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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE

CENTRO DE CIÊNCIAS EXATAS E SUAS TECNOLOGIAS


DEPARTAMENTO DE ENGENHARIA CIVIL

REÚSO DE EFLUENTES

LAIS PEREIRA TENÓRIO


MURILO GUILHERME DE MELO NETO
RAPHAEL DANTAS COUTO

São Cristóvão, 2018


__________________________________________
LAÍS PEREIRA TENÓRIO

__________________________________________
MURILO GUILHERME DE M. NETO

__________________________________________
RAPHAEL DANTAS COUTO

REÚSO DE EFLUENTES

Trabalho apresentado como requisito para


obtenção de aprovação na disciplina
Sistemas de Esgotamento Sanitário, do
Departamento de Engenharia Civil, da
Universidade Federal de Sergipe, ministrada
pela Prof. Dr.ª Luciana Coêlho Mendonça.

São Cristóvão, 2018


SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ........................................................................................................ 4
2 O REÚSO DE EFLUENTES .................................................................................... 6
2.1 Definição ............................................................................................................ 6
2.2 Reúso direto ....................................................................................................... 7
2.3 Reúso indireto .................................................................................................... 7
2.4 Vantagens x Desvantagens ................................................................................ 7
2.5 Planejamento do sistema de reuso ..................................................................... 9
3 EXEMPLOS DE REÚSO ....................................................................................... 10
3.1 Alagados de fluxo vertical construídos para pós-tratamentos de esgotos. ...... 10
3.2 Análise do reúso na indústria sucroalcooleira – estudo na Usina Coruripe ..... 13
4 CONCLUSÃO ........................................................................................................ 17
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................................................................... 18
1 INTRODUÇÃO
O crescimento populacional mundial atrelado ao ininterrupto processo de
globalização têm feito com que a demanda de água – em níveis globais – crescesse
consideravelmente ao longo do tempo. De acordo com o Relatório Mundial das Nações
Unidas sobre o desenvolvimento dos recursos hídricos de 2018, o uso da água aumentou
seis vezes nos últimos 100 anos, e continua crescendo à uma taxa constante de
aproximadamente 1% ao ano (UNESCO, 2018).
Para se ter uma noção do crescimento vegetativo no planeta, estima-se que no
período de 2017 a 2050, a população mundial atinja algo entre 9,4 e 10,2 bilhões de
habitantes, com dois terços vivendo nas cidades. Para os dados relacionados à utilização
da água no planeta, estima-se que o uso doméstico da água, que corresponde a
aproximadamente 10% do total da captação hídrica em todo o mundo, deve aumentar de
forma significativa no período 2010-2050, em quase todas as regiões do mundo (Burek
et al., 2016), já para a utilização para a produção agrícola e energética – alimentos e
eletricidade – estima-se um crescimento em torno de 60% a 80% até 2025 (UNESCO,
2018 apud Alexandratos; Bruinsma, 2012; OECD, 2012).
Em face do inegável crescimento na demanda de água no planeta, uma crise
hídrica global tornou-se iminente. Embora muitos países já enfrentem situações de
escassez, a disponibilidade de água será ainda menor para eles em 2050, e alguns países
fora de situação alarmante, entrarão para os índices a partir da mesma data. O mapa abaixo
apresenta os dois cenários, o superior é a representação dos dados de escassez física de
água em 2010, enquanto que o mapa inferior é uma projeção para 2050, se baseando no
desenvolvimento mundial atual e passado, supondo que está não irá divergir do histórico.

