analisado por Eduardo Jardim de Moraes - foi feito também no campo
da arquitetura individualmente por Lúcio Costa, a partir de 1928, ao passar da ade·
são ao esti'::J neocolonial para a arquitetura moderna.
O estilo neocolonial representou a primeira reação, a partir da segunda década
do século, à incorporação acrítica dos estilos históricos europeus pelo ecletismo
no Brasil, e ao desconhecimento e mesmo desvalorização da tradição construtiva
vinda da colônia. Seus seguidores procuraram produzir uma arquitetura que. inspi·
rada nessas raízes, terminou por se converter em uma cópia cujo ?.feito era evocar
o passado.
Embora tenha aderido, de volta de longo período na Europa, ao estilo neo-
colonial, Lúcio Costa procurou, porém, fazer uma análise mais profunda dos prin·
cipios da arquitetura colonial brasileira. Diz, a respeito, Yves Bruand:
Desde o início suas pesquisas divergiram de seus colegas, preocupados principal·
mente em copiar as fom,as e os motivos decorativos do passado. A preocupação com
as soluções funcionais e com os volumes claramente definidos, característicos de suas
primeiras obras, era um retomo conscie:1te aos valores permanentes que havia descoberto
na arquitetura luso-brasileira dos séculos XVII e XVIII, da qual, em contrapartida, rejeitava
o que era pura decoração. Suas preocupações profundas, longe de se oporem ao espírito
racionalista, aproximavam-no dele. O que o chocava instintivamente no movimento moder-
no era o seu caráter absolutista, intransigente e o aparente desprezo de seus teórioos
por tudo que dizia respeito ao passado. Preocupavam-no o radicalism:.i desses e o poder
demolidor que confusamente neles sentia existir, a ponto de impedir seu aprofundamento
no problema - problema, que, acima de tudo, parecia-lhe estar muito distanciado da
realidade brasileira. (1991, p. 72)

Lúcio Costa fez, portanto, um movimento inverso ao dos modernistas do inicio


dos anos 1920, para chegar ao mesmo ponto: integrar modernidade e tradição. a
partir de uma reflexão sobre a especificidade de seu campo profissional (no caso.
a arquitetura) e de sua relação com a realidade brasileira.
Vimos, portanto, que tanto de um ponto de vista diacrônico (Antonio Candido)
quanto sincrõnico (Eduardo Jardim de Moraes), tanto em decorrência da relação
dos modernistas com uma tradição cultural a que se queriam opor, quanto de seu

A IA\E HlRÓIC~ L1lJ


desejo de se integrarem ao "concerto das nações" civilizadas, a necessidade de
,reelaborar o passado e de construir uma tradição brasileira a partir de uma postura
autônoma, crítica e liberta de uma "vis~o patriótico-sentimental" (Candido, 1967,
p. 94) se impunha como parte integrante do projeto maior do m'Jdernismo.
Nesse sentido, não é difícil entender o que vários autores apontam como uma
peculiaridade do modernismo brasileiro: o fato de serem os mesmos intelectuais
que se voltaram, sirr.Jltaneamente, para a criação de uma nova linguagem estética -
no sentido de ruptura com o passado - e para a construção de uma tradição - no sen-
tido de buscar a continuidade.
A temática do patrimônio surge, portanto, no Brasil, assentadá em dois pressu-
postos do mode~n(sniq, enquanto expressão da modernidade: o caráter ao mesmo
tempo universal e particular das autênticas expressões artísticas e a autonomia·
relativa da esfera cLiltural em relação às outras esferas da vida social. A atuação
dos modernistas no Sphan vai mostrar como eles puseram em prática, num campo
cultural e político especifico, e sob um regime autoritário, esses pressupostos.

3.2.2 Oi moderníilaf e /r1ina1 Ceroú


Dada a importância de Minas Gerais e dos mineiros na criação do Sphan,
interessa caracterizar a posição desse grupo e o papel de Minas tanto no movi-
mento modernista quanto na vida política brasileira nas décadas de 1920 e 1930.
Para os modernistas Minas se constituiu, desde a segunda década do século,
em pólo catalisador e irradiador de idéias. Foi numa viagem a Minas, em 1916,
que Alceu Amoroso Lima e o então jovem Rodrigo Melo Franco de Andrade desco-
briram o barroco e perceberam a necessidade de proteger os monumentos histó-
ricos, Foi numa viagem a Diamantina, nos anos 20, que o arquiteto Lúci o Costa,
então adepto do estilo neocolonial, teve despertada sua admiração pela arquitetura
colonial brasileira. Foi também em viagens a Minas, uma delas em 1924, acom-
panhando o poeta Blaise Cend rars, que Mário de Andrade entrou em contato com
a arte colonial brasileira e com os jovens inquietos da Rua Bahia {Carlos Drum-
mond de Andrade, Pedro Nava, Emílto Moura etc), com os quais manteve conta to
pessoal e correspondência a partir de então. O fato é que n20 só mineiros. como
cariocas, paulistas e outros passaram a identificar em Minas o berço de uma civili-
zação brasileira. tomando-se a proteção dos monumentos históricos e artísticos mi-
neiros - e, por conseqüência, do resto do país - parte da construção lia tradição

[ill O PATRl!IÓHI O t~, 1ROCES IO


nacionaL Ao analisar a valorização do barroco - até então considerado um estilo
rebuscado e rude - pelos modernistas, diz Marisa Ve!oso Moita Santos:
Nesse momento, no que se refere à construção da nação, o barroco é emblemático,
é percebido como a primeira manifestação cultural tipicamente brasileira, possuidor,
portanto, da aura da origemda cultura brasileira, ou seja, da nação, Daí o valor totémico
que se constrói, sendo identificado, sísternaticamente, como representação de "autên-
tico", de "estilo puro'. (1 992, p. 26)

É possível que a convivência com os remanescentes da arte barroca tenha


contribuído para gerar em Minas um regionalismo que Lúcia Líppi de Oliveira ca-
racterizou como "um regionalismo que não se revestiu de um provincianismo es-
treito ou de um localismo pitoresco" (1980, p. 15), Havia entre os mineiros um sen-
tido de oonstituírem uma elite intelectual e oom a vocação do espírito público, Pre-
dominavam neles valores como o rigor, a sobriedade, a honestidade intelectual
e moral, e sobretudo o senso do dever. Tudo isso matizado pelo humour, em Car-
los Drummond de Andrade, e pela habilidade política, em Capanema. Nesse senti-
do, Rodrigo Melo Franco de Andrade talvez fosse o mais mineiro entre os minei-
ros, e era considerado por todos o líder natural do grupo. ~m todos eles, um senti-
do de independência que se expressava em sua resistência a aderir incondicional-
. mente a líderes como Getúlio, ou à política partidária. Na vida pública, em várias
ocasiões, deram demonstração dessa independência - como no pedido de demis-
são de Carlos Drummond de Andrade da chefia de gabinete de Capanema, por não
desejar comparecer a uma conferência de Al ceu Amoroso Uma no MES, de cujas
ideias então discordava, ou ao não hesitar em publicar poemas de cunho socialista
enquanto ocupava cargo de confiança em um governo que perseguia os "comunis-
tas''; e nas inúmeros manifestações - inclusive pedidos de demissão nunca acei-
tos - de Rodrigo M, F, de Andrade em protesto con tra atitudes, mesmo de presi-
dentes da República 8 que, no seu entender, desautorizavam o Sphan ou seu diretor.
Essa postura, ao que tudo indica, não era vista com reservas - e talvez até
o fosse com admiração - pelo mineiro Gustavo Capanema. Tendo aderido à Revo-
lução de 30 movido por interesses da política regional. Capanema, ao conhecer
Getúlio, logo após a Revolução, se mostrou reticente quanto à figura do iíder gaú-
cho e duvidoso quanto à sua capacidade de conduzir as mudanças que julgava
fundamentais. Sua lealdade política a Vargas não o impediria, portanto, de ter uma
postura independente e mesmo crítica em relação a certos aspectos da ideologia

l fAH ~H ÓICJ r93 J


do Estado 1~ovo, no que, como veremos adiarite, não encontrou obstáculo por parte
de Getúlio.
A posição de Capanema garantiu ao MES uma função muito além de mero ins-
trumento de consolidação do regime. Possibilitou, inclusive, a manutenção no MES
de um espaço de atuação para os modernistas (com quem se identificava em vários
aspectos) a salvo de pressões políticas. Sobre essa relação, dizem os autores
de Tempos de Capanema:

Era sem dúvida no envolvimento dns modernistas com o folclore, as artes, e


particularmente l;Om a poesia e as artes plásticas, que residia o ponto de contato entre
eles e o .ministério. Para o ministro, importavam os valores estéticos e a proximidade
com a cultura; para os intelectuais; o Ministério da Educação abria a possibilidade de
um espaço para o desenvolvimento de seu trabalho, a partir do qual supunham que
poderia ser contrabandeado, por assim dizer, o conteúdo revolucionário m:iis amplo que
acreditavam que suas obras poderiam trazer. (Schwartzman et ai., 1984, p. 81)

Seu primeiro gesto de clara adesão AO ideário modernista no MES foi em rela-
ção à arquitetura, ao apoiá-la e, ao mesmo tempo, utilizá-la para a criação de sím-
bolos de uma nova era. Além de serem os construtores desses símbolos - de que
o novo prédio do MES era o melhor exemplo - foi no Sphan que os arquitetos
modernistas atuaram enquanto integrantes da estrutura institucional montada pelo
Estado Novo, sob a direção do advogado, jornalista e contista Rodrigo Melo Fran-
co de Andrade, de quem Capanema disse em entrevista: "era um dos homens mais
ligados a mim" (Xavier & Físherg, 1968, p. 32}.

3.3 A (~lt.(60 DO SPHAN

3.3.1 Áf inicialivaf precurrnra1


Desde a segunda década do século XX, 9 intelectuais que depois vieram a se
integrar ao modernismo publicavam artigos alertando para a ameaça de perda
irreparável dos monumentos de arte colonial. Em 1916, Alceu Amoroso Lima pu-
blicou na Revista do Brasil o artigo "Pelo passado nacional", em que relata a
profunda impressão que lhe deixara a viagem que fizera a Minas com Rodrigo M.
F. de Andrade. Em 1920, na mesma revista, Mário de Andrade, que estivera em
Minas em 1919, publicou textos sobre o mesmo assunto. Posteriormente. A Re-
vista, periódico mineiro dirigido por Carlos Drummond de Andrade e Martins de
Almeida, lômbém ab•iu espaço para a questão. O arquiteto Lúcio Costa, ao res-
ponder aos ataques que José Mariano (filho) lhe dirigiu para justificar sua des-

IJIJ O PATilFiÓNIO E~ PROC tSS O


tituição do cargo de diretor da Escola Nacional de Belas Artes, publicou em O
Jornal o artigo intitulado "Uma escola viva de Belas Artes", em que fundamenta-
va suas posições fazendo um~ análise inovadora da arquitetura colonial brasileira.
Os modernistas não eram, no entanto, os únicos intelectuais a se interessarem
pelo destino e pela proteção da arte colonial brasileira como manifestação de uma
autêntica tradição nacional. Já em 1914, Ricardo Severo, engenheiro português
filiado ao movimento neocolonial, proferia a conferência "A arte tradicional no Bra-
sil". Liderados por Ricardo Severo, em São Paulo, e por José Mariano (filho), no
Rio de Janeiro, esses intelectuais visitavam as cidades históricas e produziam
documentação a respeito.
As primeiras respostas do poder público a essas demandas do meio intelectual
partiram dos governos de estados com significativos acervos de monumentos
históricos e artísticos. Na década de 1920 foram criadas Inspetorias Estaduais de
Monumentos Históricos em Minas Gerais (1926), na Bahia (1927) e em Pernam-
buco (1928).
No nível federal, foi no âmbito dos museus nacionais que surgiram as primeiras
iniciativas nesse sentido. No inicio dos anos 20, o professor Alberto Childe, con-
servador de Antiguidades Clássicas do Museu Nacional, foi encarregado pelo en-
tão presidente da Sociedade Brasileira de Belas Artes e Diretor do Museu Nacio-
nal, professor Bruno Lobo, de elaborar um anteprojeto de lei para a defesa do patri-
mônio histórico e artístico nacional, que foi considerado inviável porque atrelava
a proteção à desapropriação.
O primeiro órgão federal de proteção ao patrimônio surgiu no Museu Histórico
Nacional, por iniciativa de seu diretor, Gustavo Barroso, que, nos anos 30, parti-
cipou do movimento integralista, quando se desta cou por suas posições anti-semi-
tas. Barroso era o principal concorrente na disputa com os modernistas da gestão
federal do patrimônio. Em 1934, foi criada a Inspetoria dos Monumentos Nacionais,
norteada por uma perspectiva tradicionalista e patriótica. Essa instituição teve atua-
ção restrita e foi desativada em 1937, em conseqüência da criação do Sphan.
_A primeira iniciativa do governo federal relativamente à proteção do patrimônio
foi a elevação de Ouro Preto à categoria de monumento nacional, pelo decreto
nª 22.928, de 12 de julho de 1933.
Também no Congresso Nacional, desde o inicio dos anos 20 vinham sendo
apresentados projPtos com o objetivo de criar mecanismos para a proteção legal

A FAIE HERÓICA lJIJ


do patrimônio. Em 1923, o deputado pernambucano Luís Cedro, em 1924, o poeta
mineiro Augusto de Lima, e, em 1930, o deputado baiano José Vanderlei de Araújo
Pinho apresentaram ao Congresso propostas nesse sentido, mas nenhuma foi apro-
vada. Esses projetos, assim como o anteprojeto do jurista mineiro Jair Lins, elabo-
rado em 1925, e em que Rodrigo M. F. de Andrade se baseou para elaborar o
decreto-lei nQ 25, de 30.11.1937, esbarravam nas prerrogativas do direito de pro-
priedade, asseguradas pela Constituição e pela legislação em vigor.
Em 1934, quando Gustavo Capanema substituiu Francisco Campos no MES,
já havia, por parte de setores da elite intelectual e política, não só interesse pela
temática da tradição e da proteção de monumentos históricos e artísticos. como
uma demanda pela participação do Estado na questão. A partir do Estado Novo,
com a instalação, mais que de um novo governo, de uma nova ordem política, eco-
nômica e social, ~ ideário do patrimônio passou a ser integrado ao projeto de
construção da nação pelo Estado.
Várias foram as circunstâncias, portanto, que lev~ram á escolha dos modernis-
tas para assumirem esse projeto no governo de Va'rgas. Decisiva, como já men-
cionei, foi a ascensão ao MES de Gustavo Capanema, personagem politicamente
forte no governo getulista e identificado intelectual e afetivamente com vários es-
critores e artistas modernistas.
Em segundo lugar. conforme observa Lauro Cavalcanti (1993, p. 18), teria con-
tribuído para legitimar essa escolha, em detrimento de 01,:1tr-as ~orrentes mais
obviamente identificadas com a defesa da tradição (o neocolonial), ou de uma
instituição já em funcionamento no Museu Histórico Nacional, a nítida superio-
ridade qualitativa, em termos de produção intelectual e de prestigio, dos moder-
nistas. Essa escolha já fora definida no episódio da construção do novo prédio
do MES, em 1936.

3.3.2 ~ iMliluâonafizaçõo do proleçào do palrimónio


A entrada do Estado na questão se efetivou em 1936, quando o ministro Capa-
nema se mobilizou para as iniciativas, já em curso desde os anos 20, visando
à proteção dos monumentos e obras de arte nacionais. Sua idéia inicial era fazer
"o levantamento das obras de pintura, antigas e modernas, de valor excepcional,
existentes em poder de particulares, na cidade do Rio de Janeiro" (Dphan, 1969,
p. 41 ). Percebendo que o assunto requeria uma atuação abrangente, que com-
preendesse também as edificações e outras obras de arte, e alcançasse todo o

OTI O PATll/rlÔNIO IMPROCEIIO


território nacional, o ministro ·:;solveu recorrer a Mário de Andrade, para que O
intelectual de trezentas face12s . apoiado em sua experiência no Departamento de
Cultura da Prefeitura de -São 0 aulo, elaborasse um anteprojeto sobre o assunto.
O projeto de criação de u...,· órgão especificamente voitado para a preservação
do patrimônio histórico e artistice nacional, apresentado em uma primeira versão
1 no anteprojeto de Mário de Ar.-:rade 10 e formulado de forma definitiva no decreto-
lei ~ 25, de autoria basicamente de Rodrigo M. F. de Andrade, apresentava algu-
mas peculiaridàdes em relaçã:i às experiências européias já em curso. Em pri-
meiro lugar, à diferença de outros paises, onde as iniciativas voltadas para a pre-.
servação de bens culturais conJemplavam a!)E!nas tipos de bens isoladamente (mo-
numentos, museus, arte popular etc.), no B~~il os. dois textos citados se caracteri:
,zavam por tratarem o tema de forma abrangerte. e acticulad?_e por ~r.oporem uma
.única instituição para proteger todo o universo dos bens culturais_. Em segundo .
lugar, se em outros países os agentes da preservação costumavam ser recrutados
entre intelectuais identificados com uma concepçã<> passadista e conservadora de
cultura, no Brasil os intelectua:s que se engajaram no projeto do patrimônio eram
exatamente aqueles que, como Mário de Andrade e Lúcio Costa, assumiam em
suas respecti vas áreas profiss,onais posturas claramente inovadoras.11
O Sphan começou a funciC(lar experimentalmente em 19.36, já sob a direção
de Rodrigo M. F. de Andrade. C'.J111 a lei n2 378, de 13 de janeiro de 1937, o Sphan
passou a integrar oficialmente a estrutura do MES e foi criado o conselho con-
sultivo.
f O Sphan se estruturou er- duas divisões técnicas: a Divisão de Estudos e
Tombamento (DET), a que es'.~,,,m vinculadas a Seção de Arte, a Seção de His-
tória e também o Arquivo Ce-:~al e a Divisão de Conservação e Restauração
(DCR). A instituição era repre$~0 tada regionalmente em distritos e linha sob sua
responsabilidade os museus re;J nais, que foram sendo criados a partir de 1938.
Além dos formuladores Mé~: de Andrade e Rodrigo M. F. de Andrade (o se-
gundo, também, dirigente do t·;2:i de 1936 a 1967), participaram do Sphan nesse
período, entre outros: Lúcio C:,:2. a principal autoridade técnica, chefe da Divisão
de Estudos e Tombamentos :::T) entre 1937 e 1972. e membro do Conselho
Consultivo por um curto per::,::: Carlos Drummond de Andrade, organiza dor do
arquivo e chefe da Seção de - stória; Afonso Arinos de Melo Franco e Prudente
de Morais Neto, consultores j~· :!icos; e Manuel Bandeira. colaborador em várias
publicações, os três membros :: Conselho Consultivo; os arquitetos Paulo Tedim

AfAIE 1/fHÓl(A fgp,e l · ~mU01ECA SETUr-.tr·. 97


\ - :e C\tNCIAS SOCIAlS
Barreto, José de Sousa Reis, Alcides da Rocha Miranda, Edgard Jacinto, Renato
Soeiro; o artista plástico Luís Jardim. Nos distritos regionais, Airton Carvalho (1ª
DR - NINE), Godofredo Filho (2ª DR - Bahia e Sergipe). Sílvio de Vasconcelos
(3~ DR - Minas), Luls Saia (4ª DR - Sul), que sucedeu a Mário de Andrade nessa
função. Os restauradores eram Édson Mola, João José Rescala e Jai r Afonso
Inácio; e a autoridade em arte sacra, dom Clemente da Silva Nigra. Foi colabo-
radora, desde os primeiros momentos, dona Judith Martins, também pesquisadora
e chefe do arquivo, a~5s a aposentadoria de Carlos Drummond de Andrade. Inte-
lectuais uo Rio de Janeiro, co,110 Alceu Amoroso Lima e Afonso Arinos de Melo
Franco, e de outros estados, como Gilberto Freire, Sérgio Buarque de Holanda, Joa-
quim Cardoso, Artur César Ferreira Reis e Augusto Meyer, mesmo sem serem
funcionários regulares da repartição, mantinham contatos com Rodrigo M. F. de
Andrade e participavam de algum modo das atividade do Sphan. Nos estudos e
pesquisas, o Sphan. contava com a colaboração de especialistas estrangeiros,
como Germain Bazin, Hannah Levy e Robert Smith, e divulgava em suas publi-
cações trabalhos de autores nacionais e estrangeiros, muitos feitos sob encomen-
da para atender às necessidades do serviço. Raramente mencionada, mas igual-
m1Jnte fundamental, foi a colaboração de agentes locais, mobilizados nas várias
regiões do Brasil, para auxiliar nos trabalhos de levantamento e identificação de
bens e documentos. Formados pelos funcionários do Sphan e pela prática do tra-
balho, muitos desses agentes vieram a tornar-se mestres em obras, restaurações,
documentação etc.
A atividade desenvolvida por esse grupo de intelectuais no Sphan gozou de
surpreendente autonomia dentro do MES. Desde o início, a área do patrimônio
ficou à margem do propósito de exortação cívica que caracterizava a atuação do
ministério na área educacional. A cultura produzida pelo Sphan sequer era articu-
lada com os conteúdos dos projetos educacionais ou com os instrumentos de per-
suasão ideológica do Estado Novo; esses conteúdos eram mais compatíveis com
a vertente ufanista do modernismo. Durante o Estado Novo. o Sphan funcionou
efetivamente como um espaço privilegiado, dentro do Estado, para a concretização
de um projeto modernista.

3.3.3 O anfeprojelo de Mário de Andrade e o dwefo-lei rr 25


A autonomia de que gozava o Sphan dentro do MES e do governo, e que,
durante muito tempo, foi considerada sinal do poder de seu diretor e do respeito
que inspirava, a partir da década de 1970 passou a ser interpretada não só como

[}[] O PATRIJ!ÓN IO {J! PROCfll O


afastamento do governo getulista, mas também como distância dos interesses da
sociedade, sobretudo das classes populares. Nas análises da política do Sphan
feitas a partir dos anos 70, tornou-se mesmo lugar comum 12 atribuir-se o que se
passou a considerar o caráter elitista do trabalho desenvolvido pela instituição ao
fato (pelo menos em parte) de o anteprojeto de Mário de Andrade ter sido preterido
em favor do decreto-lei nª 25, de 30 .11.3 7, mais restritivo na concepção de patri-
mônio, mais adequado, porém, às circunstâncias do momento. Embora considere
que o modo como essa discussão tem sido conduzida remete antes a um ponto
de vista contemporâneo sobre política cuit..:ral do que aos reais conflitos da década
de 1930, ela interessa aqui, na medida em que ajuda a explicitar concepções dis-
tintas quanio aos objetivos de uma atuação voltada para o patrimônio cultural na- /
quele período e a posição dos diferentes atores envolvidos. Considero que, efetiva-
mente, as diferenças entre os dois textos indicam interpretações diversas - mas que
os fatos demonstram como não conflitantes naquele momento - do que esses ato-
res consideravam as necessidades de uma política da preserv.ação. E, nesse sen-
tido, a aUtude de Mário de Andrade no episódio indica que ele mesmo reconhecia
o acerto político, naquele momento, do apoio ao projeto em andamento no Con-
gresso Nacional - ainda que pudesse não corresponder plenamente ao seu ideal
de serviço de patrimônio.
Sem dúvida, no seu anteprojeto Mário de Andrade (1981, p. 39-54) desen-
volveu uma concepção de patrimõnio extremamente avançada para seu tempo,
que em alguns pontos antecipa, inclusive, os preceitos da Carta de Veneza, de
1964. Ao reunir num mesmo conceito - arte - manifestações eruditas e populares,
Mário de Andrade afirma o caráter ao mesmo tempo oarticular/naciona! e universal
da arte autêntica, ou seja , a que merece proteção.
É a noção de arte, portanto, o conceito unificador da idéia de patrimônio no
anteprojeto do "patrimõnio artístico nacional" (PAN). Ao apresentar, com detalhes
e exemplos, o que entende por arte em geral e nas oito categorias que discrimina,
Mário de Andrade se detém no aspecto conceituai da questão do patrimõnio e dos
valores que lhe são atribuídos.
A definição de arte no anteprojeto ("arte é uma palavra geral, que neste seu
sentido geral significa a habilidade com que o engenho humano se utiliza da ciên-
cia, das coisas e dos fatos") se aproxima da concepção an tropológica de cu1tura. 13
E uma análise do texto do anteprojeto em seu conjunto deixa daro que a ênfase
na noção de arte não significa uma posição esteticista. A preocupação em expli-
citar o que entende por cada urna das oito categorias de arte (arte arqueológica;

A f AIE HERÓICI OI]


arte ameríndia; arte popular; arte histórica; arte erudita nacional; arte erudita es-
trangeira; artes aplicadas nacionais; artes aplicadas estrangeiras), e como elas
se agrupariam nos quatro Livros do Tombo e nos museus correspondentes, indica
em Mário uma visão abrangente e avançada para sua época em relação ás noções
de arte e de história virientes, inclusive nos serviços de proteção já existentes
na Europa.
Ao falar especificamente de "arte histórica", Mário dP Andrade não se distancia
da noção de história predominante no início do século, a história factual, centrada
nos eventos políticos referentes aos grupos que detinham o poder. Interessa pre-
servar como obras de arte histórica aquelas que, independentemente de seu valor
artístico, constituem documentos para a história política ("criadas para um deter-
minado fim que se tornou histórico"; "se passaram nelas fatos significativos da
nossa história"; "v~eram nelas figuras ilustres da nacionalidade" [...] "que devem
ser conservadas tais como estão ou recompostas na sua imagem 'históri ca"').
Também se enquadram nessa categoria obras relevantes para a história da arte
("exemplares típicos das diversas escolas e estilos arquitetónicos que se refle-
tiram no Brasil") e documentos nacionais ou estrangeiros referentes ao Brasil. O
recuo cronológico mínimo para que obras de arte pudessem ser incluídas no patri-
mônio seria de até a data de 1900, ou de cinqüenta anos para trás. Se é possível,
portanto, perceber no anteprojeto um propósito explícito de reelaborár a noção de
arte, o mesmo, aparentemente, não ocorre em relação à de história. E;itretanto,
ao mencionar o caso de objetos que aliam a seu valor histórico um real valor artís-
tico, Mário considera que o valor histórico deverá prevalecer, e que o objeto "será
tombado pelo valor histórico" (1981, p. 96).
Em várias ocasiões, porém, Mário de Andrade demonstra acreditar que, como
. dizia Riegl, é pelo valor histórico dos bens, por seu valor enquanto testemunho
) da existência dos antepassados, que se atrairão as massas para os monumentos -
) dimensão que teria que ser levada em conta nas atividades de divulgação cultural.
1
i Essa posição fica clara quando se analisa a concepção de Mário de Andrade so-
bre os museus, por ele definidos como agências educativas. Mário Chagas, que
estudou a óptica museológica de Mário de Andrade, observa que, para Mário, os
museus deveriam "beneficiar o estético, mas sobretudo o histórico" (1991, p. 111).
E, entre os quatro museus nacionais preconizados por Mário, correspondentes ao
quatro Livros do Tombo, o destaque, no anteprojeto, é dado aos modernos museus
técnicos, na época ainda pouco conhecidos no Brasil. Seriam museus eminen-

[JQQ_J O PA!RIIIÔ NIO li\ PR OClSSO


temente pedagógicos, em que a técnica é apresentada a serviço do conhecimen to
dos ciclos econômicos do Brasil, portanto com base em uma visão histórica. Cons- •
tituirlam um contraponto aos museus históricos tradicionais, na medida em que
fugiriam à apresentação celebraliva de grandes vultos e feitos, e seus temas se-
riam: "café, algodão, açúcar, laranja, extração do ouro, do ferro, da carnaúba, da ( .
borracha, o boi e suas indústrias, a lã, o avião, a locomotiva, a imprensa etc."
(ibid.). Esse projeto foi, em parte, realizado pelo Sphan através da criação dos \
museus regionais, ainda em sua primeira década de funcionamento, a partir de J
uma proposta de Lúcio Cosia visando a preservar os bens móveis colhidos na ·
região das Missões. 14
Mais avançada para a época era, no entanto, a concepção de Mário sobre os
museus municipais. Se os museus nacionais deveriam ser organizados a partir de
ordenamentos disciplinares, como apoio e ilustração dos Livros do Tombo, Mário
preconizava e incentivava a aiação de museus locais, em nível municipal, com ba-
"se em critérios distintos. Enquanto os museus nacionais e os das grandes cidades
tenderiam à especialização, os museus municipais seriam ecléticos, seus acervos
heterogêneos, e os critérios de seleção das peças ditados pelo valor que apresen·
tam para a comunidade local, que participaria ativamente da coleta de bens. _Q
referente seria a identjdade local tal como os habitantes . a q:>ncebem. Como ob-
servâ .Mário Chagas, "a narrativa museológica, nesse caso, deveria surgir do diá-
logo com a população interessada na constituição do museu" (1991, p. 109).
Essas observações vêm confinnar o fato já bastante comentado de que a preo-
cupação em valorizar o popular é, sem dúvida, um traço marcante na obra de Mário,
tanto cultural quanto institucional. Ou seja, o popular enquanto objeto e o povo en-
quanto alvo. No texto do anteprojeto nota-se, inclusive, um cuidado em não privi-
legiar, do ponto de vista da atribuição de valor, as formas de expressão cultas. Em
princípio, todas as obras de arte, tanto as eruditas, das Belas-Artes, quanto as popu-
lares, arqueológicas, ameríndias e aplicadas, poderiam ser inscritas nos Livros do
· Tombo. No entanto, se as obras de arte eruditas são referidas a partir dos instru-
mentos que as consagram como de "mérito nacional'' (prêmios em concursos, men-
ção em livros de história da arte, inclusão em acervo museológico, avaliação pelo
Conselho Consultivo do Span), as obras de arte arqueológica, ameríndia e popular
são fartamente exemplificadas no texto - provavelmente porque não ocorreria, na
época, considerá-las com a mesma naturalidade como bens patrimoniais. Nesse
caso, são disciplinas como a arqueologia e a etnografia que vão legitimar sua inclu-
são nos Livros do Tombo.

A f AH HfNÓIU [lQ_lJ
São, portanto, os instrumentos disciplinares, ao lado de outras instâncias re-
conhecidas de atribuição de valor (concursos, publicações, avaliação por especia-
listas etc.), todas re stritas aos círculos intelectuais, que constituem os canais re-
feridos por Mário para a constituição do patrimônio. A participação popular seria
limitada à organização dos museus municipais, cuja leitura só faria pleno sentido
para os habitantes locais. Deste modo, o anteprojeto de Mário define com clareza
(embora essa não fosse uma questão relevante na época) o alcance e os limites
da participação social na construção dos patrimônios históricos e artísticos, apon-
tando as diferenças e as peculiaridades dos níveis nacional e local e caracteri-
zando a função social do intelectual como _mediador entre os interesses populares
,.,. e o Estado. Chama a atenção, mesmo atualmente, sua sensibilidade para a função
,-;' e a importância dos museus municipais, que são até hoje, com freqüência, objeto
de crítica por não se a~equarem aos padrões rigorosos e modernos de uma "ciên-
cia" museológica. 15
A preocupação maior de Mário de Andrade não se restringia à conceituação
de patrimônio, mas também dizia respeito à caracterização. da função social do
órgão, o que implicava detalhar atividades que facilitassem a comunicação com
o público. Na verdade, para Mário, a atuação do Estado na área da cultura devia
ter como finalidade principal a coletivização do saber, daí sua preocupação e mes-
mo seu envolvimento na questão educacional. Em carta a Paulo Duarte (1977, p.
151 ), Mário disse certa vez que defender o nosso patrimônio histórico e artístico
"é alfabetização." Essa era a concepção que norteava a atuação do Departamento
de Cultura, iniciativa considerada então pioneira na área cultural. Mário acreditava
que, divulgando as produções artísticas, tanto as eruditas como as populares,
criando condições de acesso a essas produções, se estaria contribuindo para
despertar a população para o que costumava ficar reservado para o gozo das eli-
tes - a fruição estética. Desse modo, se estaria, ao mesmo tempo, democratizando
a cultura e despertando na população o sentimento de apego ás coisas nossas.
Em suma, o texto do anteprojeto é amplo e aborda com detalhes a questão
conceituai - que obras, e a partir de que critérios, poderiam ser consideradas pa-
trimônio - detendo-se também na estrutura e no funcionamento do órgão, tendo
sempre em mente os meios de divulgar e coletivizar o patrimônio. Tem-se a im-
pressão de que, com base em sua experiência no Departamento de Cultura, Mãrio
de Andrade procurou imaginar o que considerava, em 1936, (portanto, quando ain-
da estava entusiasmauv com seu trabalho no DC) o serviço ideal de proteção do

IT9IJ O PAII IMÕHIO Ili PROCEIIO


patrimônio. Mas, já em carta a Rodrigo Melo Franco de Andrade, datada de
29.7.36, em resposta às objeções da professora Heloisa Alberto Torres, então
diretora do Museu Nacional, que discordava da configuração que Mãrio dera aos
museus nacionais no anteprojeto, ele reconhecia os limites de sua proposta: ·o
que fiz foi teoria e acho bom como teoria; sustentarei minha tese a qualquer
tempo." E diz sobre o anteprojeto:
Dado o anteprojeto ao C1panema, eu bem sabia que tudo não passava de ante-
projeto. Vocês ajudem com todas as luzes possíveis a organização definHiva, façam e
desfaçam à vontade, modiftquem e principalmente acomodem às circunstâncias o que fiz
e não tomou em conta muitas circunstâncias porque não as conhecia. Não sou \urrão
nem vaidoso de me ver criador de coisas perfeitas. Assim não tema jamais me magoar
por mudanças ou acomodações feitas no meu anteprojeto. (Andrade, 1981, p. 60)
Na verctc'lde, ao atender à solicitação de Capanema, Mário passara a servir a
dois senhores. De um lado, se envolvera, com Rodrigo M. F. de Andrade, na cria-
ção de um serviço federal de patrimõnio para o governo getulista; de outro, com
Paulo Duarte, estava também comprometido com o projeto do Departamento do
Patrimônio Histórico e Artistice de São Paulo, que, com o Departamento de Cul-
tura, seria o início do Instituto de Cultura de São Paulo. O instituto, se efeito Ar-
mando Sales de Oliveira presidente, se estenderia a todo o Brasil.
Por esse motivo, em setembro de 1937, Mãrio de Andrade solicitou a Paulo
Duarte que demorasse "um pouco a coisa", porque, dizia ele, "de forma nenhuma
eu desejo sequer froisser o Capanema, que admiro no seu esforço e cuja luta feroz
conheço bem" {Duarte, 1977, p. 154). É agora Paulo Duarte que esdarece a se-
qüência dos acon tecimentos:
De fato, esperei até outubro para lançar o meu com um discurso na Assembléia
Legislativa. Quando se deu o golpe de Estado, o meu achava-se já em terceira dis-
cussão e o da Câmara permanecia mais ou menos congelado. Tanto que, impossibttitado
rle dar andamento no meu pela dissolução da Assembléia Legislativa, e pelo receio do
governador interino Cardoso de Melo Neto em baixar decreto fazendo lei um projeto meu.
quando já execrado da ditadura, achamos Mário e eu que era preciso tudo fazer para que
Getúlio, íá ditador, assinasse o decreto-lei correspondente ao projeto parado na Câmara.
O Rodrigo Melo Franco estava desesperado no Rio, pois Capanema, apesar de ministro,
não se achava em condições de exigir isso do novo regime pois, ao que pareçe, a sua
posição periclitava. Lembrei-me então do Alcântara Machado que conservava a sua
amizade com Getúlio e a quem eu dava a minha colaboração no projeto do novo Código
Penal do Brasil. Solicitei-lhe então obtivesse a assinatura daquele referido Dooet~ lei. Pou-
cos dias depois, me escrevia Alcântara Machado comunicando que a ·nossa lei" sairia

l fASE HEIÓ/( A
Oill
:;::m falta, em principio de dezembro de 1937. 0 qu., realmente aconteceu. não no princípio.
mas mais para o fim daquele mês. (Duarte, 1977, p. 154-155)
,.
Esse longo depoimento evidencia a fragiiidade, naquele momento de mudanç.:, ~

;;
do projeto de política cultural modernista em face da instabilidade do quadro pc-lí· r
tico. A posição de Capanema dependia de acenos políticos. Mas o fato é que as t
idéias inspiradas pelo Modernismo sobre patrimônio e atuação do Estado em rela· 1
i
ção à proteção eram amplas (e/ot. ideologicamente ambíguas) o bastante para íns·
pirar dois projetos voltados para objetivos políticos distintos e, naquele momento,
i
até tnesmo concorrentes. Esdarecedora ness9 sentido foi a posição de Mário de
f:
Andrade e de Paulo Duarte, comprometidos com ambos os projetos. Pode-se
supor que o que lhes interessava era, acima de qualquer interesse político ime-
diato, assegurar a criação de instituições culturais, objetivo que a queda de Ar-
mando Sales de Oliveira, após a instauração do Estado Novo, inviabilizou em
nível estadual. A decisão, tanto de Mário de Andrade quanto de Paulo Duarte na-
quele momento, foi emir.entemente pragmática, apesar da situação de Paulo
Duarte junto ao governo getulista. 16
Destituído do Departamento de Cultura, Mário de Andrade passou a participar
ativamente da implantação do Sphan, conforme se pode constatar na correspon-
dência trocada com Rodrigo M. F. de Andrade, tornando-se o assistente técni co
da instituição em São Paulo. A aceitação do posto, o entusiasmo com que sempre
colaborou com Rodrigo, sem nenhum atrito (o que não ocorreu na sua relação com
Capanema), são indicadores de que não via contradição maior entre seu ante·
projeto e o trabalho desenvolvido pelo Spr1an.
~
Já o decreto-lei n2 25, de 30 de novembro de 1937, elaborado por alguém com i
i
larga experiência jurídica, como Rodrigo M. F. de Andrade, estava voltado, basica- r
mente, para garantir ao órgão que surgia os meios legais para sua atuação num 1J
campo extremamente complexo: a questão da propriedade. Era esse, então, o prin-
cipal entrave à institucionalização da proteção do patrimônio histórico e artístico
f
nacional. Pois, como observa Joaquim Falcão, ''antes de 37 os diversos projetos 1
de proteção ao patrimônio artístico são recusados no Congresso Nacional em no-
me do direito de propriedade" (1982a, p. 25). A preocupação, nesse caso, não era
!
com o aspecto conceituai ou com o organizacional, que já teriam sido equacio-
nados no anteprojeto, mas com recursos operacionais que fossem não só legais
como também reconhecidos como \egitimos. A conceituação de patrimônic, propo- i
sitalmente deixada em aberto, tinha, porém, um limite em relação ao anteprojeto: 1
O PATW\ÓNI O E/1, 1ROUIIO
Oill
para viabilizar a proteção legal em necessário referir-se a coisas {"bens móveis (

e imóveis''), o que marcava a inadequação do instrumento proposto - o tombamento -


para proteger manifestações folclóricas, como lendas, superstições, danças dramá-
tícas etc.
O tombamento surgia, assim, como uma fórmula realista de compromisso entre
o direito individual à propriedade e a defesa do interesse público pela preservação
de valores culturais. Essa solução se tomou possível na medida em que a Cons-
tituição de 1934 estabeleceu limites ao direito de propriedade, definindo-lhe o con-
ceito de função social. Por outro lado, em termos econômicos, ao garantir ao pro-
prietário não só o uso como a posse do bem material, o instituto do tombamento
dispensava, para a finalidade de preservação, a onerosa e praticamente inviável
figura da desapropriação (cf. Castro, 1991, p. 58; Andrade, 1987, p. 51).
Não resta dúvida, porém, de que, apesar de solução considerada bem sucedida
do ponto de vista legal, sua legitimação social era uma conquista a ser feita. Essa
legitimação foi alcançada, sobretudo, através da fixação de um padrão étlco de
trabalho e, para isso, Rodrigo M. F. de Andrade lançou mão de vários recursos:
o desenvolvimento de um trabalho dentro dos mais rigorosos e modernos critérios
científicos; o cuidado na escolha de seus colaboradores; a imagem de uma insti-
tuiçáô coesa, desvinculada de interesses político-partidários e totalmente voltada
para o "interesse público"; e, sobretudo, a defesa encarniçada do decreto-lei nQ
25, de 30.11.37, em batalhas judiciais memoráveis, sendo um marco, nesse sen-
tido, o parecer do Supremo Tribunal Federal, em sessão de 17.6.42, ratificando
o referido decrnio e a autoridade do Sphan, no julgamento da impugnação ao tom-
bamento do Arco do Teles, no Rio de Janeiro. Esse era , sem dúvida , um jogo que
exigia habilidade política num sentido amplo, e que se pode dizer que foi bem su-
cedido se considerarmos a aura do Sphan e de seu diretor no final dos anos 60,
(cf. Dphan, 1969) e a continuidade desse projeto dur:rnte mais de trinta anos.
Na realidade, a análise do trabalho desenvolvido pelo órgão desde sua criação
indica que a oposição entre o anteproíeto de Mário de Andrade e o decreto-lei nQ
25, de 30. 11.37, é, na verdade, um falso problema, se considerado do ponto de
vista dos obíetivos mais imediatos do Sphan, quando de sua criação, e do quadro
político e ideológico naquele momento. Não interessa aqui , inclusive, entrar na
discussão quanto à marca classista do órgão (cf. Miceli. 1987), até porque, como
já ficou evidente, a orientação do Sphan no processo de atribuição de valores se
inseria na tradição européia de constituição dos patrimónios nacionais a partir das

AfASE HEPÓIC& [Iill


categorias de história e de arte (cf. capitulo 2). Além disso, dado o caráter inter-
vencionista do tombamento na esfera de outros interesses, sobretudo do interesse
econômico, a proteção precisava se fundamentar em critérios que, ainda que não
fossem de consenso geral - e, como veremos adiante, não o eram - fossem jurí-
dicamente defensáveis e socialmente aceitáveis. O limite ao vanguardi-,mo do
Sphan era o conceito de monumento histórico expresso na Carta de Atenas de
1933. O que interessa é verificar, portanto, como as concepções então vigentes
de história e de arte foram reelaboradas oelo Sphan pela seleção e valoração de
detenminados bens, quem são os atores nesse processo e como se resolve, no
Brasil, a questão do valor nacional. Pois considero que, na análise desse momento
da história do Sphan, as diferenças mais significativas entre Mário de Andrade e
Rodrigo M. F. de Andrade não residiam propriamente no conceito de patrimônio,
e sim no modo cori:,o viam a ação cultural enquanto ação política - tema que será
abordado no final deste capítulo.

3.4 0 PROGRW Df IRABAlHO DO SPHAN

3. 4. l As prioridades e Of /imiles
Ao se analisar o programa de trabalho e as várias realizações. do Sphan nos
seus primeiros anos, não se pode dizer que o espírito do anteprojeto tenha sido
totalmente esquecido. É significativo que a primeira das publicações do Sphan
seja um ensaio de Gilberto Freire sobre os mocambos do Nordeste. Também em
Lúcio Costa, como lembra o próprio Rodrigo M. F. de Andrade, observa-se o "lílle·
resse não apenas técnico ou histórico, mas também plástico que apresenta o
estudo dos tipos de habitação popular, ainda os mais primitivos, existentes entre
nós" (1987, p. 93). O valor histórico e artístico das produções populares é assim
afirmado na primeira publicação do Sphan. Esse era também o sen!ído que pre-
sidia à concepção dos museus regionais, que deviam informar o visitante sobre
a vida social da comi.1nidade, ou melhor, mais que isso, fazer com que sentissem
a vida que ali havia existido. 17 ,

O primeiro número da Revista do Sphan, publicado já em 1937, atesta o sen-


tido abrangente da atividade que o Sphan se propunha a desenvolver. Desse nú-
mero constam, além de artigos sobre a arquitetura religiosa da colônia, textos so-
bre patrimônio arqueológico, etnográfico, paisagístico e documental (cf. IBPC, 1991b,
p. 3-7).

[Iill O PAlRIMÓHIO IM PiOCES>O


Na prática dos tombamentos, porém, a prioridade foi dada aos remanescentes
da arte colonial brasilei ra, justificada pelos agentes institucionais como decorrên-
cia do processo de urbanização, que já se acelerava, e do saque e comercializa-
ção indevidos de bens móveis, que eram vendidos por antiquários brasileiros a
colecionadores, sobretudo estrangeiros. No Brasil, esses bens eram identificados
pelas classes médias afluentes {em que se incluíam os imigrantes que enrique-
ciêm com a industrialização) com um passado arcaico, primitivo, e com presença
portuguesa, cuja influência cultural fora substituída pela francesa, pela ingf P.sa, e
já então pela 11orte-americana. Enfim, havia, entre as classes mais altas, a idéia
de que a civilização estava nos países desenvolvidos da Europa e da América
do Norte, e que a única maneira de o Brasil civilizar-se era imitar esses modelos.18
No quotidiano das populações das cidades históricas, objetos antigos, já ra-
ros, eram considerados velharias, que podiam ser transformados em tenha ou ser-
vir para transações comerciais. Para os funcionários do Sphan, porém, além de
valorizados, esses objetos eram insubstituiveís, uma vez que haviam desapa-
recido as condições de sua produção.
Entretanto, a descoberta do barroco pelos modernistas e a prioridade dada aos
monumentos e objetos da arte colonial na constituição do patrimônio naquele
momento não se identificavam com o tom triunfalista da história oficial, embora
significassem a concentração na vertente luso-brasileira da cultura nacional. O
conceito de civilização material, tal como o elaborou Afonso Arinos de Melo
Franco em uma série de conferências preparada para os funcionários do Sphan,
em 1941 (Franco, 1944), possibilitava uma leitura dos bens e conjuntos tombados
a partir de sua relação com o processo histórico de ocupação das diferentes
regiões brasileiras. Desse ponto de vista - da civilização material que se desen-
volveu no Brasil - Afon so Arinos considerava que a presença portuguesa predo·

'
minava sobre as influências negra e indígena , que praticamente não haviam dei-
xado vestígios materiais significativos .
Um bom exemplo desse tipo de leitura é a conferência "Panorama do patri-
mônio artístico e histórico de Minas", proferida por Rodrigo M. F. de Andrade em
Ouro Preto, em 1968. Nesse texto (Andrade, '. 987, p. 73-80), a civilização material
que surge em Minas no século XVIII, em função da descoberta de metais precio-
sos, é analisada a partir do processo de ocupação da região e do papel que os
diferentes grupos étnicos exerceram nesse processo. Rodrigo identifica uma "es·

AfAH HUÓ/[A
L.!QZJ
1
cola mineira" nas obras de feição erudita ou popular que ali foram produzidas.
Sendo praticamente nula nessas produções a marca dos poucos indígenas carijós
que permaneceram no local como cativos, e pouco numerosos os paulístas que
por ali passaram, Rodrigo considera que essa civilização era de "autoria", em pri-
meiro lugar, dos portugueses, vindos do Minho e do Douro. que ali se radicaram,
e, em segundo, dos escravos angolas e banguelas por eles trazidos para a região.
Diz Rodrigo M. ~. de Andrade:
Foi d~sse lastro humano. cujo cruzamento inter-racial se intensificou, na medida
da carência extrema de mu!heres brancas e da soltura de costumes, que emergiram
os artistas e artífices aos quais devemos as obras mais expressivas da cultura mineira,
dentre eles se distinguindo, na segunda metade do século XVIII, os mulatos,
especialmente no domínio das artes plásticas e da música. (1987, p. 74)
. Em suma, a no~o de valor histórico adotada peio Sphan dos anos 40 era bali-
zada pela historiografiá da época - em que a obra de um Caio Prado Júnior era
ainda uma exceção - e pelos imperativos teóricos e práticos da preservação.
Também a prioridade dada aos bens de arquitetura religiosa, que constituem
a grande maioria dos bens tombados, era jusfificada pelo lugar e pelo sentido que
tinham as igrejas nas colônias luso-espanholas. É Lúcio Costa quem melhor sinte-
tiza a leitura que presidiu a esses tombamentos:
Sempre prevaleceu a parte religiosa porque o número de igrejas era enorme. En·
quanto os anglo-saxões tinham aquela preocupação de criar riquezas, o mundo latino,
de herança portuguesa eespanhola, concentrava-se na construção de conventos e igrejas.
Havia uma desproporção enorme em relação à parte residencial e militar. Essa condição
de que a igreja era fundamental na tradição colonial foi considerada pela crítica leiga
uma espécie de desperdício. Aquela riqueza, opulência na arquitetura religiosa, muito
sóbria na fachada e que você entrava nela e era aquele esplendor. Mas havia umsenti·
do social, muito profundo, nessa aparente contradição. A igreja, com aquele esplendor
todo, estava aberta, pertencia a todos, qualquer pessoa do povo, por mais miseravel
que fosse, era só entrar e ficar lá. (IBPC Notícias, ed. esp., 27.2.92, p. 4)
A prioridade dada aos monumentos arquitetônicos, e dentre esses, à arquitetura
religiosa, se justificava assim em função do que Joaquim Falcão vai caracterizar,
décadas mais tarde, como "uma atuação preliminarmente didática e exemplificativa
necessária", que "obtém rapidamente um consenso amplc" (1984, p. 26). A justift·
cativa dada por Rodrigo assentava no que oonsiderava um traço da civilização bra-
sileira - "avultam, porém, os bens arquitetônicos como núcleo primacial de nosso
patrimônio" - e uma exigência da preservação - é "mais facilmente praticável a
investigação a seu respeito" (1987, p. 27). 19

[j]]J O PA!RI.I\Ó NIO E.li PROC!IIO


Mais problemático sempre foi o conceito difuso de excepcionalidade, que jus-
tifica a seleção de bens entre vários de uma mesma classe ou período. Na atri-
buição de "excepcional valor' fica patente o caráter discricionário de que se re-
veste o tombamento na legislação brasileira (ver capítulo 5, nota 21 ), pois essa
atribuição de valor é feita caso a caso, e é da competência exclusiva do órgão
federal. Diz a respeito Rodrigo M. F. de Andrade:
Com efeito, nos referidos livros do tombo não se insc.revem, em rigor, senão ascoisas
consideradas de valor excepcional. Conseqüentemente, há no pais uma vasta quantidade
de bens culturais cuja preservação, embora de manifesta conveniência pública, escapa
à alçada do serviço mantido pela União para cuidar do selar. (1987, p. 71)
Rodrigo advertia, contudo, que o valor de excepcionalidade dos bens culturais
brasileiros não deve ser aferido na comparação com expressões culturais de outros
países, sobretudo com aquelas obras já consagradas e convertidas em parâmetros
universais de beleza. Considerava ser preciso que essa avaliação se fizesse den-
tro das séries de obras produzidas no Brasil, e no que se refere à identidade
nacional, pois ao lado dos valores de arte e de história - valores universais - está o
valor das obras para a nação (cf. Andrade, 1987, p. 48).
Os critérios adotados pelo Sphan eram sustentados não tanto por estudos e
pesquisas, pouco accessíveis à opinião pública, mas pela autoridade dos agentes
e da instituição que respondia pelos tombamentos. A defesa dessa autoridade -
intelectual e moral - era preocupação constante de Rodrigo Melo Franco de An·
drade, que, nas suas inúmeras entrevistas e manifestações públicas, não deixava
::ríticas ou contestações ao Sphan sem resposta.
O que se questionava então não era o tombamento de determinados tipos de
bens em detrimento de outros - ou a concentração nos tombamentos, deixando
de lado outras atividades2º - mas os critérios de seleção, autenticação e restau-
ração, ou seja, o estabelecimento de padrões que, por se aterem a exigências con·
sideradas pelo Sphan como científi cas, no entender dos críticos do Sphan deixa-
riam de atender a interesses da população, que buscava no patrimônio tombado
uma imagem da beleza e da realidade da navão.
Já para os funcionários do Sphan, a preferência pelo novo, pelo efeito de real
e pelo visualmente agradável relegava a segundo plano as exigências do rigor e
da autenticidade. A essas outras vozes e a esses outros valores. o Sphan res-

1 pondia com o compromisso de sua atuação com a verdade, e não com a opinião
ou com a aparência. Tinha-se então plena convicção não só do caráter pioneiro !

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da criação do Sphan, como também do fato de que sua importância só era evidente
para um grupo restrito de pessoas, basicamente das camadas mais cultas. Nesse
( sentido, os intelectuais do Sphan consideravam legitimo o exercício dessa auto·
~l ridade, na medida em que cabia ao Estado, naquele momento, o papel de intérprete
e guardião dos valores culturais da nação, uma vez que a sociadade ainda não
tinha alcançado a consciência desses valores. Essa concepção, como se pode
perceber, era compatível com o papel assumido pelo Estado Novo em outras es·
feras da vida social.
Foram, portanto, a noção de civilização material, que fundamentava a leitura
dos monumentos e objetos, e à qual o patrimônio tombado devia se referir, e a
interpretação que os arquitetos modernistas fizeram da arquitetura brasileira, que
justificaram os tombamentos da fase heróica. Entretanto, a análise do conjunto de
bens tombados nes·!ie período indica que outros fatores, de ordem circunstancial
e prática - como os tombamentos in extremis, 21 as preferências e critérios dos
delegados regionais, e, sobretudo, a predominância da versão modernista da his·
tória da arquitetura no Brasil sobre outros critérios de seleção - fizeram com que
o conjunto de bens tombados até o final dos anos 60 guardasse uma distância des·
sa proposta inicial. O fato é que, em função do perfil profissional preponderante
22
no corpo técnico do Sphan, em que predominavam os arquitetos, o critério de
seleção de bens com base em sua representatividade histórica, considerada a
partir de uma história da civilização material brasileira, ficou em segundo plano
em face de critérios formais e a uma leitura ditada por uma determinada versão
da história da arquitetura no Brasil - leitura produzida pelos arquitetos moder·
nistas, que viam afinidades estruturais entre os princípios construtivos do periodo
colonial e os da arquitetura modernista.

3. 4.2 A conilruçào de um rnber verdo~eiro


í '
1
Foi, portanto, relativamente aos bens imóveis dos séculos XVI , XVII e XVIII,
primordialmente de arquitetura r~\igiosa, que a instituição desenvolveu a maior
,r./~
parte de suas pesquisas, o que permitiu, ao longo do tempo, que se formulassem
critérios considerados seguros para as decisões sobre tombamento e sobre os
trabalhos de restauração. Ao lado de estudos e pesquisas de cunho acadêmico.
formulou-se assim um saber a partir da prática institucional que , embora não
tivesse caráter normativo, constituía uma jurisprudência que orientava o trabalho
da Sphan. Por isso, como veremos adiante, a mudança de orientação nos anos

O PAJRl,I\Ó~IO li\ PROCE\\O


!]]]
70·80 encontrou a instituição despreparada para valorar, proteger e justificar sua
atuação em face de novos tipos de propostas.
A produção e a divulgação desse saber era considerada então tão importante
quanto os próprios tombamentos ou obras, pois era sobre esses conhecimentos
que assentava toda a prática do órgão. Os trabalhos de inventário e de pesquisa
eram, portanto, entendidos como etapa fundamental da proteção.
Desde o início, Rodrigo M. F. de Andrade solicitava aos delegados regionais
que as propostas de tombamento fossem "instruídas pelo histórico da obra, sua
descrição pormenorizada (técnica quanto possível; sic), informações sobre seu
estado atual de conservação, assim como as alterações que tiver sofrido, refe.
rências bibliográficas que houver a seu respeito e documentação fotográfica".23
Em 1937 esses trabalhos foram feitos nos estados de Minas, Pernambuco, Paraí·
ba, Bahia, Paraná, Rio Grande do Sul e Distrito Federal, além de São Paulo. Do
que se considerava mais importante, ficaram faltando dados apenas sobre o Mara·
nhão e o Estado do Rio de Janeiro (Andrade, 1987, p. 126).
O fato é que, em setembro de 1939, fazendo um balanço das atividades do
Sphan, Rodrigo M. F. de Andrade dizia, acentuando a necessidade de o inventário
preceder ao tombamento:
Com tal objetivo, o Sphan vem exercendo atividade emtodos os estados da Fede-
raçjo, só não tendo podido alcançar nos seus trabalhos o Amazonas. Mato Grosso e
Goiás. Todavia, apesar do número já muito considerável de bens inventariados. só
foram, pelo tombamento definitivo, incorporados ao patrimônio histórico e artist::o do
pais 261 monumentos. mais seis logradouros e nove conjuntos arquitetônicos e urbanís·
ticos. (1987, p. 52)

Rodrigo M. F. de Andrade mencionava, ainda, restaurações em 38 monumen·


tos, as dificuldades para realizar o tombamento de bens móveis (limitando-se o
Sphan a "proceder ao inventário dos museus e coleções públicas e particulares
a que esses bens tenham sido incorporados''), o apoio aos museus nacionais e
a criação de novos museus, atividades voltadas para o inventário e a conservação
de manuscritos nos arquivos públicos, particutares e eclesiásticos e a preocu-
pação pela divulgação, através de exposições e publicações.
O interesse desse balanço, feito a menos de três anos de funcionamento do
Sphan, era chamar a atenção para a visão abrangente do trabalho da instituição
desde o inicio, ficando clara, porém, na prática, a necessidade de definir prio·
ridades e de reconhecer limites.

6 !A H HWÍl(J [ili]
A verdade é que, em 1936, tanto o trabalho de proteção da integridade material
dos bens quanto o conhecimento sobre esses bens, essencial para fundamentar
sua seleção e restauração, estavam ambos por ser produzidos. Havia a clara
consciência de que era necessária a construção de um conhecimento novo, espe-
cífico, mesmo em áreas já estudadas, sobre os bens que constituíam o patrimônio.
Dai a importância dos trabalhos de inventário, de levantamento de fontes de infor-
mação, de proteção de documentos, da produção de estudos e pesquisas, visando
a elaborar quadros referenciais para orientar a seleção de bens, e dassificações
para ordenar o conhecimento acumulado. A expressão "Academia Sphan", cunha-
da por Marisa V. M. Santos (1992), é, portanto, dns mais apropriadas para carac-
terizar a função que o Sphan. preencheu também no campo da produção de conhe-
cimento sobre história da arte no Brasil.24 Na medida em que, nos anos 30, a uni-
versidade brasileira 'Se limitava a escolas isoladas de direito, medicina e engenha-
ria, e apenas no correr dessa década tenham sido criados cursos superiores em
ciências humanas e sociais no Brasil, a importância desse trabalho fica ainda
mais evidente.
Havia também a preocupação de qualificar essa produção de conhecimento
como objetiva, cientifica, visando a subsidiar o trabalho de proteção e também a
"divulgar o conhecimento de arte e de história que o Brasil possyi" (Andrade,
1987, p. 92). Com essas afirmações, reiteradas nos discursos dos funcionários
do Sphan, se procurava evitar duas possíveis interpretações dos trabalhos de di-
vulgação do órgão: mais explicitamente, a de qualquer intuito de fazer propaganda
da instituição, e, indiretamente, que esses trabalhos visassem a legitimar a ideo-
logia do Estado.

