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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE

CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS LETRAS E ARTES


DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS

Kelvis Leandro do Nascimento

ESTACIONANDO NO C4: Sociabilidades deslocadas no estacionamento do


hipermercado Carrefour

ESTACIONANDO NO C4
Socia(bi)lidades juvenis em contexto urbano, resistências, rescunhos e trajetos.

Dissertação de mestrado

NATAL/RN
2018
Kelvis Leandro do Nascimento

ESTACIONANDO NO C4: Sociabilidades deslocadas no estacionamento do


hipermercado Carrefour

Dissertação de Mestrado apresentada ao


Programa de Pós-graduação em Ciências
Sociais, da Universidade Federal do Rio
Grande do Norte,como parte dos
requisitos necessários à obtenção do
título de Mestre em Ciências Sociais

Orientador: Lore Fortes

NATAL/RN
2018
Kelvis Leandro do Nascimento

ESTACIONANDO NO C4: Sociabilidades deslocadas no estacionamento do


hipermercado Carrefour

Trabalho aprovado. Natal, DATA DA APROVAÇÃO:

Lore Fortes
Orientador

Professor
Convidado 1

Professor
Convidado 2

Natal
2018
Dedicatória
Agradecimentos
Resumo
Abstract
SUMÁRIO

AGRADECIMENTOS .................................................................................................. 5

RESUMO..................................................................................................................... 6

1 – INTRODUÇÃO .......................................................... Error! Bookmark not defined.

1. I. Introdução metodológica ........................... Error! Bookmark not defined.

2 – ESTACIONANDO NA CIDADE: Lazer, sociabilidades e trajetos jovensError! Bookmark n

3 – CONTEXTO URBANO E VIOLÊNCIAS: Vulnerabilidades juvenisError! Bookmark not defin

4 – “BORA PRO C4?”: O estacionamento, o lazer e a socia(bi)lidadeError! Bookmark not def

2. III. Juventude e Identidade ........................... Error! Bookmark not defined.

3. IV. As tribos? ................................................ Error! Bookmark not defined.

4. V. O estar junto ............................................ Error! Bookmark not defined.

5. VI. Juventudes e sexualidades ..................... Error! Bookmark not defined.

5 – Considerações Finais ............................................. Error! Bookmark not defined.

6 – Referências Bibliográficas ..................................... Error! Bookmark not defined.

7 - Anexos ...................................................................... Error! Bookmark not defined.


1 – INTRODUÇÃO
1. I. Introdução metodológica

Nesse subcapítulo, nos referimos aos procedimentos metodológicos


utilizados na produção desse trabalho. A escolha de uma metodologia é vital
para a boa interpretação do obeto que se decide estudar e, nesse percurso,
modificações e aprimoramentos se fizeram necessários para melhor
compreender e apresentar nosso obeto. O foco principal é auxiliar no
entendimento de como foram coletadas as informações e conexões que
possibilitaram mostrar que, às vezes, um estacionamento não é apenas um
estacionamento.

