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Altazor

Obra de Vicente Huidobro.

Traduzida por Gonzalo Dávila Bolliger.


Prefácio

Nasci aos trinta e três anos, no dia da morte de Cristo. Nasci no Equinócio, sob as
hortênsias e os aeroplanos de calor.

Tinha eu um olhar profundo de pardal, de túnel e de automóvel emotivo. Lançava


suspiros de acrobata.

Meu pai era cego e suas mãos eram mais admiráveis que a noite.

Amo a noite, chapéu de todos os dias.

A noite, a noite do dia, do dia ao dia seguinte.

Minha mãe falava como a aurora e como os dirigíveis que estão prestes a cair. Tinha
cabelos cor de bandeira e olhos cheios de navios distantes.

Uma tarde, peguei meu guarda-chuva e disse: “Entre uma estrela e duas andorinhas,”
Eis aqui a morte que se aproxima como a terra à esfera que cai.

Minha mãe bordava lágrimas desertas nos primeiros arco-íris.

E agora o meu guarda chuvas cai de sonho em sonho pelos espaços da morte.

No primeiro dia encontrei um pássaro desconhecido que me disse: “Se eu fosse um


dromedário eu não ia ter sede. Que horas são?” Bebeu as gotas de orvalho dos meus cabelos,
me lançou três olhares e meio e se afastou dizendo: “adeus” com seu lencinho soberbo.

Por volta das duas horas daquele dia, encontrei um belo aeroplano, cheio de caracóis
e escamas. Buscava um canto no céu onde proteger-se da chuva.
Ao longe, todos os barcos ancorados, na tinta da aurora. De repente, começaram a
desprender-se, um por um, arrastando como um pavilhão pedaços da aurora incontestável.

Ao se porem em marcha os últimos, a aurora desapareceu atrás das ondas


desmesuradamente inflamadas.

Então ouvi falar o Criador. Sem nome, que é um simples buraco no vazio, belo como o
mais belo dos umbigos.

“Fiz um grande barulho e esse barulho formou o oceano e as ondas do oceano.”

“Esse barulho irá sempre grudado nas ondas do mar e as ondas do mar sempre irão
grudadas nele, como os selos dos cartões postais.”

“Depois teci um longo barbante de raios luminosos para costurar os dias um por um;
os dias que têm um oriente reconstituído e legítimo, porém indiscutível.”

“Depois tracei a geografia da Terra e as linhas da mão.

“Depois bebi um pouco de conhaque (por causa da hidrografia).

“Depois criei a boca e os lábios da boca, para aprisionar os sorrisos furtivos e os dentes
da boca, para vigiar os palavrões que nos chegam à boca.

“Criei a língua da boca que os homens desviaram de seu fim, fazendo-a aprender a
falar... a ela, a bela nadadora, desviada para sempre de sua função aquática e puramente
acariciadora.”

Meu guarda-chuva começou a cair vertiginosamente. Assim é a força da atração da


morte e do sepulcro aberto.

Acredite, a sepultura tem mais poder que os olhos da amada. A sepultura aberta com
todos seus imãs. E isso digo a ti, a ti que quando sorri me faz pensar no começo do mundo.

Meu guarda-chuva ficou preso em uma estrela já extinta que seguia teimosamente a
sua órbita, como se ignorasse a inutilidade de seus esforços.

E aproveitando essa pausa bem ganha, comecei a preencher com pensamentos


profundos as casas do meu tabuleiro:
“Os poemas verdadeiros são incêndios. A poesia se propaga por todas as partes,
iluminando suas consumações com estremecimentos de prazer ou de agonia.

“Se deve escrever em uma língua que não seja materna.

“Os quatro pontos cardinais são três: o norte e o sul.

“Um poema é uma coisa que será.

“Um poema é uma coisa que nunca é, mas que deveria ser.

“Um poema é uma coisa que nunca foi, que nunca poderá ser.

“Foge do sublime externo, se você não quer ser esmagado pelo vento.

“Se eu não fizesse pelo menos uma loucura por ano, eu ficaria louco.”

Pego meu guarda-chuva, e da borda da minha estrela em marcha, me lanço à


atmosfera do último suspiro.

Rodopio interminavelmente sobre as rochas dos sonhos, rodopio entre as nuvens da


morte.

Encontro a Virgem sentada em uma rosa, e me fala:

“Olha minhas mãos: são transparentes como as lâmpadas. “Você não vê esses fios de
onde corre o sangue de minha luz toda intacta?

“Olha minha aureola. Ela tem algumas varizes, o que comprova a minha velhice.

“Sou a Virgem, a Virgem sem mancha de tinta humana, a única que não foi feita pela
metade, e sou a capitã das outras onze mil que estavam na verdade por demais restauradas.

“Falo uma língua que preenche os corações segundo a lei das nuvens comunicantes.

“Digo sempre adeus, e permaneço.

“Ama-me, filho meu, pois adoro a tua poesia e te ensinarei proezas aéreas.
Tenho tanta necessidade de ternura, beija meus cabelos, lavei eles esta manhã nas
nuvens da aurora e agora quero dormir sobre o colchão da neblina intermitente.

“Meus olhares são um arame no horizonte para o descanso das andorinhas.

“Ama-me.”

Me pus de joelhos no espaço circular e a Virgem se alçou e veio sentar-se em meu


paraquedas.

Adormeci e recitei então meus mais belos poemas.

As chamas de minha poesia secaram os cabelos da Virgem, que me deu obrigado e se


afastou, sentada sobre sua rosa amolecida.

E eis-me aqui, só, como o pequeno órfão dos naufrágios anônimos.

Ah, que belo... que belo...

Vejo as montanhas, os rios, as selvas, o mar, os barcos, as flores e os caracóis.

Vejo a noite e o eixo em que se juntam.

Ah, ah, sou Altazor, o grande poeta, sem cavalo que coma alpiste, nem esquente sua
garganta com claro de lua, a não ser com meu pequeno paraquedas como um guarda-sol sobre
os planetas.

De cada gota de suor da minha testa fiz que nascessem estrelas, as quais deixo a vocês a
tarefa de batizar como a garrafas de vinho.

Eu vejo tudo, meu cérebro está forjado nas línguas de profeta, termômetro inchado até
tocar os pés da amada.

Aquele que tudo já viu, que conhece todos os secretos sem ser Walt Whitman, pois
jamais tive uma barba branca como as belas enfermeiras e os riachos gelados.

Aquele que ouve durante a noite as marteladas dos moedeiros falsos, que são apenas
astrônomos ativos.
Aquele que bebe o copo quente da sabedoria depois do dilúvio obedecendo às pombas e
que conhece a rota do cansaço, a espuma fervente que deixam os barcos.

Aquele que conhece os armazéns de lembranças e as belas estações esquecidas.

Ele, o pastor de aeroplanos, o condutor das noites extraviadas e dos poentes adestrados
em direção aos polos únicos.

Sua queixa é semelhante a uma rede bruxuleante de aerólitos sem testemunha.

O dia se levanta em seu coração e ele desce as pálpebras para fazer a noite do repouso
agrícola.

Lava as mãos no olhar de Deus, e penteia seus cabelos como a luz e a colheita dessas
magras espigas da chuva satisfeita.

Os gritos se afastam como um rebanho sobre as campinas quando as estrelas dormem


depois de uma noite de trabalho seguido.

O belo caçador diante do bebedouro celeste feito para os pássaros sem coração.

Sê triste como as gazelas diante do infinito e os meteoros, tal qual os desertos sem
miragens.

Até a chegada de uma boca inchada de beijos para a vindima do desterro.

Sê triste, pois ela te espera em um recanto deste ano que passa.

Está talvez no extremo de tua próxima canção e será bela como a cascata em liberdade e
rica como a linha equatorial.

Sê triste, mais triste que a rosa, a bela jaula de nossos olhares e das abelhas sem
experiência.

A vida é uma viagem de paraquedas e não o que você quer que seja.

Vamos caindo, caindo do nosso zênite ao nosso nadir e deixamos o ar manchado de


sangue para que se envenenem aqueles que venham amanhã respirá-lo.
Adentro de ti mesmo, afora de ti mesmo, você cairá do zênite ao nadir porque esse é teu
destino, teu miserável destino. E de quanto mais alto você cair, mais alto será o rebote, mais
longa a tua duração na memória da pedra.

Saltamos do ventre de nossa mãe ou da borda de uma estrela e assim vamos caindo.

Ah meu paraquedas, a única rosa perfumada da atmosfera, a rosa da morte, despencada


entre os astros da morte.

Ouviram? Esse é o barulho sinistro dos peitos fechados.

Abre a porta de tua alma e sai para respirar do lado de fora. Você pode abrir com um
suspiro a porta que haja fechado o furacão.

Homem, eis aqui teu paraquedas maravilhoso como o vértigo1.

Poeta, eis aqui teu paraquedas, maravilhoso como o imã do abismo.

Mago, eis aqui teu paraquedas que uma palavra tua pode transformar em parasubidas
maravilhoso como o relâmpago que queria cegar o criador.

O que esperas?

Mas eis aqui o segredo do Tenebroso que se esqueceu de sorrir.

E o paraquedas espera amarrado na porta como o cavalo da fuga interminável.

1
O correspondente gramaticalmente correto seria “vertigem”, mas mantive “vértigo” pela sonoridade.
Canto I

Altazor, por que perdeste a tua serenidade primeira?


Que anjo mau se deteve na porta de teu sorriso
Com uma espada na mão?
Quem semeou a angústia nos descampados de teus olhos como o
enfeite de um deus?
Por que um dia de súbito você sentiu o terror de ser?
E essa voz que te gritou vives e não vês que estás vivo?
Quem fez convergir teus pensamentos no encontro
De todos os ventos da dor?
Se rompeu o diamante de teus sonhos em um mar
de estupor
Você está perdido Altazor
Sozinho no meio do universo
Só como uma nota que floresce na altura do vazio
Não há bem não há mal nem verdade nem ordem nem beleza

Onde está você Altazor?2

A nebulosa da angústia passa como um rio


E me arrasta segundo a lei das atrações
A nebulosa em odores solidificada foge da sua própria
solidão
Sinto um telescópio que me aponta como um
revólver
A cauda de um cometa me açoita pelo rosto e passa
repleta de eternidade
Buscando infatigável um lago onde possa
refrescar a sua tarefa iniludível

Altazor morrerás Se secará a tua voz e serás invisível


A Terra seguirá girando em sua órbita precisa
Temente de um tropeço como o equilibrista sobre
o arame que aprisiona os olhares de pavor
Em vão buscas o olho enlouquecido
Não há porta de saída e o vento desloca
os planetas
Pensas que não importa cair eternamente se consegues
escapar
Não percebes que estás caindo já?
Limpa a tua cabeça de preconceito e moral
E se querendo levantar-te nada tens alcançado
2
Isolei o verso para aumentar a sensação de solidão.
Deixa-te cair sem parar tua queda sem medo ao fundo
de tua sombra
Sem medo ao enigma de ti mesmo
Porventura encontres uma luz sem sua noite
Perdida nas fendas dos precipícios

Cai
Cai eternamente
Cai ao fundo do infinito
Cai ao fundo do tempo
Cai ao fundo de ti mesmo
Cai o mais baixo que possas cair
Cai sem vertigem
Através de todos os espaços e de todas as idades
Através de todas as almas de todos os anseios e
de todos os naufrágios
Cai e queima ao passar os astros e os mares
Queima os olhos que te veem e os corações
que te aguardam
Queima o vento com tua voz
O vento que se emaranha em tua voz
E a noite que tem frio em sua gruta de ossos

Cai em infância
Cai em velhice
Cai em lágrimas
Cai em risadas
Cai em músicas encima do universo
Cai de tua cabeça a teus pés
Cai de teus pés a tua cabeça
Cai do mar à sua fonte
Cai ao último abismo do silêncio
Como o barco que se afunda apagando as suas luzes

Tudo está acabado


O mar antropófago golpeia na porta das rochas
Impiedosas
Os cães latem no segundo que morrem
E o céu escuta o passo das estrelas que se afastam
Você está só
E vai em direção à morte como um iceberg que se desprende do polo
Cai a noite buscando seu coração no oceano

O olhar se expande como as correntezas


E enquanto as ondas dão voltas
A lua criança de luz escapa do alto mar
Olha este céu todo cheio
Mais rico que os riachos das minas
Céu cheio de estrelas que esperam o batismo
Todas essas estrelas respingos de um astro de pedra lançado nas águas eternas
Não sabem o que querem nem se há redes ocultas mais além
Nem que mão segura as rédeas
Nem que peito sopra o vento sobre elas
Nem sabem se não há mão e não há peito
As montanhas de pesca
Têm a altura de meus desejos
E eu arremesso para afora da noite minhas últimas angústias
Que os pássaros cantando dispersam pelo mundo