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Figura 1- Escassez física de água no mundo em 2010 (mapa superior) e projeção
para 2050 (mapa inferior)

Fonte: Burek et al. (2016, fig. 4-39, p. 65)

Para a situação atual e para as projeções foram consideradas regiões escassas em


água quando o total anual de captação hídrica para uso humano corresponde a 20-40% do
total disponível de recursos hídricos superficiais renováveis e gravemente escassas em
água quando a captação excede 40%.
Estima-se que 1,9 bilhões de pessoas vivam em áreas potencialmente afetadas pela
escassez de água, e se levada em conta a variabilidade mensal, esse número passa para
3,6 bilhões pessoas, número este de acordo com as projeções pode atingir até 5,7 bilhões
em 2050. Atualmente 73% dessas pessoas vivem na Ásia, para 2050 a estimativa é que
sejam 69% (BUREK et al., 2016).
Sabe-se que um terço dos maiores sistemas mundiais de águas subterrâneas já se
encontrar em perigo (UNESCO, 2018 apud RICHEY et al., 2015), e ainda se prevê um
aumento considerável na captação de águas subterrâneas até 2050, sendo esta uma fonte
não-renovável, logo esta alternativa não é uma possível solução para a escassez de água
no mundo.

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Dentre as possíveis alternativas para solucionar ou amortizar o problema da crise
hídrica mundial, encontramos diversas alternativas sustentáveis, dentre elas, o
reaproveitamento das águas residuárias ou efluentes após tratamento para atividades de
consumo não potável. Apresentando diversas aplicações, dentre elas irrigação de jardins,
lavagem de pisos, descarga em bacias sanitárias, reposição de espelhos d'água e até
mesmo em sistemas de ar condicionado, o reuso de efluentes visa conservar as reservas
de água potável, substituindo a mesma em atividades em que não é necessária excelente
qualidade da água, ou em outras palavras, atividades em que a água não-potável pode ser
utilizada.

2 O REÚSO DE EFLUENTES
2.1 Definição
Segundo Mancuso e Santos (2003), o reúso é definido como o aproveitamento de
águas já utilizadas em alguma atividade humana para suprir as necessidades de outros
usos benéficos, inclusive o original. Pode ser classificado de duas formas, de acordo com
a Organização Mundial da Saúde (OMS, 1973): quanto ao uso e quanto à finalidade.
Quanto ao uso, ele pode ser direto ou indireto; e quanto à finalidade, pode ser potável ou
não potável.
De um modo geral, o reúso de efluentes é pouco utilizado para atividades que
exigem água potável, pois isso requer um tratamento avançado do efluente para a remoção
de patógenos. No Brasil, há uma maior aplicabilidade em atividades que dispensam a
potabilidade da água, como a agricultura, já que para elevar a qualidade do efluente
tratado a ponto de permitir o consumo humano, o custo do tratamento também aumenta
bastante.
O Conselho Nacional de Recursos Hídricos (CNRH) através da Resolução nº 54
de 28 de novembro de 2005 estabelece as diretrizes e os critérios gerais que regulamentam
a prática de reúso direto não potável da água. Nessa resolução, também há o incentivo à
prática do reúso como uma forma de racionalização e conservação dos recursos hídricos
considerando que há uma redução da descarga de poluentes rios e córregos.
O item 5.6 da NBR 13969 (ABNT, 1997) também regulamenta o reuso local de
efluentes de origem doméstica ou com características similares. Essa norma exige que o
esgoto tratado seja reutilizado para fins que não exijam a potabilidade da água, mas que
seja sanitariamente segura essa utilização.