Apesar da intensa produção acadêmica sobre a atuação dos agentes


nas cidades, o desafio da pesquisa urbana ainda se configura como uma
empreitada estimulante. Ainda mais se a cidade em questão for tão familiar
para o pesquisador. Os cenários, os trajetos e as vivências, podem se
transformar em rotina e cegar os olhos do citadino que resolve se aventurar
como pesquisador nesse campo.
O que é vivenciado de perto, pode não ser visto com toda magnitude
que se vê quando se está longe. Entretanto, nessa produção acadêmica,
buscamos respaldo teórico e metodológico para certificarmos de que nossa
visão do que é comum e repetitivo não deixe de nos revelar o exótico, ou seja,
mesmo na cidade, tão familiar aos nossos olhares, o exótico se faz presente e
cabe ao bom cientista social identificá-lo.
Para trazer à luz toda a gama de relações sociais que, à primeira vista,
não revela a intensidade da vida das coletividades urbanas, mais
especificamente através do estudo do espaço de sociabilidade produzido no
estacionamento do Carrefour de Natal-RN. Pesquisar um estacionamento, em
si, já pode parecer fadado a mesmice e pode suscitar estranheza e
incredulidade. Mas, e quando um estacionamento é ocupado não para o
propósito inicial de seu uso? E quando um estacionamento se torna a mais
frequentada área de sociabilidade de uma cidade? Evidentemente que algo
está acontecendo. Nesse sentido, esse trabalho investiga os porquês do
sucesso de uma área privada e da sua utilização como espaço de lazer e
sociabilidade. Quais fenômenos interferiram nesse hábito de encontros no
local? Quais sociabilidades acontecem?
As possibilidades de entendimento de um determinado objeto de
estudo são inúmeras. Não se conhece o objeto sem deixar primeiro que ele
fale, ou seja, o ponto de partida de toda pesquisa deve ser o mergulho ao
campo. Muitas vezes, somos condicionados a levar toda uma gama teórica a
fim de que o campo se adeque a tudo àquilo. Deixamos assim, de trazer o
campo à luz, porque o sufocamos com olhares enviesados.
O Carrefour, ou C4, como foi apelidado carinhosamente pelos
frequentadores, não tem simplesmente um estacionamento. Logo de cara é
possível notar uma movimentação de pessoas que torna o espaço um lugar de
reflexão. Entretanto, qualquer suposição que seja feita, à primeira vista, pode
ser minimalista e desacreditada.
Além disso, o C4 não era totalmente desconhecido por mim quando
resolvi pesquisá-lo. Anos antes, eu frequentava quase que diariamente para
desopilar ou ter um momento mais introspectivo, longe dos embates cotidianos.
Percebia que outras pessoas faziam o mesmo. Entretanto, somente na
produção do pré-projeto dessa dissertação que me dei conta que aqueles
encontros poderiam significar muito mais do que simplesmente aproximações
aleatórias de amigos ou namorados. A estranheza foi justamente pelo simples
fato de haver, logo de frente ao estacionamento uma praça pública tão grande
quando e com a qualidade de contar com bancos e áreas específicas para
diversas atividades de lazer, entretanto, cansei de contar os dias em que ao
avistar a praça do estacionamento, ela estava completa ou quase que
totalmente vazia.
Podemos refletir sobre diversas questões para esse fato, insegurança,
falta de iluminação, problemas com suporte de transporte, mas todos caem por
terra na medida em que a praça pública tem quase que todos os mecanismos
que dispõe o estacionamento do C4, não fosse sua segurança tão precária. Só
depois do convívio com meus interlocutores é que obtive resposta para esse
questionamento, o C4 tem um clima, um ar, um tom de familiaridade. Resgata
nos frequentadores o imaginário de segurança familiar e de contato livre com
as pessoas. Explicaremos melhor no capítulo 3.
A tarefa de adentrar o campo e entrar em contato como nosso objeto
num primeiromomento parece muito simples, mais ainda se levarmos em
consideração que eu já frequentava a área há um bom tempo, mas o simples
fato de tentar entrar na intimidade daqueles grupos fez da iniciativa uma tarefa
bem difícil. Então, após algumas tentativas, percebi que eu precisavaser
afetado pelo campo, precisava sentir o que ele trazia de especial para aquelas
pessoas. Lembrei-me de um texto muito interessante da antropóloga frances
Jeanne Favret-Saada (1990) , o texto mostra as dificuldades de se chegar a um
ponto específico de observação etnográfica e aconselha para o “Deixar afetar-
se”, ou seja, Favret-Saadarefere-se a um determinado período de campo em
que o pesquisador é afetado por ele, como se o campo falasse por si.
Mas, falar de afeto em pesquisa empírica e em ciências sociais? Fiquei
me perguntando se recorrer a uma categoria tão subjetiva seria válida num
campo tão engessado como o da pesquisa científica. Favret-Saada, mais uma
vez me auxiliou nessa questão, quando levanta o debate sobre a questão do
afeto na antropologia. “Ser afetado” é mais do que descobrir uma linha de
raciocínio para descrever o campo, é experimentar ao máximo as sensações
que os atores sociais vivenciam, possibilitando assim, uma real experiência
com o objeto estudado.
Numa defesa do afeto enquanto categoria importante no trabalho
etnográfico, Favret-Saada afirma:

Quando reconhecem [o afeto], ou é para demonstrar que os afetos


são mero produto de uma construção cultural, e que não têm
nenhuma consistência fora dessa construção, como manifesta uma
abundante literatura anglo-saxã ou é para votar o afeto ao
desaparecimento, atribuindo-lhe como único destino possível o de
passar para o registro da apresentação, como manifesta a etnologia
francesa e também a psicanálise. Trabalho, ao contrário, com a
hipótese de que a eficácia terapêutica, quando ela se dá, resulta de
um certo trabalho realizado sobre o afeto não representado. [...]. É –
parece-me – urgente, reabilitar a velha “sensibilidade”, visto que
estamos mais bem equipados para abordá-los do que os filósofos do
século XVII. (FAVRET-SAADA, 2005, p. 01)

