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Livro do Professor

Lite ratu ra
Volume 2
Dados Internacionais para Catalogação na Publicação (CIP)
(Maria Teresa A. Gonzati / CRB 9-1584 / Curitiba, PR, Brasil)
A474 Alves, Roberta Hernandes.
Literatura : ensino médio / Roberta Hernandes Alves ; ilustrações Daniel Klein ... [ et al. ] –
Curitiba : Positivo, 2015.
v. 2 : il.

Sistema Positivo de Ensino


ISBN 978-85-385-9433-8 (Livro do aluno)
ISBN 978-85-385-9434-5 (Livro do professor)

1. Literatura. 2. Ensino médio – Currículos. I. Klein, Daniel. II. Título.

CDD 373.33

©Editora Positivo Ltda., 2015

Presidente: Ruben Formighieri


Diretor-Geral: Emerson Walter dos Santos
Diretor Editorial: Joseph Razouk Junior
Gerente Editorial: Júlio Röcker Neto
Gerente de Arte e Iconografia: Cláudio Espósito Godoy
Autoria: Roberta Hernandes Alves
Supervisão Editorial: Jeferson Freitas
Edição de Conteúdo: Enilda Pacheco (Coord.) e Floresval Nunes Moreira Junior
Edição de Texto: Juliana Milani
Revisão: Alessandra Cavalli Esteche
Supervisão de Arte: Elvira Fogaça Cilka
Edição de Arte: Bettina Toedter Pospissil
Projeto Gráfico: YAN Comunicação
Ícones: ©Shutterstock/ericlefrancais, ©Shutterstock/Goritza, ©Shutterstock/Lightspring, ©Shutterstock/Chalermpol, ©Shutterstock/
Macrovector, ©Shutterstock/Jojje, ©Shutterstock/Archiwiz, ©Shutterstock/PerseoMedusa e ©Shutterstock/Thomas Bethge
Imagens de abertura: ©Shutterstock/Raquel Pedrosa e ©Shutterstock/Samuel Borges Photography
Editoração: Rafael Ricardo Silva
Ilustrações: Daniel Klein, DKO Estúdio, Mariana Coan e Robson Araújo
Pesquisa Iconográfica: Janine Perucci (Supervisão) e Susan Oliveira
Engenharia de Produto: Solange Szabelski Druszcz

Produção
Editora Positivo Ltda.
Rua Major Heitor Guimarães, 174 – Seminário
80440-120 – Curitiba – PR
Tel.: (0xx41) 3312-3500
Site : www.editorapositivo.com.br

Impressão e acabamento
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81310-000 – Curitiba – PR
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2018

Contato
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Sumário
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03 Elementos literários..................................... 4
Literatura: expressividade ............................................................................... 7
Estruturas do texto poético.............................................................................. 7
ƒ Verso e estrofe .......................................................................................................................................... 7
ƒ Recursos sonoros em poemas ................................................................................................................... 8
ƒ Metrificação .............................................................................................................................................. 10
ƒ Assonância e aliteração............................................................................................................................. 11
ƒ Classificação dos versos............................................................................................................................. 12
Estruturas do texto em prosa ........................................................................... 14
ƒ Elementos da narrativa ............................................................................................................................. 15
Figuras de linguagem ...................................................................................... 19
ƒ Paronomásia ............................................................................................................................................. 19
ƒ Onomatopeia ............................................................................................................................................ 20
ƒ Hipérbole .................................................................................................................................................. 20
ƒ Metáfora ................................................................................................................................................... 20
ƒ Metonímia ................................................................................................................................................ 21
ƒ Sinestesia.................................................................................................................................................. 21
ƒ Antítese .................................................................................................................................................... 22
ƒ Paradoxo ................................................................................................................................................... 22
ƒ Ironia ........................................................................................................................................................ 22
Intertextualidade ............................................................................................ 23
Períodos literários............................................................................................ 25

04 Trovadorismo ............................................. 33
Trovadorismo................................................................................................... 36
Música e poesia; trovador e poeta ................................................................... 37
Poesia medieval portuguesa I.......................................................................... 38
ƒ Poesia e amor cortês ................................................................................................................................. 40
Poesia medieval portuguesa II......................................................................... 42
ƒ Poesia dos trovadores: cancioneiros .......................................................................................................... 42
Diálogos do Trovadorismo com a MPB ............................................................. 43
Novelas de cavalaria ....................................................................................... 46
03
n to s l i te rár io s
Eleme

Real Academia de Bellas Artes de San Fernando / Fotógrafo desconhecido


Castelo Skokloster, Estocolmo
ARCIMBOLDO, Giuseppe. Vertumnus, retrato de Rodolfo II. 1590. 1 óleo sobre painel,

ARCIMBOLDO, Giuseppe. A primavera. 1563. 1 óleo sobre painel de madeira, color.,


color., 68 cm x 56 cm. Castelo Skokloster, Estocolmo.

76 cm x 64 cm. Museu do Louvre, Paris.


Museu do Louvre, Paris

Ponto de partida
1. As duas imagens representam bustos de pessoas. Que elementos foram utilizados para sua composição?
2. As imagens retratam imperadores: a primeira é de Rodolfo II, e a segunda, de Maximiliano II. Que elementos das
pinturas indicam tratar-se de retratos de nobres?
3. Em sua opinião, qual das partes da fisionomia dos personagens apresenta uma proximidade maior com o rosto
de um ser humano? Que elementos foram usados para representar essa parte?
4. Essas pinturas mostram que não basta ao artista ter grandes ideias, é necessário também dominar técnicas de
composição artística. No caso dessas pinturas, é possível perceber que o autor domina o uso das cores, a com-
posição entre objetos e espaço, a representação de objetos concretos (como plantas e vegetais), os contrastes
entre claro e escuro. E na arte da escrita literária, que técnicas um autor precisa dominar?
4
Objetivos da unidade:
ƒ compreender que a obra literária se organiza a partir de elementos que a estruturam;
ƒ identificar estruturas que dizem respeito à construção do texto poético;
ƒ identificar os elementos da narrativa;
ƒ levantar hipóteses interpretativas para os textos literários partindo da análise de seus
componentes estruturais;
ƒ identificar as estratégias de linguagem que conferem ao texto literário características
como plurissignificação e intertextualidade.

Lendo a literatura
Leia um poema do escritor Eucanaã Ferraz. 2 Sugestão de resposta.

O desfotógrafo
Vejo tudo agora diferente,
como se o tempo contra o rio
dirigisse e de trás para frente
eu desescrevesse um livro

e cada palavra nele se tornasse


livre e me fizesse livre
e sílaba a sílaba toda memória
desaparecesse – sumisse! –

como se, na nossa frente, tudo


o que fomos um dia num passe
de mágica evaporasse num passe
de música, num passo – no ar!

Hoje, tudo dá-se a ver sem dor,


limpo, sem um traço de paixão.
digital.

Os poemas se apagaram e, repara,


agem

façamos um balanço: de nós


Col
15.
20

restou não mais que a folha livre


n.

oa
aC
rian
de depois do livro, retrato em Ma

branco e branco
...................................................... .

FERRAZ, Eucanaã. O desfotógrafo. In: ANDRADE, E, Carlos


Drummond de et al. Verso livre: poemas. São Paulo:
lo: Boa
Companhia, 2012. p. 111-112.

5
Eucanaã Ferraz nasceu no Rio de Janeiro, em 1961. Escreveu vários livros com poemas, como
Cinemateca (2008) e Rua do mundo (2004). É editor da revista on-line Errática e professor de
Literatura Brasileira na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

1. Qual o assunto do poema? Indique no texto uma pas- 6. De que modo o verso final do poema comprova a ideia
sagem que demonstre ser esse o assunto. de contrário proposta pelo título?
O desejo de apagar, reescrever, reinventar o passado, exem- O verso final, composto apenas de uma sequência de pontos,
plos: “[...] e sílaba a sílaba toda a memória / desaparecesse
– sumisse! – [...]”; “[...] o que fomos um dia num passe / de indica que o processo de “desfotografar” o passado, destruir
mágica evaporasse [...]”. É possível ainda imaginar que o
passado a ser apagado se refere às memórias amorosas, pela tudo que ficou registrado, deu tão certo que o próprio verso de-
leitura do verso “[...] limpo, sem um traço de paixão”.
sapareceu.

7. A palavra “desfotógrafo”, presente no título do poema,


2. Com base na leitura do poema, o que seria um “retrato não consta em dicionários, no entanto, pela leitura do
em branco e branco”? poema, é possível atribuir sentidos a ela. Em sua opi-
nião, por que o autor inventou uma palavra para inserir
Seria um retrato inexistente, apagado, que não pode ser visto
em seu texto?
na página. Espera-se que os alunos respondam que o autor não encontrou

3. Ao longo do poema, percebemos uma repetição inten- na língua nenhuma palavra com o sentido desejado por ele, as-
cional de algumas palavras ou a presença de palavras
semelhantes quanto à sua sonoridade. Aponte uma sim inventou uma nova palavra para representar sua atitude de
dessas repetições e a relação de sentido que ela cons-
apagar suas lembranças do passado.
trói no poema.
Pessoal. Sugestão: passe de mágica / passe de música – a ideia 8. No título do poema, a letra “s” representa o mesmo
som que as letras “ss” na palavra “dirigisse”. Esse é
de algo que acontece rapidamente, mais rápido que os olhos
um dos sons que mais aparecem nesse poema. Em
podem ver, vem acompanhada da ideia lírica de um “passe de que outras palavras há esse som?
Desfotógrafo, se, dirigisse, trás, desescrevesse, tornasse, fizes-
música”, algo que acontece de modo poético.
se, sílaba, desaparecesse, sumisse, nossa, fomos, passe, evapo-
4. Nas duas primeiras estrofes do poema estão presentes
palavras com sentido negativo. Indique dois exemplos. rasse, passo, dá-se, sem, traço, os, poemas, façamos, balanço,
Desescrevesse, desaparecesse.
nós, restou, mais, depois.
5. O título do poema é composto de uma palavra que dá
ideia de contrário. Após a leitura do poema como um 9. Em sua opinião, com que intenção o autor optou por
todo, explique a que se refere essa palavra. repetir tantas vezes esse som?
Fotógrafo é o profissional que, por meio do ato fotográfico, regis- Pessoal. O objetivo dessa questão é chamar a atenção dos alunos
para o fato de que a repetição de sons em um poema pode ser in-
tra momentos, então “desfotógrafo” seria aquele que faz o con- tencional. Espera-se que os alunos reflitam e levantem hipóteses
a esse respeito, mesmo que nesse momento ainda não cheguem
trário, ou seja, apaga momentos vividos. No poema, essa palavra a uma conclusão satisfatória a respeito da possibilidade de cor-
relacionar sons e possíveis sentidos.
se refere ao desejo do eu lírico de apagar o seu passado amoro-

so, destruindo lembranças que remetem ao amor acabado.

6 Volume 2
Olhar literário
Literatura: expressividade
A linguagem literária faz uso de muitos recursos

Robson Araújo. 2015. Digital.


expressivos que a diferenciam da linguagem comum,
utilizada no dia a dia. Se na linguagem cotidiana o pro-
pósito maior é o de possibilitar a comunicação entre
as pessoas, na linguagem literária a busca pela expres-
sividade é o eixo central.
A escrita de um texto literário não é somente fruto
de um momento de inspiração do escritor, apesar de
ser a inspiração um ingrediente importante em muitos
casos. O escritor trabalha com a linguagem, buscando,
entre as infinitas possibilidades de utilizá-la, alternati-
vas que tornem seu texto mais atrativo e provoquem
efeitos de novidade, de surpresa, de identificação ou
de descoberta para o leitor.
Ao longo da história, escritores formularam meios de exprimir sentimentos e de instigar leitores a pensar de modo
diferente sobre conceitos, costumes, comportamentos, ideias, etc. A linguagem literária faz uso da linguagem do dia a
dia de diferentes formas, além de elementos estruturais próprios, que serão estudados a seguir.

Estruturas do texto poético


Verso e estrofe
Na literatura há poemas em prosa, visuais e os estruturados em versos e estrofes. Verso compreende cada linha de
um poema; estrofe é o conjunto de versos de um poema. Exemplo de verso:

"Minha terra tem palmeiras"

O verso acima (“Minha terra tem palmeiras”) corresponde à primeira linha de um poema muito conhecido do poeta
brasileiro Gonçalves Dias (1823-1864). Esse verso abre o poema intitulado “Canção do exílio”, que tem como tema a
exaltação da pátria (note que a terra natal é observada a partir de uma situação de exílio, ou seja, de alguém que se
encontra distante de seu lar). 3 Sugestão de como trabalhar com o poema “Canção do exílio”.
Pela leitura do verso acima, pode-se perceber que um verso não é apenas uma linha de um poema, mas, sim, uma
unidade de sentido, um conjunto de palavras que tem um significado (no caso desse verso, o eu lírico chama a aten-
ção do leitor para um aspecto de sua terra natal: o fato de ela ter palmeiras). No entanto, compreender o sentido que
o verso pode ter depende da leitura desse verso com os demais que formam o poema. Ou seja, além de carregar um
sentido em si, um verso é parte de um todo e, sendo assim, deve ser interpretado e pensado no conjunto do poema.
4 Explicação sobre o uso da terminologia eu lírico.

Literatura 7
Existem diversas paródias do poema “Canção do exílio”, entre elas algumas que, apesar de começarem com o mes-
mo verso do poema de Gonçalves Dias, permitem interpretações diferentes. Veja: 5 Retomada do conceito de paródia.

Jogos florais
I.
Minha terra tem palmeiras
onde canta o tico-tico.
Enquanto isso o sabiá
vive comendo o meu fubá.

Ficou moderno o Brasil


ficou moderno o milagre: DKO Estúdio.
2015. Digital.
a água já não vira vinho,
vira direto vinagre.

BRITO, Antônio Carlos de. Lero-lero.


São Paulo: Cosac Naify, 2012. p. 158.

O verso inicial de “Jogos florais” é igual ao do poema de Gonçalves Dias, porém apresenta outra possibilidade inter-
pretativa, a começar pelo título do texto, que não aponta para o sentimento de distância da pátria por parte do eu lírico.
Na leitura da primeira estrofe (composta de quatro versos), percebe-se um jogo de linguagem composto das palavras
“tico-tico” e “fubá”, que remetem o leitor a uma canção antiga e famosa interpretada por Carmen Miranda, cantora
considerada símbolo do Brasil nos anos de 1930 a 1950. 6 Informações sobre a canção “Tico-tico no fubá”.

Na segunda estrofe, o poema faz menção à época histórica em que foi escrito (1974): “[...] ficou moderno o milagre
[...]”, portanto muito distante do Brasil idealizado da “Canção do exílio” de Gonçalves Dias. Além disso, há uma referência
à história bíblica da água que não mais vira vinho para se tornar vinagre, mantendo o sentido cômico do tico-tico que
come o fubá mencionado na primeira estrofe.
Apesar de um verso ser apenas parte do texto, o entendimento do poema depende de que o leitor compreenda
cada verso que o compõe. Da mesma forma, pode-se dizer que a estrofe também tem sentidos que auxiliam a inter-
pretação da totalidade do poema.
Em resumo, verso e estrofe são duas estruturas que indicam, respectivamente, as linhas e o conjunto de linhas
de um poema, e ainda apontam para os sentidos a serem desvendados pelo leitor.
Sugestão de atividade: questão 1 da seção Hora de estudo.
Recursos sonoros em poemas
Um dos recursos da linguagem frequentemente empregados na elaboração de poemas é o trabalho com a sono-
ridade. Basicamente, o ritmo, a rima e a métrica são responsáveis por esse efeito.
O ritmo de um poema diz respeito à alternância entre sílabas fortes e
fracas e a sua repetição periódica, resultado da entonação e da tonicidade
das palavras, entre outros fatores. A variação entre os acentos tônicos (mais
intensos na pronúncia) e átonos (menos intensos na pronúncia) é o que acentos: convém lembrar que as expres-
sões “acento tônico” e “acento átono”, em
confere ritmo ao texto.
poemas, não devem ser confundidas com
Observe, no poema a seguir, como ocorre o movimento rítmico em o uso dos sinais gráficos da acentuação
cada verso (as sílabas tônicas estão destacadas). das palavras. Aqui, esses termos dizem
respeito ao ritmo.
7 Orientações para a marcação do ritmo na leitura do poema.

