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Texto literário e Texto não literário

FAZER O ALUNO COMPREENDER A DIFERENÇA ENTRE UM TEXTO QUE É LITERÁRIO E UM TEXTO QUE

NÃO É LITERÁRIO

Nesse 5º. tópico vamos discutir algo que você já deve ter se perguntado algumas vezes: Mas o que é
literatura? E o que não é literatura?
O texto literário tem características que assim o definem. E que o diferenciam de outras literaturas. Você
tem a literatura jurídica, a literatura médica, a literatura das ciências naturais. Em princípio, o que as

diferencia?
O assunto? Veja, segundo o parágrafo acima, tudo é literatura. O que diferencia é a linguagem. A linguagem
literária precisa ser “artisticamente elaborada”. Não que a linguagem jurídica não tenha que ser elaborada.
Mas não artisticamente. O texto literário vai utilizar as figuras de linguagem que um texto médico ou
jurídico deve evitar.
O texto literário é ambíguo. Marca que um texto médico não pode nem imaginar em ser.
Atente. O médico precisa operar um paciente com alto grau de miopia. A descrição desse procedimento tem
que ser clara, objetiva e direta. Não há espaço para metáforas dessa ação.
Enquanto que a expressão “janela da alma” é uma bela metáfora para os olhos.
Veja o que significa a palavra poesia no dicionário:

POESIA
s.f. Arte de fazer versos.
Cada gênero poético.
Obra em verso, poema.
Característica do que toca, eleva, encanta. Forma especial de linguagem, mais dirigida à imaginação
e à sensibilidade do que ao raciocínio.
(www.dicio.com.br (http://www.dicio.com.br))

E agora atente para esses versos e o que diz sobre eles a pesquisadora Norma Goldstein:

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Digo que a poesia
é um modo de ser
criança – cria
para onde quer.
As frases têm pernas:
Os poemas convidam
ao som e às imagens
das palavras amigas.
(FERNANDO PAIXãO. FANTASIA DE AUTOR. IN: DIA BRINQUEDO. SãO PAULO: ÁTICA,
2004.)

Como dizem os versos, ler poesia é um “modo de ser”: ser criança, ser criativo, ser aberto às sugestões do
poema e às associações entre os elementos que o compõem. Um dos versos indica: “poemas têm pernas”,
ou seja, são como organismos vivos e propõem eles próprios a chave para sua compreensão. Sua leitura
envolve apelos sensoriais (Os poemas convidam ao som e às imagens) e associações entre “palavras
amigas”. (p.5)
Quer outro exemplo? Procure no dicionário o significado da palavra Amor.
Depois corra para o poema de Gregório de Matos, poeta que nasceu na Bahia no século XVII, intitulado
Definição de Amor. Ele tem mais de 5 páginas e é belíssimo. Transcrevo aqui a última estrofe, que é
bastante conhecida:

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O Amor é finalmente
um embaraço de pernas,
uma união de barrigas,
um breve tremor de artérias.
 
Uma confusão de bocas,
uma batalha de veias,
um rebuliço de ancas;
quem diz outra coisa, é besta.

Agora compare e me responda, qual definição traduz mais o significado da palavra Amor? Eu fico com o
poema de Gregório, é genial. E traduz não só o significado mas o sentido, a sensação, as imagens...do amor.
O poeta é nosso porta voz. Traduz o que sentimos e não conseguimos por no papel.
E com relação a esse tema, os gregos criaram até uma deusa, Afrodite.

03 / 07
Legenda: AFRODITE

Bem, para terminar e fazer você perceber a diferença de um texto literário e um texto não literário apelo
para um dos mais instigantes escritores da nossa contemporaneidade: Fernando Bonassi. Falaremos mais
dele e de outros escritores nos últimos tópicos.

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Começo citando como exemplo, um dos piores episódios que a capital de São Paulo já presenciou conhecido
como o Massacre do Carandiru. Um texto jornalístico vai falar sobre o que aconteceu, quando e onde. Ou
seja, trata-se de um texto informativo que tem que ser mais ou menos assim: O massacre ocorreu no dia 02
de outubro de 1992. 111 detentos foram mortos após uma operação policial no Carandiru para conter uma
rebelião de presos.
Agora atentem para o mini-conto do Bonassi:

049 111
Haja o que houver a que tempo for será a
noite mais preta de todas as noites negras em
que os Deuses das chances dormem pesada-
mente e sobrevoam corvos insanos dos piores
Demônios do Brasil terra de contrastes e chaci-
nas convocando a face carcomida da morte vio-
lenta dentes à mostra quando homens da lei
entram pro que der e vier deixando 100 gramas
de alma no esgoto da covardia contra homens
desprezíveis cujas nucas explodem feitos ovos
e braços inúteis pedem clemência sob camas
já tampas de sarcófago. Só mesmo cães
assustados salvam-se, mascando genitálias.
(CARANDIRU - BRASIL - 1992)

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Chocante, não? Pois foi assim que Bonassi traduziu esse massacre. O livro dele é de 2004. Muitos já tinham
esquecido esse episódio. Mas não dá para esquecer esse mini-conto. Ele provoca nossos sentidos, cria
imagens na nossa mente. Aflige, revolta, assusta, incomoda.
Então, perceberam a elaboração peculiar e artística do texto literário? Bem diferente de texto de caráter
denotativo.

ATIVIDADE FINAL

O que é um texto literário?

A. É um texto que possui linguagem jornalística.


B. É um texto que possui somente linguagem denotativa.
C. É um texto que possui somente linguagem corriqueira.
D. É um texto que possui linguagem artisticamente elaborada.

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REFERÊNCIA
BONASSI, Fernando. Passaporte. São Paulo: Cosac & Naify, 2004.
GOLDSTEIN, Norma. Versos, sons, ritmos. São Paulo: Ática, 2008

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