You are on page 1of 24
HVMANITAS — Vol. XLV (1993) Joo Manurt. Nunes TorRxo Universidade de Coimbra CAMILA, A VIRGEM GUERREIRA* Jovem e bela; as suas mios, nio habituadas aos lavores femininos, costumavam empunhar dardos © retesar arcos de setas voadoras: ‘ocupavarse nos duros combates. Era a rainha dos Volscos, ‘A sua yelocidade era tal que Ihe permitiria passar sobre uma seara verdejante sem danificar as tenras espigas © sobre a superficie do mar sem que os seus pés delicados sentissem a humidade da agua | * A primeira versio deste texto fol apresentada, hi alguns anos, como trae batho final do seminrio de Epica Virgiiana, egido pelo Doutor Walter de Medeiros no Mestrado om Literatura Novilatina em Portugal, ‘A redacgdo final beneficiou das numerosas critics © sugestdes fetes pelo orientador e da leitura das seguintos obras A—Texto e comentarios: Virgil, Bnéide, text éabli et traduit par Jacques Perret, Paris, Les Belles Lettes, 1977-1980, 3 vol.; R. D. Williams, The Aeneid of Virgil, Books 7-12, London, Macmillan, 1973; P, Versli: Maronis, Aencidos, libri VIE-VUL, with a commentary by C. J. Fordyce, Oxford, Oxford Us versity Press, 1977; Virulio, Pneide, a cura de Ettore Parstore,traduzione de Lues Canali, Milano, Mondari-Fundazione Lorenzo Valla, vol, IV (ibti VII-VIII), 1981; vol. VI (libri XI-XM, 1983; B—Estudos: B. Otis, Vigil. A study in clvilized poetry. Ont Oxford. University Press, 1964 (1966); K. Quinn, Virgil's «Aeneidy. A critical description. London, Routledge & Kegan Paul, 1968; M. A. di Cesare, The altar ‘and the city. A reading of Vigil's «Aeneid», New York- London, Columbia University Press, 1974; Giampiera Arrigoni, Camila. Amazzone ¢ sacerdotessa di Diana. Milano, Cisalpino-Goliardiea, 1982; Walter de Medeiros, Carlos Ascenso ‘André e Virginia Soares Pereira, 4 Eneida em contraluz. Coimbea, Instituto de Estudos Clissicos, 1992; Paul Faider, * Camille (Enéide, VIL, 803-817; X1, 498-915), Le Musée Belge. Revue de Philologie Classique. XXXIV (1930-1932), pp. $981 ‘A. Pinto de Carvatho, ‘Galeria feminina da Eneida’, Kriterion, 33-34 (1955), pp. 357-386 1 Virgilio, £m, 7807-81 8 4 JOO MANUEL NUNES TORRAO Métabo, seu pai, quando foi expulso do reino gragas ao despo- tismo cruel com que governava seu povo e se apressava a fugir para © exilio, levou-a consigo, ainda recém-nascida. Na fuga, consagrou-a a Diana, quando, para a salvar, a envolveu nas casea de um sobreiro ?e, amarrada a uma langa, a arrojou pelos ares para a outra margem do impetuoso Amaseno. O langamento foi bem executado; a aterragem, perfeita: a crianga chegou si ¢ salva A outra margem. Passaram a viver nos montes com os pegureiros € 0 leite de uma égua selvagem servia de alimento & jovem crianga 3. Mal se sustinha de pé ¢, ainda a custo, dava os primeiros passos, ¢ j& comegava a lan- car 0 dardo e as setas, Os seus adornos eram o arco ¢ a aljava; a roupa, uma pele de tigre. Ja nubil, muitas mies a desejam para nora, mas ela contenta-se apenas com 0 culto de Diana‘; dedica-se aos combates ¢ rodeia-se, qual Amazona, de uma corte feminina, Eila diante de Tumo a oferecer-Ihe 0 seu auxilio e disposta a avangar de imediato a0 encontro do exéreito dos Teucros para suster ‘9 seu avango, Turno, porém, confia-lhe 0 comando da cavalaria © entrega-Ihe a defesa da cidade. 