8 Volume 2
Mariana Coa
n. 201
5. Co
l age
md
igit
al.
Poética
De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem


Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
— Meu tempo é quando.o.

MORAES, Vinicius de. Poética. In: ANDRADE,


Carlos Drummond de et al. Verso livre: poemas.
São Paulo: Boa Companhia, 2012. p. 45.

Do ponto de vista do ritmo, nesse poema de Vinicius de Moraes, as sílabas fortes e fracas estão distribuídas de
maneira semelhante nos versos de uma mesma estrofe; ao comparar versos de estrofes diferentes, a distribuição
das sílabas fortes e fracas é diferente. Por exemplo: na primeira estrofe, os versos 1 e 3 têm uma distribuição pare-
cida (mas não idêntica) entre sílabas fortes (destacadas) e fracas, o mesmo acontece em relação aos versos 2 e 4.

De manhã escureço

De tarde anoiteço
De dia tardo

De noite ardo

Nas demais estrofes, o jogo entre sílabas tônicas e átonas adquire novos formatos, sempre aproximando so-
noramente os versos. 8 Sugestão de atividade.
Rima é a semelhança de sons em versos diferentes e/ou entre palavras nos versos. A posição em que os sons
semelhantes aparecem também é importante, por exemplo, na última sílaba de cada verso ou em uma mesma
posição em versos diferentes.
Em algumas estruturas poéticas, como os sonetos, as rimas se repetem de modo regular, constituindo um
esquema rimático. Além do caráter sonoro que envolve as rimas, é importante atentar para o caráter semântico
das palavras que rimam. Observe o esquema de rimas do soneto a seguir.

Literatura 9
Mariana Coan. 2015
. Col
Amor é um fogo que arde sem se ver; A age
m
dig
i
é ferida que dói, e não se sente; B

tal
.
é um contentamento descontente; B
é dor que desatina sem doer. A

É um não querer mais que bem querer; A


é um andar solitário entre a gente; B
é nunca contentar-se de contente; B
é um cuidar que se ganha em se perder. A

É querer estar preso por vontade; C


e servir a quem vence, o vencedor; D
é ter com quem nos mata, lealdade. C

Mas como causar pode seu favor D


nos corações humanos amizade, C
se tão contrário a si é o mesmo Amor? D

CAMÕES, Luís de. Lírica. Belo Horizonte: Itatiaia;


São Paulo: EDUSP, 1982. p. 155.

Uma forma de identificar o esquema de rimas de um poema é marcar com a mesma letra os versos que rimam
entre si (conforme observado acima). As rimas facilitam a memorização de um poema, criam efeitos sonoros
e, em alguns casos, como no soneto de Camões, expressam algumas ideias. As rimas entre as palavras sente/
descontente e gente/contente, por exemplo, podem ser entendidas como uma referência às contradições que
o amor traz em si. Sugestão de atividade: questão 2 da seção Hora de estudo.

Metrificação
Metrificação é a contagem do número de sílabas existentes em cada verso.
A medida de um verso pode ser de uma (no caso de versos que contêm apenas uma palavra monossilábica ou em
versos com duas sílabas, das quais apenas a primeira delas é tônica) ou mais sílabas. O número de sílabas métricas
pode ser igual ao número de sílabas gramaticais, mas é preciso observar que, em muitos casos, essa equivalência
pode não ocorrer. O processo de dividir os versos em sílabas poéticas é chamado de escansão.

Regras da escansão 9 Retomada do conceito de ditongo crescente.

• Contam-se as sílabas do verso apenas até a última sílaba tônica da últi-


ma palavra desse verso.
• Os ditongos crescentes constituem uma sílaba métrica.
• Duas ou mais vogais, posicionadas no fim de uma palavra e no início da
palavra seguinte, unem-se em uma só sílaba métrica.

10 Volume 2
A seguir, um exemplo de escansão dos primeiros versos do poema “Viagem”, de Ribeiro Couto.

1 2 3 4 5 6 7 8 Número de
Ca/dên/cias /de/ som/bras/ can/sa/das sílabas no verso
Cadências de sombras cansadas
1 2 3 4 5 6 7 8
Batiam na estrada sem chão. Ba/ti/am/ na es/tra/da/ sem/ chão.
Embaixo era a trama ofuscante
1 2 3 4 5 6 7 8
Dos raios de um sol invisível. Em/bai/xo e/ra a/ tra/ma o/fus/can/te
[...]
1 2 3 4 5 6 7 8
Dos/ rai/os/ de um/ sol/ in/vi/sí/vel.
COUTO, Ribeiro. Viagem. In: BANDEIRA,
Manuel. Apresentação da poesia brasileira.
Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.]. p. 283.
[...]

No processo de metrificação desses versos, aplicam-se as regras para escansão, vistas anteriormente:
• A presença do sinal indica junção de duas sílabas que, diferentemente da divisão silábica gramatical, são
pronunciadas de uma única vez quando o verso é recitado.
• Contou-se até a última sílaba tônica de cada verso. No terceiro verso, a contagem das sílabas chega até o final da
última palavra do verso (chão), porque essa palavra é um monossílabo, então ela é contada integralmente como
uma sílaba tônica. Nos demais versos da estrofe, a última sílaba tônica é a penúltima sílaba da última palavra,
portanto, a última a ser contada. Sugestão de atividade: questão 3 da seção Hora de estudo.

Assonância e aliteração
A repetição intencional de sons é um recurso importante e muito utilizado pelos poetas. A repetição de sons
vocálicos chama-se assonância e a repetição de sons consonantais chama-se aliteração.
Leia o poema a seguir.

aço em flor
[...]
Quem nunca viu
que a flor, a faca e a fera
tanto fez como tanto faz,
e a forte flor que a faca faz Ro
bs
o nA
na fraca carne,
raú
jo.

um pouco menos, um pouco mais,


201
5.

quem nunca viu


Digital.

a ternura que vai


no fio da lâmina samurai,
esse, nunca vai ser capaz.

LEMINSKI, Paulo. Toda poesia. São Paulo:


o:
Companhia das Letras, 2013. p. 198.

No poema “aço em flor”, fica evidente a repetição do som representado pela letra f e, em menor quantidade,
também a repetição do som representado pelas letras ç (em aço), z (em faz e capaz) e pela letra s (em mais,
menos, samurai, esse, ser). Essa aliteração cria uma espécie de trava-língua em que a ideia da faca que marca o
corpo, que fere, representada pelo aço do título, percorre todo o poema. 10 Distinção entre som e letra.

Literatura 11
Leia agora esta estrofe do poema “Antífona” de Cruz e Sousa:

Ó Formas alvas, brancas, Formas claras


De luares, de neves, de neblinas!...
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas...
Incensos dos turíbulos das aras...

CRUZ E SOUSA, João da. Antífona. In: _______. Obra


completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995. p. 63.

No trecho do poema de Cruz e Sousa, ocorre a repetição de sons vocálicos em sílabas tônicas de palavras,
especialmente nos dois primeiros versos, com os sons representados pelas letras a e o.
Sugestão de atividades: questões 4 e 5 da seção Hora de estudo.

Classificação dos versos


Uma das possibilidades de classificação dos versos que compõem um poema é em relação a seu número de sílabas.
Os versos de cinco sílabas poéticas são chamados redondilhas menores; os de sete sílabas poéticas, redondilhas maio-
res; e os versos de dez sílabas poéticas, decassílabos, bastante usados na composição de sonetos. Há ainda sonetos
em que são utilizados os versos de 11 sílabas, hendecassílabos, e versos de 12 sílabas, chamados dodecassílabos ou
alexandrinos.
Outra possibilidade de composição poética, bastante utilizada na poesia contemporânea, são os versos livres,
aqueles em que o número de sílabas poéticas não é regular, ou seja, cada verso da estrofe tem um número de sílabas
poéticas diferente. Há, ainda, poemas cujos versos não apresentam rimas, denominados versos brancos.

Atividades
11 Orientação didática.

1. Leia o soneto a seguir para refletir sobre os aspectos temáticos e estruturais.

Soneto desertado
Da Terra cidadão, mas Brasileiro.
Da Pátria amada ufano, mas Paulista.
Isento Bandeirante, mas bairrista.
Quiçá cosmopolita, mas caseiro.

antífona: versículo que aparece antes de um salmo. bairrista: indivíduo que defende o lugar em que vive, a que
turíbulos: vasos em que se queimam incensos. pertence ou onde nasceu, com intenso vigor.
aras: altares. quiçá: talvez.
ufano: orgulhoso. cosmopolita: indivíduo que conhece e se adapta facilmente a
isento: neutro. outras culturas.
bandeirante: participante das bandeiras, expedições de
exploração do interior do Brasil comandadas por paulistas a partir do
século XVI.

12 Volume 2
Robson Araújo.
201
5. D
i
Ninguém é universal o tempo inteiro.

git
al.
Errante, minha bússola equidista
do inferno nordestino ao céu sulista:
Nem astronauta sou, nem marinheiro.

Turista só desfruta da viagem


por causa da visão. Se for um cego,
qualquer lugar será a mesma paisagem.

Na vasta escuridão onde navego


fronteiras inexistem. Sem miragem,
tão só por ser terráqueo me segrego.
MATTOSO, Glauco. Panaceia: sonetos colaterais. São Paulo: Nankin Editorial, 2000. p. 31.

a) Utilizando as letras ABCD, identifique o esquema de rimas do soneto.


ABBA/ABBA/CDC/DCD.

b) Qual é a métrica dos versos desse soneto? Faça a escansão de dois versos do poema para comprovar sua resposta.
O soneto é composto de versos de 10 sílabas poéticas. Exemplo de escansão: Nin/guém/ é u/ni/ver/sal/ o/ tem/po in/tei/ro;

Er/ran/te/, mi/nha/ bú/sso/la e/qui/dis/ta.

c) Releia a primeira estrofe do poema e comente a relação de sentido entre as palavras que rimam entre si.
As palavras brasileiro/caseiro e paulista/bairrista indicam a relação do sujeito poético com o espaço. A aproximação entre brasileiro e

caseiro sugere que o eu lírico, apesar de admitir “pertencer” a um espaço maior (“da Terra cidadão” e “cosmopolita”), demonstra uma

atenção especial a sua terra natal (brasileiro) e a seu espaço mais íntimo (caseiro). Da mesma forma, a aproximação entre “paulista”

e “bairrista” sugere sua preferência pelas regiões onde nasceu ou onde vive, nesse caso, o estado de São Paulo.

d) Glauco Mattoso é o pseudônimo de Pedro José Ferreira da Silva, um escritor brasileiro que ficou cego em conse-
quência do glaucoma. Seu nome artístico é, inclusive, um jogo de palavras com a doença que o atingiu. Com base
nessas informações, que sentidos podem ser atribuídos às últimas estrofes do poema?
Nessas estrofes, predominam as metáforas relacionadas ao ver e ao não ver. O sujeito poético se utiliza delas para indicar sua

diferença, a razão de “enxergar” o mundo de modo diferente, segregar-se, apartar-se dele, de certa forma.

equidista: estar igualmente distante de dois pontos. me segrego: me isolo do convívio com outras pessoas.

Literatura 13
2. Leia o poema a seguir e responda às questões.

Digital.
Leituras

. 2015.
Não ler um livro e ler

Estúdio
O desejo de lê-lo. Veio

es: DKO
como o outro, descoberto

Ilustraçõ
via leitura. É ler por um lado
diferente, e a partir desse lugar
tentar prever, escrever, de cabeça
imagem por imagem, o que o autor orr
escreveu, e imaginá-lo.

FREITAS FILHO, Armando. Dever: (2007-2013). São Paulo: Companhia das Letras, 2013. p. 43.

a) Indique o esquema de rimas e a métrica do poema “Leituras”.


O poema não apresenta esquema de rimas nem métrica regular, já que foi escrito em versos brancos e livres.

b) O poema apresenta encadeamento de ideias entre os versos. Que recurso foi utilizado para promover esse
encadeamento?
O recurso de “quebrar” as frases em versos diferentes. “Veio / como o outro, descoberto / via leitura.”, por exemplo.

c) Qual é o tema desse poema?


A relação entre o leitor e o livro que lê: a imaginação que a leitura desperta no leitor e a compreensão que este tem daquilo que lê.

d) Considerando o tema do poema, explique o sentido dos quatro últimos versos.


A ideia geral é a de que, ao ler, o leitor imagina, recria o que foi lido, como se criasse um texto seu, novo, diferente.

Olhar literário

Estruturas do texto em prosa


Assim como o poema, o texto literário em prosa também tem uma estrutura que faz com que a ação de narrar seja
algo mais complexo do que simplesmente contar uma história.
O texto narrativo ficcional apresenta uma série de elementos que o estruturam. Leia o texto a seguir.

14 Volume 2
O Sr. Sherlock Holmes, que geralmente acordava muito tarde de manhã, exceto naquelas ocasiões não mui-
to infrequentes em que passava toda a noite em claro, estava sentado à mesa do café da manhã. De pé sobre o
tapete da lareira, peguei a bengala que nosso visitante esquecera na noite anterior. Era uma bela bengala grossa
de madeira, de cabeça bulbosa, do tipo conhecido como "Penang lawyer". Logo abaixo da cabeça, havia uma
larga faixa de prata, com quase três centímetros de extensão. "Para James Mortimer, MRCS, de seus amigos
do CCH" estava gravado sobre a faixa, com a data "1884". Era bem o tipo de bengala que o velho médico de
família costumava carregar – digna, sólida e segura.

DOYLE, Arthur Conan. O cão dos Baskerville. Tradução de Rosaura Einchenberg. Porto Alegre: LP&M, 1999. p. 9.

Nesse parágrafo, é possível ler a descrição de uma cena em que o famoso personagem Sherlock Holmes está em
sua casa, tomando café da manhã. Não é difícil para o leitor imaginar a situação. Essa imagem simples traz em si refe-
rências espaciais (casa de Sherlock e mesa em que se encontra seu café da manhã) e temporais (período da manhã)
que ajudam a situar a cena. Mas não é só isso. Alguém narra esse acontecimento comum, inclusive indicando sua
própria presença no corpo do texto: “De pé sobre o tapete da lareira, peguei a bengala que nosso visitante esquecera
na noite anterior”. O verbo pegar, em 1.ª pessoa, indica que alguém se encontra no mesmo ambiente que Holmes e o
observa. O que acontece naquele lugar é narrado a partir do ponto de vista que esse personagem tem dos fatos. Esse
narrador é Dr. Watson, fiel amigo do detetive, que, além de contar a história, participa das investigações executadas por
Holmes e também atua na resolução dos mistérios, ou seja, ele também é um personagem.
São quatro os elementos a partir dos quais se estrutura um texto ficcional em prosa: o tempo, o espaço, o narrador
(ou foco narrativo) e o personagem.

Elementos da narrativa
Tempo
Na narrativa, o tempo pode ser classificado em três
rês tipos:
• cronológico – pode ser notado por meio da sucessão

DKO Estúdio. 2015. Digital.


ucessão
cronológica dos acontecimentos narrados; geral-
mente, o tempo é progressivo, isto é, caminha
ha
“para frente” na maior parte da narrativa.
12 Orientações para questionamento sobre o termo “cronológico”.
gico”.
• histórico – refere-se à época ou ao perío-
do histórico em que a ação se desenrola;
ao longo da narrativa, o narrador dá pistas
para o leitor, a fim de que ele compreenda as
marcas históricas que caracterizam costumes es
e comportamentos específicos do momentoo em
que se desenvolve a trama.
• psicológico – marcado pela subjetividade, vivido
ivido interior-
mente ou sentido pelo personagem; nesse caso, os acontecimen-
tos fluem de acordo com seu estado de espírito, o que significa que um espaço de tempo
considerado curto do ponto de vista cronológico pode dar a sensação, ao narrador ou ao personagem, de que
“demora a passar”, ou seja, o personagem tem a impressão de ser um longo intervalo de tempo.
Tratando ainda do tempo na narrativa, é importante observar de que maneira o narrador conta os eventos que
compõem o enredo:
• Ordem linear – os fatos se sucedem em uma cadeia que parte de um começo para um fim, sem que eventos
do passado ou do futuro se interponham, em uma relação em que causas geram efeitos posteriores.