Além disso, em suas investigações sobre a feitiçaria em Bocage,


iniciada em 1968, Favret-Saada tece críticas sobre o material produzido até
então pelos antropólogos que a antecederam nessa investigação, pelo fato
deles apenas observarem os rituais se baseando tão somente nas informações
que compravam de um ou outro nativo. Ou seja, a contribuição desses
antropólogos era tão somente a observação e não a participação. Sua
pesquisa se fez, portanto, primeiramente pela inserção ao território dos
feiticeiros. Trabalho difícil, visto que o acesso só foi concedido quando ela
própria se assumiu enfeitiçada, deixando a pesquisadora, no dado momento,
em segundo plano. O distanciamento do “nós” e “eles”, tão difundido pelos
antropólogos anglo-saxões que não aceitavam a presença de feiticeiros na
Europa da época, foi combatido por Favret-Saada que salientava o fato de que
essa divisão entre nativo e etnólogo era mais uma tentativa de proteção e
distanciamento do objeto do que uma realidade empírica consistente.
“Afetar-se” seria, portanto, não negar a especificidade com que
determinado objeto estabelece suas relações sociais e que, para compreendê-
lo, se faz necessário incorporar os hábitos, costumes e vivências desse
contexto. A observação participante, estando a observação e a participação
como algo indissociável, resultaria numa aproximação mais eficaz com o
objeto. “Ser afetado” como prerrogativa de entendimento não apenas
hierárquico (pesquisador – objeto), mas sendo o objeto incorporado ao
pesquisador de tal maneira que o segundo passe realmente a integrar o
primeiro.
Todavia, esse “afetar-se” na pesquisa desenvolvida por Favret-Saada
faz sentido no momento que o objeto realmente era algo estranho ou exótico
para ela, o que levaria a um processo de iniciação com o objeto, ou seja,
Favret-Saada realmente não conhecia bem seu objeto ou ao menos não a
fundo. Nas pesquisas urbanas, o desafio é justamente fazer o contrário, afetar-
se, mas procurar distanciar-se das ideias e convicções prévias de que se tem
do espaço urbano tão familiar.
Nesse sentido, olhar o C4 não mais como um frequentador com
demandas específicas, mas agora, como um pesquisador não preocupado com
as motivações próprias de frequentar o local, mas sim, com as razões dos
demais frequentadores que, em grande parte, formam grupos relativamente
grandes de pessoas. Como lugar de passagem, o C4 não suscita o interesse
imediato das pessoas, ou seja, passa despercebido dos interesses que podem
até surgir, mas passam na medida em que ônibus ou o carro passam do local.
Logo outros assuntos tomam o lugar nos indivíduos e o estacionamento fica
apenas marcado como um lugar onde muita gente frequenta. O interesse por
adentrar nessas conexões causa um dilema já mencionado noutro momento
por Favret-Saada:
Aqui se situa um dilema que o pesquisador deverá enfrentar sem guia
e sem modelo. Pesquisar a coerência dos laços entre os seres
esfaziaria efetivamente o fenômeno propriamente urbano do
encontro: não um encontro esperado em um círculo de
interconhecimento, nem tampouco aquele de um rosto “conhecido de
vista” surgido ao acaso de um cruzamento, mas o encontro nu, entre
pessoas privadas de qualquer outro contexto senão aquele de suas
roupas, e que consiste em dirigir a palavra a alguém de quem não
sabemos nem de onde vem, nem o que faz, alguém de quem nada
sabemos. (FAVRET-SAADA, 1990, p.101).

Optamos, inicialmente, em fazer um reconhecimento inicial do espaço


e das pessoas que lá frequentam. Com a ajuda de questionários estruturados,
coletamos informações de idade, sexo, sexualidade, renda, local de moradia,
etc. Os dados aparecerão no decorrer desse trabalho utilizados como
ferramenta teórica auxiliar na descrição das sociabilidades do C4. Cem
questionários foram aplicados e os dados coletados auxiliaram imensamente
numa caracterização prévia do nosso objeto. Além diss, a tarefa da execução
desses questionários nos mostraram que se quiséssemos adentrar mesmo
aquela sociabilidade, seria necessário muito mais do que perguntas fixas com
múltiplas escolhas.
Semanas depois, fui ao campo munido de gravador e bloquinho de
notas. Sentindo que, dessa vez, eu conseguiria capturar mais conversas e
dados que me auxiliassem na tarefa objetivada. Realizei diversas gravações,
como grupos e com duplas – o que geralmente é o que mais se vê – grupos
repletos de amigos ou duplas de pessoas iniciando romances. Essas
conversas também ajudam a compor este trabalho.
Entretanto, a presença de um gravador, por menor e mais sutíl que
fosse, acarretou diversas vezes em experiências muito pobres, relatos
medrosos de vivências e uma vergonha estampada nos interlocutores. Senti
que o gravador acuava suas respostas, as palavras cada vez mais escolhidas e
sofisticadas para responder escondiam o que realmente pensavam os
interlocutores. Era como se o gravador fosse uma prova dos “delitos”
cometidos por eles e que, mesmo com a promessa de preservação das
identidades deles, estavam contanto partes de suas vidas que não poderiam
ser guardadas numa gravação. Senti que o gravador trazia um ar de
espionagem como se eu estivesse metendo o bedelho na vida deles e
acumulando provas disso. Resolvi me livar do gravador. Mais uma adaptação.
Já sem o gravador, mas sempre me apresentando como pesquisador,
voltei ao campo para, mais uma vez, me inserir nos grupos presentes no local.
A chegada era sempre parecida, eu perguntava a hora, se a bebida que eles
estavam tomando era boa, se tinham cigarros, ou simplesmente sentando
próximo a eles e entrando nos assuntos que iniciavam. Poucas vezes sofri
desconfiança ou fui banido do convívio. Muito pelo contrário, me vi por vezes
respondendo mais perguntas do que fazendo. Era o preço a se pagar para
entrar nos grupos, em cinco ou dez minutos eu já estava inserido e atuando
nas conversas. Percebi assim que a observação participante seria o método
mais apropriado para meu trabalho.
Comecei a frequentar o estacionamento mais vezes, entretanto,
priorizava os finais de semana – quinta, sexta e sábado – eram os dias mais
frequentados e que rendiam mais conversas.
Nesse sentido, as ferramentas metodológicas aqui utilizadas
acompanharam o “afertar” do objeto em mim, suas sutilesas fizeram necessário
a modificação e/ou aprimoramento dos métodos que dispunha. Acredito que a
observação participante foi a grande contribuidora nesse percurso, com ela
obtive informações e respostas que se transformaram nesse trabalho
dissertativo. Com ela também, descobri que o “nós” e “eles” mencionado por
Favret-Saada acaba por se dissolver em um arranjo perfeito onde pude coletar
informações através de uma pesquisa leve, reveladora e prazerosa que, ao
final do processo, me rendeu informações e amizades muito proveitosas. Hoje,
tenho muito mais motivos para frequentar o C4, não mais como pesquisador,
mas como usuário do espaço e amigo de muito desses grupos.
2 – ESTACIONANDO NA CIDADE
Lazer, sociabilidades e trajetos jovens

