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Psicose: estado da loucura


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O que vem à mente das pessoas quando tratamos do assunto psicose? De repente
responderiam: Loucura, Medo, Estranheza, Diferença, seja pelo impacto que a psicose
trás quando a um aspecto comportamental cisivo, ou por nossos mais arraigados pré-
conceitos sobre o tema.
Psicose pode ser entendida como uma desordem no sentido da perda da capacidade de
distinguir o real do imaginário, ou seja, quebra do senso da realidade, inadequação ao
mundo que o cerca, desorganização e desagregação com sintomas característicos de
primeira ordem: Delírio e as Alucinações como sugere Kurt Schneir (1887-1967).
Mas, para entender a psicose é preciso entender o aspecto evolutivo do termo, o
entendimento sobre vai variar entre culturas e visões filosóficas, o que vai dar ênfase
por fim, a discussão do que é normal, anormal, e invariavelmente do que é a loucura.
Abordou Esquirol (1772-1840) ser “a loucura a somatória de dois elementos: uma causa
predisponente, atrelada à personalidade, e uma causa excitante, fornecida pelo
ambiente”, o que não se difere muito da concepção psiquiátrica atual (BALLONE &
MOURA, 2008).
No decorrer da história humana nos deparamos com diversas facetas da mesma relação
psicótica [loucura]. Segundo Jacobina (2008) o conceito de loucura não é unívoco, por
tanto, para o mesmo faz necessário abstrair o conceito moderno da mesma, aja vista, as
mais diversas interpretações e interpelações dos mais diversos povos e culturas sobre os
estados de possessão, delírio, alucinação, ou mesmo das formatações sociais que hoje
seriam vistas por nós como abissais, bizarras, e /ou criminosas, ou não...
Erasmo de Rotterdam diria: “que mais poderia convir à Loucura do que ser o arauto do
próprio mérito e fazer ecoar por toda parte os seus próprios louvores? [...] Haverá,
talvez, quem reconheça melhor em mim o que eu mesma não reconheço?” este trecho
de declamação na obra “Elogio à Loucura” trás a tona a percepção “delirante” do
pensamento psicótico onde as idéias “desagregadas” tornam-se parte concisa do mundo
real, ou seja, diferente do pensamento neurótico onde se sugere uma distorção dos fatos
reais (readaptação), a psicose construirá novos processos lingüísticos para definir uma
realidade alternativa à própria estrutura de personalidade do sujeito em sofrimento.
E dessa particularidade de Rotterdam o questionamento: o que é normal? O pensamento
delirante é realmente delírio, anormalidade? Quem delira sou eu ou o paciente em
psicose? Afinal, o discurso do louco é questionado em comparação ao discurso social
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pré-determinado? Esse determinismo na conduta e ordem social é que define realmente


o quadro clinicamente anormal? Estaria certo Freud quando sugeriu que existia uma
verdade na loucura, a verdade do sujeito?
Gangora (2003) cita que a sociedade espera que as pessoas ajam de determinada forma,
contudo, aprendemos a chamar de normal, criam-se estatísticas, tabulam-se a média
através da freqüência e ocorrência de fatos, contudo, o que sair desta média determina-
se anormal; esta visão de mundo é uma perspectiva de contingências (regras) de
comportamento segundo a teoria de Skinner.
A psicologia trás outras vertentes explicativas para a ordem psicopatológica como a
psicopatologia descritiva, dinâmica, médica, existencial, categorial, dimensional,
biológica, sociocultural, operacional, fundamental, e psicanalítica, as quais já antes de
qualquer análise já se encontram arraigadas à dúvida ou pelo menos a incerteza já que
divergem.
E diante a incerteza podemos discorrer sobre o pensar na doença, em medicina, a
explicação para, ou a própria existência de um quadro patológico (páthos, doença, e
lógos, estudo), se dá pela análise etiológica, fisiopatogênica, sintomatológica, a
doença, seu tratamento, e seu prognóstico; na psicose, a etiologia e o fator
fisiopatogênico não existem, ou não existem dados disponíveis para identificá-los,
contudo, trabalhamos limitadamente com a sintomatologia e a doença (Transtorno
Mental), para darmos ação ao tratamento e prognóstico para o mesmo. A análise se dá
por meios subjetivos que serão captados pelas entrevistas, contudo, a história pregressa
do individuo (narrativa do paciente) e objetivos por ordem da descrição e classificação
das Doenças Mentais – DSM-IV, CID-10, Compêndios, Manuais, Tratados, etc.
(observações do agente de saúde mental).
Neste aspecto como caracterizar a psicose? Para Gadelha e Bressan (2009, p. 6) “a
psicose seria um pensamento (delírio) ou uma percepção (alucinação) que foge a
compreensão habitual”, o sujeito em estado psicótico vive entre o real (concretismo) e o
irreal (ilusório), ou numa percepção ou juízo errôneo de um significado anormal no
sentido da auto-referência como tornou usual Jaspers. A psicose então transita entre o
discurso e a criação, como caracterizado na arte de Van Gogh como a mais famosa
entre os casos de artistas com desordens mentais. Fuchs (2007, p.34) assinala que a
idéia de criatividade na loucura surgiu já na Grécia antiga como vista nos diálogos entre
Platão e Fedro “ora, toda grandeza se dá no âmbito da loucura”, o que segundo o mesmo
autor fora observado séculos depois pelo médico Benjamim Rush (1745-1813)
“mediante uma exaltação sobrenatural, a poção do cérebro livre da manifestação atinge
um patamar de consciência capaz de revelar dons até então ocultos”.
Só que a perda do juízo da realidade fomenta sofrimento, tormento, e angústia
(sinônimos), pode acarretar conseqüências mais trágicas e menos belas que a arte pode
traduzir. Contudo, sugerem-se fenômenos que vão de atos de impulsividade e violência,
ao isolamento, perda da capacidade afetiva, volitiva, e imposição à exclusão.
Todos temos as mesmas áreas de registros mnêmicos: mente, corpo, ambiente físico, e
pessoa, como sugere Soeiro (1995), mas, se pensarmos na psicose, toda a capacidade de
registro mnêmico fica comprometida, representada aqui por meio de uma síndrome
deficitária, muito representativa no modelo mais famoso e comum de psicose: a
esquizofrenia.
Aliás, fora da Esquizofrenia que surgiu o dogmatismo da loucura como a concebemos
hoje, como pode ser revisto na História da Loucura de Michel Foucault como sugerido
por Sterian (2001, p. 35). A Esquizofrenia foi considerada um desvio do ideal de
sociabilidade, abandonando-se um status patológico para um mal da alma humana
(alienação), até chegar à contemporaneidade quanto à classificação nosográfica proposta
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por Kraepelin (1890- 1907) ‘dementia precox’, uma espécie de loucura que ia de uma
evolução progressiva a um estado de debilitamento psíquico, e pelos distúrbios
profundos da afetividade (indiferença, apatia, sentimentos paradoxais), afinal, o termo
Esquizofrenia vem do grego “skhizen”, fender, rasgar, dividir, separar, como “phrên”,
“phrênos”, que significa pensamento, termo cunhado por Bleuler em 1906. (Op. Cit., p.
39 - 41)
Essa resenha não se trata em abrir um leque de informações acerca de sintomas e
tratamentos, mas em fazer um discurso subjetivo sobre a loucura, pensar no processo
fenomenológico envolvido na constituição da psicose, levar o leitor a refletir sobre
normas e anormalidades, sobre o ser humano, sobre o fato social.
Não somos somente uma unidade biológica, nem separadamente psicológica e nem tão
pouco isoladamente social, somos a soma de todas as variáveis possíveis, a idéia foi
fender o pensamento de quem ler tal texto, para buscar a crítica, por que não, instigar a
curiosidade, levá-los a se auto-avaliar mediante os pré-conceitos: o que vem a sua
mente quando tratamos do assunto psicose neste momento?

Referências

BALLONE, G. J.; MOURA, E.C. (2008). Alucinação e Delírio. In: PsiqWeb, Internet
www.psiqweb.med.br, acesso em 29 de Dez. de 2010.

DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. 2ª ed.


Porto Alegre – RS: Artmed, 2008.

FUCHS, Thomas. Artes da Loucura. Revista Mente e Cérebro, ano XV, nº 177.
Pinheiros - São Paulo: Duetto editorial Ltda, 2007.

GADELHA, A.; BRESSAN, Rodrigo A. Frente a frente com a informação. Revista


Psique: ciência e vida, ano IV, nº 41. São Paulo: Ed. Escala, 2009.

GANGORA, M.A.N. Noção de psicopatologia em Análise do Comportamento. In:


COSTA, C.E; LUZIA, J.C; SANT’ANA, H.H.N (org). Primeiros Passos em Análise
do Comportamento e cognição. São Paulo: Esetec, 2003.

JACOBINA, Paulo Vasconcelos. Direito penal da loucura e reforma psiquiátrica.


Brasília: ESMPU, 2008.

ROTTERDAM, E. de (1466-1536). Elogio da Loucura. São Paulo, Atena ed., s/d.


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SOEIRO, Alfredo Correia, 1937- Psicodrama e psicoterapia. 2ª ed. São Paulo: Ágora,
1995.

STERIAN, Alexandra. Esquizofrenia. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2001.

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Qual a diferença entre Neurose e Psicose?

Os termos neurose e psicose são ambos usados para descrever as condições ou doenças que
afetam a saúde mental. No entanto, as condições possuem diferenças importantes,
especialmente quando à gravidade de cada uma.

Um distúrbio neurótico pode ser qualquer desequilíbrio mental que causa ou resulta em
angústia. Em geral, as condições neuróticas não prejudicam ou interferem com as funções
normais do dia a dia, porém criar sintomas comuns de depressão, ansiedade ou stress. Embora
cause tensão, não interfere com o pensamento racional ou com a capacidade funcional da
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pessoa. Acredita-se que a maioria das pessoas sofre de algum tipo de neurose como uma parte
da natureza humana.

As neuroses são fruto de tentativas ineficazes de lidar com conflitos e traumas inconscientes.
O que distingue a neurose da normalidade é assim a intensidade do comportamento e a
incapacidade do doente de resolver os conflitos internos e externos de maneira satisfatória.
Algumas pessoas sofrem sintomas mais graves de neurose do que outras, e algumas formas de
neurose são mais acentuadas, como transtorno obsessivo-compulsivo. No entanto, a neurose
não é tão grave como psicose.

Psicose, ou uma desordem psicótica refere-se a qualquer estado mental que prejudica o
pensamento, percepção e julgamento. Episódios psicóticos podem afetar uma pessoa com ou
sem uma doença mental. A pessoa que experimenta um episódio psicótico pode ter diversos
sintomas, como alucinações, paranoia, e até experimentar uma mudança na personalidade.

De um modo geral, o estado psicótico não é permanente. O comportamento psicótico se


difere do comportamento psicopata, e episódios psicóticos raramente envolvem a violência
associada como o comportamento psicopático. Além disso, psicose também não é o mesmo
que insanidade, que é descrição tanto médica, quanto legal para uma pessoa que não pode ser
responsabilizada por seus atos.

Em essência, a principal diferença entre neurose e psicose é a forma em que elas afetam a
saúde mental. O comportamento neurótico pode estar naturalmente presente em qualquer
pessoa, ligado a uma personalidade desenvolvida. O comportamento psicótico pode ir e vir
como resultado de várias influências. Os efeitos de alguns medicamentos podem causar
episódios psicóticos, ou uma situação traumática que afeta o bem-estar psicológico de uma
pessoa podendo desencadear o episódio. A distinção entre as condições ou distúrbios
neuróticos e psicóticos é realizada através de uma avaliação por um psiquiatra ou psicólogo,
que pode tratar os sintomas com medicação ou terapia.

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Psicose e Psicopatia

A confusão na distinção entre os comportamentos na psicopatia e os comportamentos nos


surtos psicóticos são erros frequentes, não estando limitados ao conhecimento popular. Não é
raro os próprios psicólogos e profissionais de saúde confundirem a psicopatia com o surto
psicótico.

Esse erro seria semelhante a confundir um golfinho com um peixe, na Biologia, ou uma aranha
com um inseto. Parece, mas não é. A distinção deveria ser elementar para os profissionais da
saúde mental, mas, frequentemente, são as generalizações e o senso comum que dominam as
matérias jornalísticas.

Os jornais, a literatura, a televisão e o cinema são os principais difusores do conhecimento


popular sobre tramas e assassinatos associados aos psicopatas. Embora a própria história
forense registre os crimes insolúveis de “Jack. O Estripador”, é a literatura e o jornalismo que
roteirizaram e deram tom emocional, transformando esses acontecimentos em um produto
para as massas. E é, justamente, nesta transição dos fatos para a ficção que as distorções
acontecem em nome da arte.

Porém, a psicopatia e a psicose são dois transtornos mentais diferentes e com delimitações
bem distintas. Quando estão relacionadas aos crimes, as doenças mentais não tratadas
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representam fator de risco, mas apenas 1% das pessoas acometidas por psicopatia chega a
cometer crimes contra a vida.

Por outro lado, cerca de 75% da população carcerária, nos USA, foi diagnosticada com algum
grau de psicopatia. O que significa que parte desse 1% de psicopatas que cometem crimes
acaba indo parar nas cadeias, enquanto outros 99% permanecem fora delas.

Agora, vamos diferenciar a psicopatia da psicose.

Para isso, preparei um vídeo com duas matérias policiais para ilustrar as diferenças entre os
dois transtornos:

O primeiro vídeo, mostra o comportamento de um psicopata que matou uma mulher e


realizou canibalismo;

O segundo, é o depoimento de um caseiro que, em surto psicótico, matou os patrões ao


confundi-los com demônios.

Os crimes praticados pelos psicopatas nos chocam, principalmente, pela frieza emocional do
ato executado e a naturalidade do acusado ao descrever o crime.

A psicopatia também é conhecida por Sociopatia, ou Transtorno de Personalidade Anti-Social.


Um transtorno classificado no Eixo das Neuroses, ou seja, não é Psicose. Embora o termo se
refira a “personalidade anti-social”, a maioria dos psicopatas é de pessoas bem sociais, ligadas
à política, ou a direção de empresas, visando cargos de poder.

A principal característica da psicopatia é a indiferença afetiva, ou insensibilidade moral. A


pessoa com psicopatia pode ter as demais funções psíquicas normais, principalmente a senso
percepção. O psicopata é destituído de compaixão afetiva, de vergonha, de remorso, ou seja,
não é tocado pela emoção de dó, pena, ou empatia para com o outro.

As pessoas com psicopatia têm níveis de ansiedade mais baixo do que a média. Em situações
que uma pessoa normal estaria tremendo e demonstrando sinal não verbais de ansiedade,
elas se mantêm frias, talvez daí venha a expressão “cara de pau”*. Como em muitas empresas
valorizam a frieza emocional, o termo ”sociopata” foi criado para fazer referência aos
psicopatas que se destacam no ambiente corporativo.
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Portanto, o psicopata não tem motivação delirante, quando ele mata, o faz por banalidade,
por que foi contrariado, ou porque teve uma impulsividade, porém, ele sabe que está
cometendo um crime. O seu raciocínio e o juízo da realidade se mantêm inalterados. Alguns
são até muito inteligentes e sedutores, usando essas habilidades para manipular as pessoas
em benefício próprio. Lembra-se, apenas 1% dos psicopatas pratica crime de morte.

O comportamento no surto psicótico

No segundo caso, vimos o depoimento do caseiro, após matar seus patrões acreditando que
eles eram demônios. O caseiro estava convicto de ter realizado uma boa ação, eliminando uma
entidade sobrenatural, e não sobre um humano.

Neste caso, se destaca a manifestação do delírio paranóide, enfatizando o comprometimento


na sensopercepção (presença de ilusões, alucinações), e no pensamento (delírios). Esta “fuga
da realidade” é um dos critérios para se classificar a doença como uma surto psicótico. O
termo “surto” refere-se ao fator temporal, depois de um tempo, ele volta a ter noção da
realidade. É para isso que serve a medicação e o tratamento psicológico, para ampliar esse
período de contato com a realidade.

A psicose é o termo usado para designar transtornos mentais no qual a pessoa é acometida
por surtos delirantes, paranóicos e alucinatórios. O caseiro mostrava sinais de surto delirante.
Estava evidente uma série de alterações das funções psíquicas, como a sensopercepção, ele
dizia ouvir vozes (alucinações auditivas) com conteúdo persecutório (vozes que o ameaçam e o
incitam a ação), a linguagem e raciocínio pobres e emoções e afeto inadequados.
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Na lógica do delírio, o psicótico age buscando fazer a “coisa certa”, nesse específico, a coisa
certa seria eliminar o mal sob a forma de demônio. Provavelmente essa pessoa com sérios
transtornos mentais pode ter sido instruída por figuras religiosas a “eliminar demônios”.
Assim, o psicótico estaria agindo com “boa fé”, caso a realidade vivenciada por ele fosse a
realidade consensual.

Portanto, o psicótico “age certo” mas vivenciando uma realidade alucinatória doentia,
enquanto o psicopata “age errado” vivenciando a realidade de uma pessoal normal, porém fria
e perversa.

Quando esses casos são levados ao âmbito judicial, o psicótico pode ter a pena reduzida, ou
ser inocentado por ser considerado “insano”, ou seja, uma pessoa que não estava com
capacidade de pensar racionalmente (Como no caso do jovem que matou o cartunista,
Glauco). Já o psicopata, é julgado como uma pessoa imputável, ou seja, responsável pelos os
seus atos (ex.: caso do Maníaco do Parque).

OBS.: O assassino do cartunista foi, posteriormente, revertido para imputável. No primeiro


momento, ele foi erroneamente considerado psicótico e inimputável. Porém, após ser solto e
matar outra pessoa em um assalto premeditado, foi novamente preso, teve o caso revisto, e,
dessa vez, foi considerado psicopata, e não mais psicótico. As vezes, é difícil se traçar o correto
diagnóstico sem acesso aos comportamentos prévios e a devida evolução do caso. Haja vista
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que o psicopata pode, ou por simulação, ou por efeito de drogas, parecer estar em surto
psicótico para induzir ao erro e ser considerado inimputável. O que aparentemente aconteceu
no Caso Glauco.

Psicopata e psicótico, ao mesmo tempo, é possível?

Para a Psicopatologia, a resposta é um contundente: não!

Uma pessoa em surto delirante pode demonstrar inadequação afetiva (embotamento), sendo
essa uma disfunção entre os sentimentos e os pensamentos. Tal fato, altera qualitativamente
a afetividade, e isso pode conduzir ao erro de identificação.

A “loucura” do psicótico em surto é visível pelo delírio do seu discurso, já a “loucura” do


psicopata pode ser identificada pela prática de atos frios, desumanos e perversos, sem que
haja abalo emocional. Podemos dizer que psicótico é genuíno no que sente e vivencia. Já o
psicopata pode mentir e se passar por insano, justamente, por saber que isso pode diminuir
sua pena.

Como o psicopata pode se fingir de esquizofrênico para escapar da punição, o diagnóstico não
deve ser feito avaliando-se apenas o ato isoladamente. Há que se levar em consideração todo
o histórico social da pessoa analisada. Essa avaliação demanda tempo. A pressão pelo
diagnóstico rápido pode comprometer essa avaliação.

* Cara de pau – A capacidade de contar mentiras, justificar práticas erradas, mantendo sempre
no rosto uma expressão tranquila, normal, neutra. Cara de madeira, cara dura, cara deslavada,
cara lisa, descarado, cínico, sem-vergonha, safado, mentiroso, mau-caráter, sem escrúpulos,
político, calhorda, etc. “Esses políticos são caras de pau mesmo, mentem na maior cara de pau
pro povo!” Dicionário Informal.

Bibliografia

PAIM, Isaías. Curso de Psicopatologia. 11 ed revisada. Ed. EPU, 1993.

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Qual é a diferença entre ser "louco" e tendo um


transtorno mental? Como depressão ou ansiedade?
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Insanidade é tratável, mas não curável e tira qualquer forma de julgamento e/ou moral ou
ética que a pessoa pode ter outra forma.

Pessoas com ADD, TDAH, TOC, BDD, depressão e paranóia ainda tem um grande controle
sobre suas faculdades e acórdão, moralidade, etc.. Suas mentes podem ser afetadas por suas
condições, mas ainda mantêm um grande controle sobre si mesmos.

Condições como transtorno de personalidade anti-social, transtorno de personalidade


múltipla, etc. são consideradas "insanities" porque há muito pouco controle lá. Pessoas com
transtorno de personalidade anti-social absolutamente não têm senso de moralidade, por
exemplo. Por isso, suas decisões se baseiam puramente o que iria entreter ou divertir ou
beneficiá-los, e outras pessoas ou animais são considerados sem importância. Não existe cura
para o transtorno de personalidade anti-social, e também não existe um tratamento. Essas
pessoas são praticamente incapazes de imaginar que qualquer outra pessoa ou animal pode
ser digno de consideração e, portanto, seu julgamento praticamente desapareceu. (Um dos
maiores sinais do transtorno de personalidade anti-social, por exemplo, é o gozo de infância de
mutilação animal).

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Psicose é um quadro psicopatológico clássico, reconhecido pela psiquiatria, pela psicologia


clínica e pela psicanálise como um estado psíquico no qual se verifica certa "perda de contato
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com a realidade", sendo esta entendida como séries de saberes, constructos e símbolos
compartilhados e validados socialmente. Nos períodos de crises mais intensas podem ocorrer
(variando de caso a caso) alucinações ou delírios, desorganização psíquica que inclua
pensamento desorganizado e/ou paranoide, acentuada inquietude psicomotora, sensações de
angústia intensa e opressão, e insônia severa. Tal é frequentemente acompanhado por uma
falta de "crítica" ou de "insight" que se traduz numa incapacidade de reconhecer o carácter
estranho ou bizarro do comportamento. Desta forma surgem também, nos momentos de
crise, dificuldades de interacção social e em cumprir normalmente as atividades de vida diária.

Uma grande variedade de estressores do sistema nervoso, tanto orgânicos como funcionais,
podem causar uma reação sintomatológica, semelhante, porém não igual, a estrutura
psicótica. Muitos indivíduos têm experiências fora do comum ou mesmo relacionadas com
uma distorção da realidade em alguma altura da vida, sofrendo grandes consequências
biopsicossociais. Como tal, alguns autores afirmam que não se pode separar a psicose da
consciência normal, mas deve-se encará-la como fazendo parte de um continuum de
consciência.

