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A BIBLIOTECA COMO UM ESPAÇO DE SOCIABILIDADES NO ÂMBITO DO ENSINO


PRIMÁRIO CATARINENSE EM MEADOS DO SÉCULO XX

Gisela Eggert-Steindel. Universidade do Estado de Santa Catarina. Centro de Ciências


Humanas e da Educação (FAED/UDESC) – f9giza@gmail.com.

PALAVRAS-CHAVE: 1. ENSINO PRIMÁRIO – SANTA CATARINA 2. ENSINO


PRIMÁRIO – BIBLIOTECA 3. BIBLIOTECA – SOCIABILIDADES – ENSINO
PRIMÁRIO (SC)

1 INQUIETAÇÕES PRIMEIRAS

POR QUÊ e PARA QUÊ prôpor-se estudos sobre a história da biblioteca no Brasil
seja essa instituição de leitura – a biblioteca pública, a escolar, a infantil ou especializada
como uma biblioteca universitária? Essa pode ser uma pergunta com certo ceticismo de
pesquisadores, instituições de fomento à pesquisa, alunos ou mesmo de um cidadão comum,
afinal qual a contribuição de estudos de tal ordem.
As investigações acerca da história da biblioteca se inscrevem na disciplina do estudo
da história do livro, disciplina a qual segundo Darton (1990, p. 111) se constitui em um campo
exuberante e coloca como questão: “Como o historiador do livro poderia negligenciar a
história das bibliotecas, das edições, do papel, dos tipos e da leitura?”.
No campo da Biblioteconomia os estudos têm tradição de longa data constituindo-se
em uma disciplina curricular geralmente sob a denominação de “História do Livro e das
Bibliotecas” nos cursos de graduação em biblioteconomia. A biblioteconomia no Brasil como
campo de estudo e prática tem seu início na Biblioteca Nacional, (RJ) curso criado e
instalado nos porões dessa biblioteca no século XX pelo Decreto No. 8.835, de 11/07/1911 (a
título de contemporanização onde hoje está o Auditório Machado de Assis). Foi o terceiro
curso de biblioteconomia no mundo, depois do da École de Chartes na França e do curso do
Columbia College, em Nova York nos Estados Unidos. Esse primeiro curso da BN só
começou a funciona efetivamente em 1915 e hoje se encontra na Escola de Biblioteconomia
da UNIRIO. (UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO, 2009).
No século XX não só criou outros tantos cursos de biblioteconomia nos diferentes
estados da federação brasileira como resultou na produção do conhecimento de uma
biblioteconomia tropical. Entre alguns dos estudos histórico-sociais sobre a biblioteca no
Brasil, citam-se o estudo de Sônia Catarina Gomes, em 1982 - Bibliotecas e sociedade na
Primeira República, o trabalho investigativo de Zita Catarina Prates de Oliveira, em 1994, A
biblioteca fora do tempo: políticas governamentais de bibliotecas públicas no Brasil, e, mais
próximo ao final do século XX, o estudo realizado por Rosemay Tofani Motta, em 2000 sob o
titulo Baptista Caetano de Almeida: um mecenas do projeto civilizatório em São João d’El-
Rei no início do século XIX – a biblioteca, a imprensa e a sociedade literária.
De diferentes campos e abordagens teóricas circunscritas em alguma linha podemos
citar títulos que impactaram a produção bibliográfica nacional quando o tema é a biblioteca,
citam-se entre outros, a obra de Rubens Borba de Moraes, O problema das bibliotecas
brasileiras, 1943. Passados mais de 40 anos, Eduardo Frieiro publica O diabo na livraria do
Cônego, 1981. Do autor Waldeck Carneiro da Silva, o título, A miséria da biblioteca escolar,
1993. Esse último titulo denunciou no início dos anos 90 o estado de abandono das bibliotecas
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escolares brasileiras, publicação que de certo modo chamou atenção da revisão e prosição de
estudos no campo da Biblioteconomia entrelaçadas à questões do campo da Educação e do
ensino brasileiro
No cenário internacional o interesse por estudos acerca da biblioteca
internacionalmente segundo Baratin e Jacob (2000, p.9), adquiriram uma nova abordagem a
partir das práticas culturais objeto de estudo quer do campo da História, da Sociologia, da
Educação entre outros.
Nesse sentido as contribuições brasileiras a partir de estudos culturais em diferentes
campos do conhecimento podemos elencar entre outros títulos: o estudo de Cláudio Denipoti,
o título Páginas de prazer: a sexualidade através da leitura no início do século, em 1999. o
trabalho de Christini Cardoso Morais Para o aumento da instrução da mocidade da nossa
pátria: estratégias de difusão do letramento na Vila de São João del-Rei (1824-1831), em
2002, bem como o título da tese Os jardins das delícias: gabinetes literários, bibliotecas e
figurações da leitura na corte imperial, de Nelson Schapochnik, em 1999.
No mercado editorial são também significativos os títulos disponíveis quer editados
ainda na última década do século XX como aqueles publicados na primeira década do século
XXI. A exemplo arrola-se – o título editado pelo Arquivo Nacional, trabalho de Tânia Maria
Bessone, Palácios de destinos cruzados: bibliotecas, homens e livros no Rio de Janeiro,
1870-1920, em 1999, a obras coletiva de Lilia Moritz Schwarz, Paulo Cesar de Azevedo e
Angela Marques da Costa, A longa viagem da biblioteca dos reis: do terremoto de Lisboa à
independência do Brasil, 2002. O resultado de pesquisa de doutoramento por mim realizado
na Universidade de São e publicado sob o título Dos espaços de leitura à biblioteca
municipal de Jaraguá do Sul: discursos e percursos (1937 – 1983) em 2009, pela Editora
Insular.
Esse contexto quer traduzir algumas respostas à proposição em se investigar a
biblioteca brasileira em diferentes campos do conhecimentos e com diferentes abordagens; e
nas entrelinhas quer de algum modo justificar esse estudo da biblioteca escolar no ensino
primário oferecido no estado de Santa Catarina em meados do século XX.
Na condição de investigadora de instituições de leitura, a biblioteca contemporânea -
aposto no conhecimento histórico e na experiência humana das gerações anteriores em dois
sentidos sem uma escala de ordem da sua importância.
Em primeiro, a história é um registro compreendido em um lugar e, em um tempo –
isto é, cada indivíduo em seu tempo e lugar poderá ler e reler a história como luz para seu
pensar e fazer no seu tempo. Em segundo lugar, a partir do campo do fazer, a experiência
daqueles que nos antecederam poderão mostrar gestos, modos de gestão de instituições de
leitura, bens culturais inseridos nas diferentes realidades colocadas a partir de diferentes
referenciais de cultura no Brasil.
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1.1 Dos caminhos da pesquisa ao presente texto