3. 4.3 Um reirolo em pedro e cal


Quanto aos critérios que presidiram á seleção e à valoração de bens para
tombamento, só seria possível apreendê-los realmente a partir de uma pesquisa
nos processos de tombamento e nos estudos e pesquisas produzidos nesse perío-
do. Como já foi dito, a letra do decreto-lei n° 25, de 30.11.37 é propositalmente
genérica: sendo o tombamento um ato administrativo discricionário e não vincula-
lado (capitulo 5, cf. nota 21), as decisões são tomadas caso a caso, e bastava
muitas vezes, naquele período, apenas a autoridade do avaliador para justificá-las.
Para Sônia Rabelo de Castro, "o ato administrativo da inscrição em deter-
minado livro do tombo significa a razão preponderan!e que justificou o tomba-

O!_[] O WRl/1\ÓNIO E/1\ PROC!SSO


mento". Essa razão é, em última instância, o valor cultural tal como é discriminado
nos quatro Livros do Tombo, "nos quais as coisas poderão estar inscritas, em um
ou mais deles, separada ou agrupadamente". Do mesmo modo, é a ausência de
valor cultural suficiente que, em geral, justifica o arquivamento de um pedido de
tombamento (1991 , p. 113).
Neste trabalho, o pressuposto de que as inscrições nos Livros do Tombo.
assim como o não atendimento de um pedido de tombamento, devem ser entendi-
dos como interpretações, feitas pelo agente autorizado, do valor cultural de deter-
minado bem. Essa interpretação é progressivamente produzida, desde os traba-
lhos prévios de indicação, inventário, informação e pareceres técnicos. Em princí·
pio, ela se fundamenta nas versões do que a instituição considera como valores
culturais, e nas noções de valor nacional e de valor excepcional. Na prática, po-
rém, influem sobre essa interpretação outros fatores, de ordem ideológica e polí-
tica, tanto mais atuantes e explícitos quanto se diversificam os atores envolvidos
nesse processo.
Na fase heróica, o processo de decisão quanto à seleção e à valoração dos
bens a serem tombados era conduzido quase exdusivamente pelos funcionários da
instituição ou por seus colaboradores. Raros eram, então, os pedidos de tombamen-
te originados de fora do órgão, sendo a participação de elementos externos à insti-
tuição possível apenas nesse momento do processo, o do pedido de tombamento.
O estado material do bem era determinante para o seu tombamento (ou nãu).
A justificativa mais freqüentemente alegada, nesse período, para o arquivamento
1 de um processo era o estado material precário de um bem (ruína ou descarac-
terização), seguida pela alegação de valor insuficiente.25
Na análise do conjunto de bens tombados nesse período considerarei dois
tipos de dados: de um lado, as classes de bens tombados; de outro, as inscrições
1 nos Livros do Tombo.'6
Foram tombados, até o final de 1969, 803 bens, sendo 368 de arquitetura reli-
giosa, 289 de arquitetura civil, 43 de arquiteture militar, 46 conjuntos. 36 bens imó-
veis, seis bens arqueológicos e quinze bens naturais.
Quanto às inscrições, predominavam claramente as inscrições no Livro de

l Belas Artes (LBA) (340}, seguidas pelas duplas inscrições no Livr.o Histórico e
no de Belas Artes (LH/LBA) (217).

1 A f!H HfR Ól(li lJill


Todos sabemos que foi no final da década de 1930, mais especificamente em
1938, que foi inscrito o número mais expressivo de bens (292), a maioria de
arquitetura religiosa dos séculos XVI, XVII e, sobretudo, XVIII. Salvo na cidade
do Rio de Janeiro, que, por ser então a capital da República, teve a maior parte
dos bens tombada com dupla inscrição, 27 a grande maioria dos bens de arquitetura
colonial, em Minas, na Bahia e em Pernambuco, foi inscrita apenas no LBA.
Até o final dos anos 50, eram pouco numerosas as inscrições apenas no LH,
sendo o caso, em geral, de casas múds, algumas fortalezas e ruínas. À vista des-
ta constatação, !talo c.;ampofiorito diz que "os livros, que deveriam servir para
classificar os bens culturais, foram pouco a pouco se hierarquizando" (1985, p.
34). Ou seja, embora não fosse admitido explicitamente, na prática, o Livro His-
tórico, e também, em certa medida, o Livro Arqueológico, Etnográfico e Paisagís-
tico, terminaram por servir para abrigar aqueles bens que, por falta de maior inte-
resse estético, ou por ~e acharem adulterados ou parcialmente destruídos, não ti-
nham condições de atender às exigências para inscrição no Livro de Belas Artes.
A autenticidade desses bens era assegurada pela fidedignidade das fontes docu-
mentais que atestassem seu valor enquanto documento.
O que quero dizer é que, se houve uma preocupação de elaborar critérios para
a avaliação do valor artístico dos bens, o mesmo não pode ser dito em relação
ao valor histórico. A consideração do valor histórico de um bem, segundo se pode
depreender do parecer anexo de Carlos Drummond de Andrade (Anexo li), era
fsita com base na letra do decreto-lei nº 25, de 30.11.37. E mesmo bens que indi-
cavam claramente um valor histórico - como as Ruínas de São Miguel (RS) -
foram inscritos em 1938 apenas no LBA. Creio que esse panorama se deve a
vários fatores.
Em primeiro lugar, esses dados vêm confirmar o fato já amplamente comentado
,, de que a constituição do patrimônio no Brasil foi realizada a partir de uma pers-
pectiva predominantemente estética. Inclusive, praticamente não havia historia-
dores no quadro de funcionários do Sphan, tendo ficado a Seção de História entre-
gut:: a pessoas, como Carlos Orummond de Andrade, que, apesar de seu inegável
vaiar intelectual, não era um especialista na matéria. Não havia, então, por parte
do Sphan, a preocupação de incorporar os avanços da historiografia nacional e
internacional.
Em segundo lugar, tendo a supor, com base na rápida análise das inscrições,
e nos depoimentos de funcionários mais antigos, que o rigor nas inscrições não
era uma preocupação importante nas primeiras décadas de funciona mento do

Dill O PAlRl/liÓNIO IM PiOWIO


Sphan. O principal objetivo era assegurar a proteção dos bens pelo ato jurídico
do tombamento. Mas a prioridade nas inscrições no LBA mostra que, na urgência
em proteger. essa era a afinidade eletiva dos agentes do Sphan em termos de va-
loraçã o.
Em terceiro lugar, alguns dados levam a supor que a decisão sobre as ins-
crições muitas vezes era tomada por quem propunha os tombamentos, ou pelos
autores dos inventários. obedecendo a seus critérios pessoais. Esse parece ter
sido o caso das quarenta inscrições de bens de arquitetura religiosa dos séculos
XVII e XVIII, em Sergipe, na medida em que 39 são duplas inscrições, enquanto
que, na mesma década, no Pará, cinco igrejas do século XVJtl foram tombadas
apenas por seu valor histórico.
Já na década de 1960, a prioridade das inscrições transferiu-se para o Livro
Histórico, o que não pode ser atribuído, segundo foi possível averiguar, á inclusão
de novos tipos de bens. Chama a atenção o fato de que, mesmo bens que,
conforme indicação de Maria Elisa Carrazzoni (1989}, foram tombados em função
basicamente de seu valor artistíco, tenham sido inscritos apenas no LH. É o caso
do Teatro Amazonas, em Manaus (AM), da Casa dos Azulejos e do Sobrado do
Barão dos Dourados, em Campinas (SP). da Casa Azul, em Sabará (MG), das
igrejas de Paratí (RJ), de todos os bens tombados, na década de 1960, em
Alagoas e no Rio Grande do Norte etc. Como não consegui, junto aos funcionários
entrevistados, elementos para explicar essa mudança de orientação, fica a obser-
vação para ser futuramente investigada.
Quanto aos estilos de época, havia também uma hierarquização. O barroco
era o estilo mais valorizado, sendo seguido pelo neoclássico. A arquitetura moder-
na, que foi introduzida no Brasil em 1928, já em 1947 teve seu primeiro exemplar
tombado - a Igreja de São Francisco de Assis, na Pampulha, em Belo Horizonte,
Minas Gerais, de autoria de Oscar Niemeyer. Ainda nesse período foram tomba-
dos o prédio do MEC (1948), a estação de hidroaviões do Rio de Janeiro, de
autoria de Atilio Correia Lima (1957), e a Catedral de Brasília, também de Oscar
Niemeyer (1967). Quanto ao es tilo eclético, a ovelha negra da arquitetura brasi-
leira aos olhos dos arquitetos modernistas, apesar de sua importância histó-
rica como estilo característico da Primeira República. só foram então tombados

i
três imóveis, e mesmo assim exclusivamente por seu valor hlstórico. 28
Essa visão normativa da arquite tura brasileira que predominava no Sphan
acabou influenciando tart,bém uma outra área - a restauração - em que a insti -
tuição era extremamente cuidadosa com o rigor nos procedimentos e com a au-

AIASE HERÓICA UF p~i. i ·· .:__'.BLJU\t\..Jt'~. ~·À l1S


DE. C\t.NC\;..S soc\~.\S
fi
tenticidade nas informações, na medida em que as partes restauradas deviam ficar
claramente marcadas. Em seu trabalho Um estado completo que pode jamais ter
existido, Antônio Luís Dias de Andrade (1993) demonstra como o apego de Luís
Saía a suas teses sobre o que "deveria ter sido" a arquitetura colonial paulista
acabou interferindo indevidamente nas restaurações feitas pelo Sphan em imóveis
no Embu, em São Roque e em Atibaia, São Paulo, conforme foi comprovado pos-
teriormente, com a descoberta de documentos relativos às construções restauradas.
Resumindo a anàlise dos critérios de constituição do patrimônio pelo Sphan
na fase heróica:
1) o principal instrumento de legitimação das escolhas realizadas era a auto-
ridade dos técnicos, sendo desnecessàrio formular justificativas mais elaboradas.
2) prevaleceu nitidamente uma apreciação de caráter estético, baseada nos
cãnones da arquitetura' modernista.
3) a consideração do valor histórico dos bens não er~ objeto de maior atenção,
a não ser relativamente à autenticidade das fontes. ·
4) na verdade, a prioridade era assegurar a proteção legal dos bens através
de sua inscrição nos Livros do Tombo, ficando em segundo plano a questão do
critério nas inscrições.

3. 5 ÜS COLABORADORES E OS AOVERIÁRIOS

3.5.1 Opapel da equipe e do Comelho Comullivo


Na legitimação dos trabalhos de constituição e de proteção do patrimônio
desenvolvidos pelo Sphan, foi fundamental o espírito de equipe que marcou a
relação dos funcionários entre si, e do .Sphan com o Conselho Consultivo.
A equipe reunida por Rodrigo, em que predominavam "arquitetos, artistas plás-
ticos, pesquisadores, fotógrafos, engenheiros" (~EC/Sphan/FNpM, 1980, p. 29),
se caracterizou, entre outros aspectos, por sua coesão em torno de um projeto.
Seus integrantes foram arregimentados principalmente por Rodrigo M. F. de
Andrade e por Lúcio Costa com base am afinidades intelectuais, além das qualifi-
cações técnicas e pessoais alegadas. Aos arquitetos, que têm predominado no
l
corpo técnico, juntaram-se, duas décadas mais tarde, os museólogos, e só recen-
temente, historiadores e cientistas sociais.

~ O PAIW\ÓNIO O\ PROCBI ~
Do ponto de vista de um projeto intelectual - enquanto tomada de posição
relativamente a uma concepção de história e de arte - os integrantes do Sphan,
mais ou menos afinados com o credo modernista, propunham a reelaboração do
que seria a tradição cultural brasileira, recusando tanto a cópia (neo) quanto a mis-
tura (ecletismo) de estilos pretéritos. A afinidade estrutural (e não apenas visual,
de efeito, como no caso da arquitetura neocolonial) da arquitetura moderna com
as técnicas construtivas tradicionais era demonstrada para erigir esses dois esti-
los nas manifestações mais autênticas da arquitetura brasilaíra.29
Nessa linha, a autoridade de Rodrigo M. F. de Andrade e, sobretudo, a de
Lúcio Costa, considerado o teórico do grupo, era aceita sem maiores dificuldades.
Essa impressão de coesão interna do grupo em tomo de princípios e critérios é
ratificada por depoimentos de integrantes da equipe nesse período, e pode ser
resumida em uma frase de Sílvio de Vasconcelos, em 1977, para quem "jamais
um equivoco se pratioou ou uma desarmonia se instalou" (apud Santos, 1992, p.
338). O que não significa que não tenham ocorrido discordâncias, como no caso
do Hotel de Ouro Preto, quando o projeto de Ca~os Leão foi preterido pelo de
Oscar Niemeyer, com o apoio de Lúcio Costa (cf. Cavalcantí, 1993, p. 174-182).
Nos termos da legislação em vigor, o órgão deliberativo do Sphan é o Con-
selho Consultivo. Criado pela lei ng 378, de 13.1.37, o Conselho Consultivo do
Sphan era, então, composto pelo diretor do Sphan, pelos diretores dos museus
nacionais e por dez membros nomeados pelo presidente da República. Os manda-
tos eram vitalícios e a função não-remunerada. Os relatores dos processos eram
escolhidos pelo presidente do conselho e as decisões tomadas por maioria de
votos.
A composição do conselho era, desde a sessão inaugural, em 10.5.38, bas-
tante heterogênea: era integrado por especialistas de diversas áreas (além de his-
toriadores, arquitetos e artista s plásticos, havia escritores, etnógrafos, geólogos.
juristas etc.) e conhecedores dos acervos dos diferentes estados do Brasil. Pre-
dominava, no entanto, um perfil conservador. Vários membros do conselho integra-
vam também os quadros de outras instituiçõe s culturais, como a Academia Brasi-
leira de Letras, o Instituto Histórico e Geográfico e o Conselho Federa! de Cultura.
No período que vai de 38 a 69, o Conselho Consultivo realizou 52 sessões
(contra 86 sessões, no período de 70 a 90). Pode-se perceber, pela análise das
atas, que, do mesmo modo que o Sphan, o Co:iselho Consultivo sempre procurou
se afirmar como foro imu~e a pressões externas, recusando sistematicai;;ente as

A FA\l H[, Ó/CI lJ.!lJ


impugnações, 30 protestando veementemente, a partir de 1941 , contra os cance-
lamentos feitos pelos presidentes da República,3 1 e demonstrando, desde o início
de suas atividades, um leque de preocupações mais amplo que o de suas atri-
buições especificas (o julgamento de impugnações a tombamentos compulsórios
e de tombamentos voluntários).32 Já na sessão inaugural, por exemplo, o conse-
lheiro Roquete Pinto, diretor do Instituto de Cinema Educativo, se propôs a pro-
duzir filmes destinados a propagar o conhecimento do patrimônio nacional. E, na
primeira reunião extraordinária. o Conselho Consultivo deliberou que, embora não
estivesse previsto no decreto-lei nQ 25, de 30.11 .37, qualquer cidadão (e não ape-
nas os proprietârios dos bens) podia, em nome do interesse público, requerer tom-
bamento.
A não ser por raras declarações de voto, as decisões do Conselho costu-
mavam ser tomadas por unanimidade, ratificando as propostas e pareceres téc-
nicos encaminhados pelo Sphan. Aliás, a relação entre o Sphan e seu Conselho
Consultivo era curiosa: de um lado, desde o início era afirmada a autonomia de
um em relação ao outro, apresentando-se sempre como duas entidades distintas
e autônomas; de outro, percebe-se urna evidente sintonia de ambos na defesa dos
mesmos princípios e critérios. e, sobretudo, do decreto-lei nQ 25. de 30.11.37.
Mesmo as eventuais discordâncias se justificavam como defesas mais 'cautelosas
do texto, que era o pilar, não só do Sphan corno dos tombamentos realizados. Por
outro lado, o Conselho Consultivo admitia, quando julgava oportuno, soluções_de
compromisso, como no caso de permitir construção sobre o Arco do Teles, após·
a vitória do Sphan no STF (1sa sessão).
O Conselho Consultivo, enquanto representação da sociedade junto ao Sphan,
teoricamente vinha legitimar a orientação imprimida pelos técnicos do órgão à
proteção do patrimônio nacional. Na prática, porém, dada a sua composição -
restrita ao meio intelectual e, especificamente, à área cie humanidades e ás dis-
ciplinas que eram então relacionadas com a proteção de bens culturais, a arqueo-
logia, a museologia e a etnologia, por exemplo - e à forma como eram sele-
cionados seus membros, o alcance social dessa forma de legitimação ficou bas-
tante limitado. 1
3.5.2 A, vow dúcordanfe,
A impressão que se tem desse período é de que a instituição se unia contra
os inimigos externos - proprietários de bens tombados ou propostos para tom-

! 118 1 O P61R l~ÔHIO Ui PROC!!SO


bamento, intelectuais que se sentiam preteridos pela instituição. membros da
Igreja católica, outros setores do governo, e a própria massa, que Rodrigo M. F.
de Andrade considerava ainda não consciente do valor do patrimônio. Como ob-
serva Ângelo Osvaldo de Araújo Santos, nesse peííodo o Sphan se via "às turras
com prefeitos e vigários, briguentos predecessores da aparatosa especulação imo-
biliária de nossos dias" (Andrade, 1987, p. 7). Os conflitos ocorriam basicamente
em relação aos limites entre o público e o privado. Mas, para Rodrigo M. F. de
Andrade, os conflitos mais complexos se davam entre as diferentes esferas do
poder público, pois,

Se em relação aos particulares esses mesmos princípios resolvem facilmente as


dificuldades, fazendo prevalecer o interesse da coletividade sobre os interesses
econômico-individuais, toma-se em certos casos muito difícil disciplinar, por uma
hierarquia de valores, os diversosinteresses públicos que porventura entrem em choque,
uma vez que sucede serem estes estranhos uns aos outros e obedecerem, por isso
mesmo, a diretrizes gerais diversamente orientadas. (1987. p. 53)
Rodrigo M. F. de Andrade reconhecia também os limites da atuação do Sphan,
enquanto órgão federal, na tarefa de preservar - no sentido de proteger os bens
culturais. Já em 1939 apontava para a importância do poder municipal na tarefa de
preservação "pois ao município é que incumbe a realização de planos urbanísticos,
o traçado e abertura de ruas e demais logradouros públicos, bem como a fixação
e fiscalização da observância das normas e prescrições relativas às novas edifi-
cações, normas essas que podem ser gerais ou especiais para detenninadas zonas
urbanas" (Andrade, 1987, p. 54).
No meio intelectual, em que a hegemonia dos modernistas já se havia consoli-
dado. sobretudo nas áreas mais afetas ao patrimônio, a reação ao trabalho exe-
cutado pelo Sphan era, em geral, de pleno apoio e entusiasmo - como no grupo
católico liderado por Alceu Amoroso Lima - ou. pelo menos de aceitação passiva.
As críticas partiam principalmente de grupos ou indivíduos que haviam sido pre-
teridos em suas pretensões de assumir o órgão - como Gustavo Barroso e José
Mariano (filho) - e se expressavam sobretudo em denúncias quanto a supostas
irregularidades na gestão dos recursos públicos. Essa era a face mais visível e
combativa de um ponto de vista conservador, que falava em nome de uma cultura
de aparência. sem maiores compromissos com o rigor e a pesquisa. nem com a
autenticidade do que devia ser protegido. Exatamente o tipo de cultura a que os
modernistas vieram :;e contrap0r. Foi a essas pessoas que Rodrigo M. F. de An-
drade se referiu quando disse que

AFAS! HERÓI(~ [ili]


(...) para muitas pessoas menos informadas, cabe ao Serviço do Patrimônio apenas a
restauração de obras históricas. Dai, as freqüentes acusações que recebemos. quan-
do um prédio de reconhecldo valor histórico tem a aparência de um 'pardieiro" (esta
é a expressão mais comumente usada por aqueles que nos censuram). Mas não é a
aparência que importa. Ao contrário, o mais importante é a conservação da integridade
do monumento, isto é, a proteção das características primitivas, do ambiente adequado.
(1987, p. 39)
A essas críticas, que vinham de figuras também identificadas com a causa do
patrtmônio, como era o caso de Augusto de Lima Júnior, Rodrigo ivi. F. de Andrade
respondia incansavelmente e com i.ndignação através da imprensa e, de forma
mais sutil, em artigos e prefácios. Foi a essa postura, que considerava irrespon-
sável e demagógica, que Rodrigo M. F. de Andrade aludiu no final do prefácio a
Mocambos do Nordeste:
O Serviço do Patrimônio Histórico e Artistíco Nacional se empenhará no sentido
de impedir que a literatura enfática ou sentimental. peculiar a certo gênero de amadores,
se insinue nestas publicações. Por este meio, não interessa divulgar páginas literárias.
ainda que brilhantes. O que interessa é divulgar pesquisas seguras, estudos sérios e
trabalhos honestos e bem documentados acerca do patrimônio histórico e artístico
nacional. Estas publicações não têm outra finalidade. (1987, p. 95)

Tratava-se, portanto, de desenvolver na instituição um padrão de , trabalho mo-


derno, nos moldes dos países civilizados e de tradição cultural sedimentada, e
que pudesse ter alcance universal. Esse objetivo era aceito sem discordâncias
entre os funcionários do Sphan na fase heróica, ainda que pudessem ocorrer diver·
gências em torno de critérios de trabalho. Foi, inclusive, a definição clara aesse
obietivo - marcadamente cultura! e aparentemente apolítico - que facilitou o acesso
do Sphan à colaboração de intelectuais dos mais variados matizes ideológicos.

3.6 UM AUlONOMIA FRACA

Duas observações de Daniel Pécaut resumem as relações entre o Estad o e


os intelectuais no Estado Novo:
O Estado, apresentando-se como responsável pela identidade cultural brasileira,
desejava realizar a unidade orgânica da nação e recorria aos intelectuais para alcançá-
la. (1990, p. 59)
O Estado não conhecia outra P-xpressão da opinião pública exceto a representada
pelos intelectuais. Vale dizer que o Estado atribuía, de fato, três papéis complementares

O PATRIMÓ NIO EII. P.0[!110


[J1Q_j
aos intelectuais: concorrer para a definição das finalidades da ação política, expressar
a presença da sociedade civil e dar o exemplo de ator social coletivo. (1 990, p. 73)

Os intelectuais exerceram, portanto, durante o Estado Novo, um papel político


fundamental na construção da nação, e, no caso das instituiçóes culturais, atuavam
como organizadores da cultura, como mediadores entre o Estado e a sociedade,
entre a cultura e o povo. A criação de instituições culturais sólidas era parte do
que consideravam sua missno política. Esse sentido de missão partia, segundo
Carlos Sandroni, da "consciência, por parte dos intelectuais, do baixíssimo nível
de integração das modalidades de ciência e cultura de que eles são os agentes
e portadores à realidade social de seu país" {1988, p. 88}.
Tanto os intelectuais - inclusive os modernistas - como os poli!icos do Estado
Novo entendiam o povo como a massa, sem canais próprios de exp ressão. Os
intelectuais modernistas, no entanto, e Mário de Andrade, sobretudo, valorizavam
positivamente o povo, reconhecendo na criatividade das manifestaçóes populares
a presença viva e dinâmica de nossas raízes culturais. Esse é o conceito de "tra-
dições móveis", elaborado por Mário em O turista aprendiz (1976).
Na medida em que o Sphan foi um dos braços do ministério de Capanema,
era inevitável algum grau de compromisso entre os intelectuais que atuavam na
instituição e o regime. Suponho que esse compromisso se exprimia basicamente
numa demarcação de limites e numa relação de reciprocidade: ou seja, a auto-
nomia de que gozava o Sphan dentro do MES tinha como contrapartida implícita
o não envolvimento daqueles intelectuais em outras esferas do governo, inclusive
aquelas - como a censura e a propaganda - que, em princípi o, afetavam pro-
fundamente a vida cultural. Esse compromisso, na verdade, não era tão prob!e·
mático em função dos objetivos que o Sphan se propunha alcançar e dos próprios
limites do autoritarismo no Estado Novo. Sobre essa situação, diz Daniel Pécaut:

Por mais desejoso que estivesse o regime de inculcar o patriotismo e a "doutrina


de Estado" (Vargas, 1938), ele permaneceu, afinal, reservado quanto aos excessos de
ideologia e de controle. Já vacilava quando se tratava de militarizar a juventu~e. Com
mais razão se preocur~va emdeixar um espaço para uso dos intelectuais que. em sua
aspiração á brasilidade, se pusessem, por iniciativa própria, a serviço da reconstrução
do Brasil. (1990, p. 73-74)

Essas observações ajudam a entender a especificidade do Sphan na buro·


cracia do Estado Novo: ou seja, o alto grau de autonomia da instituição dentro
de um Estado centralizador e autoritário; o caráter extremamente especializado

AIAS! HERÓICA l.JBJ


de sua atividade dentro de um Estado que eventualmente recorria à cultura para
-, a mobilização das massas; e a ênfase em valores universais em um momento em
que a afirmação de uma cultura nacional visando a emular o civismo e a adesão
ao regime era parte crucial do projeto ideológico do Estado.
A autonomia de que o Sphan gozou duránte o período getulista pode ser inter-
pretada como sinal do pouco interesse político que o serviço tinha para o governo
federal, na medida em que constituía um recurso bastante limitado - d2'.las as
característic2'.: da sociedade brasilpir:,i na época - para a mobilização popular. O
principal interesse político, para o governo getulista, em manter um seiviço nos mol-
des do Sphan, abrindo espaço no aparelho estatal e alocando recursos públicos,
era, provavelmente, a possibilidade de cooptar intelectuais de prestigio, cujas ma-
nifestações tinham repercussões junto à opinião pública - que, naquele período,
era restrita, nesse caso, às classes mais altas e intelectualizadas. As classes
trabalhadoras haviam sido cooptadas pala política trabalhista do governo. Essa
suposição pode ser confirmada na leitura de um discurso de Getúlio Vargas, pro-
ferido em 1951, na então Universidade do Brasil, em que discorre sobre a relação
dos intelectuais modernistas com seu projeto político:
As forças coletivas que provocaram o mo,~mento revolucionário do modernismo na
literatura brasileira (... ) foram as mesmas que precipitaram, no campo social e P,Olitico,
a revolução vitoriosa de 1930. A inquietação brasileira (... ) buscava algo de novo, mais
sinceramente nosso, mais visceralmente brasileiro.( ... ) arenovação dos valores literários
e artísticos, de um lado, a renovação dos va!ores políticos e das próprias instituições .
(... ) se fundiram num movimento mais amplo, mais geral, mais completo, simul-
taneamente reformador e conservador, onde foram limitados os excessos, (... )
harmonizadas as tendências mais radicais e divergentes. (... ) Tive ao meu lado as
gerações novas do Brasil, que, em todos os setores da inteligência e da cultura,
procuravam novas formas de convivência e novas expressões para valores antigos, (... )
Porque nunca pretendi favorecer reformas que não tivessem raízes nas aspirações mais
profundas e mais constantes da colei;vida~~ e que não exprimissem um consórcio
pacífico de evolução e tradição. (A~ud Oliv~ra. 1980, p. 2)
Essa imagem de harmonia e de consonância de interesses entre o governo
e os intelectuais, obviamente extremamente simplificadora, é importante no sentido
de evidenciar a percepção que o governo autoritário tinha da vantagem de acolher
os intelectuais modernistas. A seus olhos. um serviço como o Sphan, se não era
propriamente útil a seus objetivos imediatos, ideologicamente contribuía para rati-
ficar uma imagem de coesão social em torno de um projeto nacional.

O PAlR!I\ÔNIO EI\ PROUISO


OhJ
Como se pode deduzir do discurso ds Getú!io, o grande interesse do Sphan
para o governo consistia no reforço ao processo de cooptação das elites, em dois
sentidos: de um lado, abria-se um espaça no governo que possibilitava a intelec-
tuais acesso a funções remuneradas e ao abrigo de imposições ideológicas: de
outro, a consagração de bens de arte erudita como patrimônio nacional contraba-
lançava a imagem de um governo que recorria a conteúdos culturais para a per-
suasão ideológica. Além disso, a criação de um serviço como o Sphan, instituição
pioneira na América Latina e que, rapidamente, alcançou grande prestígio no exte-
rior, inseria o Brasil no conjunto das nações civilizadas.
Já os intelectuais do património, que tinham em vista um objetivo a longo prazo -
a defesa de valores universais, da arte e da cultura, e um nacionalismo antes
cultural que político - viam na ordem imposta pelo Estado Novo a possibilidade
de criarem instituições culturais sólidas, que implantassem padrões cu:tos de co-
nhecimento, superando a tradlção diletante do intelectual brasileiro. E viam nesse
projeto um ]negável alcance em termos do "interesse público". A experiência do
Departamento de Cultura de São Paulo, por outro lado, mostrara os limites e cha-
mara a atenção para a prudência necessária, naquele momento, a esse trabalho.33
Silviano Santiago (1989) considera que a trajetória de Mário de Andrade é
exemplar no sentido de apontar a ambivalência dos modernistas da década de
1920 em relação à política. Durante o Estado Novo, já era possível disfü1guir entre
os modernistas uma primeira geração ancorada rios valores éticos da "verdade"
e do "interesse público", numa concepção da nacic,rialidade que tenta compa-
tibilizar o universal e o particular, na crença em que é passivei atuar em um
Estado autoritário tendo como objetivo a criação de instituições sólidas, e de uma
segunda geração, com uma visão politizada da realidade brasileira, comprometida
com o povo, e que atuava através do engajamento partidário.
Diz Silviano Santiago, citando urna entrevista de Mário de Andrade, em 1934:
"Os novos ainda buscam a 'verdade', fi:~.os qloe são do 'falido espirita burguês
liberal'. Já os novíssimos, filhos das 'e ,ersas ditaduras socialistas ou fingida-
mente socialistas de agora', já não se ir:e~ess,;11 (clercs traidores que são) pela
busca da verdade, mas buscam uma 'le " (1~E:l, p. 170).
Esta última era a posição de Gracilie::o R2~·os e de Jorge Amado, que, pela
radicalidade de suas posições, foram persegu:;;cs pelo Estado Novo.
O preço d8 consolidação do Sphan era, ponan!o, o seu isolamento dentro do
governo e a distância (mas não hostilidade) de setores emergentes mais radicais

A!AH HERÓICA L!QJ


da intelectualidade, o que lhe custou, a longo prazo. mantido esse modelo de atua-
ção, mesmo em períodos democráticos, um distanciamento da própria sociedade.
Considero que as conseqüências da manutenção desse modelo, ao longo de trinta
anos - e mesmo durante períodos democráticos - provocarain muitas das críticas
feitas à instituição, sobretudo de dentro do próprio Estado, a partir do fina\ dos anos
60, pois se essa estratégia foi bem sucedida na fase heróica, fazendo do Sphan
uma instituição atípica e modelar no serviço público brasileiro, que realmente
gozou de inusitada continuidade em sua administração, por outro lado, o reconhe-
cimento da dimensão social de seu trabalho ficou limitado a setores restritos da
intelectualidade, jamais despertando maior interesse de grupos ou partidos políti-
cos. Para analisar esse fato, retomarei a comparação entre as con cepções de
Mario de Andrade e as de Rodrigo M. F. de Andrade sobre a atuação dos intelec-
tuais na área da p9li,tica cultural.
A colaboração dos diversos setores da sociedade era, des.de o início do Sphan,
considerada fator imprescindível para o sucesso da proteção ao patrimônio. Para
isso, os meios legais e mesmo a legitimidade alcançada pela instituição não eram
suficientes. Nesse ponto, Rodrigo M. F. de Andrade concordava com Mário de
Andrade: o único meio eficaz para criar na população um sentido do patrimônio
era a educação popular. Pois, se o contato com os monumentos for integrado ao
processo educativo, "o impulso de preservá-los será quase instintivo" (Andrade,
1987, ;::,. 54). E concordava também com o apelo que a história exerce sobre "as
massas":
Só do convívio com os monumentos e com sua história poderá nascer a estima
sincera que eles devem inspirar. Esse sentimento será como o de apego às pessoas
e zs coisas familiares. (Andrade, 1987, p. 54)

Mas, à diferença de Mário de Andrade, que, em sua atuação como homem pú-
oiico não dissocíava produção e coletivização do saber, o Sphan !imitava-se ao
estrito cumprimento do que considerava de sua competência - a proteção de bens
e a ~,odução e divulgação do saber necessário ao exercício dessa função. através
dos 2,ocedimentos usuais no meio científico: publicações, conferências, cursos
etc. )eixava para outros a tarefa de "educação das massas". Se, para Mário de
Andr::·:1e, a preocupação de socializar o saber era um imperativo ético, com raízes
proh;ndas na sua formação cristã (cf. Lopez, 1972), Rodrigo M. F. de Andrade e
seus colaboradores, embora considerassem essa tarefa imprescind ível ao su-
cesso da proteção, fizeram do Sphan, por razões de estratégia política e também

om O PAl W\ÔN IO \/1, PiOCE\10


de princípio, uma instituição eminentemente técnica, que desenvolvia um trabalho
_ altamente especializado e de grande responsabilidade científica e social. na medi-
da em que era juridicamente respon sável pela constituição do patrimônio histórico
e artistico nacional e penalmente responsável pela proteção dos bens tombados.
Pode-se supor que tenham contribuído para a adoção dessa postura, prudente
e também tática, dois fatores: em primeiro lugar, a experiência dolorosa de Mário
de Andrade, que, ao ser destituído no Departamento de Cultura, de sua função de
dirigente do órgão e de diretor da Divisão de Expansão Cultural, viu que sua
divisão foi a primeira a ser tomada por "elementos estranhos, despidos de qualquer
formação cultural e de gosto" (Duarte, 1977, p. 68), pondo em perigo dois anos
de trabalho intenso e de total entrega. Em segundo lugar, como já mencionei, a
área de educação era a mais politizada do MES, e era o instrumento a que recorria
o Estado para "conquistar milhares de cidadãos para a pátria" (Schwartzman et
ai., 1984, p. 73). O projeto educacional do Estado Novo, como dizia Lourenço
Filho, tinha como "fito capital homogeneizar a população, dando a cada nova
geração o instrumento do idioma, os rudimentos da geografia e da história pátria,
os elementos da arte popular e do folclore, as bases da formação cívica e moral,
a feição dos sentimentos e idéias coletivos, em que afinal o senso de unidade e
comunhão nacional repousam" (Schwartzman et ai., 1987, p. 75).
Ora, a oposição á instrumentalização da cultura para fins ideológicos e a preo-
cupação com a consirução de uma cultura nacional autêntica - que implicava uma
dimensão critica da produção intelectual e artística - foram desafios que os mo-
dernistas haviam enfrentado e com que os modernistas do Sphan continuavam
engajados.
Só restava, portanto, aos funcionários do Sphan se afastarem dos canais de
que o Estado dispunha, naquele momento, para a difusão, junto à população, da
cultura e do trabalho que produziam. Essa era, inclusive, uma dimensão do traba-
lho que consideravam não ser da competência da instituição. Nesse sentido, à di-
fe rença do que ocorreu na França, por exemplo, cujo sistema educ-"!cional público
tinha como uma de suas missões mais importantes divulgar a "civ:lização france-
sa", com braços inclusive no exteríor,34 no Brasil o trabalho dos intelectuais que,
com o maior rigor e competência e contando com recursos de grande visibilidade
1
social, como os bens tombados, construíram uma versão da formação de uma
"cívi!ização brasileira", ficou restrito a uma instituição cujo trabalho é conhecido
e tem sido valorizado apenas nos meins mais intelectu alizados.
1
illIJ
1
í
A f AH HERÓI( J
( É licito, até, supor que o prestígio alcançado pelo Sphan durante o Estado
, Novo - prestígio esse que se manteve também nas décadas seguintes - se deveu
.~ não tanto ao reconhecimento do trabalho realizado, conhecido e valorizado por
poucos, mas sobretudo ao fato de a instituição e seu diretor terem se tornado
slmbolos de um padrão ético de trabalho dentro do serviço público brasileiro.
Esse padrão assentava, de um lado, em uma ética do saber: o compromisso
irrestrito com a autenticidade dos objetos e a verdade do conhecimento produzido
sobre eles; e, de outro, em uma ética do fazer, expressa na defesa do interesse
público acima de interesses particulares e mesmo de um governo, na mais ab-
soluta honestidade e transparência na gestão dos recursos públicos e na devoção
completa e desinteressada de uma equipe ao trabalho na instituição.
Esse capital ético, que foi fundamental para a legitimação social do Sphan e
da questão do patrim?nio nos anos heróicos, foi sendo, com o passar dos anos,
progressivamente desgastado por uma série de circunstâncias, em função de mu-
danças no contexto político, social, cultural e também econômico do pais.
A aposentadoria de Rodrigo M. F. de Andrade, em 1967, quando foi sucedido
pelo arquiteto Renato Soeiro, corresponde ao final do que se convencionou chamar
a fase heróica da instituição, marcada por batalhas em que Rodrig o tinha por
armas, segundo Carlos Drummond de Andrade, "umas leis desconhecidas ou des-
prezadas por todo mundo, a diplomacia no trato, e, finalmente, a justi ça". E,
conforme o consenso entre vários intelectuais que se manifestaram na ocasião,
se algumas batalhas foram perdidas, a guerra, no essencial, havia sido ganha (cf.
Dphan, 1969).
Os recursos a que recorrera o Sphan de Rodrigo - a que se juntavam a sólida
formação intelectual e o prestigio, nacional e internacional, da instituição e de seus
funcionários - serão considerados insuficientes para enfrentar os novos desafios e
os novos interesses que, a partir dos anos 70, se vão apresentar à política federal
de patrimônio. Analisar esse novo panorama, e o quadro institucional que a partir
dele se compõe, é o objetivo do próximo capitulo.

No161

Pa ra uma apresentação resumida do contexto político das décadas de 1920 e 1930 no Brasil,
ver Rachum (1970).
'Uma coisa dessas seria impossível no Rio. onde não existe aristocracia tradicional mas
apenas alta burguesia riquíssima. E esta não podia encampar um movimento que lhe

[TIIJ O PA!WIÓN IO E~ PROCtS IO


destruía o 6Spirito conse(\lador e conformista. A burguesia nunca soube perder, e é isso
que a perde. Se Paulo Prado, com a sua autoridade intelectual e tradicional, tornou a peito
a realização da Semana, abriu a lista das contribuições e arrastou atrás de si os seus pares
aristocratas e mais alguns que a sua figura e vaiou. Tanto a burguesia de classe como
a de espirita." (Andrade, 1972, p. 237)

Néstor Garcia Canclini considera que esse é um traço comum às ex-colônias óa América
Latina. Diz ele: "A laicização não foi acompanhada, como na Europa, por um forte mercado
cultural. Longe de poder configurar projetos criadores individuais, os artistas foram
empregados para construir a iconografia da s gestas de liberação e dos processos de
constituição das nações." (1984, p. 154)

As idéias de·Antonio Candido apresentadas a seguir estão nos seguintes artigos: ·o escritor
e o público', "Letras e idéias no periodo colonial" e 'literatura e cultura de 1900 a 1945•
(1967), e 'A Revolução de 1930 e a cultura" (1987).
A análise de Antonio Candido temcomo base duaspramissas: 1) a consideração da literatura
como sistema, de que fazem parte autor, obra e público; 2) o entendimento de que a
produção literária não é fruto do gênio criador, da inspiração individual, nemtalJl)Ouco mero
reflexo do "meio. raça ou momento"; é elaboração artística, resultante da relação dialética
entre aqueles três pólos. Con;,ciente ou inconscientemente - esse aspecto é irrelevante para
o raciocínio de Antonio Candido - a produção literária traz as marcas das condições de
sua produção, "não como causa, nem como significado, mas como elemento que desem-
penha um certo papel na constituição da estrutura, tornando-se, portanto. inlemo" (1967,
p. 4).
As idéias de Eduardo Jardim de Moraes apresentadas a seguir foram expostas no livro A
brasilidade modernista (1 978) e no artigo 'Modernismo ,evisltado" (1988, p. 220-238).

O escritor Silviano Santiago, no artigo 'Apesar de dependente, !.!niversal" (1982), propõe uma
elaboração desta problemática herdada do modernismo.

D. Judith Martins (MinC/ Sphan /FNpM, 1988, p. 9) cita especificamente o episódio em que,
como reação à maneira autoritária com que o presidente Jânio Quadros encaminhou a
Rodrigo Melo Franco sua decisão favorável ao destombamento da Santa Casa de
Misericórdia de Campos (RJ). o diretor do Sphan lhe encaminhou um pedido de demissão
- que, obviamente, não foi aceito.

Sobre a proto-história do Sphan, ver MEC/Sphari/FNpM (1980), Rubino (1991) e Santos


(1992).
10
O Sphan iambém produziu seu mito de origem na leitura da iniciativa do conde de Galvêas,
vice-rei do Brasil que, em 1742, expediu ·ao governador da capitania de Pernambuco o
primeiro documento administra!ívo visando à proteção de uma edificação integrante do
patrimônio hi stórico brasileiro' (Andrade, 1987, p. 66).

A rrn HERÓJ(j
ITill
" Esses aspectos foram muito enfatizados nas entrevistas com Lúcio Costa e com ligia
Martins Costa.
12 Ver as interpretações de Vera Milet (1988, p. 14), Mário Chagas (IBPC. 1991, p. 103) e
Silvana Rubino (1991 ), entre outras.
13 Entretanto, como bem observa Silvana Rubino, essa concepção ampla de arte não foi
assimilada pelos leitores do anteprojeto. A autora se refere a um trecho da exposição de
motivos de Capanema em que o ministro solicita a Mário de Andrade que inclua a expressão
histórico, ao lado de artfstico, para que 'ao invés de se tratar somente de arte histórica,
se cogite de lodo o patrimônio histórico, artístico ou não' 11991, p. 88-89).
14 Os principais museus regionais criados pelo Sphan foram: Museu das Missões (Santo
Ângelo, RS), Museu da lnl:onfidência (Ouro Preto. MG), Museu do Ouro (Sabará, MG),
Museu Regional de São João dei-Rei (MG), Museu do Diamante, (Díamantina, MG), Museu
de Arqueologia e Artes Populares (Paranaguá, PR).
15 Em pesquisa, (\!alizada pelo CNRC, em 1977. sobre os acervos dos museus brasileiros,
verificou-se que os museus municipais ainda costumam ser. criticados nessa perspectiva.
15 Silvana Ru bino atribui à falta de. apoio político o falo de a proposta de Mário de Andrade
não ter prevalecido: 'Com Rodrigo, um representante das elites mineiras. o Sphan pôde se
efetivar. Mário, ligado a membros do governo federal e ao próprio Ministro da Educação por
laços de amizade e simpatias estéticas, elaborou uma proposta politicamente solitária,
carente de forças importantes que pudessem apoiá-la em nível nacional' (1 991, p. 77).
De fato. a correspondência de Mário de Andrade a Capanema. em que o escritor se refere
a solicitações ou sugestões suas não acatadas pelo ministro (cf. Schwartzman el ai., 1984),
apresenta indícios de que ele linha menos prestígio que Rodrigo M. F. de Andrade. Sua
vinculação ao PD e ao projeto de Armando Sales de Oliveira o tornava mais vulnerável às
injunções políticas do momento. assim como as objeções que Heloisa Alberto Torres.
diretora do Museu Nacional, fez ao anteprojeto, o inviabilizaram junto a setores importantes
do meio intelectual. As concepções avançadas de Mário de Andrade sobre cultura e arte,
certamente inf!uendadas por suas leituras de antropólogos estrangeiros como Frazer e Tylor
(cf. Lopez, 1972). não ene<>ntravam respaldo junto aos pesquisadores do Mu seu Nacional,
que consideravam necessário vincular a antropologia e a etnologia às ciências naturais. No
entanto, a restrição ao conceito de patrimônio no decreto-lei nQ 25, de 30.11 .37, deve-se.
ao meu ver. sobretudo a razões de ordem jurídica e prática, o que será comentado a seguir.

" Em sua entrevista, Ligia Martins Costa chama a atenção para o caráter pioneiro da iniciativa
do Sphan.
ª
1 Uma interessante elaboração ficcional dessa problemática foi feita no romance A sucessora,
de Carolina Nabuco, publicado em 1934, que, no entanto, ficou conhecido sobretudo por
ter sido plagiado pela .:scritora norte-americana Daphne du Maurier, em Rebecca.

[Iill o PA JR l ~Õ~IO fll. PROcrno


19 Essa orientação foi de algum modo ratificada por Aloísio Magalhães quando, na segunda
metade da década de 1970, disse: 'é preciso escolher o que é mais visível, mais
monumental, porque através dele é mais fácil e mais correto impor-se uma linha de conduta"
(1985, p. 18).

20 Luís Saia, em 1977, observava: 'a fim de enfrentar tamanha larefa era indispensável
municiar-se de estudos e colocar corajosamente em segundo p!ano tudo o que pudesse ser
. feito mais tarde, com mais experiência e mais gente: controle do comércio de arte,
tombamento paisagístico, inventário de artes menores, aproveitamento e revalorização de
monumentos cuja função se tomara obsoleta, tombamento de conjuntos urbanos. etc."
(Sphan /FNpM, 1980, p. 29).

.21 Em sua entrevisla, Lúcio Cosia lembrou que, nos primeiros anos de atuação do Sphan,
vãrios tombamentos foram feitos em caráter de urgência. visando a evitar a destruição do
bem, sem que houvesse tempo para uma pesquisa sobre seu valor cultural.

· i: Essa orientação foi perpetuada em função da formação que as Faculdades de Arquitetura


no Brasil davam aos arquitetos, centrada nos princípios da arquitetura moderna e
praticamente sem informações sobre história da arte e da arquitetura no Brasil (devo essa
informação a Antônio Luís Dias de Andrade). Jé os arquitetos que integravama equipe inicial
do Sphan, segundo informação de Ugia Martins Costa, haviam sido formados pela Escola
Nacional de Belas Artes, tendo recebido, portanto, sólida formação em artes plásticas e em
história da arte. Além disso, vários entre eles tinham também uma atividade artística.
23
Relatos apaixonados dessas pesquisas pioneiras foram feitos por Mário de Andrade (1981)
e por Edgard Jacinto (MinC/Sphan/FNpM, 1988).

2-4 A propriedade dessa expressão pode ser confirmada no seguinte comentário do historiador
e critico de arte Germain Bazin: 'Foram, pois. as publicações do Dphan que insütuiram um
espirita rea lmente científico nas análises morfológicas. assentadas na crítica dos
documentos" (1989, p. 381). Germain Bazin atribui ao Sphan, no Brasil, relativamente aos
estudos de história da arte, o papel que em outros países foi cumprido pela universidade.
Foram funcionários do Sphan que introduziram nos cursos de Arquitetura a cadeira de
Arquitetura do Brasil. Pioneiro foi Paulo Santos. na Escola Nacional de Belas Artes, em 1950,
seguido por Sílvio de Vasconcelos, em Belo Horizonte, Airton Carvalho, em Recife. e
Godofredo Filho, em Salvador. Do mesmo modo, o historiador Francisco lglésias diz que
oSphan 'realizou trabalho histórico - aprópria guarda ou reconstituição já é trabalho histórico
- pelas indagações sobre o munumento, quando e como foi construido. por quem e qual
a tecnologia usada. Tem-se nesse esforço muilo do que há de melhor para a compreensão
da história social e econômica, no esclarecimento de aspeclos pouco conhecidos e em geral
descurados, pela limitação comum aos historiadores voltados mais para os aspectos
externos ou o brilho do que supõem digno de nota." (em Dphan, 1967, p. 134)
25
A pesquisa dos processos arquivados abrangeu o período anterior a 1970.

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ie Essa análise só foi passivei graças ao acesso que tive ao minucioso trabalho que a
pesquisadora do IBPC, Maria Alice Siaines de Castro, vem realizando sobre os dados
contidos nos Livros do Tombo.
27
Esse foi, pelo menos, o motivo alegado para essas duplas inscrições pelos técnicos que
entrevistei.
29
Conforme observação de ltalo Campofiorito (1985, p. 38), os imóveis são os seguintes:
casas de ng 32 (Proc. 742-T) e de rP 55 (Proc. 68-T) da rua das Palmeiras e casa ng 200,
da rua Sorocaba (Proc. 718-T).
Ili A hogemonia da arquitetura modernista a partir de meados dos anos 30 é assim analisada
por Lauro Cavalcanti (1993, p. 75):
"A vitória dos 'modernos' no prédio do MES, na conquista da primazia de criação de um
órgão de patrimônio e na afirmação de um discurso ético elegendo a habitação popular como
objeto privilegiado .~e atuação (... ) toma-os 'dominantes' no campo arq:.iitetônico, havendo
logrado tecer argumentos em todos os planos de um debate colocado, ao qual passam a
recolocar em outros tennos e constituir novos enunciados para esse mesmo campo.'
31 Cabe esclarecer que nas impugnações não é passivei alegar odireito individual à propriedade,
mas apenas discutir o mérito do tombamento (cf. Castro, 1991, p. 59).
31 Possíveis a partir do decreto-lei nº 3.866, de 2 de novembro de 1941. Com a lei ng 6.292,
de 15 de dezembro de 1975, os tombamentos passaram a depender de homologação do
Ministro da Educação e Cultura.
32 No decreto-lei ng 25, de 30.11.37, estão previstos três tipos de tombamento: voluntário (a
pedido do proprietário), compulsório (quando o proprietário, ao não aceitar a indicação para
tombamento, apresenta impugnação) e por anuência (quando a indicação é aceita pelo
proprietário). O tombamento de bens pertencentes à União, aos Estados e aos Municípios
é feito ex officio.
33 A autonomia de que gozava o Sphan na administração pública federal pode ser confirmada
na liberdade que teve Rodrigo M. F. de Andrade em escolher seus funcionários - o que,
obviamente. muito se deveu à defesa de sua autoridade junto ao ministro e ao próprio
presidente -, o que não ocorreu com Mário de Andrade (cf. Santiago, 1989, p. 173).
:i, Outros fatores influem, certamente, na orientação assumida pelas políticas de patrimônio
nos diferentes pai ses. No caso do México, por exemplo, o impacto e a presença monumental
da civilização pré-colombiana praticamente impôs seu reconhecimento no património cultural
construído pelo Estado nacional, em que a antropologia e a arqueologia, desde o inicio,
ocuparam um lugar importante.

W.Q.J o ?AI W\ÔNIO E/!. mcrno


CAPÍTULO 4
A fASf /rf OOE!iNA

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,


Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Sete anos de pastor Jacó servia


Labão, pai de Raquel, serrana bela.
Luís de Camões, Rimas.
Mudando o necessário e conservando o imprescindível, talvez
possamos preservar a memória nacional - até aquela feita em
barro pelas maos dos mais huílli1des e anõomos artesãos.
Aloisio Magalhães, E Triunfo?

Neste capítulo, an~líso as novas propostas que, a partir dos anos 70, surgiram
como reforço ou como alternativas ao trabalho do Sphan. No capítulo seguinte,
procuro avaliar o impacto dessas propostas sobre a prática tradicional do Sphan,
a partir de uma pesquisa sobre os processos de tombamento aberíos durante esse
período. Em ambos os casos, é evidente que essas mudanças só adquirem senti-
do à luz de um contexto mais amplo, tanto nacional quanto internacional, que será
apresentado resumidamente a seguir, a partir da queda do Estado Novo.

4.] Ü CONIEXíO CULIUR.ll


O final do Estado Novo já podia ser pressentido em 1943, quando um grupo
de intelectuais - entre eles, Afonso Arinos e Virgílio de Melo Franco - divulgou
o Manifesto dos Mineiros. Embora mineiro, e de acordo com os termos do mani·
festo, Rodrigo Melo Franco de Andrade foi impedido por seus companheiros de
assiná-lo, para que o Sphan não sofresse as conseqüências que haviam abalado
o Departamento de Cu:,.ira de São Paulo em decorrência das vinculações políticas
de seus diretores (cf. Fro!a, 1993, p. 45).
Em 1945, o Primeiro Congresso de Escritores Brasileiros reuniu em São Pau-
lo intelectuais de todo país, das mais diferentes posições ideológicas, que. na-
quele momento, se uniram em torno da reivindicação genérica das liberdades de-
mocráticas. No Congresso, a questão cu1iural foi politizada, e se debateram temas
como a reforma agrária, a gratuidade do ensino, a importação de material cultural
estrangeiro etc. (Mota, 1985, p. 137-153).
No período pós-Estado Novo, inúmeros intelectuais e artistos viam no Partido
Comunista o instrumento para a concretização da justiça social, e de!e se aproxi-
maram, seja como militantes ou meros simpatizantes. Integravam, então, os qua-
dros do PC tanto intelectuais que haviam sido perseguidos pelo Estado Novo -
Graciliano Ramos, por exemplo - como intelectuais que haviam participado do go-
verno - caso de Carlos Drummond de Andrade - ou que, pelo menos, haviam sido
por ele prestigiados· "' como Oscar Niemeyer e Cândido Portinari.
O governo de Juscelino Kubitschek, além de ter como metas o desenvolvi-
mento e a industrialização, consagrou definitivamente, com a construção de Bra-
sília, o estilo modernista na arquitetura como estilo oficial. A ideologia desenvolvi-
mentista do governo JK se fundamentava no pensamento formulado no Instituto
Superior de Estudos Brasileiros (lseb), criado em 1955. Mas, como observ~ Da-
niel Pécaut, nesse período "não há ruptura em relação a 1930; o desenvolvimento,
nesta versão. não passa da versão moderna da organização" (1990, p. 135).
· Nos governos Outra, Vargas e JK, o Estado não desenvolveu atuação mar-
cante na área cultural, à exceção do apoio dado por JK à arquitetura modernista,
desde a Prefeitura de Belo Horizonte, nos anos 40, quando foi construído o cu11-
junto da Pampulha. No campo da criação artística, o modernismo se consolidou,
e seus grandes nomes foram definitivamente consagrados. De novos, surgiram,
na literatura, João Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto e os poetas con-
cretos e neoconcretos. Na música, foi o tempo da bossa-nova, e nas artes plásti-
cas, do abstracionismo.
~A primeira metade dos anos 60 foi marcada pela radicalização na polif1ca e
pela politização da atividade cultural. Ourante o governo Goulart, vários setores
da sociedade - intelectuais, artista~. estudantes, clero, operários e trabalhadores
rurais - foram atraídos pelo ideário do PC, como a maneira mais apropriada para
falar do Brasil. Desde os anos 50, vinham sendo organizadas no Nordeste as Li-
gas Camponesas, de Francisco Julião. Essas idéias eram veiculadas não só atra-
vés da imprensa - na Revista Brasiliense, na Revista Civilização Brasileira, nos

O PA!RlMÓHIO {li PROWIO


[illJ
Cadernos do Povo - como também nas produções artísticas e nas campanhas de
' campo artístico, os Centros Populares de Cultura (CPCs), vin-
alfabetização. tl:Jo
culados à União Nacional dos Estudantes (UNE), desenvolveram uma prática cul-
tural que se propunha, ao mesmo tempo, como militância política. O objetivo era
instrumentalizar a arte a serviço da revoluçãj1• Conscientização e engaj amento
eram as palavras de ordem das inúmeras atividades desenvolvidas pelos CPCs,
de que participaram intelectuais, artistas e estudantes que viriam a marcar a vida
cultural brasileira nos anos seguintes. Os CPCs tinham uma noção dogmática de
arte e de cultura popular: a verdadeira arte popular, revolucionária, não era a pro-
duzida pelo povo ("arte do povo"), nem a cultura de massa ("arte popular''), mas
apenas aquela produzida por autores conscientizados, pela vanguarda revolucio-
' nária, intérpretes dos genuinos interesses das classes populares. Entretanto, se
\ para os CPCs o povo era o tema, o objetivo e o alvo, raramente foi seu público.
Já os movimentos de alfabetização, voltados para a conscientização política
através da ação especificamente pedagógica, partiam de uma noção ainda difusa
de cidadania: tratava-se de formar, através da alfabetização, cidadãos conscientes
de seus direitos. Disseminados pelo Brasil, esses movimentos tinham a participa-
ção da Igreja, de governos estaduais, de estudantes, e, em menor escala, de
operários e camponeses (cf. Mota, 1985, p. 214-218).
Daniel Pécaut considera que, guardadas as devidas proporções, há, em 1930
e em 1960, uma mesma c~ltura política, fundamentada num "encontro que se mani-
festa nas representações do plano político e, mais precisamente, na visão da evo-
lução histórica, do povo e da nação" (1990, p. 185). Dadas as relações ambíguas
dos movimentos político-culturais dos anos 60 com o Estado nacional, e com as
ideologias nacionalistas, o que predominou nesse período foi a luta antiimperia-
lista. Por outro lado, o povo, entendido como as classes trabalhadoras, foi tema
onipresente, mas rnramente teve voz nessas manifestações, ou exerceu realmente
papel de ator político.
~ A repressão que se seguiu ao golpe de 64 atingiu sobretudo os gru pos que
estavam diretamente envolvidos na mobilização popular. Mas, no campo cultural,
como observou Roberto Schwarz, "apesar da ditadura de direita há relativa hege-
monia cultural da esquerda" (1978, p. 62). A expressão do nacional-popular, em
tom didático, que predominara nos anos anteriores - e que recorria à farsa e á
caricatura, ou ao tom épico - passou a coexistir com uma linguagem artistica pro-
positalmente ambigua, que preferia a paródia e a alegoria - e de que o grupo

AíAH MtJOENHA
lJl.U
Oficina e o tropicalismo eram os melhores P.Xemplos. Esses movimentos se pro-
puseram como vanguarda crítica em relação à ideologia do nacional-popular
veiculada pelos grupos vinculados ao Partido Comunista. Uma intensa ebulição,
mas limitada aos circulas intelectualizados, se manifestava, sobretudo nas artes
cênicas - teatro (Arena, Opinião, Oficina), cinema (Cinema Novo), shows musicais
(festivais de música popular brasileira). Na literatura, ao racionalismo do experi-
mentalísmo concretista, sucederam os movimentos práxis e poema-proresso.
Em 19:~, os estudantes assL•rnirarn a liderança das manifestações coletivas
que desencadearam o Ato Institucional nª 5. A repressão que se seguiu atingiu
profundamente a atividade intelectual e artística, desarticulando inclusive as uni-
versidades e a imprensa.
No governo Médk:i, sustentado pela ideologia da "segurança nacional" e do
"milagre brasileiro", a's ,manifestações artísticas, sob censura, enveredaram pela
expressão cifrada. Nas universidades, sobretudo no Rio de Janeiro, dominavam
os estruturalismos exóticos. A televisão se expandia e assumia
.,. seus primeiros
contornos de um eficiente veículo de "cultura de massa". Poucos eram os meios
de resistência, como os jornais O Pasquim e Opinião. No campo da literatura, um
fato novo era a "poesia marginal" dos novos poetas, que recorriam a formas alter-
nativas de produção e de distribuição.
Foi com o inicio da "distensão", no governo Geisel, que o Estado, no regime
militar, passou a atuar na área cultural, não apenas como repressor, mas também
como organizador da cultura. Os cineastas foram os primeiros a aderirem á "aber-
tura", assumindo postos na Embrafi!me, criada em 1969, sendo que Gláuber Ro-
cha apoiou explicitamente o presidente e o general Golberi do Couto e Silva, um
dos artífices da ideologia da "abertura". Nesse periodo, foi produzida a primeira
proposta global de uma política para a área da cultura do regime militar, o docu-
mento Política Nacional de Cultura, em 1975, n;i gestão de Ney Braga no MEC.
Participavam do governo Geisel representantes da burguesia nacional, como o
ministro da Indústria e Comércio, Severo Gomes, que, em São Paulo, apoiava o
Cebrap e era pessoalmente interessado em questões culturais, assim como o
ministro do Planejamento, João Paulo dos Reis Veloso. Entretanto, o fechamento
do Congresso e a edição do "pacote de abril", em 1977, tornou problemáti co o
apoio ao governo Geisel por parte de intelectuais que se queriam democráticos.
Além disso, o processo de rearticulação da sociedade civil levava a um redimen-
sionamento das estratégias de resistência ao regime autoritário.