“A rica e densa concretude cotidiana permanece alérgica ao positivismo


esquemático, porque os atos e as situações que a exprimem não se
esgotam numa causalidade ou num finalismo que lhes daria sentido. Pode-
se controlar o passado ou avaliar o futuro de uma maneira mais ou menos
objetiva, mas é impossível apreciar toda a riqueza daquilo que Walter
Benjamim chamava ‘interesse do atual’”.
MICHEL MAFFESOLI
ESTACIONANDO OS AFETOS NA CIDADE
Espaços, trajetos e emoções

Ao propor uma nova perspectiva e um lugar de maior prestígio do


espaço enquanto categoria analítica na geografia, Edward W. Soja (1993),
afirma que o texto linear, baseado na fixação do tempo não deve ser
supervalorizado. A intenção é abrir uma via onde o espaço seja alvo de
inquietações e utilizado como mecanismo de entendimento da ação social e da
organização dos indivíduos, sobretudo nas cidades. Para isso ele “Aponta para
a intenção de alterar as modalidades familiares do tempo, de sacudir o fluxo
normal do texto linear, para permitir que outras conexões mais ‘laterais’, sejam
estabelecidas” (SOJA, 1993, p.07).
Buscando a “ reafirmação de uma perspectiva espacial crítica na teoria
e na análise sociais contemporâneas” (Ibid), Soja salienta que atualmente se
torne mais viável analisar o mundo pela via da construção espacial do que a
construção histórica. Os atores sociais, nesse contexto, estariam mais
suscetíveis à ação das forças no espaço do que da ação histórica de suas
conturbadas cidades. Na intenção de tornar a geografia mais crítica, Soja
reconhece em Michel Foucault o primeiro geógrafo pós-modernos, apesar de
saber que este não se identificava com isso. Ao discorrer sobre as formas de
espacialidade da vida social em Foucault, o autor diz que sua visão apresenta-
se como integradora das relações de poder, saber e espaço. INCLUIR
LEITURAS SOBRE ESSE TRECHO EM QUE ELE FALA DO MICHEL
FOUCAULT

Podemos, utilizando conceitos geopolíticos, elencar dois tipos de


matrizes territoriais. A questão do território, aqui inserida, aborda uma reflexão
mais ampliada e vai reduzindo até o lugar do espaço.
3 – CONTEXTO URBANO E VIOLÊNCIAS: Vulnerabilidades juvenis nas
cidades

Poderíamos dizer que a insegurança moderna, em suas várias


manifestações, é caracterizada pelo medo dos crimes e dos
criminosos. Suspeitamos dos outros e de suas intenções, nos
recusamos a confiar (ou não conseguimos fazê-lo) na constância e
na regularidade da solidariedade humana. (BAUMAN, 2009, p. 09).

Atualmente, o Rio Grande do Norte é destaque nacional em relação


aos índices de criminalidade. A violência que assombra todo o estado é
decorrência da falência estatal, mas principalmente pela migração de facções
criminosas oriundas de estados como São Paulo e Rio de Janeiro. Em 2017,
somente até o mês de Julho, 1,2 mil mortes foram registradas por condutas
violentas e intencionais1. Ainda na mesma publicação, o jornal Tribuna do
Norte evidenciou que sete pessoas morrem por dia no estado. Em dez anos,
os índices de criminalidade e violência saltaram para 232% a cada 100 mil
habitantes. Dois meses depois, em agosto do mesmo ano, a marca dos
homicídios atingiu 1.500 casos, os dados foram apresentados pelo G1, portal
de notícias da rede Globo, e as informações foram obtidas pelo Observatório
da Violência Letal Intencional (OBVIO)2. Em dados atualizados até novembro
desde ano, os Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLI) somam 2.185. Os
gráficos abaixo, coletados do endereço eletrônico da Câmara Técnica de

1
http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/rn-tem-maior-a-ndice-de-homica-dios-do-paa-s/385584
2
https://g1.globo.com/rn/rio-grande-do-norte/noticia/rn-atinge-marca-de-1500-homicidios-em-2017-diz-
instituto.ghtml
Mapeamento de Crimes Violentos Letais Intencionais – CVLI do RN as
informações nos ajudam a entender o panorama da violência no estado.
O primeiro deles, mostra que os índices de violência causados pela
ação do tráfico ultrapassam 60% dos casos, seguido por violência interpessoal,
ambos lideram o ranking das causas de CVLI no RN.

