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UMA ANÁLISE HISTÓRICO-SOCIOLÓGICA-JURÍDICA SOBRE O

PROCESSO QUE CULMINOU COM A LEI DO DIVÓRCIO

Maria do Socorro Diniz de Carvalho Sobreira 1, Jahira Helena Pequeno dos


Santos², Departamento de Direito/URCA socorro_sobreira@hotmail.com

Este artigo procura fazer uma análise a respeitos dos fatores históricos que
culminaram com a aprovação da Lei do Divórcio no Brasil, procurando não se deter a
simples fatos exclusivos ou contextos momentâneos, mas buscando o verdadeiro
processo histórico, com suas relações de causa e efeito e o seu andamento contínuo.
O objetivo foi esclarecer melhor o processo por trás das transformações sociais que
implicaram na aprovação dessa lei. Foi utilizado como método a pesquisa indireta,
tanto documental quanto bibliográfica. As conclusões a que se chegou é que as
transformações sociais foram consequência de basicamente dois elementos: o
movimento feminista e a onda de contracultura iniciada pela geração beat.

PALAVRAS-CHAVE: SOCIOLOGIA JURÍDICA – HISTÓRIA DO DIREITO – LEI DO


DIVÓRCIO

1 Aluna de Graduação da URCA; 2 Professora do Departamento de Direito da URCA


UMA ANÁLISE HISTÓRICO-SOCIOLÓGICA-JURÍDICA SOBRE O
PROCESSO QUE CULMINOU COM A LEI DO DIVÓRCIO

Maria do Socorro Diniz de Carvalho Sobreira 1, Jahira Helena Pequeno dos


Santos², Departamento de Direito/URCA socorro_sobreira@hotmail.com

Resumo

Este trabalho procura fazer uma análise sobre o processo histórico-sociológico


que culminou com a aprovação da Lei do Divórcio no Brasil elencando como
integrantes desse processo o feminismo e as transformações sociais do século
XX.

Palavras-chaves: sociologia jurídica – história do direito – lei do divórcio

1. Introdução

O presente trabalho procura fazer uma análise sobre as causas e o processo


da mudança social que proporcionou a aprovação da lei do divorcio no Brasil.
Procura fazer uma análise a respeitos dos fatores históricos sem se deter a
simples fatos excluídos ou contextos momentâneos, mas buscando o
verdadeiro processo histórico, com suas relações de causa e efeito e o seu
andamento contínuo, indo encontrar sua gênese no fim século XVII e no
nascente feminismo. Aborda como integrantes desse processo a revolução
industrial e as duas grandes guerras mundiais, que obrigaram as mulheres a
saírem dos afazeres domésticos e assumirem os mesmos trabalhos
executados pelos homens, abordando também a influência do cinema
hollywoodiano sobre a cultura e mentalidade de grande parcela do mundo
durante o século XX, chegando enfim na contracultura dos anos 60 e 70.

1 Aluna de Graduação da URCA; 2 Professora do Departamento de Direito da URCA


2. Materiais e Métodos

Foi feita pesquisa bibliográfica através de documentos eletrônicos na rede


mundial de computadores. Partiu-se do pressuposto de que havia uma ligação
entre a edição da lei no ano de 1977, e o contexto social da época, com
surgimento de personagens públicas que mostravam um novo de
comportamento de mulher, como Danuza Leão e Leila Diniz, e por fim o
feminismo da época. Foram identificados, no entanto, tipos semelhantes de
comportamento nas décadas anteriores, embora de forma menos frequente,
em ícones da cultura popular, como as personagens e atrizes de Hollywood,
interpretando-se isto como mais um expoente de um processo histórico que
precisava ser melhor evidenciado. Procurou-se então fazer um retrospecto
sobre os possíveis fatores sociais e culturais que teriam possibilitado o
surgimento dessa nova identidade de mulher e a consequente reivindicação de
direitos iguais, procurando elementos que ligassem esses fatos isolados,
demonstrando assim o processo social, bem como buscou-se a origem do
feminismo e o seu desenvolvimento, menos evidenciado que suas
manifestações mais famosas nos anos 20 e nos anos 60 e 70.