O PAIWliÔNIO Ili, PROCE\10


l.!l!J
Na segunda metade da década de 70, já surgiam manifestações da sociedade
através de movimentos populares pela melhoria da qualidade de vida e da urba-
nização dos bairros. No final da década, em decorrência das greves no ABC
paulista, foi criado o primeiro partido de origem popular no Brasil, o Partido dos
Trabalhadores (PT). Inúmeros intelectuais, como Florestan Fernandes, Antonio
Candido e Marilena Chauí integraram, desde a primeira hora, os quadros do PT.
Outros, como Fernando Henrique Cardoso, participaram das articulações políticas
do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), único partido de oposi-
ção, até 1979. Entidades da sociedade civil, como a Igreja católica, a OAB e a ABI,
se uniram na luta contra o autoritarismo, reivindicando a anistia e eleições diretas.
Mas, se a luta pelos direitos políticos unia Ioda a oposição ao governo militar,
era possível perceber, no final da década de 1970, uma fragmentação entre os
intelectuais. Essa situação, que se explicitou no episódio das "patrulhas ideoló-
gicas", decorria de inúmeros fatores, nacionais e internacionais.
No campo cultural, os anos 70, que se seguiram, como observa Frederic Ja-
meson (1991), à descolonização no Terceiro Mundo, aos movimentos negros pe-
los direitos civis, á contracultura nos Estados Unidos, e à "morte do sujeito" na
filosofia européia, se caracterizaram, como observa Carlos Alberto Messeder Pe-
reira (1981 , p. 78), por uma "crise da modernidade".
Há um consenso entre os historiadores da cultura de que, nos anos 60 e 70,
o modernismo passou a ser objeto de contestação e de crítica. Mas o objeto dessa
crítica não era o modernismo irreverente dos anos 20, e sim o "alto modernismo"
dos anos 50, "que já não era mais percebido como uma cultura de oposição", que
se tomara uma "cultura afirmativa" (Huyssen, 1991, p. 34). A essa "transfonnação
cultural que emerge lentamente nas sociedades ocidentais" (idem, p. 20) se con-
ven cionou chamar pós-modernismo.
Não se trata, porém, de uma manifestação cultural unívoca, embora se possam
perceber certos traços comuns, como a crítica ao status quo modernista, a busca
de tradições alternativas e o ecletismo na criação artística. O que fica em aberto
é o sentido dessas novas tendências, se elas indicam uma postura conservadora,
enquanto abdicação da atitude crítica característica do modernismo, ou se, ao con-
trário, significam uma nova postura critica, não só de busca de novas linguagens
artísticas, como também de resistência, de formulação de novas questões políticas
e de afirmação de novos atores sociais (cf. Huyssen, 1991, p. 31).1
Esse debate, que, se para alguns analistas. como Huyssen. está em aberto,
e para outros, como Jameson, é analisado a partir de sua visão marxista, é tam-

A FASE MOOENKA
IJill
bém o da relação entre cultura e política nos anos 60-70-80. Não se vai acom-
panhá-lo nesse trabalho, mas apenas introduzi-lo tal como se processou no Brasil
nesse período.
No Brasil, os anos da "distenstío" coincidiram com a crise econômica interna-
cional, em função da questão do petróleo. Nesse período, as contradições do mo-
delo econômico do regime mí\itar começaram a ficar evidentes, e o regime, assim
como a modernização por ele instaurada, começou a enfrentar também uma crise
de legitimidade.
A posição dos intelectuais em face de um governo militar que passava a con-
ceder uma abertura lenta e gradual dissolveu a união até então conseguida diante
de um inimigo comum: o autoritarismo. Os depoimentos colhidos, no calor da hora,
por Heloísa Buarque de Hollanda e Carlos Alberto Messeder Pereira (Pereira; Ho-
llanda, 1980), em tomo 'da polêmica suscitada pela entrevista do cineasta Carlos
Diegues a respeito das "patrulhas ideológicas", atestam uma crise de referências
(cf. Huyssen, 1991, p. 74) - do "nacional-popular" e dos paradigmas marxistas -
e de práUcas políticas - com a denúncia de autoritarismos tanto de direita quanto
de esquerda. Resumindo a situação do momento, José A. Gianotti disse que "a
abertura nos ameaça, como a todos os grupos de oposição, porque nos ancoramos
nas trevas do autoritarismo externo, sem lograr uma articulação própria". (Pereira
e Hollanda, 1980, p. 57). Enquanto Gláuber Rocha apoiava explicitamente o go-
verno em nome do nacionalismo,2 outras vozes, com um discurso político novo,
despontavam nos depoimentos de Fernando Gabeira, recém-chegado do exílio, de
Antônio Calrnon, de Caetano Veloso, e, sobretudo, de Lélia Gonzales, de Movi-
mento Negro Unificado. Questões que tradicionalmente eram tratadas em sua in-
terface cultura! - como raça e sexo - e novos ternas - como a ecologia - pas-
saram a ser politizadas nesses discursos. Foi através da politização de referên-
cias culturais que se constituíram novos atores sociais, como atesta o contundente
depoimento de Lélia Gonzales.
O conceito de e/asse social como. único princípio verdadeiro de representação
social era criticado como sendo um dogma marxista, fruto de uma outra dominação,
que englobava direita e esquerda, a do eurocentrismo. Entretanto, ao deixarem de
lado o conceito de classe social, os novos atores sociais recorriam a uma velha
categoria, ambígua e conceitualmente problemática, sobre a qual se apoiavam os
nacionalismos culturais. Tal cumo as idéias de povo, nação e pátria, a idéia de
comunidade convertia a especificidade cultura\ do grupo numa totalidade fechada,

o PmlMÕN!O PROmSO
Ofil [/1,.
obscurecendo os conflítos internos e também as relações - em termos de pontos
de contato e de confronto - com outros grupos sociais. 3 Para os analistas mais
radicais, apenas quando os projetos desses grupos eram articulados a problemas
estruturais - como a questão da terra e da cidadania para os indígenas, ou da
discriminação social e econômica para os negros - é que suas identidades cultu-
rais se convertiam em identidades políticas.
Em 1979, no governo Figueiredo, a Lei da Anistia e a extinção do bipartida-
rismo tiveram como resultados a volta dos exilados políticos e a reorganização
partidária. Mas foi preciso que ocorresse o confronto entre castelistas e os milita-
res de linha dura, que culminou com o episódio do Riocentro, em 1981, para que
a abertura se acelerasse e se tornasse irreversivel. Entretanto, apesar das elei-
ções diretas para governador, em 1982, e da campanha pelas Diretas Já, em 1984,
o governo militar ma nteve relativo controle do processo que levou à eleição de
Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, e à Nova República, que durou até 14 de
março de 1990.
No governo Figueiredo, durante as gestões de Eduardo Portela e de Rubem
Ludwig no MEC, ocorreu uma reestruturação da área cultural no governo federal,
que culminou com a criação da Secretaria da Cultura, em 1981, onde se agluti-
naram todos os órgãos culturais do ministério, sob a direção de Aloísio Magalhães.
A criação do Ministério da Cultura no governo Sarney foi parte de um arranjo
político, e não uma reivindicação da sociedade ou mesmo de setores ligados à
cultura. A sucessão de quatro ministros da Cultura , de 1985 a 1990 - José Apa-
recido de Oliveira, Aluísio Pimenta, Celso Furtado, e novamente José Aparecido
de Oliveira - não chegou a alterar a posição secundária, para não dizer a indife-
rença da classe política e da sociedade diante desse ministério durante a Nova
República. A Assembléia Nacional Constituinte, realizada em 1987-1988, veio de-
monstrar que essa indiferença se estendia à própria questão da cultura enquanto
questão relevante para a sociedade brasileira.4
A convocação da Assembléia Nacional Constituinte levou à mobilização da
sociedade brasileira em torno das grandes questões que foram objeto de debate:
os direitos civis, em particulaí os trabalhistas, a questão fu ndiária, a ordem políti-
ca e econômica, e novos temas, como o meio ambiente, as comunicações e a
ciéncia e tecnologia. No campo da cultura, assunto que foi inicialmente tratado na
Subcomissão de Educação, Cultura e Esporte, a mobilização de partidos políticos
e de organizações da sociedade foi pouco expressiva. Nas audiências públicas
dessa subcomissão predominaram as vozes oficiais, e os problemas mais can -

A FASE AOOWIJ
D.ill
1•

dentes dos novos atores sociais - indígenas. negros e minorias em geral - foram
tratados principalmente em outras subcomissões, onde depuseram representantes
desses grupos sociais. Na Subcomissão de Educação. Cultura e Esporte, os te-
mas de interesse das minorias. mencionadas explicitamente no § 1ª do art. 215
e, especificamente, os dos negros, no § 5D do art. 216, foram trazidos sobretudo
por órgãos de classe, como a Associação Brasileira de Antropologia (ABA) e o
Sindicato dos Empregados em Entidades Culturais, Recreativas, de Assis:ência
Social, de Orientação e Fv,maçâo Profissional de Brasília (Senalba). e foram in-
oorporadas ao texto do relator da (;omissão Temática, deputado Artur da Távola,
do PSDB.
Outro indicador da percepção da questão da cultura por parte do sociedade
foram as emendas populares. Nesse caso, predominou uma preocupação nacio-
nalista, beirando a xenofobia, de defesa de uma identidade brasileira, ameaçada
pela invasão de elementos estrangeiros na língua, na música, na propaganda etc.
Questões como o estímulo à produção cultural, a proteção e revitalização do patri-
mônio histórico e artístico, a crítica aos conteúdos culturais na educação, a defesa
da diversidade cultural e das culturas das minorias, os efeitos da cultura de massa
no imaginário social, apenas para citar alguns dos temas que foram discutidos na
Subcomissão de Educação, Cultura e Esporte, não mobilizaram significativamen-
te, nesse canal de expressão, a sociedade brasileira.
Mas o fato é que, comparados às menções relativas à cultura nos textos cons-
titucionais anteriores (cf. Barduy [org.]. 1989), os artigos 215 e 216 da Constituição
Federal de 1988 constituíram um inegável avanço, no sentido de tratar da questão
cultural de forma mais abrangente e matizada. A noção de patrimônio cultural foi
ampliada, os direitos culturais foram mencionados (embora não explicitados, o que
dificulta a compreensão de uma noção nova) e a sociedade surgiu ao !ado do
Estado como sua parceira na promoção e na proteção da cultura. Outro indicador
do lugar da cultura no texto constitucional foi a inclusão, no artigo relativo às
ações populares (ar\. 5•). da proteção ao "patrimôn io histórico e cultural".
Não se deve esquecer. porém, que os avanços conceituais nessa área não
corresponderam a uma politização da questão cultural junto à sociedade, em ter-
mos de uma mobilização de grupos ou dos canais de representação política espe-
cificamente para a questão. Foram exceção os movimentos negros, que conse-
guiram induir o § ~ do art. 216, e o PT, que teve na subcomissão referida uma
atuação marcante através do senador Florestan Fernandes. Esse era, aliás, o úni-

O PA!Rli\ÓN IO l i\ PROCIIIO
[iill
co partido político que, desde 1984, havia formulado uma proposta específica para
.,... a cultura, no documento Política cultural, de autoria de Mari!ena Chauí. Antonio
Candido, Lélía Abramo e Edélcio Mostaço (1984).
A eleição de Fernando Collor, em 1989, no primeiro pleito direto à Presidência
da República desde 1960, deu-lhe força polílica para, entre outros atos, realizar
·, o "desmantelamento da área da cultura", que ioterrompeu toda a atuação que o
Estado vinha desenvolvendo, através de suas ilstiluições e sem solução de conti-
nuidade, desde o ministério Capanema. Dacta a extensão do intervencionismo do
governo Collor no seu início, fica difícil avaliar a relativamente fraca reação da
sociedade, inclusive dos meios intelectuais, em face da atuação do secretário
lpojuca Pontes. Entretanto, manifestações corno a de Antônio Houaíss e de Her-
bert de Sousa, que moveram uma ação popular em defesa do interesse público
representado na obrigação constitucional de o Estado proteger o pabimônio histó-
rico e artístico nacional, e vários artigos de intelectuais de renome veiculados pela
"'· imprensa, mostraram que havia algum consenso quanto à importância dessa prá·
lica social, independentemente de eventuais divergências quanto à maneira como
era conduzida pelo governo federal.

4.2 O~PHAN PÓ1-E11AOO Novo


\ A instauração de um governo democrático, em 1945, não chegou a afetar a
política federal de preservação. que manteve o mesmo dirigente e, praticamente,
1
a mesma orientação até o final da década de 1959; Para Joaquim Falcão (1984,
p. 24), essa estabilidade era, porém, sintoma da desimportância relativa que os
regimes pós-Estado Novo e seus opositores deram à questão do patrimônio
histórico e artístico nacional. Ou seja, nestes 45 anos, a questão do patrimônio
raramente se transformou numa arena importante do jogo ideológico, político e
econômico nacional.
Na verdade, o que ocorreu foi o progressivo desgaste do modelo implantado
nas primeiras décadas do Sphan. A atividade da instituição, conforme observação
de Antônio Augusto Arantes, "não se renovou: tecnificou-se" (1987, p. 52). Se. nos
anos 30 e 40. o Sphan atraíra para seus quadros inúmeros dos intelectuais de
maior prestígio no momento, e identificados á vanguarda, em 60. o cenário era bem
diferente. Dado o caráter vitalício dos cargos no Conselho Consultivo, sua com-
posição teve uma taxa muito baixa de renovação. Nos quadros técnicos, os arqui-
tetos modernistas eram sucedidos por seus discípulos. Além disso, havia claros

A rm MOEW illil
sinais de restrição das atividades de pesquisa e de divulgação, que, sob a ale-
f
gação de falta de recursos, foram praticamente abandonadas (ver Anexo li!). Por
outro lado, os adversário do Sphan não eram mais apenas vigários obtusos ou
prefeitos modernosos, mas, principalmente. a poderosa especulação imobiliária.
Esses fatos, agravados pela crônica falta de recursos financeiros e humanos,5 le-
varam o órgão a se concentrar na questão mais premente - porém parcial em ter-
mos de preservação - dos tombamentos e das obra~:..
Profundamente vinculado, quando de sua criação. ao movimento cultural mais
,
importante no Brasil na primeira metade do século XX, o Sphan dos anos 60 era
uma ilha à parte das grandes· questões culturais e políticas. Pode-se dizer que
a maior força da instituição nos anos 60 residia no caráter mítico do trabalho que
realizara e na figura de seu diretor.
Esse desgaste ficou evidente na contundente campanha movida pelo jorna-
lista Franklin de Oliveira, de novembro de 1966 ao final de 1967, no jorna l O
Globo, denunciando a degradação do patrimônio, com o título de "Morte da me-
mória nacional" (Oliveira, 1991). Seus artigos receberam o apoio de parlamen-
tares, governadores, prefeitos, intelectuais, e de inúmeras instituições da socie-
dade civil. O jornalista apontava como responsáveis pelo abandono de mo-
numentos, peças e documentos, já sujeitos ao inevitável desgaste do tempo, a
especulação imobiliária, a oanância pos antiquários, a indiferença e a ignorân-
cia generalizadas, tudo isso agravado pela carência de recursos financei ros nas
instituições culturais encarregadas de preservar o patrimônio histórlco e artís-
tico nacional. Poupava, no entanto, o Sphan e a figura de Rodrigo M. F. de
Andrade.
O que estava implícito nessa e em outras manifestações de crítica e de
denúncia era que, se os trinta anos de atuação do Sphan, além do fato concreto
de preservar e restaurar um número respeitável de bens de valor histórico e
artístico, haviam logrado fixar um rigor ético no trato do bem cultural, a insti-
tuição estaria falhando no objetivo mais amplo de mobilizar governo e sociedade
para a causa da preservação, mobilização essa considerada, no final dos anos
60, indispensável inclusive para o sucesso na conservação material dos monu-
mentos. Pois, como já foi observado, a partir dos anos 70, a relação entre cul-
tura e política passou a ser equacionada de forma diferente da que fora for-
mulada desde os anos 20 a 30.

[TI_Q] O PA!WIÓNIO EM PROUIIO


4J As AlfERNAllVAI DO (E AO) IPHAN

43.1 Os cominho1 do deJCenlrolizaçào e o


hufca de novos 1enlidof para a prmrvoçào
Com a aposentadoria, em 1967, de Rodrigo M. F. de Andrade, assumiu a
direção do órgão, por indicação do próprio Rodrigo, o arquiteto Renato Soeiro, que,
embora fosse considerado o legítimo sucessor do fundador do Sphan, não gozou,
como ele, do mesmo prestígio, não teve o mesmo trânsito junto a autoridades e
personalidades nem foi ungido com a mesma aura. Quando o Sphan ficou privado
da figura carismática de Rodrigo M. F. de Andrade, evidenciou-se o caráter fraco
da autonomia do órgão, na medida em que dependia de líderes para conduzi-lo
e torná-lo visível, tanto no interior da burocracia quanto junto à sociedade. Não
foí por acaso, aliás, que o ressurgimento da questão do patrimônio como tema de
interesse polltico nos anos 70 esteve associado a outra figura carismática: Aloisio
Magalhães.

Nas décadas de 1950 e 1960 ocorreram grandes mudanças no modelo de


desenvolvimento brasileiro, responsáveis pelos impasses com que a politica de
preservação do Sphan foi confrontada, levando a instituição, e outros setores da
administração pública qtie passaram a se interessar pela questão, a recorrer a
novas alternativas de atuação. Nesse período, a ideologia do desenvo!vimentismo
atrelou o nacionalismo aos valores da modernização. Foi a época áurea da indus-
trialização, da urbanização e da interiorização, estimuladas pela construção de
Brasília. As conseqüências para a preservação desse modelo de desenvolvi-
mento repercutiram não apenas no nível simbólico - na medida em que essa
ideologia se contrapunha à continuidade e à tradição - como nos níveis econômico
e social - devido ao intenso processo de migração para as capitais e a valorização
do solo urbano, desarticulando processos espontâneos de preservação do patri-
mônio, tanto o edificado como o paisagístico. Na prática do Sph0.n, surgiram ten-
sões agudas, especialmente na preservação das cidades histórícas e dos centros
históricos das grandes cidades. A proteção dos conjuntos e do entorno dos monu-
mentos tombados passou a exigir um novo dimensionamento. Como observa Vera
Mi!et (1988), o caráter marcadamente cultural da atuação do Sphan nas suas três
primeiras décadas revelava-se inadequado ao novo modelo de desenvolvimento.

AfAH /1', 00UHJ


l TITJ
Foi à Unesco que o Sphan recorreu, a partir de 1965, para reformular e refor-
çar sua atuação, visando a compatibilizar os interesses da preservação ao modelo
de desenvolvimento então vigente no Brasil. Nesse sentido, a imagem do Sphan
como protagonista de batalhas memoráveis em defesa do interesse público rela-
tivamente ao patrimônio, contra proprietários e setores insensiveis da Igreja e do
poder público, foi substituida, em consonância com as diretrizes da Unesco, pela :(
.l
figura do negociador, que procura sensibilizar e persuadir os interlocutores, e con· .!

ciliar interesses; ou melhor, que procura demonstrar que os interesses da preser·


vação e os do desenvolvimento não são conflitantes mas, pelo contrário, são com·

patíveis.
O objetivo era demonstrar a relação entre valor cultural e valor econômico,
e não apenas procurar convencer autoridades e socied;;de do interesse público
de preservar valores culturais, como ocorrera nas décadas anteriores. Essa arti·
culação foi feita em duas direções: seja considerando os bens culturais enquanto
mercadorias de potencial turistice, seja buscando nesses bens os indicadores
culturais para um desenvolvimento apropriado.
A primeira alternativa, explicitada nas Normas de Quito (1967) e, no Brasil,
nas reuniões de governadores que produziram o Compromisso de Brasília (1970)
e o Compromisso de Salvador (1971), levou à criação, junto à Seplan, do Pro-
grama Integrado de Reconstrução das Cidades Históricas, em 1973. A segunda
alternativa foi explorada pelo Centro Nacional de Referência Cultural, criado em
1975. Essas iniciativas partiam do pressuposto de que a estrutura e a experiência
de trabalho do lphan, mesmo com a colaboração da Unesco, era insuficiente para
atender às novas necessidades da preservação.
( Os encontros de governadores realizados em 1970 e 1971 foram sugestão do
ministro da Educação e Cultura, Jarbas Passarinho, a quem Renato Soeiro, que
:,. com ele tinha relações pessoais (ambos eram paraenses), fora solicitar apoio às
· atividades do Sphan. O ministro considerava que a responsabilidade pela preser-
vação do patrimônio nacional devia ser partilhada com os governos estaduais, que
poderiam, inclusive , se beneficiar dessa atividade.
Um dos princípios dessa nova orientação da politica de preservação era a
descentralização. Já no artigo 23 do decreto-lei n~ 25, de 30.1t37, havia menção
à colaboração dos estados na proteção do patrimônio neles localizados. Nos do-
cumentos Compromisso de Brasília e Compromisso de Salvador se recomendava
que estado~ e municípios exercessem uma atuação supletiva à federal na proteção

O PAI i\,I\ÓHIO !Ili PROWIO

OkJ
dos bens culturais de valor nacional, e assumissem, sob a orientação técnica do
então Dphan, a proteção dos bens de valor regional. Para atender a esse obje-
tivo, estados e municípios deveriam criar, quando fosse o caso, instituições e
legislação próprias.
A participação de outros setores do governo federal e estadual na política de
preservação foi concretizada com a criação; e_m 1973, por solicitação do ministro
da Educação e Cultura, e com a participação dos Ministérios do Planejamento,
\
do Interior (através da Sudene), e da Indústria e Comércio (através da Embrat:,r),
_.,.... do Programa Integrado de Reconstrução das Cidades Históricas, que passou a
, funcionar com recursos da Seplan. Voltado inicialmente para o atendimento de
nove estados do Norte e Nordeste, em 1977 o programa foi estendido ao Sudeste.
O PCH, como ficou conhecido, tinha como objetivo criar infra-estrutura adequada
ao desenvolvimento e suporte de atividades turisticas e ao uso de bens culturais
como fonte de renda para regiões carentes do Nordeste, revitalizando monumentos
em degradação. A criação do PCH veio suprir basicamente a falta de recursos
financeiros e administrativos do lphan, continuando a cargo dessa instituição a
referência conceituai e técnica. Propiciou, por outro lado, a criação, durante as
décadas de 1970 e 1980, de órgãos locais de patrimônio e elaboração de legisla-
ções estaduais de proteção, abrindo os caminhos efetivos para a descentralização.
No entanto, as críticas dirigidas ao lphan n20 se limitavam a suas carências
operacionais. Também e1n termos conceituais, a ênfase dada aos monumentos da
cultura do colonizador tornava problemática, nos anos 70, uma identificação social
mais abrangente com o patrimônio. Para setores modernos e nacionalistas do gover-
no, era necessário não só modernizar a administração dos bens tombados, como
·, também atualizar a própria composição do patrimônio, considerada limitada a uma
vertente formadora da nacionalidade, a luso-brasileira, a determinados períodos
históricos, e elitista na seleção e no trato dos bens culturais, praticamente excluindo
as manifestações culturais mais recentes, a partir da segunda metade do século
XIX, e também a cultura popular. Essa atualização era a proposta do CNRC.

4.4 Ü (ENIRO NACIONAL OE REFERÊNCIA (UUURAL


À diferença do PCH, a idéia da criação do CNRC não surgiu no interior da
burocracia estatal, nem se propôs, no primeiro momento, como alternativa critica
ao lphan. Segundo depoimento de Aloisio Magalhães, foi fruto das conversas de
um pequeno grupo que se reunia em Brasília, de que participavam o empresário

t fAlf IIWOEW. [illJ


e então ministro da Indústria e Comércio Severo Gomes, o embaixador Vladimir
Murtinho, então Secretário de Educação e Cultura do DF, além do próprio Al~isio,
designer e artista plástico de renome. Ao grupo inicial se juntaram posteriormente
o matemático Fausto Alvim Junior, a documentarista e então cliretora do Prodasen ,
Cordélia Robalinho Cavalcanli e a socióloga Bárbara Freilag, lodos professores
da Universidade de Brasília.6 A formulação da indagação que conduzia as discus-
sões trazia a rnrca de seu tempo. "Por que não se reconhece o produto brasi-
, leiro? Por Que ele não tem fisionomia própria?" Tratava-se de uma nova maneira
\ de equacionar a velha questão da identidade nacional, vinculando a questão cul-
tural à questão do desenvolvimento.
--- O interesse que movia esse grupo era, em princípio, bastante próximo das
preocupações dos modernistas de 22 - atualizar a reflexão sobre a realidade
brasileira e buscar formulações adequadas para a compreensão da cultura no
contexto brasileiro contemporâneo.
Inicialmente, o objetivo era criar um banco de dados sobre a cultura brasileira,
um centro de documentação que utilizasse as formas modernas de referenciamento
e possibilitasse a identificação e o acesso aos produtos culturais brasileiros. Na
concepção de Vladimir Murtinho e de Severo Gomes, tratava-se de um trabalho
2
etnográfico, de dimensão estritamente cultural. No Relatório Técnico n 1; de
2.7.1975, o objetivo do CNRC era definido como o "traçado de um sistema refe-
rencial básico para a descrição e análise da dinâmica cultural brasileira".
Essa concepção foi sendo reelaborada e ampliada, na medida em que se pro·
punha atribuir ao CNRC uma finalidade mais ambiciosa. Tratava-se não de eleger
símbolos da nação nem de conhecer e divulgar as tradições brasileiras, e sim de
' buscar indicadores para a elaboração de um modelo de desenvolvimento apro-
priado às necessidades nacionais. Desse modo, deslocava-se o centro de interes-
se para a questão atual do desenvolvimento e articulava-se a cultura às áreas
politicamente mais fortes do governo. Para isso, era necessário recorrer a instru-
mentos alternativos de politica patrimonial, tanto conceituai quanto administrati-
vamente.
O CNRC começou a funcionar em junho de 1975, nas dependências da antiga
Reitoria da UnB, devido a um convênio firmado entre 8 Governo do Distrito Fe·
dera!, através da Secretaria de Educação e Cultura, e o Ministério de Indústria
e Comércio, através da Secretaria de Tecnologia Industrial. No ano seguinte foi
firmado novo convênio. a que aderiram a Secretaria de Planejamento da Presidên-
cia da República, o Ministério da Educação e Cultura, o Ministério do Interior, o

O PAIRHIÓNIO EII. P!OCUI O


Oill
Ministério das Relações Exteriores, a Caixa Econômica Federal e a Fundação
Universidade de Brasília. A esses órgãos juntaram-se, em 1978, por ocasião da
assinatura do termo aditivo ao convênio anterior, o Banco do Brasil e o Conselho
Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico. Representantes dos con-
venentes compunham o grupo de trabalho, que se reunia periodicamente para
acompanhar as atividades desenvolvidas pelo centro. Desde sua criação, o CNRC
foi dirigido por Aloisio Magalhães.
O perfil dos agentes recrutados por Aloísio distinguia-os dos tradicionais fun-
cionários do lphan, arquitetos em sua maioria. Integraram a equipe do CNRC pes·
soas com formação na área de ciências físico·matemátícas, com especialização
em informática e em educação; técnicos em biblioteconomia e documentação; cien-
tistas sociais, críticos literários etc. A diversidade na formação acadêmica e o inte-
resse pessoal por mais de uma área de saber eram requisitos considerados favo-
ráveis a uma compatibilidade com a proposta do CNRC. Na realidade, a especiali-
zação era considerada um risco para a produção do conhecimento que se dese-
java alcançar. Os projetos desenvolvidos no CNRC punham entre parênteses mo·
delos de interpretação já prontos, indusive os quadros conceituais das diferentes
disciplinas, e procuravam, através de uma perspectiva interdisciplinar, apreender
a dinâmica específica de cada processo cultural estudado, formulando, a pos-
teriori, tipologias e modelos.
Como o Sphan de Rodrigo, o CNRC gozava de autonomia de atuação, com
uma vantagem: não estando subordinado a nenhum órgão da administração públi-
ca - pois era fruto de um convênio entre entidades diversas - gozava de uma
agilidade administrativa que possibilitou se tornasse um espaço de experimen-
tação. E se, por um lado. essa autonomia, e até certo ponto, descompromisso,
levou a uma dispersão nos trabalhos, que na maior parte foram interrompidos, ou
ficaram inconclusos, por outro, foi nesse espaço que se elaboraram os conceitos
. que, no início da década de 1980, fundamentaram a política da Secretaria da Cul-
tura do MEC e que foram i;:corporados à Constituição Federal de 1988.
As diferentes orientações de trabalho eram orquestrad::s por Aloísio, que op·
tau pelo desenvolvimento ce projetos mais ou menos complexos, em áreas temá-
ticas e em locais diversos, ce modo a alcançar um nível de amostragem da rea·
!idade cultural bra sileira. Em termos operacionais, era norma buscar parceria com
ou tras instituições e investigar formas diversificadas de devolução dos resultados
dos trabalhos. O processo de elaboração de projetos era inform:,,I, pois tan to po·

fü'F. - . "."...... ic~TP f


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UF ;·:.' . .. :. ~'. .',.' ~---- ._c- OCI AIS
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r ,.. ' ' ~ •.•.,
1.., ,1_; , ., ,- . · .1 _ . . -
\
, diam ser formulados no próprio CNRC como encaminhados por agentes externos.
O guichê do CNRC atraía pesquisadores independentes e com projetos culturais
pouco ortodoxos. Foi o caso dos projetos do Museu ao Ar Livre, de Orleans, SC;
da produção de banana-passa, na região fluminense; do uso da marca estampada
em folha-de-flandres, em Juiz de Fora; da fabricação de lixeiras com pneus .·:
./
~•l·:.
•...

usados, no Nordeste; da construção de modelos matemáticos para a classificação .

de técnicas do trançado indígena; da impressão em computador dos padrões-


<'f
repassos, utilizados na tecelagem em teai""' de quatro pedais, no Triângulo Mi-
neiro etc. A seleção também não obedecia a critérios ngidos, pois o que interessa-
·-i:
va era o seu potencial - nem sempre percebido pelos autores do projeto, como
ocorreu, por exemplo, com o do Museu de Orleans - para o conhecimento de as-
pectos pouco estudados da realidade brasileira, e em termos de perspectiva de
ações inovadoras.
Em um primeiro momento, o trabalho do CNRC deu ênfase a experiências de
referenciamento, recorrendo com freqüência à colaboração de especialistas nacio-
nais e estrangeiros, divulgadas em relatórios técnicos. Nessa fase inicial, o CNRC
era dividido em quatro àreas, de inspiração nitidamente acadêmica: Ciências
Humanas, Ciências Exatas, Documentação, Artes e Literatura. Ao lado de projetos
de âmbito restrito - a exposição de carrancas do rio São Francisco; a documen-
tação do processo de trabalho do ceramista Amaro de Tracunhaém, PE; a exposi-
ção volante sobre dom Pedro li e seu tempo; a documentação e análise da ativi-
dade de tecelagem no Triângulo Mineiro; a análise e classificação experimental
dos acervos dos museus brasileiros - foram desenvolvidos outros, mais com·
plexos -, o thesaurus e os levantamentos socioculturais no pólo cloro-químico de
Maceió e no complexo industrial-portuário de Suape, no Recife.
Em um segundo momento, e já com base na elaboração de uma experiência
de trabalho, o CNRC se estruturou em quatro programas: mapeamento do arte-
-;;
sanato brasileiro, levantamentos socioculturais. história da ciência e da tecnologia
no Brasil. e levantamento de documentação sobre o Brasil (ver Anexo IV). Nesse
momento, a questão dos resultados do trabalho realizado não se resumia apenas
à busca de novas formas de referenciamento e de divulgação, mas envolvia tam-
bém a responsabilidade social da pesquisa e a consideração dos interesses dos
grupos pesquisados.
Foi no âmbito do primeiro programa - Mapeamento do artesanato brasileiro -
que se obtiveram os resultados mais significativos. seja em termos de diversidade

O PA!RIJi\ÓMIO !!\ PROCUIO


Llill
de experiências, seja em termos de elaboração de uma problemática. Além dos
dois projetos já mencionados - sobre a cerâmica de Amaro de Tracunhaérn e
sobre a tecelagem no Triângulo Mineiro - foram desenvolvidos trabalhos voltados
para o artesanato indígena no Centro-Oeste e para a utilização de pneus na fabri-
cação de lixeiras no Nordeste, entre ou tros.
A abordagem do artesanato pode ser tomada como um exemplo típico do modo
de trabalhar do CNRC, no sentido de tentar lançar um olhar novo sobre os pro-
cessos culturais. Foi a partir da comparação entre as diversas manifestações
culturais pesquisadas que se elaborou uma tipologia, distinguindo fazeres codi-
ficados (como a tecelagem) dos que dão margem à criatividade individual (como
a cerâmica); fazeres tradicionais (como a cerâmica e a tecelagem) do artesanato
de transformação e reciclagem (como as lixeiras, que são um subproduto da ativi-
dade industrial, e como, freqüentemente nos dias de hoje, o brinquedo popular).
Em todos os casos se procurava entender os processos de transformação e/ou
de resistência dessas atividades, sempre tentando se aprcximar o máximo possí-
vel do ponto de vista dos produtores e dos consumidores, de modo a apreender,
sem preconceitos, essas trajetórias, e a fundamentar uma visão prospectiva.
A abordagem do CNRC se propunha oomo critica à visão romântica, que pre-
dominava entre os folcloristas, ou aos objetivos pragmáticos e assistencialistas
dos programas de incentivo ao artesanato_ Considerando as manifestações pes-
quisadas como "um momento da trajetória, e não uma coisa estática", Aloísio
Magalhães afirmava que "a política paternalista de dizer que o artesanato deve
permanecer como tal é uma politica errada" e "culturalmente impositiva", pois "o
caminho, a meu ver, não é esse; o caminho é identificar isso, ver o nível de com-
plexidade em que está, qual é o desenho do próximo passo e dar o estímulo para
que ele dê esse passo" (1985. p. 172). Qualquer intervenção deveria ser prece- ·
dida, portanto, do conhecimento da especificidade daquele saber-fazer, em sua
trajetória e em sua inserção no contexto atual. Conseqüentemente, as formas de
ação deveriam ser necessariamente diferenciadas, adequadas a cada caso e mo-
mento, e envolvendo a participação da comunidade que produz e consome aqueles
bens, o que descartava, por princípio, o rerurso a receitas para lidar com a ques-
tão do artesanato.
A noção de autenticidade, tão freqüente nas discussões sobre artesanato,
passou a ser questionada, pois considerava-se que decorria de uma visão dogmá-
tica e externa ao processo. A rigor, nessa perspectiva a própria noção de artesa-
nato, e a distinção entre artesanato e te cnologia patrimonial, ou entre artesanato

A FAH J'.OOfRNi
illIJ
e pequena indústria ficava, assim, relativizada e, do ponto de vista de uma com-
preensão do processo cultural, não era o aspecto mais importante. O objetivo,
nesse caso, passava a ser o de conhecer, referenciar e compreender essas mani-
festações, visando a preservar sua memória e a fornecer elementos para o apoio
a seu desenvolvimento.
Essa orientação de trabalho, de inspiração nitidamente antropológica (o que
não era, no entanto, explicitado na condução das pesquisas, que buscavam ins-
pirar-se, espontaneisticamente, apenas no contato com a realidade), foi exposta
no documento Bases para um trabalho sobre o artesanato brasileiro hoje, produ-
zido em 1979 em resposta a uma solicitação do Programa Nacional de Desenvolvi-
mento do Artesanato (PNDA), do Ministério do Trabalho. Não é de surpreender
que essa colaboração tenha se revelado, na prática, inviável.
Os Levantamentos socioculturais foram os projetos mais ousados do CNRC,
'
em que havia um envolvimento imediato com empreendimentos em curso e com
poderosos interesses, em geral conflitantes com a visão do CNRC, sobre a rela-
ção entre cultura e desenvolvimento.
Para o CNRC, o objetivo era a busca de um modelo de dêsenvolvimento apro-
priado às condições locais e compatível com os diferentes contextos culturais bra-
sileiros. Essa visão, embora tivesse pontos de contato com as concepções então
elaboradas na Unesco sobre desenvolvimento, entrava em confronto com a ideo-
logia desenvolvimentista qve predominava nos anos 70. Por esse motivo, a parti-
cipação do CNRC nesses projetos exigia, devido a sua complexidade e seu im-
pacto não só sobre as culturas, como também sobre as economias e as organi-
zações sociais locais, um forte respaldo político, tanto por parte da direção do
CNRC quanto externamente.
Ora, não só essa proposta era ainda bastante imprecisa, como não encontrava
eco junto a setores da sociedade que, naquele momento, pudessem se fazer ouvir.
Além disso, a verdade é que outros projetos do CNRC, menos polêmicos, de al-
cance mais limitado e de cunho mais marcadamente cultura\ - como o estudo mul-
tidisciplinar do caju e a reuti1"1zação de pneus' para a fabricação de lixe·1ras -
receberam maior apoio e atenção por parte de Aloisio Magalhães, que , prova-
velmente, via neles maior potencial para ilustrar suas idéias sobre a cultura
brasileira.
Esse, certamente, foi um dos principais motivos por que foi justamente nessa
linha de pesquisa que se alcançaram resultados mais limitados, tanto em termos
dos objetivos a que se visava quanto da elaboração de uma experiência. Esses

O PA!WIÕHI O [ li P!OCU IO
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(

projetos, que na época foram considerados os laboratórios por excelência de com-


provação das "teses" do CNRC, ficaram parados ou foram (em um caso, dramati-
camente) interrompidos e não chegaram a contribuir efetivamente para credenciar
o CNRC (e, posteriormente, a Fundação Nacional pró-Memória) para reivindicar Í.

espaço e lugar na elaboração e implementação de projetos de desenvolvimento -


o que não significa ausência de ganhos, pois foi produzida extensa e importante (
documentação sobre os contextos culturais pesquisados.7
(
No programa História da ciência e da tecnologia no Brasil, o projeto que ficou
mais conhecido foi o do Museu ao Ar Uvre, em Orleans, Santa Catarina, em zona
de imigração italiana. Idealizado na linha dos ecomuseus, além da exposição das
peças em um extenso parque, foi feita uma detalhada documentação, por meio de
fotografias, textos e desenhos, além do relato do artesão encarregado da tarefa,
de sua desmontagem e remontagem, de modo a preservar não apenas os produtos
1
mas também a memória do processo de fabricação. Mais caro a Aloísio, no entan-
to, era, sem dúvida, o Estudo Multidisciplinar do Caju, identificado como importante
raiz cultural brasileira, de incontáveis usos e marcante presença na vida nacional. (

Chegaram a colaborar nesse projeto especialistas das mais diversas á;eas de co-
nhecimento, inclusive Gilberto Freire, mas, em termos de ações, resultou apenas
(
no tombamento da fábrica de vinho de caju Tito Silva, em João Pessoa.
(
Os Levantamentos de documentação sobre o Brasil produziram inúmeros re-
sultados a curto prazo, e foram precedidos da Análise e Classificação Experi-
mental dos Acervos dos Museus Brasileiros, trabalho executado em 1977 para
subsidiar a missão de um perito da Unesco chamado ao Brasil pelo lphan para I

prestar consultoria técnica a museólogos. A intenção do CNRC era evitar que se


impusessem aos museus brasileiros modelos externos. adequados a outras reali-
dades, e possibilitar que o tra balho do perito partisse do cc~hecimento proposto
pelos museus no Brasil, segundo o ponto de vista de seus organizadores. Nesse
programa foram ainda realizadas experiências em indexação de documentos,
como a elaboração de catálogos relativos à cinegrafia sobre a constru ção de Bra-
i
si!ia e aos filmes produzidos pelo Derartamento de !rnprensa e Propaganda (DIP),
duran te o Estado Novo. Já a indexação e microfilmagem da documentação em
depósito no Museu do Índio tinha um objetivo que transcendia o mero registro:
subsidiar o processo de demarcação das terras indígenas. A divulgação de obras
sobre o Brasil existentes no exterior, ou não accessiveis ao público, foi outra
preocupação desse programa. como a análise e publicação do Mapa etno-histórico

A Wf t'oODfm [illJ
de Curt Nimuendaju e do livro A expedição científica de G. 1. Langsdorff ao Brasil
(1821-1829). A esses projetos se acrescentaram iniciativas rápidas e oportunas
de Aloísio, como a compra, em um leilão em Londres, de cinco lotes de documen-
tos originariamente integrantes dos Autos da Devassa e a devolução a Congonhas
do Campo de um conjunto de ex-votos dos séculos XVIII, XIX e XX.
A análise dos 27 projetos discriminados no quadro sinótico produzido pelo
CNRC em 1979 (Anexo IV) evidencia a diversidade de interesses e o potencial
de trabalho que aquela pequena instituição alcançou em quatro anos de atividade -
interesses que se ampliaram na década seguinte com a introdução das questões
das etnias e da interação da educação com a cultura.
Pode-se dizer que, em um primeiro momento, o ideário do CNRC se propunha
a modernizar a noção de cultura brasileira, sem abrir mão, no entanto, de uma
visão calcada no naç!onal-popular. Esse intuito de modernização - que não che·
gava a ser uma revisão radical das concepções já formuladas de cultura brasileira -
ff,
estava evidente na formulação dos objetivos do centro e nos métodos a que recor·
ria para alcançá-los.
À diferença das instituições já existentes voltadas para o conhecimento e a
proteção da cultura brasileira, o CNRC não se propunha a coletar bens, e sim a
produzir referências - com o recurso às ciências sociais, à documentação e à
informática - que pudessem ser utilizadas no planejamento econômico e social.
A intenção clara era de revitalizar a cultura brasileira, inserindo-a no circuito do
tema que, no discurso governamental, tomava o lugar da "segurança nacional",
embora estivesse articulado com essa preocupação: o desenvolvimento. Não se
tratava mais, entretanto, de uma visão otimista do desenvolvimento, como a for·
mulada na era JK e no período do Brasil Grande, centrada na industrialização e
nos grandes projetos; essa visão começara a ficar desacreditada com a crise pós·
milagre. Havia, portanto, espaço para um novo discurso, que desse um novo sen·
tido ao desenvolvimento econômico.
O problema que serviu de ponto de partida à criação do CNRC - a falta de
um caráter nacional no produto brasileiro - remetia, como ocorrera nos anos 20
com os modernistas em relação à produção cultural brasileira, à questão da tradi·
ção. Em 1975, o grupo inicial do CNRC considerava que o que faltava para conferir
caráter ao produto e à nação brasileiros era uma tradição que estivesse não ape-
nas cristalizada, internalizada, mas, sobretudo, viva, que fosse apreendida em sua

lJi.Q_J O PABIMÔNI O EM PR OCEIIO


dinâmica e em sua pluralidade. Acreditava-se que era nessas características que
residia seu potencial criativo.

Para Aloisio e os pesquisadores do CNRC, a imagem de cultura brasileira pro-


duzida pelas instituições oficiai~ era. além de restrita, morta, e tratada como mero
testemunho de épocas pretéritas ou como expressões artísticas individuais (Maga- __
!hães, 1985, p. 63). Progressivamente, foi sendo formulada a idéia d~ bem cultural, i
que surgiu como alternativa atualizada e mais abrangente à noção de patrimônio
histórico. Joaquim Falcão sintetizou, com felicidade, a relação que, na visão de
Aloísio Magalhães, existia entre as duas noções: "patrimônio histórico passou a
ser a espécie, e bens culturais o gênero" (Magalhães, 1985, p. 18).
Dentre os bens culturais, o CNRC se voltou prioritariamente para aqueles até
então excluídos das representações da cultura brasileira construidas pelos órgãos
ofici,ais,. ~u seja,

Vasta gama de bens - procedentes sobretudo do fazer popular - que, por estarem
inseridos na dinâmica viva do quotidiano, não são considerados como bens culturais
nem utilizados na formulação das políticas econômica e tecnológica. No entanto, é a
partir deles que se afere o potencial, se reconhece avocação e se descobrem os valores
mais autênticos de uma nacionalidade. (Magalhães, 1985, p. 52-53)

A valorização das raízes populares na construção da identidade nacional não


constituia o dado novo da abordagem do CNRC. Como já foi observado no capítulo
anteíior, em 30, os modernistas, inclusive os do Sphan, já procuravam chamar
a atenção para o valor histórico e artístico das manifestações populares, inclusive
dos fazeres e saberes, como propunha Mário de Andrade em seu anlêprojeto. O
novo na proposta do CNRC era a perspectiva a partir da qual se valorizavam essas
manifestações, que não eram apreciadas via foldore ou etnografia. Tratava-se de
revelar um interesse até então não percebido: sua capacidade de gerar valor eco-
nômico e de apresentar alternativas apropriadas ao desenvolvimento brasileiro.
Era introduzida, assim, uma mediação politicamente relevante entre a cultura po-
pular e o interesse nacional.
Foram objeto preferencial do trabalho do CNRC "o trato da matéria-prima, as
formas de tecnologia pré-industrial, as formas do fazer popular, a invenção de ob-
jetos utilitários" (Magalhães, 1985, p. 113). As análises desses objetos eram orien·
!adas no sentido de demonstrar a adequação das soluções tradicionais ou das
adaptações criativas do po'.'o às condições do contexto brasileiro.

A!AH AOOfW
Llill
A noção de cultura popular foi ampliada de modo a abranger tanto as manifes-
tações populares tradicionais quanto suas intersecções com o mundo industrial
e urbano. Ficava de fora. apenas, a cultura de massa.
A valorização da cultura brasileira, e em particular da cultura popular, atuaria
como vacina contra as poderosas influências externas que descaracterizavam a
nação. Como em 30, considerava-se que pairava no ar uma ameaça à sobre-
vivência da cultura brasileira, agora não tanto sobre os monumentos históricos
que, tombados, estariam, em principio, protegidos, e sim sobre a cultura viva das
camadas populares, pouco conhecida e passivei de ser esmagada pelo progresso
e pelas influências exógenas.
Ao CNRC não interessava, portanto, atuar sobre bens que fossem meros sig-
nos do passado; para proteger esses bens já existiam instituições e museus sufi-
cientes. Seu interesse se voltava para as manifestações culturais vivas, inseridas
em práticas sociais contemporâneas. Não era por acaso q~e imagens vitalistas
povoavam os discursos de Aloísio Magalhães.
Não só o conceito de cultura, mas também o modo corno o CNRC a abordou
já foram identificados com uma perspectiva antropológica. Considerava-se que as
manifestações culturais deviam ser compreendidas em sua trajetória própria e em
sua relação com o contexto cultural onde são produzidas e por o~de circulam.
Desse modo, o CNRC queria marcar sua diferença relativamente às apreciações
tradicionais, via folclore. Posteriormente, vai-se cunhar a expressão "patrimônio
cultural não-consagrado" para explicitar que se tratava de manifestações até então
não reconhecidas pelo patrimônio oficial e nem compreendidas, em sua especifi-
cidade, pelas camadas cultas.
Para o CNRC, o objetivo de sua proposta era instrumentalizar a área da cul-
tura para participar na elaboração dos projetos de desenvolvimento. Nos anos 70,
essa participação significava alcançar um assento junto aos organismos estatais
de p!anejamento, na medida em que o Estado era, então, o protagonista dos gran-
des investimentos e o principal fi~anciador dos empreendimentos privados. Nesse
sentido, os primeiros interlocutores do CNRC eram as autoridades dos órgãos es-
tatais, embora houvesse a preocupação de buscar legitimação para seus tra balhos
junto ao meio intelectual e, sobretudo, junto à área acadêmica, tanto nacional como
internacional.
" Um dos pontos de partida para a ,aflexão de A\oisio Magalhães era a distinção
entre países velhos e novos, e ricos e pobres (Magalhães, 1985, p. 85). No caso

[illJ O PAIW\ÓHI O !.li. PROW' O


do Brasil - pais novo e pobre -, ele considerava que a maior riqueza de que se
dispõe não é material. é cultural. Essa cultura autêntica, viva, é que seria o nosso
legado para a civilização ocidental. nosso ºartigo de exportação".
No artigq_uBens culturais: iristrumento para um desenvolvimento harmonioso",
Aloísio Magalhães sintetizou sua visão sobre o papel da cultura no planejamento
econômico, tendo como eixo a questão da identidade nacional: "Resultam ainda
frágeis os indicadores de nossa identidade cultural. Mas, apesar de frágeis, não
deixam de ser importantes como instrumentos para a formulação de nossa política
de desenvolvimento." (1985, p. 40). Essa política, para Aloísio, atuaria em dois
níveis:

Consideranào o desenvolvimento como a busca de uma síntese harmoniosa


produzida pelos componentes diversificados e mesmo paradoxais de nossa cultura, é
de supor que a ação político-econômica se processe em dois planos: em nível macro,
das infra-estruturas de apoio, chamaríamos de metadesenvolvimento; em nível micro,
de identificação de necessidades lígadas acomportamentos e hábitos, usos e costumes
da comunidade, chamaríamos de paradesenvolvimento. (Magalhães, 1985, p. 42)

Se, no nível macro, se importavam modelos e estruturas, muitas vezes inade-


quados aos contextos locais, era no nível micro, com o recu rso aos indicadores
culturais. que se poderiam corrigir as desigualdades e descaracterizações. Ficava
implícito que o equilíbrio entre esses dois níveis não é espontâneo, mas depende
de decisão política.
Esse texto foi elaborado, em sua primeira versão, para ser encaminhado ao
então lodo-poderoso chefe da Casa Civil, general Golberi do Couto e Silva, e,
não por acaso, discutia também as duas alternativas passiveis para a conti-
nuidade do CNRC, que buscava uma forma estável de institucionalização: ou
sua incorporação ao lphan, ou sua transformação em uma secretaria especial,
que atuaria junto à prnsidência da República, com alcance sobre todas as áreas
da administração pública federal. A segunda alternativa, mais adequada aos
objetivos do CNRC, era, porém, a mais complexa e politicamente mais instàvel.
Após um período de indecisão, Aloí~io preferiu a primeira, mais segura, e que
oferecia maiores garantias de continuidade - o que de fato se confirmou, pois
foi o primeiro passo para a criação da Secretaria da Cultura do MEC, em 1981,
quando, pela primeira vez, se reuniu em um só órgão, no Brasil, a gestão da
política cultural federal.

4 fAH !.OOWIJ
Oill
4.5 h UNIFICllc&O O~ POLÍIICA FEOERAt OE
PRElrnVA(ÃO: A FUlhO IPHAN/PCH/CNRC .,
·~
Em 1979, com o apoio do ministro Eduardo Portela e do general Golberl do
Couto e Silva, Aloísio Magalhães foi nomeado diretor do lphan, e ocorreu a fusao
lphan/PCH/CNRC. Reuniam-se assim. numa só instituiçllo, os recursos e o know-
how gerencial do PCH, o prestígio e a competência técnica do lphan e a visão
moderna e renovadora do CNRC. roi c1 ic:1da uma nova estrutura: um órgão nor-
mativo - a Secretaria do Patrimônio Histórico e ArtlsLico Nacional (Sphan) e um
órgão executivo - a Fundação Nacional pró-Memória (FNpM).
Para Aloísio, a fusão vinha revitalizar o lphan e operacionalizar o CNRC,
solução que se justificava na linha da continuidade pregada por ele. Esse era o
conteúdo da exposição de motivos encaminhada ao MEC, em setembro de 1979,
propondo a criação ei'a · Fundação Nacional pró-Memória como órgão executivo da
Secretaría do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. que viria substituir o lphan.
E foi com esse discurso que Aloísio Magalhães conseguiu amplo apoio no Con-
gresso Nacional para aprovar, em regime de urgência e em um momento bastante
desfavorável à criação de novas fundações, a Fundação Nacional pró-Memória.
em novembro de 1979.
Em tenmos conceituais, a idéia era de que o CNRC desenvolvia uma atuação
complementar e critica em relação ao lphan, que privilegiava os bens de pedra e
cal. Tratava-se, nas palavras de Aloísio Magalhães, de suprir uma lacuna do lphan:
' A aproximaçao que o CNRC deu ao conceito de bem cultural atinge uma área de
que o Patrimônio não estava cuidando. Ou seja: o bem cultural móvel, as atividades
do povo, as atividades artesanais, os hábitos culturais da humanidade. O Patrimônio
atuava de cima para baixo, e, de certo modo, com uma concepção elitista. A igreja
e o prédio monumental são bens culturais, mas de um nível muito alto. São o resultado
mais apurado da cultura. OCNRC procurava trabalhar de baixo ;>ara cima. Pela própria
razão de ser uma atividade popular não tem consciência de seu valor. Quem faz uma
igreja sabe o valor do que faz. Mas quem trabalha com couro, por exemplo, nem
sempre. Desse contraponto, pode surgir uma hipótese - a de que o CNRC começava
a tocar nas coisas vivas, enquanto o lphan se preocupava principalmente com as coisas
mortas. Pelo contrário. é através das coisas vivas que se deve verificar que as do
passado não devem ser tombadas como mortas. (1985, p. 217)

Como a vinculação - utilitária e simbólica - dos bens tombados pelo lphan


com a vida social e econômica das comunidades não era levada em conta, esses

OE] O PAIRI/I\ÕM1 0 lll. PROC[\lO


bens, segundo Aloísio, se apresentavam como "mortos", em oposição à relação
dinâmica das manifestações populares com seus produtores e usuários. Por outro
lado, estava implícito no texto acima que cabia aos setores mais esdarecidos das
camadas cultas explicitar e valor propriamente cultural das produçoos populares,
tradicionalmente valoradas a partir de uma percepção elitista, via foldore. O pro-
jeto do CNRC se propunha a criar uma via de mão dupla entre dois universos que
se achavam apartados tanto no dominio do conhecimento acadêmico quanto no da
administração pública .

O texto citado de Aloísio é bastante elucidativo quanto à elaboração feita pelo


CNRC da dicotomia cultura· erudita/cultura popular. Essa dicotomia, como veremos
adiante, havia sido ratificada também no nível institucional, e aí residia uma
diferença significativa entre a proposta de Mário de Andrade - exposta no seu
anteprojeto e realizada no Departamento de Cultura da Municipalidade de São
Paulo, nos anos 30 - e a prática desenvolvida pelo Sphan com base no decreto-
2
lei n 25, de 30.11.37. Não foi por acaso, aliás, que o CNRC buscou no anteprojeto
de Mário de Andrade um apoio a sua proposta. Entretanto, Mário de Andrade, em-
bora se voltasse para criar vias de acesso entre a cultura erudita e a cultura popu-
lar, mantinha clara distinção entre as duas - o que não ocorreu no CNRC.
Como já foi dito no capitulo anterior, se os técnicos do Sphan eram sensíveis
ao valor cultural das mc:nifestações populares, na seleção de bens para tomba-
mento havia dificuldade em valorar esses bens com base nos critérios adotados
para as expressões da cultura erudita, sobretudo se esses bens (os da cultura
popular) se achavam inseridos na dinâmica de uso das comunidades locais. É
significativo, a respeito, o parecer de Luís de Castro Farias, membro do Conse!r:
Consultivo, e então diretor do Museu Nacional, que. em 1958, assim justifica .. a
sua opinião con trária ao tombamento do Santuário do Bom Jesus da Lapa, r.a
Bahia, solicitado pelo pároco local:

No Santuário de Bom Jesus da Lapa pralica-se um culto de cunho pop~'é~. A


religiosidade da massa humana que ali acorre em época de romaria se expr ....;; de
acordo com padrões éticos próprios; a sua sensibilidade possui também um s:s:211a
de valores algo diferente do nosso. Para que esse santuário possa continuar fiel a ':5sa
tradição, é preciso que lhe não restrinjama liberdade de ampliação, renovação e '.:esmo
inovação em consonância com as exigências daquelas formas peculiares de com·
portamento. Comprovado o desfiguramento paisagistico do local e o desaparec:rc;;nto
de lodos os bens de valor histórico e artístico (segundo os critérios do Dphan) ,:;ce ali
existiram, não vemos como se poderia conciliar futuramenle os interesses do D:~an

A fAl! AODEKIIA
1
~
155 :
e os das autoridades eclesiásticas responsáveis pela grave tarefa de manter e ampliar
o culto na forma peculiar de que se reveste naquela área. (2611 reunião CC - 21.8.58)

Ou seja, considerava-se, no final da década de 1950, que as expressões da


cultura popular deviam ser apreciadas dentro de uma outra ordem de valores que
não a que presidia à prática de preservação exercida pelo Sphan, adequada aos
bens móveis e imóveis de excepcional valor histórico e artístico.
Manifestações como o artesanato, ritos e folguedos, os saberes e fazeres do
povo eram, até os anos 70, objeto de interesse primordialmente de folcloristas e
etnógrafos, sendo os mais conhecidos Luís da Câmara Cascudo, no Rio Grande
do Norte, Rossini Tavares de Lima, êm São Paulo, e Renato de Almeida e Édison
Carneiro, no Rio de Janeiro. Em 1958, foi criada, no MEC, a Campanha de Defesa
do Folclore Brasileiro, integrada, nos anos 70, ao Departamento de Assuntos Cul·
turais (DAC), e, posteriormente, à Funarte. Em 1977, foi criado, no Ministério do
Trabalho o Programa Nacional de Desenvolvimento do Artesal')ato (PNDA), visan-
do a explorar o artesanato como possível fonte de repda para mão-de-obra não
qualificada. A Artíndia, por exemplo, vinculada à Funai,' tem ,j)or objetivo comercia-
lizar objetos produzidos pelos índios. Institucionalmente, portanto, o trato de bens
produzidos em contextos culturais de origem afro-brasileira, indígena e popular
ficava a cargo de outros setores dentro do MEC, e de outros órgãos da adminis·
tração pública federal. Integravam, porém, o patrimônio histórico e artístico nacio-
nal nas c0leções etnográficas dos museus nacionais.
ÍO CNRC se propunha, entre outros objetivos, a reelaborar essa dicotomia
(erudito/popular) e a conferir um status de patrimônio histórico e artístico nacional
à produção dos contextos populares e das etnias indígena e afro-brasileira. Na
mesma linha, o projeto do CNRC (que foi assumido pela FNpM) queria dar um
novo sentido à política de preservação. Não se tratava mais de apenas preservar
materialmente monumentos e sítios em que se reconheciam valores históricos e
artísticos que justificavam o investimento em sua conservação pela sua mera
presença e visibilidade~ Essa era considerada uma postura elitista, para benefício
apenas das camadas cultas. Nos anos 70, a tarefa de preservação passou a assu·
mir novas funções para além da esfera estritamente cultura!. Como já vimos, pro-
curava-se revelar nos bens culturais sua dimensão de produtores de valor eco·
nõmico, seja diretamente, como matéria-prima para a atividade turística, seja indi-
retamente, como referências para a busca de soluções adequadas ao processo
de desenvolvimento brasileiro.

[illJ O PtlRIA\ÕHIO EMPRCC!l íO

~
A partir dos anos 80, a preservação das manifestações culturais dos diferentes
contextos cullurals brasileiros assumiu uma nítida conotação política, na medida
em que, à idéia de diversidade, se sobrepunha a de desigualdade. Ao propor a
introdução de bens do "patrimônio cultural não-consagrado" no patrimônio histórico
e artístico nacional (basicamente. bens das etnias afro-brasileiras e vinculados
à cultura popular), e a participação da sociedade na construção e gestão desse
patrimônio, a política da FNpM visava a se inserir na Juta mais ampla que mobi-
lizava então a sociedade brasileira pela reconquista da cidadan[i Na gestão de
Aloísio Magalhães no lphan, uma primeira expressão dessa participação foi a in-
-: trodução da prática de consultar as populações dos centros históricos, o que ocor-
. [t reu nos seminários de Ouro Preto, Diamantina, Cachoeira, São Luís etc.
Em termos teóricos, o CNRC não lidava com os conceitos de arte e de histó-
ria, sobre que se fundamentava a ação do lphan, mas com categorias apresentadas
como novas, no sentido de reelaboradas, como a de bem cultural, de memória,
de continuidade etc.

Em contraponto à idéia de coletar para guardar, para preservar, AJo.i?LQ.Mê~-


/
g.alhães propunha a noção de "dinamização da memória nacional":

t
Quando se fala em memória num sentido figurado, quando se empresta a idéia de
memória a um fato qualquer. em geral há uma tendência a se tomar isso como "juntar" ~
ou •guardar" alguma coisa, 'reler". E isso me parece insatisfatório; eu prefiro o conceito
biológico de memória: guardar, reter, para emseguida mobilizar e devolver. (1985, p. 67)

Para Aloisio, a atividade de proteção não podia esgotar-se nela mesma. Era
necessário pô-la a serviço da sociedade, o que considerava ser também respon-
sabilidade dos organismos culturais.
Na noção de tempo cultural, entendido como continuidade8 - mas não como
imutabilidade, como os procedimentos de proteção levam a entender - Aloísio
Magalhães articulava passado, presente e futuro, tendo sempre em vista elaborar
a ação projetiva.9 "Porque uma cultura é feita de elementos compostos do passado
que são vistos pelos homens transitórios do presente e que desenham o caminhar
projetivo." (1985, p. 71 ).
A concepçã o ampla de cultura, a visão totalizadora e articulada da ação cul-
tural conforme o modelo das duas vertentes, 10 idéias expressas em imagens como
a do disco e a da bateia, habilitavam A!oísio a abarcar todo o universo cultural
do MEC.