A produção do conhecimento provém de perguntas quer essas tendo por questões de


ordem teórica ou prática nos diferentes campos do conhecimento atualmente reconhecidos
como conhecimento científico. A uma pergunta busca-se resposta(s), essas somente poderão
ter êxito se substanciadas em fontes de pesquisa. No campo das Ciências Humanas e Ciências
Sóciais Aplicadas, as fontes documentais estão para a investigação como o laboratório para as
Ciências Puras e Ciências Aplicadas.
As fontes documentais se apresentam com diferentes potencias a medida que novas
questões são postas à elas, isto é, uma fonte documental pode ser lida, (re)lida, revistada à luz
de diferentes perguntas e por diferentes aportes teóricos inscritos nos diferentes campos do
conhecimento humano.
Esse pode-se afirmar é o contexto do presente estudo o qual tem como origem
primeira os estudos acerca da formação de professores do ensino primário em Santa Catarina,
ancorado no projeto de pesquisa JUSTIÇA, ÊXITO E FRACASSO NA ESCOLA : O impacto sobre
os processos de socialização e de construção das identidades profissionais dos professores
catarinenses (1950-2005). Tal projeto buscou identificar

[...] a presença e recorrência do conceito de justiça, que pode estar


registrado de diferentes formas (superação do fracasso, justiça escolar,
escola mais justa, busca de menor desigualdade social [...]) em documentos
que organizam e conformam (no sentido de atribuir forma) a educação
básica e os cursos destinados à formação de profissionais para nela atuar
(CATANI; CARPENTIER, 2005).

