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Cidadania digital e notícias falsas

No oceano de informação em que o maravilhoso mundo novo da world wide web nos
mergulhou, corremos o risco de acabar por viver na maior das ignorâncias e numa profunda
vulnerabilidade. De facto, informação em excesso, sem capacidade para a discernir, processar e
transformar em conhecimento, é a mesma coisa que estar perdido num labirinto babilónico.
Daí que o grande desafio de uma sociedade democrática seja o da cidadania, seja o
desígnio da formação de cidadãos lúcidos, críticos, responsáveis e livres, capazes de discernir,
com sabedoria, as luzes e as sombras dos tempos em que vivemos. Porque, em bom rigor, tudo
na vida oferece um lado luminoso e uma faceta obscura. Também a internet. Também as redes
sociais. Também estas, nas palavras de Hugo Daniel Sousa, são “fantásticas” e “perigosas”1. Aliás,
as “coisas” são o que são e, como tal, têm valor em si. As pessoas é que nem sempre as sabem
utilizar/ tratar com validade. Com critério. Com padrões éticos.
No caso dos media e das TIC, impõe-se, mais uma vez, a grande máxima da vida de não
comprarmos “gato por lebre”, nem nos deixarmos cair no “conto do vigário”. Como? Com literacia
e cidadania digitais! Com capacidade para ligar e para desligar. Para selecionar e para apagar.
Neste âmbito, a família e a escola desempenham um papel central, ajudando as gerações
mais novas a “distinguir entre facto e opinião, entre notícia e publicidade”, a estar atentas e a
saber confrontar, avaliar, selecionar apenas o que é bom, o que tem qualidade, enviando para a
reciclagem tudo aquilo que não passa de lixo, no fundo, a “saber ler criticamente os media”2.
A questão vai muito para além da problemática manipulatória das chamadas “notícias
falsas”. É que – sejamos claros – nenhuma notícia conta a verdade. A objetividade absoluta não
passa de um mito. O que uma notícia séria e leal oferece é, apenas, uma perspetiva, uma visão. E
o que um cidadão livre e responsável deve indagar é uma multiplicidade de “olhares”, para depois
ele próprio construir a sua leitura e interpretação de determinado facto ou acontecimento.
Numa linguagem poética, António Gedeão já chamava a atenção para esta dimensão
subjetiva da vida, no famoso poema “Impressão Digital”, escrito há mais de seis décadas:
“Os meus olhos são uns olhos
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não veem escolhos nenhuns.”3
A cidadania digital é, portanto, um imperativo ético e uma exigência da democracia.
Professores Renato Ferreira e Luís Arezes

1
Hugo Daniel Sousa, “As redes sociais são fantásticas. As redes sociais são perigosas”, in Público, 21 de janeiro de 2018,
p. 31.
2
Raquel Ramos, “Guia da sessão 6 – Dispositivos móveis na biblioteca – RBE, 2018”, p. 2. Disponível em
https://www2.nonio.uminho.pt/cenfipe/course/view.php?id=6 (acedido em 12.05.2018).
3
António Gedeão, “Impressão Digital”, in Movimento Perpétuo (1956).