'A dureza do combate vem demonstrar a sua capacidade bélica e 1a sua yelocidade e permite-Ihe provocar uma verdadeira camificina centre os inimigos. ‘Mas eis que a sua juventude e feminilidade, até ai dominadas, rompem as amarras: ao longe, avanga um guerreiro adornado de yestes esplendentes e de armas magnificas. A donzela olha para ele e nio mais o petde de vista. Cega para tudo o resto, deseja apenas aquelas armas © todo 0 prego, Mas este vai ser demasiado elevado: ... a morte. Na mira daqueles despojos, ndo vé outro guerreiro que, de longe, fa persegue sem cessar; ndo ouve sequer 0 ruido do dardo que para ela se encaminha; s6 vé 0 esplendor dos adornos do cavaleiro frigio e 36 sente a dor provocada pelo dardo veloz, quando este, certeiro, a atinge profundamente no seio descoberto. 2 A escolha nao ¢ acidental pois tem a ver com as potencialidades da cor- tiga para sobrenadar © poderd.assumir ainda um caréeter simbélico por ligagio com o carvalho, devore de Jupiter. 3A semelhanga com Romulo € Remo, alimentados pela loba, nio deixs de ser evidente "+ Camila recusa as festas do himencu, mas o privilgio da virgindade acaba 2 semethanga de Hipdlito, uma contrapartida cruel por t CAMILA, A VIRGEM GUERREIRA ns Anda tenta arrancar 0 dardo, mas as forgas ja desfalecem. Enfrenta entio a morte com serenidade: envia as fitimas recomendagdes a Turno «, 86 depois, a vida, cam wm gemido, Ihe fore, indignada para o reino das sombras§ (© seu nome era CAMILA Esta personagem, que, no seu conjunto, nos surge désenhada com um misto de fantasia ¢ realismo, quase nos di a impressio de se tra- tar de uma semideusa. Esta sensagdo ¢ ainda reforeada pelo significado do seu nome que, como substantive comum, camillusjcamilla, esti ligado ao ritwal religioso etruseo ¢ designa um joven empenhado no culto dos deuses® Ora Camila esti empenhada no culto de Diana, ainda que 0 no faga de forma institucional, Este caricter semidivino de Camila € acentuado pelo préprio Virgilio que, por trés vezes diferentes, utiliza adjectivos que pretendem traduzir sensagdes que se experimentam perante os seres divinos: em 11.507 € Turno que tem a visio de payor que se sente diante da divindade; em 11.699-701 € @ vez do filho de Auno, que ferritus se detém diante dela e, finalmente, em 11.806, a de Arrunte, que fugit ‘ante omnis exterritus © aspecto maravilhoso, que Ihe da uma aparéneia sobre-humana, comeca a desenhar-se desde a inflincia e € reforcado pela maneira como sua hist6ria nos 6 apresentada. Com efeito, € a deusa Diana quem, cheia de desvelo, dé a conhecer a Opis a 0 passado de Camila, repleto de acontecimentos extraordinétios, ‘A fuga para o exilio é mareada por eventos miraculosos. Na reali- dade, apesar das precaugdes de Métabo, sé uma intervengio divina explica que esta crianga tenha chegado inedlume ® outra margem do impetuoso Amaseno. & a deusa da caca que, invocada por Métabo através da dedicagéio de Camila, vem em socorro da erianga © a faz chegar, sem dano, a0 outro lado do rio. Mas se este voo sobre 0 Amaseno € miraculoso, ele serve também de predestinacio para a vida desta crianga, Camila vai ficar, para sem- pre, consagrada a Diana, mas vai ficar também ligads, para sempre, 5 1834 © P. Falder, op. cit, pp. $960, discords desta interpretagao, baseado no facto de Virilio apontar a origem do nome: a modifieagio do nome da mie que se cha- ‘mava Camilla, ‘A exploragio do sentido de camillus © da sua ligagio so culto dos deuses ¢ {ita por G. Arrigoni, op. cit, pp. 77-88.