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CASO DE ENSINO

CASO DE ENSINO: DIESELGATE X SUSTENTABILIDADE


André Oliveira, Flávio Ramos Nogueira, Daniel Soares da Costa
Responsabilidade Social e Corporativa – Professor Marco Conejero

Resumo

Este caso visa esclarecer a contradição entre um dos maiores escândalos mundiais de fraudes
no setor automobilístico na emissão de poluentes, o Dieselgate (batizado pela imprensa), e o
conceito de Sustentabilidade que conforme a Volkswagen é tratado prioritariamente pela
companhia. Como uma empresa que em seu próprio site diz ter como princípio a honestidade e
transparência pôde utilizar um software para “maquiar” a emissão de gases poluentes de alguns
de seus modelos a diesel?
Palavras-chave: Dieselgate, Fraude, Sustentabilidade, Volkswagen, Software

O Grupo Volkswagen

O Grupo VOLKSWAGEN tem sede na Alemanha, precisamente na cidade de


Wolfsburg. É uma das empresas líderes mundiais no setor automobilístico e possui 12 marcas
de 7 países europeus diferentes. De acordo com o site da empresa, o grupo possui cerca de 550
mil funcionários em todo o mundo e produzem 37 mil veículos por dia, sendo comercializados
em 153 países.

“O objetivo do Grupo é oferecer veículos atraentes, seguro e ambientalmente saudável que são
competitivos em um mercado cada vez mais difícil e que estabeleceu padrões mundiais em suas
respectivas classes. ”
(Institucional do Grupo Volkswagen)

O Caso Dieselgate na Volkswagen

O escândalo de emissões de poluentes da Volkswagen, também conhecido por


Dieselgate foi um grande escândalo que envolveu várias técnicas fraudulentas usadas pela
Volkswagen, de 2009 a 2015, para reduzir as emissões de gás carbônico e óxido de nitrogênio
de alguns dos seus motores a diesel e gasolina nos testes regulatórios de poluentes.

Em setembro de 2015, a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos descobriu


em alguns modelos a diesel da marca Volkswagen, um software que altera os números de
emissão de poluentes somente quando os carros são sujeitos a testes. Os estudos de
comprovação foram realizados pela ICCT (International Council on Clean Transportation) e a
Universidade de West Virginia, que depararam com uma discrepância entre os testes realizados
e os oficiais da Volkswagen. (Revista Auto Esporte)
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Com a descoberta pelo órgão americano, as notícias se espalharam e logo na semana


seguinte a empresa assume que cerca de 11 milhões de veículos do grupo Volkswagen em todo
o mundo estão equipados com o software, inclusive automóveis em terras brasileiras. Vale
ressaltar que o grupo é detentor de diversas marcas automobilísticas, dentre elas a Audi, que
também foi envolvida no caso. A direção da Audi diz que cerca de 2,1 milhões de veículos
tiveram o software instalado. (Revista Auto Esporte)

Em 30 de Setembro é descoberto que gestores da base da VW em Wolfsburg, na


Alemanha, eram encarregados de lidar com todos os carros que não alcançavam as metas de
emissões. Os resultados de testes eram enviados de volta para a Alemanha, antes mesmo de
serem entregues à Agência de Proteção Ambiental (EPA). Quando um carro não conseguia
cumprir as metas de emissões da EPA, engenheiros da Volkswagen ou da Audi eram enviados
para os Estados Unidos para mexer com o veículo durante aproximadamente uma semana. ”
(Revista Auto Esporte)

Ainda conforme a Revista Auto Esporte, a Volkswagen do Brasil também foi envolvida
no caso. Milhares de unidades da picape Amarok possuem o software que fraudou os testes de
emissão nos EUA e na Europa. “Segundo a montadora, as unidades envolvidas são dos modelos
2011 e parcialmente os modelos 2012. A picape atualmente feita na Argentina é o único modelo
no mercado brasileiro que possui o motor EA189, que é produzido na Alemanha e contém o
dispositivo usado para as fraudes.