Como Sub-Projeto e inscrito no campo da Biblioteconomia e da História da Educação


se propôs então à investigar a Biblioteca Escolar como equipamento de informação, saber e
conhecimento, com recorte temporal compreendido entre os anos de 1950 e 1990. Tendo
como pressuposto de que toda biblioteca constituiu um espaço de sociabilidades, perguntava-
se: qual seria a relação da biblioteca escolar na construção da justiça, do êxito ou do fracasso
na escola? O fio condutor daquela investigação foi conhecer tal espaço como instituição
educativa na parte que lhe compete de criar formas de socialização, particularmente no que
diz respeito à consolidação do ideário da justiça, presente tanto no discurso oficial quanto nas
práticas da biblioteca como possibilidade de informação e saber (EGGERT-STEINDEL e
FONSECA, 2010). As fontes documentais utilizadas para aquele estudo foram o Decreto Nº
3.735, de 17 de dezembro de 1946 (SANTA CATARINA, 1946), recorreu-se ainda a fontes
institucionais, como os Manifestos da Biblioteca Pública da UNESCO (1949, 1972, 1994), ao
Manifesto IFLA/UNESCO para Biblioteca Escolar (UNESCO, 1999), e a um estudo dos
verbetes BIBLIOTECA, ÊXITO, FRACASSO E JUSTIÇA em obras de referência,
dicionários monolíngues, bilíngues e dicionários especializados de biblioteconomia,
educação, ciências sociais e filosofia, bem como o exame do conceito de justiça em Rawls
citado Nedel (2000).
Toda pesquisa revela seu pesquisador (a), isto é, de certo modo pesquisar é um modo
do pesquisador (a) escrever-se ou escrever sobre si. Pautado nessa bibliografia e na
experiência da leitura desses documentos institucionais, referente a Biblioteca Escolar, aliado
ao trabalho de orientação da pesquisa de mestrado “O ensino da leitura em Escolas Isoladas
de Florianópolis: entre o prescrito e o ensino (1946 – 1956)” algumas questões de pesquisa
foram se colocando. Inquietada pelos poucos estudos acerca historicidade da Biblioteca
Escolar no estado de Santa Catarina, o reler, rever e aprofundar o exame ao Decreto Nº 3.735,
de 17 de dezembro de 1946 suscitou na esteira dos estudos acerca do livro e da biblioteca no
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Brasil, a seguinte pergunta - Quais os indícios de sociabilidades existentes na prescrição da


Biblioteca da escola, no Decreto No 3. 735 de 17 de dezembro de 1946, o qual regulamenta
o Ensino Primário à época?
Assim, a partir do estudo documental do Decreto No 3. 735 de 17 de dezembro de
1946, o presente estudo tem por objetivo descortinar o conceito de sociabilidade da biblioteca
da escola do Ensino Primário prescrito nesse instrumento regulamentador. Para tanto foram
estabelecidos como objetivos específicos:

- Contextualizar o Ensino Primário do estado de Santa Catarina nos diferentes


tempo de sua história;
- Compreender a criação legal da Biblioteca Escolar no contexto histórico do
ensino catarinense;
- Examinar o conceito de sociabilidade da Biblioteca da escola do Ensino
Primário prescrito no Decreto.

Estabelecida a questão norteadora e os objetivos do estudo ainda quer se dizer que do