A f AH ~ODEm
[illJ
4.6 LJMA PROPOS!A DE DfMOCRA!l1Ac&O DA POl Ílleà
WllURAL: A CRIA(ÀO DA >ECRflARIA OA (Ul!URA DO ME(
Na gestão do processo de reordenamento instituclonal da área cultural do ;f;
MEC, Aloísío Magalhães, visando a administrar inevitáveis conflitos entre inte-
resses de áreas até então autônomas, recorreu a um processo pouco usual no
serviço público: a realização de seminários reunindo técnicos de todas as insti-
tuições envolvidas. Em 1979, es~~ foi o objetivo do seminário realizado na Escola
Superior de Adrni11icilração Fazendária ([.,af), em Brasília, com funcionários do
!phan, do PCH e do CNRC. O mesmo procedimento foi utilizado em 1981, quando
da criação. da Secretaria da Cultura do MEC (SEC), com o objetivo de elaborar
o documento que foi denominado Diretrizes para operacionalização da política
cultura! do MEC.
A proposta de democratização da política cultural contida nesse documento foi
introduzida pelos agentes institucionais que elaboravam e conduziam os projetos
no CNRC e, posteriormente, na FNpM. Esses agentes - em geral atraídos pela
possibilidade de desenvolverem trabalhos voltados para os interesses de grupos
até então não atendidos pelas políticas culturais - se propunham atuar como
mediadores entre o Estado e as comunidades ainda não organizadas, na cena da
política cultural estatal.
A diferença da fase heróica do $phan, nesse documento não se propunha
atingir a sociedade através de uma campanha de educação popular, no sentido
de esclarecer as massas sobre os valores histórico e artístico dos bens culturais.
Para aqueles novos agentes institucionais, no final dos anos 70 e início dos 80,
as ações da política cultural do governo federal deviam se voltar prioritariamente
não só para o atendimento das necessidades culturais, como também levar em
consideração as necessidades econômicas e políticas dos grupos sociais até
então excluídos - simbólica e materialmente - dos beneficias dessa política. Mais
que isso: era preciso que essas comunidades passassem a participar do processo
de construção e de gerenciamento da produção cultural brasileira, inclusive do pa-
trimônio cultural. É pela via da participação social - e não mais pela da seleção
rigorosa de bens de valor excepcional - que se vai buscar legitima r a política de
preservação dos anos 80.
Esse recurso não caracterizava uma mudança apenas no âmbito da política
cultural. Como observa Pécaut, o !ema, no quadro da abertura política iniciada no
governo Geisel, era "reativar a sociedade civil". Entretanto, segundo o mesmo

lJ2!J O ?AIRIIIIÓHIO E/li ?RO( f l lO


autor, esse !ema "sugere uma estratégia política que requer uma capacidade de
auto-organização da sociedade" (1 990, p. 290). Era nesse espaço - entre o lema
e seu pressuposto - que pretendiam atuar os agentes do CNRC e, a partir de 1979,
os da FNpM. Em que medida as estratégias adotadas levaram efetivamente à de-
mocratização da política de preservação é uma das indagações que motivam este
trabalho.
O fato é que esse novo discurso se revelou compatível não só com o momento
de abertura democrática dos últimos governos militares, como foi também encam-
pado pela Nova República. Os artigos 215 e 216 da Constituição de 1988 trazem
nitidamente sua marca.
Após a morte súbita de Aloísio Magalhães, em junho de 1982, na Europa, onde
fora participar de reunião da Unesco, em Veneza, assumiu a SEC seu cooterrâneo,
Marcos Vinícios Vila ça, que se propõs dar continuidade à orientação de seu
antecessor.
Em 1985, o presidente eleito Tancredo Neves criou o Ministério da Cultura,
que substituiu a SEC, e foi assumido por José Aparecido de Oliveira durante ape-
nas dois meses, antes de passar a responder pelo Governo do Disbito Federal.
Para substituí·lo foi nomeado o mineiro Aluísio Pimenta, a quem sucedeu, em
1986, o economista Celso Furtado; em setembro de 1988, José Aparecido ocupou
novamente o min1stério.
No MínC, procurou·se estimular a parti cipação da sociedade mediante três
procedimentos: a criação de assessorias especiais - do negro, do indigena, da
mulher, dos deficientes físicos, da terceira idade etc. -. a realização de seminários,
que reuniram intelectuais e artistas, visando à elaboração de uma proposta de po-
lítica cultural, e a implan tação da Lei Sarney, de incentivos fi scais.
As propostas dos seminários praticamen te ratificaram o texto das Diretrizes.
As assessorias foram, enfim, extintas, permanecendo apenas a do negro que,
após a Constituição de 1988, se transformou na Fundação Palmares. A Lei
Sarney foi revogada no início do governo Collor e, posteriormente, substituída
pela Lei Rouanet.
Extinto em março de 1990, após cinco anos apenas de funcionamento, o Minis-
tério da Cultura da Nova República, primeira tentativa no Brasil de criação de um
ministério indepenflen te para cuidar exclusivamente da cultura, está a requerer
uma análise específica.

AHH tHODfRH~
nm
4.7 Ü ALCANCE E OI LIMlfEI DA POlÍflCA FEOERhl
DE PREIERVA(&O NOI ANOl 70-80: UM BALAN(O

A mera exposição da trajetória da política de preservação federal, nas décadas


de 1970 e 1980, evidencia uma nítida mudança em relação ao modelo vigente até
então. O esforço de reformulação feito pelo lphan no final dos anos 60 e ínfcio
dos 70, através do recurso à consultoria internacional e ao envolvimento dos
governos estaduais, não foi suficiente para recuperar o piestígio e o relativo poder
de que a instituição gozara durante a gestão de Rodrigo M. F. de Andrade. O
sürgimento de alternativas à margem do MEC veio mesmo confirmar o desgaste
da proposta do lphan e a necessidade de uma reorganização institucional.
Conceitualmente, essa reelaboração já vinha sendo tentada, desde a gestão
de Jarbas Passarinho no MEC, quando, segundo informação de Gabriel Cohn
(1984, p. 88), foi elaborada, em 1973, a primeira proposta global de política cultural
do governo militar, com o pouco conhecido documento Diretrizes para uma política
nacional de cultura.
Mas o documento que foi efetivamente divuigado e adotado como orientação
oficial foi o Política nacional de cultura, elaborado em 1975, durante a gestão do
ministro Ney Braga, por membros do MEC e do Conselho Federal de Cultura, sob
a orientação de Afonso Arinos de Melo Franco. Nesse texto, já estavam presentes
temas que foram posteriormente desenvolvidos por Aloísio Magalhães.
A expressão "segurança nacional" está praticamente ausente do texto, a não
ser por uma rápida menção (MEC, 1975, p. 30). É a temática da relação entre
cultura e desenvolvimento que recebe maior destaque, na afirmação da impor-
tância da cultura na vida econômica e social ("O desenvolvimento não é um fato
de natureza puramente econômica. Ao contrário, possui uma dimensão cultural
que, não respeitada, compromete o conjunto" [ibid.]). A noção de identidade cu\tu·
ral é referida a partir de uma perspectiva pluralista, pluralismo esse que se ex-
pressa na diversidade regional. Essas diferenças, amalgamadas entre si e às
infiuências externas, se fundiriam no "sincretismo" característico da "marca" bra·
sileira (idem, p. 16). O patrimônio cultural brasileiro é caracterizado a partir da
tradicional distinção entre cultura erudita (patrimônio histórico, artístico e cientí -
fico) e cultura popular (artesanato e folclore) (idem, p. 24 ), propondo-se inclusive
ações distintas para cada uma das duas esferas.
Para se entender melhor o surgi mento da proposta do CNRC, e sua incor-
poração à política cultural do MEC no contexto de um governo autoritário, cabe

lliQJ O PAIRl!liÕHI O IM PROWIO


lembrar que a chamada fase de aberlura, iniciada em 1974, com o governo Geisel,
teve implicações perceptíveis no âmbito desse ministério. Durante as gestões dos
ministros Ney Braga, Euro Brandão (governo Geisel), mas sobretudo durante a
gestão Portela, o MEC se converteu em um espaço privilegiado para a criação
de uma imagem de abertura. Após a fase de reestruturação institucional e de ela-
boração da primeira política global para a área da cultura depois do gofpe de 1964,
na gestão Portela o MEC se propôs explicitamente privilegiar as demandas dos
grupos populares. Comparando os textos e documentos produzidos nesse período
com o já mencionado Política nacional de cultura, Sérgio Miceli observa que estes
últlmos "lidam com pares conceituais idênticos, mas com sinais trocados" {1984,
p. 107). É nesse período que Aloísio Magalhães inicia sua ascensão na política
cultural do MEC.

O tom novo e moderno que é atribuído ao discurso de Aloísio Magalhães de-


corre não exatamente dos temas propostos, mas do modo como os elabora e do
significado que lhes confere, tendo em vista um projeto para a nação. Pela primei-
ra vez, desde 1964, a expressão "segurança nacional" está totalmente ausente de ·
um discurso oficial cujo tema é a cultura. Por outro lado, a relação entre cultura
e desenvolvimento assume, em seus pronunciamentos, contornos mais específi-
cos. exemplificada com situações concretas, como o caso de Triunfo (cf. Maga-
lhães, 1985, p. 42-44), e trãduzída em uma proposta de atuação nova, ainda que
genérica.

Além disso, Aloísio evita habilmente qualquer menção, ou mesmo alusão, à


idéia de sincretismo. A reflexão que desenvolve sobre o processo cultural brasi-
leiro, sempre a partir de pares de opostos (países novos/velhos e pobres/ricos:
bens vivos e bens mortos etc.), é mais sofisticada, na medida em que não se re-
solve numa mera síntese ou superação das oposições, mas mantém sempre a
relação e a tensão entre os dois pólos. Como articulações desses elementos, Aloí-
sio recorre às noções de processo ou dinâmica cultural e de tempo cultural, no-
ções que vai defini r, como era seu costume, e até por vezo profissional. recor-
rendo às imagens extremamente expressivas a que já nos referimos: a do cristal,
a do estilingue, a do disco e a da bateia.
Foi com base nas idéias de bem cultural, de diversidade cultural, de conti-
nuidade , e na afi rmação do potencial projetivo do traba lho na área cultural que
Aloísio Magalhães e o grupo do CNRC formularam uma proposta de política
cultural que tinha como ambição fornecer ~ubsidios para a solução dos problemas

A f AH 11, 00ERN4
Oill
do desenvolvimento no Brasil. Sua elaboração, no entanto, passava ao largo de
tensões e conflitos concretos que se manifestavam no âmbito do processo cultural
e, certamente de forma mais aguda e evidente, nos campos econômico e social -
tensões essas que se impunham na execução de projetos como os de Maceió e
de Suape.
No seu discurso, Aloísio Magalhães criticava os sinais da modernização capi-
talista que considerava inadequados em um país subdesenvolvido - transferência
acrítica de tecnologias própri::is p;:ira os países desenvolvidos, acumulação de ri-
quezas sem : ::orrespondente distrib~:ção, investimentos em projetos faraônicos -
para defender um modelo de desenvolvimento endógeno, a busca de soluções
autóctones. Essa postura se alinhava à orientação terceiromundista da Unesco,
então sob a direção do africano Amadou Matar M'Bow.
Segundo essa visão, o que, na perspectiva do desenvo!vimentismo, eram
sinais de carência - o atraso tecnológico, os bolsões de cultura pré-capitalista,
o apego à tradição - converte-se, pode-se dizer que quase magicamente, em fato-
res propiciadores de um desenvolvimento apropriado.. Essa inversão de expec-
tativas é exposta por A!oísio Magalhães em um tom que .beira o messianismo:
Restam os países pobres e novos. A esses. e para esses. devemos voltar nossos
olhos e nossa reflexão porque aí talvez se encontre, excelências, uma série de parâ-
metros e de paradigmas que, nesta altura da vida do Ocidente - pois estamos falando
do Ocidente - adquirem um síg nificado todo especia 1. É que talvez esteja unicamente
nos segmentos de autenticidade dessas nações. nos frágeis e pequenos elementos que
constituem o seu patrimônio, como cultura, justamente a probabilidade da sua salvação
diante do mundo, criado pelo homem ocidental, em que tudo são impasses, em que
nada foi resolvido, em que o dinheiro não compra harmonia, não compra a identificação
do homem com o meio ambiente, diante de um mundo em que tudo está em xeque,
em que nenhuma das formas de valorização econômica, tecnológica e mesmo científica
está verdadeiramente à disposição de todos. (1985, p. 82-83)
Na verdade, a crítica de Aloísio se dirige antes ao imperialismo que ao modelo
capítalista implantado no Brasil. Imperialismo econômico, do capital internacional,
imperialismo cultural, dos padrões europeus e, mais recentemente, dos mass
media americanos. O verdadeiro Brasil, qual um gigante adormecido, estaria co-
berto por um manto estrangeiro:
É como se o Brasil fosse um espaço imenso, muito rico, e um tapete velho, roçado,
um tapete europeu cheio de bolor e poeira tentasse cobrir e abafar esse espaço. É
preciso levantar esse tapete, tentar entender o que se passa por baixo. (Magalhães,
1985, p. 42)

IJill O HIWIÔH IO Ili. PRO CES SO


Nesse sentido, o discurso de Aloísio se distinguia do discurso então produzido
pela Seac, sob a direção de Márcio Tavares d'Amaral - que, em 1981, foi inte-
grada à Secretaria da Cultura, e passou, portanto, à direção de Aloisio. Em sua
fala, a distinção entre dominantes e dominados - que predominava nos textos da
Seac - é apenas mais uma entre as oposições mencionadas - e certamente não
a mais enfatizada -, o que terá contribuído para que seu discurso transitasse livre-
mente entre grupos sociais das mais diversas orientações políticas e servisse,
com sucesso, para alcançar o objetivo a que ~e propunha: a reestruturação da
área cultural no governo federal. Por outro lado, é inegável que essas oposições
foram construídas ·de modo a induzir a uma valoração, recebendo sinal positivo
o que era qualificado como vivo, o que, por contraste, qualificava negativamente -
no sentido de morta, estática e afastada da vida das comunidades - a política de
preservação praticada pelo lphan. E, embora alguns projetos visassem a uma
reinterpretação dos bens consagrados, conforme os pressupostos de trabalho do
CNRC, no conjunto prevaleciam aqueles bens a que a atuação do lphan não vinha
atendendo.

Foi, portanto, o potencial criativo dos bens culturaís - primordialmente os da


cultura popular - e seu valor como "instrumento para um desenvolvimento har-
monioso" que constituiu o foco de interesse dos tra balhos desenvolvidos pelo
CNRC.

No entanto, as indefinições do discurso de Aloísio, que em meados dos anos


70, podiam ser encaradas como estratégia politica, foram tornando problemática
sua aceitação por parte de setores sociais mais radicais. Em primeiro lugar, esse
discurso revalorizava a cultura popular a partir de uma visão idealizada, sem iden-
tificar os sujeitos reais que a produzem e consomem, e seu lugar subalterno na
sociedade brasileira. Em segundo lugar, sua posição, junto ao governo federal,
de porta-voz dos produtores dessa cultura, tornava-se progressivamente mais pro-
blemática, tanto em função das ações desse govern o, que contradiziam a intenção
de abertura, quanto da própria rearticulação da sociedade civil. Esses aspectos
do discurso de Aloísio e da prática do CNRC provocaram críticas de setores da
intelectualidade e desconfiança por parte de lideranças dos movimentos populares
ainda incipientes.

Apesar da grande aceitação desse discurso e da receptividade à pessoa de


Aloisio, a proposta do CNRC transmitia, sobretudo aos setores acadêmicos - que
Aloísio procurava, principalmente em São Paulo, para trocar idéias - uma impres-

A fAH Ji OOlRNJ,
f ..,...- , .-- . ·-- .
1uFD~c l~l=E;.~;;~c;~~~\~~;---~lliIJ
-6-3
s,io de imprecisão teórica e de ambigüidade ideológica, o que era agravado por
seu lugar de fala, de dentro do Estado. Essa situação ficou mais delicada após
1977, quando o presidente Geisel fechou o Congresso e lançou o "pacote de abril",
o que motivou a saída do ministro Severo Gomes do governo. Se as criticas de
um intelectual de perfil mais tradicional, como o historiador José Honório Rodri·
gues, não criavam maiores embaraços a Aloísio (Magalhães, 1985, p. 122·127),
ficava mais difícil reagir às reservas de intelectuais corno Carlos Guilherme Mota,
-:.~:~
Marilena Chauí, Sérgio Miceli e outros, que se fundamentavam numa reivindicação
de maior rigor cientifico e maior clareza ideológica. 11
Essa ambigüidade se tornou particularmente incômoda a partir dos anos 80,
quando a sociedade se mobilizava para a reconquista dos direitos políticos, e foi
reforçada junto ao meio acadêmico, como observa Sérgio Miceli, devido "à ausên-
cia de um quadro conceituai de referênc·1a nos documentos veiculados pelo Cen·
tro" (1984, p. 80). Por oufro lado, pode·se argumentar em favor de Aloísio e de
seu projeto que, se o mundo acadêmico é o universo da análise e da crítica - cuja
independência é, inclusive, garantida pelo principio da autonomia universitária - Aloí-
sio Magalhães, assim como Mário de Andrade e Rodrigo M. F. de Andrade, transi-
tava no mundo da política, regido pelos principias da ação, da estratégia, da nego·
ciação e dos resultados.
Esse efeito negativo era contrabalançado - e alguns preferirão dizer: mas·
carado - pela originalidade e extrema eficácia persuasiva do discurso de Aloisio.
Seu estilo fugia à impessoalidade e à insipidez da linguagem burocrática, mas não
se identificava tampouco com o rigor do texto acadêmico. Como observou José
Laurênio de Melo na introdução a E Triunfo?, plasticidade e oralidade era,,1 os tra-
ços característicos de sua expressão verba\ (assim como a curiosidade, o otimis·
mo e a afabilidade eram as características mais marcantes de sua personalidade).
E apesar da impressão de simplicidade e de espontaneidade que suas falas pro-
vocavam, certamente, como artista plástico, Aloísio sabia, melhor que ninguém,
como é dificil ficar indiferente à beleza da forma, seja da imagem, seja da palavra.
E em mais um gesto surpreendente em sua carreira de burocrata, não hesitou em
recorrer a seus dotes de gravador para argumentar, na última reunião de que parti-
cipou, na Itália. sobre a pertinência de se inscrever Olinda como Patrimônio Cul-
tural da Humanidade. :2 Simoolicamente, nesse momento unia as duas faces de
sua vida de trabalho, a do criador de imagens e a do formulador de projetos.
Por outro lado, é precisei não esquecer que o discurso foi apenas um dos
recursos de que se valeu Aloísio no exercício de seu papel como protagonista

Dill O P!!Rl~ÓHl0 E/li PR OCfllO


na cena da política cultural brasileira. no período que vai de 1976 a 1982. Apoiado
em sua relação pessoal com personalidades influentes no governo federal, e,
sobretudo, em seu carisma pessoal e sua habilidade política, Aloísio conseguiu
conquistar aliados importantes junto ao Executivo - como o então todo·poderoso
ministro Golberi do Couto e Silva - e junto ao Congresso Nacional. Entretanto,
fatores como sua identidade de criador (e não de intelectual, vinculado à acade-
mia), sua desvinculação da política partidária, sua carreira tardia no serviço públi·
co e restrita à área cultural, seu interesse mais afetivo que critico pela cultura
popular e, sobretudo, o caráter original de seu discurso, que lhe garantia inegável
poder de penetração junto aos mais diversos componentes da sociedade - políti·
cos, intelectuais e artistas, conservadores, liberais e mesmo pessoas reconheci-
damente de esquerda (alguns dos quais figuravam entre seus colaboradores) -
certamente contdbuíram para suscitar muitas dúvidas quanto ao uso que estaria
sendo feito de seu projeto pelo governo militar. Para Vera Mirei (1988), por exem.
pio, a atuação modernizadora de A!oisio, na verdade, vinha ao encontro do inferes·
se do Estado, então na era pós-milagre econômico e passando por uma crise de
legitimidade, no sentido de fornecer um ideàrio nBcionalista novo e adequado para
diluir, no nível da ideologia, as contradições e os conflitos que, naquele momento,
marcavam a sociedade brasileira. Vera Milet considera que "ao nível do ideári o
e da ação na instância cultural, aquele projeto responde às necessidades do siste.
ma atual no que diz respeito à promoção de uma cultura nacional em que todos
os cidadãos, independentemente de sua posição de classe, se sintam partícipes"
(1988, p. 176).

O documento Diretrizes para operacionalização da política cultural do MEC


(1981) procurava avançar na resolução da ambigüidade mencionada recorrendo
a um outro conceito também genérico e não menos ambíguo - o da participaçã o
comunitária. Nesse texto, reivindica-se a ampliação da imagem de cultura forjada
pelos órgijos oficiais, não só pelo reconhecimento do que se denominava "patri-
mônio cultural não-consagrado", como também, e sobretudo, pela participação de
outros atores no processo de "gerencia mento da produção e da preservação dos
bens culturaís". Formulou-se, a~sim, uma proposta de democratizaçã o da política
cultural que, durante a década que se seguiu, foi um mote sempre reiterado nos
discursos produzidos pelos órgãos culturais públicos e privados. federais. esta-
duais e municipais.

Na vertente da preservação, tradicional e juridicamente de responsa bilidade


º
do poder públíco, e regulamentada partir de campos disciplina res específicos

A rrn ~ODWI~
IJill
como a história da arte, a estética, a história. a arqueologia etc.• essa proposta
de democratização, calcada em um argumento político e em uma concepção antro-
pológica de cultura, encontrou, na prática, dificuldades e limites que, obviamente,
não se apresentavam para a vertente da produção cultural (cinema, teatro, artes
plásticas etc.) - para a qual interessava que a atuação do Estado se \imitasse
a assegurar a liberdade de expressão e a fornecer formas de estímulo à criação,
sobretudo através de apoio financeiro.
Por outro lado, as diferenças (fe perspectiva na ârea da preservação (entre
,.
'. os agentes da Sphan e os do CNRC) não eram incontornáveis. A prática dos agen-
, tes do CNRC e, posteriormente, da FNpM, corno, certamente, também a prática
dos agentes da Sphan junto ás comunidades vinha demonstrando que os valores
culturais atribuidos pelas elites cultas - não só, mas também através dos órgãos
estatais de preservação - aos bens que integravam o patrimônio eram freqüente-
mente estranhos, ou mesmó ' indiferentes, para as populações que conviviam com
esses bens - pelo menos para grande parte dos habitantes das cidades históricas -
seja porque essas populações lhes atribuíam valores de outra ~rdem, seja porque
consideravam que havia necessidades mais prementes a serem atendidas pelo
poder público, por exemplo, na área de infra-estrutura urbana, saúde. educação
etc. Na verdade, portanto, as diferenças de perspectiva entre os dois grupos relati-
vamente à orientação das atividades de preservação decorriam antes de resistên-
cias de ambas as partes que de questões de princípio, pois no próprio campo
tradicional de atuação da Sphan as teses do CNRC poderiam ser comprovadas.
Mas, para que isso ocorresse, era necessário que os dois grupos desenvolvessem
uma atuação conjunta, o que só aconteceu muito raramente.
Também a necessidade de articulação do trabalho de preservação com outras
esferas da administração pública, sobretudo com a de planejamento urbano. já
vinha sendo constatada desde a gestão de Rodrigo M. F. de Andrade no Sphan.
Mas a ampliação da esfera de atuação de uma política de patrimônio se apresen-
tava como um imperativo mais forte para os agent~s do CNRC, e depois para os
da FNpM, em função do sentido social que queriam imprimir a seu trabalho - para
não falar, em alguns casos, de seus compromissos pessoais. em decorrência de
suas vinculações políticas e/ou profissionais. A esses fatos veio se juntar. no final
dos anos 70 e início dos anos 80, a pressão da mobilização social pela reconuista
dos direitos políticos. Era forçoso reconhecer que, na prática de projetos mais
'\ complexos (Maceió, Suape e. posteriormente. Ouro Preto}. as propostas do CNRC
1 •
r

O PAIRl!fiÕHh) fifi PROCll!O


Ol[J
revelaram-se insuficientes para operacionalizar a relação entre cultura e desen-
volvimento e assegurar âs populações dessas áreas meios para defender seus
interesses e sua cultura.
A consciência desses limites, fruto também da reflexão sobre algumas expe-
riências pontuais que levaram a resultados concretos - como a realização, em
1985, do Encontro Nacional de Seringueiros da Amazônia, no campus da Univer-
sidade de Brasília, desdobramento do Projeto Seringueiro, desenvolvido desde
1982, em Xapuri, Acre, dentro do Projeto lr.teração da Educação Básica e Con-
textos Culturais Específicos - conduziu a Área de Referência da Dinâmica Cultu-
ral da FNpM a assumir explicitamente uma posição política comprometida com os
grupos sociais marginalizados. Essa posição foi daramente expr.essa no docu-
m.~nt<> _CQrnpromisso cultural da Nova República (ver Anexo V), produzido por
iniciativa de funcionários da FNpM - mais especificamente, do grupo oriundo do
CNRC - mas que foi assinado por várias entidades da sociedade civil.
Esse documento foi motivado pela vacância, em maio de 1985, do cargo de
ministro da Cultura, com a saída de José Aparecido de Oliveira. O objetivo era
garantir a continuidade da proposta de política cultural exposta nas Diretrizes,
para o que se buscou o apoio de parlamentares, de intelectuais e de associações
civis. O texto, tal como o documento de 1981, parte de uma concepção abrangente
de cultura, mas reivindica a atenção do Mir.C para aspectos não específicos do
processo cultural, como "saúde, educação, acesso e uso do solo, trabalho, habi-
tação etc.", e aos "grupos diversificados em situação de subaltemidade" tais como
"indígenas, ciganos, migrantes, mulheres, favelados, garimpeiros, seringueiros,
bóias-frias etc." Segundo o documento, esses <XllTlpromissos eram ·considerados
como imprescindíveis ao processo de sua (do MinC) legitimação junto aos seg-
mentos sociais que deve ouvir e apoiar." Além disso, diz o documento, já numa
avaliação crítica das Diretrizes,..é preciso "qu.e a _pluralidade e a diversidade cul-
tural sejam respeitadas, mas que a diferença não implique em justificativa para
a desigualdade social".
No discurso de Aloisio, o objetivo era afirmar a pluralidade e a diversidade·
culturais no Brasil, e instrumentalizar a cultura visando a fornecer indicadores
para um "desenvolvimento harmonioso"; já na segunda metade da década de 1980.
o importante era pô.r o MinC a serviço da correção das desigualdades econômicas
~ sociais que caracterizavam a sociedade brasileira, numa clara politização da
questão cultural.

4 f AH AOOfRNA [filJ
Se no final dos anos 70, entretanto, Aloisio Magalhães conseguira, com seu
1
discurso e suas articulações políticas, aglutinar os setores culturais recém reu·
nidos na SEC em torno de uma proposta e mobilizar o Executivo e o Congresso
Nacional para aprovar uma ampla reforma institucional, a iniciativa tomada em
meados dos anos 80, em princípio mais legitima, porque apoiada por represen·
lantes da sociedade civil, não encontrou a mesma receptividade. A ampliação da
!;!Sfera de atuação do MinC proposta no documento, a tal ponto que levava a uma
indiferenciação da área da cultura e a uma "intromissão" no domínio de outros
ministérios, causou perplexidade entre os congressistas e mesmo junto a intelec·
tuais comprometidos com a luta pela redemocratização. Esses temas foram consi·
derados estranhos, se não ao universo da cultura, pelo menos ao de uma política
cultural. Resolvia·se, assim, uma ambigüidade - no sentido da definição política -
mas produzia·se outra - na medida em que a prática cultural era nivelada a outras
práticas sociais. '
O fato é que, desde o advento da Nova República, e mesmo durante a gestão
de um intelectual unanimemente respeitado como Celso Furtado, a política cultural
do MinC sem dúvida passou a perder o que chegara a conquistar nos anos anterio-
res em termos de espaço no âmbito do governo federal e de visibilidade junto à
sociedade.
Creio que uma das chaves para se compreender essa situação, e para se
r':lfletir sobre a especificidade da política de preservação nesse período, pode ser
encontrada no trecho abaixo, de 9abriel Cohn. comentando a década de 1970:
Assim, mudanças reais podem ser detectadas ao longo da década. Da suhordinaçâo
do processo cultural a outros (o autor refere-se à "segurança nacional", MCLF) passa·
se para a consideração da sua dimensão sacia!, e chega-se à idéia de que, para fazer
frente à sua dimensão propriamente cultural, cumpre considerar a política cultural naquilo
que na maior parte da década de 70 era inexeqüive!: precisamente a sua dimensão
política. (1984, p. 96)

As políticas de preservação do patrimônio histórico e artístico têm sido, histó-


rica e tradicionalmente, implementadas pelos estados nacionais, visando explicita-
mente à construção de uma "identidade nacional". Mobilizam, porém, outros atores
que não exclusivamente os agentes do Estado, e outros valores que não apenas
o de nacionalidade. A dimensão universal dos valores culturais que se pretende
preservar é uma das justificativas sobre as quais assenta a noção de in teresse
[?úblico, invocada para iegitimar o ônus da preservação de bens, para. o Estado
e para os interesses particulares dos cidadãos. Esses bens se destinariam Iam-

LJill O PATRl~ÓNIO fll. IRO(f l \ Q


bém ao atendimento do que hoje se define como os "direitos culturais", objetivo
que transcende os projetos particulares de construção e de legitimação de uma
nação. É a defesa desses valores universais que, em principio, situa os interesses
da preservação acima e além dos governos e mesmo dos Estados. Essa concep-
ção estava presente para os "homens de cultura• que, na Revolução Francesa,
criaram as Comissões de Arte e dos Monumentos, pois consideravam que o valor
dos bens produzidos pela nobreza e pelo clero transcendia sua identificação com
o Antigo Regime. Essa é também, guardadas as devidas diferenças, a inspirAi:.-ão
da noção de Patrimônio Cultural da Humanidade, implementad;:i pela Unesco.
A preservação de bens culturais pelo Estado é, portanto, uma prática política
eminentemente seletiva e, nesse sentido, cabe distingui·la da vertente da criação,
cujo pressuposto é a liberdade. No caso da preservação, é preciso lembrar que
o exercício da liberdade na seleção dos bens a serem preservados e na produção
da justificativa para o seu tombamento deve assentar em critérios explícitos e que
encontrem um razoável grau de consenso junto à sociedade. Na fase heróica do
Sphan eram principalmente o valor artístico do bem, e, secundariamente, seu valor
de testemunho, que justificavam os tombamentos. A interpretação desses valores
se dava dentro dos limites conceituais e das condições políticas vigentes, e era
legitimada pela autoridade de quem os atribuía. Embora, como procurei apontar
(
no capítulo 3, essas interpretações não tenham ficado imutáveis durante trinta
anos, esses valores se mantiveram como os pilares da atividade de preservaçã o.
E, procurando fugir a uma identificação com o nacionalismo vigente, os intelec-
tuais do Sphan se definiam como defensores de uma "consciência nacional".13
A partir dos anos 70, vários fatores contribuíram, no Brasil e no exterior, para
uma mudança sensível nas políticas de preservação. Em primeiro lugar, as .disci-
plinas - sobretudo a história e, coriseqüentemente, a história da arte - que funda -
_mentavam a seleção dos bens excepcionais que mereciam ser preservados, pas-
saram por uma mudança de orientação, não só em termos de objeto como também
de perspectiva. Em segundo lugar, a essa mudança no campo do saber corres-
pondeu a difusão da democracia como valor em outros campos - sexo, etnia etc. -
que não apenas o do e;(ercício da cidadania política. Afirmavam-se os direitos das
identídadªs. coletivas p_aJticul<1res, sobrepondo-se à idéia, dominante no século
X_IX.J_pcim~.!1ª...m~\qçl~ ·-ºº··~éculo ~;X.., ~e uma . identid_ade nacional. Em certo s
ca sos, propunha-se não só a construção dos patrimônios das minorias até então
excluídas da representação da nação, como também se reivindicava a participação
dos múltiplos segmentos da sociedade na gestão do patrimônio nacional. Em ter-

AfAH MODERNA
Oill
ceiro lugar, o processo de descolonização e a criação de novos Estados-nar;.ões,
sobretudo no continente africano, corno também a luta dos negros pelos direitos
civis nos Estados Unidos, levou a novas equações de poder, que não se resumiam
aos parâmetros do modelo marxista, considerado eurocêntrico. À dominação eco-
nômica se acrescentou a consciência da dominação cultural sobre os pavor colo-
nizados. O conceito de civilização - construído sobre a experiência histórica do
Ocidente - perdeu o seu caráter universal e foi reinterpretado como instrumento
de dominação da etnia européia branca. O marxismo foi considP.rado insuficiente
para a denúncia dessa realidade, e passou a ser objeto de releituras críticas que
se propunham como atualizações, inclusive no sentido de rediscutir o lugar da cul-
tura no jogo político (cf. Nelson & Grossberg [ed.], 1988).
No campo político, a questão dos direitos humanos, formulada inicialmente
pelos iluministas, foi reel~borada, e o grande desafio nesse sentido passou a ser
Q_Q~ articular o universal e o particular. A própria noção de estado nacional, que
psedominara no cenário político mundial até meados deste século (cf. Hobsbawm,
1J90), ficou comprimida entre o poder dos conglomerados multinacionais e o das
organizações políticas locais. A via da cultura passou a constituir, nos anos 70
e 80, l.(m caminho privilegiado para a elaboração de novas identidades coletivas
e um instrumento fundamental para os grupos sociais que as constroem, e que,·
muito freqüentemente, contestam a legitimidade dos patrimônios históricos e artís-
ticos nacionais. Essa nova ori.entação foi buscar apoio em uma ciência até então
yoltada sobretudo para o estudo das sociedades primitivas: a antropologia.
No Brasil, as mudanças no campo da política de preservação adquiriram um
sentido político particular, em função do momento histórico que o país atravessava
e da trajetória específica dessa politica. Aqui não houve propriamente um es-
gota_n1ent9 _dos v,alores da modernidade e da civilização industrial, como nos países
q~s~~volvidos do Norte, e sim uma profu~9a crise política, econômica e social que,
como observa Carlos Alberto Messeder Pereira (1981 ), resultou na crítica ao podu
da tecnologia, aos projetos de desenvolvimento faraônicos, e às metanarrativas que
se propunham de amrlo poder explicativo. Segundo esse autor, os anos 70 são
marcados pelo "antitecnicismo", pela "politização do quotidiano" e pelo "antiinte -
lectualismo". As distinções entre arcaico e moderno, criatividade e técníca, popular
e erudito, são redimensionadas e, em alguns casos, diluídas. Manifestações como
o tropicalismo, a poesia de mimeógrafo, as associações comunitárias e as organi-
zações não-governamentais, voltadas sobretudo para a questão ecológica, são
manifestaç;ões, no Brasil, do questionamento geral dos valores da modernidade.

ffi61 O PAIRII\ÕHIO H\ PROCEI\O


Como vimos, no campo especifico da política de patrimônio, as primeiras mu-
danças foram motivadas pela necessidade de modernizar sua gestão, seja pelo
recu rso à consultoria internacional e a instrumentos mais sofisticados de trabalho,
como a informática, seja pela descentraliza~o e criação de órgãos locais.
A criação do CNRC partiu de agentes modernos, mas que, ideologicamente,
se situa\lam à margem do modelo de desenvolvimento que predominava na prí-
r,eira metade dos anos 70, dependente do capital internacional. Eram um repre-
sentante da burguesia industrial nacional {Severo Gomes), um bacharel pernam-
bucano que reorientara sua trajetória para as artes plásticas e o design (Aloisio
Magalhães), e um diplomata de larga vivência no exterior mas voltado também
para os problemas da educação e da cultura nacionais (Vladimir Murtinho). A esse
grupo se juntaram professores, a maioria deles recrutada na Universidade de Bra-
sília e nem sempre na área de ciências humanas.
O que quero dizer é que o trabalho desenvolvido pelo CNRC, em seus primór-
dios, se car~cteri~ava por considerável independência, tanto da administração
pública quanto dos meios universitários hegemônicos. Essa distância não deixava
de ser proposital: por querer elaborar uma visão nova da cultura brasileira, o grupo
do CNRC recusava, por principio, os modelos explicativos já prontos, as teorias
científicas consagradas. Uma das premissas da metodologia do CNRC era que os
componentes da cultura bíasifeira que se buscava apreender "se explicitarão de
modo espontâneo" (Relatório Técnico n° 1), o que era altamente problemático do
ponto de vista dos parâmetros universitários de um trabalho cientifico.
@f?Sentado ao projeto do CNRC, o professor David G. Hays, da Universidade
~~9~?.l_qe_ ~o~~- ~?~k. em Buífalo, EUA, afirmava, em 1975, que "o Centro Nacio-
nal de Referência Cultural, proposto para Brasília, é único no mundo" (Relatório
Técnico nª 2, p. 1). O que significa que o CNRC não foi criado apenas à margem
da burocracia estatal e da universidade; significa, mais ainda, que conceituai e
.metodologicamente, o CNRC partia como que de um marco zero, como um ato
inaugura) sobre terre no virgem, tal como ocorreu, na visão de Lúcio Costa. com
a criação de Brasília. Tudo se propunha como novo: o objeto (as referências), a
metodologia (partir de projetos-piloto sem u,n quadro teórico pré-definido), e a
instituição (convênio multiinstitucional).
No projeto do CNRC, pode-se dizer que ;i tecnologia era domada, posta a ser-
viço da revita lização da cultura brasileira e do conhecimento de seus aspectos

AHH /IIOOERN4
LillJ
menos estudados e consagrados. Em um momento de crise do modelo econômico
implantado pelo regime autoritário e de desgaste da ideologia da "segurança
nacional", não foi difícil, portanto, para Aloisio Magalhães encontrar no governo
apoio para a continuidade de seu projeto. Esse projeto, contudo, em 1979, j~ se
m_<:>~ifiÇ?ra . .Novos temas haviam sido incluídos ao lado do interesse inicial pelas
técnicas de informação, pelas tecnologias patrimoniais e pelo papel da cultura nos
projetos de desenvolvimento: a esses assuntos, técnicos que ingressaram no CNRC
.a paríir ..c!.e 1W7. e que haviam desenvolvido trabalhos junto a comunidades ca-
rentes e/ou à margem da sociedade nacional 14 acrescentaram os problemas da
.qgequação da educação básica aos conte.xt_os culturais específicos e o do lugar
das etnias indígena e afro-brasileira na sociedade nacional. Temas que vão levar,
no final dos anos 70 e inicio dos 80, a equipe do CNRC a lidar com os grupos
sociais que participavam dos projetos !)ão mais como meros produtores de cultura
e objeto de pesquisa, 'ou apenas como informantes, e sim como atores cuja parti-
cipação era fundamental em termos da legitimidade política de sua atuação. Esse
era o modelo que justificava um projeto que, oriundo do CNRC, reunia diferentes
instituições da SEC: o Projeto Interação da Educação Básica e dos Diferentes
Contextos Culturais do Pais. Em meados dos anos 80, como já vimos, a questão
central não era mais a da relação entre cultura e desenvolvimento, e sim a relação
entre cultura e cidadania.
O inicio dessa mudança de orientação dos trabalhos do CNRC coincidiu com
__um momento de intensa reestruturação institucional na área cultural do MEC, em
que Aloisio Magalhães foi conquistando cada vez mais espaço até se tornar
secretário da Cultura, em abril de 1981. Nesse sentido, a fusão com o lphan, que
rnantiyerél ?té então os mesmos modelos de atuação dos anos 40 - o princípio
da autoridade nas decisões, um trabalho fundamentado em critérios rigorosos de
autenticação, uma visão predominantemente estética do patrimônio - era tarefa
complexa, e não chegou a se concretizar por vários motivos. 1
. f

Em primeiro lugar, as duas instituições, apresentadas no discurso de Aloísio


Magalhães como complementares, falpvam a partir de experiências e de objetivos
b.~_stan\e diferentes, conforme já foi observado. Apesar disso, a impressão deixada
pelo Seminário da Escola Superior de Administração Fazendária, de 1979, nos
funcionários das três instituições ali reunidas (lphan, PCH e CNRC) foi de entu-
siasmo ante a perspectiva de um trabalho conjunto.
\
O problema é que a leitura que o CNRC fazia do que denominava patrimônio
de pedra e cal tendia a ser negativa, associando o patrimônio tombado pelo lphan

OI[J O PWlli\ÕNIO EII PROCEIIO


exclusivamente ás classes poliUca e economicamente mais poderosas. Esse acer- \

vo, que referia predominantemente a cultura luso-brasileira e o colonizador, foi


vinculado, no final dos anos 70, ao poder das classes dominantes, não só no
passado, como também no presente. Por esse motivo, a atuação do lphan foi criti-
cada pelos agentes do CNRC e por pesquisadores externos, sobretudo por cientis·
tas sociais, como elitista e desvinculada dos interesses atuais da sociedade bra-
sileira.

O problema é que essa critica, até bastante procedente, pecava ao não distin-
guir os bens que haviam sido tombados - e que, enquanto patrimônio, não referiam
apenas os grupos dominantes - da leitura e do tratamento que o lphan havia dado
a esses bens, esses sim, freqüentemente desvinculados dos valores de outros
grupos sociais que não as elites intelectualízadas. Nesse sentido, o interesse da
preservação aparecia como distante e até mesmo como contrário aos interesses
das classes populares. O fato é que o compromisso com a coletivização de uma
cultura culta, objetivo tão caro a Mário de Andrade, não fora assumido pelo Sphan.
Além disso, é inegável que essa crítica era também expressão de uma luta
de poder dentro da instituição recém-criada. E, em vez de se re solver no contato
e no debate, esse conflito se radicalizou, provocando nos funcionários do lphan,
receosos e refratários a mudanças, ressentimentos e, conseqüentemente, um enri-
. jecimento em suas posições e em seus mitos.
A falta de Aloísio Magalhães, primeiro por estar absorvido pelos seus novos
encargos como secretário da Cultura e, depois, devida ao seu falecimento, em
junho de 1982, só fez intensificar essa situação, a que se acrescentaram outros .
...
\,

fatores como a duplicação de funções, na Sphan e na FNpM, agravada com a


r,
\ .
indicação, na segunda metade dos anos 80, de dirigentes distintos para cada insti-
\:. tuição (Aloisio Magalhães e Marcos Vilaça haviam acumulado a direção da Sphan
...r\/,e a presidência da FNpM); a sucessão de dirigentes na Sphan e na FNpM, muitas
· · vezes com mandatos de curta duração; a manutenção de uma dupla administração.
no Rio de Janeiro e em Brasília, ficando o grupo do CNRC afastado dos outros
.
' setores da FNpM, sediados no Rio; a falta de recursos e, sobretudo, a fa lta de
um programa de trabalho da instituição como um todo e do CNRC em particular.
que não conseguiu articular suas diferentes coordenações em torno de um projeto
comum; o desinteresse das direções da FNpM em divulgar os tra balhos da área
de Referência da Dinâmica Cultural, que se mantiveram em um nível quase vege-
tativo, o que só aumentou o isolamento da área, dentro e fora ua instituição.

A IA!! ,110DfRNJ
Lllil
O papel de Aloisio Magalhães havia sido fundamental no período final do regi-
me militar - assim como o de Rodrigo M. F. de Andrade, durante o Estado Novo -
no sentido de conferir à política cultural rlesse período uma marca própria , cujos
efeitos e influência transcenderam a fase do regime autoritário. Não creio que a
análise do projeto implementado sob sua direção dê margem a reduzi-lo a um
mero instrumento de legitimação da fase de abertura - ainda que possa, de alguma
maneira, ter servido também para esse fim.
Já a poliUzação desse projeto, tal como toi conduzida, sobretudo no âmbito
da FNpM {tendência que não ocorreu no grupo de pedra e cal), desvinculada de
uma reflexão critica quanto aos objetivos e instrumentos específicos de uma
política de preservação, e sem ser articulada a um projeto politico da instituição,
permaneceu isolada dentro da instituição e do MinC. Essa situação se mantinha
em 1988, por ocasião. da Assembléia Nacional Constituinte, quando a área de
preservação da Sphan/FNpM encaminhou uma proposta da instituição e funcio-
nários vinculados ao CNRC atuaram via Senalba.
Este balanço pode ser comprovado com a leitura de um documento produzido
pela administração da FNpM, no final dos anos 80, conhecido como Kit parlamentar.
Nesse documento, dirigido aos congressistas com o objetivo de sensibilizá-los para
as necessidades orçamentárias dos órgãos federais de preservação, são arroladas
as principais ações desenvolvidas pela FNpM na proteção do patrimônio cultural
brasileiro e apresentadas as propostas para o exercício seguinte. A análise dessas
ações e dessas propostas - essencialmente de preservação e de restau ração de
monumentos - vem demonstrar que a própria instituição, no final dos anos 80 não
se autocaracterizava de forma muito diferente do Sphan dos anos 60.
Q fato é que, na prática, a síntese pretendida por Aloísio Magalhães não che-
gou a se concretizar realmente, e as inevitáveis diferenças de orientação dos téc-
nicos das três instituições fundidas, sobretudo entre os da referência e os de pe-
. dra e cal, não foram superadas em uma proposta de trabalho comum. A proposta
do CNRC, apropriada e desenvolvida pela FNpM, encampada pela SEC e. em cer-
ta medida, i:;clusive pela Constituição Federal de 1988, ficou conhecida pratica-
mente apenas enquanto discurso. Conceitos como referência, dinâmica cultural,
indicadores culturais, contextos culturais específicos etc., embora tenham se tor-
Qado moeda corrente nos programas e projetos culturais produzidos durante a dé-
. cada de 1980, continuavam obscuros, mesmo dentro da FNpM. faltou elaborá-los,
em termos de seu potencial cognitivo e .de sua utilização, através da discussão

L!z.u O PAIRIMÓHIO EM PROW SO


.e divulgação de trabalhos e ações que demonstrassem, na abordagem de pro-
blemas específicos, como eram entendidos e operacionalizados.
Em seminário promovido pelo ldesp (Instituto de Estudos [ conõmícos, Sociais
e Políticos de São Paulo) em setembro de 1982, Mário Brockmann Machado fez
o seguinte comentário:

É bem verdade que algumas medidas de renovação e areamento desse projeto de


política cultural foramensaiadas, neste inicio dadécada de 80, no âmbito da Secretaria
da Cultura do MEC. Foi o período de Aloísio Magalhães, e é dejustiça que se destaque
oesforço entãorealizado de recuperaçãodo conceitomais amplode patrimônio naciona I
originalmente formulado por Mário de Andrade. No entanto, essa.experiência inovadora
leve curta duração, não sendo possível saber-se se tais tentativas deixarão o nível do
discurso e passarão efetivamente a informar, de maneira permanente, a prática do
tombamento de bens históricos e artísticos. (1984, p. 13)

Ao se observar retrospecfivamente o período que acabei de analisar, fie.a claro


que, embora tenha sido considerado até aqui como uma fase de uma trajetória, na reali-
gade a situação no final dos anos 80 era bem diferente da do início dos anos 70.
Na década de 1970, as novas propostas de trabalho na área de preservação
e, posteriormente, as reestruturações institucionais em âmbito federal, vieram aten-
der a um interesse de atualização no sentido de ampliar o objeto, os instrumentos
e as finalidades de uma política de patrimônio conduzida pelo Estado. Esse mo-
vimento resultou de uma mobílízação de setores do governo federal em que tive-
ram parte ativa atores que não estavam plenamente identificados com a ideologia
do regime militar, mas que tinham um projeto para modernizar o Brasil. Como os
intelectuais modernistas mencionados em Tempos de Capanema (1 984), esses
agentes tentaram contrabandear, através das instituições culturais do MEC, suas
próprias concepções de modernidade.
A análise retrospectiva desse momento, em face da realidade do final dos
anos 80, leva à conclusão de que, à diferença do Sphan dos anos 60-70, o que
ocorreu na segunda metade dos anos 80 relativamente ao projeto do CNRC não
foi o desgaste de uma proposta que se rotinizou: foram os efeitos de sua não im-
plementação efetiva. Proposta que, no entanto, não deixou de influenciar a prática
de preservação já sedimentada pelo lphan. E, como a linha de trabalho da área
de Referência da Dinâmica Cultural ficou praticamente es tagnada a partir de
meados da década de 1980, na rea1idade é através da análise das mudanças que
ocorreram na prática da Sphan que se poderão aferir as transformações eventual-

AfAH /t'JOOERHA
lJZIJ
mente provocadas na política federal rle preservação pelas propostas elaboradas
entre 1975 e 1981. Esse é o objetivo do próxímo capitulo, onde será analisado
o aspecto mais central dessa prática: os tombamentos.

Nom
Sobre a nova dinâmica Estado e sociedade diz Sérgio Costa: ' No 'projeto' contemporâneo
de sociedade civil é básica a idéia de que esta (como em Gramsci) se distin,1ue das esferas
dn i=stado e da economia, t1,1scanda-se evitar, a um só tempo, o liberalismo, no qual a
integração social se concentra no mercado, e o estatismo, onde a sociedade cívil aparece
subsumida ao Estado (como nos países socialistas).' (1994, p. 40-41)
·roda nação fraca e pobre só pode existir, só pode gerar algum movimento cultural, a partir
da descoberta de uma identidade nacional. O nacionalismo é o germe, é o fundamento do
fortalecimento, do desabrochar de qualquer sociedade.' íem Pereira e Hollanda, 1980, p. 34)

Por exemplo, no caso dos movimen!os feministas, ficava difícil, no Brasil, utilizar a categoria
mulher para se fazer referência, por exemplo, a problemas comuns a patroas e empregadas
domésticas, de ta! maneira a construção da identidade de cada um desses lugares sociais
era afetada por diferenças econõmicas e culturais.

A análise dos debates sobre a questão da cultura na Assembléia Nacional Constituinte foi
baseada em documentos obtidos junto ao Prodasen: as atas das reuniões das Subcomissões
e das Comissões Temáticas, as emendas populares e a relação de entidade$ convocadas
para as audiências públicas.
Em seu depoimento. Ugia Martins Costa observou que, em 1952, ano de seu ingresso no
Sphan, a instituição contava com apenas 104 funcionários em todo o Brasil, incluindo-se
nesse total agentes administrativas e mestres-de-obras.

Em 1976, Bárbara Freitag foi substiluida pelo antropólogo Georges Zarur, também da UnB,
e ingressou no CNRC a professora Clara de Andrade Alvim, vinda da PUC-Rio.
É cu riasa que a retomada dessa problemática - a discussão da relação entre cullvra e
modelos de desenvolvimento adequados às cor.dições locais-. na segunda metade dos anos
80, pelos grupos ecológicos e pelas politicas voltadas para a questão do meio ambiente,
tenha tido como um de seus princip~is eventos propulsores o Encontro Nacional de Serin-
gueiros, promovico com base em projeto que já vinha sendo desenvolvido na Área de Refe-
rência da Dinâmica Cultural da FNpM.
'Essa relação de tempo é curiosa porque é preciso entender o bem cu ltural num tempo
multidimensional. A relação entre a anterioridade do passado, a vivência do momento e a
projeção que se deve introduzir é uma coisa só. É necessário transitar o tempo todo nessas
três faixas, porque o bem cultural não se mede pelo tempo cronológico." (Magalhães,
1985, p. 66)

m.u o PAJRIIIIÓHI O [M mcmo


Como era de seu feilio, Alo isio recorreu a duas imagens - a do bodoque e a do cristal -
para ilustrar essa idéia: "Pode-se mesmo dizer que a previsão ou a antevisão da trajetória
de uma cultura é diretamenle proporcional à amplitude e profundidade de recuo no tempo,
do conhecimento e da consciência do passado histórico. Da mesma maneira como,
analogicamente. uma pedra vai mais longe na medida em que a borracha do bodoque é
suficientemente forte e flexível para suportar uma grande tensão, diametralmente oposta ao
objetivo de sua direção. Pode-se mesmo afirmar que, no processo de evolução de uma
cultura. nada existe propriamente de 'novo'. O 'novo' é apenas uma forma transformada do
passado enriquecida na continuidade do processo ou novamente revelada, de um repertório
latente. Na verdade, os elementos são sempre os mesmos; apenas a visão pode ser
enriquecida por novas incidências de luz nas diversas faces do mesmo cristal." (Magalhães.
1985, p. 44-45)
10
"Na imagem que me ocorre a vertente patrimonial lembra uma rotação ou um círculo de
diâmetro muito amplo e rotação lenta, enquanto a ação cultural, na criação do bem cultural,
é um círculo de diâmetro curto e de rotação muito rápida. Ambas essas rotações, ambos
esses círculos trabalham interagindo um com o outro, mas têm os seus tempos e a sua
dinâmica própria e especifica.' (Magalhães, 1985, p. 33-134)
11
Refiro-me aqui não propriamente a textos, mas a debates através da imprensa e a
ínformações, que me foram transmitidas por Paulo SérgioPinheiro eLuís Felipe Perret Serpa,
sobre reuniões informais de Aloisio com intelectuais paulistas.
12
Nessa ocasião, Aloisio Magalhães produziu onze litografias retratando a paisagem de Olinda,
para serem apresentadas durante sua exposiçao na reunião da Unesco.
13
Em 1945, em parecer sobre a cidade histórica de São João dei-Rei. Afonso Arinos de Melo
Franco, ardente opositor do Estado Novo e colaborador de primeira hora do Sphan. assim
se referia a esse serviço: "Não acredito que umbrasiiei, o consciente ponha sequer em dúvi-
da a singular contribuição que o Sphan. em poucos anos de existência, graças aos seus
ininterruptos trabalhos especializados, inclusive suas publicações. vem prestando à nossa
consciência nacional. Inteiramente insuspeito para falar. pois, desde 1937, nunca pactuei
com a ditadura e sempre a combati frontalmente, entendo que a criação do Sphan representa
grande serviço prestado pelo infeliz Estado Novo ao nosso pais.'
14
Refiro-me a l uís Felipe Perret Serpa e José Silva Quintas. com formação em ciências
exatas, mas com experiência em educação, e ao antropólogo Olímpio Serra.

A Wf AWOUHJ
lJLz.J
Ci.lPÍTUlO 5
A PRÁTICA Df IOMBA/HNTO: 1970-1990

As expressões "Livros do Tombo" e 'tombamento' provêm do


Direito Português, onde a palavra •tombar' significa "inventariar",
'arrolar' ou 'inscrever' nos arquivos do Reino. guardados na 'Torre
do Tombo".
Hely Lopes Meirelles, Direito administrativo brasileiro.

/J
\ .;, _,..,., ·. /

,.J : _;·.· j

Se, nos anos 70-80, houve uma evideot(_i!_rnpliaÇ.ãQ_ da conceituação de pa-


trimônio, em termos dos instrumentos 9(preservação, no entanto,_praticamer1te
não se recorreu, no Brasil, em••-------,L--"--
nível fêderal, a formas
- --~ ~
alternativas às do tradicional
""'"""" "'""'"" "" •-•-'"""' , ,.,_,,_, •• • • - H -• •~

instituto do tombamento. Foram r~tÍlizadas <),lg_umas ex~ert~rrçlas•..c.omo.9Jrn..ttaJho


g_E)J~[-ªS.eDlaçã.o.Jia..Mor.ra..daCJ~Ç~-® pela Sphan {cf. Amau~ 1984),_~ os iriv.e.n~--
tários tecnológicos, pelo CNRé (cf. Maureau, 1984). Acham-se em curs~_traudiQ_g~
de inventás.io_de bens
.. . ............
·• . . ·, ·,
móveis
,... ., .·· ~- --.--~---·-
e de bens imóveis. A. preservação..dos monumentos _
.., , . ' ......... ·-····· ·----··. ···-····- - .

arqueológicos e pré-históricos éL hoje, regulada por lei especifica, n2 3_,Q24., de 2_6


'-----~~-··------------ -.-- - .. --- --- ~ . . .... ' • · ' ·. ~ . -..,.· ..... , .... ·-··· ·-·--···· --
,".",' .

de julho de 196_~ ·-- A proteção dos bens cult11_!'~J_s___móv~is, defasada em relação à


proteção do patrimônio imobiliário, cabe tradicionalmente aos ~us (cf. Costa.
1987). Por iniciativa da museóloga 'dgJa_ Martins_CQsta, especialista em história
da arte e crítica, foi elaborado o conceito de bens móveis integradqs, p-ª!:_ticu!ar-
~ÊPOrlaQ!u~~ a co_~serv_~~~~~s- -~~ns _dE3_ §~q~lt~~@.__r~ig~Qsa. Os ace_r:._
vos arquivísticos e bibliográficos. assim como o patrimônio natu__r:9J,Jêrri__ sj_do obje-_
to de estudo~ndo a levar em ;;;;·-a-;;p~~iti~id~-d~- d;--·sua proteção.

O fato, porém, é que IJl~smo os projetos do CNRC acabaram, em vários casos,


_le,y_an~_propostas_cte.Jo.rnbam.~rito. E embora os técnicos do CNRC, e poste-
riormente os da Sphan/FNpM, tenham elaborado textos e promovido debates sobre
o assunto, e o artigo ?.1Q. ºª-Çg_n.~tituição de 1988 indique explicitamente a busca
de "outras formas dt:! _pre.s~JVação e-a~uielâmentÕ", a pratica ·da Sphan em termos
... . .-· ··----- ------ -· .. --- - - .

de preservação conti~.9-~~~nt~~da nos _!9mbar11_~~tos. fQ!".!~s~~.0!~º· é ~~s~­


cament~ nos processos de tombamento abertos nesse período que se expiicité!_Ql
os critérios que _c,rientaram a proteção a. be~~-iíl1?Y~is, núcleo do ~atrimõnio cultu-
ral brasileiro.

