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Segurança, catástrofe

e o mesmo
Security, catastrophe and the same

Resenha do livro de Frédéric Gros.


Le principe sécurité. Paris: Éditions Gallimard, 2012, 286 pp.

Leandro Siqueira
Doutorando em Ciências Sociais na PUC-SP, Brasil. Pesquisador no Nu-Sol e no Projeto
Ecopolítica. Contato: ladps@uol.com.br.

Segurança se tem ou se busca forma clássica da guerra para emergir


como algo que pode ser garantido, ou na forma de “estados de violência”.
ainda, que depende de continuidade. Desta vez, Gros toma a segurança
Em seu novo livro, Le principe em dimensões mais amplas, ao
sécurité, o filósofo francês Frédéric traçar um percurso que examina
Gros enfrenta o tema da segurança, suas transformações desde as práticas
tão presente na nossa atualidade, éticas da antiguidade até as suas
mostrando como ela se afirma formulações mais contemporâneas
enquanto um dispositivo, ou um impregnadas pela racionalidade
“princípio” como se refere no título neoliberal.
da obra, que insiste em tornar tudo Gros volta novamente com Michel
seu objeto. Foucault, não porque ele seja um
A obra pode ser lida como um “reconhecido especialista” no autor,
desdobramento de seu livro anterior, tendo sido responsável pela edição
Estados de violência – Ensaio sobre de alguns cursos ministrados por
o fim da guerra, no qual também Foucault no Collège de France.
abordou a segurança, enfocando-a do Como em outros livros que publicou,
ponto de vista das relações entre amplia diversas pistas sugeridas
os Estados, no plano internacional, outrora por Foucault, e mostra
com o objetivo de descrever as como a perspectiva genealógica
transformações contemporâneas do possibilita abandonar a mesmice
conflito violento que ultrapassou a das produções acadêmicas. Em Le

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principe sécurité, recupera materiais de reconfiguração, reativação, tensão
históricos, literários, filosóficos, interna e, até mesmo, de contradição.
sociológicos e seleciona informações
sobre algumas novas tecnologias que A segurança da alma e da utopia
vão compor as diferentes extensões Segurança se tem ou se busca. A
da segurança na atualidade. Gros alma e a utopia, na perspectiva de
neste recente escrito faz referência Frédéric Gros, abrem duas dimensões
também a Gilles Deleuze ao se para se investigar a segurança.
ater sobre o complicado trabalho de Gros retorna à antiguidade para
descrever e analisar o funcionamento mostrar como, a partir do século
da segurança no tempo presente, III, a segurança constituiu um foyers
justamente quando ela passa a incluir de sens que a vincula à serenidade
dispositivos de controle e securitizar da alma. Para gregos e romanos, a
os fluxos na sociedade de controle. tranquilidade, a quietude e a confiança
O livro estrutura-se em quatro são disposições subjetivas do sábio
capítulos, dedicados cada um a uma e que independem de condições
dimensão ou, como denomina o autor, exteriores. A sabedoria ensina a ter a
a um foyers de sens (em português, alma serena para enfrentar os acasos
“núcleos de sentido”). Em perspectiva e os infortúnios da vida, que nunca
histórica, a segurança produziu cessarão de existir.
diferentes matizes que constituíram É na filosofia helênica e latina
quatro diferentes foyers de sens: a que, de diferentes maneiras, se
serenidade do sábio da antiguidade, configuraram exercícios espirituais
o milenarismo medieval, o Estado para se conquistar a ataraxia
garantidor na Idade Moderna e as (segurança), ou sua versão romana,
técnicas contemporâneas de gestão a securitas. Gros retoma exemplos
dos fluxos. Esta divisão dos capítulos no estoicismo, no epicurismo e no
não compartimentaliza cada dimensão ceticismo de exercícios que visavam
da segurança em épocas cronológicas, atingir a tranquilidade total do
restritas ou sucessivas, pois, segundo espírito, preparando o discípulo para
Gros, uma vez “acesos”, estes quatro que nenhum risco ou perigo externo
foyers de sens continuam ativos, pudessem afetar sua quietude interior.
em relação uns com os outros, na Para os estoicos, tanto a ataraxia
dinamicidade que envolve movimentos (Epíteto) quanto a securitas (Sêneca),