caminho realizado paraa realização dessa pesquisa se destaca que ela vem na esteira de outras
perguntas no tocante a Biblioteca Escolar como objeto histórico entrecruzando-se os campos
da História da Educação, da Sociologia e da Biblioteconomia.
Assim, uma leitura inquiridora a esse Decreto tem como aporte teórico o ensinamento
e as reflexões do sociológo Georg SIMMEL (2006) precisamente a obra “Questões
fundamentais da sociologia: indiviíduo e sociedade” - o seu capítulo 3 - que auxilia entender o
conceito de sociabilidade inerente a biblioteca da escola do Ensino Primário de Santa Catarina
historicamente construída.
Para esse pensador, a sociedade significa a interação entre indivíduos, essa interação
surge a partir de impulsos ou a busca de certas finalidades, objetivos quer sejam esses de
ordem ideológica ou ainda mesmo de práticas de sobrevivência como defesa, preservação -
mas que ao fim tem como referência o convívio com o outro. Explica que a sociação é uma
categoria que se dá nos individuos existente em lugares concretos de toda realidade histórica.
Em uma mesma linha de argumentos Norbert Elias em sua obra “A sociedade dos
indivíduos” amplia o raciocínio ao suscitar que as categorias indivíduo e sociedade, não são
antagônicas ou estanques. Nesse pensar esse autor denomina de sociedade, seres humanos
individuais ligados uns aos outros numa pluralidade e explica seu modelo de sociedade
através de uma metáfora à Via-Láctea, ao dizer:

Considerados num nível mais profundo, tanto os indivíduos quanto a sociedade


conjuntamente formada por eles são igualmente desprovidos de objetivo. Nenhum
dos dois existem sem o outro. Antes de mais nada, na verdade, eles simplesmente
existem – o indivíduo na companhia de outros, a sociedade como uma sociedade
de indivíduos – de um modo tão desprovido de objetivo quanto as estrelas que,
juntas, formam um sistema solar, ou sistemas solares que formam a Via-Láctea.
E essa existência não finalista dos indivíduos em sociedade é o material, o tecido
básico em que as pessoas entremeiam as imagens variáveis de seus
objetivos. (ELIAS, 1994, 18).

A Biblioteca da escola do Ensino Primário como objeto de exame do Decreto 3. 735,


como argumenta SIMMEL (2006), é um impulso a busca de finalidade (s) em um esforço à
encontros envidados ao longo do tempo como proposto por ELIAS (1994) por uma sociedade,
nesse caso a comunidade escolar da sociedade catarinense na consagração de um espaço de
leitura.
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Nessa linha de raciocínio a leitura desse documento tem como pressuposto norteador
que a Biblioteca da escola do Ensino Primário de meados do século XX, prescrita no estado
de Santa de Catarina é um espaço de sociabilidades inscrito como parte da cultura escolar
nesse tempo e nos diferentes lugares dessa escola.
A cultura escolar para fins desse estudo é entendida como “[...] o funcionamento
interno da escola com a análise das relações conflituosas ou pacíficas que essa cultura
mantém, a cada período de sua história, com um conjunto de culturas do seu tempo, seja a
religiosa, política ou popular.” proposto a partir de Julia (2001) em uma leitura de (Beirith,
2009, p. 19).

O Decreto No 3. 735 de 17 de dezembro de 1946, aponta para a constituição de uma


cultura escolar do Ensino Primário nos anos 40 do século XX. Para Beirith (2009, p. 25) ao
examinar o Decreto com o intuito de estudar o ensino da leitura nas Escolas Isoladas de
Florianópolis, assim se refere a esse documento institucional:

[...] é um texto emblemático para as pesquisas sobre o ensino primário no estado


de Santa Catarina. Tratar-se de um extenso e meticuloso documento composto
por 761 artigos, que dispõe sobre as bases de organização, a estruturas e os tipos
de estabelecimentos de ensino, período letivo, férias, regime de aula, critérios
para promoção de alunos, atribuições do corpo docente, administração,
disciplina e escrituração escolar, instituições complementares da escola, entre
outros itens.

Ampliando o entendimento esse Decreto foi publicado em 1946 no formato suplemento


do Diário Oficial do Estado de Santa Catarina é um documento composto de 146 páginas
com índice alfabético de assunto. O Decreto apresenta-se em 18 títulos – a saber:

Título I – Das bases da organização do ensino primário;

Título II - Da estrutura e dos tipos de estabelecimentos do ensino primário e da vida


escolar;

Título III - Da administração e organização do Ensino Primário;

Título IV – Das instituições complementares da escola;

Título V – Da construção e do aparelhamento escolar;

Título VI – Da gratuidade e obrigatoriedade do ensino primário;

Título VII – Das reuniões pedagógicas;

Título VIII – Dos relatórios;

Título IX – Planos de aula e comunidades;

Título X – Dos uniformes;

Título XI – Festas e comemorações;


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Título XII – Material escolar;

Título XIII – Dos recursos para o ensino primário;

Título XIV – Das mediadas auxiliares;

Título XV – Correspondência oficial;

Título XVI – Da prestação de contas da verba destinada à sopa escolar;

Título XVII – Disposições gerais;

Título XVIII – Disposições finais.