Literatura 15
• Ordem não linear – ocorre uma alteração na linearidade dos acontecimentos e a narração não obedece à
ordem em que os fatos se sucedem. Em narrativas contemporâneas, é comum ocorrer flashback (um retorno
a fatos do passado) e flashforward (antecipação de um evento futuro) ou certos cortes na história (o narrador,
subitamente, suspende o que está contando e troca de assunto). 13 Explicações sobre os conceitos de flashback
e flashforward.
Enfim, é importante observar o modo como o tempo está empregado em um texto ficcional, ou seja, o “andamen-
to” da narrativa, o modo como o narrador sequencia, para, retorna, suspende ou acelera o narrar dos fatos.
Espaço
A análise do espaço na narrativa se refere à observação e à compreensão de todas as referências espaciais que
aparecem em uma história, ou seja, as dimensões concretas ou psicológicas em que se situam as ações e as reflexões
dos personagens, desde um local onde determinada ação se desenvolve até uma cidade específica ou mesmo um país
onde se desenrola a trama.
Em textos chamados multimodais (que misturam linguagens variadas, tais como texto verbal e texto não verbal),
o espaço ganha destaque, tornando-se, muitas vezes, um elemento tão importante como o próprio personagem. É o
caso, por exemplo, das histórias em quadrinhos.
Personagens
São aqueles que praticam as ações em uma narrativa. Pode-se dizer que as histórias se desenvolvem de acordo com
os acontecimentos vividos ou imaginados pelos personagens. A leitura de um texto ficcional estabelece um contato
entre uma série de atos e pensamentos de um ou mais personagens e o leitor, ainda que tal contato seja feito pela
intervenção de um narrador que seleciona os fatos que contará.
Entre os personagens, há os protagonistas, ou seja, aqueles que vivem os principais acontecimentos da história. A
palavra protagonista, vinda do grego, revela o sentido desse tipo de personagem no contexto de uma narrativa: proto
(primeiro, anterior) + ágon (luta – agonistes – aquele que luta). Oposto ao protagonista, há o antagonista, ou o vilão da
história (aquele que se coloca de modo contrário às necessidades ou desejos do personagem principal).
Outro conceito que merece destaque quando se fala de personagens principais é o de herói. Esse conceito teve
sua origem na definição dos personagens dos poemas épicos gregos, que narravam as histórias de deuses, semideuses
e guerreiros em grandes aventuras e batalhas. O herói era aquele personagem em torno do qual aconteciam os fatos
mais importantes, era o exemplo das virtudes (qualidades) mais elevadas: o mais forte, o mais inteligente, o mais esper-
to, o mais justo. Entretanto, é bom lembrar que nem sempre o protagonista é a expressão de tantas qualidades, pois ele
pode ter características até contrárias às de um herói e, então, ser considerado um anti-herói. 14 Sugestão de leitura so-
bre o conceito de herói.
Algumas narrativas apresentam personagens estereotipados, chamados tipos. São personagens que representam
uma categoria, por exemplo: o jornalista, a dona de casa, o porteiro do prédio, o advogado, etc. Os tipos refletem a visão
que o senso comum tem de determinada categoria.
Foco narrativo
Diz respeito a dois aspectos fundamentais da narrativa: o narrador e o seu ponto de vista ao contar uma história.
A ideia de foco, nesse caso, relaciona-se com a posição que o narrador ocupa ao observar e comunicar aquilo que
narra, ou seja, se ele participa dos acontecimentos ou se conta a história de “fora”, sem estar envolvido com os fatos
narrados.
Pode-se afirmar, com isso, que o foco narrativo é um dos pontos importantes na análise de uma obra de ficção em
prosa. O posicionamento do narrador determina em grande parte os significados possíveis atribuídos pelo leitor ao
texto. Considerando esse posicionamento, o narrador pode ser classificado como:

16 Volume 2
• Narrador-observador: como o próprio nome sugere, esse tipo de narrador está à parte da história que narra,
não se envolve diretamente com os fatos que compõem a trama; nesse sentido, ele não é um personagem da
história e se coloca, no que diz respeito ao uso da linguagem, sempre em 3.ª pessoa do discurso; fixa sua nar-
ração nas atitudes dos personagens sem ter certeza do porquê de suas ações, já que observa os fatos “de fora”
das reflexões feitas por cada personagem; enfim, narra os acontecimentos, mas não revela ao leitor a dimensão
psicológica das atitudes de quem os vivenciou.
• Narrador-personagem: participa da história, ou seja, também é personagem da narrativa. De uma perspec-
tiva “de dentro” da história, ele pode participar do enredo de modo mais distante (contando uma história que
observou ou que soube) ou tomar parte mais ativamente dos fatos narrados, muitas vezes na condição de um
personagem que esteve perto do centro da trama, envolvido com o personagem principal. Por participar da
história, narra o que observa e o que sabe a partir de seu ponto de vista, na 1.ª pessoa do discurso.
• Narrador onisciente: consegue explorar os pensamentos dos personagens, ultrapassando o ponto de vista
“de fora” do narrador-observador; assim como o narrador-personagem, consegue exprimir os pensamentos e
sentimentos, mas diferentemente deste, não é um personagem.
É importante saber que esses três tipos de narrador, que determinam três pontos de vista sobre os fatos que acon-
tecem em uma narrativa, são categorias amplas, e não fechadas. Isso quer dizer que, muitas vezes, a prosa de ficção
apresenta formas de narrar que misturam mais de um desses três modelos, permitindo que um narrador-personagem,
por exemplo, seja capaz de explorar o “mundo interior” de outro personagem, tornando-se, em alguns momentos da
narração, um narrador onisciente. Em algumas obras literárias, estruturadas com um foco narrativo mais “objetivo” (em
que, portanto, a história é contada por um narrador-observador), é possível localizar passagens em que a narração
tenta explorar um viés mais psicológico, “subjetivo”, do comportamento de um personagem.
Sugestão de atividades: questões 6 e 7 da seção Hora de estudo.

Organize as ideias
15 Orientação didática e gabaritos.
Leia o trecho do romance O outro pé da sereia, escrito pelo moçambicano Mia Couto, e responda às questões que
seguem.

A viagem não começa quando se percorrem distâncias, mas quando se atravessam as nossas fronteiras in-
teriores. A viagem acontece quando acordamos fora do corpo, longe do último lugar onde podemos ter casa.
Mwadia Malunga sentiu que realmente viajava quando perdeu de vista o único casebre de Antigamente. Nun-
ca ela pensara regressar a Vila Longe, sua terra natal. Não fosse o aparecimento da Santa e ela permaneceria
enclausurada na solidão.
Quando chegou ao rio Mussenguezi ela procurou pelo barco. Era uma canoa feita de um tronco de mbawa
e estava ocultada entre os caniços da margem. O lugar era-lhe familiar. Era ali que Mwadia vinha na com-
panhia de Lázaro, todos os três meses, trazer cabritos e receber, em troca, mantimentos e os bens para sua
sobrevivência. Nunca ela vira o comerciante com quem trocava mercadorias. Limitava-se a deixar os bichos na
sombra de uma msassa onde já haviam sido depositados os alimentos, o sal, os fósforos, o petróleo e alguma
roupa.
Desta vez, tudo era diferente. Era ela que se trocava em nome da salvação de Zero e do seu mundo solitá-
rio. Mwadia olhou para o burro Mbongolo e mediu a tarefa de o meter dentro da canoa. Não seria o peso que
constituiria atrapalhação. O bicho estava magro, a pele sobrando no cabide dos ossos. Zero dizia que era assim
que os seus jumentos morriam: emagreciam até levantar voo, mais ligeiros que o beija-flor.

enclausurada: presa, separada das demais pessoas. caniços: vegetações semelhantes a uma cana delgada.
mbawa: tipo de árvore conhecida como mogno africano. msassa: tipo de árvore existente na savana africana.

Literatura 17
Não tarda que este também vá, pensou Mwadia enquanto empurrava o animal pelos quadris. Todavia,
Mbongolo tinha uma testa maior que o corpo e recusava tirar os cascos do chão. Felizmente, devido à seca, o
caudal se tornara superficial. O jumento atravessou a preguiçosa corrente, caminhando ao lado da canoa, sem
tirar os olhos de Mwadia. Sobre o seu lombo, Nossa Senhora balançava e parecia que um sorriso lhe aflorava
o esculpido rosto. Junto dela se equilibrava o baú dos manuscritos.
Chegada à outra margem, a mulher encheu o peito medindo forças com o horizonte. As árvores que ela
vislumbrava frondosas junto ao rio eram aqui uma ossatura vegetal, ramos indigentes raspando os céus. Ár-
vores de rapina.
O sol queimava e Mwadia abriu o velho guarda-sol sobre o jumento. Não era o bicho que ela protegia. A
sombra pousava, sim, sobre a sagrada imagem.
– Não quero que adoeça, Santinha, com essa pele tão branca...
Nossa Senhora caísse em doença e a desgraça desceria em Antigamente. O marido pagaria com a própria
vida, consoante o mau agoiro traduzido por Lázaro Vivo. Foi então, e só então, que Mwadia reparou que um
lenço branco estava amarrado ao único pé da Santa. Era um desses panos que se enrolam nos troncos das árvo-
res sagradas e que lembram os espíritos dos antepassados. Ainda lhe ocorreu desamarrar o lenço, devolvendo
a pureza cristã ao ícone. Mas uma dor lhe prendeu o braço e paralisou a sua intenção.
O burro fitou a mulher, fremiu as narinas e desceu as orelhas. Parecia pedir-lhe uma pausa, um brevíssimo
repouso. Mwadia não condescendeu e deu ordem para reiniciar a marcha solar, cada passo pesando como
pedra que se rasgasse do chão. A mulher sentia o soprar das ventas do jumento como uma compassada acu-
sação nas suas costas.
– Não me chateie, burrito. Não me venha amolecer o coração.
Não era insensibilidade. Mwadia sabia que o burro a si mesmo se bastava. Os olhos dele, tão cheios de
água, davam-lhe a sombra de que carecia. E as borboletas, sedentas, continuavam bebendo nos seus olhos.
[...]
Mwadia Malunga prosseguia por atalhos virgens, as pegadas sendo engolidas pela mobilidade das areias
soltas. Era isso que ela requeria da caminhada: fazer com que o passado emudecesse, sem eco nem rasto.
Apagar as horas e os dias, apagar as cicatrizes do passado.
COUTO, Mia. O outro pé da sereia. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. p. 65-67.
igital.
2015. D
Klein.

Mia Couto (António Emílio Leite Couto) nasceu em Beira, Moçambique, em 1955. Em 1983, pu-
Daniel

blicou seu primeiro livro de poesia, Raiz de orvalho. Um dos mais importantes autores africanos
contemporâneos, Mia Couto ganhou o prêmio Camões em 2013 e publicou, entre outros, os
romances Terra sonâmbula (1992), O outro pé da sereia (2006) e A confissão da leoa (2012).

A seguir, escreva uma lista de ideias (aproximadamente 15 itens) sobre como se estruturam os elementos da narrativa
no trecho do romance lido. Algumas perguntas relacionadas ao texto o ajudarão a aprofundar sua análise.
a) Personagem
I. Quantos personagens há no trecho do romance lido?
II. As figuras citadas podem ser consideradas personagens? Justifique.
III. Quais as características de Mwadia?

caudal: volume da corrente de um rio. ventas: fossas nasais.


agoiro: agouro, azar. carecia: necessitava.
fremiu: tremeu. rasto: pegada.
condescendeu: cedeu.

18 Volume 2
b) Foco narrativo
I. O que se pode dizer do ponto de vista do narrador em relação às dúvidas e anseios de Mwadia?
II. Que elementos chamam a atenção do narrador?
III. Como o narrador pode ser classificado nesse trecho da narrativa?
c) Tempo
I. Que marcas do tempo podem ser localizadas na narrativa?
II. Como a personagem principal se relaciona com seu tempo passado?
III. Que tipo de tempo é predominante no trecho lido?
d) Espaço
I. Selecione elementos que indiquem as características indicativas do espaço da narrativa.
II. Pode-se dizer que os espaços físicos e psicológicos se misturam na narrativa? Justifique sua resposta.

Olhar literário
Figuras de linguagem 16 Critério para a escolha das figuras trabalhadas.

Ao escrever um texto, o autor pode se valer de uma série de recursos que possibilita a produção de efeitos que
fazem com que a narrativa e a poesia fujam dos usos cotidianos da linguagem. Esses recursos são chamados de figuras
de linguagem. Na sequência, tem-se algumas dessas figuras.

Paronomásia
Essa figura de linguagem tem como característica a reprodução de sons parecidos em palavras com significados
diferentes.
Leia o exemplo a seguir.

al.
igit
5 .D
01
újo
.2 [.
[...]
a
Ar

Trocando em miúdos, pode guardar


T
son
R ob

As sobras de tudo que chamam lar


A
As sombras de tudo que fomos nós
A
[...]
[.

BUARQUE, Chico. Trocando em miúdos. Disponível em:


<http://www.chicobuarque.com.br/construcao/mestre.
asp?pg=trocando_78.htm>. Acesso em: 26 nov. 2014.

As palavras "sobras" e "sombras" são parecidas na pronúncia (apresentam som semelhante), fato que as aproxima
no trecho da canção de Chico Buarque, ainda que tenham sentidos bastante distintos.

Literatura 19
Onomatopeia
É o emprego de palavras que imitam sons.
DKO E
stúd
io. 2
Observe: 015
. Dig
ital
.

no doce regato ...

... esvoaça a libélula ...


... o colibri pipila ...
... beija-flor o beija-flor ...
... bzzz besouro bzzz ...
[...]

CHACAL. Belvedere. São Paulo: Cosac


Naify; Rio de Janeiro: 7Letras, 2007. p. 64.

Repare, nesse trecho do poema, que o quinto verso reproduz o barulho do voo de um besouro utilizando o recurso
da onomatopeia.
Hipérbole
Consiste no exagero proposital, visando criar um efeito de sentido no texto.
Observe este exemplo:

© Laerte

LAERTE. Disponível em: <http://www2.uol.com.br/laerte/tiras/>. Acesso em: 21 jul. 2014.

Nessa tira, a representação da xícara em tamanho desproporcionalmente grande pode indicar: a vontade que o
personagem está de tomar muito café ou que ele gosta muito de café, ou ainda sua vontade de ficar muito tempo
distante do trabalho. Nesse exemplo, a hipérbole foi utilizada para fins cômicos e consiste na representação exagerada
de quanto o personagem gosta de café ou da quantidade de café que ele deseja tomar.

Metáfora
Corresponde ao uso de uma expressão em lugar de outra havendo uma relação entre os sentidos dessas expressões.
Leia os versos a seguir.

No retrato que me faço


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– traço a traço –
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...

QUINTANA, Mario. Antologia poética. Porto Alegre: L&PM, 1999. p. 47.

20 Volume 2
Na estrofe lida, o aproveitamento de duas imagens, “nuvem” e “árvore”, simboliza a imagem de um rosto. Esse apro-
veitamento cria uma relação metafórica entre as duas imagens na medida em que não há uma relação direta esperada
entre os termos.

Metonímia
É a substituição de uma palavra ou expressão por outra em que haja uma relação de proximidade de significados
entre elas. Essa proximidade permite que uma dessas palavras seja usada em lugar da outra sem alterar o sentido do
texto.
Leia a estrofe a seguir.

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O sol bate em chapa nas casas antigas.
O mar embalança,
rede mole sem corpo de mulata,
verde azul lilás verde outra vez.
As praias espreguiçam-se malandras,
é a hora das linhas repousantes.

