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CAPÍTULO 1 – INTRODUÇÃO AO DIREITO PROCESSUAL CIVIL

2. CONCEITO DE PROCESSO

O processo pode ser compreendido como método de criação de normas jurídicas, ato jurídico
complexo (procedimento) e relação jurídica.

Sob o enfoque da Teoria da Norma Jurídica  processo é o método de produção de normas


jurídicas.

Processo também é método de exercício da jurisdição.

ATENÇÃO: o método-processo deve seguir o modelo traçado pela Constituição.

Conceito de processo como ato jurídico complexo: Trata-se de um procedimento, e o


procedimento é um ato-complexo de formação sucessiva, porquanto seja um conjunto de atos
jurídicos (atos processuais), relacionados entre si, que possuem como objetivo comum, no
caso do processo judicial, a prestação jurisdicional.

Procedimento é gênero, do qual processo é uma espécie. Portanto, processo é o procedimento


estruturado em contraditório.

Conceito de processo quanto ao efeito jurídico: processo é o conjunto das relações jurídicas
que se estabelecem entre os diversos sujeitos processuais (partes, juiz, auxiliares da justiça,
etc).

Note-se que, para encarar o processo como um procedimento (ato jurídico complexo de
formação sucessiva), ou, ainda como um procedimento em contraditório, não se faz
necessário abandonar a ideia de ser o processo, também, uma relação jurídica.

O termo processo serve, então, tanto para designar o ato processo como a relação
jurídica que dele emerge.

3. TEORIA GERAL DO PROCESSO, CIÊNCIA DO DIREITO PROCESSUAL CIVIL


E DIREITO PROCESSUAL CIVIL

Teoria geral do processo  pode ser compreendida como uma teoria geral, pois os conceitos
jurídicos fundamentais (lógico-jurídicos) processuais, que compõem o seu conteúdo, têm
pretensão universal.
Direito processual civil  é o conjunto das normas que disciplinam o processo jurisdicional
civil – visto como ato-jurídico complexo ou como feixe de relações jurídicas. Compõe-se de
normas que determinam o modo como o processo deve estruturar-se e as situações jurídicas
que decorrem dos fatos jurídicos processuais.

Ciência do Direito Processual Civil  é o ramo do pensamento jurídico dogmático


dedicado a formular as diretrizes, apresentar os fundamentos e oferecer os subsídios para as
adequadas compreensão e aplicação do Direito Processual Civil.

4. PROCESSO E DIREITO MATERIAL. INSTRUMENTALIDADE DO PROCESSO.


RELAÇÃO CIRCULAR ENTRE O DIREITO MATERIAL E O PROCESSO.

 O processo é um método de exercício da jurisdição. A jurisdição caracteriza-se por tutelar


situações jurídicas concretamente afirmadas em um processo.
 O processo deve ser compreendido, estudado e estruturado tendo em vista a situação
jurídica material para a qual serve de instrumento de tutela. A essa abordagem
metodológica do processo pode dar-se o nome de instrumentalismo, cuja principal virtude
é estabelecer a ponte entre o direito processual e o direito material.
 É impossível compreender alguns temas processuais sem analisar a relação que cada um
desses institutos mantém com o direito material processualizado. A instrumentalidade do
processo pauta-se na premissa de que o direito material coloca-se como o valor que deve
presidir a criação, a interpretação e a aplicação das regras processuais.

5. ALGUMAS CARACTERÍSTICAS DO PENSAMENTO JURÍDICO


CONTEMPORÂNEO

Rol das mais importantes características do atual pensamento jurídico:


a) Reconhecimento da força normativa da Constituição, que passa a ser encarada como
principal veículo normativo do sistema jurídico, com eficácia imediata e independente,
em muitos casos, de intermediação legislativa.
b) Desenvolvimento da teoria dos princípios, de modo a reconhecer-lhes eficácia normativa:
o princípio deixa de ser técnica de integração do Direito e passa a ser uma espécie de
norma jurídica.
c) A função jurisdicional passa a ser encarada como uma função essencial ao
desenvolvimento do Direito, seja pela estipulação da norma jurídica do caso concreto,
seja pela interpretação dos textos normativos, definindo-se a norma geral que deles deve
ser extraída e que deve ser aplicada a casos semelhantes.
d) Expansão e consagração dos direitos fundamentais, que impõem ao Direito positivo
um conteúdo ético mínimo que respeite a dignidade da pessoa humana e cuja teoria
jurídica se vem desenvolvendo a passos largos.
6. NEOCONSTITUCIONALISMO, NEOPROCESSUALISMO OU FORMALISMO
VALORATIVO. A ATUAL FASE METODÓLOGICA DA CIÊNCIA DO PROCESSO

Críticas ao neoconstitucionalismo:

a) Supervalorizam-se as normas-princípios em detrimento das normas-regra, como


se aquelas sempre devessem preponderar em relação a essas e como se o sistema
devesse ter mais normas-princípio do que normas-regra, ignorando o importantíssimo
papel que as regras exercem no sistema jurídico: reduzir a complexidade do sistema e
garantir segurança jurídica;
b) Supervaloriza-se o Poder Judiciário em detrimento do Poder Legislativo, em
grave prejuízo à democracia e à separação de poderes;
c) Supervaloriza-se a ponderação em detrimento da subsunção, olvidando que a
subsunção é método bem adequado à aplicação das normas-regra, de resto as espécies
normativas mais abundantes no sistema.