Da estrutura dos títulos, capítulos, seção artigos e incisos que aqui interessam ao
estudo dizem respeito ao Titulo IV – Das instituições complementares da escola, e
especificamente as instituição complementares escolares, a Biblioteca e os Clubes de
Leituras como espaços de sociabilidades engendrados no Decreto que regulamenta os
estabelecimentos de Ensino Primário de Santa Catarina.
Passaremos no item que segue a uma contextualização do Ensino Primário do tempo
passado lido da luz da janela do tempo presente.

1 O ENSINO PRIMÁRIO CATARINENSE NOS ANOS 40 DO SÉCULO XX

A primeira reforma do ensino público em Santa Catarina, foi promovida pelo


governador-coronel Vidal Ramos, sob o comando do professor Orestes Guimarães, que em
1910 assumiu o cargo de Inspetor Geral da Instrução Pública para modernizar a educação
pública catarinense.
A regulamentação do Ensino Primário tem suas raízes no Regulamento Geral da
Instrução Pública e no Regimento Interno dos Grupos Escolares, aprovado pelo Decreto No.
795/5/1914 (FIORI, 1999 citado por BEIRITH, 2009).
Passados mais de duas décadas outra importante mudança ocorreu, a Reforma de
1935, também conhecida como Reforma Trindade. Essa sincronizada com as reformas do
ensino público federal pautadas na Escola Nova, realizadas por Fernando de Azevedo (1927-
1930) e Anísio Teixeira (1931-1935), criou o Departamento de Educação de Santa Catarina e
nela as ditas subdiretorias, a saber: a Subdiretoria de Bibliotecas, Museus e Radiodifusão.
Pode-se afirmar que é nessa década de 30 do século XX que a Biblioteca Escolar no estado de
Santa Catarina passa a ser compromisso da agenda governamental. Para além disso a Reforma
Trindade, criou no Departamento de Educação uma nova categoria profissional na escola, o
cargo de Professora Bibliotecária e Professora Encarregada de bibliotecas escolares.
(MACHADO, 2002).
Entre 1942 a 1946 foram efetuadas as Reformas Capanema, mais precisamente em
1946 com a instituição das Leis Orgânicas Federais do Ensino Primário e do Ensino Normal,
reestruturando o ensino nacional. No estado de Santa Catarina a adequação à lei federal
efetuou-se pelo Decreto estadual N 298, de novembro de 1946 estabelecendo-se a Lei
Orgânica do Ensino Primário do Estado de Santa Catarina. Essa Reforma teve como
importante figura o professor e diretor do Departamento de Educação do Estado, o professor
Elpídio Barbosa, o qual liderou o processo, tanto que o “Regulamento para os
estabelecimentos de ensino primário no Estado de Santa Catarina”, de 17 de dezembro de
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1946 – Decreto N 3. 735, de 17 de dezembro de 1946, é também conhecida como Reforma


Elpídio Barbosa.
O ensino público em 1946 apresentava a seguinte estrutura: Ensino Primário, Ensino
Normal, Ensino Secundário, Ensino comercial, Ensino Profissional e Superior. O Ensino
Primário foco desse trabalho organizava-se em duas categorias de ensino:

I) Ensino Primário Fundamental, destinado a crianças de 7 a 12 anos,


ministrado em dois cursos sucessivos: O Curso Primário Elementar, de 4
anos, e o Curso Primário complementar, de 1 ano, podendo ser ampliado
para 2 anos onde se achasse conveniente a finalidade de intensificar e
ampliar a cultura primária. Ambos eram oferecidos nos Grupos Escolares.
O Primário elementar também poderia ser cursado em Escolas Isoladas e
Escolas Reunidas.
II) Ensino Primário Supletivo, destinado a adolescentes e adultos, ministrado
através de Escolas Supletivas e Classes de Alfabetização. (BEIRITH,
2009, p. 27).