Para o psicodiagnóstico são feitas observações clínicas que incluem a anamnese, a história de
vida do sujeito, seu quadro psicológico e de doenças. A depender do caso, pode-se chegar a
meses para um quadro correto. O diagnóstico é feito com base na psicopatologia clínica e
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teórica. Dois guias de classificação diagnóstica internacionais podem ser usados como
referência, principalmente epidemiológica: o Diagnostic and Statistical Manual of Mental
Disorders (o atual é o DSM-IV), e a CID-10, a Classificação Internacional de Doenças. Na CID-10,
adotada no Brasil como classificação de referência, as psicoses se encontram classificadas nas
siglas F.20 a F.29; F.30, F.31, F.32.2 e F.32.3.

Características

Sobre as principais características clínicas das psicoses, pode-se afirmar:

são psicologicamente incompreensíveis (segundo Jaspers);

apresentam vivências bizarras, como delírios, alucinações, alterações da consciência do eu;

não existem alterações primárias na esfera cognitiva. Memória e nível de consciência não
estão prejudicados, se isto acontece é devido a outras alterações clínicas (delirium), bem como
devido a substâncias psicoativas.

Interpretação psicanalítica

Na psicanálise, a psicose corresponde a um funcionamento psíquico que obedece a um


princípio de rejeição primordial, que corresponde ao termo alemão Verwerfung. A rejeição
primordial consiste na expulsão de idéias ou pensamentos próprios, os quais passam a ser
tratados como estranhos ou não acontecidos. Como um efeito dessa rejeição, pode ocorrer a
cisão do eu em duas partes, uma que é reconhecida e outra que não é reconhecida como
própria. Essa cisão caracteriza a Esquizofrenia. Quando ocorre que os pensamentos não
reconhecidos como próprios são localizados em outras pessoas, através da projeção,
caracteriza-se a psicose como paranoia.

Apesar de Freud ter introduzido essas noções de cisão e projeção, considera-se que a psicose
gerou dificuldades teóricas para Freud, mas não para Lacan. Se o primeiro demonstrou-se
hesitante em enquadrá-la teoricamente, concentrando-se na neurose, Lacan, tomando-a
constantemente em suas conferências, associou a Verwerfung à foraclusão (ou forclusão) do
nome-do-pai.

Definições
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As definições de psicose em geral descrevem as classes de eventos que configuram sua


natureza ou essência, apontam-lhe as causas e variações. Assim, haverá importantes
distinções quanto ao conceito; caso venha a ser formulado no campo das Ciências da Saúde
terão diferentes conotações das formuladas no campo Religioso, Poético ou das Ciências
Humanas.

Michel Foucault em seu texto A história da Loucura aponta que a loucura (posteriormente
chamada de psicose) poderia ser entendida como uma aberração da conduta em relação aos
padrões ou valores dominantes numa certa sociedade; neste sentido, entender a psicose é
também buscar entender quais os padrões dominantes e quais as reações do grupo social à
tais condutas estranhas e aos seus agentes.

Psicose e religião

No Japão em uma área pouco religiosa, aproximadamente de 7 à 11% dos delírios tinham
conteúdo religioso, geralmente associado com perseguição e culpa. Já nos Estados Unidos esse
índice foi de 25% e 40% sendo comum também em transtorno bipolar. Na Europa a
prevalência foi de 21%, sendo de 24% na Inglaterra. Na Índia, dos 31 visitantes de um templo
conhecido como tendo poderes curativos sobre doenças mentais, 23 foram identificados com
esquizofrenia paranóide e 6 com transtorno delirante. No Brasil os índices estão entre 15% e
33%. Os delírios religiosos costumavam ser mais incapacitantes, mais frequentes, mais graves,
mais bizarros e necessitavam de mais medicamentos.

Pacientes que relataram estar curados através de religião tiveram maior frequência de recaída
que os outros pacientes. Pacientes que passaram por exorcismo ou feitiçaria retornaram com
quatro vezes mais frequência.

Pierre (2001) defende que, para que as crenças ou as experiências religiosas sejam patológicas,
elas precisam causar prejuízos significativos a própria pessoa ou a outros. Se o desempenho
social ou funcional não for prejudicado, então a crença ou experiência religiosa não é
considerada patológica. É possível até que a religião ajude como coping focalizado na emoção,
ou seja, ajudando a lidar com os fatores emocionais de um evento estressante.

Referências

http://apps.who.int/classifications/apps/icd/icd10online/

Freud, S. (1923) Neurose e psicose. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas
completas de Sigmund Freud. (1996). Rio de Janeiro. Imago. vol.19 p.189-193.
17

Kaufmann, P. (1996) Delírio In: Dicionário Enciclopédico de Psicanálise: o legado de Freud e


Lacan, pp.111-112. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Dalgalarrondo, P (2000). Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. Porto Alegre:


Artmed.

American Psychiatric Association (2003). DSM-IV-TR: Manual Diagnóstico Estatístico de


Transtornos Mentais. Porto Alegre: Artes Médicas.

CID-10. OMS. (1993). Classificação Internacional das Doenças, décima edição revisada. Porto
Alegre: Artes Médicas.

Freud, S. (1911). Notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de paranóia


(dementia paranoides). Em Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud.
(v. XII) (1996) Rio de Janeiro: Imago.

Lacan, J. (1998). De uma questão preliminar a todo o tratamento da psicose. In Escritos. pp.
537-590. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

KOENIG, Harold G.. Religião, espiritualidade e transtornos psicóticos. Rev. psiquiatr. clín.
[online]. 2007, vol.34, suppl.1 [cited 2010-09-13], pp. 95-104. Available from:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-
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60832007000700013.

Salib, E.; Youakim, S. - Spiritual healing in elderly psychiatric patients: a case control study in an
Egyptian psychiatric hospital. Aging & Mental Health 5(4): 366-370, 2001.

Pierre, J.M. - Faith or delusion: at the crossroads of religion and psychosis. Journal of
Psychiatric Practice 7(3):163-172, 2001.

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Esquizofrenia
Esquizofrenia é uma perturbação mental caracterizada por comportamento social fora do
normal e incapacidade de distinguir o que é ou não real. Entre os sintomas mais comuns estão
delírios, pensamento confuso ou pouco claro, alucinações auditivas, diminuição da interação
social e da expressão de emoções e falta de motivação. As pessoas com esquizofrenia
apresentam muitas vezes outros problemas de saúde mental, como distúrbios de ansiedade,
depressão ou distúrbios relacionados com o consumo de substâncias nocivas. Os sintomas
geralmente manifestam-se de forma gradual, desde o início da idade adulta, e permanecem
durante um longo período de tempo.

As causas da esquizofrenia incluem fatores ambientais e genéticos. Entre os possíveis fatores


ambientais estão o crescimento em ambientes urbanos, o consumo de cannabis, determinadas
infeções, a idade dos pais e má nutrição durante a gravidez. Entre os fatores genéticos estão
uma série de variantes genéticas comuns e raras. O diagnóstico tem por base a observação do
comportamento da pessoa, a descrição que faz das experiências pessoais e o seu contexto
cultural. À data de 2013 ainda não existia um teste específico. A esquizofrenia não implica ter
"personalidade dupla" ou várias personalidades, condições com as quais é confundida na
perceção do público em geral.

O tratamento comum consiste em medicamentos antipsicóticos a par de aconselhamento,


formação profissional e reabilitação social. Não é ainda claro se são mais eficazes
antipsicóticos típicos ou atípicos. Em pessoas que não mostram sinais de melhora com outros
antipsicóticos pode ser usada clozapina. Nos casos mais graves, em que existe risco para a
própria pessoa ou para os outros, pode ser necessário recorrer a internamento hospitalar
involuntário, embora atualmente os internamentos sejam mais curtos e menos frequentes em
relação ao passado.

A esquizofrenia afeta entre 0,3 e 0,7% da população mundial em determinado momento da


vida. Estima-se que em 2013 tenha havido 23,6 milhões de casos em todo o mundo. A doença
é mais comum entre homens do que em mulheres. Cerca de 20% das pessoas apresentam
melhorias e algumas recuperam por completo. É comum que a esquizofrenia seja
acompanhada por problemas sociais, como desemprego de longa duração, pobreza e viver na
condição de sem-abrigo. A esperança de vida média das pessoas com a doença é de 10 a 25
anos mais curta do que a média. Isto é resultado da acentuação dos problemas de saúde
físicos e de uma maior taxa de suicídio (cerca de 5%). Estima-se que em 2015 tenham morrido
17 000 pessoas de comportamentos relacionados com, ou causados por esquizofrenia.

Sinais e sintomas
19

A esquizofrenia caracteriza-se essencialmente por uma fragmentação da estrutura básica dos


processos de pensamento, acompanhada pela dificuldade em estabelecer a distinção entre
experiências internas e externas. Embora primariamente uma doença orgânica
neuropsiquiátrica que afeta os processos cognitivos, seus efeitos repercutem também no
comportamento e nas emoções.

Os sintomas da esquizofrenia podem variar de pessoa para pessoa, podendo aparecer de


forma insidiosa e gradual ou, pelo contrário, manifestar-se de forma explosiva e instantânea.
Podem ser divididos em duas grandes categorias: sintomas positivos e negativos.

Sintomas positivos

Os sintomas positivos estão presentes com maior visibilidade na fase aguda da doença e são as
perturbações mentais "muito fora" do normal, como que "acrescentadas" às funções psíquico-
orgânicas da pessoa. Entende-se como sintomas positivos

delírios (ideias delirantes, pensamentos irreais, "ideias individuais do paciente que não são
partilhadas por um grande grupo", como, por exemplo, um indivíduo que acha que está a ser
perseguido pela polícia secreta e acha que é o responsável pelas guerras do mundo);

alucinações, percepções irreais de audição, visão, paladar, olfato ou tacto, sendo mais
frequentes as alucinações auditivas e visuais;

pensamento e discurso desorganizado (confusão mental), elaboração de frases sem


qualquer sentido ou invenção de palavras;

alterações visíveis do comportamento, ansiedade excessiva, impulsos ou agressividade


constante na fase de crise.

Sintomas negativos

Os sintomas negativos são o resultado da perda ou diminuição das capacidades mentais,


"acompanham a evolução da doença e refletem um estado deficitário ao nível da motivação,
das emoções, do discurso, do pensamento e das relações interpessoais (não confundir com
esquizoidia",) como a falta de vontade ou de iniciativa; isolamento social (não confundir com a
esquizoidia); apatia; indiferença emocional total e não transitória; pobreza do pensamento".

Estes sinais não se manifestam todos da mesma forma, na pessoa esquizofrênica. Algumas
pessoas vêem-se mais afetadas do que outras, ao ponto de muitas vezes impossibilitar-lhes
uma vida normal. No entanto, alguns sintomas podem oscilar, aparecer e desaparecer em
ciclos de recidivas e remissões.
20

"Não há, contudo, sinais nem sintomas patognomônicos da doença, podendo-se de alguma
forma fazer referência a um quadro prodrómico que são em grande parte sintomas negativos,
como, por exemplo, inversão do ciclo de sono, isolamento, perda de interesse por atividades
anteriormente agradáveis, apatia, descuido com a higiene pessoal, ideias bizarras,
comportamentos poucos habituais, dificuldades escolares e profissionais, entre outras.
Posteriormente a esta fase inicial, surgem os sintomas positivos".

"Diz-se que os primeiros sinais e sintomas de esquizofrenia são insidiosos. O primeiro


sintoma de sossego/calma e afastamento, visível num adolescente, normalmente passa
despercebido como tal, pois se remete o facto para "é uma fase". Pode inclusivamente ser um
enfermeiro de saúde escolar ou um conselheiro a começar a notar estas mudanças. (…) É
importante dizer-se que é muito fácil interpretar incorretamente estes comportamentos,
associando-os à idade.".

Causas

Não existe uma causa única para o desencadear deste transtorno. Assim como o prognóstico é
incerto para muitos quadros, a etiologia das psicoses, principalmente da esquizofrenia, é
incerta, ou melhor, de causação multifatorial. Admite-se hoje que várias causas concorrem
entre si para o aparecimento, como: quadro psicológico; o ambiente; histórico familiar da
doença e de outros transtornos mentais; e mais recentemente, tem-se admitido a
possibilidade de uso de substâncias psicoativas poderem ser responsáveis pelo
desencadeamento de surtos e afloração de quadros psicóticos, embora não possamos afirmar
que as substâncias psicoativas causem esquizofrenia.

A esquizofrenia afeta tanto homens quanto mulheres. Ela geralmente começa na adolescência
ou na fase adulta jovem, mas pode começar em idade mais avançada. Nas mulheres, a
esquizofrenia tende a começar mais tarde e ser mais branda.

Teoria genética

A teoria genética admite que genes podem estar envolvidos, contribuindo juntamente com os
fatores ambientais para o desencadear do transtorno. Sabe-se que a probabilidade de um
indivíduo vir a sofrer de esquizofrenia aumenta, se houver um caso desta doença na família.
"No caso de um dos pais sofrer de esquizofrenia, a prevalência da doença nos descendentes
diretos é de 12%. É o caso do matemático norte-americano John Nash, que divide com o filho,
John Charles Martin, a mesma doença. Na situação em que ambos os pais se encontram
atingidos pela doença, esse valor sobe para 40%". No entanto, mesmo na ausência de história
familiar, a doença pode ainda ocorrer.". Segundo Gottesman (1991), referenciado por Pedro
Afonso (2002), sabe-se que cerca de 81% dos doentes de esquizofrenia não têm qualquer
familiar em primeiro grau atingido pela doença e cerca de 91% não têm sequer um familiar
afetado. Portanto, a causalidade genética ainda não é comprovada, e as pesquisas têm
21

demonstrado discrepâncias muito grandes quando se trata de investigar a predisposição para


a doença.

Outro argumento importante é que a concordância em gêmeos monozigóticos (48%) é


significativamente maior do que a encontrada em gêmeos dizigóticos (17%). Os estudos
indicam a presença de múltiplos genes responsáveis pela esquizofrenia e suas variações.

Teoria neurobiológica

As teorias neurobiológicas defendem que a esquizofrenia é essencialmente causada por


alterações bioquímicas e estruturais do cérebro, em especial com uma disfunção
dopaminérgica, embora alterações em outros neurotransmissores estejam também
envolvidas. A maioria dos neurolépticos (antipsicóticos) atua precisamente nos receptores da
dopamina no cérebro, reduzindo a produção endógena deste neurotransmissor. Exatamente
por isso, alguns sintomas característicos da esquizofrenia podem ser desencadeados por
fármacos que aumentam a atividade dopaminérgica (ex: anfetaminas). Esta teoria é
parcialmente comprovada pelo fato de a maioria dos fármacos utilizados no tratamento da
esquizofrenia (neurolépticos) atuarem através do bloqueio dos receptores (D2) da dopamina.

Teorias psicanalíticas

As teorias psicanalíticas (ou de relação precoce) têm como base a teoria freudiana da
psicanálise, e remetem para a fase oral do desenvolvimento psicológico, na qual "a ausência
de gratificação verbal ou da relação inicial entre mãe e bebê conduz igualmente a
personalidades "frias" ou desinteressadas (ou indiferentes) no estabelecimento das relações".
A ausência de relações interpessoais satisfatórias estaria assim na origem da esquizofrenia.

Para além da abordagem freudiana também encontramos textos de inspiração winnicottiana


nas teorias explicativas a respeito da esquizofrenia.

Teorias familiares

Assim como a abordagem psicanalítica, outras abordagens responsabilizam a família, mas


apesar de terem bastante impacto histórico, tiveram pouco embasamento empírico. Surgiram
na década de 1950, umas baseadas no tipo de comunicação entre os vários elementos da
família, e outras aparecendo mais ligadas à estrutura familiar. Dos estudos desenvolvidos
surge o conceito de mãe esquizofrenogénica — a mãe possessiva e dominadora dos seus filhos
como geradora de personalidades esquizofrênicas. Estudos posteriores vieram contudo a
negar esta hipótese, relacionando esse comportamento mais com etiologias neuróticas e não
com a psicose.
22

Atualmente as abordagens familiares procuram apoiar a família, em vez de culpá-la,


reconhecendo as dificuldades em lidar com um membro da família em grave sofrimento
psíquico.

Teoria dos neurotransmissores

Têm-se um excesso de dopamina na via mesolímbica e falta dopamina na via mesocortical.

Apesar de existirem todas estas hipóteses para a explicação da origem da esquizofrenia,


nenhuma delas individualmente consegue dar uma resposta satisfatória às muitas dúvidas que
existem em torno das causas da doença, reforçando assim a ideia de uma provável etiologia
multifatorial.

Diagnóstico

A validade do diagnóstico de esquizofrenia tem sido criticada — no quadro de críticas mais


amplas à validade dos psicodiagnósticos em geral — sob a alegação de ser carente de validade
científica. A categoria de esquizofrenia usada pelo DSM tem sido igualmente criticada.

Em 2006, um grupo de pacientes e profissionais de saúde mental do Reino Unido, no âmbito


de uma campanha pela abolição do "rótulo" de esquizofrenia, defendeu a rejeição do
diagnóstico de esquizofrenia, tendo em vista a sua heterogeneidade e o estigma que lhe está
associado, e defenderam a adoção de um modelo biopsicossocial. Outros psiquiatras
britânicos, porém, opuseram-se à mudança, argumentando que 'esquizofrenia' ainda é um
conceito útil, embora provisório.

Assim como no caso de outros distúrbios psiquiátricos, alguns psiquiatras alegam que os
diagnósticos seriam mais adequados se fosse levado em conta que as variações ocorrem
dentro de um espectro ou de um continuum, não havendo propriamente um corte entre o
normal e o patológico. Essa abordagem parece coerente com pesquisas sobre esquizotipia,
que têm mostrado que a ocorrência de crenças delusionais ou alucinatórias entre indivíduos
da população em geral é muito frequente, o que sugere a existência de um continuum de
sintomas, entre os indivíduos considerados normais e os considerados psicóticos.

Outra crítica é que falta coerência nas definições e critérios utilizados. Particularmente
relevante para a avaliação das delusões é a desordem no pensamento, e sintomas psicóticos
não seriam uma boa base para a elaboração de um diagnóstico de esquizofrenia: a psicose
seria como a 'febre' da doença mental — um indicador que pode ser grave, mas é inespecífico.
23

Estudos sobre o diagnóstico da esquizofrenia, como os de David Rosenhan, feitos em 1972,


geralmente têm mostrado que o nível de confiabilidade é relativamente baixo, e o diagnóstico
de esquizofrenia muitas vezes é subjetivo.

Em 2004, no Japão, o termo japonês para esquizofrenia foi alterado de Seishin-Bunretsu-Byo


(doença da mente dividida) para Togo-shitcho-sho (desordem de integração).

Alternativamente, outros proponentes apontaram a presença de déficits neurocognitivos


específicos como elementos do diagnóstico. Estes assumem a forma de uma redução ou
comprometimento de funções psicológicas básicas, como memória, atenção, função executiva
e capacidade de resolver problemas. É este tipo de dificuldade, em vez dos sintomas psicóticos
(que, em muitos casos, podem ser controlados por medicamentos antipsicóticos), que parece
ser a causa da maioria das deficiências apresentadas nos quadros de esquizofrenia. No
entanto, este argumento é relativamente novo e é pouco provável que o método de
diagnóstico de esquizofrenia vá mudar radicalmente no futuro próximo.

O diagnóstico de esquizofrenia foi usado para fins políticos na União Soviética e mais uma
subclassificação — "esquizofrenia que progride lentamente" — foi criada. Particularmente na
República Socialista Federativa Soviética Russa, este diagnóstico foi utilizado com a finalidade
de silenciar os dissidentes políticos ou levá-los a desistir de suas ideias através da utilização de
confinamento e tratamento forçado. Em 2000, foram usados expedientes semelhantes pelo
governo chinês, quando da detenção e 'tratamento' dos praticantes de Falun Gong.

Classificação

A Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde


(CID), na CID-10, publicada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), conclui que "num certo
número de casos, que varia segundo as culturas e as populações, a evolução dirige-se para
uma cura completa ou quase completa".

O diagnóstico da esquizofrenia, como sucede com a grande maioria dos transtornos mentais e
demais psicopatologias, não se pode efetuar através da análise de parâmetros fisiológicos ou
bioquímicos e resulta apenas da observação clínica cuidadosa das manifestações do transtorno
ao longo do tempo. Quando do diagnóstico, é importante que o médico exclua outras doenças
ou condições que possam produzir sintomas psicóticos semelhantes (uso de drogas, epilepsia,
tumor cerebral, alterações metabólicas). O diagnóstico da esquizofrenia é por vezes difícil.

Para além do diagnóstico, é importante que o profissional identifique qual é o subtipo de


esquizofrenia em que o paciente se encontra. Atualmente, segundo o DSM IV, existem cinco
tipos:
24

Paranoide — é a forma que mais facilmente é identificada com a doença e na qual


predominam os sintomas positivos. O quadro clínico é dominado por um delírio paranoide
relativamente bem organizado. Os doentes de esquizofrenia paranoide são desconfiados,
reservados, podendo ter comportamentos agressivos.[44]

Desorganizado — em que os sintomas afetivos e as alterações do pensamento são


predominantes. As ideias delirantes, embora presentes, não são organizadas. Em alguns
doentes pode ocorrer uma irritabilidade associada a comportamentos agressivos. Existe um
contacto muito pobre com a realidade.[44]

Catatônico — caracterizado pelo predomínio de sintomas motores e por alterações da


atividade, que podem variar desde um estado de cansaço e acinesia até à excitação.[44]

Indiferenciado — que apresenta habitualmente um desenvolvimento insidioso com um


isolamento social marcado e uma diminuição no desempenho laboral e intelectual. Observa-se
nestes doentes uma certa apatia e indiferença relativamente ao mundo exterior.[44]

Residual — em que existe um predomínio de sintomas negativos: os doentes apresentam


um isolamento social marcado por um embotamento afetivo e uma pobreza ao nível do
conteúdo do pensamento.[44]

Existe também a denominada esquizofrenia hebefrênica, que incide desde a adolescência, com
o pior dos prognósticos em relação às demais variações da doença e com grandes
probabilidades de prejuízos cognitivos e sócio-comportamentais.