3. Resultados e Conclusões

A lei do Divórcio, ou lei 6.515/77, ocorreu num contexto de grande furor


mundial por emancipação feminina, especialmente no que se refere às
relações conjugais. Até então, o que acontecia no contexto social era uma
situação de desigualdade espelhada no mundo jurídico. Pela convenção social,
depois de separados os homens tinham o direito, não legalmente protegido
mas socialmente aceito, de estabelecerem outras relações com outras
mulheres, enquanto as ex-esposas não podiam refazer sua vida afetiva ou
sentimental com outro relacionamento sem sofrerem forte coação social. A Lei
do Divórcio veio com o objetivo de estabelecer a igualdade dos sexos, pelo
menos quanto ao aspecto jurídico das relações, e teve como causa de sua
edição as mudanças comportamentais da mulher e também da sociedade.
A referida lei foi publicada em um conhecido período de reivindicações
e conquistas dos direitos das mulheres, bem como de mudança dos costumes.
Antes dessa época também foi verificado outro período de forte reivindicação
das feministas no início do século XX, época de defesa do direito do voto
feminino, mas esse período, apesar de ter causado alguma mudança na
postura da mulher, não chegou a mudar tanto a sociedade quanto a década de
60 e 70. Por quê? E de onde surgiu o feminismo?
O feminismo surgiu junto com a Revolução Francesa e os ideais
liberais da burguesia de liberdade, igualdade e fraternidade. Na época não teve
tanto apoio dos revolucionários homens, mas continuou subsistindo com suas
reivindicações através dos anos. Um acontecimento que colaborou de forma
muito prática na emancipação social da mulher foi uma outra revolução
burguesa, a Revolução Industrial, conseguindo de forma prática o que as
reivindicações das mulheres na Revolução francesa não conseguiram. Com a
enorme ânsia de cada vez mais mão de obra barata, as fábricas chegaram a
contratar mulheres para trabalhar nas fábricas nas mesmas condições que os
homens, embora ganhando salários menores. Embora fosse uma forma de
exploração, também era uma forma de tratamento igual, e de alguma forma a
mulher estava assumindo, aos poucos, outra identidade que não fosse
somente a de esposa, mãe e dona de casa. Considerando-se toda a história da
humanidade nas mais variadas sociedades isso era um fato muito raro.
Complete-se a isso a 1ª Guerra Mundial, que também implicou na
ocorrência do mesmo evento. Com a maioria dos homens com disposição para
o trabalho nos fronts de batalha, as mulheres é que foram ocupar os seus
postos de trabalho nas fábricas.
Como consequência da mulher assumindo lugar no trabalho das
fábricas veio o movimento sufragista em vários países da Europa. Se as
mulheres agora estavam trabalhando e ajudando no crescimento econômico do
país tanto quanto os homens elas também poderiam votar e decidir o futuro do
mesmo. Da mesma época em que o movimento sufragista ganha maior corpo
na maioria dos países da Europa começam a surgir mudanças
comportamentais nas mulheres. As roupas começam a levar menos camadas
de tecidos, as saias sobem mais, mostrando um pouco das pernas, o corte fica
mais reto para não revelar as formas, deixando o corpo um tanto menos
feminino, bem como o cabelo fica mais curto tentando imitar o cabelo de um
rapaz. Começa a aumentar ainda mais o trabalho feminino, ainda que em
profissões hoje estigmatizadas, como professoras e enfermeiras.
A partir daqui é Hollywood quem exerce papel importante nesse
processo. Aparentemente interessado nessas primeiras mudanças
comportamentais de algumas mulheres (por que esses ideais de igualdade não