Fases da evolução histórica do direito processual:


a) Praxismo ou sincretismo, em que não havia a distinção entre o processo e o direito
material: o processo era estudado apenas em seus aspectos práticos, sem
preocupações científicas;
b) Processualismo, em que se demarcam as fronteiras entre o direito processual e o
direito material, com o desenvolvimento científico das categorias processuais.
c) Instrumentalismo, em que, não obstante se reconheçam as diferenças entre o direito
processual e o direito material, se estabelece entre ele uma relação circular de
interdependência: o direito processual concretiza e efetiva o direito material, que
confere ao primeiro o seu sentido.
d) Fala-se então de uma 4ª fase o Neoprocessualismo: o estudo e aplicação do Direito
Processual de acordo com esse novo modelo de repertório teórico. Na UFRGS, sob a
liderança de Carlos Alberto Alvaro de Oliveira, costuma-se denominar esta fase do
desenvolvimento do direito processual de formalismo-valorativo, exatamente para
destacar a importância que deve dar aos valores constitucionalmente protegidos na
pauta de direitos fundamentais na construção e aplicação do formalismo processual.

7. A CIÊNCIA DO PROCESSO E A NOVA METODOLOGIA JURÍDICA

7.1 Constituição e processo. Art. 1º do CPC

A constitucionalização do Direito Processual é uma das características do Direito


Contemporâneo. O fenômeno pode ser visto em duas dimensões:
a) Há incorporação aos textos constitucionais de normas processuais, inclusive como
direitos fundamentais.
b) A doutrina passa examinar as normas processuais infraconstitucionais como
concretizadoras das disposições constitucionais.

Destaca-se, portanto, a redação do art. 1º do NCPC: O processo civil será ordenado,


disciplinado e interpretado conforme os valores e as normas fundamentais estabelecidos na
Constituição da República Federativa do Brasil, observando-se as disposições deste Código.

7.2 Princípios processuais

Princípio é espécie normativa. Trata-se de norma que estabelece um fim a ser atingido.

 Eficácia direta de um princípio  “traduz-se na atuação sem intermediação ou


interposição de outro (sub)princípio ou regra”. Nesse plano, os princípios exercem uma
função integrativa: permite-se agregar elementos não previstos em subprincípios ou
regras. A eficácia de um princípio do processo não depende de intermediação por outras
regras jurídicas.
 Eficácia indireta de um princípio  Há normas que servem à concretização dos
princípios processuais. Quando atuam por intermédio dessas normas, fala-se que os
princípios têm uma eficácia indireta. As normas que servem como ponte, a intermediar a
eficácia do princípio, podem ser outros princípios (subprincípios) ou regras.

FUNÇÕES DOS PRINCÍPIOS

Os subprincípios exercem uma função definitória em relação aos princípios  delimitam


com maior precisão o comando normativo estabelecido pelo sobreprincípio. As regras
também exercem essa função na medida em que  delimitam o comportamento que deverá
ser adotado para concretizar as finalidades estabelecidas pelos princípios.

Princípios em relação às normas menos amplas – função interpretativa – servem para


interpretar normas construídas a partir de textos normativos expressos.

Função bloqueadora dos princípios: servem para justificar a não-aplicação de textos


expressamente previstos que sejam incompatíveis com o estado de coisas que se busca
promover.
O NCPC encampa claramente a teoria da força normativa dos princípios jurídicos. O §2º
do art. 489 do CPC esmiúça o dever de fundamentação, no caso de o órgão julgador decidir
por “ponderação de normas”; a PONDERAÇÃO é usualmente relacionada ao caso de
aplicação de princípios colidentes.

7.3 A nova feição da atividade jurisdicional e o Direito Processual: sistema de


precedentes, criatividade judicial e cláusulas gerais processuais.

Estrutura-se um sistema de precedentes judiciais, em que se reconhece eficácia


normativa a determinadas orientações da jurisprudência (ex: súmulas vinculantes).

CLÁUSULA GERAL  é uma espécie de texto normativo, cujo antecedente (hipótese


fática) é composto por termos vagos e o consequente (efeito jurídico) é indeterminado.

Uma das principais características dos sistemas jurídicos contemporâneos é exatamente a


harmonização de enunciados normativos  cláusulas gerais + regras casuísticas.

 A existência de cláusulas gerais reforça o poder criativo da atividade jurisdicional. O


método de subsunção do fato ao enunciado normativo, próprio e útil para os casos de
textos normativos típicos e fechados, revela-se insuficiente para a aplicação de cláusulas
gerais, pois estas exigem concretização em vez de subsunção. As claúsulas gerais servem
para a realização da justiça do caso concreto.
 A relação entre cláusula geral e o precedente judicial é bastante íntima, pois a utilização
da técnica das cláusulas gerais aproximou o sistema do civil law do sistema do common
law, uma vez que a cláusula geral serve como um elemento de conexão, permitindo ao
juiz fundamentar a sua decisão em casos precedentemente julgados.
 As cláusulas gerais desenvolveram-se inicialmente no âmbito do Direito Privado, todavia
elas têm “invadido” o Direito Processual, afinal, este também necessita de normas
flexíveis que permitam atender às especiais circunstâncias do caso concreto. A existência
de várias cláusulas gerais rompe com o tradicional modelo de tipicidade estrita que
estruturava o processo até meados do século XX.

7.4 Processo e direitos fundamentais

Os direitos fundamentais têm dupla dimensão: a) subjetiva: de um lado, são direitos


subjetivos, que atribuem posições jurídicas de vantagem a seus titulares; b) objetiva:
traduzem valores básicos e consagrados na ordem jurídica, que devem presidir a
interpretação/aplicação de todo ordenamento jurídico, por todos os atores jurídicos.

TRATA-SE DE ENCARAR O DIREITO FUNDAMENTAL COMO NORMA


JURÍDICA (DIMENSÃO OBJETIVA) OU COMO SITUAÇÃO JURÍDICA ATIVA
(DIMENSÃO SUBJETIVA).

O processo deve estar adequado à tutela efetiva dos direitos fundamentais (dimensão
subjetiva) e, além disso, ele próprio deve ser estruturado de acordo com os direitos
fundamentais (dimensão objetiva).
Princípio da adequação judicial das normas processuais  está relacionado a
competência do juiz de aferir a constitucionalidade da norma processual (controle de
constitucionalidade difuso).