Consertem o motor da aurora


Enquanto me sento na borda de meus olhos
Para assistir a entrada das imagens

Sou eu Altazor
Altazor
Enjaulado na gaiola de seu destino
Em vão me apego às grades da fuga possível
Uma flor fecha o caminho
E se levantam como a estátua das chamas
A evasão impossível
Mais fraco com minhas ânsias avanço
Que um exército sem luz no meio de emboscadas

Abri os olhos no século


Em que morria o cristianismo
Retorcido em sua luz agonizante
Já vai dar o último suspiro
E amanhã o que poremos nesse espaço vazio?
Poremos uma aurora ou um crepúsculo?
E têm-se por acaso que pôr algo?
A coroa de espinhos
Transbordando suas últimas estrelas se resseca
Morrerá o cristianismo que não resolveu nenhum problema
Que somente ensinou orações mortas
Morre depois de dois mil anos de existência
Um bombardeio enorme põe um ponto final à era cristã
O Cristo quer morrer acompanhado de milhões de almas
Afundar-se com seus templos
E atravessar a morte com um imenso cortejo
Mil aeroplanos vem saudar a nova era
Eles são os profetas e as bandeiras

Faz seis meses apenas


Deixei a equatorial recém cortada
Na sepultura guerreira do escravo paciente
Coroa de piedade sobre a humana estupidez
Sou eu que estou falando neste ano de 1919
É o inverno
Já a Europa enterrou todos seus mortos
E mil lágrimas compõem uma só cruz feita de neve
Olhai essas estepes que sacodem as mãos
Milhões de operários compreenderam ao fim
E levantam ao céu suas bandeiras de aurora
Chegai chegai os esperamos porque sois a esperança
A única esperança
A última esperança

Sou eu Altazor o duplo de mim mesmo


O que se olha atuar e ri do outro cara a cara
O que caiu das alturas de sua estrela
E por vinte e cinco anos viajou
Pendurado no paraquedas de seus próprios preconceitos
Sou eu Altazor o da ânsia infinita
Da fome infinita e sem esperança
Carne semeada por arados de angústia
Como conseguirei dormir enquanto por dentro existam terras sem conhecer?
Problemas
Mistérios que se penduram do meu peito
Estou só
A distância que vai de corpo a corpo
É tão grande como a que há de alma em alma



Estou sozinho de pé na ponta do ano que agoniza
O universo se rompe em ondas a meus pés
Os planetas giram ao redor da minha testa
E me despenteiam ao passar com o vento que deslocam
Sem dar uma resposta que preencha os abismos
Nem sentir este anseio fabuloso que busca na fauna do céu
Um ser materno onde durma o coração
Um leito na sombra do redemoinho de enigmas
Uma mão que acarinhe os latidos da febre
Deus dissolvido no nada e no todo
Deus tudo e nada
Deus nas palavras e nos gestos
Deus mental
Deus hálito e alento3

3
As palavras do português “hálito” e “alento” são duas asserções possíveis de “aliento” do espanhol. Além
disso, funcionam com o ritmo da tradução, a qual preserva o ritmo de “feitiço” do original.
Deus jovem Deus velho
Deus todo podre
Próximo e distante
Deus amarfanhado a meu pesar

Continuemos cultivando no cérebro as terras do erro


Continuemos cultivando as terras autênticas no peito
Continuemos
Sempre igual como ontem amanhã e em breve e depois
Não
Não pode ser. Transformemos assim nossa sorte
Queimemos nossa carne nos olhos da aurora
Bebamos a lucidez tímida da morte
A lucidez polar dessa morte
Canta o caos para o caos que tem peito de homem
Chora de eco em eco por todo o universo
Rodopiando com seus mitos no meio a alucinações
Angustia de vazio em alta febre
Amarga consciência do vão sacrifício
Da experiência inútil do fracasso celeste
Do esboço perdido
E ainda depois que o homem tenha desaparecido
Que até sua lembrança se queime na fogueira do tempo
Ficará um sabor a dor na atmosfera terrestre
Tantos séculos respirada por miseráveis peitos que pranteiam
Restará no espaço a sombra sinistra
De uma lágrima imensa
E uma voz perdida uivando desolada
Nada nada nada
Não
Não pode ser
Consumamos o prazer
Esgotemos na vida a vida
Morra a morte infiltrada de langorosas rapsódias
Infiltrada de tênues pianos e bandeiras mutantes como casulos
As rochas da morte se queixam na borda do mundo
O vento arrasta suas fosforescências amargas
E o desconsolo das primaveras que não podem
Nascer
Todas são armadilhas
Armadilhas do espírito
Transfusões elétricas de sonho e realidade
Escuras lucidões4 dessa desesperação longa petrificada em solidão
Viver viver nas trevas
Entre correntes de anseios tirânicos colares de gemidos

4
Neologismo. Mantive o recurso do original.
E um eterno viajar nos adentros de si mesmo
Com dor de limites constantes e vergonha de anjo maltrapilho
Zombarias de um deus noturno
Rodopiar rodopiar rompidas as antenas no meio do espaço
Entre mares alados e estagnadas auroras

Eu estou aqui de pé ante vocês


Em nome de uma idiota lei decretadora
Da conservação das espécies
Lei imunda
Desprezível lei arraigada nos sexos ingênuos
Por essa lei primeira armadilha da inconsciência
O homem se desgarra
E se parte em uivos mortais por todos os poros da terra
Eu estou aqui de pé entre vocês
Caem minhas ânsias ao vazio
Caem meus gritos à nada
Caem ao caos minhas blasfêmias
Cachorro do infinito trotando entre astros mortos
Cachorro lambendo estrelas e lembranças de estrela
Cachorro lambendo sepulturas
Quero a eternidade como uma pomba em minhas mãos

Tudo há de afastar-se na morte esconder-se na morte


Eu tu ele nós vocês vós eles5
Ontem hoje nunca6 amanhã
Pasto nas goelas do insaciável olvido
Pasto para a ruminação do caos insaciável
Justiça, o que você fez de mim Vicente Huidobro?
Sobre mim cai a dor da língua e das asas sempre murchas
Sobre mim caem os dedos mortos um por um
O que você fez da minha voz carregada de pássaros no entardecer
A voz que me doía como o sangue?
Deem-me o infinito como uma flor pra minhas mãos

Continuar
Não. Já basta
Seguir carregado de mundos de países de cidades
Multidões latidos
Coberto de climas hemisférios ideias lembranças
Entre teias de aranha de sepulturas e planetas conscientes
Continuar da dor para a dor de enigma em enigma

5
No original estão os seis pronomes pessoais. Na tradução agreguei o “vocês”. Isso porque nela usei tanto o
“vós” como o vocês”, e tanto o “você” como o “tu”. A escolha variou pelo ritmo, pela coloquialidade ou não-
coloquialidade do trecho e por seu discurso mais “baixo” ou “elevado”.
6
O “nunca” foi adicionado para manter o ritmo em relação ao verso anterior.
Da dor da pedra à dor da planta
Porque tudo é dor
Dor da batalha e medo de não ser
Laços de dor prendem a terra ao céu as águas à terra
E os mundos galopam em órbitas de angústia
Pensando na surpresa
A latente emboscada em todos os recantos do espaço
Me doem os pês como rios de pedra
O que você fez de meus pés?
O que você fez desta besta universal
Com este errante animal?
Esta ratazana em delírio que escala as montanhas
Sobre um hino boreal ou alarido de terra
Sujo de terra e choro
de terra e sangue
Açoitado de espinhos e os olhos em cruz
A consciência é amargura
A inteligência é decepção
Apenas nos arredores da vida
Se pode plantar uma pequena ilusão

Olhos ávidos de lágrimas fervendo


Lábios ávidos de maiores lamentos
Mãos enlouquecidas de apalpar tantas trevas
Buscando mais trevas
E esta amargura que dá voltas pelos ossos
E este enterro na minha memória
Este enterro que se expande em minha memória
Este longo enterro que atravessa todos os dias minha
memória
Continuar
Não
Que se rompa o andaime dos ossos
Que sejam derrubadas as vigas do cérebro
E arraste o furacão os pedaços do nada ao outro lado
Onde o vento açoita Deus
Onde ainda ressoe meu violino gutural
Acompanhando o piano póstumo do juízo final

Eres tu tu
A queda eterna sobre a morte
A queda sem fim de morte à morte
Enfeitiça com tua voz o universo
Apega-te a tua voz enfeitiçadora do mundo
Cantando como um cego na eternidade perdido
Anda em meu cérebro uma gramática brutal e dolorosa
A matança seguida de conceitos internos
E uma última aventura de esperanças celestes
Uma desordem de estrelas imprudentes
Decaídas dos sortilégios sem refúgio
Tudo o que se esconde e nos incita com imãs fatais
O que se esconde nas frias regiões do invisível
Ou na ardente tempestade do crânio

A eternidade se transforma em caminho de flor


Para o retorno de espectros e problemas
Para a miragem sedenta das hipóteses novas
Que quebram o espelho da magia possível

Liberação, Oh! sim, liberação de tudo


Liberação da própria memória que nos rege
Das profundas vísceras que sabem o que sabem
Por causa dessas feridas que nos prendem ao fundo
E nos partem os gritos das asas

A magia e o sonho limam as grades


A poesia chora na ponta da alma
E cresce a inquietude olhando novos muros
Alçados de mistério em mistério
Entre minas de mistificação que abrem suas chagas
Com o cerimonial inesgotável de aurora conhecida
Tudo em vão
Deem-me as chaves dos sonhos trancados
Deem-me as chaves do naufrágio
Deem-me uma certeza de raízes no pacato horizonte
Um descobrimento que não fuja a cada passo
Ou deem-me um belo e verde naufrágio
Um milagre que ilumine o fundo de nossos íntimos mares
Como o barco que se afunda sem apagar suas luzes.
Liberto deste trágico silêncio então
Desafiarei o vazio
Sacudirei o nada com blasfêmias e gritos
Até que caia um raio de castigo
Trazendo o clima do paraíso às minhas trevas

Por que sou prisioneiro desta trágica busca?


O que é que me chama e se esconde?
Me segue grita por meu nome
E quando viro o rosto alongo as mãos dos olhos
Me cobre com uma névoa tenaz como a noite dos astros já mortos?
Sofro me contorço na angústia
Sofro desde que era nebulosa
E trago desde então nas células esta dor primordial
Este peso nas asas
Esta pedra no canto
Dor imensa de ser ilha
Angústia subterrânea
Angústia cósmica
Multiforme angústia anterior à minha vida
E que segue como uma marcha militar
E que irá mais além
Até o outro lado da periferia universal

Consciente
Inconsciente
Disforme
Sonora
Sonora como o fogo
O fogo que me queima o carvão interno e o álcool
dos olhos

Sou uma orquestra trágica


Um trágico conceito
Sou trágico como os versos que dão pontadas nas têmporas e não podem
Sair
Arquitetura fúnebre
Matemática fatal e sem esperança alguma
Camadas superpostas de dor misteriosa
Camadas superpostas de ânsias mortais
Subsolos de intuições fabulosas

Séculos e séculos que vem gemendo em minhas veias


Séculos que se balançam em meu canto
Que agonizam em minha voz
Porque minha voz é só canto e só em canto pode sair
O berço de minha língua se balançou no vazio
Anterior ao próprio tempo
E guardará eternamente o ritmo primeiro
O ritmo que faz que nasçam os mundos
Sou a voz do homem que ressoa nos céus
Que amaldiçoa e reclama
E pede explicações de por quê e para quê

Sou todo o homem


O homem ferido por deus sabe quem
Por uma flecha perdida do caos
Humano terreno desmesurado
Sim desmesurado e o proclamo sem medo
Desmesurado porque não sou burguês nem raça fatigada
Sou bárbaro talvez
Desmesurado doente
Bárbaro limpo de rotinas e caminhos traçados
Não aceito vossas cadeiras de cômodos cintos
Sou o anjo selvagem que caiu numa manhã
Em vossas plantações de preceitos
Poeta
Antipoeta
Culto
Anticulto
Animal metafísico carregado de pesares
Animal espontâneo sangrando sem cessar seus problemas
Solitário como um paradoxo
Paradoxo fatal
Flor de contradições dançando um fox-trot
Sobre a sepultura de Deus
Sou um terremoto
Os sismógrafos sinalizam meu passo pelo mundo

Rangem as rodas da terra


E vou andando a cavalo à minha morte
Vou grudado à minha morte como um pássaro ao céu
Como uma data na árvore que cresce
Como o nome na carta que envio
Vou grudado à minha morte
Apoiado na bengala do esqueleto