MENDES, Murilo. A sesta. In: ______. Poesia completa


e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p. 93.

No primeiro verso dessa estrofe, uma única palavra (sol) substitui o efeito que a luz emitida pelo sol realiza quando
projetada na parede de casas velhas (não é o Sol que bate nas casas antigas, mas sim a luz e o calor emitidos por ele).

Sinestesia
Consiste na mistura de impressões sensoriais.
Leia este exemplo:

Ah! plangentes violões dormentes, mornos,,


Soluços ao luar, choros ao vento...
Tristes perfis, os mais vagos contornos,
Bocas murmurejantes de lamento.
l.
ita

i g
01 5. D
CRUZ E SOUSA, João da. Violões que choram. In: ______. Robson Araújo. 2
Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995. p. 122.

No primeiro verso dessa estrofe, pode-se perceber a aproximação de elementos pertencentes a dois sentidos: a
sonoridade, evocada pelos “violões plangentes” (audição), e a sensação tátil, expressa pelo adjetivo “mornos” (tato).

Literatura 21
Antítese
Consiste na aproximação entre palavras com sentido contrário.
Leia:

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,


Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

MATOS, Gregório de. Poemas escolhidos. 13. ed. São


ital. Paulo: Cultrix, 1997. p. 317.
DKO Estúdio. 2015. Dig

Nesse exemplo, é possível perceber que algumas palavras presentes nos versos têm sentidos contrários (luz/escura;
dia/noite; tristeza/alegria; luz/sombra).

Paradoxo 17 Diferenciação entre antítese e paradoxo.

É o uso de palavras que estabelecem uma contradição entre si.


Leia este exemplo:
No caso desses dois versos, é possível notar que
No meio do impossível, do signo duas ideias estabelecem entre si uma incongruência:
o rio passa, parado, paradoxal. como o “rio passa” se ele está, segundo o próprio poema,
FREITAS FILHO, Armando. Dever: (2007-2013). São Paulo: “parado”?
Companhia das Letras, 2013. p. 125.

Ironia
É a figura de linguagem em que se expressa o contrário ou algo bem diferente daquilo que se quer comunicar ou
daquilo que parece ser, a fim de criar um efeito de humor ou estabelecer uma crítica.

Rafael Marçal

MARÇAL, Rafael. Zíper e a coceira. Disponível em: <http://profeticos.net/tag/filhote/>. Acesso em: 20 nov. 2014.

Nessa tirinha, o gato faz uma pergunta cuja resposta é óbvia, por isso, com o objetivo de ironizar essa pergunta, o
cachorro dá uma resposta completamente diferente daquilo que está realmente fazendo.
Sugestão de atividades: questões de 8 a 10 da seção Hora de estudo.

22 Volume 2
Intertextualidade
Um conceito importante no que se refere ao estudo da literatura é o de intertextualidade. Trata-se da relação
estabelecida quando um texto faz referência direta ou indireta a outro texto. Essa relação pode ter intenção de ho-
menagear o texto a que se refere, ou de criticá-lo, de ironizá-lo, ou ainda de propor uma releitura da obra produzida
anteriormente. Assim, se em um poema, por exemplo, nota-se a presença de elementos (imagens, termos, estruturas)
semelhantes a elementos que fazem parte da composição de outro poema, é possível que se esteja diante de um
diálogo entre esses dois textos.
Do ponto de vista prático, identificar a intertextualidade entre textos é reconhecer em um texto referências a outro.
Um exemplo de intertextualidade literária são as recriações e o aproveitamento de imagens, sonoridades e ideias
presentes no poema “Canção do exílio”, do poeta Gonçalves Dias, citado no início desta unidade. A seguir, o poema na
íntegra e mais dois outros textos escritos com base nele.

Canção do exílio
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá; Minha terra tem primores,
As aves que aqui gorjeiam, Que tais não encontro eu cá;
Não gorjeiam como lá. Em cismar – sozinho, à noite –
Mais prazer encontro eu lá;
Nosso céu tem mais estrelas, Minha terra tem palmeiras,
Nossas várzeas têm mais flores, Onde canta o Sabiá.
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores. Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Em cismar, sozinho, à noite, Sem que disfrute os primores
Mais prazer encontro eu lá; Que não encontro por cá;
Minha terra tem palmeiras, Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá. Onde canta o Sabiá.
Robson Araújo. 2015. Digital.

DIAS, Gonçalves. Gonçalves Dias: seleção de textos, notas, estudos biográfico, histórico e crítico por Beth Brait.
São Paulo: Abril, 1988. p. 26-27. (Literatura comentada).

Literatura 23
Canto do regresso à pátria Hino Nacional Brasileiro
Minha terra tem palmares [...]
Onde gorjeia o mar Deitado eternamente em berço esplêndido,
Os passarinhos daqui Ao som do mar e à luz do céu profundo,
Não cantam como os de lá Fulguras, ó Brasil, florão da América,
Iluminado ao sol do Novo Mundo!
Minha terra tem mais rosas
E quase que mais amores Do que a terra, mais garrida,
Minha terra tem mais ouro Teus risonhos, lindos campos têm mais flores;
Minha terra tem mais terra “Nossos bosques têm mais vida”,
“Nossa vida” no teu seio “mais amores”.
Ouro terra amor e rosas [...]
Eu quero tudo de lá
ESTRADA, Joaquim Osório Duque. Hino Nacional. Disponível
Não permita Deus que eu morra em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/hino.
Sem que volte para lá htm>. Acesso em: 12 nov. 2014.

Esses dois últimos textos estão, de alguma maneira,


Não permita Deus que eu morra relacionados ao poema de Gonçalves Dias. No caso do
Sem que volte pra São Paulo Hino Nacional, são retomados alguns versos; no poema
Sem que veja a Rua 15 de Oswald de Andrade, são retomadas imagens, a estru-
E o progresso de São Paulo tura e a organização dos versos e estrofes, a visão sobre
ANDRADE, Oswald de. Canto do regresso à pátria. In: ______.
a natureza em contraposição à visão do mundo urbano.
Pau-brasil. 6. ed. São Paulo: Globo, 1998. p. 139.
©Oswald de Andrade
De certo modo, ler literatura é também exercitar a capaci-
dade de buscar essas relações de intertextualidade.

Atividades
18 Orientações para o trabalho com intertextualidade.

1. Nos textos a seguir, indique a figura de linguagem predominante e justifique brevemente sua resposta.
a) b)
vem, amor O bonde passa cheio de pernas:
vem Pernas brancas pretas amarelas.
vamos sentir o frio dos meninos Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração,
que ficaram sem ninguém Porém meus olhos
Não perguntam nada.
FLORENTINO, Domingos. Vem, amor. In: DÁSKALOS,
Maria Alexandre; APA, Livia; BARBEIROS, Arlindo. ANDRADE, Carlos Drummond de. Poema de sete faces. In:
Poesia africana de língua portuguesa: antologia. Rio de BANDEIRA, Manuel. Apresentação da poesia brasileira. Rio de
Janeiro: Lacerda Editores, 2003. p. 118. Janeiro: Ediouro, [s. d.]. p. 294.
I. ( X ) Metáfora I. ( X ) Metonímia
II. ( ) Ironia II. ( ) Paradoxo
III. ( ) Paronomásia III. ( ) Hipérbole
Metáfora. No poema, o sujeito poético aproxima a ideia do Ao afirmar que o bonde passa “cheio de pernas”, o sujeito

frio que sentirá perto do ser amado ao desconsolo sentido poético usa uma metonímia para se referir às inúmeras

pelos meninos abandonados, solitários. pessoas que estão dentro do bonde.

24 Volume 2
2. Cite dois exemplos de relação intertextual entre textos literários e escreva um parágrafo expondo quais aspectos
(estruturais, temáticos ou outros) determinam essa relação.

Olhar literário
Períodos literários
Há várias formas de organizar a produção literária, desde as primeiras manifestações orais de que se tem informa-
ções até os dias de hoje.
Um critério para essa organização pode ser a língua. Assim, um conjunto de textos ficcionais e poéticos que tenham
sido escritos em português, inglês, esloveno, latim, etc., isto é, literaturas produzidas em países que compartilham o
mesmo idioma, formaria um grande objeto de estudo, a literatura de expressão linguística inglesa (que incorporaria
todos os países que têm o inglês como sua língua oficial ou secundária) ou portuguesa (nesse caso, esse estudo incor-
poraria Portugal e países colonizados por portugueses, inclusive o Brasil), por exemplo.
Outra maneira de imaginar um estudo da produção literária seria considerar temáticas recorrentes ou modos
semelhantes de escrever textos.
Tradicionalmente, o estudo da literatura na escola brasileira obedece a um critério que é o de organizar as obras em
períodos literários, isto é, refletir sobre os modos de produção e de circulação dos textos literários em determinada
época. O conceito de período na literatura não segue necessariamente a mesma divisão dos períodos históricos criada
pelos historiadores. Trata-se, no caso da literatura, de um tempo em que grupos sociais compartilharam uma visão de
mundo (conjunto de valores, comportamentos, ética, padrões de gosto, ideologias, etc.) mais ou menos homogênea.
Como a literatura sempre se relaciona com a sociedade na qual surgiu, é possível dizer que seu estudo possibilita ao
leitor não somente uma compreensão das obras que lê, mas também da visão de mundo com as quais dialoga.
No caso da literatura em língua portuguesa, os períodos literários se organizam da seguinte maneira:

Literatura 25
Organize as ideias
O mapa mental abaixo sistematiza os principais conteúdos estudados nesta unidade.

Estrofe e verso
Figuras de
Recursos na linguagem
Ritmo e rima
construção do
texto literário
Intertextualidade Metrificação

Texto poético Estruturas Foco narrativo


LITERATURA
Personagem
Texto em prosa Elementos da
narrativa
Períodos Tempo
literários
Espaço

Agora, complemente alguns dos conceitos que compõem este mapa. Para isso, você deve preencher os espaços
vazios indicados a seguir.

Tipos: observador , personagem ,

Foco narrativo
onisciente

Tipos: protagonista , antagonista ,

Personagem
herói , tipo .

ELEMENTOS
DA NARRATIVA
Tipos:
cronológico, psicológico , histórico .

Tempo Organização
dos fatos: ordem linear ,

ordem não linear.

Espaço Dimensão: concreta , psicológica .

26 Volume 2
Verso é uma linha do poema que contém uma unidade de sentido .
Verso e estrofe

Estrofe é um conjunto de versos de um poema .

ESTRUTURAS DO Ritmo é a repetição periódica de sons .


TEXTO POÉTICO Ritmo e rima

Rima é a semelhança de sons, em versos diferentes e/ou entre palavras nos versos .

Métrica é a contagem do número de sílabas existentes em cada verso


Metrificação
.

São recursos que possibilitam Exemplos: paronomásia, hipérbole,


Figuras de
linguagem a produção de efeitos diversos metáfora, metonímia, paradoxo, sines-

RECURSOS NA nos textos . tesia, ironia, onomatopeia, antítese .


CONSTRUÇÃO DO
TEXTO LITERÁRIO

É a relação que se estabelece entre textos, por meio da referência direta ou


Intertextualidade
indireta que um texto faz a outro .

Períodos Literários em Portugal e no Brasil:

Trovadorismo, Humanismo, Classicismo, Barroco, Arcadis-


São modos de produção e de circula-
PERÍODOS mo, Romantismo, Realismo, Parnasianismo, Simbolismo,
LITERÁRIOS ção dos textos literários em uma deter-
Pré-Modernismo, Modernismo
minada época .

Literatura 27
Hora de estudo
1. Leia o poema a seguir, escrito por Manuel Bandeira, e
provavelmente identificou (cão, gato, rato) são os
responda às questões sobre estrutura e sentidos.
responsáveis por revirar o lixo.
O bicho
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
d) Elabore uma hipótese para o fato de o último verso
Catando comida entre os detritos.
do poema ser composto de uma estrofe única.

Quando achava alguma coisa, A surpresa de identificar o animal que se alimenta de lixo

Não examinava nem cheirava: como o homem é reforçada ao vir indicada num verso único,
Engolia com voracidade.
isolado dos demais. Outro dado que compõe esse efeito de
O bicho não era um cão, surpresa no leitor é o uso da expressão “meu Deus”, também
Não era um gato,
Não era um rato. presente nesse último verso.

O bicho, meu Deus, era um homem.


BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. 12. ed. Rio de 2. Leia, a seguir, o poema de Vinicius de Moraes.
Janeiro: José Olympio, 1986. p. 179.
Soneto do maior amor
a) Quantas estrofes e quantos versos compõem o
poema? Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
Quatro estrofes, sendo três delas com três versos cada e E quando a sente alegre, fica triste
uma com um único verso.
b) As ações descritas na primeira estrofe do poema E se a vê descontente, dá risada.
são típicas de que tipo de bicho? Justifique breve-
E que só fica em paz se lhe resiste
mente sua resposta.
O amado coração, e que se agrada
São ações típicas de bichos que vivem nas ruas e são Mais da eterna aventura em que persiste
obrigados a comer restos, sem muito critério, como gatos ou
Que de uma vida mal aventurada.

cachorros abandonados e, principalmente, ratos. Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer – e vive a esmo
c) De que forma a terceira estrofe do poema descons-
trói a expectativa do leitor em relação à identidade Fiel à sua lei de cada instante
do bicho? Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo.
Por meio de sucessivas negativas (“não era”), o sujeito
MORAES, Vinicius de. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro:
poético surpreende o leitor ao negar que os bichos que ele Nova Aguilar, 1998, p. 310.

detritos: restos, lixo. a esmo: ao acaso, sem rumo.


voracidade: vontade, avidez. desassombrado: ousado, direto.
fenecer: terminar, acabar, extinguir-se, morrer.

28 Volume 2
a) Justifique a classificação desse poema como um porque embora todo povoado
soneto. povoa-o o pleno anonimato
Trata-se de um soneto porque é um poema composto de
que dá esse efeito singular:
duas estrofes de quatro versos e duas estrofes de três
de um nada prenhe como o mar.
versos, todos rimados e metrificados.
(João Cabral de Melo Neto. Museu de tudo e depois, 1988.)
b) Qual é o tema do poema?
O poema está organizado em versos de
O eu lírico fala de como é seu amor e de que forma ele se
a) dez sílabas poéticas que traduzem a visão de uma
comporta em relação a seu amor. poesia descaracterizada pela falta de emoção.
X b) oito sílabas poéticas que traduzem a visão de uma
poesia de expressão emocional contida.
c) Indique o esquema de rimas presente no poema.
c) doze sílabas poéticas que traduzem a visão de uma
ABAB/ABAB/CCD/EED poesia que prima pela razão, mas sem abrir mão da
emoção.
d) As rimas nesse poema indicam apenas proximi-
dade sonora ou é possível estabelecer relação de d) cinco sílabas poéticas que traduzem a visão de uma
sentido entre elas? Justifique sua resposta. poesia de expressão sentimental exagerada.
Além do efeito sonoro, as rimas no poema apresentam e) sete sílabas poéticas que traduzem a visão de uma
poesia de equilíbrio entre razão e sentimentalismo.
relação de sentido, sobretudo entre as palavras "amada",
4. (FAAP – SP)
"risada", "agrada" e "aventurada", que têm conotação

positiva e são dirigidas ao objeto do amor do eu lírico.


Soneto de separação
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento


3. (UNIFESP)
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
O nada que é E do momento imóvel fez-se o drama.
Um canavial tem a extensão
ante a qual todo metro é vão. De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
Tem o escancarado do mar E de sozinho o que se fez contente
que existe para desafiar
Fez-se do amigo próximo o distante
que números e seus afins Fez-se da vida uma aventura errante
possam prendê-lo nos seus sins. De repente, não mais que de repente.

Ante um canavial a medida (Vinicius de Moraes)


métrica é de todo esquecida,
"Silencioso e branco como a bruma".