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2.2 Reúso direto
O reúso direto é o uso planejado do efluente, conduzido ao local de utilização sem
que haja o lançamento ou diluição prévia em corpos hídricos (CNRH, 2005). Quando há
esse tipo de utilização, faz-se necessária a adequação da qualidade do efluente ao uso
requerido.
De acordo com o artigo 2º da Resolução nº 54 (CNRH, 2005), o efluente pode ser
utilizado de forma direta e não-potável nas seguintes modalidades:
⎯ Fins urbanos: para fins de irrigação paisagística, lavagem de logradouros
públicos e veículos, desobstrução de tubulações, construção civil,
edificações, combate a incêndio, dentro da área urbana;
⎯ Fins agrícolas e florestais: produção agrícola e cultivo de florestas
plantadas;
⎯ Fins ambientais: implantação de projetos de recuperação do meio
ambiente;
⎯ Fins industriais: em processos, atividades e operações industriais;
⎯ Aquicultura: criação de animais ou cultivo de vegetais aquáticos.
Segundo a NBR 13969 (ABNT, 1997), para os casos de reuso em canais e lagos
com fins paisagísticos, deve-se dar preferência a tratamentos que removam
eficientemente o fósforo do esgoto, já que a depender das condições locais isso pode gerar
um crescimento acelerado de plantas aquáticas (eutrofização).
2.3 Reúso indireto
A definição de reúso indireto é dada pela OMS (1973) como o uso do efluente
tratado, já utilizado uma ou mais vezes, previamente diluído em um corpo hídrico
superficial ou subterrâneo de maneira não controlada. Dessa forma, o efluente fica sujeito
às ações naturais do ciclo hidrológico, como a autodepuração e diluição (CUNHA et al.,
2011).
2.4 Vantagens x Desvantagens
O reúso dos efluentes nas diversas atividades humanas traz diversas vantagens e
desvantagens à população, ao meio ambiente, à economia e à saúde pública. Os
benefícios, de uma maneira geral, trazidos pelo reuso são (BERNARDI, 2003 apud
CUNHA et. al, 2011):
⎯ Promove o uso sustentável dos recursos hídricos;
⎯ Minimiza a poluição hídrica nos mananciais;

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⎯ Estimula o uso racional de águas de boa qualidade;
⎯ Permite evitar a tendência de erosão do solo e controlar processos de
desertificação, por meio da irrigação e fertilização de cinturões verdes;
⎯ Possibilita a economia de dispêndios com fertilizantes e matéria orgânica;
⎯ Provoca aumento da produtividade agrícola;
Segundo a OMS (2006, apud REZENDE, 2010), o incentivo à prática do reúso
pode ajudar no atingimento das metas do milênio nos seguintes aspectos:
⎯ A utilização segura das águas residuais, dejetos e águas cinzas contribui
para menor pressão sobre os recursos de água doce e reduz os riscos de
saúde para as comunidades a jusante;
⎯ Melhoria do saneamento em apoio à utilização segura de efluente sanitário
reduz os fluxos de resíduos humanos em cursos d’água, ajudando a
proteger a saúde humana e ambiental;
⎯ Melhoria da gestão dos recursos hídricos, incluindo o controle da poluição
e conservação da água, é um fator chave na manutenção da integridade do
ecossistema;
⎯ Dependendo do contexto local, desenvolver a agricultura perto dos centros
urbanos utilizando resíduos como adubos, pode contribuir de forma
importante para melhorar a subsistência dos moradores de favelas.
Apesar das notórias vantagens do reúso, deve-se considerar também as
desvantagens dessa prática, que em maioria são associadas aos riscos de contaminação
devido à presença de organismos patogênicos nos efluentes. Por isso, é importante o
cumprimento à normas e recomendações quando há a prática do reúso, para que não haja
comprometimento da saúde humana e ambiental. No Quadro 1 são apresentados os
principais riscos à saúde humana relacionados ao tipo de reúso:

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Quadro 1- Riscos à saúde relacionados ao tipo de reúso

Fonte: adaptado de Rodrigues, 2005 apud Rezende, 2010.

2.5 Planejamento do sistema de reuso


O planejamento do sistema de reuso é abordado pela NBR 13969 (ABNT, 1997)
no item 5.6.1, a qual afirma que o sistema deve ser planejado de modo a permitir o uso
seguro e racional de forma a minimizar o custo de implantação e operação. Essa norma
também determina que devem ser estabelecidos:
⎯ Os usos previstos para o esgoto tratado;
⎯ O volume de esgoto a ser reutilizado;
⎯ O grau de tratamento necessário;
⎯ O sistema de reservação e distribuição;
⎯ O manual de operação e treinamento dos responsáveis.
O item 5.6.2, a NBR 13969 (ABNT,1997) determina que devem ser considerados
todas as atividades que o usuário irá utilizar o esgoto tratado. Também especifica que é
proibido a utilização de efluente tratado na irrigação de hortaliças e frutas de ramas
rastejantes. Essa prática é permitida em plantações de milho, arroz, trigo, café e outras

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árvores frutíferas, porém a irrigação deve ser interrompida pelo menos 10 dias antes da
colheita.