Atualmente todos os tipos de esquizofrenia foram fundidos em um diagnóstico denominado


de espectro esquizofrênico (de acordo com o DSM-5 e organização mundial da saúde).

Tratamento

Tratamento farmacológico

Uma referência importante para os psiquiatras é o Manual de Psiquiatria Clínica, de Harold


Kaplan e Benjamin Sadock, que sistematiza os vários fatores que compõem a esquizofrenia,
lembrando que "devido à heterogeneidade das apresentações sintomáticas e prognósticas da
esquizofrenia, nenhum fator etiológico isolado é considerado como causador." Segundo o
modelo estresse-diátese, usado com maior freqüência, a pessoa que desenvolve esquizofrenia
tem uma vulnerabilidade biológica específica, ou diátese, que, ativada pelo estresse, leva a
sintomas esquizofrênicos. Os fatores etiológicos são classificados pelos autores em genéticos,
biológicos, psicossociais e ambientais. Os fatores biológicos se subdividem e são apresentados
como hipóteses:
25

hipótese dopamínica

hipótese da noradrenalina

hipótese do ácido aminobutírico

hipótese da serotonina

Jucá (2005) observa que, mesmo considerando que se trata de "hipóteses" sobre as quais há
muita controvérsia, "não se abala a firme convicção de que, na raiz do sofrimento mental,
reside uma susceptibilidade biológica".

De fato, considera-se que os antipsicóticos são eficazes no alívio dos sintomas da esquizofrenia
em 70% dos casos.[carece de fontes] Alguns desses fármacos, conhecidos como antipsicóticos
típicos, inibem fortemente os receptores D2 da dopamina das vias dopaminérgicas, ligadas ao
sistema límbico do cérebro, e o seu sucesso constitui uma forte evidência da importância das
alterações bioquímicas na patogenia da doença, segundo a chamada hipótese dopamínica.[46]
Essas alterações bioquímicas talvez sejam uma resposta secundária aos eventos causadores da
doença, assim como o são as alterações comportamentais. Os exemplos mais usuais de
antipsicóticos típicos são o haloperidol e a clorpromazina. No entanto, esses dois antipsicóticos
são os chamados de primeira geração e apresentam sérios efeitos colaterais indesejáveis.
Segundo a literatura da psiquiatria, o haloperidol e a clorpromazina foram muito usados nas
décadas de 1940 e 1950, nos primeiros experimentos com esquizofrênicos. O haloperidol pode
causar rigidez muscular no paciente, locomoção motora desordenada, expelição de
substâncias do organismo do paciente, movimentos involuntários e morte súbita, estando
quase que completamente em desuso pelos seus efeitos deletérios.

Quando há predominância dos sintomas depressivos, a escolha pode recair nos novos
neurolépticos: risperidona, olanzapina, quetiapina, ziprasidona, amisulprida etc. Esses e a
tioridazida são indicados para os pacientes que não responderam aos antipsicóticos
convencionais ou apresentaram efeitos colaterais indesejáveis. Para os casos refratários,
existem evidências de que a clozapina é eficaz.

Esses medicamentos inibem pouco os receptores D2 da dopamina e têm, simultaneamente,


ação inibidora serotoninérgica, sendo por isso conhecidos como antipsicóticos atípicos. Estes
têm um sucesso maior nos casos refratários ao tratamento com antipsicóticos típicos ou nos
casos onde a sintomatologia negativa é predominante. Como o medicamento leva a
agranulocitose em cerca de 1% dos casos, devem ser feitos hemogramas periódicos, enquanto
durar a administração da droga. A nova geração de antipsicóticos atípicos, como a risperidona
e a olanzapina não provoca agranulocitose, sendo assim deveriam ser utilizadas como primeira
escolha pelos pacientes psicóticos, porém são muito caras.
26

Os antipsicóticos atípicos, justamente por agirem fracamente sobre os receptores D2, são uma
evidência contrária à hipótese dopamínica.

Tratamento não farmacológico

Existem várias abordagens terapêuticas do paciente esquizofrênico, o qual, na maioria dos


casos, tem indicação de um tratamento interdisciplinar, envolvendo o acompanhamento
médico (incluindo o uso de fármacos), a psicoterapia, a terapia ocupacional (individual ou em
grupos), a intervenção familiar, a musicoterapia e a psicopedagogia.

O tratamento pode ajudar muito a tratar os sintomas, permitindo que os doentes possam viver
com melhor qualidade de vida e mais produtivamente. A experiência clínica indica que o
melhor momento para iniciar o tratamento da esquizofrenia é logo após o aparecimento dos
primeiros sintomas. Se a sintomatologia psicótica permanecer sem tratamento por longos
períodos, o prognóstico do tratamento é menos favorável. Assim, é vital o reconhecimento
precoce dos sinais da esquizofrenia para que se possa procurar uma ajuda rápida.[48]

Bruscato[49] considera que os principais objetivos da psicoterapia dentro do tratamento da


esquizofrenia são:

Interromper a perda da capacidade mental, preservando o contato com a realidade;

Restaurar a capacidade de cuidar de si e de administrar sua vida, e manter o máximo de


autonomia para promover o melhor ajustamento pessoal, psicológico e social possível;

Diminuir o isolamento;

Reconhecer e reduzir a natureza ameaçadora dos eventos da vida, para os quais existe uma
sensibilidade particular;

Conscientizar o portador sobre a realidade de seus recursos e limitações, tanto ajudando a


descobrir e realizar seu potencial, quanto ajudando na aceitação de suas limitações;

Aumentar suas defesas diante de situações estressantes, liberando recursos que,


eventualmente, estejam obstruídos pela psicose e desenvolver fontes alternativas para a
solução de seus problemas;

Recuperar e promover a autoestima, a autoimagem e a autoconfiança, proporcionando


contínuo progresso;

Estimular a independência, os cuidados consigo mesmo em questões de higiene e capacitar


o paciente para as atividades da vida diária.

Os centros de atenção psicossocial (CAPS) ou os núcleos de atenção psicossocial (NAPS),


centros de convivência e algumas associações de portadores e familiares estão organizados
para atividades de reabilitação social do portador.
27

Epidemiologia

De acordo com algumas estatísticas, a esquizofrenia atinge entre 0,6% e 3% da população


mundial, dependendo dos critérios, manifestando-se habitualmente entre os 15 e os 30 anos,
em proporções semelhante entre homens e mulheres, costuma aparecer em mais cedo nos
homens e dificilmente começa após os 50 anos.

História

A esquizofrenia (do grego antigo σχιζοφρενία: formado por σχίζειν, skízein, 'separar, dividir', e
φρήν, phrēn, phrenós, 'diafragma', a parte do corpo identificada com a ligação entre o corpo e
a alma. O termo significa mais propriamente "cisão das funções mentais", considerando-se a
sintomatologia da doença.

Sociedade e cultura

A doença mental é com frequência relacionada com o mendigo que perambula pelas ruas,
falando sozinho, ou com a mulher que aparece na TV dizendo ter 16 personalidades ou ainda
com o maníaco homicida que aparece nos filmes. De fato, a doença mental é, há séculos,
sinónimo de exclusão social, e o diagnóstico de esquizofrenia, significou por muito tempo um
destino certo: os hospitais psiquiátricos ou asilos, onde os pacientes ficavam internados
durante anos — às vezes, pela maior parte de suas vidas.

Em muitos casos, os indivíduos diagnosticados como esquizofrênicos foram crianças tímidas,


introvertidas, com dificuldades de relacionamento e com pouca interacção emocional,
eventualmente também com dificuldades de atenção. Durante a adolescência o isolamento vai
se tornando cada vez maior e o rendimento escolar vai diminuindo. Estas modificações são
frequentemente associadas à crise da adolescência. "Para o adolescente, este é um período de
confusão, sente-se desconcentrado, não sabe o que se está a passar com ele. O jovem começa
a passar grandes períodos frente ao espelho, a observar o seu corpo, revelando a presença de
alterações do seu esquema corporal que podem surgir associadas à vivência psicótica. Isto não
acontece só ao nível do corpo, mas também na consciência de si próprio (perturbação da
vivência do "eu") apresentando neste caso sentimentos de despersonalização".

Uma crise psicótica pode ser precipitada por vários factores, como, por exemplo, mudança de
casa, perda de um familiar, rompimento com um(a) namorado(a), ingresso na universidade. É
raro o indivíduo ter consciência de que está realmente doente, o que torna difícil a adesão ao
tratamento. Um dos maiores medos da pessoa é o de ser estigmatizada pelos preconceitos
sociais que cercam a doença mental, tais como a associação da doença à violência — ideia essa
28

que estudos recentes põem completamente de parte, mostrando que a incidência de


comportamento violento nesses doentes é idêntica, se não mesmo inferior, ao da população
em geral.

"Quero que as pessoas entendam que sou como os outros. Sou um indivíduo e deveria ser
tratada como tal pela sociedade. Não deveriam fechar-me numa caixa com a etiqueta de
esquizofrenia" (Jane).

"As pessoas com esquizofrenia têm muitas vezes dificuldade em satisfazer as suas
necessidades devido à sua doença".

É importante que o processo de reabilitação seja contínuo, para que possa proporcionar
melhor qualidade de vida, maior autonomia e realização pessoal. Para isso, o indivíduo deve
ter acesso a estruturas de apoio, alternativos à estrutura manicomial, como os CAPS (Centros
de Atenção Psicossocial), centros de convivência, oficinas, hospitais dia (serviços de internação
parcial), serviços terapêuticos residenciais, empregos apoiados, fóruns sócio-ocupacionais.
Uma das maiores dificuldades desses doentes é a sua integração no mundo do trabalho. Daí
ser relevante o acompanhamento no período de adaptação.[carece de fontes]

É bastante útil que o paciente tenha conhecimentos sobre os sintomas e possíveis sofrimentos
ao longo da vida, e que possa ter um papel ativo no seu tratamento e controle sobre o seu
estado, sendo por isso vantajoso que estes sigam alguns cuidados, nomeadamente:

Se achar que a medicação não está a ajudar ou sentir efeitos não desejáveis deve avisar o
seu médico psiquiatra;

Fazer psicoterapia e ter consultas regulares com seu psicólogo;

Ter o cuidado de conservar um ritmo de sono e vigília correto, com as horas de sono
necessárias;

Evitar o estresse;

Manter rotinas normais de higiene, alimentação, atividades físicas e de lazer;

Evitar substâncias psicoativas que possam interferir prejudicialmente no tratamento —


como álcool e outras drogas;

Procurar ter horas para dormir, comer, trabalhar — ou seja, criar rotinas;

Permanecer em contato com as outras pessoas, não buscar o isolamento;

Manter o contato com o psiquiatra, psicólogo e a equipe de saúde mental;

Praticar desporto pelo menos uma vez por semana;


29

A participação da família é fundamental: reuniões dos psicólogos com os familiares são


muito importantes porque a residência é o ambiente cerne da busca da sanidade mental.

Os doentes podem apresentar também sintomas depressivos, que nem sempre têm origem
biológica ou neuroquímica. "O desapontamento e a desilusão vividos por alguns deste doentes
perante os repetidos fracassos em manterem um emprego, em conseguirem voltar a estudar
ou terem um grupo de amigos torna-se uma realidade incontornável", levando a sentimentos
de frustração.

Um outro aspecto associado à depressão na esquizofrenia é a questão do suicídio, que pode


ter origem em vários factores, notadamente o sofrimento psíquico associado à própria
vivência psicótica e o aspecto crónico e recorrente da doença. O papel ativo da família é
essencial para o tratamento, reabilitação e reinserção social da pessoa que sofre de doença
mental. Muitas famílias procuram o apoio junto aos técnicos de saúde. No entanto, há aquelas
que não o fazem, embora não consigam lidar com as crises do familiar.

A família deve estar preparada para a possibilidade de o doente ter recaídas ao longo do
tempo, o que pode requerer internamento hospitalar. Neste caso, é importante o apoio da
família durante a permanência do doente no hospital, através de reforço positivo,
comunicação, visitas, mostrando interesse sobre a evolução do seu estado. É natural que
muitas dúvidas surjam na família quanto ao comportamento a ser adotado em cada
situação.[carece de fontes]

Os problemas que geralmente ocorrem na família do esquizofrénico são os seguintes:

Medo… "Ele poderá fazer mal a si ou às outras pessoas?"

Negação da gravidade… "Isso daqui a pouco passa", "Você não é como esse cara da
televisão"

Incapacidade de falar ou pensar em outra coisa que não seja a doença… "Toda a nossa vida
gira em torno do nosso filho doente"

Isolamento social… "As pessoas até nos procuram, mas não temos como fazer os programas
que nos propõem"

Constante busca de explicações… "Ele está assim por algo que fizemos?"

Depressão… "Não consigo falar da doença do meu filho sem chorar".

Em suma, o impacto que uma pessoa com diagnóstico de esquizofrenia tem na família e a
forma como esta última se adapta face à situação depende da singularidade de cada um dos
seus membros, mas também da forma como a doença surge (insidiosa ou abrupta), do seu
curso, das suas consequências, da existência ou não de risco de morte (fase de crise ou fase
30

crónica) e do grau de incapacidade provocada pela doença. Todos esses fatores têm de ser
vistos numa perspectiva psicossocial e não isoladamente. Deve ser dada atenção extrema ao
fato de que o próprio esforço de adaptação por parte da família pode ter, como consequência,
um estado de exaustão da parte dos familiares, como é referido por Freitas, et al..

Referências

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Apesar da etimologia do termo, a esquizofrenia não implica uma cisão do eu ou em transtorno


de personalidade múltipla (conhecido atualmente como transtorno dissociativo de
identidade), uma condição com a qual é frequentemente confundida, na percepção do
público.

A palavra φρήν, na literatura poética e filosófica do período arcaico, de grande riqueza


polissêmica, relacionava-se com tudo o que dizia respeito às coisas do coração, da alma.
Articulada intimamente à palavra psyché, que significa 'alma', φρήν era usado para se referir
igualmente às profundezas da interioridade humana, onde estão as raízes do intelecto e do
afetivo. Psyché, como princípio de vida, de inteligibilidade e de afetividade, é o próprio
conceito que os gregos criaram para alma. Mais tarde, o termo foi traduzido por 'mente'.
Portanto, a alma, psyché, enquanto princípio vital de inteligibilidade, não pode ser entendida
somente por inteligência intuitiva, racional e cognitiva, mas também em sua dimensão afetiva,
próprio da palavra φρήν, phrén. A palavra alma abrange tudo que é da ordem do querer e do
desejar, tudo que é da ordem do coração. ROCHA (2001)

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...

Psicose ou Loucura: Uma Negação da Realidade


35

Na categoria Curiosidades

Publicado a 10 de Dezembro de 2012

Psicose ou também conhecida como Loucura, é constituída por um conjunto de sintomas e


sinais de negação da realidade.

A psicose é um quadro psicopatológico, adotado pela psicologia clínica, psicanálise e pela


psiquiatria. Caracterizando a Psicose unanimemente como a perda de contato com ou negação
da realidade. Isto é, o indivíduo com psicose “constrói” de forma involuntária e inconsciente
uma realidade “sua”, uma realidade paralela. A psicose antigamente também conhecida por
loucura

Os sintomas clássicos são:

Alucinação: Constituídas por percepções falsas ou erradas da realidade. Podem existir quantos
“tipos” distintos quantos sentidos temos. Existem alucinações auditivas, quando o indivíduo
ouve sons ou palavras que não existem realmente, na psicose é o tipo mais comum. Seguindo-
se das alucinações visuais, quando os indivíduos vêm coisas que não existem na realidade; das
alucinações sinestésicas, quando sentem coisas que não existem; das alucinações olfativas,
quando cheiram algo que não existem e por último e mais raro as alucinações no paladar.

Existem também alucinações complexas, quando envolvem mais que um modelo sensorial,
como quando se imagina uma pessoa ou personagem que fala conosco. Ou um acontecimento
que realimente não existe.

Podem existir alucinações características do processo de adormecer e de acordar, mas são


consideradas normais.

Delírio: constituído por falsas crenças e/ou convicções que permanecem apesar de evidencias
contrárias e a impossibilidade dos fatos. Existem delírio de várias ordens. O mais frequente é o
delírio persecutório, acontece quando o indivíduo acredita que existem forças externas que
tentam prejudica-lo, de inúmeras formas, tais como: conspirações, veneno, câmaras
escondidas, etc. Existe também o delírio de ciúme, delírio de abdução, contato com mortos,
etc.

Para o indivíduo com delírio existe sempre uma forte lógica de pensamento, não existindo
nenhum argumento capaz de penetrar ou rebater essa lógica.
36

Pensamento Desorganizado: muitas vezes também presente na psicose. Alterações do


discurso, comportamento estranho e/ou bizarro. Tirando conclusões ilógicas e sem sentido.

Agitação: também é característica da psicose, surge principalmente como consequência dos


outros sintomas, das alucinações e do delírio. Não porque têm medo, mas porque acreditam
cegamente na realidade que construíram.

A psicose muitas vezes não é considerada um quadro por si só, mas uma síndrome, que pode
estar presente em inúmeras perturbações, tais como:

– Esquizofrenia

– Doença bipolar

– Depressão grave

– Doença de Alzheimer

– Estresse psicológico severo

– Privação do sono

– Secundário a drogas lícitas e ilícitas

– Epilepsia

– Abstinência ao álcool

– Infeções e cânceres do sistema nervoso central

– Lúpus

– Insuficiência renal e hepática

– SIDA (AIDS)

– Sífilis

Retirando as hipóteses de alterações químicas ou lesões cerebrais. Numa perspectiva


psicodinâmica e psicanalítica a psicose surge como resposta a um extremo sofrimento, que o
indivíduo é incapaz de gerir. Assim o cérebro “constrói” uma realidade em que essa mesma
dor não existe, diminui ou tem outro significado. Por vezes acontece apenas durante um
período, outras vezes essa realidade construída é permanente.

É frequente quando morre alguém muito querido, após a morte o indivíduo para quem essa
pessoa era querida, pode relatar contatos visuais ou auditivos com essa pessoa.
37

Este tema levanta muitas questões metafisicas e mesmo filosóficas, principalmente em dois
aspetos.

Se cada um é uma pessoa individual e única, a percepção da realidade é idiossincrática, isto é,


igualmente única. Logo, qual o limite no qual distinguimos a psicose? Visto que as realidades
são únicas e nunca traduzem objetivamente a “verdadeira realidade”. Outra questão
metafisica, refere-se a questionarmos a realidade do indivíduo, por essa não ser a nossa. Mas
isso não tem qualquer sentido pois a realidade de cada um é única. Surge então um dualismo
devemos rejeitar o que o indivíduo relata e ajuda-lo a rejeitar também, ou devemos aceitar e
ajuda-lo a “gerir” essa realidade? Cada sintoma ou comportamento tem uma função e/ou
significado. Devemos rejeitar tudo isso?

...

Quem é o Psicólogo? Quem é o Psiquiatra?


38

É interessante notar que muito são as pessoas que têm


dúvidas sobre a função do Psicólogo e do Psiquiatra, e que em consenso acabam
compreendendo as duas profissões como uma só. Mas, Psicologia e Psiquiatria são
coisas diferentes, mas, não chegam a ser opostas.
A diferença básica consiste em que a Psiquiatria é um ramo da Medicina e que pertence
a ciência natural e a Psicologia é uma ciência independente da medicina, humanista, que
mesmo que beba da fonte da Filosofia, Fisiologia, e Psicanálise, como principais bases e
se constitui como uma ciência do comportamento e dos processos mentais humanos.
Psicologia significa etimologicamente: Psico – Psique que é o mesmo que alma; e Logia
- logos que é o mesmo que conhecimento, muito próximo do que significa a palavra
psiquiatria que seria o mesmo que “a arte de curar a alma”, enquanto o primeiro
desvenda, o segundo busca curar; sugere-se que enquanto o psicólogo busca a razão de
determinados processos mentais, a psiquiatria que é um ramo como já citado da
medicina, busca eliminar a patologia. Para que o leitor não confunda os termos, tanto
uma como a outra busca a mesma coisa: trazer alívio e bem-estar (qualidade de vida),
nada mais que saúde.