O sol nasce no meu olho direito e se põe no meu olho esquerdo


Na minha infância uma infância ardente como um álcool
Me sentava nos caminhos da noite
A escutar a eloquência das estrelas
E a oratória da árvore
Agora a indiferença neva no entardecer da minha alma
Desfaçam-se em espigas as estrelas
Quebre-se a lua em mil espelhos
Volte a árvore ao ninho de sua amêndoa
Quero apenas saber por quê
Por quê
Por quê
Sou protesto e aranho com minhas garras o infinito

E grito e gemo com miseráveis gritos oceânicos


O eco de minha voz faz trovejar todo o caos

Sou desmesurado cósmico


As pedras as plantas as montanhas
Me cumprimentam As abelhas os ratos
Os leões e as águias
Os astros os crepúsculos auroras
Os rios e as selvas me perguntam
Quais as boas novas como vai o senhor?
E enquanto os astros e as ondas tenham algo a dizer
Será por minha boca que falarão todos os homens

Que Deus seja Deus


Ou Satã seja Deus
Ou ambos sejam medo noturna ignorância
É tudo a mesma coisa
Quer seja a Via Láctea
Ou uma procissão que ascende em prol da verdade
Hoje para mim tanto faz
Tragam-me uma hora que viver
Tragam-me um amor pescado pela orelha
E o deitem aqui para morrer ante meus olhos
Que eu caia pelo mundo a toda máquina
Que eu corra pelo universo a toda estrela
Que me afunde ou me eleve
Atirado sem piedade entre colisões e planetas
Senhor Deus se você existe é a mim a quem deve

Matai a dúvida horrível


E a lucidez espantosa
Homem com os olhos abertos na noite
Até o fim de todos os séculos
Enigma nojo dos contagiosos instintos
Como os sinos da exaltação
Passageiro de luzes mortas que andam com os pés de espectro
Com os pés indulgentes de riacho
Que arrasta as nuvens e muda de país

No tapete do céu se joga a nossa sorte


Ali onde morrem as horas
O pesado cortejo das horas que golpeiam o mundo
Se joga a nossa alma
E a sorte que se esvai toda manhã
Sobre as nuvens com os olhos enchidos de choro
Sangra a ferida das últimas crenças
Quando o fuzil desconsolado do humano refúgio
Despendura os pássaros do céu
Olha-te ali animal fraterno nu de todo nome
Junto ao bebedouro de gado de teus próprios limites
Debaixo da aurora benigna
Que cerce o tecido das marés
Olha vem ao longe a corrente de homens
Saindo da usina de idênticas ânsias
Mordidos pela mesma eternidade
Pelo mesmo furacão de fascinações vagabundas
Cada um traz sua palavra sem forma
E os pés amarrados a sua estrela pessoal
As máquinas avançam na noite do diamante fatal
Avança o deserto com suas ondas sem vida
Passam as montanhas passam os camelos
Como a história das guerras antigas
Lá vai a corrente de homens entre fogos ilusórios
Até a pálpebra tumbal7

Depois da minha morte um dia


O mundo será pequeno às pessoas
Plantarão continentes sobre os mares
Serão feitas ilhas no céu
Passará a existir uma ponte de metal em volta à Terra
Como os anéis construídos em Saturno
Existirão cidades tão grandes como países
Gigantescas cidades do porvir
Onde o homem-formiga será só uma cifra
Um número que se mexe e sofre e dança
(Um pouco de amor de vez em quando
Como uma harpa que faz que esqueçamos a vida)
Jardins de tomates e repolhos
Os parques públicos plantados de árvores frutíferas
Não há carne que comer o planeta é estreito
E as máquinas mataram o último animal
Árvores frutíferas em todos os caminhos
O aproveitável só o aproveitável
Ah a belíssima vida que preparam as fábricas
A horrível indiferença dos astros sorridentes
Refúgio da música
Que foge das mãos dos últimos cegos

Angústia angústia do absoluto e da perfeição


Angústia desolada que atravessa as órbitas perdidas
Contraditórios ritmos rompem o coração
Em minha cabeça cada cabelo pensa em outra coisa

Um tédio invade o buraco que vai da aurora ao poente


Um bocejo da cor do mundo e da carne
Cor espírito envergonhado de quiméricas coisas
Luta entre a pele e o sentir de uma dignidade bebida
E jamais outorgada.

7
Por questões de ritmo mantive a mesma palavra que no espanhol. Nesse caso, ela atua como um
neologismo.
Nostalgia de ser barro e pedra ou Deus
Vertigem do nada caindo de sombra em sombra
Inutilidade dos esforços fragilidade do sonho

Anjo expatriado da prudência


Por que falas Quem te pede que fales?
Explode pessimista mas explode em silêncio
Como irão rir os homens daqui a mil anos
Homem cão que à tua própria noite estás uivando
Delinquente da tua alma
O homem de amanhã irá zombar de ti mesmo
E de teus gritos petrificados gotejando estalactites
Quem é você habitante deste diminuto cadáver estelar?
O que são tuas náuseas de infinito e tua ambição de eternidade?
Átomo desterrado de si mesmo com portas e janelas de luto
De onde você vem pra onde vai?
Quem se preocupa por teu planeta?
Inquietude miserável
Escória do desprezo que por ti sentiria
Um habitante de Betelgeuse
Vinte e nove milhões de vezes maior que o teu sol

Falo porque sou protesto insulto e careta de dor


Só acredito nos climas da paixão
Só devem falar os que têm o coração clarividente
A língua em alta frequência
Mergulhadores da verdade e da mentira
Cansados de passear suas lanternas nos labirintos do nada
Na caverna de alternados sentimentos
A dor é o único eterno
E ninguém mais poderá rir frente ao vazio
O que me importa a zombaria do homem-formiga
Ou do habitante de outros astros maiores?
Eu não sei deles nem eles de mim
Eu sei da minha vergonha da vida de meu nojo celular
Da mentira abjeta de tudo quanto edificam os homens
Os pedestaais de ar de suas leis e ideais8

Deem-me deem-me logo um descampado de silêncio


Um descampado uma planície
Sem gente como os olhos dos mortos9

8
Letra “a” acrescentada na tradução à palavra pedestais. Com esse recurso, se pretende manter o ritmo ao
mesmo tempo que reforça a própria natureza do “ar”, a falta de solidez das “leis” e “ideais”.
9
Essa estrofe tem três versos, ao contrário da original que possui dois. Pretendi usar a palavra
“descampado”, que foi usada na tradução no começo deste canto, e usar a palavra planície, a qual surgirá
um par de vezes em versos posteriores. Por isso, agreguei o segundo verso “um descampado uma planície”.
Robinson, por que você voltou da tua ilha?
Da ilha de tuas obras e de teus sonhos privados
A ilha de ti mesmo rica por teus atos
Sem leis nem abdicação nem compromissos
Sem fiscalização do olho intrometido
Nem mão estranha que quebre esses encantos
Robinson como é possível você voltar da tua ilha?

Amaldiçoado o que veja com olhos de morte


Amaldiçoado o que veja a mola que move o mundo
Uma tempestade por dentro do riso
Uma agonia de sol bem dentro do riso
Matai o pessimista de pupila enlutada
O que leva um túmulo no cérebro
Tudo é novo quando se vê com olhos novos
Ouço uma voz idiota entre as algas da ilusão
Boca parasitaria ainda da esperança

Vão para bem longe daqui restos de praias moribundas


Mas se buscais descobrimentos
Terras irrealizáveis mais além dos firmamentos
Vegetativa obsessão de angústia musical
Com que fim buscais o farol crepuscular
Vestido de sua própria cabeleira
Como a rainha dos circos?
Voltemos ao silêncio
Ao silêncio das palavras que provém do silêncio
Ao silêncio das hóstias onde morrem os profetas
Com a chaga do flanco
Cauterizada por um relâmpago qualquer

As palavras com febre e vertigem interna


As palavras do poeta provocam um enjoo celeste
Provocam uma doença de nuvens
Contagioso infinito de planetas errantes
Epidemia de rosas na eternidade

Abram a boca para receber a hóstia da palavra ferida


A hóstia ardente e angustiada que nasce de mim não sei onde
Que vem de mais longe que meu peito
A catarata delicada de ouro em liberdade
Correr de rio sem destino como aerólitos ao acaso
Uma coluna se ergue na ponta da voz
E a noite se senta na coluna
Eu povoarei para mil anos os sonhos dos homens
E lhes darei um poema que transborde em coração
No qual por todo canto irei despedaçar-me

Uma lágrima cairá de uns olhos


Como algo enviado sobre a terra
Quando você ver como uma ferida profetiza
E reconheça a carne desgraçada
O pássaro cegado na catástrofe celeste
Achado em meu peito solitário e sedento
Entrementes eu me afasto atrás dos barcos magnéticos
Vagabundo como eles
E mais triste que um cortejo de sonâmbulos cavalos

Há palavras que têm sombra de árvore


Outras que têm atmosfera de astros
Há vocábulos que têm fogo de raios
E incendeiam onde caem
Outros que se congelam na língua e se rompem ao sair
Como esses cristais alados e fatídicos
Há palavras com imãs que atraem os tesouros do abismo
Outras que se descarregam como vagões sobre a alma
Altazor desconfia das palavras
Desconfia do ardil cerimonioso
E da poesia
Trapaças
Trapaças de luz e cascatas luxuosas
Trapaças de pérola e de lâmpada aquática
Anda como os cegos com seus olhos de pedra
Pressentindo o abismo a cada passo

Mas não temas por mim que minha linguagem é outra


Não trato de fazer ninguém feliz ou desgraçado
Nem despendurar bandeiras dos peitos
Nem dar anéis de planetas
Nem fazer satélites de mármore ao redor de um alheio talismã
Quero te dar uma mistura de espírito
Música minha desta cítara plantada em meu corpo
Música que faz pensar no crescimento das árvores
E explode em luminárias por dentro do sonho
Eu falo em nome de um astro por ninguém conhecido
Falo em uma língua molhada em mares não nascidos
Com uma voz cheia de eclipses e distâncias
Solene como um combate de estrelas ou galerias longínquas
Uma voz que tira suas fundas na noite das rochas
Uma voz que dá visão a todos os cegos atentos
Os cegos escondidos no fundo das casas
Como no fundo de si mesmos

Os veleiros que partem a distribuir minha alma pelo mundo


Irão voltar convertidos em pássaros
Uma bela manhã alta de inúmeros metros
Alta como a árvore cujo fruto é o sol
Uma manhã frágil e quebrável
Na hora em que as flores lavam seu rosto
E os últimos sonhos pelas janelas vão fugindo

Tanta exaltação para arrastar os céus para a língua


O infinito se instala no ninho do peito
Tudo se torna pressagio
Anjo no entanto10
O cérebro se torna terremoto que revela
E a hora despavorida foge pelos olhos
Os pássaros gravados no zênite não cantam
O dia se suicida atirando-se ao mar
Um barco vestido de luzes se afasta tristemente
E no fundo das ondas um peixe escuta o passo dos homens

Silêncio a terra vai dar à luz a uma árvore


A morte se pôs a dormir no pescoço de um cisne
E cada pluma possui um distinto tremor
Agora que Deus se senta sobre a tempestade
Que pedaços de céu caem e se entrelaçam na selva
E que o tufão despenteia as barbas do pirata
Agora lancem a morte ao vento
Para que o vento abra seus olhos

Silêncio a terra vai dar à luz a uma árvore


Tenho cartas secretas na caixa do crânio
Tenho um carvão dolente no fundo do peito
E conduzo o meu peito à minha boca
E a boca à porta do sonho

O mundo penetra por meus olhos


Penetra por minhas mãos penetra por meus pés
Penetra pela minha boca e sai de mim
Em insetos celestes ou nuvens de palavras pelos poros
Silêncio a terra vai dar à luz a uma árvore
Meus olhos na gruta da hipnose
Mastigam o universo que me atravessa como um túnel

10
A tradução literal seria “então”. Como o efeito rítmico é mais importante nesse caso que o significado em
si, preferi pôr “no entanto”; palavra que, mesmo sendo uma conjunção (e portanto não evoca nenhuma
imagem em si), possui beleza.
Um escalafrio de pássaro sacode meus ombros
Escalafrio de asas e ondas interiores
Ancoradouros de ondas e asas no sangue
Se rompem as amarras das veias
E salta para fora da carne
Sai das portas da terra
Entre pombas assustadas

Habitante de teu destino


Por que queres sair de teu destino?
Por que queres romper os laços de tua estrela?
E viajar solitário entre os espaços
E cair pelo teu corpo de teu zênite a teu nadir?