5.] h Slllf/MllCA DOI PROCEIIOI DE !OlltBAMENlO

Na atividade desenvolvida pelo Sphan desde 1937, o tombament9Jem_s_e_ con_s-


tituído no instrurne.nto 9.e.. greserva~o por. excelê,1ei;3, a ponto de, conforme ob-
serva SQniª_BJ:lli!lllLQ.e.J;.as!rn (1991, p. 5), CODJ_l!ndir-se tombamento
·----·- - ... "

y_a_ção.. Atualmente, além de instrumento jurídico com implicações econômicas e


com _____
..... preser-
----. ., .. ·····--··-·-~

sociais, o tombamento, tem sido considerado e utilizado, tanto _pQf-ª9?nte.ê_.9ficiais


q~C....Q[JW.QL~Q9?~_.___C()mO o rito, por excelência, qe consagra(;êo do valor
.. ···- -·-·-··--·- ______
.,_

c.~ltural de um b~m,.•...
O~~nt9_te._r11_sido aprnpr~ado, p_~la s9ciedaçlsi brásilei_rª de Jorma dife-.
!Q_nciª-d_a e, nesse sentido, pode ser considerado de forma positiva ou negativa.
~.!!!Jl..Qe.m d!;l su_cl cultura. tombado pod_e. s)~~i~car, parn _gruRQ.S_ ~fP.JJ<:>mie;a e so-
cialmente
.. · --~
....
desfavorecidos,
.. . .... ,.
-~ -
benefícios
..
de ordem material e·- .simbólica,
.• ··.-.
- ···· --·· .
.
além_de de·
~- .. , '

monstracão de poder político. Os !Q!!!b,amentvs_ de_bens,rnpresent~tiv~-9.~·


sença n~gr.ª í1_Q_,Bra~[! - o Terreiro da Casa B_r9nca, em Salvador, e a Serra da
Barriga, em Alagoas - foram conduzidos por grup_QS...Y.incu]ados aos movimentos
Qegros _como _verdadeiras_lutas_politicas. No caso da Casa Branca, inclusive, tra-
tava-se de evitar o despejo do terreiro de candomblé do local onde funcionava
desde meados do século passado. Quanto às cidfüie.s__hls.tóricas, o..J.ambamento,
ao assegurar a manutenção de sua feição tradicional, pode signific~r. uma. ..aller-
oativa economJ.girn~n!~ -lvcrªt[ya_p.ar.a_a JlílPI Ilação, atr.a\lé.Lll.o. twJsmo., _cnmo._vem
ocorren_do com.Jkadentes, em Minas Gerais. Ja em centros históricos degrada-
dos, como era o caso do Pelourinho, sua restauração implicou um remanejamento
e eventual saída dos moradores de menor renda.
Por outro lado, dadas a~e§!ri\'.ões que o tombªrn.er1!0. irnpõe•.ao hem con,
..slct?J-ª5l_Q_~QQ!grn!Q_[IlergiJJ_o.ri~. e Q.?_liri:iite~_gu~ açarreta ~0.-~? __do ir119vel. esse
i[!str_yr11ento costuma ter conseqüências consideradas indesejaveis para extratos
das classes média e alta, çomo proprietarios de imóveis em setores urbanos anti-
gos e empresários da construção civil. 1 Essa situação, ja comum nas décadas

lliQJ oIAlRIMóNI O (~ mc rno


anteriores, ªgravou~se, a partir dosanos 70, em conseqüência da tendência ao
tombamento de conjuntos e .a .uma preocupação maior com o entorno dos bens_
torn~.iqos. Problemas graves, nesse sentido, ocorreram no tombamento da cidade
de Antônio Prado, Rio Grande do Sul, dos conjuntos das avenidas Nazareth e Go-
vernador José Malcher, em Belém, Pará, e do prédio da Líght, do Hotel Copaca-
bana Palace, do Parque Lage, e da Praça XV, no Rio de Janeiro, entre outros,
todos envolvendo interesses contrariados de proprietários ou de empreiteiros.
No Cê~º .dos _bens móveis, a situação é di!er.ente. ,O reC<,ntie,ç[]lento_(je seu
valor cultural certai:i,El_n_te yalCJrjza toda essa gama de bens no mercado _de . anti~ .
guidades. Nesse sentido, é particularmente frágil a situação dos acervos de bens
sacros das igrejas tombadas, objeto de furtos freqüentes, e que, devido à dificul·
dade de controle do comércio de objetos antigos, dificilmente são recuperados.
Em função, portanto, da natureza conflitante dos interesses em jogo no caso
da proteção aos bens imóveis, e do peso dos monumentos no patrimônio histórico
e artístico nacional, os processos de tombamento constituern esQ_aQ?_s_~~3-~f!:)S-
são desses confrontos, onde se podem captar as várias vozes _envolvidas n_a
·· ·-· ·.-• .. --·~
--·-......... . ·- -·--·-··--- -·- ··- -·
,,. . . ..
questão 9~ prese_rvação e. sua infl uência na condução dos processas.
Nesse sentido, CQnsider.arei o instituto da tombamento não .tanto. no seu a.S--
ª-
pectojurídico ClU _t~~nico, rm§_~nqy_~!Q. prf!tica mais significativa da política de
preservação federal no Brasil. Significativa, não só pelo poder de delimitar um uni·
verso simbólico específico:- como tari"1bêm por inteJVir no estatuto da propriedade
e no uso do espaço físico. E significativa, sobretudo, porque constitui um campo
em qua se explicitam - e onde se podem apreender - os sentidos da preservação
para os diferentes atores sociais envolvidos. Interessa-me, portanto, analisar essa
prática em suas implicações na vida social, ou seja: o uso que dela fazem os
agentes oficiais; o modo como dela se apropriam os que a solicitam; as reações
daqueles que são afetados por sua aplicação ou pelo não atendimento desse tipo
de solicitação. Nesse último caso, me_Jmitarei_ as mariifestqções incorporadas _aos
JJr9,~~.ê.§.º~· _embora ten~~--~2nsci_ê~ciade_qu~ _~ã_o_apenas as que ocorreram no
período entrn ?. pe~~do _de tombamento e s11a resolução.
A escolha dos processos de tombamento em depósito no Arquivo Central do
.._.,_,-~~ ---·-···-····· · - ,.. '

. atual Instituto dg P.9trLrnfloio ljist9riço ~J\rtís_tico Nacional, no Rio de Janeiro,


como material de pesquisa, foi feita em função dessas razões. 8asíaolal.~Qldos
. e suçiQIQ.S. .OQ~ .Pfimqrdíos do Sphan ~- ~t~_p,or_E~~?~s estratégicas -, a partir da
década de 1960 esses processos passar~m~_ser form~dos segundo uma certa
---~ ··-------- -------~

A PRÁTICA OE !OMUE~!O : 1970-1990


illIJ
UFPcf-Z: ~;J,._:_ .,./
sistemática, constituindo-se
. . '
em. . . verdadeiros _
dossiês, a ..que
,.,,. .. ....,...., -._... ...~--.- ·--· -~--
~ . ......,...são
..
anexados
. ___ ____não
__,,.
apenas os documentos oficiais (pedido de tombamento, notificação ao proprietário,
- ···· · .. . . -... -··· ···-·-- ·· ····· .•.. ,.- , -···· .. ., . . .
pareceres, atas do Conselho Consultivo, eventuais impugnações e contra-razões
'-'·•.. ··-.. .. _. ·- ---·- ...... .. .. . ,. ---. ...... ~--' ·- ·- ·-----· , . . . . -. . -- -- . . ..- . -·
·•

etc.) çorno todo material~..2!9~ .~-~~peito ao proce:3so (r_ecorte§ gej9.r.na.ls..JtJ.e:


Y.\sià~. ~~-ª-~-'-··ªº-aj~Q-assil]ªQ9S_,JnJ9rroações . extraídas de livr9~.~--folbJttQ.S~.fQtas..
plantas, desenhos ~~J .Dado o seu forma.to -. tQ9.9ê...~.~--~9.l!.~~.! ~-~ê,O_.Q®l-
!liza.9os..filJU)rde_11J,,J;W.DPl.ó,gj~. - esses dossiês nqs_P.en:nU~!!). ~W.l!\P..~.h.~r:...fth.it.
t9.r.ia desse
-.. ___ processo
, . ........ -··. .
de ressemamit.açãu
.. . .
d.~J,HJJ,bruJl_qlJ.~. ç_o.~stitui
. . . .~
._u_ll}J?.rnQl~Q. .

~JQ!!lba~n!~, e entender não sô o seu .desfecho como. considerando o universo


dos processos, os critérios que nortearam a prática de·. preservação no período
70-80.2
Desse ponto de vista, os processos arquivados são tão importantes para a
pesquisa quanto os ~rocessos que resultaram em tombamento. Fi(;éjrame~dos~ .
enquanto objeto de análise, os processos ainda em estudo, uma vez que não se
:t;~·;;~-~~~~Í~çãó:
...., . .., ;·. ·
ºêºm·t~~~os .de atribÜição de· valÓ·~. pÔr p~rte da i~~tiÍuiçà~. n;
......... . ' .
que diz respeito àqueles bens. Mas.... S@~íU,l!.Tl~ ~!~s!2_~alizadQ pelo p_e,pg..!!a-
mento de Prote~-~!!.'--199?., __g>gre...llfll .EQQÜ:!~.to__ d~, pro.~~-~QS .e.m e.sW.9.Q,~_.t .<;!
_um levan~a!T'e~!~ q~~ fiz__ ~-º? r.quivo, foi_ p~s~íy_~l _(!P.?.tJ~rn~~!11 desse_.~Q.íliY.~!C!
_alguns dados . significati~os.
De 1º de janeiro "" .
de 1970 a 14 ~.de março de 1990 foram abertos .
481. processos ' ..
de tombamento (ver Anexo VI). Desse total,. 1~5.. .r~su.ltaram em tombamento,74.
... . ·- ···- - .. ---~--·-· -·-----··" . ... .... .. -· ~ . . ...
' ' . ·.

foram arquivados. e 272.. acbªv.


...... ....... .-........ -.-···--· ·" . a. m-~~. _em fase.. de. ~~t\!9QS.' l!ma primeira.. conclusão
. . ... ....... . ... ........ ..... ·~·
evidente a partir da análise desses dados é quanto ª-.Qif!f.~)9a~e da insti_~ui~o .~m
dar andamento aos processos, que permanecem. às vezes, décadas sem reso-
- -----·-·-- - ---- ---H
·-- --··· ·-·· .....____....- •·•••·--- · ",•' S· --~··
lução, Essa situa~o .f~! agravada .ª partir de m?rç~--~e1.~QO, QL!ando oco{re.u, no
início do. governo Collor. aJ;i~~~lisação das ativ.idades ~ª -$p_ h~n. en1 decor:.r~Dcia

··-----·-
@ refo!!!l§ administra tiva JLQéJ dissolução do _Conselho Consultivo, [econduzido
" ···-·---- ·· ----·-·- ··
em ma)Q__ciE:!...1~9.2.5 Não....é._d.ifí.cil i!TI_aginar as conseqüências de.ssa morosida~e.
sobretudo_.9!13~nçlq se trata de pedido de age~te externo à instituição, e. n.um mç-
~·1_ento~~ que a Sphan/FNpM propºÜnha a participação da comun.idade como pedra
cteJoq:~E?....~~2~~- P?liti_ca. 9e pres~rvação,
NU~.?!!.~-~-- ~~~-_pr_o~ess_os foram levant~dos _os seguintes Qél;dos: solicita~.te:.
--
data do ,..P-edido, j u_~tificativa
- ----.., ... _ .. da. solicitação,
-.-·-·~·. .. ª'!'_alia_ç,?.o
--- ----···
.
técnica'------·
d,9_.2.~~ici.~· A partir da análise desses dados, foram detectados os prinçipat~. p_on-
e jurídica.
. . . ~~-·- r,e§Qll.J.@O
..

tQ~.g~~.. ness~ _p_erí9_d9_. ~ nstituiram objeto dl:l_ Qis.cussão e/ou d.e. r~conceitu?~º·

O Pb.lR II\ÔN\O E~ P!~( EIIO


[illJ
.!!)1!.i!~"t§. vez_es com implicações_ ~ íd(cas, e<;g~õ~i~~~--ll.9Jili..~s:, ~~&d!~d~ ..d.e
;'ltribuição de valor artistice e de valor histórico. ,de valor excepcional e .de va.lor,
nacional; a questão dos Programas Novos e dos bens identificados com a cultura
. - ·· --- ....... ·--~-- ·-·.- ....... ..........- --·-- -·------ -- --·- . .. - . .. .
-

. pop~l~r_e, os diferentes gr~pos étnicos; a~~~~ .~~ .ro.~i\!CT.l<J _~!:!>~no e de~g9fil!~.


,hist9.r.i ~; a q_uestão do en!orno dos bens tomb!3dos. além, é claro, ®...ÇI!!~~\ão
m.aior da especificidade e dos limites do in,stit_uto do !ombamento, assim como da
lettimidade_da Sphan para decidir, sozinha, sobre a _questão.

5.1.i A origem dos pedidos


Se, nas_dé~das J!Jl\fili.o.re..s..lu!~_1970, a.Jl.@!l~rnaiori.a..d.a$_g,Jiçl\~ç_ê>~~-º-~-
tomharoen.1o_.tl.nha origem .na..própria. ins.ti1.uição. fed.eral,...a.pactír.Jli:ss.e..mamaotn.llâ
llfil..ill!m•o sjg_nifica!ivo de solicitaç_ões externas fJ Sphan . •Entre os 95 processos
arquivados, até 1969. a maior parte foi aberta por iniciativa de representante da
Sphan. Já entre os 89 processos arquivados, entre 1970 e março de 1990,6 cmena~-
onze solicita.ÇQ.eS_J2ªrliram daJQ_stituiç;jo fed$31 (13%). De acordo com o levanta-
mento feito pelo Depa~~!TI~~to 1t.~!~'iã.?J!?!!E!Q1). entre os processos em estu-
do também aumentou consideravelmente, nas duas últimas décadas, o número de
processos abertos por solicitação externa ã instituição. En~__?J_Er_<~E~~sos g~e.
result~~a_m em tomb9m_e~to, as solicitações partindo da instituição correspondem
a__pgu.~ .mais _tj_a m.e\flde. 7
Esses dados levam a supor que. sem dúvida, ~ouve um ::i~m~~!o, n?_ Qarti_çi-
_e~_ç_~g-~-~ -~~-~ieg~tj13. _çl01 nª· política de prese,v~çãQ f~deral n(? períPdo em questão.
Entretanto, quando comparamos o conjunto dos processos que resultaram em tom-
bamento aos outros dois conjuntos (processos arquivados e processos em estu-
do), verificamos que o fato de-9__e_~ idoJ~_~rtir de ag~_nte instituc:i<?!1ªL~9nstitui fator_
.favorável
' .. . . ..
'
ao- tombamento,
.~. ... ......,
o que pode ser atribuido a duas causas: seja que esse
agente está mais familiarizado com os critérios técnicos que orientam a seleção
dos bens passíveis de tombamento, seja que, por estar ciente e envolvido no pro-
cesso - que, em princípio, é do interesse da instituição - contribui para seu andamento.
rylas __é ~vidente que o interesse na preservação de bens culturais deixou de
ser quase que ~xciusivc dos fur,âónànos dó Sphan, ~forme ocorri~
- ··~--· -··-· · - · - ....... - .... .. ... ....... .. .. . --
nas·
cté~das
.
anteriores. As_~e_T!.1! _1~\a_s__r~_Qi.sl_a_tixa;,... ~. prefeituras, p2_r _i!~Lcl~Jiyª--p~~~gªI d_e con-
~§ifilaU_J>.rnfe.i!Q?._9..\LE:!!!q1,@JlQ j l}termedíári9s. de 9i:1:JP?~_\ocais, encaminharam
vários pedidos, QQ m_e_s.rn9 modo qu.e. ..institgiÇ9~5. ~uJtur.aís. São, inclusive, inúme-
ros os pedidos de tombamento d~ prédios históricos por parte dos diretores e/ou

APR.Í!I CAOE f0 1"W\f HIO : 1970 ·1990 llii]


~. -~-
J
f.uncio_nasJos das instituições que neles (ll_ndonam (Escola de Enfermagem Ana
li€)fl._!1_Q Rio de Janeiro: Faculdade de Direito do Recife: Hospital São Francisco
de Assis, Observatório Nacional, Colégio Pedro li, Fundação Osvaldo Cruz, ABI,
todos na cidade do Rio de Janeiro; antiga sede do Departamento Nacional de
Obras contra a Seca (Dnocs) em Fortaleza etc.). Entre os_p~rHcularns, ()S pedi-
- ~os fº~tu_nia.ni__eart_i_r._<>u qEJ. propJit;;t$ríos ou de pessoas de al~um modo familiari-
-za_das__~_!!l_ a. g~El_St~g _da _preservação - é!rquitetos, a~(~~~·- hi~t9r,i~dores, intelec-
tuais em gefa!. S~o ain.d.a.Jarns. nesse período, os casos de grupos que se mo-
bilizam especificamente para essa finalidade, ou _de ªss_ociaççies formadas. em_
---.-., ·--------·~······ ... ... .. ·-
funçã._o_g~__ \!.IJlª q~rnanda pcitrimonia.!. O bo_om~_e_associações que ocorr~!J n.<>.
Brasil a partir da segunda metade da década de 1970 ainda não chegou ao p~tri-
mônio.6

l
-' ,_,.., ...
.J ' Entretanto, casos _c_QQlC!..Q.~_~_a.s igrejas d_e_ Santana, no Ceará, e a de Pati..do _
Alferes, no Rio de Janeiro, e do conjunto de casas na Praça Coronel Pedro Osó-
rio, em Pelotas, Rio Grande _cl_o_ _~ui, em que _a_p_<>~uJa.çã._o local se mobiliza para
--·------·-··-··---··'···-··-··-.
p~cfü .otombç1mento_, sensibilizaram os técnicos d~ Sphan, que..levaram..esse...fato __
/, E:_~o_n~g_~rª-çã.Q ~ª indicação P?ra tomba_mento. Pedidos como o da _Serrn da
1 J/'/ ·, -~arrig_a, em Alagoas, com mais de mil assinaturas: o d() Terreiro da Ça_s~-ª-~an~. _
'\ ~
r.•.,-~ t"; , em Salvador, apoiado por representantes de instituições culturais e acadêmicas,
.. • ,

t( .:1'. por represer.tantes do movimento negro. e por .grupos locais: o da Estrada de Ferro
r r-' . ....., . •.

Madeira-Mamoré, em Rondônia, encaminhado ao então lphan por ex-ferroviários


.

v- ,b-v como forma de sustar a venda das peças da ferrovia; e o do Hotel Copacabana
_ Palace, no Rio de Janeiro. apoiado por várias associações de moradores da cida-
z:/ de, dElíli?n_stram uma possibilidade de or.ganização dasocied~d~-- g_ara esse _tj[20
· d--ª.moção_ mas constituem exceções no conjunto de processos abertos no período.
t.) Da mesma forma, mas em sentido contrário, o pedido de tombamento da cidade
de Antônio PL~g.9., ~o fliQ_Grande do Sul. pela ~~}}R da Sphan, eO_QQ_ntrou r~i?_- _
tência tenaz da população local·, que se organizou para impugnar o tombamento.
Nesse casÓ~-fOi o trabâl·h;-d~ esclarecimento quanto às vantagens do tombamento,
· . '(J)
·'
_... -,...;
feito pela Spha-;·j~~to âõs-hàoítâ~t~s--J~- cidade, que conseg~Í~_reverter a situação.
É preciso, porém, qualificar a natureza da mudança indicada por esses dados.
Na verdade, o interesse que move os pedidos varia, caso a caso. A grande inci-
dência de solicitações encaminhadas por assembléias e prefeituras faz supor que.
_J., dadas as características da represent2ç30 política no Brasil, aJL.m--ªados da-déca-
)_')()'"' ! da de 1980. o que ~correu foi um~ _apropriação por .Rarte desses atores políticos_
Q i
--, ,t,. .I, /
....../
_)
illIJ O WRl/1\ÓNIO [/Is PRO[f\ l~
~ ide~_ÚQ da. preserví,l_ção, como meio para conseguir, junto ao govemo fed eral,
r~cursos para a_ solução de problemas urbanos locais, sobretudo em função da
carga simbólica da idéia de patrimônio, no sentido do reforço às identidades lo-
cais.~ E...ssa apropriação possivelmente foi um dos efeitos do novo discurso sobre
o. .patrimônio,
. ••.
produzido
···-·····-----~
.- .. ...
e difundido pela FNpM. Entretanto, em que medida esses
..... .. ... •--··· -·· --~-·-··-- ·- ·· · •• •-······-·· · · -
..

pedidos implicavam o envolvimento das comunidades locais, conforme se pro-

!
( punha nas Diretrizes, só estudos de caso, com dados fornecidos pelas agências
f:.: locais, --q-u-e têm condições de acompanhar as reações dos diferentes setores das

~
~i
;opulações locais a esses pedidos de tombamento, poderiam elucidar.
,!· Do iiiesmo-moeo, apenas esses estudos permitiriam avaliar os resultados da
proposta feita pelí,l__FNpM, nesse período, no sen_tido dª--ºem.9gati?_ciç_ã.q_~ª--Pºlí!i~
de__preservaç_ão~ade, a estratégia da instituição se concentrou na elabo-
ração de um discurso, amplamente difundido, em que a comuni.dadª-J~Ja induída_
não apenas como obieto__q_1,1_e_qpulação-alv:~. OJª§ _ !a..rri~é.fll _ÇQ_mo_J,~Q..f.hamado
a partici~ junto com __os _agentes _institucionais. O lema_ desse_discurso era "a
comunidade é a melhor guardiã de seu patrimônio". 1º ---- ..
---- . . ..____---- - ·-···· ---··· --- ----- .•.
Na prática dos trabalhos de preservação, porém, tanto nc:; mecanismos de se-
leção de bens para tombamento quanto, com mais motivos, nas obras, os p_rqç_EI·
<fü@otas ..adotados continuaram os mesmos elas .décaqas _antEJriCJrEJ~: _a avªliação
técnica.dos p!;ldidos de .tornl:lamentQ sendo feita pelos setore_s técnicos da _Admi-
Qistração Gentralda. Sp.han,_g_l!s),.ÍQçlysive, até 1988, indicavam os processos para..
º
élI(llJÍY.amento __e i!J!@rriento final _f~it_o pel_o Co.0,~elho Consultiyo, que, na quase
totalidade dos casos, acompanhava o parecer dos técnicos da Sphan. Pelo que
foi possível verificar nos processos, ª J~articip_açª_Q das Delegacias Regionais da
Sphan{FNp~- ~ra__r~_stEita aos par~.c~_i:~_s:..
É possível, portanto, qlJ_êli_fj~ -ª- ~ r_fü;ipaçf,í9 _da _sociedade nos tombamentos.
a partir da análise dos processos: Sfl, por um lado, os pe~idos de tombamento
deixaram de ser inidativa quase que exclusiva da_Jn~ÜJJ.Jição, os mecanismos de
decisão continuaram restritos aos órgãos técnicos da administração cen tral e, sal-
vo ~~~~~;;;;pcioriãis', não foi possível detectâr muitos caso~ de mobiliza·ção de
setores da sociedade no seniido de pressionar a Sphan na prática da preservação.
Pode-se argumentar que, em se tratando de tombamentos em n11,1 elfe_q~ral, ou
seja, de definir valores nacionais e não locais, a participação popular nos pro-
cessos decisórios é bem mais complexa: criar mecanismos institucionais em que
ã sociedade-êsteía~~p~e~-~~t~d;poderia con~erter a' seleção de bens para inte-
grarem o·pattimônio numa decisão mais política que técnica. Entretanto, ess2 tem

A PRÁ!IU Of TOMBU\fNT O: 19 70 -19 90


illil
sido a alternativa considerada mais eficiente, mesmo por países de tradição cen-
. ··-- ··-- -- -·--·-··~ .. --·.
tralizadora. como a França,
. .. .
onde, desde 1984, . funcionam
'-----..~ -- "····· ··-·-···--··· .----····· .
·,
as Comissões Regionais
·•··.

do Patrimônio
.......
-.-,····--,---.-- -.··
Histórico,
...
Artístico, Arqueológico
. .. --···- - ·~·- ---···· ..,. .
' __
e_ Etnológico
.·-. . ........ · ..
(Corephaae)
.
(Mesnard,-
1990, p. 430); em Portugal, onde, a partir da lei nQ 2.032, de 11 de junho de 1946,
as câmaras municipais podem promover, junto às entidades competentes, a classifi-
cação de bens existentes em seus concelhos como "valores concelhios" (IPPAR,
1993, p. xx); na Esp~Dh.~, em decorrência da situação das comunidades a_utê>no-
rnas, que gozam Ü<i muito mais independência em" rêÍação ao poder central que
os estados brasileiros, o poder local tem participação decisiva na construção do
patrimônio nacional etc.: para não falar em países como a Grã-Bretanha e os Esta-
dos Unidos, onde entidades não-governamentais, como os National Trusts, têm
significativa participação nas atividades de preservação, ou do Canadà onde, des-
de 1951, integram a Comissão dos Lugares e Monumentos Históricos do Canadá
representantes de todas as províncias e territórios. No Brasil, essa questão contí-
nua em aberto, e pouco se avançou na sua discussão (cf. Falcão, 1984; Bosí, 1987).

5.1.2 JUifificafivar, parecem e impugnaçõef


Nesse período, os pedidos de tombamento vêm, necessariamente, acompanha-
dos P,elos argumentos que os fundamentam. Muitas vezes, é possível distinguir o
interesse mais imediato do pedido (impedir uma demolição, desejo de dar deter-
minado uso ao imóvel, como museu, casa de cultura etc.; meio de conseguir verba
para restauração; mero desejo de garantir a preservação do bem por seu valor afe-
tivo para a comunidade local etc.) da jus_l1ficativa, que seria a afirmação do valor
cultural do bem enquanto patrimônio nacional. Essa justificativa, que consiste basi-
camente na afirmação de valor artístico, de valor histórico, da excepcionalidade do
bem ou de sua importância em termos nacionais, qostuma ser formulada de um mo-
_do que revela, por parte dos requerentes - no caso, refiro-me aos externos á institui-
ção - algum conhecimento do código da Sphan, pois em geral se pode reconhecer
na justificativa dos pedidos a linguagem do discurso oficial.
Como freqüentemente é a ameaça de perda que motiva os pedidos de tom-
bamento - e não uma seleção feita na base de um inventário prévio - . muitas
vezes o pegido é feito em um momento quando outros interesses, contrários à pre-
servação do bem, já estão em jogo. Foi o caso, por exemplo, das residências das
embaixadas da Itália e da Argentina, e da Casa do Duque de Caxias, ex-Palácio
Ducal, no Rio de Janeiro, que foram destruídas, e do Hotel Copacabana Palace

coo O PA{WIÓN !O ti\ ?R O(f\10


e do Hospital São Francisco de Assis, também no Rio de Janeiro, que foram tom-
bados. Cabe lembrar o polêmico caso do tombamento da Casa Modernista, em
São Paulo, que abriu um perigoso precedente com a vitória dos proprietários, na
justiça estadt1al, quanto ao pagamento de indenização por perdas de danos. Nesse
caso, o tombamento pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico,
Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat) foi feito quando
os herdeiros de Warchavchick já haviam acertado a venda do imóvel com uma
construtora e, inclusive, recebido um sinal do pagamento. Como o negócio foi
desfeito em conseqüência do tombamento, os herdeiros tiveram que devolver,
corrigida e com multa, a quantia recebida. Esse falo provocou discussão e críticas
na imprensa às políticas de tombamento, não só nos estados, como também em
nível federal - embora, no ca so, a população do bairro de Vila Mariana tenha se
mobilizado e mesmo se organizado para impedir a destruição do imôver. 11
As justifica tivas produzidas por agentes externos á instituição costumam en-
fatizar o valor histórico do bem, apoiando-se, muitas vezes, em pesquisas de do-
cumentos e bibliografia. A aferição do valor artístico do bem - pelo menos dentro
de critérios mais rigorosos - não só é menos accessível a esses requerentes
como não é o valor que predomina nas solicitações de tombamento.
As justificativas dos pedidos de tombamento costumam se apoí~r na letra do
decreto-lei n~ 25, de 30.11.37, a que nas décadas de 1970 e 1980 se incorporaram
outros argumentos, como o potencial turístico do bem, seu valor afetivo para a
. comunidade, a falta de órgão focal de preservação etc. Os pareceres técnicos
avaliam essas justificalivas_e~ _ter_rnos. .dsi,.~n!.~!e_ss~,, d_o ponto de vista da insti-
tuíçã~. em preservar aquele bem e, quando é o caso, discu tem os termos das
impugnações_ -ª~~.
!()m_p~IJl~n\os.
Nesse período, vinte dos 135 bens tombados o foram compulsoriamente, con-
tra 53 en tre os 803 tombamentos efetuados no período anteríor. 12 P..ratiqi_rl_lente
.todas as impugnações foram derrotadas no Conselho Consultivo, mantendo-se,
ass;m, a mesma conduta da fase heróica. O aumen to proporcional do número de
tomJamentos compulsórios no período após 1970, que, aparentemente, indica
maior resistência em relação ao tombamento e a suas conseqüências sobre a
posse e o uso de um bem (mas que, suponho, decorre, sobre tu~o modo como
'--·,
são conduzidos, nas últimas décadas, os processos de tombamento:' dentro de
uma sistemática mais definida), levou à discussão e à elaboração, por parte de
técnicos e assessores jurídicos da Sphan, das questões suscita das pelas impug-

A PRi1 1cA DE ro~surnr o: 1970 .1 990


Oill
,()ações, gerando assim uma jurisprudência sobre os novos problemas que se
apresentaram à atividade da instituição.
Esses problemas remetem à redefinição de valores - valor histórico, valor
.artístico, v_a!or excepcional, valor nacional - e de conceitos - como o de centro
histórico e .de entorno. A própria competência exclusiva da Sphan de atribuir valor ,.li

a bens enquanto patrimônio histórico e artístico nacional se tornou também objeto


de discussão e de _reft.exão. Esses temas foram levados às reuniões do Conselho }
Consultivo, órgão que foi assumindo, progressivamente, mais atribuições.

5.2 ÜI PRINCIP~IS PROBLUull

5.2. l As concepçõeJ de valor hiJIórico e de volor ar/Mico


Em relação ao v~l~r artístico dos bens patrimoniais, as principais mudanças
se deram em dois sentidos: primeiro, através da _inclusão no p,atrimônio de estilos
[ecentes,considerados, até então, pelos critérios da .casa, como não-artísticos;
segundo, através da ampliação do que é considerado obra~ de valor artí stico.
A atribuição de valor artístico a estilos estéticos e arquitetônicos recentes é
um fato característico do processo de constituição dos patrimônios históricos e
artísticos nacionais, a partir da década de 1960. Até então, considerav~·se neces-
sário observar um recuo histórico mínimo para a indusão de bens nos patrimônios -
recuo esse que, em geral, se situava em meados do século XIX.
No caso brasileiro, porém, essa não era a principal restrição. Já em 1947, o
Sphan tombara a Igreja de São Francisco, na Pampulha, e em 1948, o ~rédio do
MEC, ambos recém-construídos e ambos por seu valor artístico. Por outro lado,
a seleção de bens imóveis para tombamento estava subordinada a uma concepção
bastante restritiva de valor artístico. em função de urna visão normativa da arqui·
tetura, que Lúcio Costa assim sintetizou:

A boa arquitetura de um determinado período vai sempre bem com a arquitetura


de qualquer período anterior - o que__não combina com coisa alguma é a falta de
arquitetura. (IBPC - Boletim n° 22, 27.2 92)
Esse princípio levou a uma leitura da arquitetura brasileira que via afinidades
estruturais entre as construções coloniais e as modernistas, numa linha de conti-
nuidade que remontava à Antiguidade greco-romana. Recursos construtivos colo-
niais, como as construções sobre estacas, as treliças, e o pau-a-píque, eram
associados aos pilotís, aos brise-soleils e ao concreto armado. Para os arquitetos

~ O PAIRl/t.ÓHI O lM fi OCESIO
modernistas, a semelhança de sua arquitetura com a colonial não era de aparência
ou de efeito, como ocorria com as construções neocoloniais, e sim de estrutura.
A ruptura com o passado, com a tradição, que caracterizou a arquitetura mo-
derna desenvolvida na Europa, na primeira metade do século, como já foi dito no
capítulo 3, não se reproduziu no Brasil da mesma maneira. Aqui, os arquitetos
modernistas, doublés de funcioná rios públicos, procuraram estabelecer um sen-
tido de continuidade e construir uma tradíção brasileira com base em determi-
nados preceitos estéticos, os da boa arquitetura. A arquitetura moderna no Brasil
rompia com a das belas-artes, de origem francesa, em dois sentidos, estético e
ideológico. Do ponto de vista estético, os arquitetos modernistas consideravam
que, no estilo eclético, o funcional e o decorativo estavam dissociados, o que fez
com que considerassem esse estilo, assim como o neocolonial, "não-arquitetura".
Do ponto de vista ideológico, as construções em estilo eclético eram consideradas
transposições acríticas de influências européias, modismo das elites que aqui
tentavam reproduzir o Velho Mundo. Já a arquitetura modernista desenvolvida no
Brasil, embora fortemente influenciada pelo suíço Le Corbusier, procurara, desde
o início, afirmar seu caráter de arquitetura nacional, explicitando, de um fado, sua
adequação ao clima e às condições econômicas e sociais locais, e, de outro, de-
monstrando sua vinculação com a tradição construtiva luso-brasileira. 13 Por esses
motivos, o Estado pôde, nos anos 30, encampar sem maiores dificuldades esse
ideário, que se prestava à afirmação da nacionalidade tanto na construção de
símbolos do presente (o prédio do MEC) quanto na preservação dos marcos do
passado (o trabalho do Sphan).
Não foi difícil para os arquitetos do Sphan a inclusão entre os bens tombados
de construções em estilo art-nouveau, por seu valor artístico. Nesse estilo, con·
forme palavras de Giulio Cario Argan, "a decoração também se torna tensão, elas-
ticidade , expressão simbólica de uma funcionalidade cujo dinamismo é uma
característica do mundo moderno" (1992b, p. 90).
Ainda na década de 1960, Lúcio Costa propusera o tombamento do prédio onde
fu ncionava, no Centro do Rio de Janeiro, a tradicional loja de artigos masculinos
A Torre Eiffel, em estilo art-nouveau. O imóvel ia ser demolido em função de sua
venda pelos proprietários: os comerciantes eram locatários, e teriam que deixar o
loca!. O tombamento não foi efetivado devido à argumentação dos advogados dos
proprietários, de que a motivação do pedido era proteger o uso do imóvel. en-

APRÁ!ICA Df 101\B A/t.!H!O: 1970 -1 990


~
quanto estabelecimento comercial, e não sua arquitetura. O processo foi arqui-
14
vado, o prédio demolido, mas várias peças da edificação foram cedidas ao Sphan.
Em 1970. Lúcio Costa pediu o tombamento de uma casa em e~tilo art-nouveau,
do arquiteto Virzi, na Praia do Russel, Rio de Janeiro (Proc. 825-T-70). Esse foi
o primeiro exemplar em estilo art-nouveau tombado pelo Sphan. de que, segundo
Paulo Santos, existem pouquíssimos exemplares autênticos no Brasil.
15
Mais complexa, e bem mais difícil, foi a valorização artística do ecletismo.
Já nos anos 196ú, haviam sido tombadas algumas edificações, mas por seu valor
histórico.16 Foi apenas com o tombamento dos prédios da Avenida Rio Branco <]Ue
o valor artistice desse estilo começou a ser aceito pelo Sphan.
No processo do conjunto da Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro (Proc.
860-T-72), ficou evidente o confronto entre critérios distintos de valoração dentro
dos quadros técnicos d_ o Sphan. O pedido, feito pelo Instituto dos Arquitetos do
Brasil {IAB) e pelo Clube de Engenharia, "as duas entidades de classe mais pres-
tigiosas e mais habilitadas a fazê-lo" (o que dava a esse pedido um peso espe-
cial), solicitava o tombamento de nove edificações: Palácio Monroe, Tribunal de
Justiça, Biblioteca Nacional, Escola de Belas Artes, Dérbi Clube, Jóquei Clube.
Clube Naval, Teatro Municipal e Assembléia Legislativa. Tinha como justificativa
o fato de esse conjunto representar o testemunho da remodelação feita na cidade
pelo prefeito Pereira Passos. no inicio do século. Em termos de valor histórico.
a antiga Avenida Central seria para a Primeira República o que a Praça XV fora
para o Império. A motivação do pedido surgiu da ameaça de demolição dos pré·
dios do Jóquei e do Dérbi, que dariam lugar a um arranha-céu.
A importância desse conjunto não era somente histórica. A arquitetura da
Avenida Central tinha, conforme observação de J. Needell (1993), função "meta-
fórica". Sua concepção não visava apenas a resolver um problema urbanístico.
mas também a marcar a presença do progresso e da civilização. banindo os vestí-
gios do período colonial. "símbolos de umc1 cultura que os cariocas europeizados
queriam esquecer" (Needell, 1993, p. 71). As fachadas dos prédios haviam sido
submetidas a um júri , que as avaliou .dentro dos critérios do ecletismo francês
Para o autor já citado, "a Avenida Central tornou palpável a fantasia de Civilização
compartilhada pelos cariocas de elite da Belle-Époque" (idem, p. 68).
A análise feita pela Divisão de Estudos e Tombamentos (DET) do pedido em
questão - que, considerando que as edificações não constituíam um conjunto, as
avaliou individualmente , propondo o tombamento apenas do Teatro Municipal e da
Escola de Belas Artes - abriu uma divergência inusitada na história do Sphan.

O PAI Rl /1\ÓN IO ! li\ PROCfl!O


[lli]
De um lado, Lígia Martins Costa, então chefe da Seção de Artes da DET, em cujo
apoio veio posteriormente Lúcio Costa. já aposentado, considerava que faltava
unidade ao conjunto, quebrada por construções como o edifício Apolo 11 e pelas
adulterações sofridas por alguns prédios. De outro. o arquiteto e professor Paulo
Santos. membro do Conselho Consultivo e relator do processo. que defendia o
tombamento do conjunto por seu valor em termos da história da arte brasileira.
Na verdade, mais que uma discussão sobre estilos ou sobre a noção de con-
junto, o que se achava em jogo eram perspectivas distintas de valoração, ponto
a que alude Paulo Santos em sua longa e detalhada resposta ao parecer de Lígia
Martins . Costa:
Compreendo o enfoque de dona Lígia, seja em relação ao conjunto de edifícios,
seja em relação aos do Dérbi e Jóquei. Ela apreciou uns e outros a partir dos princípios
que norteiam a Arquitetura e o Urbanismo modernos. em que aunidade de estilo, volume
e forma é consideração básica para a qualidade da obra. Mas o enfoque, igualmente
moderno, para a apreciação de obrat do passado é diferente, repudiando sejam elas
julgadas pela consciência estética dos nossos dias e sim a partir do oressuposto de
que cada período da História da arte tem direito a ter seu próprio estilo e deva ser
apreciado, em lodos os seus aspectos. em função da cultura de que se nutre e das
idéias estéticas por que se expressa. (p. 14)

Pauto Santos se alinhava, portanto, aos que reconheciam ::i relatividade dos
juízos de valor, contra qualquer princípio canônico no ato de valoração que discri·
minasse estilos na história da arquitetura - como faziam os arquitetos modernis-
tas. Desse ponto de vista, o valor histórico do conjunto enquanto único testemunho
de alto porte da Bel/e Époque na capital da República adquiria maior importância
em termos da indicação para tombamento. Paulo ~.. . . Santos
.. considerava o ecletismo
como estilo estética e arquítetonicamente válido, na medida em que se propunha
·a· analísâ·lo à luz do momento histórico em que emergiu. Via nesse estilo um do-
cumento da evolução da arquitetura e a expressão de seu tempo, final do século
XIX e início do XX - tempo de confronto entre a sociedade pré-industrial. carre-
_gada de traqições, e a sociedade industrial nascente. que buscava novas formas
de expressão estética, formas essas que só surgiram, no Brasil, a partir dos anos
20, com a arquitetura modernista de Warchavchick e do próprio Lúcio Costa.
Foi em nome da "boa arquitetura" que Lúcio Costa se insurgiu veementemente
!lffi seu parecer. Não considerava o edetismo um período da história da arte e
sim "u,11 hiato nessa história". Ao defender sua posição, que coincidia com a de
Lígia Martins Costa, Lúcio Costa fez as seguintes ponderações:

li PlÁII CA O! 10A8 U.EN IO: !970-1990 lJill


Se o lphan tomou a iniciativa de lombar as três "casinhas" referidas - ruas da
Glória, da Quitanda e Mayrink Veiga," foi simplesmente porque tais "casinhas' , inclusive
a do Virzi. corresponderam, na sua época, à linha de evolução - ou revolução - arqui·
tetânica verdadeira, ao passo que as imponentes construções a que o Relator alude
são produtos marginais a essa linha evolutiva autêntica, e manifestações da falsa arqui-
tetura pejorativamente tachada, pela critica internacional autorizada, como "beaux-arts·.
Trata-se, pois, de uma distinção fundamental.
Essa seria, segundo Lúcio Costa, a justificativa de a antiga administração do
Sphan ter excluído de sua alçada o ecletismo: o fato de considerá-lo fora da "linha
legítima da evolução arquitetônica". Essa postura justificava inclusive a proposta
de demolições,. como a formulada pelo próprio Lúcio Costa em relação à "alman-
jarra de concreto, coroada por uma cúpula, situada entre o cais e a esplanada do
Castelo, pertencente ao Ministério da Agricultura e que já nasceu bastarda para
a Exposição de 1922" (Proc. 982-T-78). Lúcio Costa classificou esse prédio de
"vilão arquitetônico"' e ele foi efetivamente destruldo. O mesmo destino teve o Pa-
lácio Monroe, incluído no processo da Avenida Rio Branco, e cuja demolição foi ob-
jeto de protestos na imprensa. Ao final desse processo foram tombados quatro
prédios - Teatro Municipal, Escola Nacional de Belas Artes, Biblioteca Nacional
e Caixa de Amortização - todos, curiosamente, inscritos apenas no Livro de Belas
Artes.
Na análise dessa polêmica, é preciso deixar claro o que está implícito, ou
seja. que o problema não era uma mera oposição história x cânone, pois assim
não se estaria elucidando a posição dos dois arquitetos envolvidos. Ambos par-
tiam de uma leitura da história da arquitetura. O que os distinguia, como procurei
demonstrar, era uma postura diferente na consideração da tradição e na cons-
trução da continuidade histórica dos estilos arquitetônicos.
Anos mais tarde, e com maior distanciamento, a arquiteta Dora Alcântara, da
DET, sintetizou a questão:
Nossa sensibilidade, hoje emdia, inclina-se commaisfacilidade para as construções
do perlodo colonial e da primeira n;ietade do século XIX, não só pelo fato de serem
o que de mais antigo possuímos, como patrimônio arquitetônico, como também porque
a adequação da plástica à técnica construtiva comque eram concebidas encontra eco
na maneirõ de considerarmos a arquitetura contemporaneamente. (Proc. 976-T-78.
Prédio da Cia. Docas de Santos, RJ)
E, em outro parecer, a mesma arquiteta considerou a importância do ecletismo
especificamente no contexto brasileiro:

l 19 2 [ O PAlll~Õ NI O f ~ PROCfllO
Sem dúvida, a linguagem da arquitetura eclética soa-nos quase sempre estranha,
num primeiro momento. Um exame mais detido conduz-nos, no entanto, á identificação
de traços de outras culturas que são comuns à nossa. As propostas clássicas dessa
período, por exemplo, têm, com mai°' razão, elementos que nos são familiares. (Proc.
970-T-78. Faculdade de Direito do Recife, PE)

No final da década de 1970, a percepção que as instãncias técnicas do lphan


tinham do valor artístico dos monumentos já era conduzida com base em uma con-
cepção não-canônica da história da arte, disciplina que Giulio Cario Argan con-
sidera "a única ciência possível da arte" (1992a, p. 16). Para Argan, a crítica de
arte se realiza na medida em que contextualiza e historiciza os fenômenos. É esse
procedimento que, a seu ver, qualifica os juízos de valor.
Se, nas décadas anteriores, a consideração do valor artístico de um bem era
o critério prioritário, recorrendo-se ao valor histórico como única justificativa, ba·
sícamente, para o tombamento daqueles bens que se enquadravam na letra do
decreto-lei ng 25, de 30.11.37, mas que eram desprovidos de qualidade estéüca,
ou haviam sofrido adulterações, a fja!lir,dos. anos 70 a perspectiva histórica, am-
pliada, levou, inclusive, a uma reconceituação dos valores artísticos. Q~__chafa-
.rizEl_s d{)_g~~í,o_do_colonial, por exemplo, foram tombados, nos anos 30-40, por seu
valor__arti.süco, enquanto peças excepcionais em termos do trabalho artesanal exe-
cutado em pedra. N..QL a_nos . 80• .chafarizes do sérulo XIX, tombados também por
~!J valCJf artístico, são considerados, juntamente com aquedutos e caixas-d'água,
paite. do "mobiliªrio urbano que testemunha o processo evolutivo das cidades"
(Dora Alcântara. Proc. 1.132-T-84. Chafariz da Praça Mahatma Gandhi, Rio de
Janeiro}, e se inserem na série histórica referente ao abastecimento de água nos
centros urbanos. No século XIX, esse tipo de bem, produzido em série, era mais
ornamental que utilitário, e reproduzia simbolos do passado. Já as fábricas cons-
truídas nesse período muitas vezes eram concebidas plasticamente de forma a
disfarçar sua finalidade - como é o caso da Fábrica Santa Amélia, em São Luís,
Maranhão (Proc. 1.144-T-88}, cuja fachada em alvenaria, á feição de uma resi-
dência, escondia sua estrutura em ferro. A mesm3 caracteristica, o fachadismo,
foi apontada no prédio da Light, Rio de Janeiro. A dissociação entre forma e fun-
ção, contráíia aos cânones modernistas, era, no entanto, uma característica da-
quele período histórico, e refletia as contradições sociais e culturais da época.
º~n.~fº. de uma visão histórica mais ampla, portanto, certos traços estilístiços
~IDP- o _ornamento autôn_ omo, a dissimulação de materiais, e a alusão a estilos
pretérito~. que ·-~ractfüiZam o ecletismo, deixaram de ser interpretados como
negativos.
:...~ , ...~.···

A PR!IICA O! 10!\BAM WO: 1970-1990 ITill


1
No caso específico de bens que referem classes de objetos antes excluídas
do universo da estética, como as obras da tecnologia industrial - pontes, merca-
dos, fábricas, caixas-d'água, faróis, estações ferroviárias etc. -, essa nova leitura
possibilita inclusive a atribuição de valor estético a esses tipos de bem, que, de
acordo com o recorte romântico, eram excluídos do fazer artístico, eminentemente
artesanal. Em meados da década de 1980, Dora Alcântara, referindo-se ao tomba-
mento do chafariz da Praça Mahatma Gandhi, no Rio de Janeiro, usa o termo
"esté!:c::: ind:..istrial".
A atribuição de valor histórico, que reproduzia, na seleção de bens, os crité-
rios excludente~ da história factual, centrada no evento polítíco e nos feitos das
classes dirigentes, é também ampliada de modo a abranger bens que, mesmo não
podendo ser identificados com "fatos memoráveis da história do Brasil" e não se
destacando por seu valor artístico excepcional, tomam-se passíveis de tomba-
mento federal. Le.mb._r:_o__que_só.receQtemente historiador~~-corneçaram a fazer parte
dQ~ quadros da. área de proteção, produzindo_ pªrªçeres especificamente sobre o ·

vai~~ histórico dos bens propostos para tombamentó: , .. .


.~
Exemplo típico dessa mudança é a evolução do proce;so ~53-T-77, da Escola · :-
·.;.
··
d1; Enfermagem Ana Neri, no Rio de Janeiro. Instituição pioneira da enfermagem
t
no Brasil - justificativa apresentada no pedido - teve o tombamento federal recu-
sado em 1978 por falta de valor arquitetônico (t~_ta-s.e: de construção em estilo
neocolonial), recomendand_o·se o tombamento estadual. Ante a insistência dos
solicitantes, em 1984 o Diretor da 6• DR recomendou que os historiadores da
Divisão de Tombamento e Conservação (DTC) 16 fizesse_rn estudos visando a uma
possível inscrição do bem no Livro Histórico, tendo sido a escola tombcida em fun-
ção de seu papel na história da ciênda no Brasil. Também no caso do tombamento
·
do Forte de Santa Bárbara, Santa Catarina, o arquiteto Antônio Pedro Alcântara
",'
chamou a atenção para uma mudança nos critérios de avaliação que ocorreu entre
1975 (quando se considerou c;Je o bem não tinha valor artístico ou histórico sufi-
cientes) e 1982. data de sua inscrição no Livro Histórico.
Nessa linha, e discutindo a concepção de valor histórico que predominara até
então na Sphan, Dora Alcântara observou que "nem sempre são Õ·s fatos fora -do
comum ou as contribuições de caráter erudito que imprimem o cunho histórico ou
o valor arquitetônico necessários ao tombamento de um local ou de um edifício"
(Proc. 1.113-T-84. Casa Presser, Nova Hamburgo, Rio Grande do Sul). A mesma·
arquiteta considerava também que "fatos memoráveis não podem ser apenas a

~ O PATRI.IIÕNI O 1.11 PROWSO


série de acontecimentos sempre dramáticos e breves" (Proc. 1.146-T-85. Prédio
da Light, RJ).

t:J.o§. arios 80, él~__ÇQl)Ç?pçõ~s mais recentes da nova Nstoriogr<:Jfia começaram .


.ª-.fil)L incorporadas à prática de tombamentos da Sphan, mas eram reiteradamente
__çontest~das njls_ imp~gnações. foi dentro .dessa perspectiva que passaram a ser
lidos e valorizados alguns testemunhos da. ocupação do território brasileiro. <:la
jlyglução das cidades, dos diferentes grupos étnicos, da _história da ciência e da .
__ t~çn_9logia no Br~siL Trahwa-se, como diz o arquiteto luís Fernando N. Franco,
da Sphan, de ler os "desertos" deixados pela história factual. Entretanto, se essa
mudança de perspectiva veio possibilitar a inclusão de novos tipos de bens no
patrimônio cultural brasileiro. falta ainda muito para cobrir as lacunas, mesmo em
relação à história dos "grandes evenio's", deixadas pela orientação anterior.
,Além disso, fatores como a modéstia das edificações, a falta de documentação
. escrita e a dificuldade de fiscalização constituem entraves para o tombamento de
.;·;~ certos bens hist~ricarnente significativos dentro dessa nova perspectiva. Foi o que
ocorrE)u com a Casa de Plácido de Castro, em Xapuri, Acre, com as ruínas da
.,..;· _; Vila Porto Acre, em Rio Branco, Acre, com os marcos da ocupação da Amazônia,
' e com a casa da Sudeco Velha, em Nova Xavantina, Mato Grosso, marco da ocu-
- pação do Centro-Oeste, todos pedidos de tombamento encaminhados por entidades
locais e todos arquivados.

Q_ dile~a entre a ênfase na visibilidade do bem,; considerado enquanto edí-.


,f)~ação _excepcional, propiciadora de urna experiência estética e de uma leitura
de estilo_s arquitetônicos, ou P.çilco de eventos notáveis, e a consideração do valor
__JI_Q...iTionu.rrr~l!!2.~n.quanto__cjqcumento, ·. enquanto referência a significações históricas
· - ~js :vezes fluidas, sem predsão cronológica (como· a noção de ambiente) ~ -~m
,"' .função da carga -~fetiva que pressupõem as noções de identidade ou de qualidade
de vida, constitui um problema levantado nesse período - problema que, como
· ~vem
---- sendo apontado,
,· , assumiu uma dimensão não apenas conceituai .como também
. . .

política.
_, _______ _

5.22 J1 concepçóe, de valor excepcional e de valor nacional


..A noção de excepcionalidade é tributária das idéias de genialidade e de
. Órigi_naliçJade atribuídas pelo movimento românti~ ao ato d~ criação. que põem em
. destaque o sujeito da criação ou o herói, ator de fato memorável. Como o de-
. ereto-lei n~?§, de 30.11.37, menciona explicitamente a expressão "valor excep-

A PRÁflU Df TOMWIEN IO: 1970-1 990


illil
cional", e como_ __se trata de avaliação .eminentemente subjetiva, não é difícil com-
preender p9r q~e _e~sa noção se tornou, durante as últimas décadas, foco de dis-
cussão nas. imp_ug~ações aos torr,bamentos. E, na medida em que a tendência é de
preservar conjuntos, garantir a ambiência pela definição do entorno e protege~.bens
que são representativos de determinado estilo ou época, toma-se dificil para o pro-
prietário de um imóvel aceitar o tombamento de um bem que, a seus olhos, se asse-
melha a tantos outros. Num esforço de esdarecer essa nova visão, diz D~ra Alcân-
tara, falando do conjunto arquitetônico da Avenida Nazaré, em Belém, Pará:

Ofato de que numa primeira etapa do patrimônio, apenas os monumentos enfáticos


no seu valor individual tenham sido atendidos, não deve levar à conclusão de que outros,
por si só menos significativos, se considerados em conjunto, não passem a ser de ex·
cepcional valor. (... ) Esse valar relaciona-se com a leitura que nos proporcionam, através
da qual podemos situar os estilos europeus entre nós, em nossa versão brasileira, pelos
reflexos encontrados 9uma arquitetura menor. (Proc. 1.027-T-80)

São, pois, as. noções de representatividªde, de ex~mplaridade, e não a noção


mais COJifülle...9!L[ora Q'Q ÇO'!!!Jffi,, illm__s~gj11-,:9_cada~.. ·-pela. instituição.
·, ' .
para justificar
"•-'· ,·

vários tombamentos nas duas últimas décadas.


-----............. ,. _ _A..,.,- •"•• • -- ............ -·-- __...,.,,,, __ .....-~.,..---U~- '"'-- ......... ,.,.....--ú"'
Pa_ra_ o arquitet? Lujs Fernando N. Franco, o caráter de permanência e de vila·
J~a_d~ de um bem, no sentiqo de provocar C()ntinuadamente ,novas leituras, é tra ço
·
j_~--~~-~ -~~cepc_ionalidade:
Excepciooal.é.todomaterlal cuja forma revela um grau de elaboração ecomplexidade
que q_!?I!11UnlrL1J.~fü:;~.cn~~tepqrtad.Qr,dos dados da cult~ra que o_p~qouziu. A possibilidade
de novas leituras e de transcrição dessa forma segundo uma expressão diversa de sua
materialidade é já um gesto virtual de preservação: é o gesto com que a cultura. nossa
e atual. incorpora o material e o apropria a um uso culturalmente contemporâneo. O
tombamento, ao tornar real esse gesto. garante, com a preservação física do objeto.
a possibilidade de leituras futuras, inclusive as que contradigam a excepcionalidade
atualmente afirmada: é o risco com que, ao corrê-lo, o objeto denota sua própria vita-
lidade. (Proc. 1.116-T-84. Museu Paranaense. Curitiba, PR)

Dessa perspectiva, a excepcionalidade de, um .bem decorre menos de seus


atributos estéticos que de sua capacidad~ de motiilizarreações - .ainda.que nega,
tíyas -. ÇUl\c!.~j~sJ~~çar.ia ..s@ ..Pro!gçào. Porérn, com a tendência atual de considerar
,que qualquer objeto pode, em princípio, ser integrado ao patrimônio, essa noção
perdeu muito de sua__fe>f~- Rê.lJê.l legit_imar um to~bamento.
('\ssim como a no~_o.de exc.ep~i?nalidade, a noÇfi.9 .de valor nacional, fundada
_na idéia de nação, assim como as práticas voltadas para suscit~r urn sentimento

lli[J O PWl.~ÔHI O !.!\ PROCflSO


de nacionalidade,.
------ -·-··· · .........--·
" , --·
vem S.EJndo_
.
reelaborad.?
··· · - -~
..
na.s ú_l. t.imas
··-.
décadas.
---~·-·· Lúcia Lippi de Oli-
veira resume essas dúvidas quanto à pertinência, hoje, de se invocar a idéia de
nação para legitimar ações de qualquer natureza:
- Se todos os meios, princípios e objetivos dacÚltura moderna - que tantoalmejamos
e queremos redistribuir para todos - são internacionalistas, cosmopolitas. não estarão
os defensores da naçãofora do tempo? Se a nação religou os homens na modernidade,
o que ps religará agora? Qual é o sentido da construção de uma ideologia nacional nos
tempos atuais? Em nome de que valores. princípios. interesses os intelectuais se
lançariam em um esforço de construção simbólica de âmbito nacional?
Pôr outro lado, poderão as "comunidades" de base, de vizinhos, os usuários do
metrô, os leitores de umjornal, os telespectadores se sentirem unidos. agregados? Pode
o individuo moderno hoje, salto das amarras do pertencimen:o à nação, viver uma tola·
lidade que dê sentido ao esforço cotidiano de viver? A aquisição de bens materiais por
si só será capaz de garantir um sentido de identidade pessoal e coletiva? O retorno
.da religiosidade, da espiritualidade, do misticismo parece ser um indício de que os seres
humanos não permanecem muito tempo presos numa jaula de ferro. (1990, p. 66)

Essas perplexidades repercutiram, sem dúvida, numa política pública fundada


sobre o valor simbólico da nacionalidade e conduzida por uma instituição estatal
·que gozava de alto grau de autonomia em relação aos movimen tos da sociedade.
Na medida em que os próprios atores dessa política passam a pôr em dúvida não
só a força política e simbólica da idéia de nação corno também seu papel de úni-
cos porta-vozes dos grupos sociais na construção do patrimônio nacional. torna-
se imperioso buscar novos caminhos.
f [ll termos _práticos, ocorrem também novas dificuldades na atribuição de va-
JoJ__!]a_cioo?La. bens, na medida em que passam? se. tornarviáveis tombamentos
estadu_ílis. e..lll!J_ni~pais. Embora essas esferas de tombamento possam se sobre-
ppr, o tombamento federal, até há não muito tempo o único possível, c-OJ1tinua
~í}dQ COQsíderado o de maior prestigio, e o que assegura efetivamente a proteção
d_s>. t:>'ªm. Foi o que ocorreu em Cananéia, São Paulo, onde os habitantes da cidade,
liderados por um jornalista local, não queriam aceítar o tombamento exclusiva-
mente estadual que fora recomendado pelo Sphan, que arquivou o processo. Tom-
bada em 1969 pelo Condephaat, .:i cidade leve imóveis restaurados por esse ór·
gão, trabalho que, embora executado sob critérios de restauro rigorosos, não foi
I
bem aceito pela população. Nesse caso ficou claro, inclusive, o conflito entre os
critérios técnicos do órgão de preservação e a percepção que a população tinha
da antiguidade de saus monumentos. Do mesmo modo, o valor nacional da casa-

A PRÁ!ICA D! !0#. SA/o\ENI O: 1970 -1990 -·- ..----· ... . ... _,_·~ .,...,_ .. __.,
197
IJ FP1; l • BiBUOú:CA Z;( >
grande da Fazenda Ladeira de TaepP em Surubim, Pernambuco, foi enfaticamente
defendido pelo solicitante. apesar do parecer contrário de Aírton Carvalho, diretor
da delegacia local da Sphan.
O fato é que, com a criação de órgãos estaduais e municipais de preser,ação,
extingue-se o papel supletivo que a Sphan antes exercia, tornando-se, por outro
lado, a cada dia mais importante discutir o que a instituição entende atualmente
como bem de valor nacional.

5.2.3 Os conceílo1 de cenfro hMórico e de enforno


Os tombamentos de núcleos históricos nos primeiros tempos do Sphan foram
realizados tendo em vista antes o número expressivo de bens excepcionais que
neles se cone&ntravam que propriamente o conjunto enquanto objeto de interesse
da proteção. Mas, em texto publicado em 1970, Rodrigo M. F. de Andrade dizia
que~':justifica-se a conservação de um sítio urbano quando este constitui criação
rJ.Ql.§Y-el_erepresentativa-da vida e dac)Tganização social de um povo, em determi-
~ªda fase de sua evolução" (1987, p. 81}. Foi dentro desse espírito que foram tom-
bados os centros históricos de Laguna, Natividade, São Francisco do Sul, Pirenó-
polis e Antônio Prado, entre outros. Pirenópolis, por exemplo, foi tombada por
constituir "cidade representativa de certa forma urbana, certo modo d~ ser nacio-
nal" (Francisco lglésias, relator do processo no Conselho Consultivo).
Em parecer sobre o Centro Histórico de Laguna, Luís Fernando Franco chama
a atenção para o fato de que esse tombamento não é indicado pela excepdo-
na\idade dos monumentos e sim por
(... ) tra1ar-se de docvr.ento precioso da história urbana do pais, menos como sede de
acontecimentos noté'.e1s - embora estes também tenham sido ali assinalados - do que
peta escolha criteriosa do sí1ío, pelo papel que o povoado pôde desempenhar, em virtude
de sua localização. r-o ::irocesso de expans~o das fronteiras meridionais e. sobretudo,
pela forma urbana ass~mida com precipitação espacial dos do·rs processos precedentes.