3 EXEMPLOS DE REÚSO
“O reúso relaciona-se com a proteção à saúde pública e meio ambiente,
saneamento ambiental e gerenciamento de recursos hídricos. Para a prática de reúso é
necessário conhecer as bases legais e assim definir a forma correta do mesmo. Sendo
assim, o reúso pode ser um instrumento para liberação dos recursos hídricos de melhor
qualidade para fins mais nobres, utilizando-se efluentes e protegendo a saúde pública e o
meio ambiente. Pode-se poupar grandes volumes de água potável através do reúso com a
utilização de água de qualidade inferior (geralmente efluentes pós-tratados) para
atendimento das finalidades que podem prescindir desse recurso dentro dos padrões de
potabilidade.” (SILVA et al., 2011)
Para tal é importante a demonstração de sistemas que já estão sendo aplicados no
Brasil, o qual possui uma das maiores reservas de água disponível, sendo por isso a reúso
indireto o mais utilizado (o custo para tratar a água até que a mesma fique potável para o
consumo humano superam muito o que é gasto para a retirada de água em corpos d’água
adequados), mais especificamente nos casos a serem apresentados serão na agricultura, a
maior consumidora de água.
3.1 Alagados de fluxo vertical construídos para pós-tratamentos de esgotos.
O reúso de água é uma solução viável para aumentar as tradicionais fontes
disponíveis de água e o uso de esgotos, especialmente na agricultura, é importante
elemento na gestão dos recursos hídricos. Porém de acordo com Batista et al (2013), as
concentrações excessivas de Sólidos Suspensos e Sólidos Totais (SS e ST) nos esgotos
tratados causam obstrução dos poros do solo, reduzindo a infiltração e condutividade
hidráulica de efluente no solo, além de causar entupimento dos emissores que são
responsáveis por levar até o destino final (técnicas como gotejamento são aplicadas pois
o contato direto com o produzido pode causar contaminação, necessitando o contato com
o solo primeiro), sendo sua limpeza ou ainda substituição de emissores entupidos trazem
custos acima dos aceitados. Para isso então se analisou um sistema composto de dois
leitos de fluxo vertical cultivados com Typha sp. (taboa), dispostos paralelamente e com
alimentação intermitente para reverter a situação. (SANTOS, 2015)
O experimento se deu na zona rural de Sumaré/SP, em um local em que se tem
flutuação de população de 500 a 10000 pessoas, dependendo da época do ano. Foram

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então construídos dois tanques (enquanto um é interrompido para reaeração o outro pode
manter-se em atividade) de fibra de vidro de dimensões 2,50 m x 1,10 m x 1,20 m (2,75
m² de área superficial). Os módulos filtrantes dos leitos foram constituídos de três
camadas, a superior de 7 cm de brita 01, a intermediária de 60 cm de areia média e a do
fundo de 13 cm de brita 01. A figura 2 mostra o sistema já montado no local e a figura 3
mostra o esquema projetado, com as devidas camadas. (SANTOS, 2015)

Figura 3 - Sistema montado no lugar

Fonte: Santos, 2015.

Figura 2- Esquema projetado, com destaque para as camadas.

Fonte: Santos, 2015.