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resultavam da maestria de si. O Gros não vinculará o foyers de sens
sábio estoico permanece firme e à previsível segurança prometida
sem vacilar, seguindo uma ética de pela Igreja Católica, preterindo-a por
treinamento para a segurança. Os um movimento específico que se
epicuristas chegavam à ataraxia via desenvolveu dentro dela durante a
o prazer, mas não os interessavam Idade Média: o milenarismo cristão.
qualquer prazer. Segundo Epicuro, O milenarismo é a crença de que
o prazer que possibilita fazer a a humanidade, antes da chegada do
passagem para a segurança não está Juízo Final, viveria cerca de mil
ligado à excitação, mas à plenitude. anos de pax et securitas, graças à
No pensamento cético, a ataraxia restauração da inocência primordial
aparece no momento da renúncia à do mundo. Esta doutrina, formulada
busca pela verdade e de suspensão por vários autores e padres no
do julgamento, o que permite atingir tempo em que as comunidades
um estágio de desprendimento. cristãs viviam intensas perseguições,
Procuravam, sobretudo, a segurança pregava o fim da história quando o
superior de em nada acreditar. próprio Cristo reinaria sobre todo os
Neste primeiro foyer de sens, povos, trazendo harmonia, felicidade
a segurança está sempre ligada a e justiça, sem diferenças entre ricos
uma prática de si voltada para a e pobres, até a derradeira batalha
conquista de uma serenidade interior entre o bem e o mal.
capaz de enfrentar as adversidades Para descrever esta dimensão da
da vida. Segurança, para gregos e segurança baseada em uma utopia
romanos, portanto, é algo que se escatológica, o autor investiga escritos
tem, na alma, e o que vem de fora religiosos e historiográficos, desde
não deve ameaçá-la. o século III até à Renascença, para
Por diversos motivos, a segurança descrever estes movimentos que fizeram
do sábio será mais uma heresia para da segurança a busca de “uma situação
o cristianismo. Dentre eles, está o objetiva caracterizada pela ausência
fato de, no pensamento cristão, a de ameaças e o desaparecimento
segurança jamais passar pela afirmação definitivo de perigos” (p. 52). Na
do eu, mas, ao contrário, pelo seu visão milenarista, a segurança deixa
abandono a Deus. Por isso, não de ser algo subjetivo para tornar-se
surpreende que, no segundo capítulo, uma materialização objetiva.

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Apesar de oficialmente condenado paralelos às cruzadas, que buscavam
pela Igreja Católica, o milenarismo recuperar Jerusalém, a cidade que no
teve importantes efeitos políticos e imaginário medieval figurava como o
sociais. Ele alimentou utopias que lugar da segurança eterna. Lideradas
buscavam a unificação da Europa por eremitas fanáticos, ascetas
nas mãos de apenas um monarca iluminados ou pequenos inocentes, as
e a realização da promessa de um cruzadas dos pobres reuniram massas
mundo sem ameaças. Inspirados em de mendicantes, pastores, sem-terras
escritos bizantinos do século IV que e crianças.
profetizavam chegada do Imperador O milenarismo também impulsionou,
dos Últimos Dias, alguns textos do século XIII ao XV, a proliferação
medievais anunciavam a volta de um de pequenas comunidades e seitas
“rei perdido”, um Carolus redivivus que buscavam precipitar a Jerusalém
(um Carlos ressuscitado), que reuniria celeste sobre o próprio mundo. Gros
a humanidade na cristandade para dedica várias páginas neste capítulo
inaugurar o tão sonhado período de para traçar como as ideias milenaristas
bonanças, felicidade e paz eternas. de Joaquim de Flore influenciaram
A busca pela realização destas alas radicais dos franciscanos a
utopias de segurança eterna também promoverem diversas revoltas de
esteve presente em diversos conduta no interior da Igreja. Alguns
movimentos sociais, políticos e leigos, como Gérard Segarelli e Amaury
religiosos que, durante a Idade de Bène, se apoiarão sobre os ideais
Média, foram responsáveis pela de pobreza, liberdade e regeneração
aglutinação de grandes massas e para fundar seitas marcadas por um
inclusive por inúmeras insurreições caráter fortemente transgressor que se
e revoltas. Aqui, Gros certamente opunha à obediência, à autoridade, à
seguiu algumas pistas do que Foucault hierarquia e à riqueza da Igreja.
denominou “revoltas de conduta”, O milenarismo ainda provocou o
no curso Segurança, Território e surgimento de movimentos revoltosos,
População, esboçadas anteriormente dos séculos XIV ao XVI, que buscaram
em Em defesa da sociedade e depois no comunitarismo dos bens a segurança
retomadas em A coragem de verdade. obtida por meio de uma igualdade
A crença milenarista animou perfeita de condições, tal como teria
movimentos espontâneos e inquietos, existido no Estado Original, antes