Foi essa nova visão da história que motivou a proposta desse mesmo arquiteto
para transcrição dos centros históricos inscritos nos livros Histórico e de Belas
Artes para o Livro Arqueológico, Etnográfico e Paisagísfrco. Essa proposta, apre-
sentada na Informação n~ 135/86, implicava uma leitura mais abrangente desses
~ .ns, em consonância com as idéias da École des Annales, que analisa os fatos
históricos a partir de uma postura multidisciplinar, para que concorrem a história,
a geografia, a arqueologia, a geologia, a ar1tropologia etc. Essa leitura en tende

Oill O PATRIA\ÕNIO EA\ PROCEI\O


tsses bens realmente enquanto conjuntos, a partir da relação entre o meio geo-
grª_fico, natural., e os grupos humanos que ocuparam aquele solo e nele deixaram
vest!~íos: Ê uma idéia que já estava implicita no decreto-lei n° 25, de 30.11.37,
que previa a reunião dos três valores em um só livro (arqueológico, etnográfico
e paisagístico}, e também no anteprojeto de Mário de Andrade, quando se referia
âs "artes arqueológicas e amerindias". Nessa perspectiva, a· história das cidades
não se resume mais â história de sua arquitetura, mas abrange todas as adap-
tações feitas pelo trabalho humano sobre o ambiente, de modo a adequá-lo a seu
projeto. Do mesmo modo, os .bens naturais não seriam mais considerados apenas
e.o_r seu valor paisagístico, também em consonância com o que já propunha o pará-
grafo 2~ do artigo 1° do decreto-lei na 25, de 30.11.37 ("que importe conservar e
proteger pela feição notável com que tenham sido dotados pela natureza ou agen-
ciados pela indústria humana").
Na verdade,
-~--~- - essa linha de interpretação é muito recente na instituição, e suas
c:onseg~ências práticas, !,!m \Elrmos de mudanças na valoração de bens e nas con-
duta~. _visando à proteção - que deixam assim de ser tarefa exdusiva de arquitetos -
ainda não podem ser avaliadas.
Quanto ao entorno dos monumentos tombados, na legislação brasileira a de-
finição é feita caso a caso, ao contrário da França, onde o perímetro é fixado por
.l~i -~~ 500 metros. Ç~n,_o_ a própria noção de entorno evol~iu da idéia inicial de
preservar a visibilidade do bem para a de garantir a manutenção de uma ambiên-
cia, a d!,!finição desse enLomo tomou-se uma qLJestão bem mais complexa. Tam-
bém nesse caso, a abordagem exclusivamente arquitetônica é hoje insuficiente,
sendo imprescindível o recu rso a outros especialistas.
A compreensão do que seja o entorno de um bem tombado tem se constituído
tf!l_. mais um _ponto de atrito nos processos de tombamento. Protestos ocorreram
em Belém, Pará, onde a Sphan admitiu, em resposta à impugnação do tombamento
do prédio n~ 482 da Avenida Nazareth. que "o prédio em questão, tal coma ocorreu
com sete outros nas proximidades do conjunto preservado à Avenida Governador
José Malcher, foí tombado a fim de que se colabore na manutenção da ambiência
do conjunto da Av. Nazareth" (Dora Alcântara. Proc.1.027-T-80). Mesmo não sen-
do o caso - pois o pedido se justificou pela importância da própria edificação - na
impugnação apresentada pela Braslight ao tombamento do prédio da Ught, na Rua
Marechal Floriano, RJ, alegava-se que "o tombamento de um prédio para proteção
vi;;uai de outro, esse sim com as qualidades necessárias à sua integração no
patrimônio histórico e artístico nacional, é ilegítimo".

A PRÁll (AOE 101\ Wl[HI O: 1970 -19 90 ,-199 j


O fato é que é evidente que essa nova orientação, centrada no conceito de
ambiência, implica, mais ainda que a anterior, a colaboração dos moradores para
ser implementada.

5.2. 4 Sobre o legilimídode do prow10 de


olrihuíçào de valor no1 fomhamenfo1
A condução do processo de avaliação de bens para tombamento que, nas dé-
cadas anteriores, era fechado, e com base em uma autoridade reconhecida dentro
e fora da instituição, passou, a partir dos anos 70, a encontrar algumas dificul-
dades, e a ser objeto de discussão tanto internamente, entre grupos de opiniões
distintas, 19 quanto nas impugnações, que questionam inclusive a autoridade exclu-
siva do Sphan para emitir juízos sobre o valor cultural dos bens.
Embora explícita~ª. lei 378, de 13.1.37, a competência do Sphan nesse sen-
tido só foi realmente legitimada juridicamente com o memorável julgado sobre o
Arco do Teles, em 1943, quando o STF ratificou a constitucionalidade do decreto-
lei nª 25, de 30.11.37. Entretanto, no período que estou anà1isando, algumas im-
pugnações contestaram essa competência, discutindo inclusive o caráter do tom-
bamento enquanto ato administrativo.
Para os juristas do Sphan, o tombamento constitui um tipo de ato adminis-
trativo discricionário e não vinculado,2° pois a legislação brasileira determina que
cabe ao Estado, através da instituição competente, avaliar os bens a serem tom-
bados pela instância federal. O exercício dessa competência foi regulamentado
pelo decreto-lei nª 25, de 30.11.37. A legislação brasileira, à diferença de vários
países, não estabelece critérios objetivos - como datação ou classes de bens -
e sim competências, que devem ser exercidas levando-se em conta determinados
valores. Sônia Rabelo de Castro (1991, p. 90) considera, inclusive, que mesmo
os valores discriminados no decreto-lei nª 25, de 30.11.37 - histórico, artístico,
arqueológico, etnográfico, paisagístico e bibliográfico - devem ser entendidos
como menções de caráter meramente exemplificativo, pois a própria noção de va-
lor cultural varia de uma época para outra. Cabe à instituição competente deter-
minar o preciso conteúdo dos preceitos genéricos do decreto-lei n2 25, de 30.11.37,
desde que seja observada coerência no julgamento de casos similares conside-
rados na mesma ocasião.
F.oi, pois, apoiadc em argumentação jurídica, que Lúcio Costa afirmou categori-
camente que "cabe por lei ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional,

IJ]]J O PWlil\ÕNIO tllc ?RO l flSO


,através de seus órgãos especializados e de seus técnicos, ajuizar da significação
e do valor da coisa iombâda; tal juízo é da sua exclusiva alçada e competência"
(Proc. 853-T-72. Casa R. Mayrink Veiga, 9. Rio de Janeiro, RJ ).
~ qualificação do poder de julgamento da Sphan como discricionário implica,
.jlQ_rt_anto, _certa dose de arbítrio. Essa rtialidade é muitas vezes interpretada como
:falta de critérios" ou como subjetividade dos juízos de valor emitidos pelo órgão.
R9rtanto, um dos cuidados da instituição - presente nas contra-razões às impug-
nações de tombamento - é de, ao mesmo tempo, apresentar as justificativa!; técni-
(&.S _g_~.le..vçi_r:n {oµ nã9) a cada tombamento, interpretando as disposições gené-
ricas do texto legal, e defender a autoridade de sua decisão quanto à avaliação
de bens para tombamento.
Até os anos 70, essa responsabilidade era exercida pelos .,gentes do Sphan
sem maiores contestações ou discordâncias, dentro e fora da instituição.
Como já foi observado, era sobre o valor artístico que, nas primeiras décadas
do Sphan, incidiam prioritariamente as inscrições e a noção de excepcionalidade.
A atribuição de valor artístico requer um julgamento especializado, que considera
o bem sobretudo em seus aspectos formais - no sentido do uso dos materiais,
do apuro da execução e de seu estado de conservação. Reformas ou restaurações
qJJe. ~escaracterizassem o programa original eram impedimentos para a atribuição
de _v.alc,r artístico. Nesse sentido, a ênfase na atribuição de valor artístico res-
guardava as prerrogativas dos agentes ~º-·Sphan.
O valor histórico era, nª_quele período, daramente considerado como um valor
~de_ ~egunda classe", e atribuído com base na interpretação literal do decreto-lei
nQ 25, de 30.11 .37 (ver Anexo li). Foi possivelmente devido ao cará ter supletivo
desse valor que não houve no Sphan preocupação em recrutar historiadores nem
em desenvolver critérios próprios e mais elaborados de avaliação do valor histó-
rico dos bens que se propunham para tombamento.
Esses critérios de atribuição de valor adotados pela instituição, apoiados na
autoridade de quem os formulava, começaram a ser questionados na década de
1970. sendo um marro nesse sentido o processo da Avenida Rio Branco, no Rio
de Janeiro (Proc. 860-T-72). Ao defender o tombamento de monumentos em estilo
eclético, ao reconhecer o valor próprio de cada estilo de época, e ao afirmar o
inconteste valor histórico dos monumentos, o arquiteto Paulo Santos, relator do
processo no Conselho Consultivo, entrou em confronto com a autoridade de Lúci o
Costa e com a tradição da casa.

A Pi.Í.TICA Of TO-"'BhillfNTO: 197 0-19 90 I]filJ


A_crítica à hierarqu1ade valores até então adotada terminou por provocar vá-
!:@J conseqüências na prática de tombBrnentos. Em primeiro lugar, a adoção de
um ponto de vista que relativiza os juízos de valor propicia o deslocamento da
questão de uma instância exclusivamente técnica para uma instância política .
Nesse caso, o recurso à autoridarJe de quem julga torna-se insuficiente, e outros
pontos de vista, de outros atores, passam a ser levados em conta. Além dos argu-
mentos técnicos, é preciso recorrer também à capacidade de argumentação e à
habilidade poltuca. Foi o que ocorreu em alguns processos de tombamento, como
o do Terreiro da Casa Branca, o da Serra da Barriga, o da cidade de Antônio Pra-
do, o do Hotel Copacabana Palace, entre outros.
Mas foram sobretudo imperativos de ordem prática que levaram, nesse perío-
do, os técnicos da Sphan a refletir e a discutir em seus pareceres a legitimidade
do processo de atribuição de valor adotado pela instituição. Essa questão foi le-
vantada tanto nas impÚgílaçõP.s como em decorrência da apresentação de pro-
postas de tombamento de "programas inteiramente novos, cujo universo (em ter-
mos nacionais) nos é inteiramente desconhecido" (Proc. 1.064-T-82), conforme
observou a arquiteta Dora Alcântara, então responsável pela Seção de Tomba-
mentos da DTC. Foi a própria Dora que esclareceu, em outro parecer, a natureza
do problema:
Sempre que nos é proposta a preservação de um bem tradicional em nossa prática
institucional de tombamento - igreja, teatro etc. - não há dificuldade maior, porque já
possui mos o necessário quadro de exemplos para referenciá-lo. Se, ao contrário, a pro-
posta refere-se a um objeto não tradicional - caixa-d'água, vila operária etc. - temos
necessidade de organizar um mínimo quadro de referência para opinar com menor
margem de erro. (Proc. 1.072-T-82)

Tratava-se de bens que não se prestavam a uma leitura estritamente estética.


A inclusão de novos programas na prática de tombamentos da Sphan teve, portan-
to, algumas conseqüências não só no quadro de referências conceituais até então
utilizado, como também na sistemática de valoração. Tornou-se indispensável a
participação de outros especialistas que não apenas os arquitetos. Afinal, o saber
que a Sphan deve agora produzir para fundamentar suas decisões em termos de
tombamentos é diferenciado, e exige o equacionamento de inúmeros prob lemas.
l\. 9!!.6-_S_!ãodemonstrou ser bem mais complexa quando se trata de avaliar bens
...P!?9U?idos e voltaçjos para os grupos sociais populares, vinculados a owtras tradi-
ções culturais gue_. não a luso-brasileira, mas que atualmente estão em constante

j 202] O PA!RIIIÕNIO EII PROCEI\O


intwaçã,o ..com a cultura das classes cultas {e também com a cultura de massa).
Nesse caso, para o agente institucional, o problema, como observa Dina Lerner,
"é a ignorância da nossa ideologia branca· (Sphan, Revista do Patrimônio 22,
1987. p. 75). Fica evidente que o proCE:!s_so .de.. atribuição de valor não pode ser
r~duzido a uma questão técnica. As discussões levantadas por esses {ainda pou-
cos) processos explicitam o caráter ideológico da construção dos patrimônios.
Exemplar nesse sentido foi o processo de tombamento do Terreiro da Casa
Branca, em Salvador, Bahia, o 111ais antigo terreiro de candomblé do Bra sil, cujo
pedido de tombamento teve origem na FNpM, através do Programa Etnias e Socie-
dade Nacional. Nas discwssões que constam do processo, fica claro o conflito
entre os técnicos da Sphan - que se apoiavam nos critérios de valoração já con-
solidados e, sobretudo, na defesa da especificidade do instituto do tombamento
a bens que interessa manter imutáveis - e os antropólogos da Área de Referência
da Dinâmica Cultural da FNpM, e do Conselho Consultivo, que enfatizavam a im-
portância simbólica e política desse tombamenlo.21 Por esse motivo, o que impor-
tava não era apenas o reconhecimento, por parte da cultura oficial, de um bem
significativo para a cultura afro-brasileira enquanto manifestação etnográfica, e
sim sua inclusão, com a inscrição no Livro do Tombo Histórico, entre os bens
referidos à história nacional. 22

A -~preciação e a inscrição de bens do que se veio a denominar "patrimônio


ç_ultural não-consagrado" eram, até os anos 70, nos rari§sim()s casos que se apre-
~en.tavam para tombamento, tradicionalmente feitas por seu valor etnográfico.
Entretanto, na medida em que a perspectiva eioográfica e a noção de folclore pas-
sp_ram por um processo de revisão critica (cf. Cava!canti e Vilhena, 1990 e Carva-
lho, 1991), esse valor passou a ser identificado com a ólica das classes dominan-
tes, e sua utilização como justificativa para tombamento tomou-se ideologicamente
problemática. Por outro lado, o tratamento que essas produções recebia m, consi-
deradas manifestações exóticas ou típicas de contextos culturais "atrasados", difi-
cultava sua avaliação a partir de outras escalas de valores.
A complexidade da questão que se apresentava, agora de modo diferente, para
os técnicos da Sphan, pode ser avaliada na discussão do processo de tombamen to
do Presépio do Pipiripau, Minas Gerais, proposto para o Livro de Belas Arte s.
Nesse processo, o arquiteto da Sphan Luís Fernando Franco questiona não só os
novos critérios de valoração propostos, supostamente mais democráticos, como
o próprio lugar de fala dos agentes institucionais.

APRÁTICA Of IOMBAM!NIO: 197 0-19 90


Uill
No seu parecer, Luís Fernando Franco tece considerações sobre o processo
de avaliação das produções culturais marginalizadas por parte da cultura domi-
nante. O arquiteto faz uma crítica à situação em que, em nome de uma postura
democrática e "politicamente correta", a defesa, por pãrte de agentes institucionais,
de um _relativismo absoluto na atribuição de juízos de valor leva a equívocos con-
_ç;ejtu_ais e .também ideológicos.
O arquiteto observa que, ao se partir do pressuposto ingênuo de que a obje-
tividade nos juízos de valor "pressupõe a possibilidade de uma perfeita aderência
do sujeito ao objeto observado", se propõe uma concepção de imparcialidade hà
muito criticada pela epistemologia. Essa pseudo-objetividade encontra reforço nu-
ma •aspiração democrática do gosto, fundamentalmente hostil à noção de obra-
prima e de monumento." Ora, a abolição de qualquer escala de valores, em nome
do repúdio a uma leitura_ dominante e da inserção da obra em seu contexto, na
verdade sígnifica a abolição dos conflitos inerentes à produção cultural. Esse pro-
r.esso de nívelamento - que desconhece o fato de que a cultura é justamente urna
escala de valores permanentemente retificada - seria próprio da indústria cultural,
portanto contrário aos interesses da preservação. Ao se querer, dessa maneira,
corrigir desigualdades na constituição do patrimônio nacional, termina-se por mas-
carar os conflitos inevitáveis nessa prática quando exercida numa sociedade de
classes.
O arquiteto concluí que a falta de ur:n estudo abrangente sobre o universo dos
presépios não permitia estabelecer, com segurança, nesse caso, um juízo de valor
artístico. Por esse motivo, o arquiteto propõe a inscrição do Presépio do Pipiripau
exclusivamente por seu valor etnográfico. 23
Nos dois casos mencionados, fica claro como motivações de ordem política
e ideológica se cruzam, nesse período, com as exigências e os limites da esfera
estritamente valorativa, que se estrutura no âmbito das definições disciplinares
correspondentes aos Livros do Tombo.
Nesses processos, os técnicos da Sphan se viram confrontados com a questão
que constituía o principal interesse do "grupo da referência" - a proteção do "patri·
mônio não-consagrado" - tendo, porém, que a equacionar no campo especifico da
'
prática preservacionista: o da seleção de bens com base na atribuição de deter-
minados valores culturais, visando à sua proteção legal.
Outro problema - aparentemente formal, mas com as implicações conceituais
e práticas que já foram apontadas no capítulo 3 - é o do critério nas inscrições
nos Livros do Tombo, que sempre foi deixado em segundo plano pelos técnicos

O Pl!Rl.~Ô~IO l,11 PROCEl'.0


LlQil
do (e da) Sphan. O tipo de inscrição condiciona não só a leitura do bem como
também o modo como será conservado.
É difícil entender, por exemplo, por que a Caixa-d'Água de Pelotas, RS, cujo
caráter pioneiro é referido por documentos, está inscrita apenas no LBA, enquanto
o Reservatório de Mocó, Amazonas, mais recente, tem dupla incrição (LH/LBA); por
que o Açude do Cedro, CE, que, além de obra notável de arquitetura, foi a "primeira
rede de canais de irrigação levada a efeito no Brasil", não está inscrito também no
LH; por que o Porto de Manaus, testemunho inconteste do ciclo da borrach.i. foi
inscrito apenas no LBA e no Laep, enquanto o Teatro Amazonas, de inegável valor
artístico, havia sido inscrito apenas no LH. Já no caso do Plano Piloto de Brasília,
obra contemporânea que, ao contrário de outras menos recentes, como o prédio do
MEC e o Parque Guinle, ambos no Rio de Janeiro, foi inscrito unicamente no LH,
essa inscrição fez parte de uma estratégia a que recorreu Lúcio Costa para proteger
sua obra, já tombada pela Unesco, das descaracterizações que a ameaçavam. Foi
a forma encontrada para contornar objeções que eram feitas por arquitetos locais
do ponto de vista estético e urbanístico, movidas possivelmente também pelo inte-
resse em liberar a área para investimentos imobiliários. 24

5.3 AAIUACÃO 00 ( ONIHHO ( ONIUUIVO

A aoi'llise da~ ª_!as_do_Çgnselho Consultivo, no período que vai de 1970 a mar-


ço de 1990, indica os efeitos das mudanças institucionais sobre esse conselho
.,~ sob.re,_a Sphan. ~_p_rii:neira r~~nião de 1970, realizada a 21 de janeiro, marca
_a saída de Rodrigo Melo Franco de Andrade como conselheiro - função que assu-
mira ao se aposentar. em 1968, em substituição a Miran Latif - em decorrência
de seu falecimento. É substituído por Prudente de Morais Neto, que já prestava
assessoria jurídica ao Sphan.
t~o início d& d~cada,
............
~ ,_
foram
.. levados ao Conselho casos que evidenciavam as
.dificuldades da institui~o em face da especulação imobiliária, principalmente na
.cidade do .Rio de Janeiro. Foi o caso do projeto da construtora Veplan para a Gá-
vea, denominado Ch:Jca~a da Gávea; do pedido de tombamento das residências
das embaixadas da Itália e da Argentina; do Parque Lage (reiteração de tomba-
mento) etc. Foram tombados nesse período os morros do Rio de Janeiro (sete
morros individualmente),25 o Horto Floresta! e o Parque do Flamengo, visando a
proteger o patrimônio natural como moldura da cidade e a qualidade de vida de
seus habitantes. Foram assuntos reiteradamente discu tidos nas reuniões do Con-

A PRÁ l!CA OE 10.!IW\E NTO: 1970·•990


illIJ
selhO a questão do entorno dos bens tombados, dos centros históricos, e da saída
de obras de arte para o exterior.
Em 1979, na 86ª reunião, Aloísio Magalhães assumiu a presidência do Con-
selho e definiu sua missão como a de "dirigir e revitalizar o lphan". E, embora
afirmasse que "quanto ao pensam1;:nto original do lphan nada há a inovar ou in-
ventar'', observou que "a expressão concreta dos bens culturais brasileiros são
de pequena dimensão. Seu concerto, não claramente explicitadJ, encontrou na
ín\eli3ência de Rodrigo MPl'l Franco de Andrade a ênfase no domínio da pedra e
cal e na luta da conscientização das elites culturais brasileiras". Afirmou seu obje-
tivo de atuar de forma planejada,. equacionando os problemas para captar recur-
sos, e anunciou o projeto de reestruturação do órgão.
Em 1983 o antropólogo Gilberto Velho passou a integrar o Conselho Consultivo.
Fora precedido pelo especialista em desenvolvimento regional Roberto Cavalcanti
de Albuquerque (em 1982) e pelo empresário José Mindlin (em 1979). A configuração
do colegiado começava a se modificar. 26 Por sugestão do presidente Marcos Vilaça,
o Conselho começou a se reunir também fora do Rio de Janeiro, visando a propiciar
maior envolvimento com a comunidade, de desejável efeito didático.
Na década de 1980, começaram a chegar ao Conselho pedidos de tombamento
dentro da idéia dos "novos programas": bens representativos da etnia afro-brasi-
leira (Terreiro da Casa Branca, BA e Serra da Barriga, AL): das diferentes corren-
tes de imigração (Casa Presser, RS; Casa do Professor e Escola Rural, e Cemi-
tério Protestante, SC, testemunhos da imigração alemã; Casarão do Chá, SP, tes-
temunho da imigração japonesa; cidade de Antônio Prado, RS. testemunho da imi-
gração italiana); marcos da história da ciência e da tecnologia no Brasil (Casa
de Saúde Carlos Chagas e Estação Ferroviária de Lassance, MG; Escola de En-
fermagem Ana Neri, Fundação Osvaldo Cruz e Hospital São Francisco de Assis,
RJ; inúmeros exemplares da arquitetura am ferro, como pontes, mercados, caixas-
d'água, açudes etc.; novos exemplares ... de arquitetura civil, como curtume, fábricas
e conjuntos habitacionais populares; e até fazeres, objeto da proposta de tomba-
mento da Fábrica de Vinho de Caju Tito Silva, Paraíba).
Esses pedidos de tombamento provocaram discussões sobre o instituto do
tombamento, suas finalidades e seus limites. Na 108• reunião, realizada em Salva-
dor em 31 de maio de 1984, o pedido de tombamento do Terreiro da Casa Branca
foi objeto de acalorado debate e foi inusitadamente aprovado por uma estreita mar-

O PAlWIIÔNIO I MPROCfl l O
~
gem de votos (três votos a favor , um voto contra, duas abstenções e um pedido
de adiamento).
O problema da definição da função dos dois órgãos recém-criados - Sphan
e FNµM - também foi levado ao Conselho a propósito da elaboração do regimento
da Sphan. A apresentação de duas propostas separadas, segundo o secretário
Ângelo Osvaldo, expressava "as indagações e os conflitos conceituais que já es-
tavam latentes desde a cri;ição da FNpM", mantendo-se a divisão entre o "patri-
mônio arquitetônico" (Sphan) e o "patrimônio antropológico" {FNpM), apresentan-
do-se a Sphan como herdeira de Rodrigo e a FNpM como herdeira de Aloísio. A
quesfüo foi retomada na 1284 reunião em termos de uma crise institucional, em
conseqüência da duplicidade de comando. Como solução, o Ministro da Cultura
terminou por optar pela unificação do comando das duas instituições.
A partir de 1988, também os processos indicados para arquivamento come-
çaram a ser encaminhados ao Conselho Consultivo que, a partir de então, passou
a participar de todas as decisões relativas aos tombamentos.

5.4 ÜBSERVACÕES fl NAII

Como espero tenha ficado evidente, os problemas que, nas décadas de 1970
e 1980, se apresentavam ás áreas técnicas e ás instãncias decisórias da Sphan
estavam bastante distantes das questões que então ocupavam os funcionários
ligados ao CNRC, inclusive na medida em que esse grupo contestava os critérios
de valora ção da Sphan. Mas, ao simplesmentP. repudiarem os critérios estabele-
cidos (o que lhes era facilitado pelo tipo de trabalho que desenvolviam) e ao se
limitarem ao que seria uma atuação corretiva, os técnicos do CNRC terminaram
por se furtar a enfrentar uma dimensão sem escapatória <1a atividade de preser-
vação: a definição de critérios para a seleção de bens a integrar o patrimônio his-
tórico e artístico nacional - critérios tanto técnicos como politicos. 27
No entanto, o fato é que vários projetos do CNRC foram parar nas instâncias
técnicas da Sphan, em muitos casos a contragosto dos técnicos mais antigos da
casa, que consideravam os bens propostos para tombamento desprovidos de ex-
cepcional valor histórico ou artístico, ou incompatíveis com as exigências do insti-
tuto do tombamento. Mas hoje é inegável que esse movimento propiciou, em nivel
conr:eitual, pelo menos, algum grau de integração entre as duas orientações. O
afluxo de novos programas, entre eles várias propos tas oriundas da Área de

A PRÁIICA OE ! 011\Wl fN IO : 1970 , 19 90 [illJ


Referência da Dinâmica Cultural da FNpM, contribuiu, sem dúvida, para provocar
uma refiexão teórica, metodológica e operacional extremamente salutar, mas que,
na medida em que ficou restrita aos processos de tombamento, não contribuiu para
informar a prática institucional.
Fazendo um balanço dos tombamentos feitos nas décadas de 1970 e 1980,
observa-se que, sobretudo nos anos 80, aumentaram consideravelmente as ins-
crições no livro Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico (46 inscrições, a partir
de 1970). As inscriçães no Livro Histórico (94, enlre 1970 e 1990) foram um pouco
mais numerosas que as inscrições no Livro de Belas Artes (86, no mesmo perío-
do), mas a diferença não é expressiva.
Quanto aos tipos de bens que foram objeto de tombamento, decresceu signifi-
Çé:ltivame.nte o número de bens de arquitetura religiosa e militar. aumentando o nú,
m~rq de.w11iyntos. ~as oJªtc}rnai~ .característico desse período.é a diversificação
dos. .-·bens
----A de arquitetura civil, e o tombamento
• -• ·•.",• • ·•-• ~ C '·, inusitados, como o da Fábri-
. . . ._. . . ~. .--··, , , ,• ,_;d!?. bens
ca de Vinho de Caju Tito Sil~a. já mencionado, proposto pe\o prográr'na de Tec-
nologias
---·-
Patrimoniais
- ,
··---· ..
da Área de Referência da Dinâmica Cultural da FNpM, cuja
fiQ_a_!ld~~e não era propriamente a proteção do imóvel e do equipamento, mas
desses enquanto suporte de um "fazer intimamente relacionado com as caracté-
ct~t1ç~~--regíorÍais do processo cuitural brasileiro".28 Ü tombamento de bens natu-
rais é ainda esporádico, mesmo porque, no período, foi intensificada a atuação de
outros órgãos públicos voltados especificamente para a proteção do meio am-
biente, que passou a contar também com inúmeras ONGs. Entretanto, a análise
dos processos de tombamento abertos nesse período (ver Anexo VI) revela um
dado curioso: se a difusão da ecologia sem dúvida mobilizou a sociedade bra-
sileira para a necessidade da preservação, por outro lado o encaminhamento à
Sphan de cerca de trinta pedidos de tombamento de bens naturais indica que a
figura do tombamento ainda é vista por nossa sociedade como o instrumento de
preservação por excelência.
A proteção pelo tombamento de bens de outros contextos que não o da cultura
luso-brasileira continua rara; e a de bens que estão inseridos numa dinâmica de
uso popular - co1110 foi o caso do Terreiro da Casa Branca, da Casa Presser, RS
e do Conjunto Habitacional Avenida Modelo, RJ - é considerada problemática
pelos critérios em vigor. Outro fato a se observar é que não ocorreram tomba-
mentos de bens referentes às etnias indígenas, o que leva a supor que o interesse
-~·

llQ!] O PAIRIMÔNIO !M PROCEI SO


desses grupos estivesse voltado para outras frentes de atuação política, como
ocorreu na Constituinte.
Em suma, se, nesse período, o patrimônio se abriu para novos tipos de bens, (

a Sphan ainda não sabia exatamente como fazer para proteger esses bens.
A análise dos processos de tombamento abertos nas décadas de 1970 e 1980
nos leva a caracterizar esse período como um momento de coexistência e, em
certos momentos, de confronto, entre orientações distintas, o que se expressou
muito mais no nível das práticas que do discurso. Por outro lado, se :::msiderar-
mos essa situação em termos de longo prazo, podemos supor que, na verdade,
se trate de um período de transição. Na medida em que se reconstruam séries
históricas, se proponham leituras maís abrangentes, que não se limitem aos con-
ceitos tradicionais de história e de arte, e sobretudo se abram espaços para a par-
ticipação de outros atores. que poderão propor outras leituras e dar suporte ás
atividades de proteção, os efeitos dessa fase poderão redundar numa efetiva am-
pliação da eficácia simbólica do patrimônio e numa maior representatividade dos
bens tombados relativamente à pluralidade cultural brasileira.

Nom
O arquiteto Carlos Lemos, do Condephaat, de São Paulo, observou que. no caso das
fazendas paulistas antigas hâ, pelo contrário, interesse dos proprietários no tombamento,
o que as valoriza no mercado imobiliârio.

Sobre a sistemâtica dos processos de tombamento. ver Castro, 1991, p. 55 -67 e.


de forma mais resumida. Meirelles, 1991, p. 481-483.

Deprot/lBPC. Processos de tombamento: uma proposta de ação. Dezembro 1992


(mimeo).

Os dados mencionados foram colhidos no Arqu ivo Central do IBPC, em pesquisa


concluída em julho de 1993.

De maio de 1992 - quando ocorreu a recondução do Conselho Consultivo - a maio


de 1995 ocorre ram mais sete tombamentos: Sobrado do Padre Taborda e casa,;o
fronteiro a ao redor dele e da Igreja Matriz de Santo Antônio (ltaverava, MG); Con-
junto arquitetônico, urbanístico e paisagístico da cidade de Cuiabá (MT); Palácio Tira-
dentes (Rio de Janeiro, RJ); Conjunto arquitetônico e paisagístico de Coru mbá (MS);
Parque Nacional da Serra da Capivara (São Raimundo Nonato, PI), Parque Zoológico
do Museu Emílio Goeldi (Belém, PA), Cine-Teatro Central e as pinturas a ele integra-
das (Juiz de Fora, MG).

A PRÁJICA OE IO l!BA.11! ~10: )970, 1990 [mJ


Nesse lotai, além dos 74 processos arquivados que foram abertos a partir de
1.1.1970, incluem-se mais quinze processos abertos antes dessa data, mas que fo-
ram arquivados durante as décadas de 1970 e 1980 (esses números não são exalos.
pois em alguns processos não foi passivei definir a data do arquivamenlo).

Em 12 dos 135 pedidos que resullaram em tombamenlo, nao foi possível identificar
a origem da solicitação, seja porque os processos não se encontravam no Arquivo
Central do IBPC, seja porque neles não foi possível localizar essa informação.

Já na França. em 1980 - o Ano do Patrimônio - foram identificadas cerca de seis


mil associaçõP.s em todos os domínios do patrimônio (Léniaud, 1992, p. 104).

Cabe observar que, entre os pedidos de tombamento encaminhados por prefeituras


e assembléias legislativas, dezoito foram arquivados, e apenas nove resultaram em
tombamento.
10
A antropóloga Eunice Durham considera que ·a idéia de 'comunidade' é um mito d,i
nossa transform_açêºJ?.9.'~tic,~.:..JQdo_conceito de comunidade está preso à noção de
_!gualdade, de convivência etc. Pensar na comunidade urbana é muito complicado,
se não totalmente falso. ~ não há nada de que se tal~ mais no .pais ultimamente
do que em comunidade. É a coisa que menos existe e sobre a qual mais se fala'
(em Arantes [org.j, 1984, p. 55).
l1
A Casa Modernista foi tombada em 14 de agosto de 1986 pela Sphan, juntarnent~
com duas outras casas de Warchavchik, a partir de proposta encaminhada pela 9•
DR.
12
Devo esses números à pesquisadora do lBPC, Maria Alice Siaines de Castro. Aos
vinte tombamentos compulsórios relativos a processos abertos a partir de 1970 acrescen-
tam-se mais três, relativos a processos abertos no período anterior.
3
' Sobre o lugar dos arquitetos modernislas no seu campo profissional específico , diz
Lauro Cavalcanti: "A vitória dos 'modernos' no prédio do MES. na conquista da pri-
mazia de criação de um órgão de Patrimônio e na afirmação de um discurso ético elegendo
a habitação popular corno objeto privilegiado de atuação (ver Cavalcanti, 1987). torna-os
'dominantes' no campo arquitetônico, havendo logrado tecer argumentos em todos os planos
de um debate colocado, ao qual passam a recolocar em outros termos e constituir novos
enunciados para esse mesmo campo." (1991, p. 75)

" O mesmo argumento foi utilizado na França em 1988, a propósito da proteção ao imóvel
onde funciona o tradicional restaurante Fouquet's, na medida em que o objetivo era preservar
não o imóvel, sem maior valor arquile1ônico, e sim a marca. Em 1990, uma decisão da
justiça considerou essa inscrição incompatível com a lei de 1913, que se refere a "bens
móveis e imóveis" (apud Léniaud. 1992, p. 119-120).

LWO O PATRl~ÓNIO IM PR OWSO


15
Em entrevista. Lúcio Costa definiu o 'ecletismo arquitetônico':"Cada obra seguia um estilo
caracteristico do seu gênero, um estilo histórico, digamos assim. Uma casa não obedecia
às mesmas linhas de um prédio comercial. Havia um receituário a ser seguido. As igrejas
eram românicas, góticas ou barrocas; os bancos se pareciam com palàcios italianos; os
edifícios públicos imitavam o estilo Luís XV ou Luís XVI e por ai ia, passando, naturalmente,
pelo estilo colonial português, pelo normando ele.' (Folha de São Paulo, Caderno Mais,
15.8.93, p. 6).
1
• Cf. capitulo 3, nota 28.
17
Lú cio Costa refere-s.; aos processos 855-T-70 (Rua da Glória), 853-T-72 (Rua
Mayrink Veiga ) e 854-T-72 (Rua da Quitanda), lodos pedidos encaminhados por ele.
18
A partir de 1979, a Divisão de Estudos e Tombamenlos (DET} e a Divisão de
Conservação e Restauração (DCR) foram fundidas na Divisão de Tombamento e
Conservação (DTC).
19
Cf. mesa-redonda sobre tombamento (Sphan. Revista do Patrimônio, n~ 22, 1987,
p. 69-79).
20
·o ato discricionário é a projeção, na prática, da faculdade discricionária ou poder
discricionário, possibilidade de agir ou não, de operar ou não dentro de uma área
perfeitamente circunscrita pelo direito.

Opondo-se ao ato vin culado, que é a manifestação obrigatória da administração


desde que o beneficiário do ato lenha preenchido os requisitos fixados pela lei, o
ato discricionário movimenta-se num campo muito mais livre, visto ser a manifesta-
ção unilateral da vontade da administração que, fundamentada em regra objetiva
de direito, que a legitima e lhe assinala o fim livremente, se concretize desvinculada
de qualquer lei que lhe dite previamente a oportunidade ou conveniência de conduta,
sendo por esse motivo m·esmo insuscetivel de revisão judiciária nesse campo' (França,
1978, p. 465-466).
21
Os técnicos da Sphan ponderavam que o uso da área do terreiro impedia o cum-
primento das exigências do lombamenta, na medida em que o ritual reíigioso podia
determinar alterações no espaço fisico do tocai , como corte de árvores etc. Se
permitido esse uso de um bem lombada pela Sphan, ficaria difícil impedir outros
tipos de alterações, como modificações em fachadas, em volumetria etc., enfraquecendo-
se assim o instituto do tombamento. O mesmo tipo de problema foi objeto de discussão
no caso do tombamenlo do conjunto habitacional Avenida Modelo, Rio de Janeiro, tombado
em 1985. Nos dois casos, como no do Santuário do Bom Jesus da Lapa, Bahia, em 1958
(ver capitulo 4) alegava-se que o tipo de uso desses bens pelas classes populares era
incompatível com o tombamento, e que não seria correto impor a essas classes valores
çulturais que lhes eram estranhos.

A?RÁTl( AOI TOMAl!IN IO: 1970-1 990 [lliJ


Já os antropólogos, favoráveis a esse tipo de tombamento, consideravam que o
mais importante, no caso, era a significação simbólica e política desse ato, que por si só
juslificava o risco de eventuais irregularidades 'técnicas". Para esses antropólogos, a
posiçao dos téC11icos do grupo de pedra e cal apenas confirmava o caráter elitista da
co'!lpreensão que tinham do tombamento e da própria atividade de preservação exercida
pelo Estado.
21
O Terreiro da Casa Branca foi inscrito em 14.8.86 no Livro Histórico (n'l 504) e no Livro
Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico (n• 93).

Embora concorde com a crítica do ~ rquilelo aos pressupostos que fundamentaram o pedido
23

de tombamento do presépio, considero que, nesse caso, não seria difícil recorrer a outros
argumentos para inscrevê-lo no Livro de Belas Artes.

~ Devo estes esclarecimentos aos arquitetos Antônio Pedro Alcântara e Fernando Madeira.
25
Em 1938, os 'morros do Rio de Janeiro" já haviam sido inscritos, genericamente {sem
especificações), nos,livros Histórico e de Belas Artes. Como se verificou ao longo dos anos,
esse tipo de inscrição não provocou os efeitos de proteção desejados.

m A partir de maio de 1992, quando o Conselho Consultivo foi reconduzido, passaram a integrá-
/o representantes do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), do Instituto Brasileiro do Meio
Ambiente (Jbama) e do Icemos. Onúmero de membros nomeados, enquanto personalidades,
aumentou de dez para treze.
27
Uma das raras ocasiões em que ocorreu esse debate foi a propósito do tomba mente
do Terreiro da Casa Branca.
28
Disse a respeito o relator do processo no Conselho Consultivo, José Mindlin: 'Trata-se de
inovação em matéria de tombamento, pois visa à preservação de um processo induslrial,
e não de um monumento histórico ou artístico.'

LllIJ e PAIW\ÓNIO u PRocrno


CONCLUSh O

Tombam templos. Tombam prédios.


Não falta tombar mais nada.
Fujamos, fujamos
Antes que a noite seja tombada.
Quadrínha composta por Man uel Bandeira no final de uma
longa reunião da Conserha Consultiva, citada de memória
por Afonso Arinas na 1241 reunião, em 13.1.1987.

O objetivo deste trabal ho foi acompanhar a trajetória da política federal de


preservação do patrimônio histórico e artístico nacional, com vistas a apreender
de que modo essa politica pública foi implementada no Brasil. O principal inte-
resse da pesquisa_ foi investigar como se deu, na condução dessa política no país,
a relação entre o Estado e a sociedade civil, tomando como referência três aspec-
tos: a representação de patrimônio construída através da seleção e da valoração
de bens culturais; os instrumentos utilizados para sua proteção; os agentes que
se envolveram com essa prática.
Procurei inicialmente analisar, pe um ponto de vista sociológico, as noções de
patrimônio e de preservação, partindo do pressuposto de que a prática de proteção
aos bens culturais constitui, nas sociedades modernas do Ocidente, um fato social
(capítulo 1); em seguida, procurei acompanhar o modo como essas noções foram
historicamente construidas no contexto da modernidade ocidental (capítulo 2).
Na consideração da prática de preservação como fato social (capítulo 1), to-
mei como base três pontos: a construção de uma ordem jurídica própria; a utiliza-
ção do patrimônio como forma de comunicação social; a instituição da proteção
como objeto de uma política pública. Embora esses três pontos sejam comuns á
prática de rreservação em qualquer pais on de ela tenha sido incorporada às abri-

1
gações do Estado. os subsídios para a análise foram buscados na legislação e
nos procedimentos que foram adotados no contexto brasileiro. A perspectiva com-
parativa, aliás, percorreu todo o trabalho e revelou-se recurso extremamente útil
para a apreensão da especificidade do caso brasileiro.
A reconstituição das condições de emergência de um "sentido do patrimônio"
(capítulo 2) remeteu ao contexto da modernidade, ou seja, a práticas orientadas . ~.

por valores leigos, à autonomização das diferentes esferas da vida social, e à
constituição dos Estados-nações, legitimada sobre noções como cidadania e inte-
resse público. Além de atuar corno mediador entre os interesses individuais - de
.i.
que a propriedade privada é a expressão mais evidente - e o interesse da coletivi- /1
·-
dade, o Estado simboliza a nação e trata de promover seus valores e objeUvos. :::.-.;
A instituição da idéia de patrimônio está, portanto, na confluência desses dois pro- ·J~
cessos: o de demandas da sociedade e o da iniciativa do Estado. ;1,;)i
J~1
>~·~
Qon,o ocorre com outras política~ públicas, também nesse caso a ação do Es-
tado, no sentido de l)roteger bens c:ulturais,j _tanto mais centralizadora e autônoma
,quanto mais limitados sejam os mecanismos de que a sociedade dispõe para se
··~ éi!i

fazer ~ tanto mais seletiva quanto mais identificado este-.


---. representar politicamente,
. . . . . . ..
. ja o Estado com interesses (econômicos,__pqUijcos, simbólicos etc.) de grupos es- ,
pecificos. Ou seja, as políticas públicas de preservação e as representações do'
patrimônio cultural nacional construidas pelos agentes dessas políticas reprodu-
zem as contradições e os conflitos que se manifestam no contexto maior das
relações entre Estado e sociedade.
Mas, em decorrência de vários fatores - o lugar que essa política estatal ocu-
pa na administração pública, as estratégias desenvolvidas pelos atores que a con-
duzem e o grau de participação da sociedade na sua implementação - o campo
dessa política adquire, em cada país e a cada momento, contornos específicos.
En:i \ermos gerais, essas .políticas se desenvolveram conforme dois grandes mo·
delos: o modalo francês, em que o poder de iniciativa se concentra no Estado,
,t 9_ffi()delo anglo-saxão, em que a sociedade civil se organiza para participar
___
dessa
..._ tarefa.
.....
Na segunda parte, abordei a trajetória da política federal de preservação do
p_~trin1ônjo no Brasil. E, .. embora a pesquisa tenha se concentrado nas décadas de
1970 e 1980, quando foiformulada uma proppsta .de democratização da política
c_ultural do MEC, foi necessário remontar ao início do século XX, momento em ql!~
se começou a considerar, no Brasil, a proteção a bens de valor histórico e artís-

[21.fJ O IAIW\ÓNIO !li. PRO (!IIO


tico como questão politicamente relevante, merecedora de intervenção por parte
do Estado.
No Brasil, essa questão emergiu no bojo do movimento modernista (capítulo
3), e toram intelectuais vinculados a esse movimento cultural que implementaram,
na administração federal, uma politica pública que tinha como objetivo a proteção
do patrimônio histórico e artistice nacional. Com o advento de um governo auto-
ritário (Estado Novo), esses atores se viram confrontados com o problema de con-
ciliar sua posição de intelectuais comprometidos com valores da cultura e com
uma ética do saber, com a de políticos. cujo imperativo é agir visando a alcançar
resultados. A análise do programa e da prática política desenvolvida por esses
intelectuais no Sphan levou à conclusão de que sua atuação na burocracia do go-
verno getulista foi bem sucedida, sobretudo se levarmos em conta o prestígio de
que a instituição (Sphan) e seu diretor (Rodrigo Melo Franco de Andrade) gozavam
tanto entre os governantes quanto no meio intetectuai, junto à opinião pública e
até no exterior. Outro indicador de seu sucesso foi a inusitada continuidade do
modelo de atuação implantado no Sphan nos anos 30 e 40, que perdurou por mais
de três décadas.
Por outro lado, era natural que esses intelectuais participassem de um governo
autoritário com alguma dose de ambigüidade, em vista do inevitável compromisso
com o regime político vigente. E o que denominei "autonomia para a instituição"
indicava seu relativo isolamento no aparelho estatal e na sua relação oom a socie-
dade. Essa situação, no entanto, só foi ser objeto de crítica nos anos 70 (capitulo
4), quando o modelo consolidado no então lphan se revelou inadequado para en·
frentar os novos impasses que surgiam p3ra a preservação. Nesse momento de
crise de legitimidade do regime militar, abriu·se espaço no governo federal para
uma reformulação da política cultural e para a elaboração de um novo ideârio
sobre o patrimônio. Na burocracia estatal, o surgimento de atores com um novo
perfil, liderados por uma figura também carismática que foi Aloísio Magalhães,
levou a uma ressemantização das noções de patrimônio e de proteção, à intro-
dução de conceitos novos, como referência e bem cultural, e à busca de métodos
modernos de atuação ..Aos recorte~. çlássicos da__ hist~ria e da arte preferiu-se a .
._noi;ão mais abran_Qenle d~ memória. Um dos principais objetivos desses novos
atores era vincular a questão da cultura ás âreas politicamente fortes do governo,
corno a do planejamento econômico. Enfatizava-se o potencial dos bens culturais - .
noção considerada mais abrangente que a de patrimônio, identificada_à cultura

COHC l U!ÃO
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~1

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.... .,.,; ; .,;:,
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luso-brasileira e aos valores da dasse_domin_ante - como geradores de valor eco-
nõmjq?_.e _c;om.o indicadores para a elaboração de modelos de desenvolvimento
__ adequados à realidade brasileira. ~0~1;1bém, no contexto da política .
g11tur.~Cã:-t'emãiicâ- dó lmperiaiismo e da dominação cu1tura1 dos países desenvol-
vidos: mais que nos anos 30 e 40, o apelo a idéias nacionalistas foi explorado
no discurso de Aloísio Magalhães,
A reação a essas propostas foi, naquele momento, diferenciada. Junto aos go-
vernos militares da fase de abertura, elas encontraram amplo apoio e recepti-
vidade, levando a uma reestruturação da área cultural dentro do MEC. Junto à opi-
nião pública, foram. em geral, identificadas a uma nova visão, mais atualizada,
dos problemas culturais no Brasil. Entretanto, junto ao meio intelectual e, sobre-
tudo, junto à comunidade acadêmica, então bem mais organizada e independente
que na primeira metade ~o século, q_p_Qsição !')mbigua dos agentes instituci_ onais•.
que se apresentavam como mediadores entre os grupos identificados com a cul-
tura popular e o Estado, era vista com desconfiança. embora raramente tenha sido
objeto de críticas mais con.tund_e~tes. O que se censurava na atuação do Centro
~_a_qQ!]é!I__Jl~ R.\:l.fe.rêf)c:ia Cultural (CNRC), criado em 1975 e, posterionnenle, incor-
_porado à Fundação Nacional pró-~1?mória, ~ra., além de uma imprecisão concei-
.
tuai, uma indefinição ideológica, na medida em que se postulava o reconhecimento 1

da diversidade cultural brasileira mas não se explicitavam as desigualdades e as


relações de dominação.
A_proposta _de dem01atização da política cultural do MEC, formulada no docu-
m~nto Diretri_z~s para operacio11alização da política cultural do MEC, de 1981.
visava a, de algum modo, incorporar uma revisão crítica do modelo de atuação
inicia_
! do CNRC, que entendia a mudança como modernização do conceito de
patrimônio e dos . instrumentos de preservação. Nesse documento, elaborou-se
uma visão rnàis politizada da questão do patrimônio; na verdade, desde o final dos
a_ nos 70, membros do grupo da ''referência" procuravam relacionar a questão do
patrimônio
. .
à luta
..
pela
- cidadania.
.
Entretanto, em conseqüência de inúmeros fatores, sobretudo de dificuldades
internas à área da política federal de patrimônio, essas idéias se disseminaram
apenas no nível do discurso oficial, não chegando a transformar substancialmente
a prática de preservação. Mas foram incorporadas à Constituição Federal de 1988,
nos artigos 215 e 216.

[Jfil O PA IW\ÕN IO Ili PROCll!O


A prática efetiva de proteção a bens de valor histórico e artístico nacional con-
tinuou, porém, a ser exercida no âmbito da Secretaria do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional (Sphan), primordialmente por meio de tombamentos, e ainda com
predominância dos critérios formulados pelos intelectuais modernistas, sobretudo
os arquitetos, nos anos anteriores. A análise dessa dupla orientação da política
federal de preservação durante as décadas de 1970 e 1980 - a linha da pedra e
cal-·-··
·~--·· e ··a.. .linha.. ···~da
-
referéncia - demonstrou que, embora as relações entre os dois
... .... , ..
grupos fosse freqüentemente marcada pelo antagonismo, ij:; idéias desenvolvidas
no CNRC, e as propostas encaminhadas por esse setor para tombamento de bens, .
contribuíram para provor.ar um proveitoso processo de discussão dos critérios de
valoração até então aceitos sem maiores discussões, porque pautados pela auto-
ridade de Rodrigo Melo Franco de Andrade e, sobretudo, de Lúcio Costa.
I\_Q.e~guisa n.o~ processos de tom_bamento (capítulo 5) veio demonstrar que,
ll~.realidade, essa revisão de critérios e de normas ~e .~luação já vinha ocorrendo
.dentrq do próprio lphan, desde o início da década de 1970 (conforme ficou evi-
dente na polêmica sobre o tombamento de prédios da Avenida Rio Branco}, em
decorrência de mudanças nos campos disciplinares relacionados com a preser-
vação. Os novos problemas que se apresentavam à proteção de monumentos,
;
sobretudo nos centros urbanos, em franco processo de remodelação, também
exerciam pressão sobre os funcionários do lphan, apontando para a necessidade
de mudanças. I

S[n!e._ti~~~do os resultados da pesquisa, ficou claro que, durante essas duas


_d_~_cadas, ocorreram mudanças significativas na representaçã o de nação cons-
tl'!l_ida vi~ _patrjmônio histórico e artístico nacional no Brasil. Foram incluídas pro-
.Q!JÇQ~~ ~eter~~tes às djferentes_etnias, aos grupos de imigrantes e às zonas de
ocupação recerite do t§lrritó~io nacional; e.xemplares da cu_ltu_ra popular e do mundo 1

~dustrial; p~ss~ram 1..~er consi.9erados es!ilos artísticos que. antes, eram exclui-
~OS.Jlr:n_fun~Q.Pê _yma vis~o cao.õnica ge ~rquitetura. Entretanto, essa imagem ob-
jetiva ~a nacionalidade ainda está longe de ser representativa da pluralidade
cultural brasileira.
9s instrumentos de proteção continuaram praticamente os mesmos: o tomba-
mento para bens imóveis e os museus para a guarda dos aceryos de be~s móveis.
A pesquisa de outras formas de proteção, apesar de ser reconhecida como im-
prescindível, ainda está por ser feita.

1
CO HClU IAO [I[J
1:~_f!l_~~~---~ rE?\ação entre a instituição estatal e a sociedade pouco mudou. Se
houve um aumento significativo na participação de agentes externos nos pedidos
de_ t?.m~mento_. as instâncias decisórias continuaram restritas ao. Conselho Con-.
sul!iv_o - cuja composição somente em 1992 passou por uma mudança visando
a aumentar sua representatividade -. e ao corpo técnico da administração central
,~--"' ..
da Sphan. que produz os pareceres técnicos com as indicações para tombamento
(ou não). Como na grande maioria dos casos, o Conselho Consultivo se limitou
... ··-· ... ~--
' .. -·
a ratificar essas indicações. e como as delegacias regionais do órgão tinham uma
P,i:l~i~ípação liinltada·· á' produ~Õ -de pareceres, pode-se caracterizar o processo.
de. seleção e· valoração de bens para integrarem .o patrimônio cultural brasileiro,
adotado durante as décadas de 1970 e 1980, <;QíTIO altame~te especializado e cen-
trali~~~-or, Jntretanto, as circunstâncias que, nos anos 30 e 40, justificavam essas
características enquanto estratégias não mais existiam nos anos 70, e, sobretudo, ·
a partir de meadÓs dos anos 80.
O desmantelamento da área da cultura, no iníc[o do governo Collor, produziu
uma quebra na continuidade de uma política estatal" que se caracterizava pela es-
tabilidade. Reorganizada a partir da reestruturação institucional (extinção da Sphan/
FNpM e criação do IBPC), da recondução do Conselho Consultivo em maio de 1992,
e da retomada da prática de tombamentos, essa política estatal se vê, atualmente,
frente a uma nova realidade e a novos problemas.
Nesse meio tempo, a descentralização iniciada nos anos 70 consolidou-se,
com a disseminação das secretarias de cultura e de órgãos estaduais e municipais
de preservação. No nível estadual, tem predominado nos órgãos que trabalham
com patrimônio a tendência para a exploração turística do patrimônio local, como
é patente nos estados do Nordeste; no nlvel municipal, vêm sendo desenvolvidas
experiências inovadoras, a partir do conceito de cidadania cultural, tendo sido pio-
neira, nesse sentido, a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, durante a
gestão da prefeita Luisa Erundina.
A instituição federal de preservação do patrimônio deixou, portanto, de consti-
tuir a única alternativa para a proíéção de bens de valor histórico e artístico. No
exercício de sua função, vê-se. inclusive, frente à necessidade de definir com cla-
reza o que entende por valor nacional de um bem, na medida em que, hoje, já exis-
tem alternativas de proteção em nível estadual e municipal.
Além disso, o -~_eclínio dos nacionalismos priva a prática de presei'Vação de
seu principal recurso de legitimação, pois, embora . não se possa dizer que a

[218] O P!l RI... ÕHIO EA PI O( ll!O


política de preservação, iniciada no Estado Novo, tenha se reduzido a ser mais
um reforço ideológico de um nacionalismo do Estado, ou que seu objetivo tenha
sido apenas o de legitimar projetos de governos autoritários, o fato é _que a idéia
de fomentar um sentimento de nacionalidade está na base da noção de patrimônio.
Retomemos, agora, à questão proposta no inicio deste trabalho: leria a política
de preservação desenvolvida pelo Estado brasileiro desde os anos 30 se limitado,
na sua trajetória, a funcionar como um recurso para legitimação das ações seleti-
vas desenvolvidas pelos diferentes governos tendo em vista os interesses dos
grupos dominantes? Ou teria essa política conseguido alcançar, em suas realiza-
ções, um sentido social mais abrangente, indo ao encontro de demandas (ainda
que nem sempre explicitadas) da sociedade? E, independentemente das duas al-
ternativas, a que se deve o baixo nível de participação da sociedade brasileira
~ em face da questão da preservação? Refiro-me à participação social, em três sen-
tidos: no de incorporação., à imagem de nação construída através do patrimônio,
da pluralidade cultural brasileira; no de mobilização da sociedade - através da
imprensa, de sindicatos e outros órgãos de classe, da organização de grupos e
associações, ou mesmo por meio de manifestações mais restritas, como cartas,
abaixo-assinados etc. - relativamente a questões da preservação; no de alteração
nos mecanismos decisórios institucionais, de modo a possibilitar a representação
de diferentes grupos sociais (seja em termos de categorias profissionais, temas
ou causas, contextos culturais etc.) na construção do patrimônio histórico e artís-
tico nacional. Essas questões se tornam tanto mais procedentes quando compa-
ramos a receptividade da sociedade à questão do patrimônio à reação que ess-a
mesma sociedade vem tendo, nos últimos anos, á questão do meio ambiente.
A análise dos dois momentos marcantes dessa política pública - o momento
f~ndador, nos anos 30-40, e o m~rnento renovador, nos anos 70-80 - indicou que,
mesmo em períodos autoritários, a política estatal de patrimônio nunca se reduziu
a um recurso ideológico do Estado. Em ambos os períodos analisados, o esforço
dos intelectuais que atuaram como mentores da política federal de preservação
foi no sentido de criar um campo próprio, com relativa autonomia dentro do g0ver-
no, para a implementação de um projeto para a cultura brasileira. Nos anos 30,
esse projeto se voltou para a construção de uma tradição cultural que fosse. ao
mesmo tempo, universal e autenticamente nacional; nos anos 70, o objetivo era
ampliar .·e atualizar a representação da cultura brasileira construida pelas insti-
tuições estatais relacionando-a com interesses econômicos e sociais, projeto que

COHClUS ÃO [lliJ
se encaminhou, posteriormente, para a vinculação da questão cultural aos direitos
da cidadania. Essa função que alguns intelectuais brasileiros exerceram, como
únicos mediadores. possíveis entre o Estado e a sociedade - referida como "as
massas" na fase heróica e como "os diferentes contextos culturais" na fase mo-
derna - se justificada em períodos autoritários, ou quando ainda predominava uma
cultura política que identificava Estado, nação e sociedade, não encontra mais
argumentos nos tempos atuais. lrrata-se, hoje, de procurar politizar a política
federal de preservação no Brasil, o que não significa reduzi-la a uma prática ideo-
lógica, seja a serviço do Estado ou das classes que o ocupam, seja dos excluídos
até hoje dos benefícios dessa política. Politizar no sentido de ter como objetivo
que esses bens sejam apropriados simbolicamente pelos diferentes grupos sociais
que compõem a sociedade brasileira. Ou seja, tirá-los da situação de "pesados
e mudos" referida na introdução, e íazê-los circular no espaço público, enquanto
referências de identidades coletivas e enquanto conteúdos do imaginário soci.BIJ
A elaboração de uma versão critica da trajetória da política federal de preser-
vação no Brasil, que sirva como base para projetos futuros, é uma tarefa a ser
realizada. A imagem que as instituições envolvidas têm construído de sua própria
história se confunde com os mitos cultivados por seus funcionários. Para os mais
antigos, a fase heróica (que não por acaso recebeu essa denominação) é a Idade
de Ouro do Patrimônio, cristalizada no culto à figura de Rodrigo M. F. de Andrade.
Já para os func:onários mais recentes, que participaram da experiência do CNRN
e/ou conviveram com Aloísio Magalhães. vivia-se nos anos 70 uma invejável si-
tuação de exceção no emperrado universo do serviço público brasileiro, em que
o trabalho tinha o sabor de um ato inaugural, orientado com habilidade e alegria
pela personalidade ímpar de Aloísio.
Essas versões mitificadoras encontram reforço na falta de diálogo, seja inter-
namente entre os agentes institucionais, seja entre eles e a sodedade. É neces-
sário, portanto, elaborar uma reflexão desmitificadora, mas não desiludida, dessa
trajetória, que procure avaliar, com um mínimo de objetividade, resultados e carên-
cias, com a finalidade de vislumbrar perspectivas.
A partir da análise realizada, foi possível extrair algumas orientações tendo
em vista a elaboração de novas diretrizes.
1. E_m primeiro lugar, dificilmente o universo do património se tornará real-
mente represen_ta!ivo da diversidade cultural brasileira enquanto persistirem
os atuais procedimentos para seleção de bens. Desde seus primórdios, a instí-

j 220-, o WRlil\ÔNIO E,i\ PRO[rno


'
tuição desenvolveu estratégias para resistir a pressões externas e manter as
decisões em um nível estritamente técnico. Instaurou-se, assim, uma forma fe·
chada e altamente centralizadora na tomada de decisões, que continua a mes-
ma até hcíe, mais de cinqüenta anos depois e em um pais bastante diferente.
Esperar que os agentes institucionais alcancem, exclusivamente através de
suas decisões, representatividade em termos nacionais é incompatível com
uma proposta que se queira democrática.
2. Eíll_~~gundo lugar, o instituto do tombamento continua sendo pratica -
mente o único recurso realmente eficaz para a proteção de bens culturais,
apesar dos debates desenvolvidos nas duas últimas décadas sobre sua espe-
cificidade e seus limites. A pesquisa de "outras formas de acautelamento e
preservação", prevista na Constituição de 1988, ainda está por ser feita.
3. Em terceiro lugar, a persistirem os critérios tradi cionais de valoração,
que dão ênfase aos aspectos formais e à dimensão estética dos bens, dificil-
mente o patrimônio cultural brasileiro poderá adquirir uma significação social
mais ampla e referir a diversidade e a dinâmica culturais características do
contexto brasileiro. Trata-se, portanto, de assumir uma posição crítica não
apenas em relação ao conjunto dos bens tombados, como também quanto às
leituras que têm presidido os tombamentos. A inclusão de museólogos, histo·
riadores e cientistas sociais nos quadros técnicos da instituição já constituiu
um primeiro passo para que se elaborem leituras mais abrangentes e social-
mente mais significativas. Entretanto, é preciso incorporar efetivamente a par-
ticipação da sociedade
. ·-----····"···- ·-- .-.. ., ··.. .•.
nesse·-·-.·-·processo, o que } igr1ifica criar mecanismos que
·-······----~ ........ ..
- ·,

assegurem algum nível de representatividade a essa parti cipação.