O entendimento sobre “cura” perpassa


por uma compreensão filosófica e histórica que difere o discurso de cada ciência. Se
pudermos resumir em poucas palavras a medicina, ela constituiu-se em uma forma de
“poder corretivo”, representado na estrutura dos hospitais, atrelando à saúde a
institucionalização da vida, ou melhor, a eliminação do agente anormal, ora não aceito
pela sociedade e pelas instituições normativas nas diversas épocas, ora para eliminar
corpos nocivos a saúde individual e populacional, mas em geral a constituição do
formato hoje visto na mesma. Etimologicamente o termo paciente significa passivo, e
hospital compreende-se por acolher os hospedes, “hospedes passivos” não mais dono do
seu próprio dizer, ou fazer.
39

A prática psiquiátrica não acompanhava o mesmo ritmo das demais especialidades


médicas, o que sugere uma convergência sobre a atual discriminação que sofre o médico
psiquiatra mediante as demais práticas na medicina. Teria a psiquiatria mais uma função
coercitiva na idade média do que curativa como as demais práticas médicas, aliás, a
psiquiatria lidava com questões que passavam pelo místico (bruxaria, feitiçaria), pela
religião (moral), pela política (estorvos sociais) fatores que influenciavam a visão sobre
loucura até antes do século XVIII.
Tal forma de discurso ressoou em todo o processo de massificação do saber médico
psiquiátrico, enquanto o saber psicológico vivia diversas cisões nos processos de
conhecimento, vide Descartes com sua idéia de inato e aprendido e a dualidade sobre a
separação da mente (“espírito”) do corpo, construindo a idéia da racionalidade, pois o
corpo ocupa um espaço e move-se através dele, já a mente não, dela é a capacidade
humana única do raciocínio, assim rompendo com o mentalismo e com a análise
filosófica do racicínio lógico e/ou da especulação.
Abriram-se portas para outras correntes, sejam eles a Empirista, o Associacionismo, o
Funcionalismo, Conexionismo, Gestalt, Comportamentalismo e outros. No século XIX
a psicologia se viu tentada a afastar-se da filosofia, abrindo espaço a fisiologia,
principalmente sobre o aspecto neurofisiológico do comportamento. Neste instante
estando distante da filosofia, mais ao lado da medicina, a psicologia e psiquiatria
compreenderam-se como iguais, pois, as duas tinham uma representatividade médica
em seus estudos. Numa pós-neurofisiologia, Wilhem Wundt (1874) inaugurou o
primeiro laboratório de psicologia experimental, o mesmo Wundt reconhecendo a
contribuição dos fisiologistas à psicologia, declarou também “tentar demarcar um novo
domínio na ciência”, contudo, postulou o termo “psicologia filosófica”, mas o mesmo
buscava a experiência consciente “imediata” e o estudo dos processos mentais
superiores, ou por métodos laboratoriais ou não-laboratoriais.
A psicologia deparou-se com novos Zeitgeist seja pelo Darwinismo ou pelo surgimento
da psicologia moderna introduzida por William James (1892). A psicologia não se
compreendia quanto filosofia e nem quanto ramo biológico, na mesma época em que a
Psiquiatria ganhava status com Benjamin Rush considerado o pai da psiquiatria
moderna e inventor da teoria de que problemas no sangue causavam certas doenças
inclusive mentais, com o “tratamento moral” introduzido por Philippe Pinel, e com a
tentativa de Kraepelin em classificar e diagnosticar a doença mental, ou seja, tanto a
psicologia e quanto a psiquiatria, estavam ganhando uma identidade própria, por tanto,
afastando-se de vez uma da outra.
Neste distanciamento entre a medicina psiquiátrica e a psicologia, ao centro, surge um
novo modelo teórico e tão qual independente, mas que curiosamente dialogava com a
saúde mental, como com os processos mentais e comportamentais; modelo chamado de
psicanálise, cunhado por Sigmund Freud (1890), o qual teve seus seguidores e ao
mesmo, dissidentes, como Alfred Adler criador da escola psicanalítica “Psicologia
Individual” e o psiquiatra Carl Jung que formulou sua teoria chamada Psicologia
Analítica, a qual não pode ser compreendida como a psicanálise pura.
Independente dos diversos contextos discutidos, aquele que buscar hoje um psicólogo
ou um psiquiatra vai deparar-se com novo conceito chamado: trabalho
multiprofissional. Este trabalho consiste em ver esse sujeito de forma holística (total),
multifário (de grande variedade), onde as diversas áreas do saber estarão dialogando
para melhor compreender e ajudar aquele que o buscam.
Outra dúvida sobre as duas profissões é o fato do tratamento medicamentoso; tal só
pode ser ministrado pelo médico psiquiatra, mesmo que o psicólogo tenha algum
conhecimento sobre, prescrição é atribuição única do médico, não aceite nunca que
40

outro profissional que não o médico lhe receite algum medicamento, como também não
aceite que nenhum outro profissional aplique testagem psicológica, algo específico e das
atribuições particulares do Psicólogo devidamente registrado em regiões (CRPs) do
Conselho Federal de Psicologia - CFP.

Referência:

CAMPOS, T. C. P. Psicologia Hospitalar: a Atuação do Psicólogo em Hospitais. São


Paulo: EPU,1995.
GOODWIN, C. James. História da Psicologia Moderna. São Paulo: Cultrix, 2005.

...

Psicoses

Geraldo José Ballone


A psicose, de acordo com alguns autores, é uma doença mental caracterizada pela
distorção do senso de realidade, uma inadequação e falta de harmonia entre o
pensamento e a afetividade.
41

Não deve passar despercebido a qualquer psiquiatra, conforme diz Uchoa, a


importância de fatores como a constituição, temperamento, caráter,
peculiaridades de ordem tipológica, experiências anteriormente vividas e
ambiente familiar e/ou social na formação e estruturação das psicoses. A
articulação desta causalidade múltipla nas psicoses tem sido objeto de atenção
constante dos pesquisadores em psicopatologia e tem resultado em discussões
intermináveis entre as mais diversas escolas do pensamento psicológico.

Se alguma conclusão dessa polêmica acirrada entre as várias tendências sobre


o adoecer mental pode ser aproveitada, esta se resume na constatação da
incompatibilidade entre as duas maneiras principais de abordar o problema da
loucura: a visão clínica e a visão cultural. O enfoque clínico da Doença Mental
será sempre diferente da abordagem cultural e filosófica.

Classificação
As várias tendências de reflexão sobre a Doença Mental, notadamente sobre as
Psicoses, embora provenientes de diversos momentos históricos do pensamento
psicológico, estimulam a tônica das discussões acerca do tema. Entre os autores
encontramos defensores do modelo Sociogênico, no qual a sociedade complexa e
exigente é a responsável exclusiva pelo enlouquecimento humano, defensores do
modelo Organogênico, diametralmente oposto ao anterior e onde os elementos
orgânicos da função cerebral seriam os responsáveis absolutos pela Doença Mental e
do modelo Psicogênico, onde a dinâmica psíquica é responsável exclusiva pela
doença e as disposições constitucionais pessoais pouco importam. Finalmente há o
modelo Organodinâmico, o qual compatibiliza os três anteriores num enfoque bio-
psico-social.

Tem sido quase unanimemente aceito na psiquiatria clínica a associação de


determinadas configurações de personalidade predispostas e a eclosão de
psicoses. Estas personalidades são as chamadas Personalidades Pré-
mórbidas, cujo conceito é abordado no capítulo sobre os Transtornos da
Personalidade, tanto pela CID (Classificação Internacional das Doenças)
quanto pela DSM (Manual de Diagnóstico e Estatística das Doenças Mentais).
Trata-se de constituições de personalidades problemáticas que, por si só,
acabam transtornando a vida do indivíduo, incapacitando um desenvolvimento
pleno e, ainda, em certas circunstâncias, encerrando uma maior aptidão para o
desenvolvimento de determinadas doenças psíquicas.
A Constituição (Personalidade) Pré-mórbida é considerada pela psicopatologia
como uma variação do existir humano e traduz uma possibilidade mais
acentuada para o desenvolvimento de certa vulnerabilidade psíquica. Aqui o
termo "possibilidade" deve ser considerado em toda sua plenitude, ou seja,
trata-se de um caráter não-obrigatório mas que deve ser levado muito a sério.

Sintomas e Processos
Clinicamente e a grosso modo, podemos dizer que as neuroses diferenciam-se das
psicoses pelo grau de envolvimento da personalidade, sendo sua desorganização e
desagregação muito mais pronunciadas nas psicoses. O vínculo com a realidade é
muito mais tênue e frágil nas psicoses que nas neuroses. Nestas últimas, a realidade
42

não é negada, mas é vivenciada de maneira mais sofrível, é valorizada e percebida de


acordo com as lentes de uma afetividade problemática e é representada de acordo
com as exigências conflituais. Já nas psicoses, alguns aspectos da realidade são
negados totalmente e substituídos por concepções particulares e peculiares que
atendem unicamente às características da doença.

A sintomatologia psicótica se caracteriza, principalmente, pelas alterações a


nível do pensamento e da afetividade e, conseqüentemente, todo
comportamento e toda performance existencial do indivíduo serão
comprometidos. Enquanto nas neuroses o pensamento, os sentimentos e a
afetividade se encontram quantitativamente alterados, na psicose esses
atributos psíquicos se apresentam qualitativamente doentes, tal como uma
novidade patológica cronologicamente localizada na história de vida do
paciente e que passa, desse momento em diante, a atuar morbidamente em
toda sua performance psíquica.

O processo psicótico impõe ao paciente uma maneira patológica de


representar a realidade, de elaborar conceitos e de relacionar-se com o mundo
objectual. Não contam tanto aqui as variações quantitativas de apercepção do
real, como pode ocorrer na depressão, por exemplo, mas um algo novo e
qualitativamente diferente de todas as variações normalmente permitidas entre
as pessoas normais, um algo essencialmente patológico, mórbido e sofrível.

A Esquizofrenia
A Esquizofrenia, representante mais característica das psicoses, é uma doença da
Personalidade total que afeta a zona central do eu e altera toda estrutura vivencial.
Culturalmente o esquizofrênico representa o estereotipo do "louco", um indivíduo que
produz grande estranheza social devido ao seu desprezo para com a realidade
reconhecida. Agindo como alguém que rompeu as amarras da concordância cultural, o
esquizofrênico menospreza a razão e perde a liberdade de escapar às suas fantasias.

Segundo Kaplan, aproximadamente 1% da população é acometido pela


doença, geralmente iniciada antes dos 25 anos e sem predileção por qualquer
camada sócio-cultural. O diagnóstico da doença ainda se baseia
exclusivamente na história psiquiátrica e no exame do estado mental, muito
embora os meios de investigação por imagens funcionais esteja avançando a
passos largos no sentido de estabelecer-se um diagnóstico mais preciso. É
extremamente raro o aparecimento de esquizofrenia antes dos 10 ou depois
dos 50 anos de idade e parece não haver nenhuma diferença na prevalência
entre homens e mulheres.

Esquirol (1772-1840) considerava a loucura como sendo a somatória de dois


elementos: uma causa predisponente, atrelada à personalidade, e uma causa
excitante, fornecida pelo ambiente. Hoje em dia, depois de muitos anos de
reflexão e pesquisas, a psiquiatria moderna reafirma a mesma coisa com
palavras atualizadas. O principal modelo para a integração dos fatores
etiológicos da esquizofrenia é o modelo estresse-diátese, o qual supõe o
indivíduo possuidor de certa vulnerabilidade específica, vulnerabilidade esta
colocada sob a influência de fatores ambientais estressantes (causa excitante).
Em determinadas circunstâncias o binômio diátese-estresse proporcionaria
43

condições para o desenvolvimento da esquizofrenia. Até que um fator


etiológico para a doença seja identificado, este modelo parece satisfazer as
teorias mais aceitas sobre o assunto.

Atualmente, através da CID-10, foi incluída na classificação das esquizofrenias


o Transtorno Esquizotípico. Na realidade não acreditamos tratar-se de mais um
tipo da doença mas, talvez, se trate apenas de um outros estágio da mesma
doença. Tomando-se por base os sintomas gerais e de primeira ordem das
esquizofrenias, podemos entender o Transtorno Esquizotípico como sendo
uma fase pré-mórbida da psicose. Seria um estadiamento da doença mais
sério que o Transtorno Esquizóide de Personalidade e menos mórbido que a
Esquizofrenia franca. Tanto está certa esta visão que o próprio CID-10
considera este transtorno como sinônimo de Esquizofrenia Prodrômica (Inicial),
Borderline (limítrofe), ou Pré-Psicótica.

Alguns sintomas, embora não sejam específicos da Esquizofrenia, são de


grande valor para o diagnóstico. Seriam:

1- audição dos próprios pensamentos (sob a forma de vozes)


2- alucinações auditivas que comentam o comportamento do paciente
3- alucinações somáticas
4- sensação de ter os próprios pensamentos controlados
5- irradiação destes pensamentos
6- sensação de ter as ações controladas e influenciadas por alguma coisa do
exterior.

Tentando agrupar a sintomatologia da esquizofrenia para sintetizar os


principais tratadistas, teremos destacados três atributos da atividade psíquica
morbidamente envolvidos: o comportamento, a afetividade e o pensamento.
Os Delírios surgem como alterações do conteúdo do pensamento
esquizofrênico e as alucinações como pertencentes à sensopercepção. Ambos
acabam sendo causa e/ou conseqüência das alterações nas 3 áreas
acometidas pela doença (comportamento, afetividade e pensamento).

Delírios
Os Delírios na Esquizofrenia podem sugerir uma interpretação falsa da realidade
percebida. É o caso por exemplo, do paciente que sente algo sendo tramado contra
ele pelo fato de ver duas pessoas simplesmente conversando. Trata-se, neste caso,
de uma Percepção Delirante. Desta forma, a Percepção Delirante necessita de algum
estímulo para ser delirantemente interpretado (no caso, duas pessoas conversando).
Outras vezes não há necessidade de nenhum estímulo à ser interpretado, como por
exemplo, julgar-se deus. Neste caso trata-se de uma Ocorrência Delirante. O Delírio
mais freqüentemente encontrado na Esquizofrenia é do tipo Paranóide ou de
Referência, ou seja, com temática de perseguição ou prejuízo no primeiro caso e de
que todos se referem ao paciente (rádios, vizinhos, televisão, etc) no segundo caso.
Na Esquizofrenia os Delírios surgem paulatinamente, sendo percebidos aos poucos
pelas pessoas íntimas aos pacientes. Em relação ao Delírio de Referência,
inicialmente os familiares começam à perceber uma certa aversão à televisão, aos
44

vizinhos, etc.

Alucinações
As Alucinações mais comuns na Esquizofrenia são do tipo auditivas, em primeiro lugar
e, em seguida, visuais. Conforme diz Schneider, "de valor diagnóstico extraordinário
para o diagnóstico de uma Esquizofrenia são determinadas formas de ouvir vozes:
ouvir os próprios pensamentos (pensar alto), vozes na forma de fala e respostas e
vozes que acompanham com observações a ação do doente". Esta Sonorização do
Pensamento, juntamente com alguns outros sintomas que envolvem alucinações
auditivas e sensações de ter os próprios pensamentos influenciados por elementos
externos, compõem a sintomatologia que Schneider considerou como sendo de
Primeira Ordem.
Um esquizofrênico pode estar ouvindo sua própria voz, dia e noite, sob a forma de
comentários e antecipações daquilo que ele faz ou pretende fazer , como por exemplo:
"ele vai comer" ou ainda, "o que ele está fazendo agora ? Está trocando de roupas".
Outro sintoma importante no diagnóstico da esquizofrenia é a sensação de que o
pensamento está sendo irradiado para o exterior ou mesmo sendo subtraído ou
"chupado" por algo do exterior: Subtração e Irradiação do pensamento, também
considerados de Primeira Ordem. Igualmente podemos encontrar a sensação de que
os atos estão sendo controlados por forças ou influências exteriores.

SINTOMAS DE PRIMEIRA ORDEM


(De acordo com Schneider)

 Sonorização do pensamento
 Subtração do pensamento
 Irradiação do pensamento (ou difusão)

Sensação de ações controladas

Todas as demais alucinações, auditivas, visuais, tácteis, olfatórias, gustativas,


cenestésicas e cinestésicas, embora sejam consideradas sintomas acessórios por
Bleuler, aparecem na esquizofrenia com freqüência bastante significativa.
Normalmente as alucinações auditivas são as primeiras a aparecer e as últimas a
sumir.
45

O Autor
Geraldo J. Ballone
Especialista em psiquiatria pela ABP e professor do
Departamento de Neuropsiquiatria da Faculdade de
Medicina da PUCCAMP desde 1980. Coordenador do site
PsiqWeb - Psiquiatria clínica didática para pesquisas e
consultas

...

ESQUIZOFRENIA E OUTROS TRANSTORNOS PSICÓTICOS

Sinônimo e nomes populares:

Psicose, loucura, insanidade

O que é?

Esquizofrenia é uma doença mental que se caracteriza por uma desorganização ampla
dos processos mentais. É um quadro complexo apresentando sinais e sintomas na área
do pensamento, percepção e emoções, causando marcados prejuízos ocupacionais, na
vida de relações interpessoais e familiares.

Nesse quadro a pessoa perde o sentido de


realidade ficando incapaz de distinguir a
experiência real da imaginária. Essa doença
se manifesta em crises agudas com
sintomatologia intensa, intercaladas com
períodos de remissão, quando há um
abrandamento de sintomas, restando alguns
deles em menor intensidade.

É uma doença do cérebro com manifestações


psíquicas, que começa no final da
adolescência ou início da idade adulta antes
46

dos 40 anos. O curso desta doença é sempre crônico com marcada tendência à
deterioração da personalidade do indivíduo.

Como se desenvolve?

Até hoje não se conhece nenhum fator específico causador da Esquizofrenia. Há, no
entanto, evidências de que seria decorrente de uma combinação de fatores biológicos,
genéticos e ambientais que contribuiriam em diferentes graus para o aparecimento e
desenvolvimento da doença. Sabe-se que filhos de indivíduos esquizofrênicos têm uma
chance de aproximadamente 10% de desenvolver a doença, enquanto na população
geral o risco de desenvolver a doença é de aproximadamente 1%.

O que se sente?

Os quadros de esquizofrenia podem variar de paciente para paciente, sendo uma


combinação em diferentes graus dos sintomas abaixo:

Delírios:
o indivíduo crê em idéias falsas, irracionais ou sem lógica. Em geral são temas de
perseguição, grandeza ou místicos
Alucinações:
O paciente percebe estímulos que em realidade não existem, como ouvir vozes ou
pensamentos, enxergar pessoas ou vultos, podendo ser bastante assustador para o
paciente
Discurso e pensamento desorganizado:
O paciente esquizofrênico fala de maneira ilógica e desconexa , demonstrando uma
incapacidade de organizar o pensamento em uma seqüência lógica
Expressão das emoções:
O paciente esquizofrênico tem um "afeto inadequado ou embotado", ou seja, uma
dificuldade de demonstrar a emoção que está sentindo. Não consegue demonstrar se
está alegre ou triste, por exemplo, tendo dificuldade de modular o afeto de acordo
com o contexto, mostrando-se indiferente a diversas situações do cotidiano
Alterações de comportamento:
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Os pacientes podem ser impulsivos, agitados ou retraídos, muitas vezes


apresentando risco de suicídio ou agressão, além de exposição moral, como por
exemplo falar sozinho em voz alta ou andar sem roupa em público.

Como o médico faz o diagnóstico?

Para fazer o diagnóstico , o médico realiza uma entrevista com o paciente e sua família
visando obter uma história de sua vida e de seus sintomas o mais detalhada possível.
Até o presente momento não existem marcadores biológicos próprios dessa doença nem
exames complementares específicos, embora existam evidências de alterações da
anatomia cerebral demonstráveis em exames de neuro-imagem e de metabolismo
cerebral sofisticados como a tomografia computadorizada, a ressonância magnética,
entre outros.

Além de fazer o diagnóstico, o médico deve tentar identificar qual é o subtipo clínico
que o paciente apresenta. Essa diferenciação se baseia nos sintomas que predominam
em cada pessoa e na evolução da doença que é variada conforme o subtipo específico.
Os principais subtipos são:

paranóide (predomínio de delírios e alucinações)


desorganizada ou hebefrênica (predomínio de alterações da afetividade e
desorganização do pensamento)
catatônico (alterações da motricidade)
simples (diminuição da vontade e afetividade, empobrecimento do pensamento,
isolamento social)
residual (estágio crônico da doença com muita deterioração e pouca sintomatologia
produtiva).

Como se trata?

As medicações antipsicóticas ou neurolépticos são o tratamento de escolha para a


esquizofrenia. Elas atuam diminuindo os sintomas (alucinações e delírios), procurando
restabelecer o contato do paciente com a realidade; entretanto, não restabelecem
completamente o paciente. As medicações antipsicóticas controlam as crises e ajudam a
evitar uma evolução mais desfavorável da doença. Em geral, as drogas antipsicóticas
apresentam efeitos colaterais que podem ser bem controlados.

Em crises especialmente graves, ou em que não houve resposta às medicações, pode-se


fazer uso da eletroconvulsoterapia (ECT) antigamente chamado de eletro-choque. Esse
método é bastante seguro e eficaz para melhora dos sintomas, sendo realizado com
anestesia. Uma outra possibilidade é usar antipsicóticos mais modernos chamados de
atípicos ou de última geração. As abordagens psico-sociais, como acompanhamento
psicoterápico, terapia ocupacional e familiar são também muito importantes para
diminuir as recaídas e promover o ajustamento social dos portadores da doença.

OUTROS TRANSTORNOS PSICÓTICOS

Transtorno Esquizofreniforme
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Os pacientes com Transtorno Esquizofreniforme apresentam um quadro clínico muito


parecido com a Esquizofrenia. A diferença deve-se ao tempo limitado em que os
sintomas persistem. Ou seja, os sintomas devem estar presentes por mais de um mês,
porém os pacientes não devem ultrapassar seis meses com o quadro.

A remissão (melhora) deve ocorrer durante esse período, sendo que quanto mais curto
for o episódio, melhor é o prognóstico. Prejuízo social ou ocupacional em função de
seus sintomas podem estar presentes ou não. Pacientes que persistirem com os sintomas
psicóticos por um período superior a seis meses podem receber o diagnóstico de
Esquizofrenia.

O tratamento é similar ao da Esquizofrenia, geralmente necessitando de hospitalização


para a realização de diagnóstico e tratamento mais adequados.

Transtorno Esquizoafetivo

Essa doença tem características tanto da Esquizofrenia quanto dos Transtornos de


Humor. Em outras palavras, os pacientes que apresentam essa doença têm sintomas de
esquizofrenia, "misturados" com sintomas de doença afetiva bipolar (antigamente
conhecida como psicose maníaco-depressiva) ou de depressão. Esses sintomas podem
apresentar-se juntos ou de maneira alternada.

Ocorre também na adolescência ou início da idade adulta e costuma ter uma evolução
mais benigna que a Esquizofrenia e pior que o Transtorno de Humor.

O tratamento consiste em internação hospitalar, medicação e intervenções psico-sociais.


As principais medicações escolhidas para o tratamento do Transtorno Esquizoafetivo
são as mesmas utilizadas no tratamento da Depressão e da Doença Bipolar, assim como
antipsicóticos.

Transtorno Delirante

Delírio é um tipo de pensamento no qual o indivíduo tem uma crença inabalável em


idéias falsas, irracionais ou sem lógica. E esse é o principal sintoma apresentado pelos
pacientes com Transtorno Delirante.

Para que o paciente receba esse diagnóstico, os delírios devem estar presentes por um
período maior que um mês. Diferem da Esquizofrenia por esses pacientes não serem tão
gravemente comprometidos em seu comportamento e linguagem. Os pacientes podem
apresentar alucinações, mais comumente relacionadas ao tato e ao olfato (cheiros). O
Transtorno Delirante antigamente recebia o nome de Paranóia, associando o nome da
doença aos delírios persecutórios. Porém, hoje sabe-se que esses pacientes podem
apresentar outros tipos de conteúdo delirante, dividindo o diagnóstico em diferentes
subtipos:

Tipo erotomaníaco:
Delírio cujo tema central é que uma pessoa está apaixonada pelo paciente. Esse
delírio geralmente refere-se mais a um amor romântico idealizado ou uma união
espiritual do que propriamente uma atração sexual.
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Tipo grandioso:
Delírios de possuir uma grande talento, conhecimento ou ter feito uma importante
descoberta ainda que isso não seja reconhecido pelas demais pessoas. Pode tomar a
forma também da convicção de ser amigo de um presidente ou ser portador de uma
mensagem divina.
Tipo ciumento:
Delírios de que está sendo traído pelo cônjuge.
Tipo persecutório:
Delírios de que está sendo alvo de algum prejuízo.
Tipo somático:
Delírios de que possui alguma doença ou deficiência física.
Tipo misto:
Delírios acima citados misturados.
Tipo inespecífico:
Delírios diferentes dos descritos acima.