Não quero ataduras de astro nem de vento


Ataduras de lua boas são para o mar e as mulheres
Deem-me meus violinos de vertigem insubmissa
Minha liberdade de música exilada
Não há perigo na noite pequena encruzilhada
Nem enigma sobre a alma
A palavra eletrizada de sangue e coração
É o grande paraquedas e o para-raios de Deus

Habitante de teu destino


Grudado no teu caminho como rocha
Já vem a hora do sortilégio resignado
Abre a mão de teu espírito
O magnético dedo
Onde o anel da serenidade adolescente
Irá pousar cantando como o pródigo canário
Longos anos ausente

Silêncio
Ouve-se mais pálido que nunca o pulso do mundo
A terra acaba de iluminar uma árvore.
Canto II
Mulher o mundo está mobiliado por teus olhos
Em tua presença o céu fica mais alto
A terra de rosa em rosa se expande
E o ar de pomba em pomba se dilata

Ao te afastar você deixa uma estrela em teu lugar


Deixas cair tuas luzes como o barco que passa
Enquanto te segue o meu canto enfeitiçado
Como uma serpente fiel e melancólica
E viras a cabeça em busca de algum astro

Que combate se trava no espaço?


Essas lanças de luz entre os planetas
Reflexo de ímpias armaduras
Que estrela sanguinária não quer ceder o passo?
Onde está você triste noctâmbula
Dadora de infinito
Que passeia no bosque dos sonhos

Eis-me aqui perdido entre mares desertos


Só como a pluma que cai de um pássaro na noite
Eis-me aqui em uma torre de frio
Agasalhado da lembrança de teus lábios marítimos
Da lembrança de tuas complacências e de tua cabeleira
Luminosa e desatada como os rios de montanha
Seria você cega que Deus te deu essas mãos?
Te pergunto outra vez

O arco de tuas sobrancelhas estendido para as armas dos olhos


Na ofensiva alada segura e vencedora com orgulhos de flor
Por mim te falam as pedras trituradas
Por mim te falam as ondas dos pássaros sem céu
Por mim te fala a cor das paisagens sem vento
Por mim te fala o rebanho de ovelhas taciturnas
Adormecido em tua memória
Te fala por mim o riacho descoberto
A erva sobrevivente amarrada na aventura
Aventura de luz e sangue de horizonte
Sem mais refúgio que uma flor que se apaga
Ao haver um pouco de vento

As planícies se perdem sob tua fragilidade graciosa


O mundo se perde sob a parte visível de teus passos
Pois tudo é artifício quando você se apresenta
Com tua luz perigosa
Inocente harmonia sem esquecimento nem cansaço
Elemento de lágrima que rodopia para dentro
Construído de medo altivo e de silêncio.

Você faz o tempo duvidar11


Faz o próprio céu duvidar com instintos
De infinito
Distante de ti tudo é mortal
Lanças a agonia pela terra de noites
Humilhada
Apenas o que pensa em ti tem sabor à eternidade

Eis aqui tua estrela que passa


Com tua respiração de cansaços longínquos
Com teus gestos e teu modo de andar
Com o espaço magnetizado que te aclama
Que nos separa com léguas de noite

No entanto te advirto que estamos costurados


Na mesmíssima estrela
Estamos costurados pela mesma música estendida

11
Nessa estrofe, por questões rítmicas, fiz mudanças na quebra dos versos.
De um ao outro
Pela mesma sombra gigante como árvore agitada
Sejamos esse pedaço de céu
Esse troço em que acontece a misteriosa aventura
A aventura do planeta que explode em pétalas de sonho

Em vão você tentaria escapar da minha voz


E de saltar os muros de meus elogios
Estamos costurados pela mesmíssima estrela
Estás amarrada ao rouxinol dos reinos lunares
O qual possui um ritual sagrado na garganta

O que me importam os signos da noite


E a raiz e o eco funerário que tenham em meu peito
O que me importa o enigma luminoso
Os emblemas que iluminam o acaso
E essas ilhas que viajam pelo caos sem destino a meus olhos
O que me importa esse medo de flor no vazio
O que me importa o nome do nada
O nome do deserto infinito
Ou da vontade ou acaso que representam
E se nesse deserto cada estrela é um desejo de oásis
Ou bandeiras de presságio e de morte

Tenho uma atmosfera própria em teu alento


A fabulosa garantia de teu olhar com tuas tão íntimas
galáxias
Com tua própria linguagem de semente
Tua testa luminosa como um anel infinito de Deus
Mais firme que tudo na flora do céu
Sem redemoinhos de universo que se agite
Como um cavalo por causa de sua sombra no ar

Te pergunto outra vez


Você seria muda que Deus te deu esses olhos?

Tenho essa voz tua para toda defesa


Essa voz que sai de ti ao latir o coração
Essa voz em que cai a eternidade
E se rompe em pedaços de fosforescentes esferas

O que seria da vida se você não tivesse nascido?


Um cometa sem cobertor morrendo de frio

Te achei como uma lágrima em um livro esquecido


Com teu nome sensível desde antes em meu peito
Teu nome de barulho de pombas que alçam voo
Trazes em ti a lembrança de outras vidas mais altas
De um Deus encontrado em alguma parte
E no fundo de ti mesma lembras que eras tu
O pássaro de outrora na chave do poeta

Sonho em um sonho submerso


A cabeleira que se prende faz o dia
A cabeleira ao desprender-se faz a noite
A vida se contempla no esquecer-se
Apenas teus olhos vivem neste mundo
O único sistema planetário sem cansaço
Pele tranquila ancorada nas alturas
Alheia a toda trama e estratégia
Em tua força de luz ensimesmada
Detrás de ti a vida sente medo
Porque você é a profundidade de cada coisa que existe
O mundo se torna majestoso quando passas
Se escutam cair as lágrimas do céu
E apagas na alma adormecida
A amargura de ser vivo
O planeta fica leve em tuas costas

Minha alegria é ouvir o barulho do vento em teus cabelos


(Reconheço esse som de muito longe)
Quando os barcos soçobram e o rio arrasta árvores e nuvens12
Você é uma lâmpada de carne na tormenta
Com os cabelos a todo vendaval
Teus cabelos onde o sol vai em busca de seus sonhos melhores
Minha alegria é te olhar solitária no divã deste mundo
Como a mão de uma sonâmbula princesa
Com teus olhos que evocam um piano de odores
Um licor de paradoxos
Uma flor que dia trás dia vai perdendo seu perfume
Teus olhos hipnotizam a ela a solidão
Como a roda que segue girando depois do cataclismo

Minha alegria é te olhar quando escutas


Esse raio de luz que caminha para o fundo da água
E você fica sem reação por muito tempo
Tantas estrelas passadas pela peneira do mar
Nada tem então uma emoção semelhante
Nem o mastro pedindo mais vento
Nem o aeroplano cego tateando o infinito
Nem a pomba esquálida sobre um lamento adormecida

12
Se fosse seguir literalmente o original seria: “(...) o rio arrastra troncos de árvore”. Mas comprometeria o
ritmo no português. Além disso, “nuvens” amplia o sentido do verso.
Nem o arco íris com as asas seladas
Mais belo que a parábola de um verso
A parábola estendida na ponte noturna de alma em alma

Nascida em todos os lugares onde ponho meus olhos


Com a cabeça erguida
E o cabelo todo ao vento
Você é mais bela que o relincho de um potro na montanha
Que a sereia de um barco que deixa escapar toda a alma
Que um farol na neblina buscando a quem salvar
Você é mais bela que a andorinha atravessada pelo vento
Você é o sussurro do mar no verão
O sussurro de uma rua populosa cheia de gente e admiração

Minha glória está em teus olhos


Vestida do luxo de teus olhos e de teu brilho interno
Estou sentado no canto mais sensível de teu olhar
Desço o silencio estático de pálpebras imóveis
Vem saindo um augúrio do fundo de teus olhos
E um vento de oceano tuas pupilas ondeia

Nada se compara a essa lenda de sementes que tua presença espalha


A essa voz que busca um astro morto que trazer de volta à vida
Tua voz instaura um império no espaço
E essa mão que se ergue em ti como se fosse pender sóis na atmosfera
E esse olhar que escreve mundos no infinito
E essa cabeça que se arqueia para ouvir na eternidade um murmúrio
E esse pé que é a festa dos caminhos enjaulados
E essas pálpebras onde naufragam as centelhas do éter
E esse beijo que infla a proa de teus lábios
E esse sorriso como um estandarte diante da vida
E esse segredo que dirige as marés de teu peito
Adormecido na sombra de teus seios

Se você morresse
As estrelas mesmo com suas lâmpadas acesas
Perderiam o seu rumo
O que seria sem você do universo?
Canto 3
Quebrar as ataduras das veias
O laço da respiração e das correntes

Dos olhos jardins13 de horizontes


Flor projetada em céus uniformes

A alma vigia escoltada14 de lembranças


Como estrelas talhadas pelo vento

O mar é um telhado de garrafas


Que sonha na memória do marujo

Céu é aquela longa intacta cabeleira


Tecida entre as mãos do astronauta

E o avião traz uma linguagem diferente


Para a boca dos céus de todo o sempre

Correntes de olhares nos prendem à terra

13
A escolha literal seria “sendeiros”, mas essa palavra no português, ao contrário de no espanhol, não é
comum, e perderia assim a coloquialidade. Já “caminhos” acabaria enfraquecendo o verso. Por isso o uso de
“jardins”, que se encaixa na estrofe a partir da ligação com “flor” do verso seguinte.
14
A escolha literal seria “vigia pavimentada”. Mas “escoltada”, que ganha igualmente sentido no verso,
possui na estrofe em português maior força rítmica, pois rima com “estrelas” do verso seguinte.
Quebrai quebrai tantas correntes

Voa o primeiro homem e ilumina o dia


O espaço se rompe em feridas

E devolve a bala ao assassino


Eternamente preso ao infinito

Cortai sim em absoluto as amarras


De rio mar ou de montanha

De espírito e lembrança
De sonho agonizando e sonho enfermo

É o mundo que volta e segue e gira


É uma última pupila

Amanhã o campo
Seguirá os galopes do cavalo

A flor irá comer a sua abelha


Porque o hangar será colmeia

O arco Iris irá acordar sendo pássaro


E voará à seu ninho cantando

Os corvos se transformarão em planetas


E terão plumas de ervas

Folhas serão as plumas mornas


Que de suas gargantas cairão

Os olhares serão rios


E os rios feridas nas pernas do vazio

Conduzirá o rebanho a seu pastor


Para que durma o dia como cansado avião

E a árvore pousará sobre a pomba


Enquanto as nuvens se transformam em rocha

Porque tudo é como é em cada olho


Dinastia astrológica e efêmera
Caindo de universo em universo

Manicure da língua é o poeta


Mas não mago que apaga e acende
Palavras estelares e cerejas de adeuses vagabundos
Bem longe das mãos da terra
E tudo o que diz é por ele inventado
Coisas que passam bem afora do mundo cotidiano
Matemos o poeta que nos têm saturados

Poesia ainda e poesia poesia


Poética poesia poesia
Poesia poética de poético poeta
Poesia
Demasiada poesia
Desde o arco-íris até o cu pianista da vizinha
Basta senhora poesia bambina
E ainda tem essas grades nos olhos
O jogo é jogo é não uma prece infatigável
Sorriso ou riso e não lamparinas de pupila
Que rodopiam da aflição ao oceano
Sorriso e falatórios de estrela tecedora
Sorriso do cérebro que evoca estrelas mortas
Na mesa mediúnica das irradiações que provoca

Basta senhora harpa das belas imagens


Dos furtivos comos iluminados
Outra coisa outra coisa buscamos
Sabemos pousar um beijo como um mau-olhado15
Plantar olhares como árvores
Engaiolar árvores como pássaros
Regar pássaros como heliotrópios
Tocar um heliotrópio como uma música
Esvaziar uma música como um saco
Degolar um saco como um pinguim
Cultivar pinguins como vinhas
Ordenhar uma vinha como uma vaca
Desarvorar vacas como veleiros
Pentear um veleiro como um cometa
Desembarcar cometas como turistas
Enfeitiçar turistas como serpentes
Colher serpentes como amêndoas
Desvestir uma amêndoa como um atleta
Lenhar atletas como ciprestes
Iluminar ciprestes como faróis
Nidificar faróis como araras16

15
A tradução literal seria “olhares”. Mas como o poeta usa a expressão “mal de ojo” (em português mau-
olhado”) em outros versos, considerei que seria apropriado para manter a força rítmica usar “mau-olhado.”
Exalar araras17 como suspiros
Bordar suspiros como sedas
Derramar sedas como rios
Tremular um rio como uma bandeira
Desplumar uma bandeira como um galo
Apagar um galo como um incêndio
Vogar em incêndios como em mares
Ceifar mares como trigais
Repicar trigais como sinos
Sangrar sinos como carneiros
Desenhar carneiros como sorrisos
Engarrafar sorrisos como licores
Engastar licores como joias
Eletrizar joias como crepúsculos
Tripular crepúsculos como navios
Descalçar um navio como um rei
Pendurar reis como auroras
Crucificar auroras como profetas
Etc.etc.etc.
Já basta senhor violino afundado em uma onda onda
Cotidiana onda de religião miséria
De sonho em sonho possessão de pedrarias