Atualmente, já não se espera de uma personagem carismática o projeto que
virà salvar essa política da situação subalterna em que se acha, tanto dentro do
Estado como diante de sociedade. Pelo contrário, a análise da experiência ante-
rior, se considerada à luz do momento atual, indica que o caminho é explorar os
canais de comunicação entre as instituições estatais e a sociedade.
Se esse objetivo não difere muito do que se dizia no discurso oficial, desde
1937, e, sobretudo, a partir das Diretrizes, os termos dessa relação se modifica ram
bastante. O Estado não se apresenta maís como protagonlsta do desenvolvimento
nacional nem corno porta-voz exclusivo dos anseios da nação. Na mesma linha,
a noção de cidadania deixou de ser entendida como uma concessão do Estado -
como ocorreu no período estadonovista - e passou a ser considerada como um

j CONC LU\ ÀO QIO


1
conjunto de direitos a serem conquistados e estendidos a toda a sociedade. Nesse
contexto, a idéia de nação se torna independente da tutela do Estado, e a socie-
dade civil emerge como ator politíco.
Essa nova conjuntura tem impacto sobre as políticas culturais, que pa3sam
A buscar legitimação, sobretudo na idéia de direitos culturais. Nessa nova pers-

pectiva, não tem mais sentido que os agentes institucionais se considerem os úni-
cos porta-vozes dos interesses rJa sociedade; esta, por sua vez, vê na sua capaci-
dade de organizar-se e de encaminhar suas demandas - sejam elas na área eco-
nômica, social ou cultural - o caminho para o exercício da cidadania.
Seria ingênuo, no entanto, supor que, no Brasil, essas transformações surjam,
sobretudo na área da cultura, como conseqüência natural do processo de demo-
cratização politica, como ocorreu em países de tradição cultural enraizada, como
a França, ou histoFlcamente construídos sobre valores democráticos, como os
Estados Unidos. Aqui, dada a extrema carência de bens materiais e simbólicos
entre numerosos setores da população, e dados os processos de marginalização
e mesmo exclusão de parcela significativa da sociedade ·nacional, desenvolver
uma política cultural democrática é um imenso desafio para seus mentores, tanto
maior quanto mais distantes estejam das comunidades locais. É inevitável, por-
tanto, que esses agentes assumam um papel mais ativo junto à sociedade, caso
contrário correm o risco de não a!_cançarem mais que aqueles poucos setores já
tradicionalmente sensibilizados para questões culturais, ou, especificamente, para
o interesse na preservação.
No estágio atual da questão do patrimônio no Brasil, a atuação do órgão fede·
ral de preservação deveria ter um caráter eminentemente didático e exemplar. Di-
dá_tico não apenas quanto a desenvolver ações voltadas para a difusão de um sen·
(ido do patrimônio e do interesse social na preservaçãq (interesse que, em se tra-
tando do meio ambiente, já se tornou praticamente um consenso), como também
qu_anto a se instrumentalizar p~ra recorrer aos canais já existentes - mas muito
pouco utilizados com essa finalidade - para se comunicar com a sociedade (edu·
...
cação formal e informal, instrumentos de referenciamento e informação, meios de
comunicação, interface com outras políticas públicas, incentivos etc.). e; exemplar
no sentido de que as ações especificas de proteção - tombamentos, inventários,
registros etc. - ~ão precisam mais ser necessariamente extensivas e abrangentes,
na medida em que já existem órgãos locais para esse fim, mas devem sc~ir para
·-· -~ ·· -· . ·-·· .
explorar ~ovas possibilidades na linha da idéia de cidadania cultural.

ITITJ O PAlW!ÕHIO E/li PRO C!II O


Não estou propondo que a insti tuição federal abandone sua responsabilidade
primeira de construir e proteger o património cultural nacional. Ainda que o traba-
lho já realizado seja significativo, esse processo é continuo e dinâmico, tanto no
sentido da inclusão de novos bens quanto da leitura dos bens já sob proteção
legal. O que quero dizer é que, no momento atual, a ênfase deve se voltar para
ações, pontuais ou não, que contribuam para introduzir a questão do patrimônio
no universo das questões de interesse para a sociedade brasileira.
Mais uma vez parece correto buscar em Mário de Andrade inspiração, reto-
mando criticamente seu ideal de coletiviz.ação da cultura e sua concepção ampla
e dessacralizada de patrimônio. Digo críticamente porque a função dos agentes
institucionais que hoje trabalham nesse campo se propõe como bem diferente do
papel que se atribuíram os intelectuais que atuaram na área federal da política de
preservação, tanto nos anos 30-40, quanto nos anos 70-80. Funcionários públicos
de um Estado democrático mas cuja estrutura se acha em fase de questionamento
po; parte da sociedade, atualmente a função mais importante desses agentes é
contribuir para que o maior número possível de pessoas possa efetivamente exer-
cer seus direitos culturais. No caso do patrimônio, o simples ato de garantir a per-
manência, no espaço público - por exemplo, em uma cidade - de bens que cha-
mam a atenção por sua beleza, por sua riqueza ou apenas por seu poder de evo-
cação, e que foram subtraídos ao uso e/ou posse exclusivamente privados para
poderem se comunicar com quem queira deles se aproximar, servindo como refe-
rências de identidades coletivas e como fonte de prazer estético, contribui para
dar visibilidade à abstrata noção de res publica. Mas é evidente que essa ação
fará tanto mais sentido quanto mais amplamente esses bens possam ser lidos e
apreciados, numa apropriação ativa, que contribua para o enriquecimento de cada
cidadão e da coletividade com um todo.
Por outro lado, seria uma imperdoável ingenuidade supor que a ação volunta-
rista de agentes estatais possa corrigir desigualdades produzidas em outras es-
fera s da vida social. ou que o exercício dos direitos culturais possa ser assegu-
rado por sua enunciação em textos oficiais ou pelo tombamento de bens materiais.
Além disso, é preciso não esquecer que as políticas culturais, em geral, e as polí-
ticas de preservação, em particular, têm um alcance restrito, se comparadas com
outras políticas públicas_
Os efeitos mais evidentes das políticas de preservação se manifestam nos
ambientes urbanos, na configuração do espaço das cidades, sobretudo das cid a-

COHCLUIÀO [ffi.J
des antigas, é claro. Mas, se considerarmos o espaço físico e o que o homem
nele produz como uma riqueza social, fruto do trabalho coletivo de gerações,
parte, portanto, da história da nação, o interesse na preservação deixa de se limi-
tar apenas à proteção de valores culturais restritos, nos limites das concepções
tradicionais de história e de arte. Abre-se, assim, no patrimônio lugar para as pro-
duções visualmente menos imponentes, para os objetos modestos, para saberes
e fazeres. E, no nível simbólico, tornam-se passiveis leituras menos limitadoras.
Mas, para que essa ampliação (material e simbólica) do patrimônio seja
possível, não se deve vincular a produção dos bens culturais - que é fruto do
trabalho coletivo - à sua posse (em termos de apropriação, seja quanto a pro-
priedade e/ou uso, seja quanto a referência a uma identidade coletiva) por indi-
víduos, grupos ou classes sociais. Pois o sentido mais profundo do tombamento
federal é justamente o de recuperar essa dimensão social de determinados bens
que, exemplar e concretamente, referem a coletividade nacional. Não uma cole-
tividade harmônica e artificialmente representada, mas ~ lugar onde se manifestam
identidades múltiplas, diferenças, de::;iguafdades e conflito§,
Dentro dessa visão, a preservação passa do estatuto de exceção para o de
norma, e o interesse em destruir passa a ser avaliado a partir de uma perspectiva
mais ampla e socialmente mais democrática.
Considero, porém, que as transformações ocorridas nas décadas de 1970 e
1980, se devidamente incorporadas a propostas atuais para uma política federal de
preservação, certamente contribuirão para uma reelaboração dos princípios, dos
critérios e dos procedimentos que têm norteado a produção, a proteção e a promo-
ção do patrimônio cultural no Brasi!. E, quem sabe, contribuirão também para que
a prática já consolidada da preservação de bens culturais seja democratízada, no
sentido de ser efetivamente apropriada, enquanto produção simbólica e enquanto
prática política, pelos diferentes grupos que integram a sociedade brasileira.

l 2i[l O PAIRI.A\ÔNIO E/! PIOCEllO


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[ili] OPAlRII\ÔH IO E~ m rn 10
ANfYO~

'
ANEXO I
CRONOLOGIA DA POLÍIICA DE PRESERVACÃO NO BRA SIL

1936 - Mário de Andrade elabora, por encomenda do ministro Gustavo Capanema, anteprojeto
para criação de um serviço federal de proteção ao patrimônio.
- O Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan) começa a funcionar
em caráter provisório, sob a direção de Rodrigo Melo Franco de Andrade.

1937 - Em 30 de novembro de 1937 é promulgado o decreto-lei 112 25, que cria o Sphan e
regulamenta o instituto du tombamento.

1941 - É promulgado o decreto-lei nii 3.866, de 29 de novembro de 1941, que dispõe sobre
o cancelamento do tombamento pelo presidente da República.

1946 - O Sp~an_passa adenominar-se Departamento do Patrimônio Histórico e Artístico


Nacional (Óptíâ~f' · ·-- " ·· · · - · ·
1961 - É promulgada a lei nª 3.924. de 26 de setembro de 1961, que dispõe sobre a proteção
aos monumentos arqueológicos e pré-históricos.

1967 - Rodrigo Melo Franco de Andrade se aposenta, entregando a direção do Sphan a


Renato Soeiro.

1970 - Realização de reunião de governadores para tratar da questão do patrimônio histórico


e artístico nacional e elaboração do documento C?mpromisso de Brasília.
O Dphan se transforma em Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
(lphánf - - - · · - · ·· ·• -- -- - --
~ - v --~· "- ·"

1971 - Realização de reunião com governadores recém-empossados Sübre o mesmo !ema


e elaboração do documen!~Q!llQLQll1i~$.O..de...Salitador.

1973 - Criação, jun1o à Seplan, do Programa de Reconstrução das Cidades Históricas (PCH).
. _ _ _ _.._.,.,.,__ ..~ ...·- ··-.. - -.-h ,,_...... _ __ .,... . ......... . -...-.-~........._..~··,. "!º

1974 - Início da gestão de Ney Braga no MEC.

1975 - Elaboração, no MEC, do documen1o PoliUca nacional de cultura.


··· ·'++•-··.:-....... ,+-,,

- Criação do Centro Nacional de Referência Cultural (CNRC).

Promulgação da lei nª 6.292, de 15 de dezembro de 1975, que torna obrigatória a


homologação pelo Ministro da Educação e Cultura de tombamentos e de can-
celamentos realizados no ámbilo do !phan.
1976 - Aprovação do regimento interno do lphan.
,....._N.- ~......--~- .- ............. -,• __.,,.,,._, ...-•.--·<' '. " ·~

Renovação do convênio do CNRC.

1977 - O PCH é estendido aos Estados de Minas Gerais, Espirita Santo e Rio de Janeiro.

1978 - Início da gestão de Euro Brandão no MEC.

- Assinatura do termo aditivo ao convênio do CNRC.

1979 - Início da gestão de Eduardo Portella no MEC.

- Aloisio Magalhães assume a direção do lphan.

- O PCH é integrado ao lphan.


- Realização do Seminário de Ouro P1eto, que inaugura a prática de diálogo com as
populações dos Centros Históricos tombados.
Realização de Sem)nãrio na Escola Superior de Administração Fazendária (Esaf). em
Brasília, reunindo funcionários do lphan, do PCH e do CNRC.

Çriação. rio ~ll)bit.o do MEC, ~-9 _Se_çr~Jc1~ia ~9.Patri.mqnjo Históricq e_Artí.~tic:o Nacional
(S_phan) e da Fundação Nac.ional _pr.ó:~.~~?~~ (FNpM).

1980 - Aloisio Magalhães é nomeado secretário da Sphan e Presidente da FNpM.

- Aprovação do estatuto da FNpM.


- [\ _cidade de Ouro Preto é inscrit9 n.a lista do Patrimônio Cultural da Hurnanidade da
Unesco.
- Inicio da gestão de Rubem Ludwig no MEC.

1981 Criação da Secretaria da Cultura (SEC) ~_EC. ~ .Qi!,Q e a Secretaria ~e A~_i;_u_n!os ~-º
~ ~~:1$~~éfirân~Íormàrii~se" êm's~bsecretarias.
Elaboração. em seminário da SEC, do documento Diretrizes para operacionalização
da política cultural do MEC.

1982 - Aloisio Magalhães morre em Veneza.
- Marcos Vinicios Vilaça assume a qEC.

Inicio da gestão de Esther de Figueiredo Ferraz no MEC.


- A cidade de Olinda é inscrita na lista do Patrimônio Cultural da Humanidade da
ü~~-~---- ..
1983 - Incorporação dos museus da Fundação Raymundo Ottoni de Castro Maia e do Museu
de Biologia Melo Leitão à FNpM.

l 2401 O P~IRl!\ÔhlO f!\ PROCU IO


- A$. ruínas de São Miguei das Missões são inscrita_s na lista do.P.atrim: n:o Cultural .
da Humanidade da Unesco.

1984 - Incorporação da Cinemateca Brasileira à FNpM.

- Incorporação do Museu Lasar Segai! à FNpM.


'
1985 - Incorporação do Sítio Santo Antônio da Bica (de propriedade de Burle Marx) à FNpM.

Extinção da SEC e criação do Ministério da Cultura (MinC), que é assumido por José
Aparecido de Oliveh.i.

- Criação, no âmbito do MinC, da Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional


(Sphan) e da Secretaria de Ação Cultural (Seac).
- Ângelo Osvaldo de Araújo Santos assume a direção da Sphan.

José Aparecido de Oliveira deixa o MinC para assumir o governo do Distrito Federal.

Elaboração do documento Compromisso cultural da Nova República.

- Aluísio Pimenta assume o Mine.

- Ricardo Cioglia assume a presidência da FNpM.


- Realização, em Brasília, de dois seminários no MinC, um com representantes da
sociedade civil e outro interno, de que resulta o documento Política cultural.

O Centro Histórico de Salvador e o Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, em


Congonhas do Campo (MG), são inscritos na lista do Patrimônio Cultural da Huma·
nidade da Unesco.

1986 - Início da gestão de Celso Furtado no MinC.

Joaquim Falcão assume a presidência da FNpM.

- Aprovação da Lei Samey.

- Aprovação dos estatutos da Sphan e da FNpM.


O Parque Nacional de Iguaçu é inscrito na lista do Patrimônio Cultural da Humanidade
da Unesco.

1987 - Osvaldo José de Campos Melo é nomeado secrelàrio da Sphan e ; ·esidente da


FNpM.
- O Plano Piloto de Brasília é inscrito na lista do Patrimônio Cultural da !-lumanidade
da Unesco.

1988 - Promulgação da Constituição do Brasil, em que os artigos 215 e 2;e. se referem


especificamente à cultura.

ANE XO 1: CRONOLOG IA OA POl il lCA D! PREHRHCÀO HO BW ll illil


- Criação da Fundação Cultural Palmares.
"-········· _ _ _ _ _ _. , . . . _ . . ._ . . - . _ _ _ . . . _ . . ............. ....... , . ._y ••• , , •.• -·····

- José Aparecido de Oliveira assume o MinC.

- Augusto Carlos da Silva Teles é nomeado Presidente da FNpM.

- O Conselho Consultivo da Sphan passa a opinar também quanto ao arquivamento de


processos de tombamento.

1989 - Augusto Carlos da Silva Teles é nomeado Secretário da Sphan.

- ltalo Campofiorito é nomeado secretário da Sphan e presidente da FNpM.

1990 - Extinção do Mi~C e criação da Secretaria da Cultura, diretamente vinculada à


presidência da República. ·

- Extinção da Sphan e da FNpM e criação do Instituto Brasileiro do Patrimônio Cultural


1'iBPC'j:--·,.-··-.:..,,.. -... ·,.- ---·-·-,--·---··-••-•-,v.,--..,...
- Extinção do Com,eJho Consultivo da Sphan.

- lpojuca Pontes assume a Secretaria da Cultura, vinculada á presidência da República.


- Lélia Coelho Frota assume a presidência do IBPC .

1991 -
-~
Sérgio Paulo Rouanet assume a Secretaria da Cultura.
.. -,~.........,.
- Jayme Zette! assume a presidência do IBPC.

- Sanção da Lei Federal de Incentivo à Cultura(lei nu 8.313, de 23.12.1991).

1992 - Recondução do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural.

- Extinção da Secretaria da Cultura e recriação do Ministério da Cultura, assumido por


Àniõn.iô HÕ~~i~;.- ... . .. ..

1993 - Jerônimo Moscardo assume o Ministério da Cultura.

- Francisco de Melo Franco assume a presidência da IBPC.

- Luis Roberto Nascimento Silva assume o Ministério da Cultura.


Glauco Campello assume a presidência do JBPC.

1994 - O IBPC volta a se chamar lphan.


-- .. ., ' " ·'-· ~-·--------·--
1995 - Francisco Weffort assume o Ministério da Cultura.

1996 - Inicio da estruturação do Programa de revitalização de sítios urbanos através da


recuperação do patrimônio histórico (tu.t~r.2..f.'.co9.~am;i r.19.n.u..Tental;,uma parceria en tre
o lphan e o Banco lnteramericano de Desenvolvimento - Ei1D:

WiJ O WRIMÔl/10 fM PRO ( fSS O


1997 - Realização, em Fortaleza, do Seminário Patrimônio imaterial: estratégias e fonnas de
proteção, de que resultou a Carta-de "i~rt~Í;;a: . · -·... -· . · ·· · ·
- O Progra~a.Monu[!lenta é transferido para o Ministério da Cultura.

1998 - Portaria do Ministro da Culturc cria Comissão e Grupo de Trabalho para elaborar
proposta de acautelamento do patrimônio cultural imaterial brasileiro.

1999 - Criação, no âmbito do Ministério da Cultura, da Secretaria. de P<ltrif!!_ônio, Museus e


Art~~_flás\icas, .assu_nJi2~ y~r Octávio Elísio Alves de Brito.
- Carlos Henrique Heck assume a presidência do lphan.

20CO - Edição do decreto presidencial nA 3.551, de 4 de agosto de 2000, que institui o registro
dos bens culturais de natureza imaterial e aia o Programa Nacional do Patrimônio
Imaterial.

2002 - O Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural aprova os registros do Oficio das


pa neleiras de Goiabeiras (ES) e da arte gráfica Kusiwa, dos índios wajãpi (AM).

2003 - Gilberto Gil assume o Ministério da Cultura.

- Márcio Meira assume a Secretaria de Patrimônio, Museus e Artes Plásticas do


Ministério da Cultura.
- Maria Elisa Costa assume a presidência do lphan.

- Reestruturação do Ministério da Cultura e extinção da Secretaria de Patrimônio,


Museus ~ Artes Plásticas. .

- Reestruturação do lphan e criação do Departamento de Patrimônio Material, do


D_epartamenlo. de Patrimônio Imaterial, e do Departamento de Museus e Centros
Culturais.

2004 - Antônio Augusto Arantes assume a presidência do lphan.

- O Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular sai da Funarte e passa a integrar


~--lp hàn:----·· ' ., .. ...,,,.
- A. arte kusiwa dos wajãpi (AP) foi proclamada pela Unesco obra-prima do Patrimônio
Oral e Imaterial da Humanidade.

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OE C\ d~C\AS i_;:JC\,;\S
~-- -
Amo 1: CRON OLOG I A DA PO LÍ! l( A Df PW WACÃO NO BRAS IL ] 243 l
!\NEXO li
DECRffO-L EI N• 25, DE 30 DE NOVEMBRO OE 1937

Org:::aiza :: proteção do patrimônio hiflórico e artístico


nacional.

O Presidente da República dos Estados Unidos do Brasil, usando da atribui-


ção que lhe confere o art. 180 da Constituição, decreta:

ÜPÍIULO ]

Do palrímônio hiflórico e arlMico nacional


Art. 1°. Constitui o patrimônio histórico e artístico nacional o conjunto dos bens
móveis e imóveis existentes no país e cuja conservação seja de interesse público,
quer por sua vinculação a fatos memoráveis da história do Brasil , quer por seu
excepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico.
§ 1°. Os bens a que se refere o presente artigo só serão considerados parte
integrante do patrimônio histórico o artístico nacional, depois de inscritos
separada ou agrupadamente num dos quatro Livros do Tombo, de que trata
o art. 4º desta lei.
§ 2°. Equiparam-se aos bens a que se refere o presente artigo e são também
sujeitos a tombamento os monumentos naturais, bem como os sítios e
paisagens que importe conservar e proteger pela feição notável com que
tenham sido dotados pelo natureza ou agenciados pelo indústria humana.
Art. 2º. A presente lei se aplica às coisas pertencentes às pessoas naturais,
bem como às pessoas jurídicas de direito privado e de direito público interno.
Art. 3º. Excluem-se do patrimônio histórico e artístico nacional as obras de
origem estrangeira:
1) que pertençam às representações diplomáticas ou consulares acreditadas
no país;
2) que adornem quaisquer veículos pertencentes a empresas estrangeiras, que
façam caijeira no pais;
3) que se incluam entre os bens referidos no art. 10 da Introdução do Código
Civil, e que continuam sujeitas à lei pessoal do proprietário;
4) que pertençam a casas de comércio de objetos históricos ou artísticos;
5) que sejam trazidas para exposições comemorativas, educativas ou comer-
ciais;
6) que sejam importadas por empresas estrangeiras expressamente para ador-
no dos respectivos estabelecimentos.
Paràgrafo único. As obras mencionadas nas alíneas 4 e 5 terão guia de licen-
ça para livre trânsito, fornecida pelo Serviço do Patrimônio Histórico e Ar-
tístico Nacional.

(APilULO li

Do lomhomenfo
Art. 4°. O Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional possuirá quatro
Livros do Tombo, nos quais serão inscritas as obras a que se refere o art. 1° desta
lei, a saber:
1) no Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico, as coisas per·
tencentes às categorias de arfe arqueológica, etnográfica, ameríndia e
popular, e bem assim as mencionadas no § 2º do citado art. 1º;
2) no Livro do Tombo Histórico, as coisas de interesse histórico e as obras
de arte histórica ;
3) no Livro do Tombo das Belas Artes, as coisas de arte erudita, nacional ou
estrangeira;
4) no Livro do Tombo das Artes Aplicadas, as obras que se incluírem na cate-
goria das artes aplicadas, nacionais ou estrangeiras.
§ 1°. Cada um dos Livros do Tombo poderá ter vários volumes.
§ 2°. Os bens que se incluem nas categorias enumeradas nas alíneas 1, 2,
3 e 4 do presente artigo serão definidos e especificados no regulamento
que for expedido para execução da presente lei.

l]fil O PAIRl lÔ HIO E.li PIOCEI IO


Art. 5°. O tombamento dos bens pertencentes à União, aos Estados e aos
Municípios se fará de ofício, por ordem do diretor do Serviço do Patrimônio Histó-
rico e Artístico Nacional, mas deverá ser notificado à entidade a quem pertencer,
ou sob cuja guarda estiver a coisa tombada, a fim de produzir os r.ecessários
efeitos.
Art. 6°. O tombamento de coisa pertencente à pessoa natural ou à pessoa juri·
dica de d:reito privado se fará voluntária ou compulsoriamente.
Art. 7°. Proc;.;:der-se-á ao lombamento voluntário sempre que o proprietário o
pedir e a coisa se revestir dos requisitos necessários para constituir parte inte-
grante do patrimônio histórico e artístico nacional, a juízo do Conselho Consultivo
do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, ou sempre que o mesmo
proprietário anuir, por escrito, à notificação, que se lhe fizer, para a inscrição da
coisa em qualquer dos Livros do Tombo.
Art. 8°. Preceder-se-á ao tombamento compulsório quando o proprietário se
recusar a anuir à inscrição da coisa.
Art. 9°. O tombamento compulsório se fará de acordo com o seguinte processo:
1) o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, por seu órgão com-
petente, notificará o proprietário para anuir ao tombamento, dentro do prazo
de quinze dias, a contar do recebimento da notificação, ou para, se o quiser
impugnar, oferecer dentro do mesmo prazo as razões de sua impugnação.
2) no caso de não haver impugnação dentro do prazo assinado, que é fatal,
o diretor do Serviço do Patrimônio Histérico e ArtisUco Nacional mandará
por simples despacho que se proceda à inscrição da coisa no competente
livro do Tombo.
3) se a impugnação for oferecida dentro do prazo assinado, far-se-á vista da
mesma, dentro de outros quinze dias fatais, ao órgão de que houver
emanado a iniciativa do tombamento, a fim de sustentá-la. Em seguida,
independentemente de custas. será o processo remetido ao Conselho
Consultivo do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, que
proferirá decisão a respeito, dentro do prazo de sessenta dias, a contar do
seu recebimento. Dessa decisão não caberá recurso.
Art. 10º. O tombamento dos bens a que se refere o art. 6° desta lei será consi-
derado provisório ou definitivo, conforme esteja o respectivo processo iniciado pe-

AN EXO 11: OECRE IO-lE I N' 25 . OE 30 uE NOVl 11t6RO OI 1937 [filJ


la notificação ou concluído pela inscrição dos referidos bens no competente Livro
do Tombo.
Parágrafo único. Para todos os efeitos, salvo a disposição do art. 13 desta lei,
o tombamenío provisório se equiparará ao definitivo.

(APÍIULO Ili

Dos efeiloi do lombamenlo


Art. 11. As coisas tombadas, que pertençam à União, aos Estados ou aos Mu-
nicípios, inalienáveis por natureza, só poderão ser transferidas de uma a outra das
referidas entidades.
Parágrafo único. Feita. a transferência, dela deve o adquirente dar imediato co-
nhecimento ao Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
Art. 12. A alienabilidade das obras históricas ou artísticas tombadas, de pro-
priedade de pessoas naturais ou jurídicas de direito privado, sofrerá as restrições
constantes da presente lei.
Art. 13. O tombamento definitivo dos bens de propriedade particular será, por
iniciativa do órgão competente do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Na-
cional, transcrito para os devidos efeitos em livro a cargo dos oficiais do registro
de imóveis e averbado ao lado da transcrição do domínio.
§ 1°. No caso de transferência de propriedade dos bens de que trata este ar0
ligo, deverá o adquirente, dentro da prazo de trinta dias, sob pena de multa
de dez por cento sobre o respectivo valor, fazê-la constar do registro,
ainda que se trate de transmissão judicial ou causa mortis.
§ 2°. Na hipótese de deslocação de tais bens, deverá o proprietário, dentro do
mesmo prazo e sob pena da mesma multa, inscrevê-los no registro de
lugar para que tiverem sido deslocados.
§ 3°. A transferência deve ser comunicada pelo adquirente, e a deslocação
pe!o proprietário, ao Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional,
de,tro do mesmo prazo e sob a mesma pena.
Art. K A coisa tombada não poderá sair do pais, senão por curto prazo, sem
transferência de domínio e para fim de intercâmbio cultural, a juizo do Conselho
Consulti':o do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

[E]] O PATRIMÓNIO IM PROCI\\O


Art. 15. Tentada, a não ser no caso previsto no artigo anterior, a exportação,
para fora do país, da coisa tombada, será esta seqüestrada pela União ou pelo
Estado em que se encontrar.
§ 1°. Apurada a responsabilidade do proprietário, ser-lhe-á imposta a multa de
cinqüenta por cento do valor da coisa, que permanecerá seqüestrada em
garantia do pagamento, e até que este se faça.
§ 2°. No caso de reincidência, a multa será elevada ao dobro.
§ 3°. A pessoa que tentar ~
exportação de co!:c~ tombada, além de ír.::dir na
multa a que se referem os parágrafos anteriores, incorrerá nas penas
cominadas no Código Penal para o crime de contrabando.
Art. 16. No caso de extravio ou furto de qualquer objeto tombado, o respectivo
proprietário deverá dar conhecimento do fato ao Serviço do Patrimônio Histórico
e ArtísUco Nacional, dentro do prazo de cinco dias, sob pena de multa de dez por
cento sobre o valor da coisa.
Art. 17. As coisas tombadas não poderão, em caso nenhum, ser destruídas,
demolidas ou mutiladas, nem, sem prévia autorização especial do Serviço do
Patrimônio Histórico e,..Artístico
. Nacional, ser reparadas, pintadas ou restauradas,
sob pena de multa de cinqüenta por cento do dano causado.
Parágrafo único. Tratando-se de bens pertencentes à União, aos Estados ou
aos município~. a autoridade responsável pela infração do presente artigo
incorrerá pessoalmente na multa.
Art. 18. Sem prévia autorização do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional, não se poderá, na vizinhança da coisa tombada, fazer construção que
lhe impeça ou reduza a visibilidade, nem nela colocar anúncios ou cartazes, sob
pena da ser mandada destruir a obra ou retirar o objeto, impondo-se neste caso
a multa de cinqüenta por cento do valor do mesmo objeto.
Art. 19. O proprietário de coisa tombada, que não dispuser de recursos para
proceder às obras de conservação e reparação que a mesma requerer, levará ao
conhecimento do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional a necessi-
dade das mencionadas obras, sob pena de multa correspondente ao dobro da im-
portância em que for avaliado o dano sofrido pela mesma coisa.
§ 1º. Recebida a comunicação, e consideradas necessárias as obras, o diretor
do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional mandará executá-
las, a expensas da União, devendo as mesmas serem iniciadas dentro do

!KIXO li: OICRET O-lEI N' 25, OE rn OE NOVE/mo DE 1937 ll.ill


prazo de seis meses, ou providenciará para que seja feita a desapropriação
da coisa.
§ 2°. À falta de qualquer das providências previstas no parágrafo anterior,
poderá o proprietário requerer que seja cancelado o tombamento da coisa.
§ 3°. Uma vez que verifique haver urgência na realização de obras e conser-
vação ou reparação em qualquer coisa tombada, poderá o Serviço do
Patrimônio Histórico e Artístico Naeional tomar a iniciativa de projetá-las
e executá-las, a expensas da União, independentemente da comunicação
a que alude este artigo, por parte do proprietário.
Art. 20. As coisas tombadas ficam sujeitas à vigilância permanente do Serviço
do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, que poderá inspecioná-las sempre
que for julgado conveniente, não podendo os respectivos proprietários ou respon-
sáveis criar obstáculos à inspeção, sob pena de multa de cem mil réis, elevada
ao dobro em caso de reincidência.
Art. 21. Os atentados cometidos contra os bens de que trata o art. 1° desta
lei são equiparados aos cometidos contra o patrimônio nacional.

(APÍlULO IV

Do direifo de 'preferência
Art. 22. Em face da alienação onerosa de bens tombados, pertencentes a
pessoas naturais ou a pessoas jurídicas de direito privado, a União, os Estados
e os municípios terão, nesta ordem, o direito de preferência.
§ 1°. Tal alienação não será permitida, sem que previamente sejam os bens
oferecidos, pelo mesmo preço, à União, bem como ao Estado e ao municí-
pio em que se encontrarem. O proprietário deverá notificar os titulares do
direito de preferência a usá-lo, dentro de trinta dias, sob pena de perdê-lo.
§ 2°. É nula alienação realizada com violação do disposto no parágrafo ante-
rior, ficando qualquer dos titulares do direito de preferência habilitado a se-
qüestrar a coisa e a impor a multa de vinte por cento do seu valor ao trans-
mitente e ao adquirente, que serão por ela solidariamente responsáveis. A
nulidade será pronunciada, na forma da lei, pelo juiz que conceder o se-
qüestro, o qual só será levantado depois de paga a multa e se qualquer

[lliJ o PAlRIIIÓHIO IM mcmo


dos titulares do direito de preferência não tiver adquirido a coisa no prazo
de trinta dias.
§ 3°. O direito de preferência não inibe o proprietário de gravar livremente a
coisa tombada, de penhor, anticresa ou hipoteca.
§ 4°. Nenhuma venda judicial de bens tombados se poderá realizar sem que,
previamente, os titulares do direito de preferência sejam disso notificados
judicialmente, não podendo os editais de praça ser expedidos, sob pena
de nulidade, antes de feita a notificação.
§ 5°. Aos titulares do di~eito de preferência assistirá o direito de remissão, se
dela não lançarem mão, até a assinatura do auto de arrematação ou até
a sentença de adjudicação, as pessoas que, na forma da lei, tiverem a
fa culdade de remir.
§ 6°. O direito de remissão por parte da União, bem como do Estado e do mu-
nicípio em que os bens se encontrarem, poderá ser exercido, dentro de cin-
co dias a partir da assinatura do auto de arrematação ou da sentença de
adjudicação. não se- podendo extrair a carta, enquanto não se esgotar este
prazo, salvo se o arrematante ou o adjudicante for qualquer dos titulares
do direito de preferência.

(APÍIULO V

Oúporicõer 9eroi1
Art. 23. O Poder Executivo providenciará a realização de acordos entre a
União e os Estados, para melhor coordenação e desenvolvimento das atividades
relativas à proteção do patrimônio histórico e artístico nacional e para a unifor-
mização da legislação estadual complementar sobre o mesmo assunto.
Art. 24. A União manterá, para a conservação e a exposição de obras his-
tóricas e artísticas de sua propriedade, além do Museu Histórico Nacional e do
Museu Nacional de Belas Artes, tantos outros museus nacionais quantos se tor-
narem necessá rios. devendo outrossim providenciar no sentido de favorecer a ins-
tituição de museus estaduais e municipais, com finalidades similares.
Art. 25. O Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional procurará en-
tendimentos com as autoridades eclesiásticas, instituições científicas, históricas

AHIXO li: OEWT0 -11 1H' 25, Df 30 OI HOVE!IBRO DI 1937 IT.ill


ou artísticas e pessoas naturais e jurídicas, com o objetivo de obter a coopera ção
das mesmas em benefício do patrimônio histórico e artístico nacional.
Art. 26. Os negociantes de antiguidades, de obras de arte de qualquer nature-
za, de manuscritos e livros antigos ou raros são obrigados a um registro especial
no Serviço do Patrimônio Histôrico e Místico Nacional, cumprindo-lhes outrossim
apresentar semestralmente ao mesmo relações completas das coisas históricas
e artísticas que possuírem.
Ar!. 27. Sempre que O'.; agentes de leilões tiverem de vender objetos de natu-
reza idêntica à dos mencionados no artigo anterior, deverão apresentar a respec-
tiva relação ao órgão competente do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional, sob pena de incidirem na multa de cinqüenta por cento sobre o valor
dos objetos vendidos.

Art. 28. Nenhum objeto de natureza idêntica à dos referidos no art. 26 desta
lei poderá ser posto à venda pelos comerciantes ou agentes de leilões, sem que
tenha sido previamente autenticado pelo Serviço do Patrimônio Histórico e Artís-
tico Nacional, ou por perito em que o mesmo se louvar, sob pena de multa de
cinqüenta por cento sobre o valor atribuído ao objeto.
Parágrafo único. A autenticação do mencionado objeto será feita mediante o
pagamento de uma taxa de peritagem de cinco por cento sobre o valor da
coisa, se este for inferior ou equivalente a um conto de réis, e de mais
cinco mil réis por conto de réis ou fração, que exceder.
Art. 29. O titular do direito de preferência goza de privilégio especial sobre
o valor produzido em praça por bens tombados, quanto ao pagamento de multas
impostas em virtude de infrações da presente lei.
Parágrafo único. Só terão prioridade sobre o privilégio a que se refere este
artigo os créditos inscritos no registro competente, antes do tombamen to
da coisa pelo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
Art. 30. Revogam-se as disposições. em contrário.

Rio de Janeiro, 30 de novembro de 1937. 116° da Independência e 49º da


República.

Getúlio Vargas
Gustavo Capanema

ffiTI O WRl~ÓNIO E,11 PRomso


i\NEXO Ili
Pi\ RECER Df CâRlOS DRUMMOND DE i\NDRtDf

A
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Ml"'QO ~ ,~n.io.c Nm'Olnco I um~ MIIClta.M.

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'° QUO oone1.a, llio Be ub4 à iar,,Ja •;.,oiz de Ji.U dA


Conoaiç!o, .., Cacll<>o1ra do l:1111, Xatodo do lUo Gramo O.o BUl,
TillOUlid.a a ruo mamoráTal doºº""" hiot<!ra, que Juat1.:r1quo e
C<.l!I l...tloluab co I.tvro do l'om'oo lilnór1co. i•to aa:, amoargo do
oon.ot1tU1r o roro:r:l..do tmplo IJm toatomua.no da OOUJ>4çio do t.m-·
q;:~~ºJ;;\ "~!.=;~~~~~ ~r:t::, P~t~l-
~e(de Caol!.oolra) to,-o <>1'1g:c.a ao 1Q Al.de""'8Q\o elo :!oüce Jlu.
kar18, JJ.o govil'".oo da Joad X&reelino de l'.1,&u:;,U',tdo I que oonaegQJa
rouni·lo., e oon.atrw.r m tealplo c oQ.a&.gra4o a e. Joio d• Caa.hoel
ra e clopoi1 • ll,8 . da c.,.,eição', li a o que d.is lli.l.Uot de S,.1n1i-
ld.olplle, •01c1oatr1o GGoi;rU'1oo, l!J.0;6r1co e Doaorit1To do i..-
Jl(lr1o do .Brall!l O, oaaa !ç-oJa 'Llo""9ou em 1779 o ;ttu10 a ]Jror·
ragat1Taa d.o t'rgguea1&•. fio oone:ta, lJON.:ll., (la crõ.:uoa c10 Ca-
ohoo1ra a 0001TGCaia, do O.to do a1grJ1.r1 ~e.ção e:m.epa1onal a qu"
eatGja l1g"'1a a 11111tr.u il.& par6q111.,,. ~ • r&gl.et.rar-..., o anaa·
a.!ni.ot ,.orit1o80.o ao aeu 1.Dt.orior e.m 8 do ae~bro do 1860• do
lle.e.r :t:o.rroup1lh.a ~t.õmo Viollllto a.a l'ontoura, QUO üi .moa,o
{~~.b!\;~~-.,!~;º11~1~~...,~·r:~~i..
ao loaa.1 on::1e
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·d.1Jw.arol.Ol;i- , a ca1..ogor1.a da
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J. neta do mpoo to, Jul g,, • a . a . n!o "" Ju.otinoar


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Carlos llrLC::1000. do -'<ldl'ad..-
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s: /.,. ., o ~ h . - t ,;L,·~ ( """'/.n...c
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-.is..<... .3o A- - ~ Ar. ,<.. t,(J':j,
):.... <'<' :. ,-f'.r2
hNEXO IV
O COMPROMISrn CULIURAL DÂ NOV.A REPÚBLICA

Em razão de sua experiência de trabalho institucional e de ação política junto


à sociedade nos âmbitos nacional e local, e sentindo-se legitimados por sua ante-
rior luta - contra todas as dificuldades - em defesa dos segmentos sociais cuja
história e produção cultural têm sido sistematicamente obscurecidas ou tornadas
objeto de apropriação indébita - trabalhadores em entidades culturais e represen-
tantes de entidades e associações civis consideram oportuno declarar publica-
mente a sua aspiração de que o recém-instituído Ministério da Cultura venha a
se constituir como capaz de estar efetivamente a serviço da sociedade brasileira
e, assim, tornar-se um dos principais impulsionadores da mudança a que se pro-
põe a Nova República.

Espera-se, nesse sentido, que em todas as suas áreas de competência o Mi-


nistério da Cultura venha a assumir, entre outras preocupações, determinados
compromissos considerados como imprescindíveis ao processo de sua contínua
legitimação junto aos segmentos soc:ais que deve ouvir e apoiar.
Somente a adoção desses compromissos e o seu cumprimento serão capazes
de tornar esse Min::,tério exemplar no atendimento ao interesse público que, in-
cluindo os interesses de específicos setores sociais, assim como determinadas
reivindicações polí tico-partidárias e, também, os argumentos de personalidades
importantes no processo cultural e político do país, não pode restringir-se a seu
atendimento exclusivo, sob pena de comprometer sua eficácia para uma atuação
voltada para a totalidade e a particularidade dos interesses da nação.
São os seguintes os compromissos julgados fundamentais, e aqui explicitados
em nível de amplitude a ser particularizada na determinação da política cultural,
em diálogo com os segmentos sociais represen tativos da pluralidade cultural bra-
sileira :

Que a cultura seja amplamente concebida como um processo decorrente


dos diversos modos de agir e de pensar da sociedade brasileira. Assim,
a política cultural não deverá restringir sua atenção somente a deter-
minadas expressões da cu!tura, mas estender suas preocupações a as-
pectos fundamentais desse processo, como, por exemplo: saúde, educa-
ção, acesso e uso do solo, trabalho, habitação etc.
Que a pluralidade e a diversidade cultural sejam respeitadas, mas que
a diferença não implique justificativa para a desigualdade social. Nesse
sentido os grupos diversificados em situação de subalternidade por vá-
rios fatores culturais - tais como indígenas, negros, ciganos, migrantes,
mulheres, favelados, garimpeiros, seringueiros, bóias-frias etc. - devem
merecer atP.nção e apoio especiais para superação desse estado.
Que se integre à polilíca cultural o compromisso de se discutirem am-
plamente os projetos ditos de desenvolvimento, que implicam alterações
consideráveis nos contextos culturais, de modo a avaliar seu::; passiveis
benefícios em relação aos custos socioculturais por eles exigidos.
Que o Ministérió da Cultura envide todos os seus esforços para que Bra-
sília, cidade politicamente cassada e culturalmente discriminada, venha
a desenvolver as suas potencialidades e desempenhar os papéis para
os quais foi concebida, no sentido não só de sediar o poder, mas de res-
ponder pelo crescimento do espírito federativo, que decorre do reconhe-
cimento de uma sociedade pluricultural e multiétnica.
Que a responsabilidade do Ministéri0 da Cultura em contribuir, · funda-
mentalmente, para o processo de democratização do país se concretize
em todos os níveis de sua atuação, assim como nas constantes preocu,
pações de servir aos interesses e à identidade de nossa sociedade plu-
ral, e de prestar contas a essa sociedade da política adotada e do traba-
lho realizado, reorientando-os segundo as indicações originadas no de-
ver do diálogo.

Brasília (DF), 7 de maio de 1985.


Comissão Brasilia/DF
Centro de Estudos Afro-Brasileiros/DF
Memorial Zumbi
Associação Brasileira de Antropo!ogia/DF
Comissão Pró-Índio
Fundação Pedroso Horta/DF
Frente Nacional Afro-Brasileira

[Iill o PhTWIÔNIO ! ftl mcrno


Brasilia-Mulher/01=
Associação Cultural Zumbi!AL
Associação Nacional do Índio!BA
Sociedade Beneficente São Jorge de Engenho Velho da Federação!Sa/vador-BA

Associação dos Ex-Alunos da UnBIDF

Cresça!DF
Ordem dos IAúsicos/DF
Grupo de Teatro - Abibiman!PE
Centro Latino-Americano de Altos Estudos/DF
Bloco Carnavalesco /lê Aiyê - Salvador!BA
Grupo Niger-OKAN - Safvador!BA
ACAAN - Associação Cultural de Apoio às Aftes Negrcs/RJ

Cine-Clube Olho d'Água!DF


Cine-Clube Porta Aberta do Gama!DF
Cabeças - Centro Brasiliense de Afte e Cultura!DF

Cine-C/ube Gláuber Rocha/DF


Comissão Organizadora do Festival de Música Popular do Gama!OF

Grupo de Teatro do Gama/DF


Bloco Carnavalesco Apaches do Tororó - Salvador!BA
Associação Profissional dos Sociólogos do DF
Administração Regional de Planaltina!DF
Grêmio Carnavalesco Cacique de Ramos!RJ

TEN - Teatro Experimental do Negro!RJ


lpeafro - Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasi/eiros!RJ
Funafro - Fundação Afro-Brasileira de Arte, Educação e Cultura

União das Nações Unidas


Fetadif - Federação de Teatro Amador do 01stnto Federal
ABTB-DF - Associação Brasileira de Teatro de Bonecos

Companhia Nosso Grupo de Teatro/DF


Candango Produções Ariist1cas/DF

ANEXO IV, O COIIIPRO/ldllO CULTURAi CA NOVA REPÚ BllCA


ITITJ
ANEXO V
PROCESSOS DE T0 /1\BA!HNJO ABERfOS
DE 1.1.1970 A 14.3.1990

I N• Prnmso I Nom, do B, m• 1 UF I l ocalidade I


1,.'0
825-T-70 Casa à Praia do Russel, 734 RJ Rio de Jane iro
826-T-70 Teatro São João CE Sobral
827-T.70 Forte São José RJ Rio de Janeiro
828·T·70 Casa à Praça do Erário, atual Correio PB Joã o Pessoa
829-T-70 Acervo do Museu de Arte Contemporânea SP São Paulo
830-T-70 Castelo da Baronesa
(Casa à Av. Dom ingos de Almeida) RS Pelotas
83 1-T-70 Igreja de N. Sr•. da Conceição PE Itamaracá
832 -T·70 Remanescentes da Fazenda Pombal,
onde nasceu Tiradentes MG Ritâpolis

1971
833-T-71 Conjunto arquitetônico e paisagístico da
Praça Getúlio v~rgas RJ Nova Friburgo
834-T-71 Igreja de N. Sr•. da Conceição MG Couto Magalhãe s
83 5-T-71 Igreja de Santo Antônio PE Tra cunhaém
836-T·71 Jgreja do Bom Jesus dos Martírios PE Recife
837·T·71 Casa à Praça Dr. Jefferson, 13 MG Campa nha 1
838·T-71 I Fazenda do Pocinho RJ Vassoura s/
1

Barra do Pirai
839-T-71 Igreja Matriz de São José MG Serro
840-T-71 Solar do Barão de Vila Flor RJ Sa o Fidélis
841 -T-71 Palácio La uro Sodré PA Be lém
842-T-71 Caverna do Alambari, Fazenda Sã o Luis SP Bananal
843-T.71 Conjunto arquitetônico epaisagístico
de Cachoeira BA Cachoeira
844·T-71 Casa da Fazenda do Pau Grande RJ Va,~our as
845-T-71 Imagem de São Francisco de Paula MG Mariana

• Adotou-se a segu inte convenção por tipologia gráfica: negrito - tombado ; ilàlico - arqu ivado ;
re dondo - em estudos , (N. do E.)
I N° Processo I Nome do Bem I UF j loc~~=~= 1

846-T-71 Casa da Fazenda Rio de São João MG Bom Jes us


do Amparo
847-T-71 Conjunto arquitetônico e
paisagístico de Lençóis BA len çó is
848-T-71 Conjunto arquitetônico e
paisagístico de Parlo Feliz SP Parlo Feliz
849-T-71 Casa no Distrito de Calas Altas MG Conselheiro
Lafaiete
850-T-71 Igreja Matriz de Sant'Ana (fachadas) CE lguatu
851-T-71 Casa à Praça José Feliciano, 9 GO Pire nó polis

1972
852-T-72 Igreja Matriz de N. Sr'. da Conceição RJ Pati do Alferesi
·,
Vassou ras
853-T-72 Casa à Rua Mayrink Veiga, 9 RJ Rio de Janeiro
854-T-72 Casa à Rua da Quitanda, 61 RJ Rio de Janeiro
855-T-72 Igreja Matriz de São Sebastião RJ Niterói
856-T-72 Casa Frei Rogério - Fórum se Porto União
857-T-72 Casa onde nasceu o marechal Artur
da Costa e Silva RJ Taquari
858-T-72 Antiga Eslação Ferroviária PB Campina Gr~nde
859-T-72 Igreja Matriz de Santo Antõn:a MG Alvorada de Minas
860-T-72 Conjunto arquitetônico da Av. Rio Branco RJ Rio de Jan eiro
861-T-72 Antiga Faculdade de Filosofia,
Ciências e Letras (Casa à Praça
Terreiro de Jesus) BA Salvador
862-T-72 Liceu de Arles e Oficias
(Casa à Praça da República) PE Recife
863-T-72 Assembléia legislativa (antigo edifício
da Assembléia Provincial) CE Forlaleza
864-T-72 Casa e capela da Fazenda da Luz RJ São Gonça lo
865-T-72 Casa da Fazenda dos Macacos MG Conselheiro
Lafaiete
866-T-72 Igreja do Divino Espírito Sant? PE Rec ife
1 867-T-72 Coleção de Abelardo Rodrigues PE Rec ife
868-T· 72 Pintura s de Benedito Calixto que
1
eslão no Palácio Episcopal SP São Carlos

1973
869-T-73 Morros do Rio de Janeiro (7) RJ Rio de Janeiro
870-T-73 Igreja Malriz de N. Sr•. da Conceição MG Prados

um O W Rl/1\ÕNIO t MPROCfllO
~ · Pcocmo I Nome do Bem 1-Uf I Local Oade ~I
87 1-T-73 Faculd ade de Direito da UFRJ RJ Rio de Ja1,eiro
872-T-73 Enge nho Morenos PE Morenos
873-T-73 Igreja do antigo Convento de
São Fra ncisco ES Vitória
874-T-73 Igreja de N. S~. do Pilar SP Ribeirão Preto
875-T-73 Conjunto arquitetônico e urbaníslico
das áreas da Bahia dt :,uape e do
Cabo Sar.!o Agostinho PE Recife
876-T-73 Capela de São Pedro PE Pajeú
877-T-73 lg reja Matriz de Vila Bela e
Palácio dos Capitães Generais MT Vila Bela
878-T·73 la goa Roórigo de Freitas RJ Rio de Janeiro
879-T-73 Casa de Câmara e Cadeia CE Aracati
880-T-73 Conjunto arquitetônico da Praça da
Matriz e Museu de Arte e História MG Nova Era
88 1-T-73 Casa da Fazenda Santa Mônica RJ Valença
882-T-73 Igreja Matriz do D~sterro e Igreja
do Rosário MG DesemboQue
883-T-73 Mercado de São José PE Recife
884-T-73 Museu do Colono RJ Petrópolis
885-T-73 Capela erigida por Anhanguera MG Uberlândía
886-T-73 Teatro Apolo
(Ca sa Rua do Apolo. 121) PE Recife
887-T-73 Casa de João Niderauer Sobrinho RS Santa Maria
888-T-73 Forte Junqueira MT Coru mbá
889 -T-73 Cemitério da Irmandade N. Sr. Pa ssos SP Guaralinguelá
890-T-73 Solar da baronesa de Mu riaé RJ Campo s
891 -T-73 Conjunto arquitetônico de Rio de Co ntas BA Rio de Contas
892-T-73 Casa da Fa zenda Quebra de Canoa s MG Ponte No.a
893-T-73 Casa onde morou o Ba rão do
Riu Branco (Rua Westphaien , 279) RJ Petrópolis

1974
894 -T- 74 Sobrado e respectivo terreno em que,
em 1845, se hospedou d. Pedro li RS São Gabriel
895-T-74 Lavabo emmármore português
(Convento de San lo Antônio
do Paraguaçu) BA Cachoeira
·-~-~ ~ - - - ·

AH tX O V: PROcrnos OE 10,1\H,, íl<lo h8W OS OE l. l. 197 0 h 14.J.1 990


mIJ I
I N• Processo 1· . Nome do-:-m- i3 Localidade . . . 1
696-T-74 Antiga Faculdade de Medicina da Bahia
(Casa à Praça Terreiro de Jesus) BA Salvador
697-T-74 Solar dos Garcez
(onde viveu Euclides da Cunl1a) RJ São Fidélis
898-T-74 Museus Castro Maia e respectivos acervos RJ Rio de Janeiro
899-T-74 Casa a Rua Presidente Domiciano, 195 RJ Niterói
900-T-74 Farmácia Brito, 9
(Casa à Rua Lelis Piedade, 2) BA Salvador
901-T-74 Igreja de N. Sr•. do Rosário MG Rio Preto
902-T-74 Conjunro de nove imóveis RJ Magé
903-T-74 14 quadros de Portinari
(Igreja do Bom Jesus) SP Batata is
904-T-74 Casa do En~enho ltapuá PB S~o Migu el
do Taipu
905·T·74 Diversos monumentos MG Três Pontas
906·T·74 Casa "Loja Maçônica Conciliação" PE :. Recife
907-T-74 Chácara do Tinoco MG Caeté
908·T·74 Peças da coleçáo Octales Marcondes SP São Paulo
909-T-74 Casa da Fazenda Ponte Alta SP Redenção
da Serra
910-T-74 Casa da Fazenda da Conceição SP Paraibuna
911-T-74 Igreja Matriz SP Cotia
912-T·74 Casa óe Pedra RJ Igrejinha
913-T-74 Casa do Sitio Umbuzeiro CE Aiua ba
914-T-74 Antiga Alfândega (Prédio à
Rua Conselheiro Mafra) se Florianópolis
915-T-74 Igreja Matriz SP Franca
916-T-74 Fazenda do Engenho Novo RJ São Gonçalo
917-T-74 Forte Coimbra MT Corumbá
918-T-74 Casa do Engenho Camaragibe PE São Lourenço
da Ma ta

1975
919-T-75 Reservató:,J de água (Laranjeiras) RJ Rio de Janeiro
920-T-75 Capela N. S: 1 da Piedade RJ Rio de Janeiro
921-T-75 Casa "Es:2ção do Brum·· PE Recife
922-T· 75 Igreja do Terço PE Recife 1

923-T-75 Igreja de São José do Ribamar PE Recife


924-T-75 Escola Jú lia Kubitschek DF Brasil ia

lliLl O Prnlfal6NIO ffal PROCE\ \ O


I N' Processo I No me do Bem ·---- 1 UF I Localidade I

925-T-75 c~sas à Praça Gel. Pedro Osório, 2, 6, 8 RS Pelotas


926·T·75 Igreja Matriz de S. Bern ardo BA Alcobaça
927-T-75 Cine-teatro (antigo Teatro 7
de Setembro) RS Rio Grande
928-T-75 Casa-grande do Engenho de Lages PE Ribeirão
929-T-75 Casa MG Cataguazes
930-T-75 Remanescentes da Fortaleza de
Santo Antônio MA São Luis
931-T-75 Conjunto arquitetônico de Luziãnia GO Luziania
932-H5 Praia Baia da Traição PB Baia da Traição
933-T-75 Emba ixada da Itália
(Rua das Laranjeiras, 154) RJ Rio de Janeiro
934-HS Embaixada da Argentina
(Praia de Botafogo, 228) RJ Rio de Janeiro
935-T-75 Paço Municipal BA lnhambepe
935-T.75 Sobrado RJ Porciúncula
937-T-75 Casa do Pad re Belchior MG Pilangui
938-T-75 Casa do Aleijadinho MG Sabará

1976
939·T·76 Grutas e lapas MG Lagoa Sa nta
940-T-76 Casa à Rua Oswaldo Cruz, 782 MA São Luis
941-T-76 Casas de três faze ndas (Mantique ír~.
Machadinha e Mato de Pipa) RJ Macaé
942-T-76 Arraial Novo do Bom Jesus PE Recife
943-T-76 Forte N. Sr•. da Conceição se Florianópolis
944-T-76 Prédio da Estação da Luz e
Pina coteca Esla rfual SP São Paulo
945-T-76 Igreja de N. SI'. da Paz RJ Rio de Ja ne iro
946·T-76 Escola Tiraden tes RJ Rio de Jane iro
947-T-76 Ruinas do Forte em Arraial 1
das Tesouras GO Moza rlâ nd ia
1
948-T-76 Casa do Antigo Fórum BA Caetité 1
l
949-T-76 Igreja Positivis la do Brasil RJ Rio de Janeiro
1
950-T-76 Capela de N. Sr•. do Rosá rio da
1
Ermida Santa Efígénia MG Sabará 1

1977 1
951-T-77 Casa do Museu Prof. Zoroastro Artiaga GO Goiânia
1

AN EXO V: PRO UIIOS DE l OMBA~rnl O ABER! OS DE 11.1970 A 1U .199C l 263!