8. Aplicação da norma processual no tempo

Cada ato que compõe o processo é um ato jurídico que merece proteção. Lei nova não
pode atingir ato jurídico perfeito, mesmo se ele for um ato jurídico processual. Por isso o art.
14 do CPC determina que se respeitem os atos processuais praticados.
O direito processual é uma situação jurídica ativa. Uma vez adquirido pelo sujeito, o
direito processual ganha proteção constitucional e não poderá ser prejudicado por lei. Lei
nova não pode atingir direito adquirido, mesmo se for um direito adquirido processual. Por
isso o art.14 do CPC determina que se respeitem “as situações jurídicas consolidadas sob a
vigência da norma revogada.”

A aplicação imediata da norma processual não escapa à determinação constitucional


que impede a retroatividade da lei para atingir ato jurídico perfeito e direito adquirido.

9. A tradução jurídica brasileira: nem civil law nem common law

O sistema jurídico brasileiro é inspirado em variados ordenamentos jurídicos, ou seja, possui


características tanto do civil law, quanto do common law. Portanto, embora a importância da
opinião dos doutrinadores ainda seja bem significativa (caracteristica do civil law), o destaque
que se tem atribuído à jurisprudência (marca do common law) é notável, de que serve de
exemplo a súmula vinculante do STF. O pensamento jurídico brasileiro opera (tem de operar),
com alguma desenvoltura, com marcos teóricos e metodológicos desses dois grandes modelos
de sistema jurídico.
Enfim, para bem compreender o Direito Processual Civil Brasileiro contemporâneo não
se pode ignorar essa circunstância: é preciso romper com o “dogma da ascendência
genética”, não comprovado empiricamente, segundo o qual o Direito Brasileiro se filia a
essa ou àquela tradição jurídica.
CAPÍTULO 2 – NORMAS FUNDAMENTAIS DO PROCESSO CIVIL

1. Direito processual fundamental

o Normas fundamentais/gerais  servem de norte para compreensão das demais normas


jurídicas processuais. – algumas normas são princípios e outras são regras.
o Normas que decorrem da Constituição  Direito Processual Fundamental Constitucional
o Há normas previstas na CF, normas previstas na legislação infraconstitucional. Trata-se de
rol não exaustivo o previsto nos arts. 1 a 12 do CPC.

2. PRINCÍPIOS

2.1. Princípio do devido processo legal

2.1.1 Considerações gerais

Previsto no inciso LIV do art. 5º da CF  “Ninguém será privado da liberdade ou de seus


bens sem o devido processo legal”.

LEGAL – é adjetivo que remete a Direito.

PROCESSO – método de exercício do poder normativo. Existe processo legislativo,


administrativo, jurisdicional. Deve-se observar, assim, o devido processo legal legislativo,
administrativo, nas relações particulares... O devido processo legal é uma garantia contra o
exercício abusivo do poder.

2.1.2 Conteúdo

O texto do inciso citado é uma cláusula geral.

ORIGEM  Magna Carta de 1215 – o mais remoto documento normativo histórico de


consagração do devido processo legal.

Ao longo dos séculos, inúmeras foram as mudanças em relação ao devido processo legal, e
essas mudanças (direitos fundamentais inerentes ao devido processo legal), em virtude do
princípio da hermenêutica constitucional, não podem ser retiradas, uma vez que o referido
princípio proíbe o retrocesso em tema de direitos fundamentais. Essas concretizações do
devido processo legal estão previstas ao longo da CF, em diferentes dispositivos
(contraditório e ampla defesa; proibição de provas ilícitas, decisões motivadas, duração
razoável do processo, dentre outros) e estabelecem o modelo constitucional de processo
brasileiro.

LOGO, O DEVIDO PROCESSO LEGAL É UM DIREITO FUNDAMENTAL DE


CONTEÚDO COMPLEXO.

A construção do processo devido é obra eternamente em progresso. Trata-se de cláusula


aberta que tem por fim se adequar as mudanças no sistema jurídico.

Função (integrativa)  criar os elementos necessários à promoção do ideal de protetividade


dos direitos, integrando o sistema jurídico eventualmente lacunoso. Dele decorrem outros
princípios. UM PROCESSO, PARA SER DEVIDO, PRECISA SER ADEQUADO,
LEAL E EFETIVO.

É UM PRINCÍPIO ESTRUTURANTE (são aqueles que prescrevem o âmbito e o modo da


atuação estatal, não podem ser afastados no caso concreto em razão de colisão com outro
princípio).

2.1.3. Dimensões

Devido processo legal formal/fundamental: composto por garantias processuais. Ex: direito
ao contraditório, ao juiz natural, a duração razoável do processo.

Devido processo legal substancial: origem nos EUA  devido é o processo que gera
decisões jurídicas substancialmente devidas. – assimilado pelo Brasil ao considerar o
fundamento constitucional das máximas da proporcionalidade e da razoabilidade. O STF
extrai da cláusula geral do devido processo legal os deveres de proporcionalidade ou
razoabilidade. Assim, o processo legal substancial significa desde a proibição de leis
aberrantes a razão, passando pela exigência de que devem ser elaboradas com justiça,
razoabilidade.

Lição de Canaris: os princípios não tem pretensão de exclusividade: um mesmo efeito


jurídico (proporcionalidade e razoabilidade) pode ser resultado de diversos princípios
(isonomia ou devido processo legal).

ATENÇÃO: não obstante, a proporcionalidade e a razoabilidade terem como origem a


cláusula aberta do devido processo legal, sua aplicabilidade vai além do âmbito processual
jurisdicional, pois conforme exposto anteriormente, é um princípio que se aplica em qualquer
produção normativa.

Devido processo substantivo  princípio de garantia da liberdade em geral contra as


arbitrariedades do Estado. Função: reconhecer e proteger os direitos fundamentais implícitos.