Sustentabilidade

O tema sustentabilidade nunca esteve em tão grande evidência desde a publicação do


conceito de desenvolvimento sustentável (DS).
A definição mais aceita para desenvolvimento sustentável é o desenvolvimento capaz
de suprir as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade de atender as
necessidades das futuras gerações. É o desenvolvimento que não esgota os recursos para o
futuro. Essa definição surgiu na Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento,
criada pelas Nações Unidas para discutir e propor meios de harmonizar dois objetivos: o
desenvolvimento econômico e a conservação ambiental.
[...]o desenvolvimento sustentável caracteriza-se, portanto, não como um estado fixo de
harmonia, mas sim como um processo de mudanças, no qual se compatibiliza a exploração de
recursos, o gerenciamento de investimento tecnológico e as mudanças institucionais com o
presente e o futuro[...] (CANEPA, 2007).

A sustentabilidade pode ser definida como a capacidade de o ser humano interagir com
o mundo, preservando o meio ambiente para não comprometer os recursos naturais das gerações
futuras.
O princípio da sustentabilidade aplica-se a desde um único empreendimento, passando
por uma pequena comunidade, até o planeta inteiro. Para que um empreendimento humano seja
considerado sustentável, é preciso que ele seja: Ecologicamente correto, economicamente
viável, socialmente justo, culturalmente diverso. A ação fraudulenta da gigante do setor
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automobilístico que consistia em utilizar um programa de computador que ativa o sistema de


controle de emissões de gases apenas durante os testes oficiais. Porém, no uso diário os carros
da montadora emitiam tantos poluentes quantos os carros normais. O que consiste em fraude.

Estamos diante de um momento crítico na história da


Terra, numa época em que a humanidade deve escolher
seu futuro. À medida que o mundo torna-se cada vez
mais interdependente e frágil, o futuro enfrenta, ao
mesmo tempo, grandes perigos e grandes promessas.
Para seguir adiante, devemos reconhecer que, no meio
de uma magnífica diversidade de culturas e formas de
vida, somos uma família humana e uma comunidade
terrestre com um destino comum. Devemos somar forças
para gerar uma sociedade sustentável global baseada no
respeito pela natureza, nos direitos humanos universais,
na justiça econômica e numa cultura da paz. Para chegar
a este propósito, é imperativo que nós, os povos da
Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com
os outros, com a grande comunidade da vida, e com as
futuras gerações (A Carta da Terra, 2002).

A pergunta é: o que leva uma empresa multinacional a efetuar uma fraude de tamanha
proporção sem levar em conta os riscos e consequências da descoberta da fraude? Dinheiro?
Falta de profissionalismo? Descaso? A empresa parece ir para um caminho inverso a tendência
mundial que é a redução de gases poluentes. E as consequências para tal fraude não serão
poucas.

As consequências não foram somente na imagem da empresa. O prejuízo total pode


chegar a 300 bilhões de reais. Além de multas e a desvalorização de suas ações nas Bolsas de
Valores.

“Nossa companhia foi desonesta com todos vocês” (Michael Horn, diretor-executivo da
Volkswagen nos Estados Unidos).

A Volkswagen foi condenada, em 1ª instância, a pagar um total de R$ 1,09 bilhão de


indenização aos 17.057 proprietários das picapes Amarok no Brasil que estão envolvidas na
fraude.Além disso, a Volkswagen deverá pagar R$ 1 milhão por dano moral coletivo à
sociedade brasileira - uma medida de "caráter pedagógico e punitivo", segundo a decisão.

A indenização total de R$ 1,092 bilhão (sem contar os juros) é muito maior que a multa
máxima de R$ 50 milhões estipulada pelo Ibama por infração ambiental em 2015, quando o
escândalo surgiu. O recall das 17 mil unidades da Amarok só foi anunciado depois de uma
determinação do Ibama., após testes feitos pela Companhia Ambiental Do Estado de São Paulo
(Cetesb), que apontaram que o dispositivo estava ativo no Brasil.
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Segundo a Cetesb, se não fosse pela ação do dispositivo fraudulento, as emissões de óxidos de
nitrogênio superariam o limite regulamentado e a picape teria sido reprovada nos testes de
homologação para venda.