De acordo com essa autora os estabelecimentos de ensino à época, observando-se o


número de alunos e professores responsáveis pelas unidades de ensino primário tinham a
seguinte denominação:

a) Escola Isolada (E.I) – só uma turma de aluno e um professor responsável;


b) Escolas Reunidas (E.R) – duas a quatro turmas de alunos, e numero de professores
correspondentes;
c) Grupo Escolar (G.E) – cinco ou mais turmas e numero de professores
correspondentes;
d) Escolas Supletivas (E.S) – qualquer que fosse o número de alunos e professores.
(BEIRITH, loc. cit).

Essa contextualização intenta ampliar o entendimento da Biblioteca da escola do


Ensino Primário como um espaço histórico de sociabilidade.

2 A BIBLIOTECA ESCOLAR DO ENSINO PRIMÁRIO COMO ESPAÇO DE


SOCIABILIDADES

A Biblioteca da escola do Ensino Primário no estado de Santa Catarina, passa a ser


objeto pedagógico e político da agenda governamental do Estado a partir da Reforma de
1935, pela Portaria N 04 de 13 de janeiro de 1937, aprovando às Instruções para organização
de Bibliotecas Escolares (MACHADO, 2002, p. 107.) No espírito da Escola Nova, a
biblioteca institucionalizada adquire um status de permanência nos documentos legais.
Em 1942, o Departamento de Educação reitera em seu Boletim a Portaria N 04 de 13
de janeiro de 1937, ao registrar que

[As bibliotecas] serão organizadas nos grupos escolares, nas escolas normais
primárias e institutos de educação, e nas escolas isoladas, tendo como objetivo
a intensificação do gosto pela leitura (art. 1º. Da port. N. 4, de 13/1/1937). O
acervo dessas bibliotecas deveria ser composto por ‘[...] livros sobre viagens,
ciências naturais (tanto quando possível sob a forma atrativa), biografias,
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poesias, obras didáticas, dicionários, revistas e jornais ilustrados e outros de


interesse educativo [...] (BRASIL, 1942, p. 28- 29).

A Reforma Elpídio Barbosa, implantada, pelo Decreto nº 3.735, em 1946, a partir da


orientação do Decreto Federal nº. 8.529, de 2 de janeiro desse mesmo ano define em nove
Capítulos as instituições complementares do Ensino Primário, e nele fica evidente a
permanência da Biblioteca e sua articulação com as outras instituição complementares, mas
especialmente com a instituição complementar do Clube de Leitura.

TÍTULO IV

Das instituições complementares da escola.

“[...] os estabelecimentos de ensino primário deverão promover entre os alunos, a


organização e o desenvolvimento de instituições que tenham por fim a prática de atividades
educativas; e assim, também, entre as famílias dos alunos [...] – A escola procurará oferecer
aos alunos oportunidade de exercer atitudes de sociabilidade, responsabilidade e cooperação,
pela organização de associações escolares [...].”(SANTA CATARINA, 1946. p. 65). No
enunciado referente às instituições complementares da escola, é perceptível a categoria de
sociabilidades atribuída as mesmas. Seguem os Capítulos que compõem esse Titulo do
Decreto.

Cap. I – Liga Pró-Língua Nacional;

Cap. II – Biblioteca;

Cap. III – Jornal Escolar;

Cap. IV – Clube Agrícola;

Cap. V – Círculo de Pais e Professores;

Cap. VI – Museus Escolares;

Cap.VII – Liga da Bondade;

Cap.VIII – Clube de Leitura

Cap. IX – Pelotão de Saúde (SANTA CATARINA, 1946. p. 65 – 108, passim).