2.1.4 Devido processo legal e relações jurídicas privadas

Eficácia horizontal dos direitos fundamentais  é aplicável o princípio do devido processo


legal às relações privadas.

2.2. Princípio da dignidade da pessoa humana

É fundamento da República (art. 1º, III, CF/1988). Disposto também no art. 8º do CPC.

 Sobreprincípio constitucional  dele derivam todos os princípios e regras relativas aos


direitos fundamentais.
 Também é direito fundamental de conteúdo complexo.

O órgão julgador (representante do Estado) deve resguardar (aplicar as regras jurídicas de


forma adequada e também não deve violar a dignidade); ademais, deve promover a
dignidade da pessoa humana (papel mais ativo do magistrado – sua atuação com a
finalidade promover a dignidade da pessoa humana deve ser fundamento de forma específica).

Devido processo legal x Dignidade da pessoa humana

O devido processo legal é cláusula conhecidíssima, secular, cujo conteúdo mínimo já foi
incorporado ao texto da Constituição. Dignidade da pessoa humana é cláusula normativa
recente, ainda carente de maior densidade normativa. A dignidade da pessoa humana ilumina
o devido processo legal.

NO PROCESSO CIVIL, ESSE PRINCÍPIO SE ESTENDE A TODOS QUE PODEM SER


PARTE, AINDA QUE COM NÍVEL DE INTENSIDADE DIFERENTE: PESSOAS
NATURAIS, PESSOAS JURÍDICAS, NASCITUROS, ÓRGÃOS PÚBLICOS, ETC.

2.3. Princípio do contraditório

2.3.1. Generalidades e a regra da proibição de decisão-surpresa

Previsão legal: inciso LV do art. 5º da CF  “aos litigantes, em processo judicial ou


administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e a ampla defesa,
com os meios e recursos a ela inerentes”.

 Deriva do princípio do devido processo legal

 Se aplica também nos âmbitos administrativo e negocial.

 Decompõe-se em duas garantias: a) participação – dimensão formal – garantia de ser


ouvido, de participar do processo (audiência, comunicação, ciência); b) possibilidade de
influência na decisão – dimensão substancial – além de permitir à parte que seja ouvida, deve
ser em condições de poder influenciar a decisão do órgão jurisdicional. Essa dimensão
substancial impede a prolação de decisão surpresa, isto é, toda decisão deve passar pelo
contraditório.

DECISÃO SURPRESA É DECISÃO NULA

DEVEM SER RESPEITADAS ESSAS DUAS GARANTIAS PARA QUE O PRINCÍPIO


DO CONTRADITÓRIO SEJA RESPEITADO

 Ainda que a lei permita que o juiz possa agir de ofício e basear-se em fatos não alegados
pelas partes, esses novos fatos devem passar pelo contraditório, uma vez que decisão
fundamentada neles é decisão-surpresa, logo é decisão nula. Vide: art. 493; art. 772, II;
art. 77, §§1º e 2º; art. 9 e 10; art. 933 do CPC.
 Exceções a regra de que a parte deve sempre ser ouvida: a) O acusado não precisa ser
ouvido caso a decisão lhe seja favorável, assim, a parte contrária só precisa ser ouvida se a
decisão lhe for desfavorável; b) decisões que concedem tutela provisória liminar de
urgência ou evidência; dentre outras. Nesses casos, o contraditório não é dispensando, é
apenas postergado, pois trata-se de decisão de caráter provisório.

2.3.2. Dever de o juiz zelar pelo efetivo contraditório.

Previsão legal  parte final do art. 7º e art. 139, I.

Fredie Didier destaca que não é a toa, a disposição desse dever no mesmo dispositivo que
consagra a igualdade processual, portanto, é preciso que as partes possam exercer o
contraditório em condições iguais. Assim, o juiz deve atuar a fim de neutralizar as
desigualdades e promover uma equivalência de oportunidades a todos os sujeitos processuais.
Vide: art. 139, primeira parte: dispõe a respeito da dilação dos prazos processuais.

2.4. Princípio da ampla defesa


Previsão legal: inciso LV do art. 5º da CF  “aos litigantes, em processo judicial ou
administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e a ampla defesa,
com os meios e recursos a ela inerentes”.

A doutrina tradicional costumava distinguir a ampla defesa do contraditório. Contudo, hoje,


são consideradas figurar conexas (constituem um único direito fundamental), de forma que a
ampla defesa qualifica o contraditório. Bem como, o contraditório é o instrumento pelo qual
se realiza a defesa.

Conceito  conjunto de meios adequados para o exercício adequado do contraditório.

A AMPLA DEFESA CORRESPONDE AO ASPECTO SUBSTANCIAL DO PRINCÍPIO


DO CONTRADITÓRIO

2.5. Princípio da publicidade

Previsão legal: inciso LX, art. 5º da CF  a lei só poderá restringir a publicidade dos atos
processuais quando a defesa da intimidade ou o interesse público o exigirem;
arts. 8º e 11 do CPC; art. 93, incisos IX e X da CF.

É um direito fundamental que possui duas funções: a) proteger as partes contra juízos
arbitrários e secretos; b) permitir o controle da opinião pública sobre os serviços da justiça.

Interna: publicidade para as partes


DIMENSÕES Externa: publicidade para terceiros, que pode ser
restringida em alguns casos: quando a defesa da intimidade
ou o interesse social o exigirem. Vide: art. 189 do CPC

Direito de consulta aos autos e pedir certidões em processos que tramitem em segredo de
justiça  PARTES E PROCURADORES. Vide: art. 189, §2º.

O processo arbitral pode ser sigiloso, portanto não trata-se de pressuposto. Atenção: Se
envolver entes públicos, não pode.

Não se admite em negócio processual atípico pacto de segredo de justiça, caso as partes
desejem, devem se encaminhar para o juízo arbitral.

A PUBLICIDADE É INSTRUMENTO DE EFICÁCIA DA GARANTIA DA MOTIVAÇÃO


DAS DECISÕES JUDICIAIS.