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do pecado. Fazem parte do chamado continuidade. Os dois últimos foyers
“milênio igualitário”: o movimento de sens apresentados por Gros revelam
dos padres pobres na Inglaterra, dimensões em que a segurança torna-
liderado por John Ball, que defendia se uma garantia oferecida pelo Estado
o massacre de burgueses, exploradores moderno e, posteriormente, uma
e cléricos corruptos; os hussitas, prática de acompanhamento voltada
que radicalizando as ideias de Jan para se assegurar a continuidade de
Hus, fundaram na Boêmia do século fluxos diversos.
XV comunidades onde não havia Está em foco, no terceiro capítulo,
casamento, propriedade, hierarquia; o grande deslocamento ocorrido na
Thomas Müntzer e sua Associação noção de segurança, por meio do qual
da Vontade Divina na Alemanha da opera-se uma síntese completa entre
virada do século XV que incitavam segurança e Estado. Este deslocamento
os miseráveis a acabar com o Sacro criou a possibilidade de emergência
Império Romano-germânico; e, por de uma situação inusitada, na qual a
fim, as comunidades anabatistas, segurança passa a ser, simultaneamente,
formadas em torno de Jean de uma realidade objetiva e subjetiva a
Leyde, também na Alemanha, que ser garantida pelo Estado. A segurança
recusavam toda forma de autoridade definida a partir da existência do
e propriedade. Estado será encarnada objetivamente
Para Gros, este foyer de sens por três figuras pública: o juiz, o
ativado pelo milenarismo medieval soldado e o policial. E produzirá uma
igualitário, ressurgiu no século XX dimensão subjetiva que corresponde à
quando o comunismo retomou a criação do cidadão, cuja tranquilidade
utópica busca de uma “segurança na repousa na proteção dada pelos direitos
igualdade”, a partir de “esquemas fundamentais.
secularizados e recodificados nos É com a elaboração da filosofia
termos da lógica dialética e do política dos contratualistas que o Estado
materialismo histórico” (p. 80). moderno se firma como o único meio
autêntico para garantir a segurança,
A segurança da garantia e da tornando-se ao mesmo tempo sujeito
continuidade e objetivo dela. Gros optou por ler os
Além de se ter e se buscar, filósofos do contrato, dentre os quais
segurança é algo que se dá e exige além de Hobbes, Locke e Rousseau,

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incluiu Spinoza, a partir de elementos defesa da propriedade (proteger as
que lhes são comuns, principalmente fronteiras contra os inimigos); a razão
a centralidade que a segurança de Estado recoloca uma relação de
ocupa em suas construções teóricas. igualdade entre os Estados, na medida
Segundo o autor, eles fundamentaram em que todos são reconhecidos como
a segurança jurídica, baseada sob unidade política, e, por fim, a balança
dois pilares: a lei e o juiz. Esta de equilíbrio permite a instauração
concepção jurídica segue a fórmula de alianças e solidariedades que
bastante conhecida: basta obediência, garantem a coexistência de potências,
da parte dos cidadãos, e leis públicas Estados médios e pequenos na
e uma justiça independente, da parte configuração westifaliana europeia.
do Estado, para que se abandone o No entanto, a Guerra Fria, com a
estado apolítico (estado de natureza), oposição do mundo em dois blocos,
com seu caos e sua dita anarquia, foi responsável pelo surgimento de
para se chegar às sociedades políticas, novas doutrinas, noções e estratégias
cuja finalidade é a segurança dos de segurança. Com o conceito de
indivíduos. Este Estado securitário, diz segurança coletiva, o plano das
Gros, será o fiador do desenvolvimento relações internacionais também foi
das potências políticas e sociais fortemente impactado pela tentativa
do indivíduo, tidas como direitos de transposição do que se constituiu
fundamentais, expressos na garantia como “segurança” para os indivíduos
da liberdade, da propriedade, da e, a partir dele, Gros examina as
igualdade e da solidariedade. ambições e os limites do direito entre
Foi a partir de transposições e os Estados e o direito de guerra.
deslocamentos da noção de segurança Para finalizar a dimensão da síntese
jurídica do indivíduo para o plano completa entre Estado e segurança,
das relações internacionais que um o filósofo problematiza a figura do
jogo conceitual definiu a denominada policial e a segurança policial. Neste
segurança nacional ou exterior. Nesta momento, ele aponta como o Estado
segurança militar, que diz respeito securitizante pode vir a tornar-se
à figura do soldado, o direito de um Estado de Exceção e, no limite,
guerra equivale à liberdade (é livre um “Estado totalitário”. De forma
aquele que pode declarar guerra); o elucidativa, apresenta a polícia a partir
interesse de Estado volta-se para a de suas estratégias de funcionamento