Ações Reparadoras

Após o escândalo, a Volkswagen se viu obrigada a tomar medidas e realizar ações para
recuperar sua reputação perante a sociedade, governos e stakeholders. A primeira foi assumir o
erro publicamente, seguido de um pedido de desculpas público, o que acabou resultando na
renúncia do presidente global Martin Winterkorn (Revista Auto Esporte). Em nota oficial ele
cita:
[...]Estou chocado com os acontecimentos dos últimos dias. Acima de tudo, estou chocado de
que a má conduta em tal escala era possível no Grupo Volkswagen. Como CEO aceito a
responsabilidade pelas irregularidades que foram encontradas nos motores a diesel e como
aceitou o conselho do grupo, estou encerrando as minhas funções como presidente do Grupo
Volkswagen. Estou fazendo isso pelo bem da empresa, embora eu não tenha conhecimento de
nenhuma atitude errada da minha parte[...]

Uma semana após assumir o erro, a Volkswagen anuncia que iria reparar todos os
veículos alterados através de um recall. O grupo apresentou aos clientes e órgãos responsáveis
quais seriam os reparos feitos em cada modelo para solucionar o problema, com detalhes
técnicos sobre cada reparo, prometendo aos consumidores que isto não afetaria os veículos
(Revista Auto Esporte). Mesmo com a promessa de que a performance se manteria a mesma,
alguns consumidores reclamaram de perda de potência e aumento no consumo de combustível.
Apesar dos clientes levantarem suspeitas e exigirem a interrupção do recall até uma nova
solução ser apresentada, o grupo não reconheceu tais problemas e salientou que apenas 0,75%
dos consumidores apresentaram queixas formais após os processos de reparo, continuando suas
operações de recall (Revista WM1).

Outras ações como campanhas publicitarias afim de mostrar “um novo rumo” para o
grupo e investimentos em fundos ambientais e fundações relacionadas ao meio ambiente foram
realizados afim de recuperar a imagem manchada. Muitas dessas ações foram meramente
cumprimento de decisões judicias, como por exemplo o caso de pagamento de multas
milionárias e reparo de veículos. Decisões de diferentes países exigiram até mesmo
indenizações aos clientes se não cumpridos tais reparos. Analisando por essa conjuntura, nos
faz pensar em quais ações a Volkswagen verdadeiramente realizou com a conscientização
ambiental afim de respeitar seu próprio código de conduta e ética, e o qual acionistas estão
empenhados a seguir esse próprio código, afim de se relacionar como um grupo empresarial, e
menos com interesses individuais

Legado do “Dieselgate”
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Após os escândalos envolvendo a Volkswagen e Audi, outras companhias começaram


a ser investigadas por supostas fraudes, como Renault-Nissan, FCA, Suzuki e Mercedes-Benz.
Estas investigações e acusações geraram demissões nos respetivos grupos e outras intervenções
governamentais e de instituições regulatórias. Uma investigação do “The New York Times”
apontou que executivos da Volkswagen sabiam da fraude desde 2014, agravando ainda mais a
repercussão negativa e os encargos com a justiça (Revista Auto Esporte).

Após o escândalo, muito se foi discutido sobre a “morte” do Diesel, que acabou virando
o grande vilão da indústria automobilística depois do caso “Dieselgate” (Jornal ANotícia). O
parlamento europeu acabou votando um projeto de lei que acelera o fim do Diesel na Europa.
Grandes companhias automobilísticas já realizam estudos de novos projetos de veículos sem o
combustível (Revista Razão Automóvel).