N• Processo Nome do Bem UF 1 - Localidade --

- -- - - -,---- - - -------------- - - - -------- ~


J
952·T·77 Casa onde morou o Duque de Caxias RJ Rio de Janeiro
953·T· 77 Pavilhão de aulas da Escola de
Enfermagem Ana Neri
(Casa à R. Afonso Cavalcantí, 275) RJ Rio de Janeiro
954-T-77 Primeira Fabrica de Laticínios no
Norte do Brasil RJ F.:o de Janeiro
955· T•77 Sabre dehonra do Gal. Osório
(Marquês de Herval) RJ Rio de Janeiro
956-T-77 Quartel da Policia Militar
(Casa à Praça Heliodoro Balbi) AM Manaus
957-T-77 Igreja de N. Sr•. do Amparo PE Olinda
958·T·77 Igreja de sao Joao PE Olinda
959-T·77 Cemitério (9nde repousam os
restos mortais dos heróis
da Retirada da Laguna) MG Monte Alegre
960·T·77 Igreja de Santo Antônio dos Índios BA Aratuipe
961·T·77 Estação ferroviária SP Cachoeira Paulista
962-T-77 Casa que pertenceu ao Visconde
de Jlamaraly RJ Rio de Janeiro
963-T-77 Cemitério d. Francisca SC Joinvllle
964·T·77 Área onde se desenvolveu a Batalha Vitória de Santo
'Monte das Tabocas" (3 .8.1645) PE Antao
965·T-77 Antigo Paço Municipal PI Parnaguá
966-T-77 Marco Jauru MT Cáceres

1978
967-T-78 Solar da Familia Franklin Sampaio
(Casa à Praça Rui Ba rbosa . 55) RJ Petrópolis
968-T- 78 Conjunto arqu itetônico e urbanístico
da cidade de lcó CE lcó
969·T-78 Conjunto arquitetônico e urbanlstico .
da cidade de Aracati CE !' Aracati
970·T·78 Faculdade de Direito PE Recife
971-T·78 Igreja de N. Sr•. da Penha . MG I Passos
972-T-78 Solar do Conde de Subaé • BA i Santo Amaro
973.T-78 Conjunto arquitetônico, urbanístico e .
paisagístico da Ilha de ltaparica BA ltaparica
974-T·78 Conjunto arquitetônico e urbanístico 1
de Mucugê BA ~i ucugê
975-T-78 Hotel Colonial BA Salvador
976-T-78 Prédio da Cia . Docas de Santos RJ Rio de Janeiro
I

ITill ~ I AJR:~,ÓNIO EM ?Rocrno


1 I
··N• Pr::sa. Nome do Bem I UF l Localidade I
977-T-78 Cinema /ris RJ Rio de Janeiro
978-T-78 Hospital São Francisco de Assis RJ Rio de Janeiro
979-T-78 Grutas Azul e N. Srt. de Aparecida MT Bonito
980·T·78 Gruta do Rei do Mato MG
98 1-T-78 Igreja de N. Srt. dos Remédios Fernando
de Noronha
982-T-78 Prédio do antigo .'.linistérío
da Agricultura RJ Rio de Janeiro
983·T·78 Asilo d. Pedro li BA Salvador
984-T-78 Casa dos Carvalhos BA Salvador
985-T-78 Vila Laura
(Casa à Rua Raul Leite, 68) BA Salvador
986-T-78 Casas à Rua Gonçalves
Ledo, 5, 5·A, 5·8 , 7 e 11 RJ Rio de Janeiro
987-T-78 Ponte Seca RS Bagé
988·T·78 Solar Amado Bahia BA Salvador
989·T·78 Imagem de Santa Teresa de
Ávila, um retábulo e um espelho RJ Rio de Janeiro
990-T-78 Ruínas jesuíticas do
Mocambinho ou de Pachoca MG Manga
991 -T-78 Igreja de N. Sr«. do Livramento PE Recife
992·T·76 Casa à Praça Marquês
de Monte Alegre SP Santos
993-T-78 Imagem de N. Srt. da Escada SP Barueri
994·T·78 Aeroporto Bartolomeu de Gusmao
e seu hangar RJ Rio de Janeiro
995-T-78 Museu Mariano Procópio (Prédio) MG Juiz de Fora

1979
996-T-79 Casa Paroquial, anexa à Igreja Matriz
de Santo Antônio
(Casa à Praça Independência, s/n•) PE Recife
997·T·79 Prédio da antiga Casa de Câmara Santa Cruz de
e Cadeia BA Cabrália
998-T-79 Igreja Matriz de N. Sr•.
da Conc eição
BA I Santa Cruz de
Cabrália
~99-T· 79 Capela do Cemitério Público CE Qu ixeramobim
1000-T-79 Acervo do Palácio dos Bandeirantes SP São Paulo
1001-T-79 Casa de Euclides da Cunha
Pinlo Martins (aviador) 1 Camocim
CE
1

ANEXO V: PROCEIIOS DE IO!IBAJI.Eff!O ABEIIOS Of l.l.1970 A14.J .19 90 [illJ


J
·-

[ N: ;r:o:csso Nome do Bem UF


~de
1
1 --
---~---·····---
--····- ------·-···-+4···----
··· ··------
1002-T·79 Igreja de N. Sr•. da lapa RJ Campos
1003-T-79 Cine-teatro RJ Santa Maria
1004-T-79 Igreja de Sant'Ana RJ Macaé
1005-T-79 Antigo alojamento da Weslern
Telegraph 1 RJ 1 Niterói
1006-T-79 1 Conjunto arquitetônico da
Rua da Carioco RJ Rio de Janeiro
100H·79 Casa à Rua Cônego Bittencourt, 47 RJ Angra dos Reis
1008-T-79 Estaçao ferroviéria MG ltaguaí
1009-T-79 Observatório Nacional RJ Rio de Janeiro
1010-T-79 Casa onde funcionou o Fórum MG Malozinhos
1011-T-79 Conjunto arquitetônico
de Con servatór~a .
Serra de São José
RJ
MG
I Valença
Tiradentes
1012-T-79 1

1013-T-79 1 Conjunto urba .. o da Lapa e


encosta de Santa Teresa 1 RJ Rio de Janeiro
1014-T-79 1 Lampião (Lapa). relógio
(Largo da Carioca)
e luminárias (R. da Conceição.
Senhor dos Passos. Alfândega,
Ouvidor e Praça XV e adjacências) RJ Rio de Janeiro
1 1

1980
l
'
Recife
l
1015-T-BO Duas quadras da Rua da Aurora PE
1016-T-80 Praça Floriano (Cinelând;a) RJ 1 Rio de Janeiro
1017·T·BO Sít\o de Santo Antônio da

~~
Alegria ou do Físico São luís
1018-T-80 Sede da Fazenda Pinheiro Pinheiral
1 1
1019-T-80 Palácio da Justiça AM Manaus
1020-T-80 1 Teatro Municipal José de Ate,.car
(Casa à Rua XV de Novembro} 1
1
RJ Niterói
1021-T-80 Acervo paisagístico de Santa Santa Cruz de
Cruz de Cabrália ! BA 1 Cabrália
1022-T-80 Casa à Rua Rivadàv1a Correia.
262 e 266 (antiga res,dência e:
poeta argentino José Hernande:. ' RS I Santana do
Livramento
autor de Ma11ín Fierrol

1023-T-80 Prolongamento do coniunto Ve·-:-?es : PA Belém


1024-T-80 Palacete Pinho PA 1 Belém
1
1025-T·BO Conjunlo arquilelónico no enlcr,"o
do Mercado Ver-o-Peso PA 1 Belém

[illJ O PATRl~ÓHIO BI PROCESI O


I N• Processo_ ~ L Nome ::~ Bem I I UF localid ade

1026-T-80 Conjunto arquitetônico à


Av. Governador Jose Malcher PA Be lém
1027-T-80 Conjunto arquitetônico à Av. Nazareth PA Be lém
1028-T-80 Forte de Óbidos e Forte Serra
da Escama PA Óbidos
1029-T-80 Conjunto arquitetônico e paisagístico do
Largo das Mercês e sua área oe ~ntorno PA Belém
1030·T·80 Conjunto arq uitetônico da Rua
Siqueira Mendes e Largo do Carmo PA Be lém
1031-T-80 Colégio Pedro li RJ Rio de Janeiro
1032·T·80 Casa da Fazenda Rio Novo RJ Paraíba do Sul
1033-T-80 Igreja de Santo Antônio MG Ouro Branco
1034-T-80 Pantheon do Mal. Floriano Peixoto
(Cemité rio São João Batista) RJ Rio de Janeiro
1035-T-80 Figueira da Rua Faro RJ Rio de Janeiro
1036-T-80 Prédio dos Correios e Telégrafos
{Praça Ba rão do Rio Branr.o) RS Porto Alegre
1037-T-80 Instituto OswaldoCruz RJ Rio de Janeiro
1038-T-80 Casa-gra nde da Fazenda Cachoeira
de Taepe MG Surubim
1039-T·BO Coleção de ex-votos do Santuário do
Bom Jes us do Matosinhos MG Congonhas do
Campo
1040-T-80 Igreja do Senhor éo Bonfim RJ !laborai
1041-T-80 Antiga estação fwç'lià ria
de Guaratinguetá Guaratinguetá 1
SP 1

1042·T·80 Campo do Jiqu1á PE Recife

1981
1043-T-81 Igreja de N Sr• c:;s Mercê s CE Arapari 1
1
1044·T· B1 Estação feroviárie RJ ltaguaí 1
1

Casa à ;.a Ale , , ·dre !,\ou ra, i


1045-T-81
23 a 29 RJ Níleroi i

1046·T·81 Igreja lla: · z de S; :iuarema RJ Saquarema


1
1047-T-81 Pórtico central e armazéns do
Cais do Porto RS Porto Alegre
1048-T-81 Capela df São J: ~ ~ ES Cara pina da Serra
1049-T-81 Morro O Frade e ~ Freira ES ltapemirim
1050-T-Bl Aldeia de, indic, Ta pirapé s GO Ba nanal

AMEXO V: PROCE\\01 Df TOMBA!,O'D Ai!L! Ot 1.1.1970 A TU.199 0 lliU


I N• Processo I Nome do Bem I UF I loc=~-1
1051-T-81 Conjunto arquitetônico de
Angra dos Reis RJ Angra dos Reis
1052-T-81 Mercado da carne e lojas adj acenles CE Aquiraz
1053-T-81 Forte de Santa Bárbara se FI oria nópol is
1054-T-81 Fábrica de vinho de caju Tito Silva PB João Pessoa

1982
1055-T-82 Museu Rondon RO Vilhena
1056-T-82 Instalações de água potável PR Curitiba
1057-T-82 Antiga sede do ONOCS CE Fortaleza
1058-T-82 Casa à Rua da Aurora, onde nasceu
Manuel Bandeira PE Recife
1059-T-82 Fábrica Bangu , RJ Rio de Janeiro
1060-T-82 Santuário do Monte Santo BA Monte Santo
1061-T-82 Casa em que residiu Carlos Oswald RJ Rio de Janeiro
1062-T-82 Fazenda de Sant'Ana PA li ha de Marajó
1063-T-82 Cadeia Velha CE Lirnoel~o do Norte
1064-T-82 Calxas-d'água RJ Pelotas
1065-T-82 Casa de Plácido de Castro AC Xapuri
1066·T·82 Vila de Porto Acre AC Rio Branco
1067-T-82 Terreiro da Casa Branca BA Salvador
1068-T-82 Sistema de bondes de Santa Teresa RJ Rio de Janeiro
1069-T-82 Serra da Barriga
(Quilombo dos Palmares) Al União
dos Palmares
1070-T-82 Casas da Praça da Convenção,
125, 131, 153 PE Recife
1071-T-82 Conjunto arquitetônico dos bairros
da Cidade Velha e Campina PA Belém
1072-T-82 Farol de Mucurípe CE Fortaleza
1073-T-82 Imprensa Oficial e
Clube Monte Líbano PA Belém
1074-T-82 Caixa-d'água RS Rio Grande
1075-T-82 Palácío das Laranjei,as RJ Rio de Janelro

1983
1076-T-83 Conjunto de 10 imagens missioneiras RS São Luis Gonzaga
1077-T-83 Forte de São Francisco ou do Queijo PE Olinda
1078-T-83 Prédio High life
(Rua Santo Amaro. 28) RJ Rio de Janeiro

[ 268 [ O ?W l~ÓHIO EM PROCH SO


N• Processo Nome do Bem 1- UFl~ Localidade
- --
~l
1079-T-83 Quinta das Magnólias (Casa Perry) RJ Teresópolis
1080-T-83 Fazenda do Vauaçu MG Ponte Nova
1081 -T-83 Monumento do Imigrante RS Caxias do Sul
1082-T-83 Açude do Cedro CE Quixadá
1083-7-83 Casa onde nasceu Vital Brasil MG Campa nha
1084-T-83 Conj unto habilacional operário PE Goiana
1085-T-83 Conjunto habitacional "Av. Modelo' RJ Rio de Janeiro
1086-T-83 Máquina a vapor "Maria Fumaça" MG Antônio Carlos
1087-T-83 Igreja Matriz de Santo Antônio MG ltaverava
1088-T-83 Sobrado do pe. Taborda e
casario fronteiro MG ilaverava
1089-T-83 Prédio da Prefeitura Municipal RS Lajeado
1090-T-83 Caixa de Socorros d. Pedro V RJ Rio de Janeiro
1091-T-83 Igreja de N. S,.. dos Navegantes PA Sao Caetano de
Odivelas
1092-T-83 Igreja Matriz de N. Sr•.
dos Navegantes RS São José
do Norte
1093-T-83 Centro histórico de Salvador
(re-ratificação) BA Salvador
1094-T-83 Estádio Mário Filho (Maracanã) RJ Rio de Janeiro
1095-T-83 1greja Matriz de N. Sr<. da
Conceição Al Marechal Deodoro
1096-T-83 Trecho da antiga E. F. Oe ste
de Minas e estação ferroviária MG Ribeirão Vermelh o 1

1097-T-83 Conjunto arquitetõnico e urban ístico


da cidade de Paranaguá PR Paranaguá
1
1098-T-83 Estrada de Ferro Paranaguá- Cu ritiba PR 1
1099-T-83 Hospital Jusce lino Kub itscheck
de Oliveira (HJKO) DF Brasília
11 00-T-83 Prédio daABI RJ 1 Rio de Ja ne iro
110 1-T-83 Ginásio Pernambucano PE Recife
1102-T-83 Pantanal Sul-mato-grossense MS
1103-T-83 !lha do Ba nanal {ou de Sant'Ana ) GO
1104-T-83 Acervo ferroviário da E. F.
Perus- Pirapora SP
1105-T-83 Casa que pertenceu ao
cel. Malveira s CE limoeiro do Norte
1 1

1.kfXO V: PROC ! \SOI OI TOMBAM!H IQ I. BER IO\ DE 1.1.1970 6 14. 3. 1990


lli!J
I N• Processo I Nome do Bem I I
UF Localidade I
1106·T·83 Casarao onde se hospedou
d. Pedro I RS São José
do Norte
1107-T-83 Colégio Estadual Paes de Carvalho PA Belém
1108·T·83 Outeiro de Santa Catarina (Castelo) SP Santos

1984
1109·T·B4 Hotel do Parque São Clemente RJ Nova Friburgo (
1110·T·84 Conjunto Residencial Parque Guinie RJ Rio de Janeiro
1111·T·84 Vila Operária AL Delmiro Gouveia
1112-T-84

1113·T·84
Embarcações a vapor do Rio
São Francisco
Casa Presser
MG
RS
Pirapora
Nova Hamburgo
l
1114-T-84
11 15-T-84
Casa "A Sotéia•
Presépio do Pipiripau
RS
MG
Santa Maria
Belo Horizonte i
1116·T-84 Museu Paranaense
(antigo Paço Municipal) PR Curitiba
1117·T·84 Conjunto arquitetônico, urbanistico e
paisagístico da cidade de Natividade TO Natividade
1118-T-84 Coleção de Lasar Segall SP São Paulo
1119-T-84 Engenho do Mate (Museu do Mate) PR Campo Largo
1120-T-84 Teatro São João PR Lapa
1121·T·84 Casa à Rua Santa Cruz (Warchavchik) SP São Paulo
1122·T·84 Centro Histórico de Laguna se Laguna
1123-T-84 Casa do Senador Canedo GO Boa Vista
de Goiás
1124·T·84 Casarão do Chã SP Mogi das Cruzes
1125-T-84 Túmulo do 2• barão de Guaratiba RJ Rio de Janeiro
1126·T·84 Museu de Biologia
"Prof. Mello Leilão" ES Santa Teresa
1127-T-84 Caixa-d'água
(Reservatório de Mocó) AM Manaus
1128·T·84 Forte São Diogo BA Salvador
1129-T-84 Coleções arqueológicas
pe. João Alfredo Rohr DF/SC
11 30-T-84 Ace rvo do IHGB RJ Rio de Janeiro
1131-T-84 Sitio Santo António da Bica RJ Rio de Janeiro
1132-T-84 Chafariz da Praça Mahatma Gandhi RJ Rio de Janeiro
1133-T-84 Igreja capela N. Sr<. da Conceição PE Recife

LmJ O PAI WiÓNIO f/1. PROCEHO


I N• Processo I Nome do Bem 11..i r j Localidade "]

1134-T-84 Conjunto arquitetónico, urbanistico


e paisagíslico de São Gonçalo
do Río das Pedras MG Serro
1135-T-84 Conjunto arquiletónico do Distrito
de Santo Antônio Lisboa se Florianópolis

1985
1136-T-85 Casa R~:~: da Costeira da Ribeira se Florianópolis
1137·T·85 Ponte Hercilio Luz se Florianópolis
1133-T-85 Palácio Cruz e Souza
(Palácio Rosado) se Florianópolis
1139-T-85 Mercado Público se Florianópolis
1140·T·85 Casa à Rua Benfica, 251 PE Recite
1141-T-85 Escola Rural e Casa do Professor se Timbó
1142-T-85 Casa de Saúde Carlos Chagas MG Lassance
1143-T-85 Antiga estação ferroviária MG Lassance
1144-T-85 Fábrica Santa Amélia MA São Luís
1145·T·85 Casarão de madeira
(Rua Gustavo Sampaio, 34) RS António Prado
1146·T·85 Prédio da Ligh! RJ Rio de Janeiro
1147-T-85 Casa à Av. dos Imigrantes, 307 RS António Prado
1148-T-85 Lagoa do Abaeté BA Salvador
1149-T-85 Pintura rupestre BA Central e Uiba í
1150-T-85 Painel de gravações rupestres MT Coronel Ponce
1151-T-85 Área de Lobato (subúrbio onde pela
prime ira vez jorrou petróleo no Brasil) BA Salvador
1152-T-85 Terras de ocupação imemorial dos grupos
tribais remanescentes das grandes nações
indigenas do Brasil
1153-T-85 Casa á Rua Bahia, 1.126 (Warchavchik) SP Silo Paulo
1154-T-85 Casa à Rua l!ápolis, 961 (Warchavchik) SP São Paulo
1155-T-85 Conjunto arquitetônico onde funcionou a
Vinicola Luiz Antunes RS I Caxias do Sul
1156·T·85 lagoa da Gra nja do Comari RJ 1 Teresópolis
1157-T-85 Gruta de N. Sr•. da Lapa MG I Ouro Preto
1158-T-85

11 59-T-85
Arquivo documental. folográfico e jornalisti·
co (Correio do ?ovo) da Cia. Caldas Júnior
Engenho Corredor (José Uns do Rego)
RS
PB i
I Porto Alegre
?ilar
1160-T·BS Parque memorial da imigração polonesa PR I Curit:ba
1161-T-85 Igreja Malriz de Paranguaba CE j Fortaleza
i'
'!

ANHO V: PROCEHO I DE 10/1\SAIHNTO ABERIOS OI 1.1.19 70 Al U .1 990 lJijJ


N• Processo
-- -·· - - ·.. ---~
Nome do Bem
-------------·-1
! 1
1 :l.~~c~lidade
-------• ···• -. -----------
1162-T-85 1 Imagem de Santana MG Povondo da
de Ouro Preto Ch1p1d n
1163-T-85 1 Centro histórico e paisaglslico do
São Francisco do Sul se Silo Francisca
do Sul
1164-T-85 Serr~ do Mar SPIPR
1165-T-85 Ponto do hnporodor RS lvo1i
1166-T-85 Ponto da Rodo Forrovlérla Federal se Bhimenau
1167-T-85 ConJunto orqultotônlco o palsaglstico
da Praça da República PE Recife
1168-T-85 1 Conjunto arquiletônico e paisagístico do
ijíll!go bairro do Recife e Cais Apolo PE Recife
1169-T-85 Sobrado dos Andradas MG Barbacena
1t70-T-85 Igreja de Sãp Sebastião BA Arapiraca
1171-T-85 Pintura de Victor Meireles se Florianópolis l
1172-T-85 Casa à Rua Valparaíso, 86
(que teria pertencido ao
mal. Deodoro da Fonseca) RJ Rio de Janeiro
1173-T-85 Estátua eqüeslre de d. Pedro I RJ Rio de Janeiro
1174-T-85 Fábrica de tecidos São Luiz SP ltu
1175-T-85 Conjunto arquitetônico à Rua Barão
de São Borja e à Rua Soledade PE Recife
1176-T-85 1 Pinturas do Pe. Jesuino do
Monte Carmelo SP São Paulo e ltu
1177-T-85 I Fábrica de papel Bahia BA Salvador
1178-T-85 Antiga estação ferroviária MG São João
Nepomuceno
1179-T-85 Mercado municipal AM i Manaus
1180-T-85 1 Conjunto arquitetônico. urbanístico
e paisagislico de Cuiabá MT Cuiabá
1181-T-85 1 Conjunto arquitetônico, urbanístico
e paisagístico de Pirenópolis GO Pirenôpolis
1182-T-85 Conjunto arquitetónico do casario
do Porto de Corumbá MS Corumbá
1183-T-85 Fazenda do Conde de Pinhal SP São Carlos
11 84-T-85 Ponle metálica da Rede
Ferroviária Federal
sobre o rio ltajai-açu se Blumenau
1185-T-85 1
Estação ferro viária São João dei-Re i MG Tiradentes
i

J
Lili] O WRIMÓNIO E/li PIO (E\10
·· --

! I
N• Processa Nome do Bem localidade
UF
----

r·,..:,... T;~· ' c.,.",.,...,."


---·-····· ·-· ·· ----. 1
RJ Rio de Janeiro
1187-T-85 Placa do ouro
(homonagem a Rui Barbosa) DF Brasilia l
1186-T-66 Prédio e sedo da
Fazenda Melancias
MG Agua Comprida
1189-T-86 Gruta do Tamboril MG Unai
1190-T-86 Teatro Municipal SP São Joao da
Boa Vista
1191-T-86 Capela de N. Sr'. da Boa Morte MG Barbacena
1192-T-86 Conj unto arquitetônico e paisagístico
do Porto de Manaus AM Manaus
1193-T-86 Parque estadual do Cabo Branco 1
e da Ponta Seixas PB João Pessoa
1194-T-86 Pa!ác io Maçônico do Lavradio RJ Rio de Janeiro
1195-T-86 Casa de Carlos Oswald RJ Petrópolis
1196-T-86 Segmento da Serra de MG São Tomé
Sã o Tomé das Letras da s letras
1197-T-86 Casa à Av. Sele de Setembro, 200 RJ Niterõi
1198-T-86 Solar Gomes Leitão (sede do
Museu de Antropologia do 1
Vale do Para íba) SP Jacareí
1199-T-86 Gávea Golf e Country Club RJ Ria de Janeiro
1200-T-86 Fazenda Lordelo 1
(Marquês da Paraná) RJ Trê s Rios
1201-T-86 Conjunto arquiletônico, urbanistico
e paisagístico de Penedo 1 AL 1 Penedo
1202-T-86 Engenho Centra!
(segmento do Pireneus) MA Pinca rê Mirim
1203-T-86 Serra de Pire nópolis GO Pirenópoiis
1204-T-86 Estação ferroviá ria MG Além-Paraíba
1205-T-86 Casa à Rua N. Sr•. da Glória MG Mariana
1206-T-86 Pavilhão Luiz Nunes PE Recife
1207-T-86 Igreja de N. Sr•. do Rosário
e São Benedito 1 GO I l uziânia
1208-T-86 Antigo préd io da delegacia do
Ministério da Fazenda SE Araca1u
1209-T-86 Casa de Cultura
(antiga Casa de De tençã o) 1 PE 1
1 Recife

ANHO V: Pi OCfSSOS DE l OMBAMfN TO ABfR!Ol O! i. 1. 19 70 A IU .1990


llill
N• Processo T Nome do Bem 1l
·U F Localidade=1

1 1210·T·86- - Obra do Berço RJ Rio de Janeiro


1211-T-86 Conjunto arquitetônico de
N. Sr•. do ó PE Paulista
1212-T-86 Complexo arqueológico
Lapa da Pedra GO Formosa
1213-T-86 Área cen ,ral da Praça XV
e imediações RJ Rio de Janeiro
1214-T-86 Igreja Matriz de São
Gonçalo dos Cacos CE lpueiras
1215-T-86 Conjunto arquitetõnico, urbanístico
e paisagístico do Distrito
de Ribeirão da Ilha se Florianópolis
1216-T-86 Sitio arqueolôgico Duna Grande RJ Niterói
1217·T-86 Acervo histó rfto, e documental do
Instituto de Estudos Brasileiros
da Universidade de São Paulo SP São Paulo
1218-T-86 Conjunto arquitetônico e paisagíslico
do Hotel Quitandinha RJ Petrópolis
1219-T-86 Ponte Marechal Hermes MG Pirapora
1220-T-86 Estrada de Ferro Madeira-Mamoré RO
1221-T-86 Capela de N. Sr•. da Boa Viagem
do Pasmado PE lgarassu
1222-T-86 Prédio do Colégio Estadual
·cu/lo à Ciência' SP Campinas
1223-T-86 Conjunto arquitetônico e paisagistico
do Santuârio do Bom Jesus
de Matosinhos MG Piranga
1224-T-86 Casa de Câmara e Cadeia PE Brejo Madre
de De us
1225-T-86 Faze nda Caplo AI~ PR Castro

1987
1226-T-87 Casa Velha da SUDECO -
Superintendência de Desenvolvimento
do Centro·Oesle MT Nova Xavanti na
1227-T-87 Museu ao ar livre de Orleans
e seu acervo se Orlea ns
1228-T-87 Sitio arqueológico na Faze nda Lajes GO Niquelândia
1229-T-87 Conjunto paisagístico da
Praça dos Melros.
inclusive seu coreto RJ Cantagalo
1230-T-87 Prédio do Fóru m RJ Ca ntag a:o

lfli) O PA!Rl/1\ÔHIO E!\ PROC! SSO


I N' Pmeesse I Nem, de a,m I UF I Local;dad, 1

1231·T-87 Prédio da Câmara Municipal RJ Cantagalo


1232-T-87 Fazenda do Gavião RJ Cantagalo
1233-T-87 Conjunto arquitetónico e
paisagístico de Paquetâ RJ Paquetá
1234-T-87 Gruta Toca da Esperança BA Central
1235-T-87 Acervo do Lloyd Brasileiro RJ Rio de Janeiro
1236-T-87 Acervo do Serpro - Serviço Federal
de Processamento de Da dos RJ Rio de Janeiro
1237-T-87 Acervo do antigo BNH -
Banco Nacional de Habitação RJ Rio de Janeiro
1238-T-87 Acervo do Museu de Arte e
História "Rosa Maria' SE Aracaju
1239-T-87 Conjunto arquitetônico e paisag ístico
junto a Fazenda da Boa Esperança MG Belo Vale
1240-T-87 Vila das Ferradas BA ltabuna
1241-T-87 Fazenda Silo José SP Monteiro Lobato
(Sitio do Picapau Amarelo)
1242·T·87 Vila operária em Fernão Velho AL Maceió
1243-T-87 Fazenda Santa Cruz MA Buriti
1244·T·87 Casa a Rua 24 de Maío, 22 RJ Rio de Janeiro
1245-T-87 Vivenda de Apipucos PE Recife
1246-T-87 Gruta da Lagoa Rica MG Paracatu
1247·T·87 Gruta da Igrejinha MG Ouro Preto
1248-T-87 Conjunto arquitetônico e urbanístico
deAntôn io Prado RS Antôn io Prado
1249-T-87 Igreja Matriz N. Sr•. dos Prazeres
e Engenho Maranguape PE Paulista
1250-T-87 Jardins América, Europa, Paulista ,
Paulistano SP São Paulo
1251-T-87 Igreja da Ordem Terceira do
Carmo e seu acervo SP Santos
1252-T-87 Vila ferroviária de Paranapiacaba SP Santo André
1253-T-87 Serra Dourada GO Goiás
1254-T-87 Orla ma rítima do Município do
Rio de Jan eiro RJ Rio de Janeiro
1255-T-87 Igreja de Sil o Lourenço PE Goiana
1256-T-87 Aldeia de Arcozelo MG Pati do Alferes
1257-T-8 7 Igreja N. Sr•. dos Re médios BA lbiliara

AHEXO V: PROCESI0 5 D' l 0/i\8AII\EN!O mms D! 1.1. 1970 A lU .1 990


um
1
N° Processo
r Nome do Bem
1
UF \ Localidade
J
1258-T-87
1259·T·87
Vila da Estrela e Vila lnhomirim
1 Reservas paleobotanicas 1
RJ
RS
I Mag~l
Mata

1988
1260-T-88 Acervo móvel da Llght RJ Rio de JJneiro
1261-T-88 Conjunto centro hlslórlco do
munlclpio de Paranaguá PR Paranagua
1262-T-88 Palacete Argentina RS Porto Alegre
1263-T-68 Antiga Cadela Pública CE lbiapina
1264-T-68 Igreja de Santa Efigênia GO Niquelandia
1265-T-88 Casa à Rua Ana Jesuíno, 8 RJ Vassoura s
1266-T-88 Sobrado Ozimo Carvalho
(antiga sede do governo cívil
e militar da Província) MA Viana
1
1267-T-86 Mata de Maranguape PE Recife
1268-T-88 Cine-teatro Rio Branco SP Aracaju
1269-T-88 Igreja de N. Sr•. de França GO Corumbá
de Goiá s
1270-T-88 I Acervo de bens móveis que 1
pertenceram à capela de N. Sr•.
da Ajuda da Fazenda
Pombal (Fazenda 0Jro Fino) MG I São João
dei-Rei
1271-T-88 Bairro Jipovura (Katsura) SP lguape
1272-T-88 Cruzeiro BA Itaberaba
1273-T-88 Ense~da do Brito se Palhoça
1274-T-88 Igreja de N. Sr•. de Aparecida GO Goiânia
1275·T·88 Conjunto complexo
hidromíneral do Barreiro MG Araxá
1276·T·88 Capela de São Sebastião MG Paracatu
1277-T-88 1 Presidio do Instituto do
Norle do Estado RJ Cam pos
1278-T-88 I Cine 9 de Abril RJ Volta Redonda
1279-T-88 Estudios da Rádio NacionaJ RJ Rio de Janeiro
1280-T-88 Anl1go Prédio do Supre mo
Tribunal Federal RJ Rio de Janeiro
1281-T-88 Espe lho d'água e contorno da
Baia de Guanabara RJ Rio de Janeiro
1282-T-88 Casa de Anastácio Alves Braga
("O Saranhão") CE ltapipoca

[Qil o PrnlMHIO EM mcrno


1
N• Processo
l Nome do Bem
1
UF - Locan:ade !

1283-T-88 Conjunto arquiletônico da 1

Praça Cruz Vermelha 1


1 RJ 1 Rio de Ja neiro
1284 -T-88 Gruta de Angicos,
onde morreu Lampião SE ) Canindé
1

1989
1285-T-89 Ediflcio d. Pedro li e f.:stação
Central ~ v Brasil
1 RJ 1 Rio de Janeiro 1
1286·T·89 Conjunto arquitetônico, urbanistico
e paisaglstico de São Félix RJ São Félix
1287·1· 89 Instituto Nacional de Educação
1
de Surdos
1 RJ 1 Rio de Janeiro
1288-T-89 Conju nto arq uitetôníco e
urbanístico de Laranje iras PE Laranjeiras
1289-T-89 Parqu e e Fonte do Queimado BA Salvador
1290·1· 69 Igreja de N. Sr•. do Rosário
)
MG Pa ins
1291-T-89 Serra de São Domingos MG Poços de Caldas
1292·T·89 Igreja de N. Sr•. do Rosário MG Lagoa Santa
1293-T-89 Igreja de N. Sr•. dos Remédios TO Arraias
1294·1·89 Reserva arqueológica
"Chapada dos Negros' TO Arraias
1295-T-89 Imperial Escola Agrícola da Bahia BA São Francisco
do Conde
1296-T-89 Igreja Ma lriz PE Tomazína
1297·H9 Parque Zoobotânico do Museu
Paraense Emílio Goe ldi PA Belém
1298-T-89 Igreja Matriz do S. Sacramento MG Santa Luzia
1299-T-89 Cemitério de escravos Ca rmo do
(Fazenda da Chamusca) MG Cachoe ira
1300-T-89 Ponte João Lu iz Ferreira PI Teresina
1301 -T-89 Cavernas da Serra Bodoquena MG Bodoquena
1302-T-89 Conjunto arqu itetônico e paisagístico de
Arraia l do Ca bo RJ Arraial do Cabo

1990
1303 -T- 90 Prédio do lnstiluto de Resseguras
ào Brasij RJ Rio de Ja neiro
1304-T-90 Quilombo Vão do Moleque GO Ca valca nte
1 1305-T-90 Plano Piloto DF Brasília
1

AHHO V: PROWIOI O! IOMBAM fH I O mms Df 1. 1.1 970 A 14.3 .1990


lJlZJ
ANEXO VI
PROCESSOS DE TOMBA~ENTO
ABERTOS DE 1990 A 2004

I N• Processo . , Nome do Bem l uF I Localidade I


1306-T-90 Casarão Malburg l se ltajal
1307-T-90 Conjunto paisagístico natural e arquite-
tônico formado pelas praias do Arpoador,
Diabo e do Inferno, e pelo Forte de Copa-
cabana, atual Museu Histórico do Exército I RJ Rio de Janeiro
1308-T-90 Conju nto paisagístico natural formado
pela área da Prainha, Recreio dos
Bandeirantes e Grumari I RJ Rio de Janeiro
1309·T·90 Conjunto arquitetônico e paisaglstico
do centro histórico PR Lapa
1310-T-90 Acer,o integrante do Museu Villa-Lobos RJ Rio de Janeiro
1311-T-90 Áreas urbanas de Belterra e Fordlãndia PA Aveiro
1312-T-90 Áreas urbanas de Belterra e Fordlãndia PA Santarém
1313-T-90 Igreja N. Sr•. Mãe dos Homens AL Coqueiro Seco
1314-T-90 Casa em Botafogo RJ Rio de Janeiro
1315-T-90 Pontes de ferro sobre o rio Encano SP lndaiat
131 6-T-90 Casa da fazenda Taquaral SP Campinas
1317-T-90 Bosque Rodrigues Alves PA Belém
1318-T-90 Dunas I CE Fortaleza
1319-T-91 Dois aviões Catalina PA Belém
1319-T-91 Dois aviões Catalina RJ Rio de Janeiro
1320-T-92 Pal ácio Tiradentes RJ Rio de Janeiro 1
1321-T-92 Instituto de Psiquiatria no campus
da Praia Vermelha da UFRJ RJ Rio de Janeiro
1322-T-92 Parque Nacional da Serra da Capivara PI Sào Raimundo
Nona lo 1
1323-T-92 Sítios Tainhanleçu e Pequizal MT Comodoro e Vila
Belã da Santíssima
I
J
Trindade i
1324-T-92 Igreja de N. Sr•. de Nazaré PA Belém !
1325-T-93 Edifício Cenlra l da Universidade
Federal do Paraná PR Curitiba
1326·T-93 Igreja de sao Jerônimo MG Gu rinhatá
1327-T-93 Cine-tealro Central MG Ju iz de Fora
I N• Processo I Nome do Bem 1 · ~; 1 Localidade I

1328-T-93 Casa da antiga agência do Banco


do Brasil MG Tfês Corações
1329-T-93 Sede da Associação dos Antigos
Combatentes do Brasil DF Brasília
1330-T-93 Gruta existente no Serrote dos Morrinhos CE San ta Quitéria
1331-T-93 Casa do Colégio Nossa Senhora das
Dores RJ Nova Friburgo
1332-T-93 Prédio da Fundação Educacional Caio f
Monteiro - Fucam MG Buritizeiro
1333-T-94 Mirante da Av. Sete de Setembro,
trecho da Ladeira da Barra BA Salvador
1334-T-94 Coleção Abel ardo Santas PA Belém
1335-T-94 Casa onde morou e m0rreu Padre
Cícero (Museu llladre Cícero) CE Juazeiro do Norte
1336-T-94 Prédio da Delegacia da Receita
Federal, antiga Alfândega SE Aracaju
1337-T-94 Mata da Esperança BA Ilhéus
1339-T-94 Mata Atlântica RJ Rio de Janeiro
1340-T-94 Terreiro Filhos de Obá SE Laranjeiras
1341-T-94 Conjunto arquitetônico e paisagístico
da Pampulha MG Belo Horizonte
1342-T-94 Centro histórico MG Cataguazes
1343-1-95 Ruínas de um paiol, qu arte! e casa
do administrador BA llaparica
1344-T-95 Vila junto à Escola Naval RJ Angra dos Reis
1345-T-95 Solar Barão de Suassui MG Conselheiro Lafaiete
1346-T-95 Ruínas da cidade de Airão AM Novo Airão
1347-T-95 Localidade de Jericoacoara CE Jijoca de
Jericoacoara
1348-T-95 Conjunto de edificações . Monumento à
Independência e jardins do Museu do
lpiranga, e Parque da Independência SP São Paulo
1349-T-95 Teatro Municipal SP São Paulo
1350-T-95 Conjunto cultural, histórico, artístico
e ambíenlal MG Grão Mogol
1351-T-95 Forle do Buraço PE Recife
1352-T-95 Quilombo do Flechai MA Mirinzal
1353-T-95 Quilombos Oriximiná PA Oriximiná
1354-T-95 Ponte ferroviária CE Quixeramobim
1355-T-95 Casa da antiga Escola de Veterinária
do Exército RJ Rio de Janeiro

llill O PA!RIMÓNIO IM PROCfllO


~rocesso 1· . . Nome do Be m I UF I Localidade I

1356-T-95 Morro do Paí Inácio, rio Mucugezinho ,


ambos integrantes do Parque da
Chapada Diamantina BA Palmeiras
1357-T-95 Corveta lguatemi PA Belêm
1358-T-95 Casa da fazenda Registro Velho MG Barbacena
1359·T·95 Farol de Salinas PA Salínópolis
1360-T-95 lago do Pedalinho PA Sa!inópolis
1361-T-95 Faixa litorânea das praias de
Maçarico e Atalaia PA Sa!ínópolis
1362-T-95 Chácara da Floresta - Ja rdim Botánico RJ Rio de Janeiro
1363-T-95 Prédio da Escola de Equitaçao do Exé rcito RJ Rio de Janeiro
1364-T-95 Casa no Río Comprido RJ Rio de Janeiro
1365-T-96 Conjunto de edificações da Companhia
de Saneamento do Amazonas - Cosama AM Manaus
1366-T-96 Reserva arqueológica Sambaqui
de Beirada RJ Saquarema
1367-T-96 Conjunto paisagistico da Serra
dos Cristais MG Diamantina 1

1368-T-96 Conjunto arquitetônico e paisagislíco


fabril SP São José do
Ca mpos
1369-T-96 Reserva arqueológica Vale do Catímbau PE Bu íque
1370-T-96 Casa onde nasceu Antônio Conselheiro CE Quixe ramobim
1371-T-96 Catedral Metropolitana de Campinas SP Campina s
1372-T-96 Igreja romana - Capela do Taim RS Rio Grande
1373-T-96 Conjunto arquitetônico e paisagístico do
arquipélago de Fernando de Noronha PE Ferna ndo de
Noronha
1374-T-96 Conju nto arquitetônico e pa isagi stice
formado pelos fortes de lmbuhy e
Rio Branco RJ Niterói
1375·T-96 Casa RJ Nova Friburgo
1376-T-96 Conjunto arquitetônico da Vila de
Santo Amaro RS General Câmara
1377-T-96 Conjunto pa isagí stico constituído !
por formações geomorfológicas em
monolito, conhecid os como serrotes CE Quixadá
1378-T-96 Teatro João Caetano RJ Rio de Ja neiro
1379-T-97 Conjunto arquitetônico e pa isagístico CE Sobral
1380-T-97 Acervo remanescente da an tiga
Ig reja de São Se bastião RJ Rio de Janeiro
1

AN!XO VI: PROCfll OI OE 101\ WIENTO AB HI OI D! 1990 A 2004 ITill


r-·--·N• Processo I Nome do Bem -~-- 1 UF j Loc~:::-1

1381-T-97 Conjunto paísagíslico constituído pelo


largo da Carioca e adjacé ncías RJ Rio d0 Janeiro
1382-T-97 Acervo do Museu do Trem,
no Engenho de Dentro RJ Rio de Janeiro
1383-T-97 Rio Mucugezínho, situado no Parque
Nacional da Chapada Diamantina BA Lençóis
1384-T-97 Conjunto paisagístico da Ilha da Trindade ES Vitória
1385-T-97 Cor.junto palsag ístico do Parque
Ecológico de Presemr,ão Ambiental e
florestal Ulisses Guimarães GO Goiânia
1386-T-97 Conjunto arquitetônico do Pedregulho -
conjunto residencial Prefeito Mendes
de Moraes RJ Rio de Janeiro
1387-T-97 Conjunto paisagístico constituído pela
aléía de figueiras-de-pagode RJ Rio de Janeiro
1388-T-97 Campo de Sant'Ana RJ Rio de Janeiro
1389-T-97 Conjunto paisagístico RJ Armação de Búzios
1390-T-97 Setor histórico do cemilério de Catumbi RJ Rio de Janeiro
1391-T-97 Marco comemorativo do centenário
de Juiz de Fora MG Juiz de Fora
1392-T-97 Coleções do Museu Histórico Nacional RJ Rio de Janeiro
1393-T-97 Coleções do Museu Nacional de
Belas Artes RJ Rio de Janeiro
1394-T-97 Coleções do Museu Imperial RJ Petrópolis
1395-T-97 Coleções do Museu da Inconfidência MG Ouro Prelo
1396-T-97 Coleções do Museu da República RJ Rio de Janeiro
1397-T-97 Conjunto arquitetônico e paisagístico da
cidade de Marechal Deodoro AL Marechal Deodoro
1398-T-97 Área conhecida como Jamari dos
Pretos, ocupada por comunidade
remanescente de quilombo MA Turiaçu
1399-T-97 Área conhecida como Mocambo,
ocupada por comunidade remanescente
de quilombo SE Porto da Folha
1400-T-97 Áreas conhecidas como Riacho de
Sacutiaba e Sacutiaba. ocupadas por
comunidade remanescente de quilombo BA Wanderley
1400-T-97 Áreas conhecidas como Riacho de
Sacutiaba e Sacutiaba , ocupadas por
comunidade remanescente de quilombo BA Wanderley
1401-T-97 Área conhecida como Castainho.
ocupada po r comunidade remanescente
de quilombo PE Garanhuns

LillJ O PAfil/1\ÔNIO !/li PR OCWO


I N• Processo I Nome do Bem I UF I Localidade I
1402-T-97 Vestigios do Arraial de Canudos PE Canudos
1403-T-97 Morro conhecido como Pedra da
Galinha Choca CE Quixadá
1404-T-97 Prédio do Pai àcio Anchieta ES Vitória
1405-T-97 Dedo de Deus RJ Guapimirim
1406-T-97 Antigo solar na Praça Tiradentes RJ Rio de Janeiro
1407-T-97 Prédio da Estação Júllo Prestes SP São Paulo
1408-T-97 Local onde funcionou a primeira
sinagoga do Brasil e das Américas,
conhecida como Zur Israel
(Pedra de Israel] PE Recife
1409-T-98 Area conhecida como Porto Coris,
ocupada por comunidade remanescente
de qu ilombo MG Leme do Prado
1410-T-98 Area conhecida como lvaporanduva.
ocupada por comunidade remanescente
de quilombo, no Vale da Ribeira SP Eldorado
1411-T-98 Conjunto arquite1ônico. urba nístico
e paisagistico da cidade de lgatu,
inclusive ru ínas de pedras BA Andara i
1412-T-98 Seminário CE Crato
1413-T-98 Sé catedral CE Crato
1414-T-98 Casa da cadeia pública CE Crato
1415-T-98 Prédio da eslação ferroviária CE Crato
1416-T-98 Conjunto arquitetônico BA Palmeiras
1417-T-98 Prédio do Cinema Paratodos RJ Rio de Janeiro
1418-T-98 Igreja de Nossa Senhora da Conceição CE Parambu
1419-T-98 Prédio do Cinema Metro Boavista RJ Rio de Janeiro
1420-T-98 Área ocupada por comunidade re manes-
cente de quil ombo, conhecida como
Campinho da Independência RJ Para ti
1421-T-98 Remanescente s da Estrada Real na
Chapada Diama ntina BA
1422-T-98 Acervo de documentos e objelos de
estudo do Imperador Pedro li acau telados i
no Museu Nacional e no Museu Imperial RJ Rio de Janeiro 1
Petrópolis
1424·T·98 Acervo do Museu Rodoviário de Paraibuna RJ Comendador Lev,·
Gasparian
1425-T-98 Pergaminhos da Torah - manuscritos
lvrii m, do acervo do Museu Nacional
da UFRJ RJ Rio de Ja neiro

ANEXO VI: PROWIOS DE lO~BA/1\tH fO AHR !D S DE 1990 A 20 04 LlliJ


~<>cesso I Nome do Bem II
UF localidade l
1426-T-98 Ilha de Can,peche se Florianópolis
j
1427-T-98 Prédio do Cinema Oriente RJ Rio de Janeiro
1428-T-98 Remanescentes do antigo quilombo
do Ambrósio MG lbíá
1429-T-98 Conjunto de edificações projetadas pelo
arquiteto Oscar Niemeyer, incluindo o
edifício do Detrnn SP São Paulo
1430-T-98 Conjunto arqueológico e paisagístico do
Vale do Peruaçu MG Januária, Paracambi
1431-T-98 Capela de Nossa Senhora da Conceiçao MG Carrancas
1432-T-98 Terreiro do Axé Opô Afonjã BA Salvador
1433-T-98 Ruínas da ponte dos Dois Arcos RS Pelotas
1434-T-98 Estação ferroviária SP Mairinque
1435-T-98 Prédio do Cinema Pathé RJ Rio de J,ineiro
1436-T-98 Sitio histórico de São João Marcos
do Príncipe RJ Rio Claro
1437-T-98 Igreja de Nossa Senhora do Rosário
dos Homens Pretos SP Eldorado
1438-T-98 Conjunto arquitetônico da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul 1 RS Porto Alegre
1439-T-98 Sítio paleontológico liberato Saturnino SE Porto Redondo
1440-T-99 Ponte Paulo de Frontin, em Vera Cruz RJ Miguel Pereira
1441-T-99 Casa da antiga Câmara do C.rato.

1442-T-99
onde funciona o Museu de Fósseis
Asilo Santa Isabel CE
RJ
I Crato
Valença
1443-T-99 Parque municipal da Galheta se Florianópolis
1444-1-99 Casa na Tijuca RJ Rio de Janeiro
1445-T-99 Conjunto de edificações projetadas pelo
!
arquiteto Oscar Niemeyer para o Centro
Tecnológico da Aeronáutica SP São José dos
Campos
1446-T-99 Casarão Sampaio MG Mário Campos
1447-T-99 Prédio da estação ferroviária RS : Alegre te
t448-T-99 Sítio Caldeirão CE ! Crato
1449-T-99 Prédio e acervo da Casa de Memória
Arnaldo Estêvão de Figueiredo MS Campo Grande
1450-T-99 Pavilhão Pramolor Ismael Siriel,
' j
pertencente ao Instituto Penal
Vieira Ferreira Neto RJ Nilerói
1451-T-99 Conjunto arquilelônico do Corredor
da Vitória BA Salvador

WIJ o PrnrMQN!O f/1, PRO(UI O


I N• Processo I Nome do Bem T , - - --- -Lc:alid2:::
]
1452-T·99 Complexo arqueológico Água Vermelha SP Ou roesle
1453-T-99 Igreja matriz de Nossa Senhora da
Assunção, inclusive a pintura do forro CE Viçosa do Cea rá
1454·T-9S Memorial Judaico RJ Va ssouras
1455-T-99 Memorial Manoel Congo RJ Va ssouras
1456-T-99 Conjunto paisaaistico da cachoeira
da Fumaça RJ Resende
1457-T-99 Estação de hid roaviões ES Vitória
1458-T-99 Imagem de São José de Botas RJ Rio de Jar. eiro
1459-T·OO Terreiro do ltê Opô Ajagunã BA Lauro de Freitas
1460-T-OO Casa grande e tulha da antiga Chácara
do Paraisa das Campinas Velhas SP Campinas
1461-T-OO Terreiro do llê Axé lba Ogum BA Salvador
1462-00 Canal artificial entre Macaé e Campos RJ Campo s. i.i acaé,
Quiss amâ.
Carapebu5
1463·T·OO Conjunto arquitetônico e paisagístico
no bairro da Luz I SP São ?avie
1464 -T·OO Terreiro Casa das Minas Jeje MA Sá o Lu ís
1465 -T-OO Igreja matriz de Nossa Senhora da
Conceição de lbilipoca e seu ace rvo I MG ' Lima Dua:: e
1466-T· OO Recinto de exposições ag ropecuárias
Paulo de lima Correa I SP Barre:~s
1467-T-OO Fazenda Montevideu SP Araras
1468-T-OO Conjunto urbano paisagístico voltado
para a Praça da Alfândega e conjunto
histórico nas imed iações da Praça
da Matriz I RS Por:: Ale: ·e
1469-T-OO Ce ntro histórico I SP Rit a:C~J :: -~:o
1470-T-OO Siste ma viário, área e conjunto arquitetô-
nico da Fazenda Monte Alegre e da
Escola Agrícola Ge tulio Vargas
incorporados à Faculdade de Med icina I s·~ Ritê :·~~ ::: -~:o
1471-T-OO Te rreiro de candomblé llé lyá
Omim Axé lyamassé ' s.; Sê:. ê: ::
1472-T-01 , Bens móveis componente s do acervo

1 histórico de propriedade da
Cervejaria BrahmJ ! R." Ri: :;; _:;_- ., .:e
1473-T-01 Canoa de tolda Lvzitânia. de propriedade
da Sociedade Sócío-ambie nlal do
baixo São Francisco S:: A: 2:2 J

1 1474-T-01 1 Conjunto arquitetónico F3 Ric - ___J

Arno VI: PROUII OI Ot IOMBh/HN IO aB[i l OI OE 19 90 A 2004 o:ill


I N• Pr·o~e s~-º. l. _ Nome do Sem UF localidade
1 1 1
r - -·--·-·-····
1475-T-01 !'Lagoa de Araruama 1 RJ 1 Araruama, lguaba
r.rande, Sao Pedro
da Aldeia e Cabo

~~
1476-T-01 Fazenda Alto dos Bois Angelândia
1477-T-01 Igreja de Nossa Senhora do Desterro 1 1 Rio de Janeiro
1478-T-01 Estítua do Cristo Redentor, no morro
do Corcovado Rio de Janeiro
1479·T·01 I Vila Marzagao 1 :~ 1 Sabará
1480-T-01 Edíficio da antiga Repartição Central

1481-T-01
de policia
I Terreiro de Alaketo 1
RJ
BA
l 'Rio de Janeiro
Salvador
1482-T-01 Igreja matriz de Nosso Senhor
dos Passos SE Maruim
1 1
1483-T-01 I Conjunto arquitet&n(co, urbanístico e
paisagíslíco 1 PE I Goiana
1484-T-01 l 1magem de Nossa Senhora da Piedade.
atribuída a Antônio Francisco lisboa,
o Aleijadinho I MG I Felixlândia
1485-T-01 I Conjunto de
edificações e bens móveis
da Companhia Paulista de Estrada
de Ferro Jundiai
1486-T-01 Terreiro de candomblé do Bate-Folha SP
BA I Salvador
1487-T-02 Casa na Estrada das Canoas RJ Rio de Janeiro
1488-T-02 Museu de Arte Contemporânea RJ Niterôi
1489-T-02 Conjunto histórico e urbanístico PB Areia
1490-T-02 Capela Cristo Operário SP São Paulo
t491-T·02 Residência cardina lícia do
Campo Grande BA Salvador
1492-T-02 I Conlexto arquitetônico.
paisagístico e
entorno da Fazenda Campos Novos RJ Cabo Frio
1493-T-02 Santa Casa de Misericórdia RJ Valença
1494-T-02 Sítio urbano do bairro do Pacaembu SP São Paulo
1495-T-02 Museu de Arte de São Paulo - Masp:
edifício e bens móveis integrados SP São Paulo
1496-T-02 Conjunto histórico e arquitetônico .-· · CE Viçosa do Ceará
1497-T-02 Elevador Lacerda BA Salvador
1498-T-02 Terreiro de cand omblé
1

1499-T-02
llê Axé Oxumaré
Centro histórico
BA
RJ
I Salvador
Rio de Janeiro
1
1500-T-02 Acervo arquitetônico e
urbanislico arl déco 1 GO j Goiãnia

~ oPhlilMÓNIO fM ?!awso
[ N• Processo l Nome do Bem I UF r Localidade I
1501-T-02 Centro histórico PB João Pessoa
1502-T-02 Centro histórico e arquitetõnico SP Santana de Parna iba
1503-T-02 lgrej a de São Sebastião em Planaltina DF Distrito Federal
t504·T·02 Forte São Joaquim do Rio Branco RR Boa Vista
t505-T-02 Terreiro de culto aos ancestrais -
Orno llê Agbôula BA ltaparica
1506-T-03 Sistema de bondes de Sa nta Te resa RJ Rio de Janeiro
1507-T-03 Acervo do Museu de Imagens do
Inconsciente RJ Rio de Janeiro
1508·T·03 Sitio histórico e paisagí stico AL Pira nhas
1509-T-03 Teatro Castro Alves BA Salvador
1510-T-03 Floresta fóssil do Rio Poti PI Teresina
1511-T-03 Casa de Vidro, sede do Instituto
Lina Bo Bardi SP São Paulo
1512-T-03 Centro histórico RS Pelotas
1513-T-03 Acervo histôrico da Discoteca Oneyda
Alvarenga, no Centro Cultural São Paulo,
da Secretaria Municipal de Cultura SP São Paulo
1514-T-03 Edifí cio da Bolsa Oficial do Café SP Santos
1515-T-04 Teatro Oficina SP São Paulo

AM EXD VI: I RDCfS IO \ DE TOMWHNID A~H! OI DE 1990 A 2004 illil


ANEXO VII
DECREIO N° 3.551, DE 4 DE AGOSIO DE 2000

Institui o registro de bens culturais de natureza imaterial


~ue constituem patrimônio cultural brasileiro, cria o pro-
grama n~donal do patrimônio imaterial e dá outras provi-
dências.
'

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, no uso da atribuição que lhe confere o


Artigo 84, inciso 1\/, e tendo em vista o disposto no Artigo 14 da Lei nº 9.649, de
27 de maio de 1998,
Decreta:
Art. 1°. Fica instituído o Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial que
constituem patrimônio cultural brasileiro.
§ 1°. Esse registro se fará em um dos seguintes livros:
1 · Livro de Registro dos Saberes. onde serão inscritos conhecimentos e mo-
dos de fazer enraizados no cotidiano das comunidades;
li · Livro de Registro das Celebrações, onde serão inscritos rituais e festas
que marcam a vivência coletiva do trabalho, da re ligiosidade, do
entretenimento e de outras práticas da vida social; i

111 • Livro de Registro das Formas de Expressão, onde serão inscritas mani·
festações literárias, musicais, plásticas, cênicas e lúdicas;
IV • Livro de Registro dos Lugares, onde serão inscritos mercados, feiras, san-
tuári os, praças e demais espaços oílde se concentram e reproduzem
práti cas culturais ~oletivas.
§ 2°. A inscrição num dos livro s de registro terá sempre como referência a
con tinuidade histórica do bem e sua relevância nacional para a memória,
a identidade e a formação da sociedade brasileira.
§ 3º. Outros livros de registro poderão ser abertos para a mscrição de bens
culturais de natureza imaterial que constituam patrimônio cultural brasileiro
e não se enquadrem nos livros definidos no parágrafo primeiro deste artigo.
Art. 2º. São partes legitimas para provocar a instauração do processo de
registro:
1 - o Ministro de Estado da Cultura;
li - instituições vinculadas ao Ministério da Cultura;
Ili - Secretarias .:le Estado, de Município e do Distrito Federal;
IV - sociedades ou associações civis.
1>,rt. 1º. As propostas para registro, acompanh11dt11 do 1u1 documentaçílo
écnica, ser~J dirigidas ao Presidente do Instituto do P11trlmõnlo Histórico a Ar-
stico Nacional - lphan, que as submeteré ao Contelho Con1u1Uvo do Patrimônio
ultural.

§ 1°. A instrução dos processo• de reglatro 11er! supervisionada pelo lphan.


§ 2º. A instrução constarf'I de dtaorlçâo pormenorizada do bem a ser regis-
trado, acompanhado da documcmtação
;
correspondente, e devera mencionar
todos os elementos ~uo lha 'sejam culturalmente relevantes.
§ 3º. A instruçilo doe proceuos poderá ser feita por outros órgaos do Minis-
tério da Cultura, pelas unidades do lphan ou por entidade, pública ou pri-
vada, que detenha conheclmanlos específicos sobre a matéria, nos termos
do regularnonto a 1u1r Elxpedido pelo Conselho Consultivo do Patrimônio
Cultural.

§ 4°. Ultimada ll lnHlruçao, o lphan emitirá parecer acerca da proposta de


registro e envlnré o processo ao Conselho Consultivo do Patrimônio
Cultural, paro dolibaraçilo.

§ 5°. O porocor do que trata o parágrafo anterior será publicado no Diário


Oficial da Uniãu, para eventuais manifestações sobre o registro, que deve-
rão ser apre~ontadas ao Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural no
prazo de ato trinta dias, contados da data de publicação do parecer.
Art. 4°. O proces!.O de registro, já instruído com as eventuais manifeslações
esentadas, será lov;1do ;~ decisão do Conselho Consultivo do Patrimônio
tural.

Art. 5°. Em caso de decisJo f;:ivorável do Conselho Consultivo do Patrimônio


tural, o bem será inscrito no livro correspondente e receberá o titulo de Patri-
nio Cultural do Brasil.

iJ O PWIMÕNIO EM PROCEI 10
. DE CiÊNEl~S SOCIAIS I
Parágrafo único. Caberá ao Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural deter-
minar a abertura, quando for o caso, de novo livro de Regis tro, em
atendimento ao disposto nos termos do § 3° do Artigo 1° deste decreto.
Art. 6°. Ao Ministério da Cultura cabe assegurar ao bem registrado:
1• documantaçllo por todos os meios técnicos admitidos, cabendo ao lphan
manter banco de dados com o material produzido durante a instrução do
processo.
li - ampla divulgação e promoçao.
Art. 7°. O lphan fará a reavaliação dos bens culturais registrados, pelo menos
a cada dez anos, e a encaminhará ao Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural
para decidir sobre a revalidação do título de Patrimônio Cultural do Brasil.
Parágrafo único. Negada a revalidação, será mantido apenas o registro, como
referência cultural de seu tempo.
Art. 8°. Fica instituído, no âmbito do Ministério da Cultura, o Programa Nacio-
nal do Patrimônio Imaterial, visando à implementação de política especifica de in-
ventário, referenciamenlo e valorização desse patrimônio.
Parágrafo único. O Ministério da Cultura estabelecerá, no prazo de noventa
dias, as bases para o desenvolvimento do Programa de que trata este
artigo.
Art. 9°. Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação.

Brasília, 4 de ag0~to de 2000; 179° da Independência e 112° da República.


Fernando Henrique Cardoso
Francisco Weffort

AN!XO VI I: OHRE lO N' 3.551 , DE 4 OE HOIIO OE 200 0


291
ANfXO VIII
PROCf ~SOS Df REG tSlRO ABfRiOS Df 2000 A 2004

PRDCfllOI CONCLUÍDO\

Ofício das paneleiras de Goiabeiras (ES)


Arte kusiwa: pintura corporal e arte gráfica dos wajãpi (AP)
Clrio de Nossa Senhora de Nazaré (PA)
Samba de roda do Recôncavo Baiano (BA)

PROCE\\01 E/li ANDMIENlO

Linguagem dos sinos das cidades históricas mineiras (MG)


Queijos artesanais de Minas (MG)
Obra do poeta Patativa do Assaré (CE)
Acarajá (BA)
Jongo (RJ, SP, ES)

PROCESIOI ENWIINHADOS PARA INVENf ÁRJO

Festa do Glorioso São Benedito de Angra dos Reis (RJ)


Banda Cabaçal dos irmãos Aniceto do Crato (CE)
Festa do Pau de Bandeira de Santo Antônio (CE)

PRDCE\101 EM mE DE ANÁLI\E PREll/1\lNAR

Festival Folclórico de Parintins dos Bois-Bumbás Garantido e Caprichoso


(AM)
Tea tro Popular de Bonecos Brasileiro (RJ)
Sítio Histórico de São João Marcos (RJ)
Feira de São Joaquim (BA)
Parque Ecológico Águas do Lajeado (SP)
Mercado Central (MG)
PRom IOI EM fllUDO

Talían (RS)
Enciclopédia ltaú Cultural de Artes Visuais (SP)

L1W O P!IW\ONIO EM flOCfSlO


ANfXO IX
BENS CUUURAIS E NhfURAIS DO BRASIL INSCRlfOS NA
usrh DO PMRIMÔNIO CUUURAL MUNOIM DA UNESCO*

. Cidade Hlstórica de Ouro Preto, MG (1 980) C


. Centro Hist0rico da Cidade de Olinda, PE (1982) C
Ruínas de São Miguel das Missões, RS (1984) C
Centro Histórico de Salvador, BA (1985) C
Santuário de Bom Jesus do Matoslnhos, Congonhas do Campo, MG
(1985) e
Parque Nacional do Iguaçu, PR (1986} N
Brasília, DF (1987) e
Parque Nacional da Serra da Capivara, PI (1991) C
Centro Histórico de São Luis, MA (1997) C
Costa do Descobrimento - reservas da Mata Atlântica, BA (1999) N
Mata Atlântica - rese rvas do Sudeste, SP e PR (1999) N
Centro Histórico da cidade de Diamantina, MG (1999) C
Parque Nacional Jaú, AM (2000) N
Área de conservação du Pantanal, MT e MS (2000) N
Ilhas atlânticas brasileiras: as reservas de Fernando de Noronha e do atol
das Rocas, PE e RN (2001) N
. Áreas protegidas do Cerrado: parques nacionais Chapada dos Veadeiros
e Emas, GO (2001) N
. Centro Histórico da cidade de Goiás, GO (2001) G

• Até dezembro de 2002 . A letra C indica beíls culturais: a letra N inoica os na1urais.