Gráfico 01: Percentual de CVLI no RN por Macrocausa Preliminar, 2017

Fonte: COINE/QSESED, 2017.

Não coincidentemente, os índices de homicídio e lesão corporal


seguida de morte, seguem liderando o gráfico a seguir.

Gráfico 02: Percentual de CVLI no RN por tipologia, 2017


Fonte: COINE/SESED, 2017

Fazendo uma leitura da cidade do Natal e de sua região metropolitana,


podemos confirmar que a região foi a que mais registrou CVLI’s no RN. O que
demonstra como a região é mais afetada pelos índices de violência, fato que
transforma a rotina de vida da população. No mapa abaixo, a área denominada
“Grande Natal” – Natal, Ceará-Mirim, Parnamirim, Macaíba, São Gonçalo do
Amarante – aparece com alto índices de criminalidade.

Mapa 01: Registro de CVLI’s no RN


Fonte: COINE/SESED, 2017.

Gráfico 03: Número de CVLI em Natal por Zona Administrativa, 2017

Fonte: COINE/SESED, 2017.


Nesse último gráfico, nos interessa verificar como a zona administrativa
Sul está bem abaixo em relação aos demais percentuais. É uma região de
moradores de classe média e classe média alta, local de maior concentração
de grandes lojas e shoppings, além de bancos e escolas particulares. Para
além da segurança pública presente no bairro, esses estabelecimentos contam
com segurança privada. Em se tratando do Hipermercado Carrefour, localizado
justamente nessa região, a segurança é reforçada por duas agências de
segurança privada, o fator segurança aparece na maioria das falas de meus
interlocutores como principal motivo de irem ao local.
O hipermercado Carrefour investe pesado em segurança privada, além
disso, sua extensa grade de ferro que rodeia toda área, vigilância e
monitoramento eletrônicos e, por vezes, até a presença da polícia militar que
faz ronda no estacionamento, favorecem a procura pelo espaço como área de
lazer. Frequentado em sua grande maioria por jovens, o gráfico abaixo mostra
justamente que eles são os principais alvos da violência e que,
consequentemente, suas opões de lazer são escolhidas levando em
consideração o fator segurança, como eles próprios assumem quando
entrevistados, falaremos mais sobre esse assunto no capítulo seguinte.

Gráfico 04: Percentual de CVLI, por faixa etária, Janeiro a Novembro de 2017
Fonte: COINE/SESED, 2017.

Há uma ligação direta entre a onda de crimes violentos e a mudança


na forma de vida da população das cidades. A atuação do crime organizado e
dos crimes oriundos da marginalidade comum, ou seja, crimes que não estão
ligados com a ação de organizações criminosas, transforma a maneira de agir
e obriga os habitantes das cidades a reverem suas rotinas a fim de escapar
das áreas consideradas perigosas e violentas.
Em atividades onde essa rotina não pode ser alterada, como o trabalho
por exemplo, os moradores acabam por tomar alternativas que dificultem a
ação dos criminosos. Em Natal, por exemplo, muito se ouve falar em “celular
do bandido” que é um segundo aparelho de celular, geralmente mais velho ou
com menos valor monetário que fica na bolsa para no caso de um possível
assalto ser este o alvo dos criminosos.
A sensação de insegurança torna às atividades de lazer em vias e
praças públicas inviáveis. Isso atrelado ao fato de que a grande maioria das
praças públicas da cidade do Natal estarem parcial ou totalmente
abandonadas, sem garantias de atividades de lazer ou de aparato físico que
permita a sociabilidade entre as pessoas. Mais ainda, em se tratando de
parques públicos como o Parque das Dunas e o Parque da Cidade, esses com
estrutura apta de convivência, estarem localizados em áreas de difícil acesso
ao público pedestre ou que faz uso de transporte público.
Outra opção de espaço de lazer na cidade são as praias urbanas, mas
essas também não estão livres da ação de criminosos, sem falar que a maioria
não tem infraestrutura que torne o passeio barato, um exemplo são a falta de
banheiros e de segurança para os banhistas.
Parece ser, portanto, nas atividades privadas de lazer a última
alternativa que restou aos moradores de Natal. Shoppings, supermercados,
organizações religiosas que promovem festas e confraternizações, como as
recentes igrejas inclusivas como a Videira e a Bola de Neve, por exemplo.
Igrejas que, como foco principal nos jovens, promovem encontros regulares em
prédios próprios ou alugados com segurança particular.
A violência tem produzido a necessidade de novos espaços de lazer. O
estacionamento do C4 representa a possibilidade de um encontro de lazer e
sociabilidade muito viável. Sua localização, equipamentos urbanos como as
paradas de ônibus urbanos e intermunicipais, sua facilidade de acesso a
produtos e bens de consumo – por se tratar principalmente de um
hipermercado – sem falar na imensa área disponibilizada para o convívio dos
clientes e transeuntes.
4 – “BORA PRO C4?”: O estacionamento, o lazer e a socia(bi)lidade
1. Juventude e Identidade: a potência subterrânea e a excitação
no lazer