Literatura 29
À repetição das mesmas consoantes em BRANCO e 6. (UERJ)
BRUMA em busca da sonoridade dá-se o nome:
a) assonância d) trocadilho O LÍDER
O sono do líder é agitado. A mulher sacode-o
X b) aliteração e) pleonasmo
até acordá-lo do pesadelo. Estremunhado, ele se
c) eco levanta, bebe um gole de água. Diante do espelho
5. Leia o poema a seguir, escrito pela curitibana Alice refaz uma expressão de homem de meia-idade,
Ruiz. alisa os cabelos das têmporas, volta a se deitar.
Adormece e a agitação recomeça. "Não, não!"
tem os que passam debate-se ele com a garganta seca.
e tudo se passa O líder se assusta enquanto dorme. O povo
com passos já passados ameaça o líder? Não, pois se líder é aquele que
guia o povo exatamente porque aderiu ao povo.
tem os que partem O povo ameaça o líder? Não, pois se o povo esco-
da pedra ao vidro lheu o líder. O povo ameaça o líder? Não, pois o
deixam tudo partido líder cuida do povo. O povo ameaça o líder?
Sim, o povo ameaça o líder do povo. O lí-
e tem, ainda bem, der revolve-se na cama. De noite ele tem medo.
os que deixam Mas o pesadelo é um pesadelo sem história. De
a vaga impressão noite, de olhos fechados, vê caras quietas, uma
de ter ficado cara atrás da outra. E nenhuma expressão nas ca-
RUIZ, Alice S. Dois em um. São Paulo: Iluminuras, 2008. p. 24. ras. É só este o pesadelo, apenas isso. Mas cada
a) Identifique o recurso expressivo utilizado no poema. noite, mal adormece, mais caras quietas vão se
reunindo às outras, como na fotografia de uma
A aliteração do som representado pelas letras s (passam/
multidão em silêncio. Por quem é este silêncio?
passos/passados), t (tem/tudo/partem/partido) e d (tudo/ Pelo líder. É uma sucessão de caras iguais como
na repetição monótona de um rosto só. Nas caras
passado/pedra/vidro/partido/deixam/ficado). não há senão a inexpressão. A inexpressão am-
b) Que ideias esse recurso ressalta? pliada como em fotografia ampliada. Um painel e
cada vez com maior número de caras iguais. É só
A ideia de passagem do tempo, especialmente pela alitera-
isso. Mas o líder se cobre de suor diante da visão
ção em /s/ e pelo som da quebra, da ruptura, representado inócua de milhares de olhos vazios que não pes-
tanejam. Durante o dia o discurso do líder é cada
pela aliteração em /t/ e /d/. vez mais longo, ele adia cada vez mais o instante
c) O poema se constrói com base nas ideias de pas- da chave de ouro. Ultimamente ataca, denuncia,
sagem e afastamento. Indique de que modo teria denuncia, denuncia, esbraveja e quando, em
se dado esse afastamento considerando a segunda apoteose, termina, vai para o banheiro, fecha a
estrofe do poema. porta e, uma vez sozinho, encosta-se à porta fe-
chada, enxuga a testa molhada com o lenço. Mas
De modo brusco, como se pode deduzir pela alusão à pedra
tem sido inútil. De noite é sempre maior o nú-
e ao vidro partido. mero silencioso. Cada noite as caras aproximam-
-se um pouco mais. Cada noite ainda um pouco
d) O último verso da segunda estrofe contém uma am- mais. Até que ele já lhes sente o calor do hálito.
biguidade. Identifique-a. As caras inexpressivas respiram – o líder acorda
A palavra partido pode ser entendida de duas maneiras: num grito. Tenta explicar à mulher: sonhei que...
sonhei que... Mas não tem o que contar. Sonhou
como a ideia de partida, saída ou como a ideia de partir,
que era um líder de pessoas vivas.
quebrar algo.
(LISPECTOR, Clarice. Para não esquecer. São Paulo: Siciliano, 1992.)

30 Volume 2
O texto clariceano nos conta uma história de caráter
universal. papéis, prova de anúncio, caneta e papel, relógio,
papel, pasta, cigarro, fósforo, papel e caneta, telefo-
Uma das estratégias para alcançar esse efeito de ne, caneta e papel, telefone, papéis, folheto, xícara,
universalidade está relacionada com a seguinte ca- jornal, cigarro, fósforo, papel e caneta. Carro. Maço
racterística do texto:
de cigarros, caixa de fósforos. Paletó, gravata. Pol-
a) ausência de foco narrativo trona, copo, revista. Quadros. Mesa, cadeiras, pra-
b) exploração das sequências descritivas tos, talheres, copos, guardanapos. Xícaras, cigarro e
fósforo. Poltrona, livro. Cigarro e fósforo. Televisor,
X c) indeterminação do contexto espacial poltrona. Cigarro e fósforo. Abotoaduras, camisa,
d) especificação das circunstâncias temporais sapatos, meias, calça, cueca, pijama, espuma, água.
7. O conto a seguir foi escrito por Ricardo Ramos Chinelos. Coberta, cama, travesseiro.
(1929-1992) de uma maneira diferente, inusitada. RAMOS, Ricardo. Circuito fechado: contos. São Paulo: Globo, 2012.
Leia-o para responder às questões sobre ele.
a) A narrativa de Ricardo Ramos se constrói apenas
Circuito fechado com substantivos, mas, ainda assim, permite ao
Chinelos, vaso, descarga. Pia, sabonete. Água. leitor identificar o tempo e o espaço em que trans-
Escova, creme dental, água, espuma, creme de corre. Quais são eles? Justifique sua resposta a
partir de elementos do texto.
barbear, pincel, espuma, gilete, água, cortina,
sabonete, água fria, água quente, toalha. Creme O tempo é o transcorrer de um dia, como se comprova pelo
para cabelo, pente. Cueca, camisa, abotoaduras, final circular: o personagem inicia o seu dia indo ao banheiro
e se arrumando para o trabalho e termina o dia indo para a
calça, meias, sapatos, telefone, agenda, copo com
cama dormir. O espaço é o da casa do personagem, incial-
lápis, caneta, blocos de notas, espátula, pastas, mente, e o do trabalho, onde ele lê memorandos, relatórios e
caixa de entrada, de saída, vaso com plantas, prova de anúncio, provavelmente, uma agência publicitária.
quadros, papéis, cigarro, fósforo. Bandeja, xícara
pequena. Cigarro e fósforo. Papéis, telefone, re- b) Ainda que o texto não apresente verbos, é possível
latórios, cartas, notas, vales, cheques, memoran- deduzir algumas das ações do personagem. Pelo que
dos, bilhetes, telefone, papéis. Relógio. Mesa, ca- você leu, como você caracterizaria o cotidiano dele?
valete, cinzeiros, cadeiras, esboços de anúncios, Um dia com pouca diversidade de ações desempenhadas
fotos, cigarro, fósforo, bloco de papel, caneta,
projetos de filmes, xícara, cartaz, lápis, cigarro, pelo personagem e também estressante (devido ao número
fósforo, quadro-negro, giz, papel. Mictório, pia,
de cigarros que o personagem consome).
água. Táxi. Mesa, toalha, cadeiras, copos, pra-
tos, talheres, garrafa, guardanapo. Xícara. Maço c) O conto em questão está relacionado ao universo
de cigarros, caixa de fósforos. Escova de dentes, do trabalho. Proponha uma nova versão dele em
pasta, água. Mesa e poltrona, papéis, telefone, que você descreva, também usando apenas subs-
revista, copo de papel, cigarro, fósforo, telefone tantivos, como seria um final de semana na vida do
interno, gravata, paletó. Carteira, níqueis, docu- personagem.
mentos, caneta, chaves, lenço, relógio, maço de 8. (UCS – RS) O texto literário caracteriza-se por uma mul-
cigarros, caixa de fósforos. Jornal. Mesa, cadeiras, tiplicidade de sentidos, originada do trabalho artístico
xícara e pires, prato, bule, talheres, guardanapos. realizado com a linguagem. Entre os recursos que a lite-
Quadros. Pasta, carro. Cigarro, fósforo. Mesa ratura utiliza, na produção dos textos, estão as figuras
e poltrona, cadeira, cinzeiro, papéis, externo, de linguagem.

abotoaduras: botões removíveis próprios para os punhos das cavalete: espécie de tripé dobradiço no qual se coloca, por
camisas. exemplo, quadro-negro para escrever.
espátula: utensílio semelhante a uma faca sem corte usado para mictório: banheiro.
cortar papel, abrir envelopes. níqueis: moedas de baixo valor.
memorandos: relatórios.
Literatura 31
Leia os fragmentos de poemas, apresentados na CO- Nele, antônio jorge da silva, barbeiro de 84 anos
LUNA A, e relacione-os às figuras de linguagem neles e silva como muitos em Portugal, depara com a
predominantes, elencadas na COLUNA B. morte de laura, parceira de meio século. Este sil-
va, que traz consigo as cicatrizes da ditadura sala-
COLUNA A
zarista, acaba num asilo. Nas palavras do próprio,
1. Eu deixo a vida como deixa o tédio / Do deserto, “a laura morreu, pegaram em mim e pusera-me
[...] (Álvares de Azevedo) no lar com dois sacos de roupa e um álbum de
2. Mundo, mundo, vasto mundo / Se eu me chamasse fotografias. Foi o que fizeram. Depois nessa mes-
Raimundo. (Carlos Drummond de Andrade) ma tarde, levaram o álbum porque achavam que
3. Queria subir ao céu / Queria descer ao mar. ia servir apenas para que eu cultivasse a dor de
(Alphonsus de Guimaraens) perder a minha mulher.”
Neste lugar, em vez de esperar a morte chegar,
4. Só cabe no poema / o homem sem estômago/a mu- ele encontra outros “silvas” com quem tudo é de-
lher de nuvens/a fruta sem preço. (Ferreira Gullar) batido – principalmente política. Um dos pontos
COLUNA B levantados pelos silvas é o sentimento de inferio-
ridade que Portugal tem diante de Espanha. Essas
( 3 ) Antítese
conversas entre o barbeiro e os outros velhinhos é a
( 2 ) Aliteração forma encontrada por silva de não morrer em vida,
( 1 ) Comparação de ignorar a melancolia ao ver o fim se aproximar.

( 4 ) Metáfora Valter Hugo mãe, um escritor maiúsculo. Vida Simples, ed. 109, set.
2011, p. 74.
Assinale a alternativa que preenche corretamente os No trecho “exceto se deixar ser tragado pelo ir e vir do
parênteses, de cima para baixo. oceano de palavras e se afogar nas páginas”, verificam-se
a) 3, 4, 2, 1 d) 2, 3, 4, 1 duas figuras de linguagem que podem ser classificadas,
respectivamente, como:
b) 1, 2, 3, 4 e) 3, 1, 4, 2
X a) hipérbole e metáfora.
X c) 3, 2, 1, 4
b) assíndeto e hipérbole.
9. (UEG – GO)
c) aliteração e prosopopeia.
Valter Hugo Mãe, um escritor maiúsculo
d) zeugma e metonímia.
Rodolfo Vianna

Quando José Saramago diz que determina- 10. Observe com atenção o início da notícia a seguir.
da obra é um “tsunami linguístico, semântico e
Do lixo ao luxo
sintático”, não resta muito, exceto se deixar ser
tragado pelo ir e vir do oceano de palavras e se Quando falar em reciclagem ainda era novida-
afogar nas páginas. Pois foi esse o termo que o de, estes artistas já utilizavam materiais despreza-
único Nobel de Literatura da língua portuguesa dos, como sobras de alumínio, papelão e plástico
usou para descrever o remorso de baltazar sera- de para-choques de automóveis. Hoje, os arte-
pião, do conterrâneo valter hugo mãe. sãos do lixo são reconhecidos por uma clientela
Sim, tudo em minúsculas. Obra e autor em que valoriza objetos produzidos sem agressões à
letras diminutas, pois língua falada não tem caixa natureza [...]
alta. Mas não se engane: este é um escritor gran-
MELO, Kátia. Do lixo ao luxo. Disponível em: <planetasustentavel.
dioso, criador de livros imponentes. abril.com.br/noticia/lixo/conteudo_246329.shtml>. Acesso em: 24
O homem que tirou de Saramago o elogio foi nov. 2014.

o nome mais aclamado dentre tantos literatos na • No título, pode-se perceber o emprego de uma figu-
Flip deste ano. Esgotou os 500 exemplares do ra de linguagem. Qual é essa figura?
seu mais recente romance, a máquina de fazer Trata-se de paronomásia: luxo/lixo. Embora sejam palavras
espanhóis, no evento. Não é para menos: a obra bastante próximas em termos de sonoridade, seus sentidos
é um comovente relato sobre política e morte. são opostos.

32 Volume 2
04
Trovadorismo
Capela Scrovegni, Pádua

BONDONE, Giotto di. Fuga para o Egito. [1303-05]. 1 afresco,


color., 200 cm x 185 cm. Capela Scrovegni, Pádua.

Ponto de partida
1. Observe a imagem com atenção, considerando os personagens que recebem mais destaque: uma criança, uma
mulher e um homem, acompanhados por um anjo que parece protegê-los. Quem esses personagens poderiam
estar representando?
2. A pintura Fuga para o Egito foi produzida no início do século XIV, final da Idade Média. Por que a temática religiosa
era a predominante na época?
3. A pintura medieval tem como uma de suas marcas o não comprometimento com a realidade. Observe a paisa-
gem retratada e indique um elemento que comprova essa afirmação.
4. Que características você imagina que a produção literária da Idade Média apresentava?

33
Objetivos da unidade:
ƒ reconhecer os principais aspectos da literatura na Idade Média em Portugal;
ƒ identificar características trovadorescas em cantigas de amor, de amigo, de escárnio e de
maldizer;
ƒ conhecer a importância dos jograis e dos trovadores como disseminadores de cultura na Idade
Média;
ƒ estabelecer diálogos entre cantigas trovadorescas e a música popular brasileira.

Lendo a literatura
O poema a seguir foi escrito por Cecília Meireles e aborda a temática amorosa. Leia-o e, na sequência, responda às
qquestões. 2 Justificativa da escolha textual e orientação
ç didática.

Canção
C
N te fies do tempo nem da eternidade
Não
que as nuvens me puxam pelos vestidos,
q
que os ventos me arrastam contra o meu desejo!
q
A
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te vejo!
q

N demores tão longe, em lugar tão secreto,


Não
nácar de silêncio que o mar comprime,
n
o lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te,
A amor, que amanhã eu morro,
q amanhã eu morro e não te escuto!
que
Mariana Coan. 2015. Colagem Digital.

A
Aparece-me agora, que ainda reconheço
a anêmona aberta na tua face
e em redor dos muros o vento inimigo...
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
A
q
que amanhã eu morro e não te digo...

M
MEIRELES, Cecília. Canção. In: ______. Obra poética. Rio de
Janeiro: Nova Aguilar, 1987. p. 338.
Ja

Cecília Meireles nasceu no Rio de Janeiro, em 1901. Começou a escrever poesia com 9
anos de idade. Formou-se professora e aos 18 anos publicou seu primeiro livro de poemas,
igital.

Espectros. Atuou na área da educação e fundou a primeira biblioteca infantil do Brasil, em


n. 2015. D

1934. Publicou poesia adulta e infantil e morreu em 1964, no Rio de Janeiro.


Daniel Klei

não te fies: não confies.


nácar: substância branca que reveste conchas.
anêmona: animal marinho invertebrado, do mesmo grupo das águas-vivas e dos corais.

34 Volume 2
1. A quem o eu lírico se dirige no poema? Comprove sua afirmativa com um verso retirado do texto.
Dirige-se à pessoa amada, como comprova o verso “apressa-te, amor, que amanhã eu morro”. Tanto o pronome “te” quanto o vocativo

“amor” marcam o interlocutor do eu lírico.

2. O eu lírico busca, ao longo do poema, convencer a pessoa amada a ficar próxima dele. Que argumento principal utiliza
para alcançar seu objetivo?
Que não se deve confiar no tempo, pois a morte chega e não é mais possível ver ou escutar a pessoa que se ama nem falar com ela.

3. Não há, no poema, uma descrição objetiva do espaço, mas há pistas que indicam em que espaço o ser amado se
esconde. Que espaço seria esse?
O espaço marinho, como comprova o uso de palavras como "nácar" (em uma referência às conchas) e "anêmona" (animal marinho).