Depois do coração comendo rosas


E das noites do perfeito rubi
O novo atleta salta sobre a mágica pista
Brincando com magnéticas palavras
Ferventes como a terra quando está prestes a sair um vulcão
Expelindo sortilégios de suas pássaro frases
Agoniza o último poeta
Tocam os sinos de cada continente
Morre a lua com sua noite nas costas
O sol tira do bolso o dia
Abre os olhos a nova paisagem solene
E passa desde a terra até as constelações
O enterro da poesia

Todas as línguas estão mortas


Mortas nas mãos do trágico vizinho
Tem-se que ressuscitar língua por língua
Com risadas sonorosas
16
Arara está mais próxima de “alondra” do que o correspondente literal “cotovia”. Além disso, “arara” é
uma ave mais comum no Brasil, América Latina e nos trópicos (lembre-se que Huidobro usa no prefácio
“linha equatoral), e por isso pode aproximar o leitor ao texto.
17
Idem.
Com vagões de gargalhadas
Com corta-circuitos nas frases
Levanta e caminha
Estira as pernas cãibras anquiloses e pula18
Fogos de riso para a linguagem tiritando de frio
Alongamento astral para as línguas dormentes
Levanta e caminha
Vive vive como uma bola de pelada19
Explode na boca de motocicletas diamante
Em embriaguez de vaga-lumes
Vertigem sim de sua libertação suprema
Uma bela loucura na vida da palavra
Uma bela loucura na zona da linguagem
Aventura forrada de tangíveis desdéns
Aventura da língua entre duplo naufrágio
Catástrofe valiosa nos trilhos do verso

E posto que devemos viver e não nos suicidamos


Enquanto vivamos brinquemos
O simples sport dos vocábulos
Da pura palavra e nada mais
Sem imagem limpa de joias
(As palavras têm todas uma carga muito grande)
Um ritual de vocábulos sem sombra
Jogo de anjo para além no infinito
Palavra por palavra
Com luz própria de astro que com um choque volta à vida
Pulam faíscas do choque e quanto mais violento
Maior é a explosão
Paixão do jogo no espaço
Sem asas de lua e pretensão
Combate singular entre o peito e o céu
Total desprendimento com o fim de voz de carne
Eco de luz que sangra o ar sobre o ar

Depois nada nada


Rumor respiro20 de frase sem palavra

18
Inseri cãibras por questões rítmicas, para reforçar o significado do verso e para intensificar a
coloquialidade.
19
A tradução literal seria “bola de futebol”, mas esta iria contra o ritmo. Por isso optei por “bola de pelada”,
a qual conserva o ritmo, a emoção do original e ainda aproxima os leitores (já que “pelada” é totalmente
coloquial, assim como “fútbol”).
20
A palavra original “alento” existe no português e a usei anteriormente. Mas é bem mais incomum no
espanhol e, ao contrário de neste, tem uma conotação mais positiva do que negativa, o que atentaria contra
o sentido do verso. Por isso, optei por “respiro”.
CANTO IV

Não há tempo a perder


Enfermeira de sombras e distâncias
Eu volto a ti fugindo do reino incalculável
De anjos proibidos pelo amanhecer

Por trás de teu secreto te escondias


Em sorriso de pálpebras e ar
Eu levantei a capa de teu riso
E cortei as sombras que tinham
Teus sinais todos marcados de distância

Teu sonho irá dormir em minhas mãos


Marcado pelas linhas de meu destino inseparável
No peito de um mesmo pássaro
Que se consome no fogo do seu canto
De seu canto chorando ao mesmo tempo
Porque o que ele faz é escorrer entre os dedos

Você sabe que teu olhar enfeita os veleiros


Das noites agitadas pela pesca
Sabes que teu olhar forma o nó das estrelas
E o nó do canto que irá desprender-se do peito
Teu olhar que leva a palavra ao coração
E a boca encantada ao rouxinol

Não há tempo a perder


Na hora do corpo no naufrágio ambíguo
Eu meço passo a passo o infinito

O mar quer vencer


E entrementes21 não há tempo a perder
No entanto22
Ah no entanto23
Mais além do último horizonte

21
Com o uso de “entrementes”, há uma mudança de sentido em relação ao “por lo tanto” (em português
“portanto”) do original. Porém, nesse trecho []. “Entrementes” pela sua própria sonoridade e por não ser
comum no dia a dia é mais apropriada para essa função de “palavra mágica.”
22
Ao igual que no verso anterior há uma mudança de sentido. Porém, o sentido literal não é o mais
importante nesse trecho[], no entanto soa muito melhor nessa parte do que o “então”. Além disso, “no
entanto” rima com “entrementes” do verso anterior.
23
Idem.
Se verá o que há de ver-se

Por isso há de cuidar do olho presente precioso do cérebro


O olho ancorado no meio dos mundos
Onde os navios vêm para encalhar
Mas, e se o olho adoece o que se pode fazer?
O que faremos se lançaram mau-olhado ao outro olho?
O olho aviazor24 enfebrado como o farol de um lince
A geografia do olho lhes digo é a mais complicada
A sondagem é difícil por causa das ondas
Os túmulos que passam
O aperto seguido
As praças e avenidas populosas
As procissões com seus estandartes
Descendo pelo arco íris até se perderem
O rajah em seu elefante de tapetes
A caça de leões em selvas de cílios seculares
As migrações de pássaros friorentos até outras retinas
Eu amo meus olhos e teus olhos e os olhos
Os olhos com sua própria combustão
Os olhos que dançam ao som de uma música interna
E se abrem como as portas ante o crime
E saem de sua órbita e vão como cometas sangrentos ao acaso
Os olhos que se cravam e deixam feridas lentas ao cicatrizar
E assim sendo os olhos não se grudam como as cartas
E são cascatas de amor inesgotáveis
E se trocam de roupa noite e dia
Olho por olho
Olho por olho como hóstia por hóstia
Olho árvore
Olho pássaro
Olho rio
Olho montanha
Olho mar
Olho terra
Olho lua
Olho céu
Olho silêncio
Olho solidão por olho ausência
Olho dor por olho riso.

Não há tempo a perder

24
Em espanhol “avizor” vem de “avizorar” e da expressão “ojo avizor”. Na tradução preferi deixar “aviazor”,
a qual passa a funcionar como neologismo, mantém o ritmo e o tom mágico dos versos anteriores e amplia
o sentido ao relacionar-se simultaneamente com três palavras: “avião”, “altazor” e “açor” (espécie de ave de
caça que aparece no poema).
E se chega o instante prosaico
Continue o barco que por acaso é o melhor
Agora que me sento e me ponho a escrever
O que faz a andorinha que vi esta manhã
Assinando cartas no vazio?
Quando movo o pé esquerdo
O que faz com seu pé o mandarim da grande China?
Quando acendo um cigarro
O que fazem os outros cigarros que chegam neste barco?
Por onde está a planta do fogo futuro
E se agora mesmo eu levanto meus olhos
O que faz com seus olhos o explorador de pé no polo norte?
Eu estou aqui
Por onde os outros estarão?
Eco de gesto em gesto
Corrente eletrizada ou sem correspondências
Interrompido o ritmo solitário
Quem está morrendo e quem nasce
Enquanto minha pluma desliza no papel?

Não há tempo a perder


Levanta-te alegria
E passa de poro em poro a agulha de tuas sedas

Se apresse se apresse
Vá em busca dos balões e dos crocodilos molhados
Empresta-me mulher teus olhos de verão
Eu lambo as nuvens respingadas quando o outono segue a charrete do burro
Um periscópio em ascensão discursa sobre o pudor do inverno
Sob a perspectiva da cambalhota pelo infinito azulada
Cor jovem de pássaros agora ao cem por cento
Talvez era um amor olhado de pombas desgraçadas
Ou a luva inoportuna do atentado que vai nascer de uma mulher ou papoula
O vaso de melros que se beijam voando
Bravo panturrilha de noites da mais noiva que se esconde em sua pele de flor

Rosa ao contrário rosa


Mesmo que não o queira o carcereiro
Rio tumultuoso para a pesca milagrosa

Noite empresta-me tua mulher com panturrilhas de vaso de jovens papoulas


Molhadas de cor como o burro miúdo desgraçado
A noiva sem flores nem balões de pássaros
O inverno endurece as pombas presentes
Olha a charrete e o atentado de crocodilos azulados
Que são periscópios nas nuvens do pudor
Noiva em ascensão ao cem por cento celeste
Lambe a perspectiva que há de nascer respingada de cambalhotas
E das luvas agradáveis do outono que se
debate na pele do amor.

Não há tempo a perder


A indecisão em barca para as viagens
É um presente das crueldades da noite
Porque o homem mau ou a mulher severa
Nada podem contra a mortalidade da casa
Nem a falta de ordem
Que seja ouro ou doença
Nobre surpresa o espião doméstico para vitória estrangeira
A disputa intestina produz a desconfiança exata
Dos supercílios lavados na prisão
As dores tendendo a seu fim são travessões antes
do matrimonio
Murmurações de cascata sem proteção
As deserções militares e todos os obstáculos
Por causa da declaração dessa loira
Que crítica a perda da expedição
Ou a utilidade extrema da justiça
Como uma separação de amor sem porvir
A prudência chora os falsos extravios da loucura nascente
Que ignora por completo as satisfações da moderação

Não há tempo a perder


Para falar do fechamento da terra e da chegada
do dia agricultor ao nada amante da loteria sem
processo nem ninho pra doença pois a dor
imprevisto que sai dos cruzamentos da espera
neste campo da sinceridade nova é um pouco
negro como o eclesiástico das empresas para
a miséria ou o traidor em atraso sobre a água que
busca apoio na união ou a divergência sem repouso
da ignorância Mas a carta vem sobre o trajeto e
a mulher colocada no incidente do duelo conhece
o bom êxito da gravidez e a inação do desejo
passado da vantagem ao povo que tem inclinação
Pelo sacerdote pois ele realiza a queda e se faz
mais íntimo que o extravio da donzela loira
ou a amizade da loucura

Não há tempo a perder


Tudo isto é triste como a criança que está ficando órfã
Ou como a letra que cai no meio do olho
Ou como a morte do cachorro de um cego
Ou como o rio que se estica em seu leito agonizante
Tudo isto é belo como olhar o amor dos pardais
Três horas depois do atentado celeste
Ou como ouvir dois pássaros anónimos que cantam para a mesma
Orquídea25
Ou como a cabeça da serpente onde sonha o ópio
Ou como o rubi nascido dos desejos de uma mulher
E como o mar que não sabe se ri ou se chora
E como as cores que caem do cérebro das borboletas
E como a mina de ouro das abelhas
As abelhas satélites do nardo como as gaivotas do barco
As abelhas que levam a semente em seu interior
E vão mais perfumadas que lenços de narizes
Mesmo não sendo pássaros
Pois não deixam suas iniciaais26 no céu
Na lonjura do céu beijado pelos olhos
E ao acabar sua viagem vomitam a alma das pétalas
Como as gaivotas vomitam o horizonte
E as andorinhas o verão

Não há tempo a perder


Já vem vindo a andorinha monotémpora
Traz um acento antípoda das lonjuras que se atraem
Lá vem vindo andorinhando a andorinha

Ao horitanha da montazonte
Ao violoninha e ao andorcelo
Despendurada esta manhã da luanha
Se aproxima a todo galope
Já vem vindo a andorinha
Já vem vindo a andorfina
Já vem lá a andortrina
Já vem a andorcima
Vem ali a andorchina
Vem ali a andorclima
Já vem a andorima
Já vem a andorrisa
A andornina
A andorgira
A andorlira
A andorbrisa
A andorchia
Já vem a andordia

25
O original é “açucena”. É uma palavra linda, mas optei por “orquídea” para aproximar o leitor (já que esta
é muito mais comum no brasil que açucena) e para sincronizar com o verbo “ouvir”.
26
Agreguei um “a” à palavra “iniciais” por questões de ritmo e porque isso combina com o vanguardismo do
poema.
E a noite encolhe as unhas como o leopardo
Já vem vindo a andortrina
Que tem um ninho em cada um dos calores
Como eu tenho nos quatro horizontes
Já vem a andorrisa
E as ondas se levantam na ponta dos pés
Vem vindo já a andornina
E sente um zumbido a cabeça da montanha
Vem vindo já a andorgira
E o vento se faz parábola de sílfides em orgia
Se enchem de notas os cabos telefônicos
Se põe a dormir o ocaso com a cabeça escondida
E a árvore com o pulso enfebrado

Mas o céu prefere o rodonhol


Seu gato querido o ronronhol
Sua flor de alegria o rosanhol
Sua pele de lágrima o rorfãnhol
Sua garganta noturna o rosolnhol
O rolanhol
O rousinhol