De maneira geral o tratamento é realizado em consultório. Internação hospitalar pode


ser necessária em situações em que há presença de riscos (agressão, suicídio, exposição
moral). O tratamento é feito com medicação antipsicótica e psicoterapia.

Transtorno Psicótico Breve

O Transtorno Psicótico Breve pode ter um quadro clínico muito parecido com a
Esquizofrenia ou com o Transtorno Esquizofreniforme, apresentando delírios,
alucinações, linguagem ou comportamento desorganizado ou com o Transtorno
Delirante. Entretanto esses sintomas deverão estar presentes por um curto espaço de
tempo e persistir no mínimo por um dia, e no máximo por 1 mês, melhorando
completamente dentro desse período sem deixar sintomas residuais.

Geralmente encontramos situações estressantes que precipitam o quadro.

O tratamento deve ser com medicações antipsicóticas, eventualmente necessitando


internação hospitalar. A evolução desses quadros costuma ser benigna com total
remissão dos sintomas.

Transtorno Psicótico Compartilhado (Folie à Deux, Codependência)

Trata-se de uma situação rara na qual uma pessoa começa a apresentar sintomas
psicóticos (delírios), a partir da convivência próxima com um doente psicótico.

Geralmente ocorre dentro de uma mesma família, entre cônjuges, pais e filhos ou entre
irmãos. O tratamento consiste em separar as duas pessoas. Se houver persistência dos
sintomas, pode ser necessário usar medicação antipsicótica. Psicoterapia e terapia
familiar também ajudam no tratamento e prevenção.
50

Colaboradoras
Dra. Alice Sibile Koch
Dra. Dayane Diomário da Rosa

...

DELÍRIO

Sinônimo e Nomes Populares:

Alucinação, loucura, visão.

O que é?

São todas as doenças que levam uma pessoa a ouvir, enxergar e pensar que está
vivenciando uma situação inexistente podendo levar o paciente a um quadro de agitação
e/ou agressividade.

Como se desenvolve?

As causas são as mais diversas possíveis. Doenças, uso de drogas ilícitas, remédios
entre outras. As doenças de fígado, hemorragias e isquemias cerebrais podem levar a
delírio.

O uso de LSD (ácido lisérgico), mescalina, cocaína, cola de sapateiro, intoxicação por
metais pesados também podem levar a delírio. Sífilis, encefalites e meningite podem
criar quadros de delírio. Epilepsias do lobo frontal e temporal levam o indivíduo a ouvir
51

e enxergar coisas que não existem. Remédios para doença de Parkinson e corticóides
podem levar os pacientes a delírio. Alguns tumores cerebrais levam a delírio, mas não é
comum.

Pacientes psiquiátricos, com bastante freqüência, têm delírios que podem ser de lógicos
e bem estruturados a quadros bem pouco elaborados.

Privação de drogas podem levar também a quadros de delírio, como nos pacientes que
deixam de ingerir álcool de forma súbita.

O que se sente?

O indivíduo passa a ter visões incongruentes, ouvir sons ou vozes e a ficar agitado com
a sua percepção, muitas vezes inverossímil para o próprio paciente.

Como o médico faz o diagnóstico?

O diagnóstico é feito através de entrevista com o paciente, com perguntas corriqueiras


como: quem ele é; em que país se encontra; idade e situações de seu cotidiano bem
conhecidas. Caso o paciente responda de forma inadequada, apresentando-se agitado,
tem-se grande chance de que esse paciente esteja em delírio.

A tomografia computadorizada do encéfalo (TC) e a ressonância magnética do encéfalo


(RM) nos informam sobre alguma alteração cerebral do paciente.

Exames para dosagem de drogas na urina e sangue, bem como alguma prescrição de
medicamentos, devem ser avaliados.

Exames de laboratório para sangue e urina são úteis em doenças metabólicas das mais
variadas.

Como se trata e como se previne?

A prevenção é possível nos casos de uso de drogas, doenças infecciosas e intoxicação


por metais pesados.

O tratamento da dependência a agentes químicos é difícil e necessita de ajuda


especializada. As doenças infecciosas devem ser tratadas com medicação específica
para cada uma delas. Algumas medicações devem ser descontinuadas por produzirem
efeitos indesejáveis.

Os tumores cerebrais devem ser tratados com cirurgia.

...
52

DEPRESSÃO

Sinônimos e nomes relacionados:

Transtorno depressivo, depressão


maior, depressão unipolar,
incluindo ainda tipos
diferenciados de depressão, como
depressão grave, depressão
psicótica, depressão atípica,
depressão endógena, melancolia,
depressão sazonal.

O que é a depressão?

Depressão é uma doença que se caracteriza por afetar o estado de humor da pessoa,
deixando-a com um predomínio anormal de tristeza. Todas as pessoas, homens e
mulheres, de qualquer faixa etária, podem ser atingidas, porém mulheres são duas vezes
mais afetadas que os homens. Em crianças e idosos a doença tem características
particulares, sendo a sua ocorrência em ambos os grupos também freqüente.

Como se desenvolve a depressão?

Na depressão como doença (transtorno depressivo), nem sempre é possível haver


clareza sobre quais acontecimentos da vida levaram a pessoa a ficar deprimida,
diferentemente das reações depressivas normais e das reações de ajustamento
depressivo, nas quais é possível localizar o evento desencadeador.

As causas de depressão são múltiplas, de maneira que somadas podem iniciar a doença.
Deve-se a questões constitucionais da pessoa, com fatores genéticos e neuroquímicos
(neurotransmissores cerebrais) somados a fatores ambientais, sociais e psicológicos,
como:

Estresse
Estilo de vida
Acontecimentos vitais, tais como crises e separações conjugais, morte na família,
climatério, crise da meia-idade, entre outros.

Como se diagnostica a depressão?

Na depressão a intensidade do sofrimento é intensa, durando a maior parte do dia por


pelo menos duas semanas, nem sempre sendo possível saber porque a pessoa está assim.
O mais importante é saber como a pessoa sente-se, como ela continua organizando a sua
vida (trabalho, cuidados domésticos, cuidados pessoais com higiene, alimentação,
vestuário) e como ela está se relacionando com outras pessoas, a fim de se diagnosticar
a doença e se iniciar um tratamento médico eficaz.
53

O que sente a pessoa deprimida?

Freqüentemente o indivíduo deprimido sente-se triste e desesperançado, desanimado,


abatido ou " na fossa ", com " baixo-astral ". Muitas pessoas com depressão, contudo,
negam a existência de tais sentimentos, que podem aparecer de outras maneiras, como
por um sentimento de raiva persistente, ataques de ira ou tentativas constantes de culpar
os outros, ou mesmo ainda com inúmeras dores pelo corpo, sem outras causas médicas
que as justifiquem. Pode ocorrer também uma perda de interesse por atividades que
antes eram capazes de dar prazer à pessoa, como atividades recreativas, passatempos,
encontros sociais e prática de esportes. Tais eventos deixam de ser agradáveis.
Geralmente o sono e a alimentação estão também alterados, podendo haver diminuição
do apetite, ou mesmo o oposto, seu aumento, havendo perda ou ganho de peso. Em
relação ao sono pode ocorrer insônia, com a pessoa tendo dificuldade para começar a
dormir, ou acordando no meio da noite ou mesmo mais cedo que o seu habitual, não
conseguindo voltar a dormir. São comuns ainda a sensação de diminuição de energia,
cansaço e fadiga, injustificáveis por algum outro problema físico.

Como é o pensamento da pessoa deprimida?

Pensamentos que freqüentemente ocorrem com as pessoas deprimidas são os de se


sentirem sem valor, culpando-se em demasia, sentindo-se fracassadas até por
acontecimentos do passado. Muitas vezes questões comuns do dia-a-dia deixam os
indivíduos com tais pensamentos. Muitas pessoas podem ter ainda dificuldade em
pensar, sentindo-se com falhas para concentrar-se ou para tomar decisões antes
corriqueiras, sentindo-se incapazes de tomá-las ou exagerando os efeitos "catastróficos"
de suas possíveis decisões erradas.

Pensamentos de morte ou tentativas de suicídio

Freqüentemente a pessoa pode pensar muito em morte, em outras pessoas que já


morreram, ou na sua própria morte. Muitas vezes há um desejo suicida, às vezes com
tentativas de se matar, achando ser esta a " única saída " ou para " se livrar " do
sofrimento, sentimentos estes provocados pela própria depressão, que fazem a pessoa
culpar-se, sentir-se inútil ou um peso para os outros. Esse aspecto faz com que a
depressão seja uma das principais causas de suicídio, principalmente em pessoas
deprimidas que vivem solitariamente. É bom lembrar que a própria tendência a isolar-se
é uma conseqüência da depressão, a qual gera um ciclo vicioso depressivo que resulta
na perda da esperança em melhorar naquelas pessoas que não iniciam um tratamento
médico adequado.

Sentimentos que afetam a vida diária e os relacionamentos pessoais

Freqüentemente a depressão pode afetar o dia-a-dia da pessoa. Muitas vezes é difícil


iniciar o dia, pelo desânimo e pela tristeza ao acordar. Assim, cuidar das tarefas
habituais pode tornar-se um peso: trabalhar, dedicar-se a uma outra pessoa, cuidar de
filhos, entre outros afazeres podem tornar-se apenas obrigações penosas, ou mesmo
impraticáveis, dependendo da gravidade dos sintomas. Dessa forma, o relacionamento
com outras pessoas pode tornar-se prejudicado: dificuldades conjugais podem acentuar-
se, inclusive com a diminuição do desejo sexual; desinteresse por amizades e por
54

convívio social podem fazer o indivíduo tender a se isolar, até mesmo dificultando a
busca de ajuda médica.

Como se trata a depressão?

A depressão é uma doença reversível, ou seja, há cura completa se tratada


adequadamente. O tratamento médico sempre se faz necessário, sendo o tipo de
tratamento relacionado ao perfil de cada paciente. Pode haver depressões leves, com
poucos aspectos dos problemas mostrados anteriormente e com pouco prejuízo sobre as
atividades da vida diária. Nesses casos, o acompanhamento médico é fundamental, mas
o tratamento pode ser apenas psicoterápico.

Pode haver também casos de depressões bem mais graves, com maior prejuízo sobre o
dia-a-dia do indivíduo, podendo ocorrer também sintomas psicóticos (como delírios e
alucinações) e ideação ou tentativas de suicídio. Nessa situação, o tratamento
medicamentoso se faz obrigatório, além do acompanhamento psicoterápico.

Os medicamentos utilizados são os antidepressivos, medicações que não causam


“dependência”, são bem toleradas e seguras se prescritas e acompanhadas pelo médico.
Em alguns casos faz-se necessário associar outras medicações, que podem variar de
acordo com os sintomas apresentados (ansiolíticos, antipsicóticos).

Colaboradoras

Dra. Alice Sibile Koch


Dra. Dayane Diomário da Rosa

...
55

DEPRESSÃO PÓS-PARTO

O pós-parto é um período de risco psiquiátrico aumentado no ciclo de vida da mulher. A


depressão pós-parto, também conhecida como postpartum blues, pode se manifestar
com intensidade variável, tornando-se um fator que dificulta o estabelecimento de um
vínculo afetivo seguro entre mãe e filho, podendo interferir nas futuras relações
interpessoais estabelecidas pela criança.

Apesar das controvérsias, vários fatores podem ser mencionados como possível causa
da depressão pós-parto, entre eles:

Fatores biológicos

São os resultantes da grande variação nos níveis de hormônios sexuais (estrogênio e


progesterona) circulantes e de uma alteração no metabolismo das catecolaminas
causando alteração no humor, podendo contribuir para a instalação do quadro
depressivo.

Fatores psicológicos

São os originados de sentimentos conflituosos da mulher em relação:

a si mesma, como mãe


ao bebê
ao companheiro
a si mesma, como filha de sua própria mãe

Outros fatores, relacionados às condições do parto, à situação social e familiar da


mulher gerando sobrecarga, também podem desencadear esses distúrbios.

Sintomatologia

A intensidade dos sintomas geralmente define os diferentes quadros depressivos do


período pós-parto. A depressão pós-parto (Postpartum blues), é um distúrbio emocional
comum, podendo ser considerada uma reação esperada no período pós-parto imediato e
que geralmente ocorre na primeira semana depois do nascimento da criança. Entre 50%
a 80% de todas as mulheres apresentarão reações emocionais.

Os sintomas incluem crises de choro, fadiga, humor deprimido, irritabilidade,


ansiedade, confusão e lapsos curtos de memória. As reações emocionais não psicóticas
ocorridas no período de pós-parto se resolvem espontaneamente em até seis meses,
sendo que o manejo consiste em deixar a paciente verbalizar seus sentimentos,
enfatizando a normalidade da sua alteração.

Psicose Puerperal e Síndrome Depressiva Crônica


56

São quadros depressivos que também ocorrem no período do pós-parto.

Na Psicose Puerperal, os sintomas aparecem nos três primeiros meses pós-parto e são
mais intensos e duradouros, com episódios psicóticos, necessitando acompanhamento
psicológico e internação hospitalar.

A Síndrome Depressiva Crônica é um episódio depressivo e não psicótico, com humor


disfórico, distúrbio do sono, modificação do apetite, fadiga, culpa excessiva e
pensamentos suicidas. O tratamento deve ser psicológico e medicamentoso, pois os
sintomas podem persistir por até um ano.

Desde o século passado existem publicações sobre os transtornos do período pós-parto


e, apesar do assunto ainda causar controvérsias, é importante o seu diagnóstico precoce,
ajudando as mulheres na resolução de seus conflitos para o estabelecimento de vínculos
adequados entre a mãe e seu filho.

Perguntas que você pode fazer ao seu médico

Meu filho nasceu há poucos dias, estou me sentindo muito triste e incapaz de cuidar
dele, isto é normal?

Por que a mulher tem um risco maior de crises depressivas no pós-parto?

Qual o período para determinar uma depressão pós-parto?

Qual a causa da depressão pós-parto?

Quando a depressão pós-parto deve ser tratada com medicamentos?

...

DISTIMIA - ESTADO CRÔNICO DE DEPRESSÃO

Sinônimos e nomes populares:


57

Transtorno distímico, neurose depressiva, depressão neurótica, neurastenia, transtorno


depressivo de personalidade.

O que é?

A distimia é uma doença do humor, como a depressão, porém ocorrendo de uma forma
crônica, com a persistência de tristeza por longo tempo (pelo menos dois anos), durando
a maior parte do dia, na maioria dos dias.

O que se sente?

Além do humor triste de forma prolongada, a pessoa pode sentir o apetite aumentado ou
diminuído, insônia ou muita sonolência, sensação de baixa energia e cansaço, baixa
auto-estima, com pensamentos de não ter valor ou ser incapaz, apresentando ainda
dificuldade em concentrar-se ou em tomar decisões, além de ter sentimentos de falta de
esperança. Não necessariamente todos esses sintomas deverão estar presentes, mas
muitos são comuns.

Diferentemente da depressão, a distimia pode deixar o indivíduo com a sensação de que


este é o seu jeito normal de ser, com dizeres como "sempre fui desse jeito ". Há,
portanto, uma perda de autocrítica quanto à doença, o que, somado ao baixo interesse
em várias áreas da vida, pode levar ao isolamento ou a uma vida limitada, com poucos
relacionamentos sociais, inclusive dificuldades profissionais e familiares. Normalmente
não há um período mais agudo da doença, com os sintomas sendo mantidos de uma
forma estável durante anos, porém é comum ocorrer a depressão propriamente dita em
uma pessoa previamente com distimia, o que costuma ser chamado de depressão dupla.
Em outros casos, pode ocorrer inicialmente um episódio depressivo, em que não ocorre
remissão total dos sintomas, e que o quadro clínico residual caracteriza um episódio
distímico.

Como se desenvolve?

A distimia freqüentemente começa cedo na vida, na infância, adolescência ou início da


idade adulta, por isso facilmente confundindo-se com o jeito de ser da pessoa. Em
crianças, muitas vezes expressa-se por irritabilidade e mau humor, ou então pode
parecer “boazinha” demais, sendo uma criança que brinca e permanece quieta a maior
parte do tempo, que não faz bagunça, não incomoda, e não raro, diz-se que esse é o
“jeitinho” dela. Em adolescentes pode associar-se principalmente à rebeldia e
irritabilidade, mas isolamento e abuso de drogas podem ocorrer.

Qual a importância de se tratar a distimia?

Comumente a pessoa com distimia não procura tratamento por esse problema. Porém,
esta é uma doença freqüentemente associada a outras, como depressão, transtornos de
ansiedade (principalmente transtorno do pânico), abuso de álcool e drogas e múltiplas
queixas físicas (dores, por exemplo) de origem psicológica. Portanto, são pessoas que
terminam por recorrer a vários tratamentos médicos, muitas vezes usando várias
medicações, mas não tratando especificamente a distimia.
58

Como se trata?

A distimia em geral requer tratamento medicamentoso e psicoterápico. A medicação


utilizada geralmente envolve antidepressivos, e nos casos em que há comorbidade com
outras patologias, o tratamentos destas também se faz necessário. A psicoterapia é
fundamental no tratamento desses pacientes, podendo ser cognitivo-comportamental, ou
de orientação analítica. Em alguns casos, a terapia familiar pode auxiliar na melhora do
paciente e de sua família, uma vez que eles vem há muitos anos com um padrão
disfuncional de comportamento e relacionamento entre os membros.

Colaboradoras
Dra. Alice Sibile Koch
Dra. Dayane Diomário da Rosa

....

REAÇÕES DEPRESSIVAS NORMAIS E DE AJUSTAMENTO

Depressão é um problema médico que requer tratamento. Porém, não é sempre que a
palavra depressão é utilizada neste sentido. Às vezes esse termo é utilizado pela
população leiga, para se referir à sensação de tristeza, desânimo, vontade de chorar, sem
necessariamente caracterizar um episódio depressivo.

O termo depressão, contudo, quando utilizado como sinônimo da doença depressão


(transtorno depressivo), significa uma alteração geral no estado de humor da pessoa, que
inclui sintomas físicos como alterações de sono e de apetite, podendo apresentar
também queixas somáticas como dores de cabeça, dor de estômago e dores musculares.
Também apresenta como parte dos sintomas, tristeza, desânimo, dificuldade em sentir
alegria ou prazer, falta de vontade ou de interesse para realizar atividades que
anteriormente gostava.

Porém deve ser levado em consideração que tristeza, desânimo e falta de prazer não
serão sempre e necessariamente sinônimos de doença.
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Existem relações da vida de qualquer pessoa que serão marcadas pela tristeza,
como:

Luto pela morte de um familiar ou amigo


A separação no casamento
A demissão de um emprego
O fracasso em um concurso
entre incontáveis outros eventos.

O limite entre o que é doença e o que é uma reação normal à vida, depende de quão
intenso é o sofrimento da pessoa e de como ela reage no seu cotidiano aos fatores que a
estão deixando triste.

Podemos, assim, agrupar em quatro modalidades os estados depressivos, principalmente


de acordo com a intensidade do sofrimento psíquico. São eles:

Reações normais de depressão: luto e pesar


Reações de ajustamento depressivo
Distimia ou estado crônico de depressão
Depressão (transtorno depressivo).

Apenas os três últimos são considerados doenças, sendo a última modalidade o que se
denomina transtorno depressivo, ou depressão maior, a depressão propriamente dita.

REAÇÕES NORMAIS DE DEPRESSÃO: LUTO E PESAR

Uma reação normal de tristeza ocorre quando um acontecimento da vida tira a pessoa de
seu estado habitual de humor, mas ela retorna espontaneamente a ele após cessado o seu
período de tristeza.

Um jovem que estuda durante longo período para o vestibular pode entristecer-se
quando recebe o resultado negativo, a reprovação e chorar, tornar-se desanimado por
alguns dias; mas na semana seguinte faz sua matrícula para mais um semestre de pré-
vestibular. Um término de namoro, uma discussão séria no casamento, a doença de uma
pessoa querida, vários podem ser os fatores que deixam alguém com pesar: sentimento
de tristeza, desânimo, sensação de falta de prazer com tarefas que antes davam
satisfação, choro mais fácil, dificuldade de concentração para trabalhar ou estudar.
Porém são sentimentos que têm uma pequena duração no tempo, por dias ou semanas,
no máximo, que geralmente não perduram o dia inteiro, não impedindo a pessoa de se
cuidar, de fazer suas obrigações profissionais e sociais.

Da mesma forma pode ocorrer com o sentimento de perda, a sensação de vazio


passageira, bem limitada no tempo, pela morte de um familiar próximo ou amigo. Ou
ainda pela perda de um emprego, pelo fim de um casamento, pela mudança de cidade do
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filho que vai estudar, ou até, muitas vezes, pela decepção de um projeto de vida, que
não seja mais possível realizar. Esse sentimento de perda caracteriza a tristeza do luto.

São, portanto, reações normais aos acontecimentos mais difíceis da vida de qualquer
pessoa, que se instalam e persistem por alguns dias ou semanas, e em seguida cessam,
gradualmente. A maioria das vezes tais reações depressivas não requerem tratamento,
mas algumas vezes um tratamento médico baseado em psicoterapia é aconselhado,
mesmo por um curto período, pois não raro essas reações normais podem ser também
fatores que desencadeiam um estado de depressão que se prolongue mais que o normal.

REAÇÕES DE AJUSTAMENTO DEPRESSIVO

São reações um pouco mais graves que as vistas nas reações depressivas normais da
vida, mas não tão intensas quanto acontece na depressão propriamente dita.