 A publicidade é importante elemento para formação dos precedentes judiciais. Vide: art.
979, §§1º,2º e 3º.
Peculiaridade brasileira  transmissão ao vivo dos julgamentos do STF  trata-se de técnica
de concretização da dimensão externa do direito fundamental à publicidade processual.
Aspecto positivo: disseminação da informação jurídica, bem como do posicionamento do
STF. Aspecto negativo: espetacularização das sessões e o enfraquecimento da colegialidade
do julgamento.

Publicidade nos processos eletrônicos  Vide: §6º do art. 11 da Lei n. 11.419/2006 e


Resolução do CNJ n. 121/2010, com alterações pela Resolução n. 143/2011.

2.6. Princípio da duração razoável do processo

Previsão legal: art. 8, 1, do Pacto de São José da Costa Rica: “Toda pessoa tem o direito a
ser ouvida com as devidas garantias e dentro de um prazo razoável, por um juiz ou tribunal
competente, independente e imparcial, estabelecido anteriormente por lei, na apuração de
qualquer acusação penal formulada contra ela, ou para que se determinem os seus direitos
ou obrigações de natureza civil, trabalhista, fiscal ou de qualquer natureza”.  pelo caráter
constitucional atribuído aos tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário, este
princípio é uma norma constitucional; vale destacar que posteriormente com a edição da EC
n. 45/2004, incluiu-se o inciso LXXVIII no art. 5º da CF que também consagrou esse
princípio: “a todos, no âmbito judicial e administrativo, são assegurados a razoável duração
do processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação”. Art. 4º e 139 do CPC.

Critérios para aferir a razoável duração do processo


a) complexidade do assunto;
b) o comportamento dos litigantes e de seus procuradores ou da acusação e da defesa no
processo;
c) a atuação do órgão jurisdicional;
d) análise da estrutura do órgão judiciário.

Atenção: os critérios devem ser analisados de acordo com o caso concreto, um não possui
mais relevância que o outro, devem ser observados em conjunto.

Instrumentos para assegurar esse direito


a) representação pelo excesso de prazo, com a possível perda da competência do juízo em
razão da demora (art. 235, CPC);
b) mandado de segurança contra a omissão judicial (não prolação da decisão por tempo não
razoável);
c) se a demora injusta causar prejuízo, ação de responsabilidade civil contra o Estado, com
possibilidade de ação regressiva contra o juiz;
d) vide inciso II, art. 93 da CF/88
Não existe um princípio da celeridade. O processo não tem de ser rápido/célere: o
processo deve demorar o tempo necessário e adequado à solução do caso submetido ao
órgão jurisdicional.

2.7. Princípio da igualdade processual (paridade de armas)

Previsão legal  caput do art. 5º da CF: Todos são iguais perante a lei, sem distinção de
qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a
inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos
termos seguintes. Art. 7º do CPC  É assegurada às partes paridade de tratamento em
relação ao exercício de direitos e faculdades processuais, aos meios de defesa, aos ônus, aos
deveres e à aplicação de sanções processuais, competindo ao juiz zelar pelo efetivo
contraditório.

Aspectos a serem observados:


a) imparcialidade do juiz;
b) igualdade no acesso à justiça, sem discriminação;
c) redução das desigualdades que dificultem o acesso à justiça, como financeira
(gratuidade da justiça, art. 98-102 CPC), geográfica (videoconferência, art. 937, §4º,
CPC), a de comunicação, dentre outras.
d) igualdade no acesso às informações necessárias ao exercício do contraditório.

 O TRATAMENTO DISTINTO É A PRINCIPAL FORMA DE IGUALAR AS PARTES


– vide artigos: 72; 53, I, II, III; 178, II; 311; 183; 1002, §1º, III; art. 1048. O dever de o
tribunal uniformizar a sua jurisprudência e observá-la é, também, manifestação do
princípio da igualdade (art. 926, CPC).
 Uma importante dimensão do princípio da igualdade, no processo, é o dever de o órgão
julgador confrontar o caso concreto com o caso paradigma, de modo a verificar se é ou
não caso de aplicação do precedente ou da jurisprudência (art. 489, §1º, V e VI, CPC).

2.8. Princípio da eficiência

Previsão legal: art. 37, caput, da CF/1988  A administração pública direta e indireta de
qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios
obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência
e, também, ao seguinte – neste caso o princípio da eficiência se apresenta como norma de
direito administrativo; como norma de direito processual, encontra fundamento no art. 8º do
CPC: Ao aplicar o ordenamento jurídico, o juiz atenderá aos fins sociais e às exigências do
bem comum, resguardando e promovendo a dignidade da pessoa humana e observando a
proporcionalidade, a razoabilidade, a legalidade, a publicidade e a eficiência.

O princípio repercute sobre a atuação do Poder Judiciário em duas dimensões:

 Administração Judiciária: o Poder Judiciário pode ser encarado como ente da


Administração, portanto, a Administração Judiciária – conjunto dos órgãos
administrativos que compõem o Poder Judiciário – deve ser eficiente. Destaca-se a criação
do CNJ para essa finalidade. Vide: §4º do art. 103-B da CF. O princípio nesse sentido é
norma de direito administrativo.
 Sobre a gestão de um determinado processo: dimensão aplicada ao processo
jurisdicional, a qual impõe a condução eficiente de um determinado processo pelo órgão
jurisdicional. Nesse aspecto, o princípio dirige-se ao órgão do PJ como responsável pela
gestão de um processo específico. Esse princípio se relaciona com a gestão do processo: o
órgão jurisdicional é visto como um administrador, e seus poderes de condução de
processo devem ser exercidos de modo a dar o máximo de eficiência ao processo, assim, o
princípio tem por escopo orientar o exercício dos poderes de gestão do processo pelo
órgão jurisdicional. Esse princípio se relaciona com o princípio da economia processual.
 Portanto, a eficiência (meta desse princípio) é alcançada como o resultado de uma atuação
que observou dois deveres: a) obter o máximo de um fim com o mínimo de recursos
(efficiency); b) o de, com um meio, atingir o fim máximo (effectiveness).
 A eficiência é uma qualidade que se pode atribuir apenas ao procedimento.