Não há tempo a perder


O barco tem os dias contados
Pelos buracos perigosos que abrem as estrelas no mar
Pode cair-se direto ao fogo central
O fogo central com suas bandeiras que explodem de tempos em tempos
Os elfos exacerbados sopram as sementes me interrogam
Mas eu só escuto as notas do aleli
Quando alguém aperta os pedaais27 do vento
E se apresenta o furacão
O rio corre como um cachorro açoitado
Corre e corre para esconder-se no mar
E passa o rebanho que devasta meus nervos
E então eu só falo
Que não compro estrelas na noitería
E tampouco ondas novas na marería
Prefiro escutar as notas do aleli
Junto à cascata que conta suas notas
Ou o bronzear do aeroplano na ponta do céu
Ou encarar o olho do tigre onde sonha
Uma mulher toda nua
Porque senão a palavra que vem de tão longe
Se quebra entre os lábios

27
Aumentei um “a” a “pedais”. Isso, além de manter o ritmo, reforça o peso do “vento”, ou seja, o “ar”.
Eu não tenho orgulhos de campanário
Nem tenho nenhum ódio petrificado
Nem grito como um chapéu afetuoso que vem saindo do deserto
Digo apenas
Não a tempo a perder
O vizir com linguagem de pássaro
Nos fala comprido comprido como uma alameda
As caravanas se afastam sobre a voz que é sua
E os barcos rumo a imprecisos horizontes
Ele devolve o oriente sobre as almas
Que bebem um oriente de pérola
E a cada passo se enchem de fósforos
De sua boca brota uma selva
De sua selva brota um astro
Do astro cai uma montanha sobre a noite
Da noite cai outra noite
Sobre a noite do vazio
A noite longe tão longe que parece uma morta que carregam
Adeus há que falar adeus
Adeus há que falar a Deus
Então o furacão destruído pela luz da língua
Se desfaz em arpejos circulares
E aparece a lua seguida de algumas andorinhas
E sobre o caminho
Um cavalo que vai crescendo à medida que se afasta

Se apresse se apresse
Estão prontas as sementes
Esperando uma ordem para começarem a florir
Paciência já em breve irão crescer
E irão pelos caminhos da seiva
Por sua escada pessoal
Um momento de descanso
Antes da viagem para lá ao céu da árvore
A árvore tem medo de afastar-se demais
Tem medo e volteia os olhos angustiados
A noite faz ela tremer
A noite que afia suas garras no vento
E aguça os ouvidos da selva
Tem medo afirmo a árvore tem medo
De afastar-se da terra

Não há tempo a perder


Os icebergs que flutuam nos olhos dos mortos
Conhecem seu caminho
Cego seria o que chorasse
As trevas do ataúde sem limites
As esperanças abolidas
Os tormentos transformados em inscrição de cemitério
Aqui jaz Carlota olhos marítimos
Um de seus satélites rompeu o seu tendão28
Aqui jaz Matías em seu coração dois tubarões se debatiam
Aqui jaz Marcelo mar e céu no mesmo selo marciano29
Aqui jaz Susana cansada de brigar com seus calmantes30
Aqui jaz Teresa é essa a terra que araram seus olhos hoje ocupada por seu corpo
Aqui jaz Angélica ancorada no porto de seus braços
Aqui jaz Rosário rio de rosas até o infinito
Aqui jaz Raimundo raízes do mundo são suas veias
Aqui jaz Clarissa clara risa enclausurada na luz31
Aqui jaz Alessandro antro assustado asa adentro32
Aqui jaz Gabriela rompidos os diques sobe nas seivas até o sonho esperando a ressurreição
Aqui jaz Altazor açor fulminado pela altura
Aqui jaz Vicente antipoeta e mago
Cego seria o que chorasse
Cego como o cometa que vai com seu bastão
E sua neblina de almas que o seguem
Obediente ao instinto de todos seus sentidos
Sem fazer caso dos meteoros que jogam pedras desde longe
E vivem em colônias segundo a temporada
O cometa33 insolente cruza o céu
O comeprata o comecobre34
O comepedras no infinito
Comeópalos no olhar
Cuidado aviador com as estrelas
Cuidado com a aurora
Que o aeronauta não seja o auricida
Nunca um céu teve tantos caminhos como este
Nem foi tão perigoso
A estrela errante me traz as saudações de um amigo morto há dez anos
Se apresse se apresse
Os planetas maduram em planetas
Meus olhos têm visto a raiz que há nos pássaros

28
Pequena mudança de sentido no português para manter o ritmo e aumentar o tom brincalhão proposto
por Huidobro nesse trecho.
29
Mudança de sentido como o uso de “selo marciano” para seguir o jogo de palavras proposto.
30
Mudança de sentido com o uso de “calmantes” para manter a proposta e reforçar a coloquialidade.
31
Mudanças para manter uma sonoridade condizente com o jogo de palavras.
32
Idem.
33
Preferi usar a imagem do cometa que o do meteoro nesse verso e nos que seguem para poder fazer o jogo
de palavras mais apropriado.
34
Tanto aqui como nos dois versos seguintes houve uma mudança no sentido. O verbo “comer” era mais
apropriado no português que “meter”, com conotações sexuais. Além disso, “comer” se aproxima
sonoramente de “cometa”.
O para além dos nenúfares
E o para cá das borboletas
Escutas o barulho que fazem as bandolinas ao morrer?
Estou perdido
Não há mais no que capitular
Ante a guerra sem quartel
E a emboscada noturna destes astros

A eternidade quer vencer


E entrementes35 não há tempo a perder
No entanto36
Ah no entanto
Mais além do último horizonte
Se verá o que há de ver-se
A cidade
Sob as luzes e as roupas penduradas
O aéreo jogador
Todo nu
Frágil
A noite no fundo do oceano
Terna afogada
A morte cega
E seu esplendor
E o estampido o estampido
Espaço à lumbrenha
À estibordo
Adormecido
Em cruz
em luz
A terra e seu céu
O céu e sua terra
Selva noite
E o rio dia através do universo
O pássaro tralalí canta nos galhos de meu cérebro
Porque encontrou a chave do eterfinitrete
Rotundo como o uniispaço37 e o espaverso
Uiuuiui
Tralalítralalá
Aia ai aiaaia i i

35
Como da vez passada, no lugar do “portanto”, que seria a tradução literal de “por lo tanto”.
36
Como da vez passada, no lugar de “então”, que seria a tradução literal de “entonces”.
37
Por questão de ritmo, agreguei um “i” no que seria “unispaço”.
CANTO V

Aqui começa o campo inexplorado


Redondo por causa dos olhos que o veem
E profundo pelo meu próprio coração
Cheio de prováveis zafiras
De sonâmbulas mãos
De aéreos enterros
Comovedores como o sonho dos anões
Ou do galho cortado no infinito
Que a gaivota traz para seus filhos

Há um espaço despovoado
Que é preciso povoar
De olhares com sementes abertas
De vozes descidas da eternidade
De jogos noturnos e aerólitos de violino
De barulho de rebanhos sem autorização
Fugidos do cometa que iria colidir
Você conhece a fonte milagrosa
Que devolve a vida aos náufragos de outrora?
Conhece a flor que é chamada voz de monja
Que cresce para baixo e se abre no fundo da terra?
Você já viu o menino que cantava
Sentado em uma lágrima
O menino que cantava ao lado de um suspiro
Ou de um latido de um cão inconsolável?
Você já viu o arco íris sem cores
Terrivelmente envelhecido
Que retorna do tempo dos faraós?

O medo troca a forma das flores


Que esperam tremendo o juízo final
Uma a uma as estrelas se jogam do balcão
O mar detrás de uma árvore continua dormindo
Com sua calma rotineira
Porque sabe desde os bíblicos tempos
Que o retorno é desconhecido na estrela polar

Nenhum navegante há encontrado a rosa dos mares


A rosa que traz a lembrança dos avôs
Do fundo de si mesma
Cansada de sonhar
Cansada de viver em cada pétala
Vento que estás pensando na rosa do mar
Eu te espero de pé no fim desta linha
Eu sei onde se esconde a flor que nasce do sexo das sereias
No momento do prazer
Quando lá embaixo do mar começa o arrebol
E se ouvem as ondas ranger
Sob os pés do horizonte
Eu sei eu sei onde se esconde

O vento tem a voz de abelha da pálida jovem


A pálida jovem como a sua própria estátua
Que eu amei em um canto da minha vida
Quando queria saltar de uma esperança ao céu
E cai de naufrágio em naufrágio de horizonte em
horizonte
Então foi que vi a rosa que se esconde
E que ninguém há encontrado cara a cara

Você já viu este pássaro de ilhas longínquas


Arrojado pela maré aos pés da minha cama?
Você já viu o anel hipnótico que vai de olho em olho
Do amor ao amor do ódio ao ódio
Do homem à mulher do planeta à planeta?
Você já viu no céu deserto
A pomba ameaçada pelos anos
Com os olhos repletos de lembranças
Com o peito repleto de silêncio
Mais triste que o mar depois de um naufrágio?

Por trás da águia derradeira cantava o cantador


Tinha um anel no coração
E se sentou na terra de seu esforço
Em frente ao vulcão desafiado pela flor
O atleta gostaria de ser um farol
Para ter barcos que o olhem
Para fazê-los dormir para ele mesmo adormecer
E acalentar o céu como uma árvore
O atleta
Tem um anel na garganta
E assim passa todo o tempo
Em silêncio em silêncio
Porque em seu cérebro estão crescendo as anêmonas

Contempla o órfão que se deteve em sua idade


Por culpa dos rios que levam pouca água
Por culpa das montanhas que não descem
Cresce cresce diz o violoncelo
Como eu estou crescendo
Como está crescendo a ideia do suicido na formosa roseira
Cresce pequena safira mais terna que a angústia
Nos olhos do pássaro queimado

Crecerei crescerei quando cresça a cidade


Quando os peixes tenham bebido todo o mar
Os dias passados são os cascos das tartarugas
Agora tenho barcos na memória
E os barcos dia pós dia se aproximam
Ouço um o latido de um cão que dá a volta ao
mundo
Em três semanas
E morre quando chega

O coração cortou suas amarras


Por causa dos ventos
E o menino está ficando órfão

Se a paisagem se tornasse uma pomba


Antes da noite o mar a comeria
Mas o mar está preparando um naufrágio
E tem sua cabeça em outro lugar

Navio navio
Você tem a vida curta de um leque
Aqui nós rimos disso tudo
Aqui ao longe ao longe

A montanha enfeitiçada por um rouxinol


Acompanha o mel do urso envenenado
Pobre urso de pele de urso envenenado pela noite boreal
Foge que foge da morte
Da morte sentada na beira do mar

A montanha e o montanho
Com seu luo e sua lua
A flor florescida e o flor florescendo
Uma flor que chamam girassol
E um sol que se chama giraflor

O pássaro pode esquecer que é pássaro


Por causa do cometa que não chega
Por medo do atentado ou de um inverno
O cometa que devia ter nascido de um telescópio e uma hortênsia
Que jurou ser quem olhava e era olhado

Um aviador se mata sobre o concerto único


E o anjo que em algum piano toma banho
Volta a estar outra vez imerso em sons
Buscando o receptor em cada cume
De onde brotam as palavras e os rios

Os lobos fazem milagres


Nas pegadas da noite
Quando o pássaro incógnito se enche de névoa
E pastam as ovelhas no outro lado da lua

Se é uma lembrança de música


Ninguém pode impedir que o circo se expanda no silencio
Nem os sinos dos astros já extintos
Nem a serpente que se alimenta das cores
Nem o pianista que está saindo da terra
Nem o missionário que esqueceu o seu nome

Se o caminho se senta a descansar


Ou se molha no outono das constelações
Ninguém irá impedir que um alfinete se crave na eternidade
Nem a mulher polvilhada de traças
Nem o órfão domesticado por tulipas
Nem a zebra que trota em volta de uma valsa
Nem ele o guardião da sorte
O céu tem medo da noite
Quando o mar faz que os barcos adormeçam
Quando a morte se alimenta nos recantos
E a voz do silêncio se preenche de vampiros
Então iluminamos um fogo sob as saias do oráculo38
Para aplacarmos a sorte
E alimentamos da solidão os seus milagres
Com esta carne que é nossa
E então no cemitério lacrado
E bonito que nem um eclipse
A rosa rompe seus laços e floresce no reverso da morte