Ocorre geralmente um estado de angústia com humor deprimido, ansiedade,


preocupação e um sentimento de incapacidade de adaptação que surgem após um
acontecimento de vida estressante, como separações, mortes na família, acidentes,
doenças físicas graves, entre outros sentimentos. O início dos sintomas é usualmente
dentro de um mês da ocorrência do evento estressante, freqüentemente não excedendo 6
meses de duração. Em geral são eventos normais (mesmo que indesejáveis) da vida, que
causam estresse e angústia, ou mudanças de vida, mas que resultam em uma reação na
pessoa que é um pouco mais severa do que o esperado, sendo mais intensa e persistindo
por mais tempo. Geralmente requerem um tratamento médico com psicoterapia,
raramente com uso de medicação por um curto período.

É caracterizada por um período longo (mais de 2 anos em adultos e mais de 1 ano em


crianças) em que a pessoa se sente constantemente triste e desanimada. Não chega a ser
uma tristeza tão intensa ou incapacitante como o que ocorre nos episódios de depressão
maior. Porém, em razão de sua cronicidade e persistência, causa muito prejuízo e
sofrimento, tendo repercussões sobre diversas esferas como trabalho, vida social e
afetiva. Um episódio de distimia pode ser subseqüente a uma depressão com remissão
parcial dos sintomas ou então à uma reação de ajustamento depressivo que não se
resolveu ou que não foi tratada. Geralmente há necessidade de associar tratamento
medicamentoso à psicoterapia (ou comportamental ou de orientação analítica).

Colaboradoras
Dra. Alice Sibile Koch
Dra. Dayane Diomário da Rosa

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TRANSTORNO DE PÂNICO

O que é?

O Transtorno de Pânico se caracteriza pela ocorrência espontânea de ataques de pânico.


Os ataques de pânico duram quase sempre menos de uma hora com intensa ansiedade
ou medo, junto com sintomas como palpitações, respiração ofegante e até mesmo medo
de morrer. A pessoa pode ter múltiplos ataques durante um único dia até, apenas, alguns
ataques durante um ano. Estes ataques podem ocorrer acompanhados por agorafobia,
que é o medo de estar sozinho em locais públicos, especialmente, locais de onde uma
rápida saída seria difícil em caso de ocorrer um ataque de pânico.

O que se sente?

O primeiro ataque de pânico muitas vezes é completamente espontâneo, embora os


ataques de pânico, em geral, ocorram após excitação, esforço físico, atividade sexual ou
trauma emocional. O ataque freqüentemente começa com um período de 10 minutos de
sintomas que aumentam rapidamente. Pode se sentir extremo medo e uma sensação de
morte e catástrofe iminente. As pessoas, em geral, são incapazes de indicar a fonte de
seus medos. Pode haver dificuldade de concentração, confusão, aceleração do coração,
palpitações, falta de ar, dificuldade para falar e um enorme medo de morrer. O ataque
dura de 20 a 30 minutos, raramente mais de uma hora.

Como se faz o diagnóstico?

O médico diagnostica o transtorno de pânico através do relato contado pelo paciente,


procurando diferenciar de outras doenças físicas ou psicológicas. Muitas vezes a pessoa
procura ajuda quando nota que não está mais conseguindo sair sozinha de casa por
medo que ocorra um ataque de pânico.

Como se trata?

A pessoa deve procurar um médico que provavelmente irá associar um modelo de


psicoterapia com uma medicação. Os sintomas melhoram dramaticamente nas primeiras
semanas de tratamento. Atualmente os medicamentos mais empregados são os
antidepressivos. Os sintomas melhoram consideravelmente nas primeiras semanas de
tratamento.
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Colaboradoras
Dra. Alice Sibile Koch
Dra. Dayane Diomário da Rosa

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TRANSTORNOS MENTAIS NA ADOLESCÊNCIA

A Adolescência é um período de intensas atividades e transformações na vida mental do


indivíduo, o que, por si só, leva a diversas manifestações de comportamento que podem
ser interpretadas por leigos como sendo doença. Assim sendo, muitas das manifestações
ditas normais da adolescência podem se confundir com doenças mentais ou
comportamentos inadequados.

Exemplo disso é o uso de drogas, que pode constituir-se em um caso de dependência,


mas também pode constituir-se em um simples comportamento de experimentação da
vida. Temos de ter o cuidado inicialmente de avaliar bem o comportamento de um
adolescente, antes de se garantir a existência ou não de um transtorno mental. Para tanto
é necessário se conhecer um pouco acerca do que chamamos de "adolescência normal".

Adolescência Normal

A adolescência é a fase da vida em que a pessoa se descobre como indivíduo separado


dos pais. Isso gera um sentimento de curiosidade e euforia, porém também gera
sentimentos de medo e inadequação. Um adolescente está descobrindo o que é ser
adulto, mas não está plenamente pronto para exercer as atividades e assumir as
responsabilidades de ser adulto. Assim sendo ele procura exemplos, de pessoas
próximas ou não - ídolos artísticos ou esportivos, entre outros - para construir seu
caráter e seu comportamento.

Também é visível a necessidade do adolescente de contrariar a vontade ou as idéias dos


pais. Esse comportamento opositor aos pais acontece em decorrência da necessidade do
adolescente de separar-se dos pais, ser diferente deles, para construir sua própria
identidade como pessoa. Ao mesmo tempo, o adolescente pode não se ver capaz ainda
de se separar desses pais, gerando então nele um sentimento de medo. De um lado a
necessidade de separar-se dos pais para ser um indivíduo diferente e de outro lado a
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dificuldade de assumir a posição adulta (com suas responsabilidades e desejos) levam o


adolescente a uma fase de intensa confusão de sentimentos, com uma constante
mudança de opiniões e metas, e com um comportamento bastante impulsivo.

Embora haja grande quantidade de conhecimento existente hoje sobre esse assunto, é
necessário alertar que muitos dos comportamentos atípicos manifestados pelos
adolescentes podem apenas ser uma busca por sua identidade, e não uma doença mental
específica.

Cabe também lembrar que muitas vezes os adolescentes necessitam de ajuda


profissional nesse processo de "ser adulto", o qual, mesmo não se constituindo em
doença mental, pode constituir-se em sofrimento para o adolescente, podendo ele
beneficiar-se, e muito, de intervenções psicológicas.

Dentre os transtornos mais comuns vistos na adolescência, destacam-se os seguintes:

Transtornos do Humor

É o grupo onde se incluem as doenças depressivas, de certo modo comuns na


adolescência, acompanhadas das mais diversas manifestações. Podem apresentar humor
deprimido (tristeza) acentuado ou irritabilidade (que por si só pode ser manifestação
normal da adolescência), perda de interesse ou prazer em suas atividades, perda ou
ganho de peso, insônia ou excesso de sono e abuso de substâncias psicoativas (mais
comumente álcool, porém até outras drogas). O tratamento desses transtornos envolve o
uso de fármacos (antidepressivos), associados a psicoterapia.

Transtornos Alimentares

Onde se incluem a Bulimia (ataques de "comer" compulsivo seguidos, muitas vezes, do


ato de vomitar) e Anorexia (diminuição intensa da ingesta de alimentos). A pessoa
demonstra um "pavor" de engordar, tomando atitudes exageradas ou não necessárias
para emagrecer, mantendo peso muito abaixo do esperado para ela. O tratamento desses
transtornos envolve uma equipe multidisciplinar (psiquiatra, nutricionista), fármacos
antidepressivos e psicoterapia, necessitando em alguns casos de intervenções na família.

Transtornos do Uso de Substâncias Psicoativas

O uso de drogas, como é conhecido, é um tipo de alteração de comportamento bastante


visto na adolescência. A dependência de drogas, que é o transtorno mais grave desse
grupo, manifesta-se pelo uso da substância associado a uma necessidade intensa de ter a
droga, ausência de prazer nas atividades sem a droga e busca incessante da droga,
muitas vezes envolvendo-se em situações ilegais ou de risco para se conseguir a mesma
(roubo e tráfico). O tratamento envolve psicoterapia, educação familiar e alguns
fármacos, por vezes necessitando internação hospitalar.

Transtornos de Conduta

Caracterizam-se por comportamentos repetitivos de contrariedade a normas e padrões


sociais, conduta agressiva e desafiadora. Constitui-se em atitudes graves, sendo mais do
que rebeldia adolescente e travessuras infantis normais. Essas pessoas envolvem-se em
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situações de ilegalidade e violações do direito de outras pessoas. Aparecem roubos,


destruição de patrimônio alheio, brigas, crueldade e desobediência intensa como
algumas das manifestações. O tratamento envolve basicamente psicoterapia, podendo-se
utilizar alguns fármacos no controle da impulsividade desses pacientes. São transtornos
de difícil manejo, e muitas vezes necessitam de intervenções familiares e sociais.

Transtornos de Ansiedade

Os transtornos de ansiedade incluem desde a ansiedade de separação e a fobia escolar,


condições que ocorrem quase que exclusivamente na infância, até o transtorno
obsessivo compulsivo, transtorno de ansiedade generalizada, estresse pós-traumático,
síndrome do pânico e fobias. Pessoas que vivem com um grau muito intenso de
ansiedade podem chegar a ter prejuízos no seu funcionamento, por exemplo social, em
decorrência dessa ansiedade. Além de causar importante sofrimento físico e psicológico,
as conseqüências dos sintomas ansiosos costumam ser desmoralizantes e incapacitantes
em mais de uma esfera, como por exemplo social, ocupacional, escolar e familiar. Os
sintomas podem iniciar tanto na infância quanto na adolescência , e podem ser tanto
primários, quanto secundários ou ocorrerem em comorbidade com outros sintomas
psiquiátricos. O tratamento envolve basicamente psicoterapia, podendo-se recorrer a
alguns fármacos como coadjuvantes.

Pessoas que vivem com um grau muito intenso de ansiedade, chegando a ter prejuízos
no seu funcionamento, por exemplo social, em decorrência dessa ansiedade. Pode
aparecer na adolescência sob a forma de ansiedade de separação, geralmente dos pais,
aparecendo em adolescentes que não conseguem manter atividades sem a presença dos
mesmos. São extremamente tímidos, e muitas vezes, não conseguem obter prazer em
quase nenhuma atividade fora de casa. O tratamento envolve basicamente psicoterapia,
podendo-se recorrer a alguns fármacos como coadjuvantes.

Transtornos Psicóticos

Nessa fase da vida muitos transtornos psicóticos, por exemplo a esquizofrenia, iniciam
suas manifestações. Esses transtornos são graves, muitas vezes necessitam internação
hospitalar e são caracterizados por comportamentos e pensamentos muito bizarros e
distorcidos frente a realidade. O tratamento baseia-se em tratamento medicamentoso
com o uso de antipsicóticos e psicoterapia de apoio. São transtornos, em sua maioria,
cronificantes, principalmente se não tratados.

Suicídio na Adolescência

Muitos transtornos da adolescência podem se manifestar com comportamento suicida.


Tentativas ou ameaças de suicídio podem aparecer. Alguns comportamentos de
exposição e risco (dirigir em alta velocidade ou embriagado, envolvimento em brigas ou
em atividades de risco, entre outras) também podem ser sinais de comportamento
suicida na adolescência, mesmo sem a manifestação explícita dessa intenção. O
comportamento impulsivo do adolescente, acarreta um risco maior de tentativas de
suicídio mesmo na ausência de sintomas depressivos ou uma clara ideação suicida, o
que torna o adolescente muito mais vulnerável a este tipo de comportamento.

Cuidados a tomar na Avaliação Diagnóstica


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São muitas as possibilidades de transtornos mentais nessa fase da vida, mas todas as
situações devem ser muito bem avaliadas antes de se fechar um diagnóstico,
principalmente na adolescência. Além das dificuldades pessoais dos adolescentes e de
sua intensa modificação corporal e mental, o que por si só já pode gerar
comportamentos e sentimentos de inadequação, suas atitudes podem ainda refletir
problemáticas familiares. Assim sendo, sem uma devida avaliação do adolescente é, no
mínimo imprudente, caracterizá-lo como tendo uma doença mental específica.

Colaboradoras
Dra. Alice Sibile Koch
Dra. Dayane Diomário da Rosa

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MITOS E TABUS SEXUAIS

MASTURBAÇÃO É DOENÇA E UM PECADO?

A masturbação é um comportamento absolutamente normal e pode estar presente em


qualquer idade. As fantasias vinculadas a ela e o ato em si são fontes de culpa
universais. É muito importante que os pais possam permitir esse comportamento em
seus filhos, oferecendo a privacidade necessária a eles, evitando que suas próprias
vergonhas e repressões afetem o início da vida sexual de suas crianças.

Evite propagação de mitos como os que dizem que quem se masturba fica louco,
epiléptico, esquizofrênico e com um anormal crescimento de pêlos nas mãos.

É necessário enfatizar que a masturbação é um ensaio essencial para a realização sexual


de um adulto.

Deve-se sempre respeitar a crença religiosa das pessoas, mas também saber que a
masturbação já foi considerada pecado religioso no que tange ao desperdício de sêmen
(esperma). Na religião, o ato sexual deveria sempre visar a reprodução, a geração de
mais filhos.

O SEXO É SUJO?
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Não há sujeira alguma nas secreções vaginais. Normalmente, o muco presente na vagina
é responsável pela lubrificação para a atividade sexual não ser dolorosa (devido ao atrito
do pênis) e pela manutenção da flora vaginal saudável. Ele é produzido de forma similar
à saliva da boca. Somente em condições de infecções (vulvovaginites) podemos
observar mal cheiro, sintomas de ardência e coceira na região. Para o sêmen a situação é
a mesma. Este é composto por secreções que ajudam a lubrificação e o deslocamento
dos espermatozóides. Em condições normais, não há infecções (germens).

Pelo fato de o sistema urológico (sistema para eliminar a urina) estar próximo
anatomicamente ao sistema genital, há uma certa confusão. Na mulher, existe um
orifício por onde sai a urina que se chama orifício uretral. A urina não sai pela vagina.
São dois orifícios diferentes. No homem, tanto a urina quanto o esperma saem pelo
mesmo orifício uretral localizado na cabeça do pênis. A urina, em boas condições de
saúde, não apresenta infecções e mau cheiro.

SEXO É DESGASTANTE?

Algumas pessoas acreditam que quanto mais se faz sexo, menos sexo vai sobrar para as
relações futuras. Mas o sexo não gasta não! O que ocorre é que há uma variação na
freqüência sexual de acordo com a idade da pessoa. O hormônio responsável pelo
desejo sexual é a testosterona. Essa substância diminui um pouco em sua produção com
o passar dos anos, além de o próprio corpo ficar mais fatigado com a idade. Então não
deve existir preocupação com o numero de ejaculações ou orgasmos na juventude. Isso
não vai privá-lo de sexo após os 40, com certeza.

O HOMEM SEMPRE DEVE ESTAR APTO E PRONTO PARA O SEXO?

Existe uma cobrança e uma exigência social que impõe ao homem uma postura de
urgência ao sexo. Ele sempre deve "estar a fim" (no sentido de obrigação mesmo). Não
será uma carga muito grande sobre os ombros dele? A verdade é que isso também é um
mito. O homem nem sempre está disponível para o sexo. Existe uma tendência
conforme a idade e as características individuais de cada um. Normalmente o jovem tem
maior disposição ao sexo. Tem mais apoio social para procurar alívio sexual que a
jovem mulher.

Na puberdade, apresenta maior freqüência de atividade sexual e de masturbação quando


comparado á mulher de mesma idade. Tem o período refratário curto (vide Ciclo da
Resposta Sexual Humana) e ansiedade constante em ejacular. No homem mais velho, o
período refratário aumenta, tal como a saciedade (satisfação sexual plena após atividade
sexual).

Cedo pela manhã, devido a um específico estágio do sono, há maior tendência de se ter
ereções (as chamadas "ereções do mijo"). Mas ao longo do dia, a vontade sexo pode
variar e até pode ser absolutamente normal um homem não apresentar desejo sexual
algum. Só surge problema quando ele encuca.

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TRANSTORNO DE ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO

O que é?

O transtorno de estresse pós-traumático acontece quando se vivencia um trauma


emocional de grande magnitude. Esses traumas incluem guerras, catástrofes naturais,
agressão física, estupro e sérios acidentes. Geralmente as situações estão relacionadas a
uma ameaça real ou possível à sua vida ou integridade física e mental.

O transtorno de estresse pós-traumático engloba as seguintes características:

Reviver o trauma através de sonhos e de pensamentos;

Evitar persistentemente fatos, objetos ou quaisquer situações que lembrem o


trauma

Medo de que a situação venha a se repetir

Sensações físicas de desconforto e ansiedade que podem ser desencadeados


pela simples recordação mental do trauma.

O que se sente?

A pessoa tem recordações com muita aflição, incluindo imagens ou pensamentos do


trauma vivenciado. Sonhos amedrontadores também podem ocorrer e o indivíduo pode
agir ou sentir como se o evento traumático estivesse ocorrendo novamente. Um grande
sofrimento psicológico se desenvolve quando surgem lembranças de algum aspecto do
trauma. Há uma intensa necessidade de se evitar sentimentos, pensamentos, conversas,
pessoas ou lugares que ativem recordações do trauma. Também pode ocorrer uma
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incapacidade de se recordar algum aspecto importante do trauma, uma dificuldade em


conciliar e manter o sono, irritabilidade ou surtos de raiva e baixa concentração.

Em crianças pequenas podem ocorrer jogos repetitivos com expressão de temas ou


aspectos do trauma, sonhos amedrontadores sem um conteúdo identificável e encenação
específica do trauma.

Como se faz o diagnóstico?

O transtorno de estresse pós-traumático pode se desenvolver algum tempo após o


trauma. O intervalo pode ser breve como uma semana, ou longo como trinta anos. Os
sintomas podem variar ao longo do tempo e se intensificar durante períodos de estresse.
As crianças e os idosos têm mais possibilidade de desenvolver estresse pós-traumático
do que as pessoas na meia idade. Por exemplo, cerca de 80% das crianças que sofrem
uma queimadura extensa mostra sintomas de transtorno de estresse pós-traumático um a
dois anos após o ferimento. Em vista disso, cabe ao médico uma ampla investigação em
relação aos sintomas do paciente para um correto diagnóstico.

Como se trata?

A pessoa deve procurar um psiquiatra que irá abordar o evento com técnicas de apoio e
encorajamento. A medicação muitas vezes se faz necessária para um alívio inicial e uma
melhor abordagem do quadro. Um apoio adicional para a família do paciente
geralmente é indicado.

Colaboradoras
Dra. Alice Sibile Koch
Dra. Dayane Diomário da Rosa

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TRANSTORNO OBSESSIVO-COMPULSIVO
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O que é?

É uma doença em que o indivíduo apresenta obsessões e compulsões, ou seja, sofre de


ideias e/ou comportamentos que podem parecer absurdos ou ridículos para a própria
pessoa e para os outros e mesmo assim são incontroláveis, repetitivas e persistentes. A
pessoa é dominada por pensamentos desagradáveis de natureza sexual, religiosa,
agressiva entre outros, que são difíceis de afastar de sua mente, parecem sem sentido e
são aliviados temporariamente por determinados comportamentos.

As obsessões são pensamentos recorrentes caracterizados por serem desagradáveis,


repulsivos e contrários à índole do paciente. Tais pensamentos não são controláveis
pelos próprios pacientes e causam significativa perda de tempo, sofrimento pessoal e
queda no rendimento em atividades. Há perda do controle sobre os pensamentos, e às
vezes ocorrem atitudes ou comportamentos que visam neutralizar a ansiedade causada
por tais pensamentos. Assim, compulsões podem ocorrer secundariamente às obsessões.

As compulsões são comportamentos, gestos, rituais ou atitudes muitas vezes iguais e


repetitivas, conscientes e quase sempre incontroláveis. Os pacientes mantêm a crítica
sobre suas atitudes, percebem o fato como absurdo e não sabem ou não entendem o que
está acontecendo. Têm medo de ficar loucos e sentem vergonha de contar a outras
pessoas, ou até mesmo a um médico o que está acontecendo.

Acomete 2 a 3% da população geral. A idade média de início costuma ser por volta dos
20 anos, porém pode ter início ainda na infância, e acomete tanto homens como
mulheres. Depressão Maior e Fobia Social são doenças que podem acometer os
pacientes com Transtorno Obsessivo-Compulsivo ao longo da vida.

O que se sente?

Frequentemente as pessoas acometidas por este transtorno escondem de amigos e


familiares essas ideias e comportamentos, tanto por vergonha quanto por terem noção
do absurdo das exigências auto impostas. Muitas vezes desconhecem que esses
problemas fazem parte de um quadro psiquiátrico tratável e cada vez mais responsivo à
medicamentos específicos e à psicoterapia. As obsessões tendem a aumentar a
ansiedade da pessoa ao passo que a execução de compulsões a reduz. Porém, se uma
70

pessoa resiste a realização de uma compulsão ou é impedida de fazê-la surge intensa


ansiedade. A pessoa percebe que a obsessão é irracional e a reconhece como um
produto de sua mente, experimentando tanto a obsessão quanto a compulsão como algo
fora de seu controle e desejo, o que causa muito sofrimento. Pode ser um problema
incapacitante porque as obsessões podem consumir tempo (muitas horas do dia) e
interferirem significativamente na rotina normal do indivíduo, no seu trabalho, em
atividades sociais ou relacionamentos com amigos e familiares. Algumas vezes os
sintomas obsessivos, dependendo da severidade, podem se confundir com sintomas
psicóticos e delirantes, ou estarem associados a eles, o que torna o tratamento ainda
mais difícil.

Como se faz o diagnóstico?

O diagnóstico é clínico, ou seja, baseado nos sintomas do paciente. Nenhum exame


laboratorial ou de imagem é utilizado para o diagnóstico.

Como se trata?

O tratamento deve ser individualizado, dependendo das características e da gravidade


dos sintomas que o paciente apresenta. Em linhas gerais, contudo, utiliza-se a
psicoterapia de orientação dinâmica ou cognitivo-comportamental associada com
tratamento farmacológico (antidepressivos) em doses bem elevadas. Em casos
resistentes às terapias convencionais e naqueles em que há a concomitância com
sintomas delirantes, a associação com medicações antipsicóticas pode ser feita com
melhor resposta.

Colaboradoras
Dra. Alice Sibile Koch
Dra. Dayane Diomário da Rosa

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FOBIA ESPECÍFICA

O que é?