4. No poema, há estruturas que se repetem em todas as estrofes. Que estruturas são essas?
O fato de cada estrofe ser composta de cinco versos e apresentar rimas entre o terceiro e o quinto versos. Além disso, nos dois últimos

versos de cada estrofe, muda apenas a última palavra de estrofe para estrofe.

5. Você conhece outros poemas em que há repetição de alguns versos? Quais?


Pessoal.

6. Na Idade Média europeia, muitos poemas eram escritos na forma de cantiga, para serem recitados com acompanha-
mento musical. A temática era amorosa e havia intensificação dos sentimentos. Você identifica, no poema de Cecília
Meireles, escrito no século XX, alguns desses elementos? Quais?
O esperado é que os alunos apontem que sim, visto que o título do poema já oferece a indicação de que dialoga com a musicalidade.

Também há a presença de um refrão, recurso típico dos poemas cantados, além da temática amorosa exacerbada, que indica a chegada

da morte se não houver a presença do amado.

Acontecia
O período histórico compreendido entre os anos de 476 e 1453 é denominado Idade Média. A queda do Império
Romano do Ocidente (no ano de 476) e o domínio de Constantinopla, capital do Império Romano do Oriente, pelos
turcos (no ano de 1453) são os marcos temporais que os historiadores consideram para delimitar o início e o fim da
Idade Média.
DKO Estúdio. 2014. Digital.

No século XII, portanto durante a Idade Média, a Europa


vivia o Feudalismo, um sistema político no qual o poder
era descentralizado. Nesse sistema, as relações entre os
indivíduos da nobreza eram de dependência pessoal, e o
poder era fragmentado entre os senhores feudais. O su-
serano principal era o rei que, responsável por um amplo
território, concedia um benefício (feudo) a membros da
nobreza, fato que estabelecia uma relação de submissão
do senhor feudal para com o suserano. Nesse sistema, o
vassalo de um rei, por exemplo, poderia ser suserano de
um conde. A sociedade era rigidamente hierarquizada.
Representação de como era um feudo

Literatura 35
As terras dos feudos eram cultivadas pelos servos. Estes eram obrigados a pagar uma série de tributos ao senhor
feudal em troca de condições mínimas de subsistência: o direito de lavrar um espaço pequeno para o plantio de ali-
mentos para si e proteção em caso de guerras ou catástrofes.
A partir do período conhecido como Alta Idade Mé-

Biblioteca Nacional da França, Paris


dia, quando houve um aumento na produção agrícola,
passaram a acontecer feiras, que alteravam a rotina de
trabalho típica do dia a dia de um feudo. Nelas, os arte-
sãos comercializavam seus produtos, como pão, vinho,
remédios, verduras, legumes, azeite e animais de peque-
no porte (galinhas, coelhos e porcos). O público frequen-
tador das feiras podia também assistir a apresentações
artísticas, como jograis, pequenas encenações teatrais e
exibição de trovadores.
Nesse período, o papel da Igreja Católica foi primor-
dial no que diz respeito à conservação de uma espécie
de unidade entre os vários territórios. Como cada feudo
era autossuficiente (nele os servos produziam todos os OS JACQUES são massacrados em Meaux. Século XV. 1 iluminura. In:
FROISSART, Jean. Crônicas. Biblioteca Nacional da França.
bens dos quais necessitavam para sua manutenção), foi a
crença comum na religião cristã que possibilitou o com- Iluminura que representa um conflito medieval

partilhamento de alguns valores culturais. O monopólio


das artes, por exemplo, esteve, desde o fim da Antiguidade, nas mãos da Igreja. Durante séculos, os mosteiros con-
servaram bibliotecas que continham grande parte das obras da literatura, da filosofia e das ciências produzidas pelos
pensadores da época. Ainda que a população não tivesse acesso a esses bens culturais, foi a partir deles que, séculos
depois, se pôde efetuar um resgate da cultura do período.

Olhar literário
3 Orientações para o trabalho com cantigas medievais.

Trovadorismo
Foi durante a Idade Média que surgiu o Trovadorismo, considerado o primeiro período da produção literária de
língua portuguesa (mas que era feita em galego-português, a língua da época). O termo trovadorismo refere-se à
produção literária escrita pelos trovadores, poetas que compunham seus textos para serem cantados e/ou recitados.
Como a cultura da época era predominantemente oral, a poesia vinha acompanhada de música e era, muitas vezes,
interpretada não apenas pelos poetas trovadores, mas também por músicos, os menestréis. Essa literatura carregava
traços de oralidade muito acentuados, pois, nesse período, os poemas não eram escritos para serem publicados na for-
ma de livros. Assim como grande parte da cultura da época, receitas, saberes populares, orações religiosas, as cantigas
também eram transmitidas oralmente.
Por trás da poesia trovadoresca, havia uma cultura rica e miscigenada. A Península Ibérica, onde se situa Portugal,
era o palco da luta entre cristãos e árabes desde o século VIII. Os muçulmanos haviam influenciado as populações lo-
cais com inovações na agricultura, no artesanato e nas artes em geral. Tensões políticas, ocorridas a partir do século XI,
determinaram a retomada pelo cristianismo dos espaços antes dominados pelos muçulmanos. Nesse novo arranjo de
poder, Portugal se constituiu como um estado independente.

mosteiros: casas onde vivem, em comunidade, monges ou monjas; conventos.

36 Volume 2
escrita em galego-português
A maior parte dos estudiosos considera a Cantiga Cantiga da Ribeirinha: a primeira cantiga
essa classificação seja um
da Ribeirinha, também conhecida como Cantiga da é considerada uma cantiga de amor, embora
a classificam como cantiga
Guarvaia, o primeiro texto escrito em galego-português. tanto controversa, pois há estudiosos que
o eu lírico afirma que teria
Como uma parte das cantigas só foi registrada tempos de escárnio e de maldizer. Isso ocorre porque
e ser entendida como “sem
depois de serem cantadas, não há consenso sobre a data visto a dama “em saias”. Essa expressão pod
ria usar para ser vista por
de sua composição. Em alguns documentos, consta a manto”, a parte da roupa que uma dama deve
her sem esse manto seria
data de 1189, em outros, 1198, provavelmente, por dis- um homem, já que um homem ver uma mul
saias” também pode ser
uma indiscrição. No entanto, a expressão “em
tração do copista. Leia-a a seguir. , não haveria a indiscrição.
entendida como “estar em luto” e, nesse caso

Cantiga da Ribeirinha Leia, no Livro do Professor, a tradução desta cantiga.


No mundo non me sei parelha, E, mia senhor, dês aquel di’, ai!
mentre me for como me vai, me foi a mi mui mal,
ca já moiro por vós – e ai! e vós, filha de don Paai
mia senhor branca e vermelha, Moniz, e ben vos semelha
queredes que vos retraia d’haver eu por vós guarvaia,
quando vos eu vi en saia! pois eu, mia senhor, d’alfaia
Mau dia me levantei, nunca de vós houve nen hei
que vos enton non vi fea! valia d’ua correa.
TAVEIRÓS, Paio Soares. Cantiga da Ribeirinha. In: MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa através dos textos. 15. ed. São Paulo:
Cultrix, 1985, p. 16-17.

Na cantiga, o eu lírico lamenta ter se apaixonado pela jovem depois de vê-la e considerá-la bela. A dama, a seu ver, não
corresponde ao seu amor e não lhe dá nenhum sinal de que poderia notá-lo. Esse procedimento devotado por parte do
eu lírico a sua dama, ainda que ela não dê esperanças de retribuição, é denominado vassalagem amorosa. Perceba que,
nesse sentido, há uma reprodução das relações de poder entre suserano e vassalo no plano da poesia amorosa.

O que diz a crítica literária


Música e poesia; trovador e poeta
No Trovadorismo, a poesia e a música estavam intimamente ligadas. De acordo com o crítico literário brasileiro
Segismundo Spina, com o passar do tempo, cada uma dessas atividades passou a ser exercida por um artista diferente:
havia aqueles que compunham versos, os que compunham música e ainda os que compunham versos e música.

Durante a primeira fase [do Trovadorismo] a poesia está fortemente comprometida com a música e rela-
tivamente com a dança, a cantiga d’amigo mais do que a d’amor. Essa intimidade com a música começa a
desaparecer em fins do século XV, época em que os progressos de ambas, da Música e da Poesia, iniciam a sua
separação e novos rumos na sua autonomia. A cantiga dá lugar à poesia, e o trovador, ao poeta. Os progressos

copista: pessoa que copiava manuscritos queredes: quereis.


antes da invenção da imprensa. guarvaia: manto.
Latinstock/Science

mentre: enquanto. d'alfaia: de presente.


Photo Library

moiro: morro. valia d'ua correa: ínfimo, pequeno valor.


senhor: senhora.

Literatura 37
da arte polifônica foram tornando cada vez mais difícil o aprendizado da música; ainda que na educação do
poeta da corte se incluíssem conhecimentos musicais, estes iam-se tornando privilégio de profissionais. Por
essa razão, embora a poesia não se dissociasse totalmente da música, na sua maioria deixou de ser musicada
pelo próprio compositor do texto literário; normalmente essa poesia, agora escrita para ser dita, declamada
(não cantada), podia contudo receber uma melodia musical, composta, via de regra, por esses profissionais
que desfrutavam também do convívio da corte. E assim se explica que só nos fins do século XV e princípios
do século XVI é que vamos surpreender as primeiras individualidades poéticas.
SPINA, Segismundo. A lírica trovadoresca. 3. ed. São Paulo: EDUSP, 1991. p. 44.

Olhar literário
Poesia medieval portuguesa I 4 Orientações didáticas.

As cantigas trovadorescas podem ser divididas em líricas e satíricas. Foram escritas em galego-português, língua
que antecede o português moderno. As cantigas líricas classificam-se como de amigo ou de amor, a depender da
estrutura e do tema. As satíricas subdividem-se em de escárnio e de maldizer, a depender do grau de crítica social e de
transgressão que apresentem.
Nas cantigas de amor, escritas por homens, o eu lírico é sempre
masculino, devotado à mulher que ama e obedece às regras do O amor cortês tinha como uma de suas principais regras a
amor cortês. O tema central dessas cantigas é o sofrimento amo- vassalagem amorosa. Comportando-se como um vassalo
roso do trovador pela dama idealizada e inalcançável, chamada em relação à sua dama, o trovador deveria agir de forma
comumente de “mia senhor”, em uma atitude respeitosa e humil- paciente, humilde e fiel em relação a ela. A mulher seria
de do eu lírico. Em virtude da cultura e dos costumes medievais, sempre a mais bela entre todas as outras e por ela o trova-
extremamente rígidos, o amor cantado pelos trovadores é impos- dor deveria desprezar a posse de impérios, títulos ou gran-
sível de ser concretizado, ou por causa da diferença social entre o des riquezas materiais.
trovador e a dama ou porque ela era casada, por isso a necessidade
de manter o nome da dama em sigilo. Geralmente, o ambiente das cantigas de amor é requintado, palaciano, pois essa
lírica representava a vida dos nobres. Além disso, as cantigas de amor apresentam estrutura formal mais complexa, com
poucas repetições e vocabulário mais variado.
Leia os versos da cantiga a seguir e responda às questões sobre eles.

Ai eu coitada! 1. De que o eu lírico fala nessa cantiga?


Como vivo en gran cuidado
Fala da ausência do ser amado, chamando-o de “amigo”.
por meu amigo
Leia, no Livro do Professor,
que ei alongado! a tradução desta cantiga. 2. Considerando que nas cantigas de amor o eu lírico é
Muito me tarda sempre masculino, a cantiga que você acabou de ler
o meu amigo na Guarda! pode ser considerada uma cantiga de amor? Por quê?
Justifique sua resposta com um trecho do texto.
Ai eu coitada!
Como vivo en gran desejo Essa cantiga não pode ser considerada de amor, pois o eu lírico
por meu amigo é feminino. Isso pode ser percebido pelos versos “Ai eu coitada”.
que tarda e non vejo!
Muito me tarda
o meu amigo na Guarda! palaciano: relativo a palácio, próprio de quem vive na corte;
aristocrático.
D. Sancho I. In: SPINA, Segismundo. A lírica trovadoresca. São ei alongado: de quem me afastei.
Paulo: EDUSP, 1991. p. 315.

38 Volume 2
3. De quem o eu lírico fala nessa cantiga?
De si mesmo e de seu amado, chamado de amigo.

4. Comparando as duas estrofes dessa cantiga, pode-se perceber que alguns versos se repetem. Como acontece essa
repetição nessas estrofes?
Espera-se que os alunos percebam que o primeiro, o terceiro, o quinto e o sexto versos se repetem nas duas estrofes, na mesma posição.

No segundo e no quarto versos, a estrutura é praticamente a mesma nas duas estrofes, com alteração de apenas algumas palavras.

Assim como as cantigas de amor, as cantigas de amigo também eram escritas por homens. Na Idade Média, as
mulheres não tinham acesso à educação. O papel social da mulher não previa a escrita de poesia. No entanto, o eu lírico
dessas cantigas é feminino, em geral uma jovem do povo, camponesa, que lamenta a ausência de seu amado (cha-
mado de amigo), que partiu para as guerras, comuns naquele período. A jovem, então, sofre com saudade do amado
e com medo de ser abandonada por ele. O ambiente dessas cantigas é, geralmente, o campo, e os interlocutores para
quem ela se queixa, elementos da natureza, como as árvores, os pássaros, as águas do rio ou do mar.
A estrutura das cantigas de amigo costuma ser mais simples, com refrão e paralelismo. No texto lido, a segunda
estrofe repete a estrutura e grande parte das ideias da primeira. Substituindo apenas o cuidado por desejo e a ideia de
afastamento (“ei alongado”) pela ideia de estar longe da vista (“non vejo”). Esse recurso, chamado paralelismo, facilita a
memorização e reitera o sofrimento do eu lírico. Solicite aos alunos que voltem às questões que responderam sobre a cantiga de
amigo, assim poderão verificar se as hipóteses que levantaram estavam corretas
Agora, leia estes versos e, em seguida, responda às questões. ou não. Promova uma discussão baseada nas respostas que
deram e, em seguida, peça que corrijam-nas se for necessário.
. 2015. Digital.
údio
Ai dona fea! foste-vos queixar E st
O
DK

Porque vos nunca louv’ en meu trobar


mais ora quero fazer un cantar
en que vos loarei toda via;
e vedes como vos quero loar:
dona fea, velha e sandia!
Leia, no Livro do Professor,
[...]
a tradução desta cantiga.
GUILHADE, João Garcia de. In: MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa através dos textos. 15. ed. São Paulo: Cultrix, 1985. p. 29-30.

5. De que trata essa canção?


De uma mulher que reclamou do fato de o trovador nunca falar dela em seus versos, assim essa cantiga se dirige a essa mulher, mas

não para elogiá-la, e sim para insultá-la.

6. Essa canção pode ser considerada de amor ou de amigo? Por quê?


Essa canção não pode ser considerada de amor nem de amigo, pois o eu lírico não fala de um ser amado, ao contrário, fala de alguém

que considera feia, velha e louca.

As cantigas de escárnio continham uma sátira construída de modo indireto, fazendo uso da ambiguidade, sem citar
nominalmente a pessoa atingida pela crítica. Já as cantigas de maldizer apresentavam crítica direta e agressiva, com
uma linguagem objetiva e vocabulário grosseiro. 5 Orientações sobre a diferenciação entre cantigas de escárnio e cantigas de
maldizer.

dona: mulher. trobar: trovar, nesse caso, referindo-se à arte de fazer e cantar
fea: feia. versos.
queixar: reclamar. loarei: louvarei, cantarei.
lov’ en: louvei em, elogiei em. sandia: louca.

