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Portugal, a perder gente há

mais de 50 anos
ATUALIDADE
24.02.2017 às 18h39

O último relatório do Observatório da Emigração coloca


Portugal no topo da tabela dos países europeus (com mais de mil
habitantes) com maior número de emigrantes. Já há 2,3 milhões
de portugueses a viver lá fora...

INÊS RAPAZOTE
Jornalista
A fama de Portugal ser um aluno exemplar, bem comportado, vem do tempo
da adesão à CEE, em 1986. Na altura, a frase, do então presidente Jacques
Delors, foi um grande elogio ao país pobre e recém-chegado à família
europeia. Os portugueses interiorizaram o conceito e quando Pedro Passos
Coelho (eleito primeiro-ministro em 2011, ano em que Portugal pede ajuda
internacional para não entrar em bancarrota) sugere a emigração a quem não
tem emprego, os portugueses acatam.

As taxas de emigração de portugueses voltaram a atingir níveis históricos. E


como se não bastasse terem atingido os valores registados no final dos anos
60 do século XX (altura em que saíam de Portugal mais de 100 mil
portugueses ao ano), para os responsáveis do último relatório do Observatório
da Emigração, hoje tornado público, ainda há a perceção de que "é
improvável, nos próximos anos, uma redução da emigração para os níveis
anteriores à crise".
Portugal, com os seus 2,3 milhões de emigrantes, pode ser apenas o 27º país
de emigração do mundo (os recordistas são a Índia, com 15,6 milhões de
emigrados, o México, com 12,3 milhões, e a Federação Russa, com 10,6
milhões). No entanto, o retângulo não deixa de ter um lugar de destaque,
quando analisado em contexto europeu: se retirarmos Malta da equação (a
ilha do Mediterrâneo tem pouco mais do que 400 mil habitantes, entrando na
categoria à parte de países com menos de um milhão de habitantes), Portugal
é "o país da União Europeia com mais emigrantes, em proporção da
população residente".

Para onde vão os portugueses? "Dos 23 países de destino para onde se


dirigem mais emigrantes portugueses 14 são europeus. E entre os 10
principais só dois se localizam noutro continente, o africano: Angola e
Moçambique."

Desde a grande vaga de emigração das décadas de 60 e 70 que a França, com


mais de meio milhão de portugueses (eram 606 897 em 2013), lidera a tabela
de países do mundo com maior número de emigrados com nacionalidade lusa.
É lá que se concentra a maior fatia de portugueses, fora de Portugal: ao todo,
correspondem a 62% do número total de emigrantes, tal como a comunidade
portuguesa é a maior, no grupo de imigrantes residentes em França. No
entanto, na contabilidade anual, as saídas para aquele país do centro da
Europa vinha diminuindo com o passar dos anos. Rui Pena Pires, responsável
pelo relatório, não quer deixar em claro que "em 2015, saíram para França 18
mil portugueses" o que, olhando para os números, quer dizer que se deu uma
inversão de tendência. As saídas para França voltaram a subir e aquele
"voltou a ser um destino importante" para os portugueses que estão de saída.

A tendência pode ter mudado, mas ainda não o suficiente para regressar ao
topo da tabela. Nos últimos ano, desde a crise do subprime, mais
concretamente, "as saídas para Espanha diminuíram e as saídas para o Reino
Unido aumentaram" realça Pena Pires. A partir de 2011, as ilhas britânicas
têm-se mantido como principal destino da emigração portuguesa – e o recetor
da maior fatia de qualificados. "um terço da emigração portuguesa para o
Reino Unido tem pelo menos o ensino superior".
Contas feitas, emigraram, para as ilhas de Sua Majestade, 32 mil portugueses,
em 2015. Seguem-se, como principais destinos, a França (18 mil, em 2013), a
Suíça (12 mil, em 2015) e a Alemanha (9 mil, em 2015). "Relevante", para
Pena Pires, "é que pelo segundo ano consecutivo, a emigração para Espanha
está a subir", o que indica que, passada a fase mais negra da crise (que afetou
muito a área da construção) "pode voltar a crescer."

Fora do velho continente, é para a Comunidade dos Países de Língua


Portuguesa (CPLP) que os portugueses olham, quando decidem deixar o País.
Antes de todos os outros, e apesar da crise, emigram para Angola (7 mil, em
2015). Depois, escolhem Moçambique (4 mil, em 2013) e Brasil (mil em
2015).

Portugal continua a ser, portanto, um país de emigrantes. E de imigrantes,


será? De acordo com o relatório não. Em contraste com os dados da
emigração, Portugal "é um dos países com uma percentagem de imigrantes na
população residente abaixo da média dos países da UE (8% se considerarmos
os retornados nascidos na ex-colónias, menos de 6% sem estes)". A
conjugação destes dois fatores (alta emigração e baixa imigração), em termos
acumulados, situa Portugal no conjunto dos países europeus de repulsão,
onde se encontram também a Lituânia, Roménia, Bulgária e Polónia (que
substituiu a Eslováquia que, de 2010 para cá, melhorou a sua posição
relativa).

http://visao.sapo.pt/atualidade/2017-02-24-Portugal-a-perder-gente-ha-mais-de-50-anos