No espelho das palavras de Simmel (2006), a sociabilidade prescrita nessas


instituições da escola primária nos idos anos 40 do século XX se fundamentavam na
finalidade de um grupo de indivíduos em busca de uma ação educativa não só para o
educando mas também intentava atingir os familiares desses alunos, isto é, um alcance à
sociedade local.
Para além dessa constatação, a sociação ou a sociabilidade nas entrelinhas é parte da
cultura escolar no modo e tempo da legislação que regulamenta o Ensino Primário de Santa
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Catarina em questão. A sociabilidade inscrita na Biblioteca da escola se constitui como cultura


escolar, isto é, como ensina Juliá (2001), normas de sociabilidades a ensinar e respectivas
condutas a inculcar, não só à comunidade escolar mas extensiva a sociedade local do seu
tempo e lugar
Essa instituição complementar de acordo com o Decreto tem como finalidade
promover ações que “[...] tenham reflexões no espírito das crianças, ou melhor, dos
educandos. (SANTA CATARINA, 1946, p. 69). Para tanto a sua organização será de
responsabilidade dos alunos bem como a manutenção física do seu acervo. Os freqüentadores
dessa Biblioteca deverão ser os alunos e nas zonas rurais o acesso deverá ser propiciado
também aos pais dos alunos.
O contexto apontado no texto do Decreto, não deixa dúvidas quanto as ações de
sociação estão imbuídas na Biblioteca como instituição complementar na condição de
essencial à formação do educando da escola primária em meados do século XX no estado de
Santa Catarina. A sociabilidade é traduzida ainda em outras prescrições destinadas ao
andamento da Biblioteca, quer na administração dessa instituição que estava sob a
responsabilidade dos alunos sob a orientação de professores e diretores. Também a
escrituração como parte da administração da Biblioteca não foi relegada, essa também era de
responsabilidade da diretoria eleita para gerir a biblioteca e deveria ser realizado por meio do
livro de Atas, Catálogo e o Livro Razão.
Na estrutura de escrita do Decreto, a Biblioteca, é a segunda instituição complementar
da escola e essa tem uma correlação direta com o Clube de Leitura, oitava instituição. A
posição na arquitetura do documento de certo modo pode mostrar o lugar dessa instituição
formadora da escola primária à época.
Assim, constata-se que a Biblioteca não é uma instituição complementar isolada em
suas ações e nesse sentido o Decreto dita a relação essencial entre a Biblioteca e o Clube de
Leitura. Do TÍTULO IV Capítulo VIII que descreve o Clube de Leitura se lê a finalidade do
Clube de Leitura como instituição complementar da escola – “Com intuito de desenvolver o
gôsto pela boa leitura, e, ao mesmo tempo, oferecer às crianças uma poderosa fonte para sua
cultura e desenvolvimento social, determinou o Departamento de Educação fossem criados os
Clubes de Leitura nos nossos estabelecimentos”. (SANTA CATARINA, 1946. p.101).
O Decreto esmiúça a finalidade dessa instituição complementar e reitera a condição
sine quo non com a Biblioteca ao afirmar – “Se a Biblioteca representa a parte material, o
Cluble de Leitura é, por assim dizer, a parte espiritual da associação”. (Idem, loc. cit.). Esse
excerto traduz um conceito de sociabilidade previamente estabelecido para a existência dessas
instituições bem como aponta práticas de sociabilidades a serem exercidas entre professores,
alunos e direção do estabelecimento de ensino na formulação às regras de criação,
organização e manutenção, os freqüentadores, e a administração do Clube.
Nesse sentido como ensina Simmel (2006), a sociabilidade se constitui em que cada
indivíduo inscrito em uma sociedade e esse deve satisfazer seu impulso ou finalidade de
sociabilidade a medida que for compatível com a satisfação do mesmo impulso nos outros.
Em outras palavras esse autor toma o princípio do direito em Kant – cada qual deve ter sua
medida de liberdade na coexistência com a liberdade do outro e assim melhor explica a
sociabilidade entre indivíduos em uma dada sociedade.
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CONSIDERAÇÕES PROVISÓRIAS