chegam a empolgar grande parte da população feminina em muitos países,
apesar de já ser um começo), o cinema norte-americano passa a investir em
personagens mais contestadoras e que abordem esse conflito da mulher
lutando, em sua própria vida, para ter seus diretos e sua capacidade
reconhecidas, ou simplesmente mostrando uma nova consciência e um novo
comportamento. Como exemplos disso podemos citar as personagens de Rita
Hayworth, no filme Gilda, e de Marylin Monroe. Essas personagens, com a
influência de Hollywood, ajudam a enraizar na mente da sociedade uma maior
aceitabilidade a certas mudanças, mesmo com o conservadorismo que volta
durante os anos 50.
Mas esse patamar de adesão da sociedade ainda não se compara ao
furor que aconteceu na década de 60 e 70. Um simples prosseguimento desse
processo ainda não levaria a toda a revolução que ocorreu nessa época. A
explicação vem de um outro movimento, agora não mais o feminismo ou a sua
abordagem nos veículos de comunicação de massa.
Com o fim da Segunda Guerra havia muitos jovens desiludidos com a
sociedade de então e com sua forma de apresentar soluções aos problemas de
sempre. Começa então uma grande contestação a quase todos os padrões da
sociedade tradicional. O que começa de forma pequena, em círculos de
intelectuais, aos poucos vai se tornando mais popular, especialmente nas
universidades. É a chamado geração beat, (embora alguns ainda apontem
como semente de todo esse novo pensamento à filosofia existencialista de
Jean Paul Sartre) jovens intelectuais norte-americanos que com a sua arte
começam a contestar a sociedade materialista e conservadora que volta com
força com a vitória dos Estados Unidos na guerra. Um determinado livro
também teve uma influência muito grande: O Apanhador no Campo de
Centeio.
“(...)A pequena revolução que O Apanhador causou no
comportamento da juventude americana - e por tabela, no
comportamento da juventude do mundo todo - ecoa até
hoje, fazendo parte da cultura da segunda metade de
nosso corrente século. (...)
Foi a primeira vez na literatura americana (ou mesmo na
mundial) que o universo próprio dos jovens foi estudado a
fundo e exposto de maneira absolutamente natural, sem
nenhuma pretensão ou didatismo. As idéias, conceitos,
bobeiras, burrices, enfim, toda a loucura de ser jovem,
nunca tinham sido traduzidos de uma maneira tão
profundamente sintonizada com a realidade.(...)há meros
50 anos os jovens (e sua maneira de pensar, suas idéias
próprias e suas aspirações) não eram levados a sério
pelos adultos de forma alguma. Ser jovem, nos anos pré-
Elvis Presley, era apenas estar em um estágio irritante
entre criança e o "homem feito", uma fase que devia
passar o mais rápido possível e sem maiores dores. O
que não quer dizer que os jovens não tivessem seus
anseios e preocupações - que não eram infantis nem
adultas - mas que eram ignoradas pelos mais velhos. (...)
Salinger colocou em Holden Caulfield, de forma realista e
convincente, tudo o que se passa na cabeça de um rapaz
de 17 anos: as preocupações com o futuro, a incerteza de
todo o mundo que passa por esta fase, as garotas (claro!)
(...) Holden Caulfield e suas desventuras se tornaram
precursores do mito da juventude rebelde - Holden
contesta os mais velhos e não quer se tornar como
eles, a quem considera farsantes. Toda a sua luta é
para preservar os valores que ele acha verdadeiros e
sinceros. Pode-se dizer que a figura de James Dean, o
rebelde sem causa, é filhote da cruzada de Holden por
sua integridade. (grifo nosso)