Noite de velhos terrores de noite


Por onde anda a gruta polar alimentada de milagres?
Por onde a miragem delirante
Dos olhos de arco íris e da nebulosa?
O ataúde se abre e do fundo o que se vê é o mar
A respiração se corta e a vertigem suspensa
Enche as têmporas desaba nas veias
Abre os olhos maiores que o espaço que neles contém
E um grito se cicatriza no vazio doente
O ataúde se abre e do fundo o que se vê é um rebanho perdido nos montes
A pastora com sua capa de vento ao lado da noite
Conta as pegadas de Deus no espaço
E vai cantando a si mesma
O ataúde se abre e do fundo o que se vê um desfile de icebergs
Que brilham sob os refletores da tormenta
E passam em silêncio à deriva
Solene procissão de icebergs
Com tochas de luz dentro do corpo
O ataúde se abre e do fundo o que se vê é o outono e o inverno
Desce lento lento um céu de ametista
O ataúde se abre e do fundo o que se vê é uma enorme ferida
Que se expande no profundo da terra
Com um barulho de verão e primaveras
O ataúde se abre e do fundo o que se vê é uma selva de fadas que fecundam
Cada árvore termina em um pássaro em êxtase
E tudo fica dentro da elipse fechada de seus cantos
Por esses cantos deve encontrar-se o ninho das lágrimas
Que rodopiam pelo céu e atravessam o zodíaco
De signo em signo
O ataúde se abre e do fundo o que se vê é a fervente nebulosa a se apagar e se acender
Um aerólito passa ignorando a todos

38
No original não há “saias”. Optei por essa palavra para manter o ritmo e para reforçar o sentido ao mesmo
tempo cômico e mágico do verso.
Dançam luminárias no cadafalso ilimitado
Por onde as cabeças sangrentas dos astros
Deixam um halo que cresce eternamente
O ataúde se abre e salta uma onda
A sombra do universo respinga
E com ele tudo o que vive na sombra ou na orla
O ataúde se abre e se escapa um lamento de planetas
Há mastros tombados e redemoinhos de naufrágios
Repicam os sinos de todas as estrelas
Sibila o furacão perseguido através do infinito
Sobre os rios transbordados
O ataúde se abre e salta um galho de flores impregnadas de silício
Cresce a fogueira impenetrável e um cheiro de paixão invade o orbe
O sol tateia o último lugar onde se esconde
E nasce a mágica selva
O ataúde se abre e do fundo o que se vê é o mar
Sobe um canto de mil barcos que se afastam
E entrementes um cortejo de peixes 39
Se petrifica lentamente

Quanto tempo esse dedo de silêncio


Dominando a insônia interminável
Que reina nas esferas
É a hora de dormir em todo canto
O sonho expulsa o homem da terra

Festejamos o amanhecer com as janelas


Festejamos o amanhecer com os chapéus
O horror voa do ciclo
Os morros jogam pássaros na cara
Amanhecer com esperança de aviões
Sob a abóboda que coa a luz depois de tantos séculos
Amor e paciência de coluna vertebral
Esfregamos as mãos e rimos
Lavamos os olhos e brincamos

O horizonte é um rinoceronte
O mar um azar
O céu um himeneu40
A chaga uma praga
Um horizonte brincando a todo mar se assoava com o céu depois das sete pragas do Egito
O rinoceronte navega sobre o azar como o cometa em seu lencinho de himeneu cheio de
pragas

39
Adicionei o “e” no começo do verso para manter o ritmo.
40
Mudança de sentido para manter o jogo com as palavras.
Razão do dia não é razão de noite
E cada tempo tem insinuação diferente
Os vegetais saem para comerem nas beiradas
As ondas estiram suas mãos
Para colherem um pássaro
Tudo é vário no olhar mais que singelo
E nos subterrâneos da vida
Talvez seja o mesmo

A ferida de lua da coitada da louca


A coitada da louca da lua ferida
Tinha luz na boca celeste
Celeste boca que a luz tinha
O mar de flor para a cega esperança
Esperança cega para a flor de um mar
Cantar pro rouxinol que bate no céu
Bate o céu no rouxinol para cantar

Brincamos fora do tempo


E brinca com nós o moinho de vento
Moinho de vento
Moinho de alento
Moinho de conto
Moinho de invento
Moinho de aumento
Moinho de unguento
Moinho de sustento
Moinho de tormento
Moinho de socorramento
Moinho de advenimento
Moinho de enaltecimento
Moinho de tecimento
Moinho de rugimento
Moinho de rastreamento
Moinho de rasgunhamento
Moinho de afetamento
Moinho de afrouxamento
Moinho de alongamento
Moinho de alargamento
Moinho de alagamento
Moinho de afastamento
Moinho de amansamento
Moinho de engenhamento
Moinho de insonhamento
Moinho de envaidecimento
Moinho de enterramento
Moinho de maduramento
Moinho de mauolhamento
Moinho de agitamento
Moinho de revelamento
Moinho de obscurecimento
Moinho de alienamento
Moinho de apaixonamento
Moinho de encabeçamento
Moinho de encastelamento
Moinho de aprisionamento
Moinho de aparecimento
Moinho de esparcimento
Moinho de atesouramento
Moinho de enlouquecimento
Moinho de insoniamento
Moinho de envenenamento
Moinho de acontecimento
Moinho de andorinhamento
Moinho de enforcamento
Moinho de esmorecimento
Moinho do portento
Moinho do lamento
Moinho do momento
Moinho do firmamento
Moinho do sentimento
Moinho do juramento
Moinho do ardimento
Moinho do crescimento
Moinho do alimento
Moinho do arqueiamento
Moinho do ferimento
Moinho do conhecimento
Moinho do esfolamento
Moinho do enlevamento
Moinho do endeusamento
Moinho do iluminamento
Moinho do deliramento
Moinho do emburrecimento
Moinho do aborrecimento
Moinho do mimamento
Moinho do descobrimento
Moinho do escorrimento
Moinho do remordimento
Moinho do xingamento
Moinho do redobramento
Moinho do cruzamento
Moinho do aturdimento
Moinho do decaimento
Moinho do enfraquecimento
Moinho do envelhecimento
Moinho do aceleramento
Moinho do encarceramento
Moinho do aniquilamento
Moinho do arrependimento
Moinho do envilecimento
Moinho do despedaçamento
Moinho do trituramento
Moinho do explosionamento
Moinho em fragmento
Moinho em detrimento
Moinho em elemento
Moinho em giramento
Moinho em rosnamento
Moinho em sacramento
Moinho em pensamento
Moinho em impulsamento
Moinho em nascimento
Moinho em apagamento
Moinho em podrecimento
M em pobrecimento
Moinho em nascimento
Moinho em amontoamento
Moinho em apagamento
Moinho em pagamento
Moinho em decaimento
Moinho em derretimento
Moinho em desvalimento
Moinho em ressecamento
Moinho em irritamento
Moinho em encantamento
Moinho em transformamento
Moinho em devastamento
Moinho em concebimento
Moinho em derrubamento
Moinho em fantasiamento
Moinho em desolamento
Moinho com talento
Moinho com acento
Moinho com sofrimento
Moinho com temperamento
Moinho com admiramento
Moinho com formigamento
Moinho com retorcimento
Moinho com ressentimento
Moinho com ressacamento
Moinho com resfriamento
Moinho com recolhimento
Moinho com racionamento
Moinho com quebrantamento
Moinho com prolongamento
Moinho com pressentimento
Moinho com padecimento
Moinho com sangramento
Moinho com amordaçamento
Moinho com ronquecimento
Moinho com entendimento
Moinho com atordoamento
Moinho com alucinamento
Moinho com desfalecimento
Moinho para aposento
Moinho para convento
Moinho para ungimento
Moinho para alojamento
Moinho para cargamento
Moinho para subimento
Moinho para emergimento
Moinho para esfriamento
Moinho para fervimento
Moinho para embruxamento
Moinho para acolhimento
Moinho para encolhimento
Moinho para apostamento
Moinho para arrombamento
Moinho para escapamento
Moinho para escondimento
Moinho para esbarramento
Moinho para exaltamento
Moinho para agasalhamento
Moinho para levantapesomento
Moinho para machucamento
Moinho para renovamento
Moinho para deslocamento
Moinho para antecipamento
Moinho para moedamento
Moinho para oráculamento
Moinho para descoloramento
Moinho para desconjuntamento
Moinho como ornamento
Moinho como elemento
Moinho como armamento
Moinho como instrumento
Moinho como monumento
Moinho como apalpamento
Moinho como descobrimento
Moinho como descortinamento
Moinho como anunciamento
Moinho como medicamento
Moinho como desvelamento
Moinho a sotavento
Moinho a barlavento
Moinho a ligamento
Moinho a lançamento
Moinho a mordimento
Moinho a movimento
Moinho que invento
Moinho que afugento
Moinho que oriento
Moinho que esquento
Moinho que pressinto
Moinho que aparento
Moinho que transporto
Moinho que transparento
Moinho lento
Moinho cruento
Moinho atento
Moinho faminto
Moinho sedento
Moinho sangrento
Moinho jumento
Moinho violento
Moinho contento
Moinho opulento
Moinho friorento
Moinho avarento
Moinho graznento
Moinho corpulento
Moinho engasgamento
Moinho cinzento
Moinho escupimento
Moinho entupimento
Moinho enlamamento
Moinho estordunamento
Moinho sudorento
Moinho macilento
Moinho sonolento
Moinho turbulento
Moinho truculento

Assim você é moinho de vento


Moinho de assento
Moinho de assento do vento
Que tece as noites e as manhãs
Que fia as névoas do além-túmulo
Moinho de algazarras e do vento entre garras41
A paisagem se enche de tuas loucuras

E o trigo vem e vai


Da terra ao céu
Do céu ao mar
Os trigos das ondas amarelas
Onde o vento se agita
Buscando a cosquinha das espigas

Escuta
Passa o apalpador em elétricas correntes
O vento norte despenteia teus cabelos
Urra que urra moinho moedor
Moinho voador
Moinho zombador
Moinho cantador
Quando o céu traz uma tempestade na mão
Urra moinho girando na memória
Moinho que hipnotiza as pombas peregrinas

Fala que fala moinho de conto


Quando o vento nos narra a tua lenda etérea
Sangra e sangra moinho da queda
Com tua grande lembrança colada nos ocasos do mundo
E os braços de tua cruz pelo furacão fatigados

Assim rimos e cantamos nesta hora


Porque o moinho criou um império com sua luz escolhida
E é necessário que ele saiba
É necessário que alguém neste mundo lhe diga

Sol você que nasceu no meu olho direito


E morreu no meu olho esquerdo
Não acredite nos vaticínios do zodíaco
Nem nos latidos dos sepulcros
Os sepulcros não possuem maldições de lua
E não sabem o que falam
41
Mudança no sentido para manter o jogo com as palavras (a rima se mantém entre “algazarras” e “garras”
e com isso a comicidade).
Eu te falo porque meu chapéu está cansado de vagar pelo mundo
E tenho uma experiência de borboleta milenária

Profetisa profetisa
Moinho das constelações
Enquanto dançamos sobre a incerteza do riso
Agora que a grua que traz-nos o dia
Verteu a noite para fora da terra

Comece já
A festeatrina na lonjunha da montara
O horimento sob o firmazonte
Embarca na lua
Para dar a volta ao mundo
Comece já
A festamandou mandou linha
Com sua musiquí com sua musicá

A caravantantám
A caravantantúm
A carabantantuina42
A fadandolinha
A farandú
A carabantantã
A carabantantí
A fadadosia
A festeatrina

Ria ria antes que venha o cansaço


Em seu carro nebuloso de dias
E os anos e séculos
Se amontoem no vazio
E tudo seja escuro no olho do céu

A cascata que cabeleia sobre a noite


Enquanto a noite se cama a descansar
Com sua lua que almofada o céu
Eu olho a paisagem cansado
Que se ruma via o horizonte
À sombra de um carvalho naufragando

E eis aqui que agora me diluo em múltiplas coisas


Sou vaga-lume e vou iluminando os galhos da selva

42
No entanto quando voo mantenho meu jeito de andar
E não só sou vaga-lume
Senão também o ar em que ele voa
A lua de canto a canto me atravessa
Dois pássaros se perdem em meu peito
Sem que o possa remediar
E em seguida sou árvore
E sendo árvore meus jeitos de vaga-lume conservo
E meus trejeitos de céu
E meu andar de homem meu triste andar
Agora sou roseira e falo com linguagem de roseira
E falo
Sai rosa rosainha
Sai rosa sal ao dia
Saia ao sol rosa sario
Foguistaminhasonrodinharosorouro ouro
Ando pequeno vulcão do dia
E tenho medo do vulcão
Mas o vulcão me responde
Fugitivo roda ao fundo onde ronco
Sou rosa de trovão e ressoo engasgos milenares43
Estou preso e arrasto meus próprios grilhões
Os astros que trago rangem em minhas entranhas
Proa a borrasca em procissão procriadora
Proclamo minhas proezas bramadoras
E meus brônquios respiram na terra profunda
Sob os mares e as montanhas
E em seguida sou pássaro
E disputo o dia em gorjeios
O dia que me atravessa a garganta
Agora falo somente
Fiquem calados que vou me pôr a cantar
Sou o único cantor deste século
Meu meu é todo o infinito
Minhas mentiras cheiram a céu
E nada mais
E agora sou mar
Mas guardo algo de meus jeitos de vulcão
De meus jeitos de árvore de meus jeitos de vaga-lume
De meus jeitos de pássaro de roseira e de homem
E falo como o mar e afirmo
Desde a firmeza até o horicéu
Sou todo montasas na azulaia