O medo é uma reação que normalmente ocorre nas pessoas e tem por função nos
proteger do perigo. Constitui-se em uma emoção universalmente experimentada e em
até certo grau, fundamental à vida. É o medo que nos faz cuidar na hora de atravessar a
rua, que nos protege de enfrentar situações onde nossa vida ou integridade possam estar
correndo perigo. Porém quando o medo se torna excessivo e passa a atrapalhar a vida do
indivíduo, ao invés de o auxiliar, ele pode ser considerado uma fobia. Os quadros
fóbicos têm como característica a evitação consciente de um objeto ou de uma
determinada situação, tal como, medo de voar, de altura, de animais, de tomar uma
injeção ou ver sangue.

O que se sente?

Medo exagerado, acentuado e persistente, irracional ou excessivo, de um objeto ou


circunstância fóbica. A exposição ao estímulo fóbico (objeto ou situação) provoca uma
resposta imediata de ansiedade. A ansiedade é caracterizada por sudorese, batimentos
rápidos do coração, tremor das mãos, falta de ar, sensação de "frio" na barriga e mal-
estar.

Dependendo da intensidade desses sintomas, a pessoa pode desencadear um ataque de


pânico, sentindo-se muito mal, e por vezes com a sensação de morte iminente. Todo
esse conjunto de sintomas reforçam ainda mais o pensamento disfuncional de que a
exposição a determinado estimulo possa realmente representar risco de vida, fazendo
assim um efeito “bola de neve”.

Como se faz o diagnóstico?


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O diagnóstico é clínico, ou seja, baseado nos sintomas do paciente. Nenhum exame


laboratorial ou de imagem é utilizado para o diagnóstico.

Como se trata?

O tratamento deve ser individualizado, dependendo das características e da gravidade


dos sintomas que o paciente apresenta. Utiliza-se no tratamento tanto a psicoterapia
cognitivo-comportamental quanto a psicoterapia de orientação analítica.

Colaboradoras
Dra. Alice Sibile Koch
Dra. Dayane Diomário da Rosa

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TRANSTORNO DE ANSIEDADE GENERALIZADA

O que é?

A ansiedade é um sentimento desagradável, vago, indefinido, que pode vir


acompanhado de sensações como frio no estômago, aperto no peito, coração acelerado,
tremores e podendo haver também sensação de falta de ar. É um sinal de alerta, que faz
com que a pessoa possa se defender e proteger de ameaças, sendo uma reação natural e
necessária para a auto-preservação. Não é um estado normal, mas é uma reação normal,
esperada em determinadas situações. As reações de ansiedade normais não precisam ser
tratadas por serem naturais, esperadas e auto-limitadas.

A ansiedade patológica, por outro lado caracteriza-se por ter uma duração e intensidade
maior que o esperado pra a situação, e além de não ajudar a enfrentar um fator estressor,
ela dificulta e atrapalha a reação. O transtorno de ansiedade generalizada costuma ser
uma doença crônica, com curtos períodos de remissão e importante causa de sofrimento
durante vários anos.

É uma preocupação exagerada que pode abranger diversos eventos ou atividades da vida
da pessoa e pode vir acompanhado de sintomas como irritabilidade, tensões musculares,
perturbações no sono, entre outros. Costuma causar um comprometimento significativo
73

no funcionamento social ou ocupacional da pessoa, podendo gerar um acentuado


sofrimento.

O que se sente?

A pessoa pode sentir tremores, inquietação, dor de cabeça, falta de ar, suor em excesso,
palpitações, problemas gastro-intestinais, irritabilidade e facilidade em alterar-se. Esses
sintomas podem ocorrer na maioria dos dias por pelo menos seis meses. É muito difícil
controlar a preocupação, o que pode gerar um esgotamento na saúde física e mental do
indivíduo.

Como se faz o diagnóstico?

Como os sintomas podem ser os mais diversos e vários aspectos podem estar
comprometidos, o trabalho inicial do médico está em excluir outras doenças que possam
ter sintomas semelhantes ao transtorno de ansiedade generalizada. Para tanto, alguns
exames clínicos podem ser necessários, sendo que mais importante do que isso é o
relato detalhado de informações do paciente.

Como se trata?

O especialista utiliza técnicas psicoterápicas de apoio. Muitas vezes faz-se necessário o


uso de medicação (antidepressivos e/ou ansiolíticos) por um determinado período. A
maioria das pessoas experimenta uma acentuada redução da ansiedade quando lhes é
oferecida a oportunidade de discutir suas dificuldades com um profissional experiente.

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FOBIA SOCIAL

O que é?

Timidez é uma característica apresentada por grande parte


da população, seja em maior ou menor grau, e não
necessariamente constitui-se em doença. Ela está presente
em diversas situações, como por exemplo, nos
relacionamentos sociais e no início de relacionamentos
amorosos, nas situações de falar ou se expor em público.
Quando esse quadro de timidez se apresenta de maneira
exagerada, pode vir a se tornar fobia social.

Também conhecido como transtorno de ansiedade social, é


uma doença de curso crônico, potencialmente
incapacitante e com altos índices de comorbidades. Apresenta-se como um medo
excessivo de humilhação ou embaraço em vários contextos sociais, como falar, comer,
escrever ou praticar atividades físicas e esportivas em público. Muitas vezes, o que
motiva o paciente a procurar tratamento é a dificuldade nos relacionamentos com os
pares românticos. Pode evitar-se se aproximar da outra pessoa por medo de ser
rejeitado, de não agradar e de ser ridicularizada. O simples fato de pensar nessa
possibilidade já pode desencadear ansiedade e fazer com que se evite a situação. O
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resultado é uma importante limitação na vida da pessoa pela evitação dessas situações
ou atividades sociais temidas. Também podem ocorrer prejuízos na vida profissional e
afetiva do indivíduo.

O que se sente?

A pessoa com fobia social sente medo acentuado e persistente de uma ou mais situações
sociais ou de desempenho quando é exposta a avaliação de outras pessoas. Pode haver
temor por acabar agindo de forma humilhante e embaraçosa para si próprio.

A exposição à situação social temida causa ansiedade. Ansiedade é caracterizada por


sudorese, batimentos rápidos do coração, tremor das mãos, falta de ar, sensação de
"frio" na barriga. O indivíduo reconhece que o medo é irracional ou excessivo. As
situações sociais e de desempenho temidas são evitadas ou suportadas com intensa
ansiedade e sofrimento.

Como se faz o diagnóstico?

O diagnóstico é clínico, ou seja, baseado no relato dos sintomas do paciente. Nenhum


exame laboratorial ou de imagem é utilizado para o diagnóstico.

Como se trata?

O tratamento deve ser individualizado, dependendo das características e da gravidade


dos sintomas que o paciente apresenta. O tratamento atual baseia-se no emprego de
medicações antidepressivas combinadas com psicoterapia, de orientação analítica ou
cognitivo-comportamental.

Colaboradoras
Dra. Alice Sibile Koch
Dra. Dayane Diomário da Rosa

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TRANSTORNOS MENTAIS EM IDOSOS

A velhice é um período normal do ciclo vital caracterizado por algumas mudanças


físicas, mentais e psicológicas. É importante fazer essa consideração pois algumas
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alterações nesses aspectos não caracterizam necessariamente uma doença. Em


contrapartida, há alguns transtornos que são mais comuns em idosos como transtornos
depressivos, transtornos cognitivos, fobias e transtornos por uso de álcool. Além disso,
os idosos apresentam risco de suicídio e risco de desenvolver sintomas psiquiátricos
induzidos por medicamentos.

Muitos transtornos mentais em idosos podem ser evitados, aliviados ou mesmo


revertidos. Consequentemente, uma avaliação médica se faz necessária para o
esclarecimento do quadro apresentado pelo idoso.

Diversos fatores psicossociais de risco também predispõem os idosos a transtornos


mentais.

Esses fatores de risco incluem:

Perda de papéis sociais


Perda da autonomia
Morte de amigos e parentes
Saúde em declínio
Isolamento social
Restrições financeiras
Redução do funcionamento cognitivo (capacidade de compreender e pensar de uma
forma lógica, com prejuízo na memória).

Transtornos psiquiátricos mais comuns em idosos

Demência
Demência tipo Alzheimer
Demência vascular
Esquizofrenia
Transtornos depressivos
Transtorno bipolar (do humor)
Transtorno delirante
Transtornos de ansiedade
Transtornos somatoformes
Transtornos por uso de álcool e outras substâncias

Demência

Demência é um comprometimento cognitivo geralmente progressivo e irreversível. As


funções mentais anteriormente adquiridas são gradualmente perdidas. Com o aumento
da idade a demência torna-se mais freqüente. Acomete 5 a 15% das pessoas com mais
de 65 anos e aumenta para 20% nas pessoas com mais de 80 anos.
76

Os fatores de risco conhecidos para a demência são: Idade avançada História de


demência na família Sexo feminino

Os sintomas incluem alterações na memória, na linguagem, na capacidade de orientar-


se. Há perturbações comportamentais como agitação, inquietação, andar a esmo, raiva,
violência, gritos, desinibição sexual e social, impulsividade, alterações do sono,
pensamento ilógico e alucinações.

As causas de demência incluem lesões e tumores cerebrais, síndrome da


imunodeficiência adquirida (AIDS), álcool, medicamentos, infecções, doenças
pulmonares crônicas e doenças inflamatórias. Na maioria das vezes as demências são
causadas por doenças degenerativas primárias do sistema nervoso central (SNC) e por
doença vascular. Cerca de 10 a 15% dos pacientes com sintomas de demência
apresentam condições tratáveis como doenças sistêmicas (doenças cardíacas, renais,
endócrinas), deficiências vitamínicas, uso de medicamentos e outras doenças
psiquiátricas (depressão).

As demências são classificadas em vários tipos de acordo com o quadro clínico,


entretanto as mais comuns são demência tipo Alzheimer e demência vascular.

Demência tipo Alzheimer

De todos os pacientes com demência, 50 a 60% têm demência tipo Alzheimer, o tipo
mais comum de demência. É mais frequente em mulheres que em homens. É
caracterizada por um início gradual e pelo declínio progressivo das funções cognitivas.
A memória é a função cognitiva mais afetada, mas a linguagem e noção de orientação
do indivíduo também são afetadas. Inicialmente, a pessoa pode apresentar uma
incapacidade para aprender e evocar novas informações.

As alterações do comportamento envolvem depressão, obsessão (pensamento,


sentimento, ideia ou sensação intrusiva e persistente) e desconfianças, surtos de raiva
com risco de atos violentos. A desorientação leva a pessoa a andar sem rumo podendo
ser encontrada longe de casa em uma condição de total confusão. Aparecem também
alterações neurológicas como problemas na marcha, na fala, no desempenhar uma
função motora e na compreensão do que lhe é falado.

O diagnóstico é de exclusão, isto é, só pode ser feito quando não se encontra nenhuma
outra causa. A rigor, tal diagnóstico só é realizado pós-morten, através de biópsia
cerebral, na qual aparecem alguns sinais característicos e exclusivos da doença. A
história do paciente e exame clínico, além das técnicas de imagem cerebral como
tomografia computadorizada e ressonância magnética podem ser úteis no diagnóstico
clínico.

O diagnóstico é feito com base na história do paciente e do exame clínico. As técnicas


de imagem cerebral como tomografia computadorizada e ressonância magnética podem
ser úteis.

O tratamento é paliativo e as medicações podem ser úteis para o manejo da agitação e


das perturbações comportamentais. Não há prevenção ou cura conhecidas.
77

Demência vascular

É o segundo tipo mais comum de demência. Apresenta as mesmas características da


demência tipo Alzheimer, mas com um início abrupto e um curso gradualmente
deteriorante. Pode ser prevenida através da redução de fatores de risco como
hipertensão, diabete, tabagismo e arritmias. O diagnóstico pode ser confirmado por
técnicas de imagem cerebral e fluxo sanguíneo cerebral.

Esquizofrenia (esquizofrenia e outras psicoses)

Essa doença começa no final da adolescência ou idade adulta jovem e persiste por toda
a vida. Cerca de 20% das pessoas com esquizofrenia não apresentam sintomas ativos
aos 65 anos; 80% mostram graus variados de comprometimento. A doença torna-se
menos acentuada à medida que o paciente envelhece.

Os sintomas incluem retraimento social, comportamento excêntrico, pensamento


ilógico, alucinações e afeto rígido. Os idosos com esquizofrenia respondem bem ao
tratamento com drogas antipsicóticas que devem ser administradas pelo médico com
cautela.

Transtornos depressivos

A idade avançada não é um fator de risco para o desenvolvimento de depressão, mas ser
viúvo ou viúva e ter uma doença crônica estão associados com vulnerabilidade aos
transtornos depressivos. A depressão que inicia nessa faixa etária é caracterizada por
vários episódios repetidos.

Os sintomas incluem redução da energia e concentração, problemas com o sono


especialmente despertar precoce pela manhã e múltiplos despertares, diminuição do
apetite, perda de peso e queixas somáticas (como dores pelo corpo). Um aspecto
importante no quadro de pessoas idosas é a ênfase aumentada sobre as queixas
somáticas.

Pode haver dificuldades de memória em idosos deprimidos que é chamado de síndrome


demencial da depressão que pode ser confundida com a verdadeira demência. Além
disso, a depressão pode estar associada com uma doença física e com uso de
medicamentos.

Transtorno bipolar (transtornos do humor)

Os sintomas da mania em idosos são semelhantes àqueles de adultos mais jovens e


incluem euforia, humor expansivo e irritável, necessidade de sono diminuída, fácil
distração, impulsividade e, frequentemente, consumo excessivo de álcool. Pode haver
um comportamento hostil e desconfiado. Quando um primeiro episódio de
comportamento maníaco ocorre após os 65 anos, deve-se alertar para uma causa
orgânica associada. O tratamento deve ser feito com medicação cuidadosamente
controlada pelo médico.

Transtorno delirante
78

A idade de início ocorre por volta da meia-idade mas pode ocorrer em idosos. Os
sintomas são alterações do pensamento mais comumente de natureza persecutória (os
pacientes creem que estão sendo espionados, seguidos, envenenados ou de algum modo
assediados). Podem tornar-se violentos contra seus supostos perseguidores, trancarem-
se em seus aposentos e viverem em reclusão. A natureza dos pensamentos pode ser em
relação ao corpo, como acreditar ter uma doença fatal (hipocondria).

Ocorre sob estresse físico ou psicológico em indivíduos vulneráveis e pode ser


precipitado pela morte do cônjuge, perda do emprego, aposentadoria, isolamento social,
circunstâncias financeiras adversas, doenças médicas que debilitam ou por cirurgia,
comprometimento visual e surdez.

As alterações do pensamento podem acompanhar outras doenças psiquiátricas que


devem ser descartadas como demência tipo Alzheimer, transtornos por uso de álcool,
esquizofrenia, transtornos depressivos e transtorno bipolar. Além disso, podem ser
secundárias ao uso de medicamentos ou sinais precoces de um tumor cerebral.

Transtornos de ansiedade

Incluem transtornos de pânico, fobias, TOC, ansiedade generalizada, de estresse agudo


e de estresse pós-traumático. Desses, os mais comuns são as fobias.

Os transtornos de ansiedade começam no início ou no período intermediário da idade


adulta, mas alguns aparecem pela primeira vez após os 60 anos.

As características são as mesmas das descritas em transtornos de ansiedade em outras


faixas etárias.

Em idosos a fragilidade do sistema nervoso autônomo pode explicar o desenvolvimento


de ansiedade após um estressor importante. O transtorno de estresse pós-traumático
frequentemente é mais severo nos idosos que em indivíduos mais jovens em vista da
debilidade física concomitante nos idosos.

As obsessões (pensamento, sentimento, ideia ou sensação intrusiva e persistente) e


compulsões (comportamento consciente e repetitivo como contar, verificar ou evitar ou
um pensamento que serve para anular uma obsessão) podem aparecer pela primeira vez
em idosos, embora geralmente seja possível encontrar esses sintomas em pessoas que
eram mais organizadas, perfeccionistas, pontuais e parcimoniosas. Tornam-se
excessivos em seu desejo por organização, rituais e necessidade excessiva de manter
rotinas. Podem ter compulsões para verificar as coisas repetidamente, tornando-se
geralmente inflexíveis e rígidos.

Transtornos somatoformes

São um grupo de transtornos que incluem sintomas físicos (por exemplo dores, náuseas
e tonturas) para os quais não pode ser encontrada uma explicação médica adequada e
que são suficientemente sérios para causarem um sofrimento emocional ou prejuízo
significativo à capacidade do paciente para funcionar em papéis sociais e ocupacionais.
Nesses transtornos, os fatores psicológicos são grandes contribuidores para o início, a
severidade e a duração dos sintomas. Não são resultado de simulação consciente.
79

A hipocondria é comum em pacientes com mais de 60 anos, embora o seja mais


frequente entre 40 e 50 anos. Exames físicos repetidos são úteis para garantirem aos
pacientes que eles não têm uma doença fatal. A queixa é real, a dor é verdadeira e
percebida como tal pelo paciente. Ao tratamento, deve-se dar um enfoque psicológico
ou farmacológico.

Transtornos por uso de álcool e outras substâncias

Os pacientes idosos podem iniciar um quadro de dependência à uma droga ou um


remédio, devido à automedicação. Por exemplo, um senhor que torna um hábito beber
uma dose de álcool todos os dias para relaxar, ou então uma senhora que ao passar por
uma situação de maior ansiedade, como a perda ou morte de algum conhecido ou
familiar, inicia o uso de medicamentos sedativos a fim de não se sentir tão mal.

A dependência de álcool, geralmente, apresenta uma história de consumo excessivo que


começou na idade adulta e frequentemente está associada a uma doença médica,
principalmente doença hepática. Além disso, a dependência ao álcool está claramente
associada a uma maior incidência de quadros demenciais.

A dependência de substâncias como hipnóticos, ansiolíticos e narcóticos é comum. Os


pacientes idosos podem abusar de ansiolíticos para o alívio da ansiedade crônica ou para
garantirem uma noite de sono. A apresentação clínica é variada e inclui quedas,
confusão mental, fraca higiene pessoal, depressão e desnutrição.

Uma particularidade de tais dependências nesses pacientes é que tanto os medicamentos


sedativos quanto o álcool estão relacionados com maior número de quedas e fraturas, o
que reduz significativamente a expectativa de vida do idoso após o incidente.

Colaboradoras

Dra. Alice Sibile Koch


Dra. Dayane Diomário da Rosa

...
80

TRANSTORNO DE ANSIEDADE GENERALIZADA

O que é?

A ansiedade é um sentimento desagradável, vago, indefinido, que pode vir


acompanhado de sensações como frio no estômago, aperto no peito, coração acelerado,
tremores e podendo haver também sensação de falta de ar. É um sinal de alerta, que faz
com que a pessoa possa se defender e proteger de ameaças, sendo uma reação natural e
necessária para a autopreservação. Não é um estado normal, mas é uma reação normal,
esperada em determinadas situações. As reações de ansiedade normais não precisam ser
tratadas por serem naturais, esperadas e autolimitadas.

A ansiedade patológica, por outro lado caracteriza-se por ter uma duração e intensidade
maior que o esperado para a situação, e além de não ajudar a enfrentar um fator
estressor, ela dificulta e atrapalha a reação. O transtorno de ansiedade generalizada
costuma ser uma doença crônica, com curtos períodos de remissão e importante causa
de sofrimento durante vários anos.

É uma preocupação exagerada que pode abranger diversos eventos ou atividades da vida
da pessoa e pode vir acompanhado de sintomas como irritabilidade, tensões musculares,
perturbações no sono, entre outros. Costuma causar um comprometimento significativo
no funcionamento social ou ocupacional da pessoa, podendo gerar um acentuado
sofrimento.

O que se sente?

A pessoa pode sentir tremores, inquietação, dor de cabeça, falta de ar, suor em excesso,
palpitações, problemas gastrointestinais, irritabilidade e facilidade em alterar-se. Esses
sintomas podem ocorrer na maioria dos dias por pelo menos seis meses. É muito difícil
81

controlar a preocupação, o que pode gerar um esgotamento na saúde física e mental do


indivíduo.

Como se faz o diagnóstico?

Como os sintomas podem ser os mais diversos e vários aspectos podem estar
comprometidos, o trabalho inicial do médico está em excluir outras doenças que possam
ter sintomas semelhantes ao transtorno de ansiedade generalizada. Para tanto, alguns
exames clínicos podem ser necessários, sendo que mais importante do que isso é o
relato detalhado de informações do paciente.

Como se trata?

O especialista utiliza técnicas psicoterápicas de apoio. Muitas vezes faz-se necessário o


uso de medicação (antidepressivos e/ou ansiolíticos) por um determinado período. A
maioria das pessoas experimenta uma acentuada redução da ansiedade quando lhes é
oferecida a oportunidade de discutir suas dificuldades com um profissional experiente.

...

TRANSTORNOS PSIQUIÁTRICOS NA INFÂNCIA

O pensar, a capacidade de utilizar uma linguagem escrita, falada ou ainda de


experimentar sentimentos não nascem com a criança, estando profundamente
relacionados a seu desenvolvimento.

Desde o nascimento, o bebê vai tendo experiências na


relação com a mãe ou com quem o cuida que lhe vão
permitindo, de forma rudimentar, classificar "o que é
igual ou diferente". Ao cuidar do bebê, a mãe deverá ser
capaz de "traduzir", à sua maneira, as necessidades do
mesmo. Os gestos ou tipos de cuidados fazem com que o
bebê aprenda a discriminar as suas sensações do
ambiente externo. Dessa maneira, é de suma importância
que o cuidador tolere sensivelmente o desconforto do
bebê, administrando os cuidados necessários
afetivamente, para que dessa maneira a criança construa
uma integrada condição emocional.

Existem, entretanto, transtornos psiquiátricos que podem


ocorrer no desenvolvimento da criança, os quais
examinaremos a seguir e que são:

Transtornos da aprendizagem, transtornos das habilidades motoras e transtornos da


comunicação (linguagem)

Os transtornos da aprendizagem referem-se a dificuldades na leitura, na capacidade


matemática ou nas habilidades de escrita, medidas por testes padrões que estão
substancialmente abaixo do esperado, considerando-se a idade da criança, seu quociente
de inteligência (QI ) e grau de escolaridade.
82

No transtorno das habilidades motoras, o desempenho em atividades diárias que exigem


coordenação motora está abaixo do esperado para a idade, como por exemplo atraso
para sentar, engatinhar, caminhar, deixar cair coisas, fraco desempenho nos esportes ou
caligrafia insatisfatória. Muitas vezes essa criança é vista como desajeitada, tropeçando
com freqüência ou inábil para abotoar suas roupas ou amarrar os cadarços do sapato.