Com quatro mudas por metro quadrado, como recomendado pela literatura, a
alimentação intermitente ocorreu através de uma tubulação perfurada que era mantida
suspensa para dispor o efluente de maneira uniforme. Após a deposição havia percolação

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pelas camadas (a camada de 2mm de bidim impedia o carreamento de solo), sendo então
recolhido na parte inferior. Eram aplicados 150 L em cada leito, três vezes ao dia (total
de 900 L) sendo a somatória de saída de 870 L por dia. Os intervalos entre aplicações
eram de cinco horas, havendo a pernoite de 14 horas, sendo feito esse procedimento por
sete meses. (SANTOS, 2015)
O sistema em todas as unidades apresentou eficiente, com redução média de 92%
da turbidez. A média de turbidez dos afluentes era de 33,3 ± 28,1 NTU e efluentes com
turbidez média de 2,7 ± 1,8 NTU, os quais se encaixam nos padrões de qualidade mínima
exigida pela USEPA (1992, apud SANTOS, 2015) para reuso agrícola. A concentração
de Sólidos Suspensos Totais (SST) também teve uma redução considerável, com valores
médios de 86,63% (afluente 37,7 mg L-1 e efluente de 5 mg L-1). As figuras 4 e 5 mostram
os resultados obtidos nos sete meses, sendo P1 e P2 os valores de turbidez e sólidos
suspensos totais antes do tratamento e P3 e P4 os resultados obtidos (P3 e P4 são
mostrados como média) (SANTOS, 2015).
Figura 4- Valores obtidos para a turbidez (NTU) no sistema proposto

Fonte: Santos, 2015.

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Figura 5- Valores obtidos para SST (mg/L) no sistema proposto

Fonte: Santos, 2015.


Houve também retirada considerável do nitrogênio amoniacal de 57,8%, além de
aumento da nitrificação de 40%, demonstrando seu potencial na produção de efluente
para reúso agrícola, pois o íon nitrato é uma das principais fontes de absorção de
nitrogênio pelas plantas, o qual é absorvido nas raízes sob forma de NO3- e NH4+
(SANTOS, 2015).
3.2 Análise do reúso na indústria sucroalcooleira – estudo na Usina Coruripe
A cana-de-açúcar sempre teve muita importância na economia brasileira. Sua
valorização como alternativa aos combustíveis fósseis (Brasil e Estados Unidos produzem
70% do etanol no mundo) e o aumento do preço do produto como commoditie, induziram
a indústria a se modernizar e aumentar sua produtividade, fazendo com que o Brasil tenha
o mais moderno e mais competitivo complexo sucroalcooleiro do mundo. (GOES et al.,
2008).
Sendo constante usuária de água, tanto na irrigação como no processo de
fabricação, a indústria da cana-de-açúcar utiliza a água em processos como a lavagem da
cana, nos condensadores, na lavagem de cinzas e gases, gerando grandes volumes de
descarte de efluentes (vinhaça e águas residuais). (MENEZES et al., 2004)
Entre os reúsos dessa indústria está a vinhaça, resultante da produção do álcool,
sendo um potencial poluidor ambiental pois para cada litro de álcool produzido se
produzem dez de vinhaça. É caracterizado por ter odor forte, de cor marrom-escuro, baixo
pH, alto teor de potássio e alta DBO (alta carga de matéria orgânica). Sua adição pode