BART M. A. Esse Você Precisa Ler: 'O Apanhador no Campo de Centeio',


de J. D. Salinger O Livro que Inventou uma Geração. Disponível em
<http://www.screamyell.com.br/literatura/apanhador.htm>

Esse movimento de contestação vai crescendo durante a segunda


metade da década de 50 e toma melhor forma na década de 60, onde os
hippies são o exemplo mais famoso. Como oposição à sociedade tradicional
começa a dar-se mais ênfase às minorias e às classes mais excluídas das
sociedades, como o negros (black power) e também as mulheres. O
movimento feminista encontra campo fértil para aceitação de suas propostas e
se junta aos jovens na reivindicação por direitos iguais.
Foi por isso que os direitos das mulheres ganharam coro mais forte
durante a década de 60/70, e por isso que se presenciou a tamanha revolução
cultural justamente nessa época. Todas essas mudanças em todo o mundo
repercutiram no Brasil. O primeiro lugar onde foi verificado um novo
comportamento foi no bairro de Ipanema no Rio de Janeiro. Lá as mocinhas
mais modernas desfilavam de biquini na praia, as vezes até fazendo topless, e
mostravam uma atitude mais liberal no que se relacionava aos
comportamentos. Aos poucos essa nova forma de vida foi se espalhando pelo
resto da cidade, e não apenas entre as classes mais altas, que mantinham
contato com a Europa e com as novas ideias que surgiam por lá. Essa
mudança de paradigma também foi alcançando São Paulo e o resto do país,
embora tenha se concentrado mais nos grandes centros. As mulheres queriam
um novo papel na sociedade, queriam trabalhar fora, ganhar dinheiro, ser um
pouco mais independente economicamente dos seus maridos, e não queriam
mais serem escravas do lar, exigindo que seus parceiros as ajudassem nos
trabalhos domésticos. Também passaram a não admitir mais tão facilmente a
traição, na contramão em que aceitavam o mesmo comportamento para si. Não
há mais a pressão social de se aguentar as agruras do casamento em
benefício de sua continuidade. Com os anos 60, até o casamento se relativizou
e virou apenas mais uma convenção social. Se a situação não estava boa, o
melhor era a separação.
Esse tipo de pensamento se tornou muito frequente, mas as mulheres
ainda sofriam com a desigualdade de tratamento perante os tribunais na hora
na formalização da separação. Apesar de na teoria a lei ser igual para todos,
na prática os deveres conjugais legais só eram impostos à mulher. Não se dava
curso à separação por infidelidade masculina. Em vista desse novo quadro
social, e como o direito é reflexo e produto social, houve várias tentativas de se
aprovar a lei do divórcio, frustadas. Até que enfim o senador Nelson Carneiro,
em uma nova tentativa, elaborou o projeto. Mas esse não iria para a frente pois
a indissolubilidade do casamento era um princípio constitucional, que impedia a
aprovação de qualquer lei versando sobre o assunto.
Foi então necessária a aprovação da Emenda Constitucional nº 9, que
revogou esse princípio, tornando então possível a aprovação da lei. E foi assim
que em 1977 a lei do divórcio foi aprovada no Brasil.

4. Referências Bibliográficas
GARCIA, C. A Época que mudou o Mundo Disponível em
<http://almanaque.folha.uol.com.br/anos60.htm > acessado em

GARCIA, C. A Época da feminilidade. Disponível em


<http://almanaque.folha.uol.com.br/anos50.htm> acessado em

GARCIA, C. Tempos de Crise. Disponível em


<http://almanaque.folha.uol.com.br/anos30.htm> acessado em

GARCIA, C. A era do Jazz. <http://almanaque.folha.uol.com.br/anos20.htm>


acessado em

SOUSA, R. Feminismo no Brasil Disponível em


<http://www.brasilescola.com/historiab/feminismo.htm> acessado em

ARAUJO, F. S. Feminismo. Disponível em


<http://www.infoescola.com/sociologia/feminismo/ > acessado em

LIMA R. A Geração Beat. Disponível em


<http://www.digestivocultural.com/jdborges
/autoresnovos/rafaellimaelisandrogaertner.htm> acessado em

CARVALHO D. Geração beat, como esquecer... Disponível em


<http://palavrastodaspalavraswordpress.com/2009/08/21/geracao-beat-como-
esquecer-por-daisy-carvalho-sao-paulo/>

SOUSA R. Contracultura. Disponível em


<http://www.mundoeducacao.com.br/sociologia/contracultura.htm> acesso em

BART. M. A. Esse Você Precisa Ler: 'O Apanhador no Campo de Centeio',


de J. D. Salinger O Livro que Inventou uma Geração. Disponível em
<http://www.screamyell.com.br/literatura/apanhador.htm> acessado em

5. Agradecimentos

Agradeço primeiramente a Deus, meu melhor amigo, que sempre fez tudo por
mim, e especialmente pelo dom da vida e pela capacidade de pensar, e
também a meus pais, que tanto se esforçaram para me garantir o direito à
educação.