Um novo paradigma?
O sonho de uma nova sociedade, de um novo sujeito social, de organizações e indivíduos
comprometidos com o ecossistema e com a justiça social precisa levar em consideração o fato
de estarmos inseridos em uma sociedade predominantemente capitalista.

A essência do capitalismo – impulsão e maximização do lucro –, fixa suas estratégias,


sem considerar a justiça social, e muito comumente atropelando a ética.

À sustentabilidade, antecedem os conceitos responsabilidade/vontade, que implicam o


engajamento em uma nova forma de “ver o mundo”. O que normalmente ocorre é que as
organizações, que assumiram papel de destaque no panorama social desde a revolução
industrial (século XVIII), se apropriam do discurso de mudança, sem tangenciar as essenciais,
como redução da exploração exacerbada do trabalho, despoluição do ambiente, respeito ao
ecossistema, combate à injustiça social/fome/miséria. Maquiam-se alguns aspectos, mas
mantêm-se a essência do modo de ver/produzir o mundo e o social.

Questões para Discussão

 Se tal fato ocorresse em 2017/2018, qual impacto seria sentido pela empresa? Somente
as multas e sanções impostas pelo governo e órgãos ambientais brasileiros ou haveria
também um boicote por parte dos consumidores a companhia, assim como realizado
com a empresa JBS?
 Com a descoberta da fraude, houve certamente uma divergência com os valores da
empresa. Você acha que a alta administração de fato está preocupada com os valores
ambientais ou buscam somente aumentar seus ativos?
 No Brasil, a companhia recebeu algumas multas. Você acha que foi o suficiente? Se
não, quais medidas poderiam ser aplicadas a mais?
 Outras companhias automobilísticas, engenheiros, agentes de fiscalização foram
envolvidas no caso. Como resolver o conflito entre interesses pessoais e a
responsabilidade social?
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 Quais outras ações reparadoras você acredita que a companhia poderia ter realizado para
recuperar sua reputação e compensar os danos causados?

Referências Bibliográficas

AUTOESPORTE, Redação. Entenda o caso dieselgate. Disponível em:


http://revistaautoesporte.globo.com/Noticias/noticia/2017/03/entenda-o-caso-dieselgate.html.
Acesso em: 27 de Outubro de 2017.

AUTOESPORTE, Redação. VOLKSWAGEN ANUNCIA REPARO AOS 11 MILHÕES


DE CARROS ENVOLVIDOS NA FRAUDE DE EMISSÕES. Disponível em:
http://revistaautoesporte.globo.com/Noticias/noticia/2015/09/volkswagen-anuncia-reparo-aos-
11-milhoes-de-carros-envolvidos-na-fraude-de-emissoes.html. Acesso em: 02 de Novembro de
2017

AUTOESPORTE, Redação. PRESIDENTE DA VOLKSWAGEN RENUNCIA APÓS


ESCÂNDALO DE FRAUDE DE EMISSÕES. Disponível em:
http://revistaautoesporte.globo.com/Noticias/noticia/2015/09/presidente-da-volkswagen-
renuncia-apos-escandalo-de-fraude-de-emissoes.html. Acesso em: 02 de Novembro de 2017

WM1. Dieselgate: clientes reclamam de perda de potência. Disponível em:


https://wm1.com.br/noticias-rapidas/dieselgate-clientes-reclamam-de-perda-de-potencia.
Acesso em: Acesso em: 02 de Novembro de 2017

ANOTÍCIA. O diesel na berlinda dois anos depois do 'dieselgate'. Disponível em:


http://anoticia.clicrbs.com.br/sc/mundo/noticia/2017/09/o-diesel-na-berlinda-dois-anos-
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https://www.razaoautomovel.com/2017/04/parlamento-europeu-morte-diesel. Acesso em: 02
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BARBOSA, Gisele Silva. O desafio do desenvolvimento sustentável. Revista Visões, Macaé,


Jan/Jun 2008

Comunicação Organizacional: Um novo cenário x uma velha postura? Dra. Marlene Branca
Sólio Universidade de Caxias do Sul, RS