Eficiência x Efetividade
Efetivo é o processo que realiza o direito firmado e reconhecido judicialmente.
Eficiente é o processo que atingiu esse resultado de modo satisfatório nos termos acima.

UM PROCESSO PODE SER EFETIVO SEM TER SIDO EFICIENTE, MAS JAMAIS
PODERÁ SER CONSIDERADO EFICIENTE SEM TER SIDO EFETIVO.

APLICAÇÕES DO PRINCÍPIO DA EFICIÊNCIA


 Escolha do meio a ser utilizado para a execução da sentença (vide: art. 536, §1º,
CPC);
 Função interpretativa;
 Permissão de o órgão jurisdicional estabelecer uma espécie de “conexão
probatória” entre causas pendentes, de modo a unificar a atividade instrutória,
como froma de redução de custos, mesmo que isso não implique a necessidade de
julgamento simultâneo de todas elas.
 É fundamento para adoção de técnicas de gestão do processo, como o calendário
processual; ou outros acordos processuais com as partes;
 Permite que o órgão jurisdicional organize os autos do processo, dividindo-os,
por exemplo, em autos com a prova documental e autos com as postulações
decisões.

2.9. Princípio da boa-fé processual

2.9.1. Generalidades

Previsão legal  art. 5º do CPC: “Aquele que de qualquer forma participa do processo deve
comporta se de acordo com a boa fé”. – o princípio extrai-se de uma cláusula geral
processual.

Boa-fé objetiva: é uma norma de conduta; impõe e proíbe condutas além de criar situações
jurídicas ativas e passivas. Não existe princípio da boa-fé subjetiva. O art. 5º do CPC não está
relacionado à boa-fé subjetiva, à intenção do sujeito processual: trata-se de norma que impõe
condutas em conformidade com a boa-fé objetivamente considerada, independentemente da
existência de boas ou más intenções. Destaca-se que existem regras de proteção a boa-fé, um
exemplo é a proibição da litigância de má-fé.

Leonargo Greco  aponta que esse princípio serve à proteção dos direitos subjetivos dos
litigantes “pois a eficácia das garantias fundamentais do processo impõe um juiz tolerante e
partes que se comportem com lealdade”.

2.9.2. Fundamento constitucional do princípio da boa-fé processual

A exigência de comportamento em conformidade com a boa-fé pode ser encarada como


conteúdo de outros direitos fundamentais:

a) Inciso I do art. 3º da CF – dever fundamental de solidariedade.


b) Inciso III, do art. 1º da CF – concretização da proteção constitucional à dignidade da
pessoa humana.
c) Direito fundamental à igualdade
d) Princípio do contraditório – o qual não pode ser exercido sem limites, e um dos limites
é a observância da boa-fé.
e) A boa-fé compõe a cláusula do devido processo legal.
ATENÇÃO: O STF possui o entendimento de que a cláusula do devido processo legal exige
um processo leal e pautado na boa-fé (fair trial). Ademais, o Supremo salienta que a
exigência do comportamento segundo a boa-fé atinge a todos os sujeitos processuais, e não
apenas às partes.

2.9.3. Destinatário da norma

É aquele que de qualquer forma participa do processo (art. 5º, CPC), o que inclui,
obviamente, não apenas as partes, mas também o órgão jurisdicional.

2.9.4. Concretização do princípio da boa-fé processual

Doutrina alemã
a) Proibição de agir de má fé  Ex: v. arts. 258; 80 e 143, I do CPC.
b) Proibição de venire contra factum proprium  que se configura nas seguintes hipóteses:
a) existência de duas condutas de uma mesma pessoa, sendo que a segunda contraria a
primeira; b) haja identidade de partes, ainda que por vínculo de sucessão ou representação; c)
a situação contraditória se produza em uma mesma situação jurídica ou entre situações
jurídicas estreitamente coligadas; d) a primeira conduta (factum proprium) tenha um
significado social minimamente unívoco; e) que o factum proprium seja suscetível de criar
fundada confiança na parque que alega o prejuízo. Exs: art. 276 e 1000 do CPC.
c) Proibição do abuso de direitos processuais. Exs: abuso do direito de defesa; abuso na
escolha do meio executivo (art. 805, CPC), ou o abuso do direito de recorrer (litigância de
má-fé).
d) Supressio/Verwirkung  a perda de uma situação jurídica ativa, pelo não exercício em
lapso de tempo tal que gere no sujeito passivo a expectativa legítima de que a situação
jurídica não seria mais exercida.

Fredie Didier aponta mais 3 aplicações do princípio da boa fé:

 O princípio da boa-fé impõe deveres de cooperação entre os sujeitos do processo;


 A negociação processual deve observar o princípio da boa-fé processual;
 O princípio da boa-fé ainda exerce uma função hermenêutica.

2.10. Princípio da efetividade

Previsão legal  art. 4º do CPC: As partes têm o direito de obter em prazo razoável a
solução integral do mérito, incluída a atividade satisfativa.

OS DIREITOS ALÉM DE SEREM RECONHECIDOS, DEVEM SER EFETIVADOS. É


uma garantia de acesso à ordem jurídica justa, consubstanciada em uma prestação
jurisdicional tempestiva, adequada, eficiente e efetiva.

2.11. Princípio da adequação (legal, jurisdicional e negocial) do processo.


2.11.1. Generalidades

DIMENSÕES DO PRINCÍPIO DA ADEQUAÇÃO

Legislativa Jurisdicional Negocial

Informador da produção Permite ao juiz, no caso O procedimento é adequado


legislativa das regras concreto, adaptar o pelas próprias partes,
processuais. procedimento ás negocialmente.
peculiaridades da causa que
lhe é submetida.