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melhorar as condições físicas do solo e promover maior mobilização de nutrientes.
(SILVIA et al., 2013)
Na S. A. Usina Coruripe Açúcar e Álcool, a água residuária, após passar por um
processo de tratamento, é utilizada na irrigação juntamente com a vinhaça, evitando que
os mesmos sejam lançados nos corpos d’água receptores, preservando a qualidade da água
superficial e subterrânea. (MENEZES et al., 2004). Todo o processo começa com o
recolhimento da cana no canavial, feita por um caminhão tipo gaiola, sendo que a cana é
cortada manualmente e disposta no chão, fazendo com que se carregue grande quantidade
de sólidos (chega a atingir 10% do peso recolhido), além de se obter açúcar e mel residual
da mais baixa qualidade, acarreta problemas para a clarificação do caldo, sendo então
necessário um processo de limpeza, que é um dos processos que mais demanda água
dentro da usina. (OMENA et al, 2004)
O fluxograma se dá quando toda a cana que chega é levada até três mesas de
lavagem, onde o material é lavado por jatos. Depois de lavada, a cana é conduzida para
uma peneira chamada “cush-cush”, para reter bagacilhos, palhas e demais materiais
carreados pelo caminhão. Abaixo das cush-cush a água é coletada por canais que
conduzem até um poço de sucção (elevatória 1) que a recalca para um decantador circular
(Maracanã), de fluxo contínuo, dotado de raspador de fundo para os sólidos
sedimentados, e o de superfície para os que flutuam, o qual pode ser observado na figura
6. A água tratada (sobrenadante) então é conduzida por tubulação de 1,1 metros de
diâmetro a uma caixa de passagem de onde escoa por gravidade até o poço de sucção da
elevatória 3, sendo misturada com a água de reposição advinda das colunas barométricas,
sendo então adicionado leite de cal (hidróxido de cálcio) para correção do pH. Parte da
água então é retornada para as três mesas de lavagem pela elevatória 3, que pode ser visto
na figura 7. (OMENA et al, 2004)

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Figura 6 - Vista interna do Maracanã, com destaque para o raspador de fundo

Fonte: Omena et al.,2004

Figura 7 - Vista da estação elevatória 3

Fonte: Omena et al.,2004


A outra parte do excedente é descartado, por gravidade, até o poço de sucção da
elevatória 4 que recalca a água para o Maracanã novamente junto com a água já utilizada
para a lavagem da cana. Toda a água que excede a capacidade do poço 4 é encaminhada
por canalização até uma lagoa de sedimentação (Lagoa A), a qual também recebe a águas
de lavagem de gases, cinzas e pisos. No Maracanã, o lodo decantado no fundo é enviado
por gravidade para a segunda lagoa de sedimentação (Lagoa B). Essa água então é enviada
para uma terceira lagoa (Lagoa C) para então ser recalcada para o canavial e reaproveitada
na irrigação. (OMENA et al., 2004). Todo o processo pode ser observado na figura 8.

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Figura 6- Fluxograma de reuso da água

Fonte: Omena et al.,2004

Analisando o trabalho realizado por MENEZES et al.(2004), que também analisou


a Usina Coruripe, a fim de obter uma noção dos números que a Usina trabalha, verificou-
se que a coluna barométrica envia vazão de 673 m³/h e a vazão de descarte de fundo do
decantador é de 2957 m³/h. Já a vazão afluente na Lagoa A é de 3000 m³/h, e na Lagoa B
de 1350 m³/h, sendo assim o total de água residual enviada para o canavial de 5023 m³/h.
Já a vazão da vinhaça obtida representa 212 m³/h, que somado ao total de água residual
dá um total de água de reúso de 5235 m³/h. Na Safra 2003/2004 a Usina irrigou 28 mil
hectares de canavial (27 mil por aspersão e mil por gotejamento), por cerca de 8 meses,
o que representa 43 mil m³/h, sendo o volume de água de reúso 12% desse total.

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4 CONCLUSÃO
A escassez de água e a diminuição da qualidade dos corpos hídricos disponíveis
para o consumo é uma realidade cada vez mais frequente em todo o mundo. Para reduzir
os efeitos desses problemas, o reúso de efluentes acaba se tornando uma alternativa
bastante viável em algumas situações, já que seu objetivo é conservar as reservas de água
potável utilizando o esgoto tratado em atividades humanas que não exigem níveis de
potabilidade da água (como irrigação de algumas culturas e lavagem de pisos).
Porém, para ser feito de uma forma segura e eficiente, o reúso deve ser bem
planejado, executado e monitorado. Esse monitoramento deve ser feito com base na
atividade em que será utilizado o efluente tratado, de forma a evitar a contaminação do
meio ambiente e da população.

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