Considerado o sociólogo do cotidiano, Michel Maffesoli3 em diversas


obras trabalha com um conceito que parece caber como uma luva na
interpretação dos dados coletados nesse trabalho. A potência subversiva é a
força que emerge da vida “selvagem” de todo o esforço que a sociedade faz
para fugir do poder instituído. Via de regra, representa uma forma um tanto
anômica, pois ao burlar o poder instaurado e vigilante acaba por produzir novas
forças que, segundo ele, são capazes de transformar a rígida moral
estabelecida.
Em, A parte do diabo: resumo das subversões pós-modernas (2004), o
autor fala que “assistimos o retorno daquilo que julgávamos ultrapassado”
(p. 14), nossa sociedade busca em diversas áreas uma revolução contra a
ordem estabelecida. Nomeando de “monoteísmo da história”, Maffesoli retrata
o poder instituído como aquele que preza pela uniformidade do pensamento e
o comportamento rígido, principalmente em relação ao cotidiano, sendo
conhecida como “forças do bem” instaura uma moral correta e a impõe a todos.
Entretanto, o autor apresenta uma nova via, a parte do diabo seria justamente
o conjunto que se rebela e tenta alcançar uma reforma em contraposição ao
pensamento hegemônico, à parte do diabo não aceita tais regras e imposições
e passa a ser conhecido e denunciado como “elementos estruturantes do dado
mundano” (p. 28). Ele resume:

Assim, no que diz respeito às sociedades pós-modernas em


gestação, bem se vê como a "sombra de Dioniso" dissemina-se
rapidamente sobre todas as formas de pensar e viver. O relativismo
moral, o sincretismo religioso ou filosófico, o cuidado com o corpo, o
hedonismo tribal, a indiferença- política, em suma, a saturação dos

3
Ver O tempo das tribos (2014), O ritmo da vida (2004), O instante eterno: o retorno do
trágico nas sociedades pós-modernas (2003), A parte do diabo: resumo das subversões pós-
modernas (2004).
valores universais, tudo isto pode ser entendido como a afirmação de
uma alteridade fecundante que o racionalismo moderno julgara poder
eliminar definitivamente. É em função do relativismo moral que a
heterossexualidade e a homossexualidade, a monogamia e a
sucessão de casamentos constituem referências aceitas; o
sincretismo religioso, por sua vez, não reflete uma exacerbação do
individualismo, cada qual criando sua religião, mas a vivacidade dos
grupinhos de vinculação. (MAFFESOLI, 2004, p.101).

E ainda:

Na constante valsa dos deuses, Prometeu está dando lugar ao


efervescente Dioniso! [...] Transmutação das trevas. É este o
esoterismo difuso que se exprime no inconsciente coletivo pós-
moderno. É o que serve de substrato aos vários excessos da
sociedade de consumo, a seus ajuntamentos, a suas histerias. (p.
187).

A parte do diabo pode ser facilmente atribuída aos jovens na


atualidade, suas identidades vibrantes e rebeldes, a juventude demonstra
características de quem não aceita a moral instituída e que, através da
rebeldia, questiona a todo tempo sua autoridade derrubando paradigmas e
construindo no lugar novas formas de vivência e de interação com o meio.
Duramente torpedeada pela cultura consumista, a juventude é foco do
marketing de massa e das grandes campanhas publicitárias que estão cada
vez mais mudando sua forma de acessá-los. Através de produtos que focam na
personalidade vibrante e inquieta, a publicidade e o mercado já estão cientes
de que a categoria juventude exige o não oficial, o desbravador, o exótico, a
exclusividade.
Zygmunt Bauman em Sobre educação e juventude (2013) no diálogo
“O jovem como lata de lixo da indústria do consumo”, acusa o Estado de
negligenciar a juventude como projeto de futuro por não investir na educação
de qualidade, mas voltando-se unicamente para seu potencial de consumo. A
juventude transformou-se exclusivamente em fatia gorda do mercado e com a
publicidade utilizando muito bem as redes sociais como o Facebook, a fatia
tende a crescer com o acesso fácil a esse tipo de consumidor. Denuncia ainda
que a lógica poderosa do consumo acaba por criar exércitos de servos
voluntários por escolha e ação positiva, pois o consumo é pintado de
autonomia e autoafirmação. Sobre a facilidade das redes sociais, Bauman diz:
Prazer, conforto, conveniência e redução do esforço, satisfação
instantânea, sonhos virando realidade e atenuando realidades
demasiado incômodas para serem descartadas como sonhos (ou
fantasmas, ou produtos da fantasia) – são essas as promessas, as
apostas, os estratagemas de uma economia dirigida pela ganância e
operada pelas compras. (BAUMAN, 2013, p. 18).

Sobre a lógica do consumo como instrumento de autoafirmação e autonomia,

A tentação consumista é criada para ser um estímulo à ação – ou,


mais precisamente, um desvio da atividade, esse antônimo da
indolência, para atender ao que produz lucro, em vez de produzir a
rotina e a disciplina, que era o principal objetivo da coerção. A
submissão às tentações consumistas é um ato de servidão voluntária.
Para usar uma nova expressão em moda, é “pró-ativa”: presume uma
escolha e uma ação positivas. Talvez seja isso que torna a armadilha
tão excepcionalmente difícil de resistir e mais ainda de desarmar.
Afinal, uma vida para o consumo é vivenciada como a suprema
expressão da autonomia, da autenticidade e da autoafirmação – os
atributos (na verdade, as modalidades) sine quibus non do sujeito
soberano. É por essa razão que a orientação consumista consome
(ou pelo menos ela taxa pesadamente) a energia vital que poderia ser
empregada a serviço dos outros interesses humanos aos quais se
recorre – compromisso, devoção, responsabilidade.