Literatura 39
Nessa cantiga, ao invés de louvar as qualidades da dama, a mulher é descrita como feia, velha e louca. Nota-se
que o nome da mulher não é citado, mas era de conhecimento do público da época. Além disso, os adjetivos usados
para se referir a ela não deixam margem para ambiguidades, são diretos e grosseiros. Assim como em programas
humorísticos contemporâneos muitas vezes não é necessário indicar diretamente a pessoa satirizada, porque o público
a reconhece por meio da descrição, de gestos e/ou vocabulário típico, o público da época trovadoresca também era
capaz de identificar personagens citados em poemas, por meio dos adjetivos usados e da referência a eventos, como
a recorrência do pedido da mulher para ser homenageada com uma cantiga.

Poesia e amor cortês


A poesia trovadoresca seguia uma série de regras e convenções no relacionamento amoroso, pois a sociedade feu-
dal estava pautada em regras de comportamento social bastante rigorosas. Nas cantigas de amor, o eu lírico mantinha
uma atitude cavalheiresca diante da mulher e devia sofrer a coita de amor, isto é, devia sofrer por amor. Além disso, o
homem apaixonado devia submeter-se à mulher na chamada vassalagem amorosa. Ou seja, a atitude cavalheiresca
pressupunha um homem sempre dedicado à mulher, capaz de morrer na guerra para protegê-la e que, mesmo sem
ser correspondido em seu amor, seguisse amando-a sempre e devotadamente.
De modo geral, na vassalagem amorosa, o trovador devia prestar à amada um amor paciente, humilde e incondi-
cional. A dama era vista como um bem supremo e alguém inatingível. A duração do amor estava vinculada à fidelidade,
à honra, e, principalmente, à discrição. Tanto é que o nome da amada não deveria ser citado em nenhuma hipótese,
pois isso, de acordo com as convenções da época, corromperia a honra da mulher.
Como as damas a quem os poemas eram dedicados pelos trovadores eram casadas ou prometidas, a discrição
protegia a mulher da maledicência. Isso justifica o fato de que elas são descritas, nas cantigas de amor, com formas
etéreas, idealizadas, sem descrição dos seus aspectos físicos.
Observe, a seguir, como as regras do amor cortês podem ser identificadas nas cantigas.

Canção Leia, no Livro do Professor, a tradução desta cantiga.


Quando mi-agora for’e mi alongar E non sei eu como possa morar
de vós, senhor, e non poder veer u non vir’vos, que me fez Deus querer
esse vosso fremoso parecer, ben, por meu mal; por én quero saber:
quero-vos ora por Deus preguntar: e quando vos non vir, nen vos falar,
Senhor fremosa, que farei enton? Senhor fremosa, que farei enton?
Dized’ ai! coita do meu coraçon! Dized’ ai! coita do meu coraçon!

E dizede-me: en que vos fiz pesar,


por que mi-assi mandades ir morrer?
Ca me mandades ir alhur viver!
E pois m’eu for e me sen vós achar,
Senhor fremosa, que farei enton?
Dized’ ai! coita do meu coraçon!

TORNEOL, Nuno Fernandes. Canção. In: SPINA, Segismundo. A lírica trovadoresca. São Paulo: EDUSP, 1991. p. 279.

maledicência: ato ou efeito de falar mal de alguém. fremoso: formoso.


etéreas: celestes, elevadas, puras. alhur: a outro lugar.
mi alongar: me afastar, me separar. u: onde.

40 Volume 2
Nessa cantiga de amor, evidencia-se o sofrimento amoroso pelo afastamento da mulher amada, que pede ao tro-
vador que vá viver em um lugar distante dela. O eu lírico obedece, em uma posição digna da humildade cavalheiresca.
A beleza feminina é indiciada de forma sutil, aludida pelo “fremoso parecer” da dama e o eu lírico sofre com a coita de
amor, em uma postura típica da vassalagem amorosa.
Sugestão de atividade: questões 1 e 2 da seção Hora de Estudo.

Atividades 6 Orientação didática.

1. Leia a cantiga trovadoresca a seguir e responda às questões sobre ela.

Cantiga

DKO Estúdio. 2015. Digital.


Ondas do mar de Vigo, [...]
se vistes meu amigo!
e ai Deus, se verrá cedo! Se vistes meu amado
por que hei gram cuidado!
Ondas do mar levado, e ai Deus, se verrá cedo!
se vistes meu amado!
e ai Deus, se verrá cedo!

CODAX, Martim. Cantiga. In: MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa através dos textos.
tos. 15.
5 ed
ed. Sã
São Paulo: Cul
Cultri
Cultrix,
trixx, 198
1985
1985.
5. p
p.. 27
27.

a) Preencha os enunciados a seguir para concluir a que tipo de cantiga pertence o texto lido.
• O ambiente, nessa cantiga, é marítimo, com presença da natureza.
• O eu lírico é ( ) masculino ( X ) feminino
• O tema da cantiga é a saudade do amado que se encontra distante.
• Há presença de rimas? ( X ) sim ( ) não
• Há presença de paralelismo ( X ) sim ( ) não
• Trata-se, portanto, de uma cantiga de amigo.
b) Considerando o contexto histórico da Idade Média, explique por que a temática da preocupação da mulher por
notícias sobre o amado era tão recorrente.
Porque a frequência das guerras, em especial as Cruzadas, fazia com que os jovens precisassem atuar como soldados, distantes de

seus reinos, correndo risco de morrer, por isso a preocupação recorrente nesse tipo de cantiga.

c) Por que motivo o eu lírico pergunta às ondas do mar se elas teriam visto seu amado?
Pode-se pressupor que seu amado esteja guerreando em terras distantes e que ele tenha partido por mar.

d) Nessa cantiga há rimas? Como elas estão distribuídas? E como pode ser percebido o paralelismo nessa cantiga?
As rimas estão presentes nas três estrofes: Vigo/amigo; levado/amado e amado/cuidado. O paralelismo pode ser percebido na

manutenção da estrutura das estrofes e na pouca variação vocabular presente no texto, por exemplo, amigo/amado, que, na época,

eram palavras sinônimas.

verrá: virá. hei: tenho. gram: grande.

Literatura 41
2. Agora, leia a cantiga a seguir para refletir sobre suas características principais.

Cantiga a) Trata-se de uma cantiga de amor ou de amigo? Justifi-


Como morreu quen nunca ben que citando elementos presentes no texto.
ouve da ren que mais amou, Trata-se de uma cantiga de amor, pois o eu lírico é masculino,
e quen viu quanto receou
d’ela e foi morto por én: pratica a coita amorosa, afirmando que morreria sem o amor da
ai, mia senhor, assi moir’eu!
dama, e a estrutura do poema é mais complexa, com vocabulário
Como morreu quen foi amar
variado e ausência de paralelismo.
quen lhe nunca quis ben fazer,
e de que[n] lhe fez Deus veer b) Identifique as palavras do texto que indicam, na vas-
de que foi morto com pesar: salagem amorosa, a devoção do trovador em relação à
ai, mia senhor, assi moir’eu! mulher amada.
Com’ome que ensandeceu, Mia senhor, dona.
senhor, con gran pesar que viu,
e non foi ledo nem dormio
depois, mia senhor, e morreu: c) Por que, segundo o eu lírico, ele estaria a morrer de
ai, mia senhor, assi moir’eu! amor? Comprove sua resposta com um trecho do
Como morreu quen amou tal poema.
dona que lhe nunca fez ben, Porque seu amor não seria correspondido, como comprovam
e quen a viu levar a quen
os versos “Como morreu quen amou tal/dona que lhe nunca fez
a non valia, nen a val:
ai, mia senhor, assi moir’eu! ben”.

TAVEIRÓS, Paio Soares de. Cantiga. In: SPINA,


Segismundo. A lírica trovadoresca. São Paulo: EDUSP,
1991. p. 263.

Olhar literário
Poesia medieval portuguesa II 7
Orientação sobre o estudo das escolas
literárias e sua sequência cronológica.

Poesia dos trovadores: cancioneiros


A poesia dos trovadores era transmitida oralmente, já que as cantigas eram compostas para serem cantadas. Entre
os trovadores encontram-se pessoas pertencentes aos mais diversos estratos sociais. Porém, apesar da popularidade
das cantigas, feitas em uma linguagem acessível ao povo, muitos dos trovadores pertenciam à nobreza. Um dos mais
importantes foi o rei Dom Dinis (1261-1325), que escreveu mais de 100 cantigas e foi um dos grandes incentivadores
da cultura portuguesa em seu tempo. Foi ele quem fundou a Universidade de Lisboa, em 1290.

ren: coisa. ledo: alegre.


én: ela, essa coisa. val: vale.
ensandeceu: enlouqueceu.

42 Volume 2
À medida que o interesse pela cultura literária começou a ganhar expressão entre a nobreza de Portugal, surgiu
o interesse em registrar as manifestações poéticas antes legadas à transmissão oral. Um grande esforço na época fez
com que muitas das cantigas e algumas de suas variações pudessem ser transpostas para a linguagem escrita. Esses
textos foram reunidos em coletâneas, conhecidas como cancioneiros. Os mais importantes são o Cancioneiro da Ajuda,
o Cancioneiro da Biblioteca Nacional e o Cancioneiro da Vaticana.
O surgimento dos cancioneiros indica uma mudança em relação ao período em que as primeiras cantigas surgiram:
uma parte da literatura deixava progressivamente de ser de interesse de toda a comunidade, incluindo-se aí os cam-
poneses iletrados, para se transformar em um produto da elite palaciana. Os traços da tradição oral vão pouco a pouco
sendo substituídos por uma linguagem mais refinada; e a visão de mundo rural, presente, por exemplo, nas cantigas
de amigo, vai perdendo espaço, pois se afasta do modo de vida dos castelos, onde a literatura passa a circular. Essas
transformações configuram o final do período trovadoresco e o início do período denominado Humanismo.
Sugestão de atividade: questão 3 da seção Hora de estudo.

Diálogos do Trovadorismo com a MPB


A literatura e as artes brasileiras de modo geral receberam influência marcante da cultura portuguesa,
via colonização. É possível perceber, por exemplo, a influência dos menestréis nos cantores repentistas do
Nordeste, que improvisam suas rimas e criam narrativas em que contam grandes feitos de heróis da região ou
personalidades conhecidas.

Outra influência marcante da cultura trovadoresca


Todo o sentimento está presente na música popular brasileira. Várias canções
[...] se aproximam da perspectiva temática das cantigas líri-
Prometo te querer cas portuguesas, como a espera da mulher pelo amado
Até o amor cair que não chega; a ideia de morrer de amor caso o amor
Doente não seja correspondido e mesmo a ideia do amor cortês
Doente estão presentes em canções de muitos compositores de
Prefiro então partir MPB, como Chico Buarque de Holanda e Caetano Veloso,
A tempo de poder por exemplo.
A gente se desvencilhar da gente
Depois de te perder A dedicação total do eu lírico, que promete fidelidade
Te encontro, com certeza a seu amor, ainda que não haja a certeza da concretiza-
Talvez num tempo da delicadeza, ção desse amor, assim como a ideia de adoecimento e,
Onde não diremos nada consequentemente, de partida, de morte por amor, são
Nada aconteceu aspectos que aproximam essa canção das cantigas de
Apenas seguirei, como encantado amor trovadorescas.
Ao lado teu

BUARQUE, Chico. Todo o sentimento. In: _____.


Francisco. São Paulo: RCA Ariola, 1995. 1 CD, faixa 7.
©by MAROLA EDIÇÕES MUSICAIS LTDA- 50% referente à parte do autor Chico Buarque

1987 by EDICOES MUSICAIS CORDILHEIRAS LTDA.

Literatura 43
Atividades 8 Orientação didática.

1. Indique, nos trechos de canções da MPB a seguir, com que tipo de cantiga estabelecem diálogo – amor ou amigo – e
justifique brevemente sua resposta.
a)
Você é linda Cantiga de amor, já que o sujeito poético é
Fonte de mel Linda
Nos olhos de gueixa E sabe viver masculino, enaltece a beleza e a perfeição
Kabuki, máscara Você me faz feliz da mulher amada e escreve sua canção
Choque entre o azul Esta canção é só pra dizer
E o cacho de acácias E diz com o objetivo de comprovar o seu amor
Luz das acácias Você é linda
“Essa canção é só pra dizer e diz”.
Você é mãe do sol Mais que demais
A sua coisa é toda tão certa Você é linda sim
Beleza esperta Onda do mar do amor
Você me deixa a rua deserta Que bateu em mim
Quando atravessa [...]
E não olha pra trás

VELOSO, Caetano. Você é linda. In: ______. Circuladô Vivo. São


Paulo: Polygram, 1992. 2 CD. CD 2, faixa 2.

b) c)
Mentiras Velha infância
[...] Você é assim
Nada ficou no lugar Um sonho pra mim
Eu quero entregar suas mentiras E quando eu não te vejo
Eu vou invadir sua aula Eu penso em você
Queria falar sua língua Desde o amanhecer
Eu vou publicar seus segredos Até quando eu me deito
Eu vou mergulhar sua guia
Eu vou derramar nos seus planos Eu gosto de você
O resto da minha alegria E gosto de ficar com você
Meu riso é tão feliz contigo
Que é pra ver se você volta O meu melhor amigo é o meu amor
Que é pra ver se você vem [...]
Que é pra ver se você olha pra mim

CALCANHOTO, Adriana. Mentiras. In: ______. Perfil – os ANTUNES, Arnaldo; BROWN, Carlinhos e MONTE, Marisa. Velha
maiores sucessos. Rio de Janeiro: Som Livre, 2001. 1 CD, faixa 4. Infância. In: Tribalistas. Rio de Janeiro: EMI, 2002. 1 CD, faixa 3.

1992 by MINHA MÚSICA EDIÇÕES MUSICAIS LTDA MONTE SONGS EDICOES MUSICAIS LTDA.
CANDYALL MUSIC PRODUCOES ARTISTICAS LTDA
© by UNIVERSAL MUSIC PUBLISHING LTDA / ROSA CELESTE EMPREENDIMENTOS ARTÍSTICOS LTDA
ROSA CELESTE / UNIVERSAL MUSIC PUBLISHING LTDA.
Velha infância (Arnaldo Antunes/Carlinhos Brown/Marisa Monte/25% Pedro Baby)-
Setembro Edições (DC Consultoria)

Cantiga de amigo, pois há o lamento do sujeito poético por ter Cantiga de amor, pois o sujeito poético expressa o seu amor

sido abandonado e, ao mesmo tempo, o esforço por convencer incondicional, que o toma o tempo todo, e sua felicidade em

o ser amado a retornar, a cumprir suas promessas amorosas. estar próximo ao ser amado.

44 Volume 2
2. Leia, a seguir, a letra de uma cantiga trovadoresca e a de uma canção popular brasileira e responda às questões sobre elas.
Texto 1

Cantiga Leia, no Livro do Professor, a tradução desta cantiga.


– Ai flores, ai, flores do verde pino, – Vós me preguntades polo voss’amigo?
se sabedes novas do meu amigo? E eu ben vos digo que é san’e vivo:
ai, Deus, e u é? ai, Deus, e u é?

Ai flores, ai flores do verde ramo, Vós me preguntades polo voss’amado?


se sabedes novas do meu amado? E eu ben vos digo que é viv’e sano
ai, Deus, e u é? ai, Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amigo, E eu ben vos digo que é san’e vivo,
aquel que mentiu do que pôs comigo? e seerá vosc’ant’o prazo saído:
ai, Deus, e u é? ai, Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amado, E eu ben vos digo que é viv’e sano.
aquel que mentiu do que mi á jurado? e será vosc’ant’o prazo passado:
ai, Deus, e u é? ai, Deus, e u é?

NUNES, J. J. Cantigas de amigo. In: MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa através dos textos. 15. ed. São Paulo: Cultrix, 1985. p. 25.

Texto 2 a) O texto 1 pode ser classificado como cantiga de amor ou de amigo?