43
- O original é “cazcarrias”, palavra comum no espanhol que seria uma espécie de aspereza na garganta e
que não tem um equivalente coloquial em português. Preferi “engasgos milenares”, o que se relacionaria
com a repressão milenar da humanidade, representada no poema principalmente pelo cristianismo.
Danço nas voaguas com espurinas
Uma corrienha trás a outra
Ondonha em ondanhas meu rugachão
As verdolinhas sob a lua do selfluxo
Vão em montonda até o infidondo
E quando bramuram os urafões
E a ondanha lança às praias laciolas
Há um naufundo que grita por socorro
Eu me faço de surdo
Olho as burraceias sobre meus tornazões
A subaterna com seus braalhidos
As escaroas da montasca
As escaroas da desonda
Que não descansam até que roam a borda dos alticeeus
Até que cheguem à abifunda
Entrementes canta o pirata
E eu escuto vestido de verdiúverdiuú44
A lona no mar rienha
Na lua geme o vento
E se ergue em branco rangimento
Asas de ondas em meu azul

O mar se abrirá para deixar sair os primeiros


náufragos
Que já cumpriram sua pena
Depois de tantos tantos séculos
Andarão pela terra com olhares de vidro
Escalarão os montes de suas frases proféticas
E se transformarão em constelações
Então aparecerá um vulcão no meio das ondas
E falará eu sou o rei
Tragam-me o órgão das nebulosas
E saibam que as ilhas são as coroas da minha cabeça
E as ondas o meu único tesouro
Eu sou o rei
O rei canta à rainha
O céu canta à céa
O luz canta à luz
A luz que busca o olho até que o encontra
Canta o céu em sua língua astronômica
E a luz em seu idioma magnético
Enquanto o mar lambe os pés da rainha
Que se penteia eternamente
Eu sou o rei
E vos falo, o planeta que atravessou a noite

44
Não se reconhece ao sair do outro lado
E muito menos ao entrar pelo dia
Pois nem sequer lembra seu nome
Nem quem eram seus pais
Me fala, você é filho de Martín Pescador
Ou é neto de uma cegonha tartamuda
Ou de aquela girafa que vi no meio do deserto
Pastando ensimesmada as ervas da lua?
Ou é filho do enforcado que tinha olhos de pirâmide?
Algum dia o saberemos
E morreras sem teu segredo
E de tua sepultura sairá um arco-íris como um bonde
Do arco-íris sairá um casal fazendo amor
Do amor sairá uma selva errante
Da selva sairá uma flecha
Da flecha sairá uma lebre fugindo pelos campos
Da lebre sairá uma fita que irá assinalando seu caminho
Da fita sairá um rio e uma catarata que irá salvar a lebre de seus perseguidores
Até que a lebre comece a escalar por um olhar
E se esconda no fundo da pupila

Eu sou o rei
Os afogados florescem quando eu mando
Amarrem o arco-íris no pirata
Amarrem o vento nos cabelos da bruxa
Eu sou o rei
E traçarei teu horóscopo como um plano de batalha

Ouvindo isso o arco-íris se afastava


Aonde você vai arco-íris
Não sabes que há assassinos em todos os caminhos?
O íris acorrentado na coluna montante
Coluna de mercúrio em festa para nós
Três mil e trezentos metros de infravermelho
Um extremo se apoia em meu pé e o outro na chaga de Cristo
Os domingos do arco íris para o anjo dourado45
Por onde estará o arqueiro dos meteoros?
O arqueiro arcaico
Sob a abóboda eterna do arqueiro do arcano com seu violino violáceo com seu violino violado
Arco íris das sobrancelhas em meu céu arqueológico
Sob a área do arco se esconde a arca de tesouros preciosos
E a flor como um relógio construída

45
“Arcángel”, palavra original do verso, tem três silabas. Se deixasse apenas “anjo” o verso pareceria
incompleto. Preferi adicionar “dourado” porque dá um tom misterioso ao verso, porque mantém a questão
das cores da estrofe (“infravermelho”, arco-íris”, “violáceo”) e rima com “violado” que aparece três versos
depois.
Com a engrenagem perfeita das pétalas
Agora que um cavalo começa a subir galopando através do arco íris
Agora o olhar descarrega as pupilas demasiadamente preenchidas
No instante em que fogem os ocasos através das estepes
O céu está à espera de um aeroplano

E eu ouço a risada dos mortos debaixo


da terra

Canto VI

Ametista46 apoteose e molusco


Enodoado
noite

O coração
Essa em breve direção
o nó tremendo
Flexível coração a apoteose
Um dois três
quatro
Lágrima
eu-lâmpada47
e molusco
O peito ao melodioso
Enodoado a joia
Com que tremendo angústia
Normal tédio
Paixão era?
Morte ao violoncelo
Uma vela o olho
Outro outra
Cristal sim cristal era
Cristaleza
Magnetismo

46
O orginal é “alhaja”. Não há um equivalente exato em português. Joia, que também existe em espanhol,
nesse caso perderia o encanto. Por isso preferi ametista, a qual tem a sonoridade mais parecida ao poema
original, mantém um efeito de magia, é um tipo de pedra preciosa e aparece anteriormente na obra.
47
O pronome “mi” do espanhol é monossílabo, já “minha” tem duas sílabas. Por isso, preferi “eu-lâmpada”
que mantém o ritmo e, mesmo mudando um pouco o sentido (que nesse caso é secundário), mantém o
espirito de vanguarda e desagregação da linguagem do original.
sabeis toda a seda
Vento flor
lento nuvem lento
Seda cristal lento seda
O magnetismo
seda alento cristal seda
Assim viajando em postura de ululante48
Ondulação
Cristal nuvem
Molusco sim por violoncelo e joia
Morte de joia e violoncelo
Assim sede por fome ou fome e sede
E nuvem e joia
Lento
nuvem
Sondá ondá olé Alá andé Aládino49
O ladino Aladim Ah ladino dino lá
Cristal nuvem
Para onde
Por onde
Lento lenta
onda sonda asa onda
50
Onda ondá o ladino sim ladino
Pede olhos
Tenho âmbar51
Nessa seda cristal nuvem
Cristal olhos
e perfume
52
Bela feira
Cristal nuvem
Morte joia ou em cinzas
Porque eterno porque eterna
lento lenta
Ao acaso cristal olhos
Graça tanta
e entre mares
Mira mares
Nomes dava
pelos olhos folhas mago

48
49
Mudei a posição do acento para gerar esse ritmo, o que mantém a sensação de mágica do verso original.
50
Por questão de ritmo e para reiterar o recurso utilizado versos antes.
51
O original é “nácar”. Optei por “âmbar” porque gera um significado semelhante, pela sonoridade e
principalmente para aproximar o leitor (“nácar” é uma palavra mais comum no espanhol que no português,
ao contrário de “âmbar”, bem comum na nossa língua).
52
O original é “tienda” (em português: tenda”). Optei por “feira” porque rima com “perfume” (pelo “f”).
Alto Alto
E o clarim de Babel
Pede âmbar53
tenha morte
Um dois e quatro morte
Para o olho e entre mares
Para o barco nos perfumes
Pela joia ao infinito
Vestir o céu sem o desmaio
Se desfolha tão prodígio
O cristal olho
E a visita
flor e galho
Ao glória trino
apoteose
Vai viajando Noite Nó
Me daria
cristaleiras
tanto acaso
e noite e noite
O que tinha a tempestade
Noite e noite
Apoteose
O que tinha cristal olho cristal seda cristal nuvem
A escultura seda ou noite
Chuva
Lã lá54 flor por olho
Flor por nuvem
Flor por noite
Senhor horizonte já vem vindo já vem vindo
Porta
Iluminando negro
Porta rumo a estatuarias ideias
Estátuas de aquela ternura
Vai pra onde
De onde vem
a paisagem vento seda
A paisagem
verde idosa
Quem diria
Que já ia
Quem diria cristal noite
Tanta tarde

53
Idem em relação à nota 47.
54
A palavra “lana” (“lã” em português) do original tem dois versos. Por isso optei por usar “lã” e “lá”, duas
palavras de sentidos totalmente diferentes mas de sonoridade quase igual, e que juntas mantém o ritmo.
Tanto céu que se desperta
Senhor céu
cristal céu
E as chamas
e em meu reino
Âncora noite apoteose
Enodoado
a tormenta
Este céu
Âncora sempre
suas raízes
O destino tanto acaso
Desliza deslizava
Ao apagar-se a pradaria
Por quem sonha
Luancenho cristal lua
O que sonha
O que reino
de seus ferros
Âncora minha
Minha andorinha55
Suas molas pelo mar
Anjo meu
tão obscuro
tão corado
Dirá espectro
Cristal seda
Tão estátua e tão alento
Terra e mão
A marinha tão armada
Armaduras os cabelos
Olhos templo
e o mendigo
Explodido coração
Montanário
Campanhoso
Soam perlas
Chamam perlas
A honra dos adeuses

55
No original []
Cristal nuvem
O rumor e a lançada
Nadadora
Cristal noite
A medusa irreparável
Dirá espectro
Cristal seda
Esquecendo a serpente
Esquecendo ambas pernas
Ambos olhos
Ambas mãos
Ambas orelhas
Aero aeronauta56
em meu terror
Vento aparte
Violorinha e andorcelo
Violonera e ventoinha
Enterradas
As campanas
Enterrados os olvidos
Em sua orelha
vento norte
Cristal meeu 57

Banho eterno
O nó noite
O glória trino
Sem desmaio
Ao tão prodígio
Com sua estátua
Noite e galho
Cristal sonho
Cristal viagem
Flor e noite
Com a estátua
Sua estátua58
Cristal morte

56
No original não há esse efeito de repetição parcial (“aero” com “aeronauta”). A pus por um lado para
intensificar o efeito de final de obra e de desagregação das normas da linguagem; e por outro lado pela
sonoridade, “aero” e “aeronauta” juntos sincronizam com o “ambas/os” repetido antes três vezes.
57
O pronome “mío” do espanhol tem duas silabas, já “meu” tem uma. Para manter o ritmo dupliquei o “e”
de “meu”, recurso que já usei anteriormente e que nesse caso reforça a desestruturação da língua e o
caráter vanguardista do poema.
58
No original esse verso e o anterior eram um só: “com su estatua”. Como “sua” tem dois versos, ao
contrário de “su”, acabaria nesse caso prejudicando o ritmo. Transformei por isso o verso em dois. Além
disso, com a repetição de estátua aumentei a tensão emotiva e a sensação de final de obra.
Canto VII59

Ao aia aia
Ia ia aia ui
Tralalí
Lali lalá
Aruario
Urulario
Lalilá
Rimbimbolãolãolão
Uiaya zonhorario
Lalilá
Montulenha monluztrela
Lalolú
Montresol e violotrina
Ai ai
Montesul em lasurienho
Montesol
Luspunsenho solinario
Aururario ulisaurio lalilá
Ylibarca murilonha
Oormajaula marijauda
Mitradente
Mitrapausa
Mitralonga
Mitrasoa
Matrionha
Ondaminha olasia lalilá
Isonauta
Ondalenha uruaro
Ia ia campanusio compasseido
Tralalá
Ai ai marescente e eternauta
Redondenha tanherendo lucenario
Ia ia
Larimbãobão
Larimbãobãoplaneleira
Larimbãobãocitarela

59
Nesse canto tratei de adaptar parte da sonoridade do espanhol para a do português. O “y”, comum em
espanhol e quase inexistente no português, na maioria dos casos foi mantido. Ele dá na tradução uma
sensação de magia.
Leilãobaririririlanha
Lirilão
Ai i a
Temporía
Ai aiai
Ululayo
ulayu
laju io
Ululayu
ulayu
ayu yu
Luatando
Sensoria e infimento
Ululayo ululuaento
Pregosoa
Cantasorio ululacente
Oraneva vu juio
Tempovio
Infileiro e infinautazurruinha
Jaurinario ururayú
Montanhendo orararía
Arosariá ululacente
Semperiva
ivarisa tarirá
Campanulio lalalí
Auricento auronida
Lalalí
Io ia
iiio60

Ai a i ai a i iii o ia

60
No original as vogais desse verso estão esparzidas. Preferi juntá-las para que, ao estarem unidas,
contrastem com o verso seguinte, intensificando a impressão de explosão.

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