Numa assertiva, Maffesoli (2013) resume bem o contexto de união


desses grupos urbanos que, se por um lado reivindicam independência familiar,
do outro se reagrupam em novas configurações familiares, desta vez, em suas
tribos compostas por amigos e conhecidos que partilham das mesmas
vontades.
As chamadas tribos urbanas, observadas pelo autor representam uma
impulsividade característica das juventudes em procurar o novo, a excitação,
as novas experiências e novas significações de si e com o mundo. Numa
metáfora eficiente, o autor nos diz:

Continuando, gostaria de fazer notar que a constituição dos


microgrupos, das tribos que pontuam a espacialidade se faz a partir
do sentimento de pertença, em função de uma ética específica e no
quadro de uma rede de comunicação [...] Ainda que seja apenas uma
metáfora, podemos resumir essas três noções falando de uma
“multidão de aldeias” que se entrecruzam, se opõem se entreajudam,
ao mesmo tempo em que permanecem elas mesmas (MAFFESOLI,
2014, p.250-251)

Ao que parece, duas formas interpretativas de se olhar a juventude são


apresentadas por Bauman e Maffesoli, entretanto mais do que posições
discordantes vemos análises convincentes sobre a vida social e, em relação à
juventude, óticas bem definidoras da juventude que encontramos no C4. Se,
por um lado, as juventudes lá encontradas pactuam da lógica do consumo
evidenciado por Bauman, nas roupas, nos adereços da moda, na tentativa de
se diferenciar pelos atributos corporais como cortes de cabelo e tatuagens,
além de terem redes sociais repletas de amigos, por outro lado, nada disso
impede ou desfavorece a necessidade do contato físico com seus pares, seus
amigos, nem tampouco, a necessidade do lazer vivenciado presencialmente.
Da partilha dos alimentos e bebidas comprados no local e das conversas
repletas de confidências e tocas de experiências que coletamos. Encontros,
inclusive, devidamente registrados em fotos e “selfies4”.
A saída da fase juvenil para mundo adulto representa um salto que não
se consegue fugir, por insistência de toda a vida social, e que acarreta em
barreiras, resistências e até certo mal-estar. Mas é justamente desse mal-estar,
provocado por todas as demandas sociais, ou seja, o poder instituído, como já
dito por Maffesoli, que emerge a potência subterrânea e novas formas de fazer
e viver a cidade.

Estudioso do contexto urbano e dos grupos presentes nas grandes


cidade, José Guilherme Cantor Magnani, mostra em diversos momentos do
livro Jovens na Metrópole: etnografias de circuitos de lazer, encontro e
sociabilidade (2007), exemplos de como a vida na cidade é moldada pela ação
dos indivíduos, seja sozinho ou em grupos com demandas específicas. Ao
olhar a cidade deve-se, antes de tudo, reconhecer a potência produtiva dessas
interações e salientar que delas advêm os diversos rostos que uma cidade
pode ter. Grupos e suas sociabilidades têm muito mais a oferecer sobre o
espaço onde militam do que propriamente o espaço visto de maneira
engessada numa cidade pronta e analisada em sua vertente macrossocial.

4
Selfie é uma fotografia, geralmente digital, que uma pessoa tira de si mesma
(autorretrato).
Inclusive sobre o termo “tribos urbanas”, o autor aponta que, em
relação aos estudos urbanos realizados por ele e seus alunos na cidade de
São Paulo, o termo apresenta lacunas que podem ser sanadas quando se
adota o conceito de “circuitos de jovens” nessa avaliação dos grupos urbanos.
Para tal, acrescenta tipos ideais capazes de dar certa base inicial
nessas pesquisas tais como: Mancha, Circuito, Pedaço, Trajeto, Pórtico. Cada
conceito deriva de uma interpretação diferente, mas por vezes, interligado na
organização e convivência dos mais diversos grupos presentes na ecologia
paulista.
De todo modo, neste trabalho não fazemos uso dessas categorias por
acreditar que, em Natal, especificamente no estacionamento do C4, não há
grupos tão bem delimitados como os Punks, Straight Edges, Hare krishnas,
Emmos, etc. O que há são um grupo heterogêneos que não se identificam com
uma única tribo ou grupo específico. Essa posição política que os grupos
paulistas apresentam tão fortemente, não está demonstrada em Natal de
maneira tão organizada.
Os jovens do C4 frequentam o espaço para fugir dos problemas
cotidianos, encontrar seus amigos e paqueras e conversar sobre algo que os
aproxima em conteúdo. Não há, portanto, uma união com intuito político,
exceto pelo fato de que como posições políticas adotem o lazer como
estratégia de ruptura das tensões diárias.
Entretanto, algumas características são comuns entre os jovens
descritos por Magnani e os que são apresentados neste trabalho, à excitação
pelo lazer e o uso de seu tempo livre para o encontro e as práticas de
sociabilidade.
Em relação à excitação através do lazer, relembramos Norbert Elias e
Erich Dunning (1992), os autores desvendaram a função social do tempo livre
nas sociedades complexas e afirmaram que o lazer faz parte do processo
civilizador da sociedade moderna. Tendo como referência as atividades físicas,
o espetáculo e as artes utilizadas como estratégia de fuga do ambiente
enfadonho e nocivo do trabalho, os autores identificam o lazer como processo
fundamental na formação moral dos indivíduos. Utilizando o tempo livre para
realizar ações espontâneas, festas, encontros e manifestações artísticas que
não são possíveis no ambiente de trabalho, esses indivíduos conseguem se
livrar, mesmo que por um momento, das garras dos subempregos e do rígido
controle social. A permissibilidade de utilizar de um comportamento menos
formal, uso de bebidas alcoólicas, certos tipos de roupas, liberdade sexual,
entre outros, é a forma de expressar os desejos reprimidos por uma moral
incorporada nas normas coletivas e civilizatórias.
O lazer ou desporto sempre foi desconsiderado pela ciência tradicional,
pois não era reconhecido como ferramenta eficaz de análise sociológica,
também por ser visto como algo negativo, sinônimo de uma preguiça não
aceita pelo mundo do trabalho. Entretanto, cabe salientar, que o desporto como
ferramenta de interpretação interpretativa da vida coletiva, oferece importantes
sinais da saturação do modelo de produção vigente. Elias e Dunning (1992)
nos dizem:

O desporto parece ter sido ignorado como um objeto de reflexão


sociológica e de investigação, em especial, porque e considerado
como algo que se encontra situado no lado que se avalia de modo
negativo no complexo dicotômico de sobreposição
convencionalmente aceite, como, por exemplo, entre os fenômenos
de «trabalho» e «lazer», «espirito» e «corpo», «seriedade» e
«prazer», «econômico» e «não econômico». Isto e, no quadro da
tendência que orienta o pensamento reducionista e dualista ocidental,
o desporto e entendido como uma coisa vulgar, uma atividade de
lazer orientada para o prazer, que envolve o corpo mais do que a
mente, e sem valor econômico. Em consequência disso, o desporto
não e considerado como um fenômeno que levante problemas
sociológicos de significado equivalente aos que habitualmente estão
associados com os negócios «sérios» da vida econômica e politica.
(ELIAS & DUNNING, 1992, p. 17).

O lazer só pode ser analisado se levarmos em consideração não


somente sua relação com o mundo do trabalho, mas também, quando o
entendemos como ferramenta de fuga das rotinas engessadas da vida
produtiva e das rotinas surgidas com o tempo livre. Além disso,

Dado que a sua principal função parece ser a de ativar formas de


excitação agradáveis, estas não podem ser devidamente
compreendidas por meio de uma abordagem sociológica que ignore
as suas dimensões psicológicas e fisiológicas [...] Contribuem,
também, para a teoria do processo de civilização através da
apresentação de algumas das vias através das quais as sociedades
enfrentam com êxito a rotina que o processo de civilização
desencadeia. (ELIAS & DUNNING, 1992, p. 17).
A busca pelas atividades de lazer na sociabilidade desencadeou a
procura dos interlocutores por um espaço capaz de produzir uma sensação
mínima de segurança, além de um lugar que oferecesse os requisitos
necessários para que o lazer conseguisse se encaixar, sem transtornos, nas
atividades oficiais diárias de cada um. Localizado no trajeto da vida produtiva
oficial dos natalenses, o C4 oferece não apenas uma localização privilegiada
na cidade, mas também os serviços próximos de transporte público para
diversos pontos de Natal e da Grande Natal.
Imagem x: descida do estacionamento num dos portões de acesso direto a
BR101 e paradas de ônibus intermunicipais

Fonte: Arquivo do pesquisador, 2017.

Imagem x: paradas de ônibus intemunicipais na calcada externa do


estacionamento
Fonte: Arquivo do pesquisador, 2017.

A sociabilidade jovem no C4 apresenta características bem comuns da


faixa etária. É muito comum, no centro dos grupos, os participantes estarem
fazendo uso de bebidas alcoólicas e cigarros. A bebida alcoólica é figura
presente, todavia, em maior quantidade aos finais de semana – quinta, sexta e
sábado – dias de maior fluxo de jovens. Nesse período, chegam a passar pelo
local, aproximadamente, de quinhentos a setecentos jovens. Número que
aumenta significativamente em período de festas populares como a SPOTTED
– UFRN. A reunião dos amigos começa no C4, o “esquenta” como chamam. As
razões variam de lugar de mais fácil acesso e referência para o encontro até a
bebida mais barata do que nesse tipo de festa. A bebida mais popular, de
longe, é a Catuaba Selvagem, seguida da cerveja. Não ficam atrás o vinho e a
vodca, os dois últimos, em menor frequência devido o preço menos em conta.
2. As tribos?

3. O estar junto

4. Juventudes e sexualidades

5 – Considerações Finais
6 – Referências Bibliográficas
7 - Anexos