Nos transtornos da comunicação a perturbação pode manifestar-se por sintomas que


incluem um vocabulário limitado, erros grosseiros na conjugação de verbos, dificuldade
para evocar palavras ou produzir frases condizentes com sua idade cronológica. Os
problemas de linguagem também podem ser causados por perturbações na capacidade
de articular sons ou palavras.

Não é raro a presença de mais de um desses transtornos de aprendizagem em uma


mesma criança, muitas vezes estando associados com o transtorno de hiperatividade e
déficit de atenção. O tratamento das dificuldades de aprendizagem inclui muitas vezes
reforço escolar, tratamento psicopedagógico ou até mesmo encaminhamentos para
escolas especiais, dependendo da gravidade do problema. A baixa auto-estima, a
repetência escolar e o abandono da escola são complicações comuns nesses transtornos.
Assim, a abordagem psicopedagógica e o aconselhamento escolar são cruciais. Pode
estar indicada também tanto a psicoterapia individual quanto a de grupo ou familiar,
conforme a situação. O tratamento com medicação está indicado apenas em casos
comprovadamente associados a transtornos que exijam o uso de remédios, como o
TDAH e quadros graves de depressão e fobia escolar.

Transtorno do déficit de atenção-hiperatividade

As crianças com esse transtorno são consideradas, com freqüência, crianças com um
temperamento difícil. Elas prestam atenção a vários estímulos, não conseguindo se
concentrar em uma tarefa única e, assim, cometendo erros muitas vezes grosseiros. É
comum terem dificuldade para manter a atenção, mesmo em atividades lúdicas e com
freqüência parecem não escutar quando chamadas. Muitas vezes não conseguem
terminar seus deveres escolares, tarefas domésticas ou deveres profissionais. Têm
dificuldade para organizar tarefas, evitando, antipatizando ou relutando em envolver-se
em tarefas que exijam esforço mental constante. Costumam perder facilmente objetos de
uso pessoal. Esquecem facilmente atividades diárias.

A hiperatividade aparece como uma inquietação, manifesta por agitação de mãos ou pés
e não conseguir permanecer parado na cadeira. São crianças que quase sempre saem de
seus lugares em momentos não apropriados, correm em demasia, têm dificuldade de
permanecer em silêncio, estando freqüentemente "a mil".

Outra característica desse transtorno é a impulsividade, que aparece em respostas


precipitadas mesmo antes de as perguntas terem sido completadas. Com freqüência, são
crianças que têm dificuldade de aguardar sua vez, interrompendo ou intrometendo-se
em assuntos alheios.

O transtorno deve ser diagnosticado e tratado ainda na infância para não causar maiores
prejuízos ao desenvolvimento interpessoal e escolar da criança. O tratamento inclui
psicoterapia individual e, às vezes, terapia familiar. Quase sempre faz-se necessário o
uso de medicação com um resultado muito satisfatório.
83

Transtornos do Comportamento Disruptivo

Os transtornos da infância diretamente relacionados com o comportamento são os


transtornos de oposição e desafio e o transtorno de conduta. São caracterizados por um
padrão repetitivo e persistente de comportamento agressivo, desafiador, indo contra as
regras de convivência social. Tal comportamento deve ser suficientemente grave, sendo
diferente de travessuras infantis ou rebeldia "normal" da adolescência. O Transtorno de
oposição e desafio (TOD) tem maior incidência na faixa etária dos 4 aos 12 anos e
atinge mais meninos que meninas. Tem como característica um comportamento opositor
às normas, discute com adultos, perde o controle, fica aborrecido facilmente e aborrece
aos outros.

No Transtorno de Conduta, que é mais comum entre adolescentes do que crianças e é


mais comum também entre meninos, o padrão disfuncional de comportamento é mais
grave que no Transtorno de oposição e desafio. Eles freqüentemente agridem pessoas e
animais, envolvem-se em brigas, em destruição de propriedade alheia, furtos ou ainda
agressão sexual. Sérias violações de regras, como fugir de casa, não comparecimento
sistemático à aula e enfrentamento desafiador e hostil com os pais também são sinais da
doença. Esse transtorno está freqüentemente associado à ambientes psicossociais
adversos, tais como: instabilidade familiar, abuso físico ou sexual, violência familiar,
alcoolismo e sinais de severa perturbação dos pais.

A comorbidade desses transtornos com o abuso de substâncias e TDAH chega a quase


50%. O tratamento dos transtornos de oposição e de conduta envolve principalmente
psicoterapia individual e familiar, e às vezes reclusão em unidades corretivas. O
tratamento das comorbidades é fundamental e pode necessitar de medicação (nos casos
de TDAH) ou até internação (em quadros graves de dependência química).

Transtornos Depressivos na Infância

O reconhecimento de transtornos depressivos na infância ocorreu no final da década de


60. Surgiram então três conceitos:

Sintomas depressivos análogos aos dos adultos não existem;


A depressão manifesta-se por sintomas específicos nessa faixa etária;
A sintomatologia depressiva surge mascarada por outros sintomas ou síndromes,
tais como hiperatividade, enurese, encoprese, déficit de aprendizagem e transtorno
de conduta.

Transtornos depressivos ocorrem tanto em meninos quanto em meninas. Os sintomas de


depressão podem ser: isolamento, calma excessiva, agitação, condutas auto e hetero-
agressivas, intensa busca afetiva, alternando atitudes prestativas com recusas de
relacionamento. A socialização está geralmente perturbada: pode haver recusa em
brincar com outras crianças e dificuldade para aquisição de habilidades. As queixas
somáticas são frequentes: dificuldade do sono (despertar noturno, sonolência diurna),
84

alteração do padrão alimentar. Queixas de falta de ar, dores de cabeça e no estômago,


problemas intestinais e suor frio também são frequentes.

A criança deprimida apresenta incapacidade para divertir-se, algumas vezes queixando-


se de estar aborrecida. Assistem muita televisão não se importando qual seja o
programa. A baixa autoestima e a culpa excessiva, além da diminuição do rendimento
escolar são característicos da depressão. Apresentam também muita irritabilidade, sendo
descritas pelos pais como mal-humoradas.

Os transtornos depressivos da infância podem ser classificados em duas formas bem


distintas. A primeira delas, a distimia que, etimologicamente significa "mal-humorado",
é uma forma crônica de depressão com início insidioso, podendo durar toda a vida da
pessoa. Para firmar este diagnóstico é preciso que o humor seja depressivo ou irritável e
esteja presente quase todos os dias por pelo menos um ano.

A outra forma de depressão, transtorno depressivo maior é caracterizada por períodos


ou crises apresentando uma síndrome depressiva completa (todos os sintomas descritos
anteriormente) por pelo menos duas semanas, causando importantes prejuízos na vida
da criança. Podem estar presentes alucinações, ideação ou condutas suicidas. Essa crise
é nitidamente diferente do funcionamento habitual da criança.

Os transtornos depressivos são bastante tratáveis hoje em dia, obtendo-se bons


resultados. Pais que desconfiem que um filho sofra desse mal devem levá-lo a um
psiquiatra ou serviço de psiquiatria para uma avaliação. O tratamento utiliza medicações
antidepressivas e acompanhamento psicológico. Internações são necessárias em duas
situações: quando o paciente fica psicótico (fora da realidade), o que é raro, ou quando
existe risco de suicídio.

Transtornos Globais do Desenvolvimento (Autismo Infantil)

Esse grupo de transtornos é caracterizado por severas anormalidades nas interações


sociais recíprocas, nos padrões de comunicação estereotipados e repetitivos, além de um
estreitamento nos interesses e atividades da criança. Costumam se manifestar nos
primeiros cinco anos de vida . Existem várias formas de apresentação dos transtornos
globais, não havendo até o presente momento um consenso quanto à forma de
classificá-los.

A forma mais conhecida é o Autismo Infantil, definido por um desenvolvimento


anormal que se manifesta antes dos três anos de vida, não havendo em geral um período
prévio de desenvolvimento inequivocamente normal. As crianças com transtorno autista
podem ter alto ou baixo nível de funcionamento, dependendo do QI, da capacidade de
comunicação e do grau de severidade nos seguintes itens:

Prejuízo acentuado no contato visual direto, na expressão facial, posturas corporais


e outros gestos necessários para comunicar-se com outras pessoas.
Fracasso para desenvolver relacionamentos com outras crianças, ou até mesmo com
seus pais.
85

Falta de tentativa espontânea de compartilhar prazer, interesses ou realizações com


outras pessoas (por exemplo: não mostrar, trazer ou apontar objetos de interesse ).
Atraso ou ausência total da fala ( não acompanhado por uma tentativa para
compensar através de modos alternativos de comunicação, tais como gestos ou
mímicas ).
Em crianças com fala adequada, acentuado prejuízo na capacidade de iniciar ou
manter uma conversa.
Uso repetitivo de mesmas palavras ou sons.
Ausência de jogos ou brincadeiras variadas de acordo com a idade.
A criança parece adotar uma rotina ou ritual específico em seu ambiente, com
extrema dificuldade e sofrimento quando tem que abrir mão da mesma.
movimentos repetitivos ou complexos do corpo.
preocupação persistente com partes de objetos.

Outras formas de transtornos globais do desenvolvimento são:

Autismo atípico,
Síndrome de Rett,
Transtorno desintegrativo da infância,
Síndrome de Asperger.

O tratamento do transtorno autista visa principalmente uma educação especial com


estimulação precoce da criança. A terapia de apoio familiar é muito importante: os pais
devem saber que a doença não resulta de uma criação incorreta e necessitam de
orientações para aprenderem a lidar com a criança e seus irmãos. Muitas vezes se faz
necessário o uso de medicações para controlar comportamentos não apropriados e
agressivos. O prognóstico destes transtornos é muito reservado e costumam deixar
importantes sequelas ou falhas no desenvolvimento dessas pessoas na idade adulta.

Transtornos de Tique

A manifestação predominante nessas síndromes é alguma forma de tique. Um tique é


uma produção vocal ou movimento motor involuntário, rápido, recorrente (repetido) e
não rítmico (usualmente envolvendo grupos musculares circunscritos), sem propósito
aparente e que tem um início súbito. Os tiques motores e vocais podem ser simples ou
complexos. Os tiques simples em geral são os primeiros a aparecer. Podem ser:

Tiques motores simples: Piscar os olhos, balançar a cabeça, fazer caretas.


Tiques vocais simples: Tossir, pigarrear, fungar.
Tiques motores complexos: Bater-se, saltar.
86

Tique vocal complexo: Coprolalia (uso de termos chulos), palilalia


(repetição das próprias palavras), ecolalia
(repetição de palavras alheias).

O tratamento requer medicação e psicoterapia, principalmente para diminuir o


isolamento social que comumente ocorre nesse transtorno.

Transtornos da Excreção

Esse transtorno inclui a enurese e a encoprese. A enurese é caracterizada por eliminação


de urina de dia e/ou a noite, a qual é anormal em relação à idade da criança e não
decorrente de nenhuma patologia orgânica. A enurese pode estar presente desde o
nascimento ou pode surgir seguindo-se a um período de controle vesical adquirido. A
enurese não costuma ser diagnosticada antes da criança completar cinco anos de idade e
requer, para ser caracterizada, uma frequência de duas vezes por semana, por pelo
menos três meses.

A encoprese é a evacuação repetida de fezes em locais inadequados (roupas ou chão),


involuntária ou intencional. Para se fazer o diagnóstico é preciso que esse sintoma
ocorra pelo menos uma vez por mês, por no mínimo três meses em crianças com mais
de quatro anos. Ambas patologias podem ocorrer pelo nascimento de um irmão,
separação dos pais ou outro evento que possa traumatizar a criança. A encoprese
deliberada pode significar grave comprometimento emocional. Ambas podem durar
anos, mas acabam evoluindo para uma remissão espontânea. Esses transtornos
comumente geram intenso sofrimento na criança, levando a uma estigmatização, com
consequente baixa da autoestima. Geram também isolamento social e perturbações no
ambiente e nas relações familiares.

O tratamento abrange psicoterapia e utilização de medicamentos.

Transtornos de Ansiedade na Infância

A ansiedade é um sentimento vago e desagradável de medo e apreensão, caracterizado


por tensão ou desconforto derivados de uma antecipação de perigos. As crianças em
geral não reconhecem quando seus medos são exagerados ou irracionais. Uma maneira
prática de diferenciar ansiedade normal de ansiedade patológica é avaliar se a reação
ansiosa é de curta duração, autolimitada e relacionada ao estímulo do momento. Os
sintomas de ansiedade podem ocorrer em várias outras condições psiquiátricas tais
como: depressões, psicoses, transtornos do desenvolvimento, transtorno hipercinético,
entre outros. A causa dos transtornos ansiosos infantis é muitas vezes desconhecida e
provavelmente multifatorial, incluindo fatores hereditários e ambientais diversos, com o
peso relativo de cada fator variando de caso a caso.

Transtorno da Ansiedade de Separação

Esse é o mais comum dos transtornos de ansiedade, acometendo 4% das crianças.


Caracteriza-se por uma ansiedade não apropriada e excessiva em relação à separação do
lar (pais) ou de figuras importantes cuidadoras para a criança, inadequada para a fase do
87

desenvolvimento da criança. Essas crianças, quando ficam sozinhas, temem que algo
possa acontecer para elas ou para seus cuidadores (acidentes, sequestro, assaltos ou
doenças) que os afastem definitivamente de si. Demonstram um comportamento
excessivo de apego aos seus cuidadores, não permitindo o afastamento desses ou
telefonando repetidamente para eles afim de tranquilizar-se sobre seus temores. É
comum nessas crianças a ocorrência de recusa escolar. Se a criança sabe que seus pais
vão se ausentar apresenta manifestações somáticas de ansiedade (dor abdominal, dor de
cabeça, náusea, vômitos, palpitações, tonturas e sensação de desmaio). Em muitos casos
de crianças afetadas os pais foram ou são portadores de algum transtorno de ansiedade.

A perturbação tem uma duração mínima de quatro semanas e causa sofrimento


significativo no funcionamento da vida da criança.

O tratamento requer psicoterapia individual com orientação familiar e intervenções


farmacológicas quando os sintomas são graves e incapacitantes. Quando há recusa
escolar, o retorno às aulas deve ser o mais rápido possível para evitar cronicidade e
evasão. É muito importante haver uma sintonia entre pais, escola e terapeuta.

Fobias específicas e Fobia social

As fobias específicas são definidas pela presença de medo excessivo e persistente,


relacionado a um determinado objeto ou situação. Exposta ao estímulo fóbico, a criança
procura correr para perto de um dos pais ou de alguém que a faça sentir-se protegida.
Pode apresentar crises de choro, desespero, imobilidade, agitação psicomotora ou até
mesmo ataque de pânico. Os medos mais comuns na infância são de pequenos animais,
injeções, escuridão, altura e ruídos intensos. Essas fobias diferenciam-se dos medos
normais da infância por serem reações excessivas, não adaptativas e que fogem do
controle da criança.

Na fobia social a criança apresenta um medo persistente e intenso de situações onde


julga estar exposta à avaliação de outros, tendendo a sentir-se envergonhada ou
humilhada. Essas crianças relatam desconforto em situações como :

Falar em sala de aula


Comer junto a outras crianças
Ir a festas
Escrever na frente de outros colegas
Usar banheiros públicos

Quando expostas a essas situações é comum apresentarem sintomas físicos como


palpitações, tremores, calafrios, calores, sudorese e náusea.

O tratamento mais utilizado para essas fobias tem sido a psicoterapia cognitivo-
comportamental.
88

Colaboradoras
Dra. Alice Sibile Koch
Dra. Dayane Diomário da Rosa

...

Da loucura à alienação

“Na Grécia Antiga, assim como na Idade Média, o louco tinha


efetivamente um lugar social. (Silveira, 2000,pp18,19) O que
modernamente foi estabelecido como desrazão fazia parte do logos e
por isto possibilitava o diálogo entre homens e deuses. Não havia,
portanto, uma distinção definitiva entre razão e loucura, logos e mito.
O lugar social do louco foi sendo redefinido na Europa a partir do
século XVII e a positividade dada a ele foi perdida com o fim do
Renascimento, estabelecendo-se uma ruptura radical entre a
racionalidade e a loucura, que foi excluída da razão de modo decisivo:

“O louco relacionado com potências imaginárias, com poderes


sobrenaturais e subterrâneos, como no Renascimento, ou com o grau
inferior da humanidade, forma última da encarnação divina,
identificando-se com a animalidade, como nos séculos XVII e XVIII,
não existe mais ao final deste e início do século XIX. Agora ele é um
outro personagem, que vai ter tanto da animalidade e das potências
imaginárias, se bem que as superando e dotando-as de novas
significações, definidas a partir de seu novo lugar na rede inter-
relacional das individualidades” (Birman, 1978, pp 96-97)
89

O processo modernizador na Europa não apenas redefiniu o lugar do


louco na cidade. Isto é de fato a aparência de uma definição anterior,
qual seja, a determinação da loucura como algo exterior à razão. Em
Meditações, obra citada por Foucault (2000, pg 45), Descartes afirma
não estar louco pelo simples fato de estar pensando. Aqui temos a
separação moderna entre razão e desrazão. A exclusão da insânia em
relação à racionalidade no Ocidente permitiu, de uma maneira geral,
que ela fosse tratada como patologia a partir do princípio do século
XIX e determinou a forma como passou a ser percebida pelo social: a
partir de então a loucura passou a perturbar a razão. O alienado
tornou-se um personagem social que não conseguia integrar–se à
normalidade das relações com os outros, normalidade esta identificada
com um modelo único de Homem capaz de absoluto auto-controle e
consciência-de-si, visto como critério de êxito social. Como diz Birman,
fora da norma, o louco se insere sempre no interdito (1978).

A faixa do interdito e a alienação da norma e da razão inauguraram um


novo estatuto da loucura. Entre outras variáveis, é possível apontar a
reorganização social e a crise econômica provocadas pela mudança no
modo de produção na Europa, no século XVII, como co-responsáveis
no processo de enclausuramento de mendigos, desempregados,
aleijados, doentes incuráveis, idiotas e loucos, por meio de uma
determinação absolutista de ocultar o que não compactuasse com a
norma. Esta nova ordem social que instituiu normas morais, afetivas e
comportamentais, diante das quais a loucura foi posta como desrazão e
interdição, demandou uma nova conceituação e produziu novas formas
de gerenciamento dessa população.

Os loucos, que inevitavelmente mostravam-se desconformes com o


projeto da cidade burguesa, deviam ser tratados e medicalizados em
lugares especializados, tendo como foco em sua recuperação a
adequação à ordem vigente. Isto se dava por meio de uma prática que
oscilava entre a expulsão dos indivíduos indesejáveis e o adestramento
dos corpos.

Na primeira metade do século XIX, quando o manicômio surgiu na


França, pretendeu ser instrumento de cura, concomitantemente ao
surgimento da nosografia e do tratamento moral de Pinel e Esquirol.
Este marco teórico-clínico surgiu ao mesmo tempo em que os antigos
hospitais gerais como depósitos de desviantes, davam lugar a locais de
tratamento especializado. Para que a loucura pudesse ser transformada
em doença mental foi necessária uma reorganização profunda tanto
90

dos conhecimentos médicos, quanto do discurso sobre a doença


(Foucault, 2001). No bojo destas transformações, foi necessário que se
construísse um sistema novo de referências conceituais e de práticas
clínicas nele baseadas.

Uma das aparentes contradições da modernidade é o fato de, no auge


da defesa iluminista da tolerância, ter sido estabelecida e
institucionalizada uma atitude dissonante, de exclusão, levada a cabo
na medida em que a tolerância iluminista limitava-se, apenas, ao que
concerne à razão. O que escapasse a ela, escaparia também à
tolerância. Vale contudo ressaltar que as novas normas sociais
proibiam a privação de liberdade sem legitimidade jurídica, o que
implicou no fim da época do “grande enclausuramento” tal como
descrito por Foucault, uma vez que responsabilidade e liberdade
passaram a ser o reflexo da nova soberania civil. Assim, a reclusão e o
isolamento dos loucos (agora alienados da razão), esquadrinhados e
separados dos outros “diferentes” - mendigos, aleijados, doentes
venéreos, blasfemos, e outros incuráveis – passaram a ser definidos
como terapêuticos. Esta é a premissa do tratamento moral: o
isolamento de um meio social gerador de distúrbios. Isolamento e
tratamento moral formaram a dupla terapêutica do movimento
alienista, que a partir de Pinel separou a loucura do bojo geral da
exclusão e se converteu em objeto da medicina – passível de
medicalização e cura (Desviat, M.,1999).

Assim, nasciam na França, no início do século XIX a psiquiatria, a


psicologia moderna e o saber nosográfico da observação como
coroamento do processo de instauração de uma nova racionalidade à
implementação da nova ordem societária burguesa. Foi preciso que os
loucos estivessem lá, devidamente isolados e à disposição do olhar,
para que o saber alienista se desse. A determinação do lugar do louco
na cidade moderna possibilitou que ele se transformasse em objeto de
saber e permitisse o acúmulo de conhecimento para a consolidação da
nova ciência. A este respeito, afirma Elisabeth Roudinesco:

“(...) A loucura não é um fato de natureza, mas de cultura, e sua


história é a das culturas que a dizem loucura e a perseguem. Da
mesma forma, a ciência médica só intervém como uma das formas
históricas da relação da loucura com a razão”.(Roudinesco, 2000,
p.15)
91

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É isso!

Fonte:

MARIA CLÁUDIA ALMEIDA ORLANDO MAGNANI: “O HOSPÍCIO DA DIAMANTINA – 1889 -1906”.


(Dissertação de Mestrado apresentada ao curso de Pós-Graduação em História das Ciências da
Saúde da Casa de Oswaldo Cruz – FIOCRUZ, como requisito parcial para obtenção do Grau de
Mestre. Área de Concentração: História das Ciências. Orientador: Profª Drª Cristiana
Facchinetti). CASA DE OSWALDO CRUZ – FIOCRUZ. Rio de Janeiro, 2004.

Nota:

A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese.

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