Cantiga de amigo, pois o eu lírico é feminino e dialoga com a natureza em busca
Onde estará o meu amor
de notícias sobre seu amado, que está ausente, na guerra.
Como esta noite findará
E o sol então rebrilhará b) Uma das características marcantes das cantigas é a presença de pa-
Estou pensando em você... ralelismo, o que auxilia na memorização dos textos. Explique como se
Onde estará o meu amor? dá o paralelismo no texto 1.
Será que vela como eu? A cantiga se organiza em 4 pares de estrofes, que repetem a estrutura e propõem
Será que chama como eu?
Será que pergunta por mim? variação morfológica dentro dos pares: no primeiro par, o eu lírico pergunta
Onde estará o meu amor?
ao pinheiro e ao ramo onde está o amigo/amado; no par seguinte, há
Se a voz da noite responder
Onde estou eu, onde está você novamente a pergunta sobre se eles têm notícias de seu amado; no penúltimo par,
Estamos cá dentro de nós
inicia-se a resposta da natureza, que afirma que ele está bem e, no último par, há o
Sós...
Se a voz da noite silenciar acréscimo da ideia de que ele voltará quando terminar o serviço militar.
Raio de sol vai me levar
Raio de sol vai lhe trazer c) O refrão da cantiga enfatiza a preocupação do eu lírico. Transcreva o
Onde estará o meu amor? refrão e indique que preocupação é essa.
O refrão é: “ai, Deus, e u é?” e indica a preocupação do eu lírico em saber onde e
CÉSAR, Chico. Onde estará o meu amor. In:
MARIA BETHÂNIA. Imitação da vida. Rio de como está seu amado, pois pode ter sido morto em combate.
Janeiro: EMI, 1997. 2 CD. CD 2, faixa 1.
©2015 Copyright DECK 100% by CHITA (DECK)- Todos os direitos reservados

pino: pinheiro. san’e vivo: são e vivo.


u é: onde está. e será vosc’ant’o prazo saído/e será vosc’ant’o prazo
pôs: combinou. passado: e estará convosco quando terminar o prazo do serviço
preguntades: perguntais. militar.
Literatura 45
d) Identifique duas semelhanças entre os textos 1 e 2.
Em ambos há a ideia de ausência do ser amado e a preocupação com o lugar por onde ele anda; os elementos da natureza, seja o

pinheiro ou a noite, o dia, o sol, são aqueles para quem o eu lírico dirige suas preocupações; apesar de o texto 2 não ter um refrão,

em ambos há repetição de palavras e estruturas ao longo do texto.

e) Na letra da canção “Onde estará o meu amor”, é possível deduzir por que o ser amado está ausente? Justifique
sua resposta.
Não é possível, pois a única indicação aparente é a de que o ser amado está distante e o sujeito poético sente falta dele.

f) Apesar de o texto intitulado “Cantiga” ter sido escrito na Idade Média, é possível dizer que se estabelece um diálogo
temático e formal com a canção contemporânea “Onde estará o meu amor”. Explique por quê.
Apesar de separadas pelo tempo, a perspectiva lírica do sofrimento pela espera do par amoroso, bem como a estrutura simples do

texto, que conta com paralelismos e repetições aproximam ambos os textos.

Sugestão de atividades: questões 4 e 5 da seção Hora de estudo.

Acontecia

Novelas de cavalaria 9 Resumo da novela A demanda do Santo Graal.

Ao lado da poesia produzida no Trovadorismo, há também obras em prosa, narrativas de caráter místico que
abordam aventuras envolvendo cavaleiros medievais. Os valores que cercam esses heróis são condizentes com os
valores defendidos pela moral cristã: honra, castidade, disposição para defender o cristianismo e a realeza. Essas
novelas eram lidas nos ambientes palacianos e também circulavam oralmente entre os camponeses, em exibições
nas feiras medievais.
Não há novelas de cavalaria produzidas em Portugal, mas, sim,
traduções de obras francesas e inglesas, como A demanda do Santo nda faziam
Segundo a lenda, os Cavaleiros da Távola Redo
Graal, Tristão e Isolda e Amadis de Gaula. Nelas, histórias de amor a. O formato
parte da cavalaria do rei Arthur, da Bretanh
impossível somam-se a narrativas de guerra e de devoção a Cristo. eles se reu-
da távola, isto é, da mesa em torno da qual
Em A demanda do Santo Graal, por exemplo, são narradas histó- hierarquia entre
niam, servia para mostrar que não havia
cabeceira, lugar
rias sobre o rei Arthur e seus cavaleiros, entre eles Galaaz, Perci- os membros, uma vez que ela não tinha
unidos por leal-
val e Lancelote, que partem em uma missão sagrada: encontrar reservado a um líder. Os cavaleiros estavam
eram muito
o cálice onde José de Arimateia teria recolhido o sangue de Jesus dade mútua. As narrativas da távola redonda
crucificado. populares em Portugal.

46 Volume 2
Latinstock/Corbis/GraphicaArtis
Alguns elementos observados na narrativa de A demanda do Santo Graal
se projetam em outras narrativas do período. O primeiro deles se refere à
figura heroica dos cavaleiros, personagens identificados com a nobreza, mas
que eram admirados também pelas pessoas em geral, pois colocavam seus
valores à frente das questões relacionadas ao poder e à posse material. Esta-
vam mais ligados à vivência da espiritualidade e da aventura em si. O segun-
do aspecto diz respeito aos valores que esses personagens compartilhavam,
entre os quais o da honra e o da proteção dos oprimidos, como os campone-
ses explorados pelos senhores de terras. Outro aspecto se relaciona à carga
religiosa simbolizada na figura desses cavaleiros, muitas vezes envolvidos em
demandas relacionadas ao cristianismo.

Coleção Particular
Outra narrativa bastante popular à época é a de
Tristão e Isolda, que narra o amor impossível vivido
pelo cavaleiro Tristão e pela jovem Isolda, prometi-
da em casamento ao rei Marcos, tio de Tristão e a
quem este devia obediência. Ao utilizarem um filtro
amoroso que a mãe de Isolda preparara para seu
casamento com o rei, os jovens acabam se apaixo-
nando perdidamente. A partir de então, o casal en-
frenta uma série de dificuldades para viver seu amor:
a desconfiança dos cortesãos que não suportavam
ser Tristão o preferido do rei Marcos, a lealdade rom-
pida pelo jovem cavaleiro em relação ao seu tio, o
questionamento de todos sobre a fidelidade de Isol-
da em relação ao marido, entre outras.

LEIGHTON, Edmund. The end of the song. 1902. 1 óleo sobre tela, color.,
128,52 cm x 147,32 cm. Coleção particular.

Lendo a literatura
Leia a seguir um trecho da novela de cavalaria Tristão e Isolda para refletir sobre o texto.

Tristão amava Isolda com um amor imutável; ela, igualmente. Levavam a vida do mesmo modo, cortês e
agradável, e o seu amor era de tal força que pareciam só ter um coração e uma alma. Vários na corte o notaram
e o caso foi falado; mas ninguém sabia as coisas com toda certeza, e o que se contava eram unicamente boatos.
Tristão tinha por companheiro e par um vassalo de nobre família chamado Kariado, que era da sua idade
e com o qual partilhava várias vezes o quarto no interior do castelo de Tintagel. Era um fiel do rei Marcos,
sempre atento a agradar-lhe, mas invejava os favores com que ele cumulava o sobrinho. Ora, uma noite em
que repousavam juntos na mesma cama, mal Kariado adormeceu, Tristão esgueirou-se de perto dele e saiu.
Caíra neve e a Lua brilhava com tanta claridade que dir-se-ia ser dia. Tristão chegou à vedação do pomar que

cumulava: enchia.

Literatura 47
se encontrava sob o quarto das mulheres: afastou uma prancha da paliçada por onde costumava penetrar.
Brangia pegou-lhe na mão e conduziu-o à rainha Isolda. De um cesto para recolher as cinzas fez um resguardo
para disfarçar a claridade da vela e dissimular os ardores dos amantes. Depois, foi-se deitar, esquecendo-se de
fechar a porta do quarto.
[...]
No dia seguinte, Kariado chamou o rei de parte e disse-lhe: “Sire, contam-se na corte, a respeito de Tristão
e de Isolda, muitas coisas que não honrariam de modo algum o vosso país e os vossos homens. Advirto-vos
para terdes cuidado e refletirdes: estão em jogo o vosso sossego e a vossa honra.” Marcos, o mais fiel dos ho-
mens e o melhor, Marcos, o simples, espantou-se: recusava-se a obscurecer, fosse com a mais ligeira dúvida, a
estrela da sua alegria, Isolda.
[...]

TRISTÃO e Isolda. 2. ed. Tradução de Maria do Anjo Braamcamp Figueiredo. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1985. p. 59-61.

1. Que características do amor entre Tristão e Isolda o 3. No trecho lido, que razões são apontadas para a inveja
aproximam do amor cortês? E quais o diferenciam? que Kariado sente dos amantes?
As características que aproximam o amor de Tristão e Isolda do O fato de o rei Marcos, tio de Tristão, protegê-lo com mais

amor cortês são a dedicação total dos amantes ao ser amado, a atenção e mais favores que a outros jovens nobres, como o

união de ambos em um só “corpo e alma” (maneira como eles próprio Kariado.

se sentem). O que os distancia do amor cortês é a possibilidade

de realização desse amor, já que não o vivem no plano ideal,

mas, sim, encontram-se como amantes, correndo o risco de re- 4. Que argumentos Kariado usa para convencer o rei de
que deve tomar uma providência contra os amantes?
presálias por parte do rei.
O fato de que, se não fizesse nada, sua honra seria ferida e ele

ficaria em uma situação ruim perante os súditos de sua corte,


2. Considerando o Período Medieval, época em que se
podendo ser questionado como líder.
passa a história de Tristão e Isolda, por que o amor de
ambos é impossível?
Sendo Isolda uma prometida do rei, não havia como quebrar esse

acordo. Não existia a possibilidade de separação, o casamento


5. Por que o rei resiste a acreditar em Kariado?
era uma união indissolúvel, portanto não havia como os aman- O rei está apaixonado por Isolda e não quer pôr em perigo sua

tes se unirem. alegria conjugal devido a boatos.

paliçada: lugar cercado por estacas, para proteção.


sire: tratamento que se dava aos reis e senhores feudais.

48 Volume 2
Organize as ideias
Leia com atenção o trecho do texto “O Feudalismo e o estilo românico”, do historiador da arte húngaro Arnold Hauser,
e depois, escreva um pequeno texto relacionando a sociedade feudal à arte que foi produzida na Idade Média. Use
e,
passagens do trecho lido como argumentos para seu texto. 10 Roteiro para desenvolvimento da atividade.

A mais peculiar característica da primitiva econo- seu significado intrínseco próprio, mas como deter-
mia medieval, e, ao mesmo tempo, o aspecto por que minadas por Deus, o que significa ser quase impossível
exerce a sua mais profunda influência na cultura inte- passar de uma classe para outra. Qualquer tentativa
lectual da época, é, indubitavelmente, o fato de que lhe para ultrapassar as fronteiras entre as classes equivalia
falta todo o estímulo para o aumento da produção, os à rebelião do homem contra a vontade divina. Num
métodos tradicionais continuam a ser usados e o velho sistema de sociedade tão inflexível e imóvel a ideia de
ritmo de produção observado sem qualquer preocu- competição intelectual e a ambição para desenvolver
pação pelas invenções técnicas e pelo aperfeiçoamento e afirmar a individualidade pessoal própria já não po-
orgânico. Tal como tem sido dito, é uma pura ‘eco- diam vir à superfície, como o não podia o princípio da
nomia limitada’, produzindo somente à medida das competição comercial numa economia sem lucro. Em
necessidades do consumo, e na qual falta toda a ideia conformidade com o espírito não dinâmico da econo-
de lucro, todo o sentido de cálculo e de especulação, mia e com a estrutura estática da sociedade, reina um
toda a concepção de emprego racional e planificado de conservantismo rígido, imóvel e duro, nas ciências, na
forças úteis. A imobilidade das formas de sociedade e arte e na literatura da época. A mesma inflexibilidade
a rigidez das barreiras que separam as várias classes es- que liga a economia e a própria sociedade à tradição
tão em perfeito acordo com o tradicionalismo e o irra- retarda, igualmente, o desenvolvimento do novo pen-
cionalismo dessa economia. As classes que constituem samento na ciência e no ensino e impede o apareci-
a sociedade são consideradas, não só como tendo o mento de novos modos de experiência na arte. [...]
HAUSER, Arnold. História social da literatura e da arte. Tradução de Walter H. Geenen. 4. ed. São Paulo: Mestre Jou, 1982. p. 254.

Hora de estudo
1. Uma das marcas do Trovadorismo é o amor cortês. d) ( ) O trovador nunca deve partir para a guerra ou
Assinale as alternativas que contêm procedimentos pôr a sua vida em risco, pois deixaria a mulher
típicos da cortesia amorosa. desamparada.

a) ( X ) Discrição em relação à amada: o trovador não e) ( ) O ambiente em que a mulher vive é campesino,
deve indicar a identidade de sua amada, que mesmo assim o trovador a trata como uma mu-
lher nobre, que vive no ambiente palaciano.
pode ser uma mulher comprometida ou casada.
f) ( X ) O trovador deveria manter, em relação à dama,
b) ( ) Ciúme: o trovador deve demonstrar em seus uma posição de vassalagem amorosa, subme-
versos sentimento de posse em relação à mu- tendo-se humildemente a ela.
lher, invejando os que estão próximos dela.
g) ( X ) Nenhuma riqueza terrena seria tão importan-
c) ( X ) O trovador deve sofrer a coita amorosa, dedicar- te quanto o amor da mulher amada, idealizada
-se à amada de modo incondicional e fiel. como a mais perfeita e pura entre todas.

peculiar: especial, típico de algo. intrínseco: próprio, essencial, inerente.

Literatura 49
2. (IFSP) ( 3)
Cantiga de Amor Neste país de manda-chuvas
Afonso Fernandes
cheio de mãos e luvas
Senhora minha, desde que vos vi, tem sempre alguém se dando bem
lutei para ocultar esta paixão de São Paulo a Belém
que me tomou inteiro o coração;
Tom Zé e Ana Carolina, Unimultiplicidade.
mas não o posso mais e decidi
que saibam todos o meu grande amor,
a tristeza que tenho, a imensa dor ( 1)
que sofro desde o dia em que vos vi.
Oh! meu amor!
Viver
Já que assim é, eu venho-vos rogar
É todo sacrifício
que queirais pelo menos consentir
Feito em seu nome
que passe a minha vida a vos servir (...)
Djavan, Pétala.
(www.caestamosnos.org/efemerides/118. Adaptado)

Uma característica desse fragmento, também presente ( 4)


em outras cantigas de amor do Trovadorismo, é
Enquanto os homens exercem
a) a certeza de concretização da relação amorosa. Seus podres poderes
X b) a situação de sofrimento do eu lírico. Motos e fuscas avançam
c) a coita de amor sentida pela senhora amada. Os sinais vermelhos
E perdem os verdes
d) a situação de felicidade expressa pelo eu lírico. Somos uns boçais
e) o bem-sucedido intercâmbio amoroso entre pes-
Podres poderes, Caetano Veloso.
soas de camadas distintas da sociedade.
3. (ESPCEX – AMAN) É correto afirmar sobre o Trovadoris- ( 2)
mo que
Se o sonho acabou, não sei, meu amor
a) os poemas são produzidos para ser encenados.
Nem quero saber
b) as cantigas de escárnio e maldizer têm temáticas Só sei que ontem à noite
amorosas. Sorrindo acordada
X c) nas cantigas de amigo, o eu lírico é sempre feminino. Sonhei com você
d) as cantigas de amigo têm estrutura poética compli- João Donato e Abel Silva, Simples carinho.
cada.
e) as cantigas de amor são de origem nitidamente po- 5. Pesquise e registre a seguir pelo menos dois exemplos
pular. de letras de canções da MPB que dialogam com as
cantigas trovadorescas, indicando, em cada caso, os
4. Os textos a seguir, apesar de serem atuais, dialogam
elementos comuns.
com as cantigas trovadorescas medievais. Associe
cada fragmento ao tipo de canção medieval com ca- Pessoal.
racterísticas semelhantes a ele.
( 1 ) Cantiga de amor
( 2 ) Cantiga de amigo
( 3 ) Cantiga de escárnio
( 4 ) Cantiga de maldizer

50 Volume 2