Sob um título instável para fechar esse texto, as considerações aqui não querem ser
conclusivas, mas convidativas ao leitor/a voltar-se a questão norteadora Quais os indícios de
sociabilidades existentes na prescrição da Biblioteca da escola, no Decreto No 3. 735 de 17
de dezembro de 1946, o qual regulamenta o Ensino Primário à época?
O exame do Decreto mostra que a Biblioteca da escola do Ensino Primário do estado
de Santa Catarina é parte integrante da História da Educação de Santa Catarina.
A Biblioteca Escolar no estado de Santa Catarina ganha seu status legal a partir da
Reforma Trindade sob a batuta dos ventos da Escola Nova.
Como um espaço de sociabilidades, a instituição de leitura e formativa, - a Biblioteca
do Ensino Primário é evidenciada no Decreto a partir do conceito de sociabilidade, isto é, uma
dada sociedade constitui essa categoria a partir do estabelecimento de finalidades. A
finalidade tanto da Biblioteca como do Clube de leitura se constitui na formação de um
educando/aluno social e cultural.
Acreditamos que o exame do documento “Regulamento para os estabelecimentos de
ensino primário no Estado de Santa Catarina”, de 17 de dezembro de 1946 – Decreto N 3.
735, de 17 de dezembro de 1946, ou a Reforma Elpídio Barbosa, a partir da perspectiva dos
estudos culturais significa inicialmente ler a Biblioteca escolar do lugar presente com vistas a
capturar “[...] gestos, lugares e modelos do trabalho do pensamento, como às dinâmicas da
tradição e a memória do saber. (BARATIN e JACOB, 2000, p. 9).
Do tempo presente acreditamos que podemos auscultar o tempo passado que toda
biblioteca, só é uma biblioteca com seus leitores, consulentes, freqüentadores ou como mais
recentemente vem se denominado, os utilizadores dos acervos bibliotecais. Que leitores já
fomos de acervos impressos? e como podemos nos espelhar para nos constituirmos em
leitores, utilizadores da Biblioteca Digital – a tão sonhada Biblioteca de Alexandria ou a
Babel de Jorge Luis Borges [...].
O documento aqui inquirido por outro lado aponta como é lenta e árdua a constituição
de uma cultura de biblioteca mesmo que se faça presente na legislação, em outras palavras a
existência cultural de bibliotecas é mais lenta no pensar e fazer do leitor/utilizador das
diferentes bibliotecas brasileiras como instituição de formativa social e cultural.
Do prescrito como parte da cultura escolar, nos idos anos 40 do século XX, a
Biblioteca Escolar na atualidade ainda é pouco presente na mentalidade da comunidade
escolar na ação das suas diferentes atividades do ensino.
Mas na contramão de um possível pessimismo, o Decreto N 3. 735, de 17 de
dezembro de 1946 mostra que esforços, foram e vem sendo sim, envidados, desde outras
gerações - que como nós apostam nesse equipamento cultural e social.
POR QUÊ e PARA QUÊ prôpor-se estudos sobre a história da biblioteca no Brasil?
Uma das tantas respostas possíveis. Conhecer e refletir-se gestos e modos para o tempo
presente.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

BARATIN, Marc; Jacob, Christian. (Dir.). O poder das bibliotecas: a memória dos livros no
Ocidente. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2000.

BRASIL. Ministério da Educação e Saúde. Organização ensino primário e normal. XVI estado de
Santa Catarina. Rio de Janeiro: Departamento de Educação do Estado de Santa Catarina, 1942.
(Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos, Boletim, 21).

BEIRITH, Ângela. O ensino da leitura em escolas isoladas de Florianópolis: entre o prescrito e o


ensinado. 11 f. 2009. Dissertação (Mestrado em Educação) – Programa de Pós – Graduação em
Educação, Centro de Ciências Humanas e da Educação, Universidade do Estado de Santa Catarina.
Florianópolis, 2009.

CATANI, D. B. ; CARPENTIER, C. Justiça, êxito e fracasso na escola: o impacto sobre os processos


de socialização e de construção das identidades profissionais dos professores: Brasil-França, 1950-
2005. São Paulo, 2005. (mimeo).

DARTON, Robert. O beijo de Lamourette: mídia, cultura e revolução. São Paulo: Companhia das
Letras, 1990.

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