A ADEQUAÇÃO JURISDICONAL E NEGOCIAL É FEITA IN CONCRETO

CRITÉRIOS DE ADEQUAÇÃO

Aspecto Subjetivo Aspecto objetivo Aspecto teleológico

As regras processuais devem Critérios objetivos: I – Faz-se de acordo com os


ser adequadas àqueles que Natureza do direito litigioso;
diversos objetivos que o
vão participar do processo. II – A evidência como se procedimento visa alcançar, a
Ex: art. 178, II, CPC; art. 53, apresenta o direito material depender da natureza do
II, CPC; art. 109, I, CF; art. no processo; processo . Ocorre adequação
8º, Lei 9099/95; art. 183, teleológica também quando o
CPC. III – Situação processual da procedimento é adaptado aos
urgência. objetivos preponderantes em
cada caso. Ex: Juizado
Diferente será a tutela em
Especial  finalidades:
razão de cada critério.
duração razoável do processo
e efetividade.

2.11.3. Adequação jurisdicional do processo

Não basta a adequação legislativa (prévia e em abstrato). É dever do órgão jurisdicional


efetivar a adequação do processo in concreto. Surge então o princípio da adaptabilidade,
elasticidade ou adequação judicial do procedimento: cabe ao órgão jurisdicional
prosseguir na empresa da adequação do processo. Faculdade concedidas ao magistrado
para tanto: art. 139, VI; art. 373, §1º; art. 355 e 356; art. 334, §4º (todos do CPC). Atenção:
o princípio da adequação do processo pode atuar diretamente, sem a intermediação de regras
que o concretizem.

Finalidade  a flexibilidade do procedimento às exigências da causa é fundamental para que


se atinjam os fins do processo.
Requisito formal: a adequação jurisdicional do processo deve ser precedida de uma
intimação às partes, para preservar o contraditório e respeitar o modelo cooperativo de
processo.

2.11.4. Adequação negocial do processo

Deriva de negócios processuais celebrados pelos sujeitos processuais, ora as partes apenas,
ora incluindo o órgão jurisdicional.

2.12. Princípio da cooperação e o modelo do processo civil brasileiro

2.12.1. Nota introdutória

Modelos de processo apontados pela doutrina: o modelo dispositivo e o modelo


inquisitivo. Fredie Didier aponta um terceiro  modelo cooperativo.

2.12.2. Princípios dispositivo e inquisitivo. Modelos tradicionais de organização


do processo: adversarial e inquisitorial.

MODELO ADVERSARIAL: assume a forma de competição ou disputa, desenvolvendo-se


como um conflito entre dois adversários diante de um órgão jurisdicional relativamente
passivo, cuja principal função é decidir o caso. Prepondera o princípio dispositivo (aquele
que atribui às partes as principais tarefas relacionadas à condução do processo e à instrução do
processo).

MODELO INQUISITORIAL: organiza-se como uma pesquisa oficial, sendo o órgão


jurisdicional o grande protagonista do processo. Prepondera o princípio inquisitivo (que
proporciona mais poderes ao Juiz).

 A dispositividade e a inquisitividade podem manifestar-se em relação a vários temas:


a) instauração do processo; b) produção de provas; c) delimitação do objeto litigioso;
d) análise de questões de fato e de direito; e) recursos etc. Não há sistema totalmente
dispositivo ou inquisitivo, em alguns pontos o legislador pode encapar o princípio
dispositivo e em outros o princípio inquisitivo.
 NO MODELO BRASILEIRO HÁ BASTANTE EQUILÍBRIO, LOGO ENTENDE-
SE QUE NOSSO MODELO É COOPERATIVO. Atente-se também que processo
dispositivo não é sinônimo de processo democrático, no mesmo sentido, processo
inquisitivo não significa processo autoritário.
2.12.3. Processo cooperativo: um terceiro modelo de organização do processo.
Princípios e regras de cooperação. Eficácia do princípio da cooperação.

Fundamento: princípios do devido processo legal, da boa fé processual e do contraditório.


Previsão legal: art. 6ºdo CPC: Todos os sujeitos do processo devem cooperar entre si para
que se obtenha, em tempo razoável, decisão de mérito justa e efetiva.

 Esse modelo caracteriza-se pelo redimensionamento do princípio do contraditório, com a


inclusão do órgão jurisdicional no rol dos sujeitos do diálogo processual, e não mais como
um mero espectador do duelo das partes. Busca-se uma condução cooperativa do
processo, sem destaques para qualquer dos sujeitos processuais. Surgem deveres de
conduta para as partes e para o órgão jurisdicional, que assume uma “dupla posição”:
“mostra-se paritário na condução do processo, no diálogo processual”, e “assimétrico” no
momento da decisão. Atente-se que as partes não decidem com o juiz; trata-se de função
que lhe é exclusiva. Eis o modelo de direito processual civil adequado à cláusula do
devido processo legal e ao regime democrático.

DEVERES DE COOPERAÇÃO EM RELAÇÃO ÀS PARTES

 Dever de esclarecimento: os demandantes devem redigir a sua demanda com clareza e


coerência, sob pena de inépcia;
 Dever de lealdade: as partes não podem litigar de má fé (arts. 79-81 do CPC), além de
ter de observar o princípio da boa-fé processual (art. 5º do CPC);
 Dever de proteção: a parte não pode causar dano à parte adversária.

DEVERES DE COOPERAÇÃO EM RELAÇÃO AO ÓRGÃO JURISDICIONAL


 Dever de lealdade;
 Dever de esclarecimento: consiste no dever de o tribunal se esclarecer junto das partes
quando às dúvidas que tenha sobre as suas alegações, pedidos ou posições em juízo.

 Dever de esclarecer os seus próprios pronunciamentos para as partes.


 Dever de consulta: deve intimar as partes para que se manifestem a respeito de novas
questões de fato ou de direito antes de proferir decisão, em respeito ao p. do contraditório
(art. 10, CPC).
 Dever de prevenção: apontar as deficiências das postulações das partes, para que
possam ser supridas. Possui 4 áreas de aplicação: explicitação de pedidos pouco claros, o
caráter lacunar da exposição dos fatos relevantes, a necessidade de adequar o pedido
formulado à situação concreta e a sugestão de certa atuação pela parte.
2.12.4. Dever de o juiz zelar pelo efetivo contraditório, princípio da cooperação e
dever de auxílio

Didier afirma que não parece possível defender a existência do dever de auxílio no direito
processual brasileiro. A tarefa de auxiliar as partes é do seu representante judicial: advogado
ou defensor público. É possível, porém, que haja deveres típicos de auxílio, por expressa
previsão legal. Ex: Dever de zelar pelo efetivo contraditório.

CAPÍTULO 4 – COMPETÊNCIA

1. Conceito e considerações gerais

Competência é o resultado de critérios para distribuir entre vários órgãos as atribuições


relativas ao desempenho da jurisdição. – É o âmbito dentro do qual o juiz pode exercer a
jurisdição.

2. Distribuição da competência

A distribuição se faz por meio de:

a) Normas constitucionais
b) Legais, regimentais
c) Negociais

Art. 44, CPC. Obedecidos os limites estabelecidos pela Constituição Federal, a competência é
determinada pelas normas previstas neste Código ou em legislação especial, pelas normas de
organização judiciária e, ainda no que couber, pelas constituições dos Estados.

OBS: A competência da Justiça Estadual é residual.

3. Princípios da tipicidade da competência e da indisponibilidade da competência,


regra da inexistência de vácuo de competência
Tipicidade: as competências dos órgãos constitucionais são, em regra, apenas as
expressamente enumeradas na Constituição.

Indisponibilidade: as competências constitucionalmente fixadas não possam ser transferidas


para órgãos diferentes daqueles a quem a Constituição atribui.

Não há vácuo de competência: sempre haverá um juízo competente para processar e julgar
determinada demanda. Por exemplo, é inegável que a atribuição de competência para julgar
determinadas causas embute, implicitamente, a competência para julgar esse recurso.

4. Regra da Kompetenzkompetenz

Todo juízo tem competência para o controle da sua própria competência (competência
mínima), isto é, para determinar se é ou não, competente para julgar determinada demanda.

5. A perpetuação da jurisdição

Perpetuatio jurisdictionis: a competência fixada pelo registro ou pela distribuição da petição


inicial, permanecerá a mesma até a prolação da decisão. Nesse momento do registrou ou
distribuição, firma-se e perpetua-se a competência do juízo e nenhuma modificação de fato ou
de direito superveniente poderá alterá-la.

Exceções:

a) Supressão do órgão judiciário – por exemplo, a extinção de uma vara ou de uma


comarca.
b) Alteração superveniente da competência absoluta – em razão, por exemplo, da
matéria, da função ou em razão da pessoa.

Obs¹: Se a alteração da competência absoluta ocorrer após a sentença, não haverá


redistribuição do processo.

Obs²: o desmembramento de comarca só implicará a redistribuição da causa se alterar a


competência absoluta, inclusivve a competência territorial absoluta.

Embora a regra seja de que apenas a alteração da competência absoluta seja capaz de
excepcionar a regra da perpetuatio jurisdictionis, o STJ sedimentou o seguinte entendimento:
nos processos que envolvem menores, as medidas devem ser tomadas no interesse desses o
qual deve prevalecer diante de quaisquer outras questões.
6. Competência por distribuição

De acordo com o art. 284 do CPC, onde houver mais de um juiz, os processos deverão ser
distribuídos, de modo alternado e aleatório, entre os juízos abstratamente competentes. A
distribuição deve ser feita imediatamente (art. 93, XV, CF), na data da propositura da ação.
Com isso, fixa-se a competência concreta do juízo. Essas regras são um dos requisitos para
que se tenha um juiz natural, portanto, fraude à distribuição significa violação deste principio.

As regras de distribuição são cogentes. São, portanto, regras de competência absoluta.


Fraude ás normas relativas à distribuição levará a incompetência absoluta.

7. Classificação da competência
7.1 Competência do foro (territorial) e competência do juízo

Foro  é o local onde o órgão jurisdicional exerce as suas funções, é a unidade territorial
sobre a qual se exerce o poder jurisdicional.

Para uma mesma causa, verifica-se primeiro qual o foro competente, depois o juízo, que é a
vara, o cartório, a unidade administrativa.

Competência do juízo – leis de organização judiciária

Competência de foro – CPC

7.2 Competência originária e derivada

Competência originária: é aquela distribuída ao órgão juridisiconal para conheccer da causa


em primeiro lugar. Regra  atribuída ao juízo singular, em primeiro grau. Exceção 
tribunais.

Competência derivada: é atribuída ao órgão jurisdicional destinado a rever a decisão já


proferida. Regra  atribuída aos tribunais. Exceção  juízo singular.

7.3 Competência relativa e competência absoluta


7.3.1 A translatio iudicii

Translatio iudicii: preservação da litispendência e dos seus efeitos (materiais ou processuais),


a despeito do reconhecimento da incompetência.
a) A incompetência (absoluta ou relativa) é defeito processual que, em regra, não leva à
extinção do processo. A incompetência gera a remessa dos autos ao juízo competente.
b) A decisão sobre a alegação de incompetÊncia deverá ser proferida imediatamente após a
manifestação da outra parte.
c) A incompetência (absoluta ou relativa) não gera automática invalidação dos atos
decisórios praticados – ler §4º, art. 64.

7.3.2 Distinções entre a incompetência relativa e a incompetência absoluta

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