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e é nisto que reside a perspicácia de ambos apoiem-se sobre a segurança
sua análise. Ele destaca, incialmente, policial, no totalitarismo emerge uma
duas grandes funções da polícia: a versão radical da polícia política que
polícia geral, da força pública que não funciona apenas para manter
é responsável pela conservação dos o Estado, mas para “realizar um
bens e das pessoas combatendo movimento” (p. 160).
e prevenindo o crime, e a polícia Foucault, no curso Nascimento
política destina à manutenção da da Biopolítica, apontava que o
ordem pública relacionada a impedir nazismo podia ser caracterizado mais
toda tentativa de desestabilização dos por promover um “definhamento”
poderes constituídos. Se a primeira, do Estado, do que por aumentar
com seu caráter moralizador, protege indefinidamente o poder estatal. Neste
a sociedade dos criminosos tidos sentido, Gros destaca ser ambígua
como “anormais”, a segunda, com a expressão “Estado totalitário”,
sua finalidade política, defende o na medida em que a organização
Estado da subversão, protegendo-o de totalitária da sociedade tende a excluir
inimigos e de sublevações. A história algo como o Estado que, tomado em
está repleta de episódios que em nome seu sentido clássico, reenvia à ideia
da segurança do Estado, colocou-se de estabilidade, de uma disposição
em segundo plano a garantia dos estável. O regime totalitário “está
direitos do indivíduo e primou-se pela para além do Estado” (p.161) e volta-
preservação do próprio Estado, ou se para a mobilização que duplica
seja, momentos em que a segurança as instâncias da estrutura estatal
policial suplanta a segurança jurídica. tradicional (organizações paralelas
É o que Schmitt, Benjamin e, mais ligadas ao partido e ao movimento),
recentemente, Agamben denominam de as quais se tornam os reais centros
Estado de Exceção, no qual a ordem de decisão. Nele, segundo Gros, o
deixa de ser instaurada pela justiça e que interessa é o movimento, sendo
pela garantia dos direitos fundamentais que as polícias totalitárias, tais como
para apoiar-se exclusivamente sobre a a Gestapo (na Alemanha nazista), a
polícia, que faz valer a sua própria lei. Stasi (na antiga Alemanha Oriental), a
Entretanto, para Gros, não se Securitate (na Romênia de Ceausescu),
deve confundir Estado de Exceção a GPU, NKVD até chegar à KGB
com regime totalitário, pois embora (na antiga União Soviética), cumprem

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a função estratégica de intensificar de elementos nocivos (p.173). Tanto
a participação neste movimento, a biossegurança como as demais
verificar a contribuição de cada um seguranças dos fluxos relacionam-se a
para o triunfo de uma ideologia, de novos enunciados, técnicas e práticas
uma forma social revolucionária, de contemporâneas como câmeras de
uma nova humanidade (p. 162). vigilância, chips de identificação por
A segurança policial ainda rádio frequência, biometria, GPS, etc.
compreende uma última polícia, O termo que desde o final
de inspiração urbana, identificada dos anos 1990 surge para fazer
anteriormente por Foucault, e que referência à defesa da biodiversidade
se destina ao controle e a regulação ou às estratégias adotadas para se
das circulações das mercadorias, das evitar ataques biológicos, tem um
pessoas, dos ares... Enfim, uma polícia uso preciso na abordagem do autor:
que se volta para a gerência da vida e biossegurança diz respeito ao conjunto
das populações como processo fluido de dispositivos de proteção, controle
tornado objeto da segurança. É a e regulação do indivíduo tomado sob
partir deste outro sentido de polícia, o aspecto de sua finitude biológica.
que Gros descreve o último foyer de A construção teórica do conceito
sens que diz respeito à segurança em de segurança humana, que hoje
nossa contemporaneidade. é reivindicada como a principal
O autor encara a atualidade para alternativa à doutrina realista da
investigar esta nova acepção em segurança dos Estados, permite
que a segurança é algo atrelado ao observar como a biossegurança se
acompanhamento de fluxos. Dentre os propõe a securitizar o núcleo vital do
recentes campos que se tornaram objeto indivíduo, segundo a expressão de
da segurança (segurança sanitária, Amartya Sen, frente ao grande feixe de
segurança energética, segurança ameaças que vão do desconhecimento
informática, segurança afetiva, etc.), de identidades culturais até a miséria,
Gros privilegia a biossegurança para passando pela repressão política
analisar esta nova dimensão em que e os problemas ecológicos. Esta
a segurança volta-se para acompanhar securitização visa efetivar-se pela
fluxos materiais, a fim de se evitar proteção deste núcleo vital, cujo fluxo
interrupções brutais ou então visa a de vida deve ser assegurado para que
seleção do acesso para o bloqueio possa se desenvolver. Ela atua sobre

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o mais elementar do homem, o seu está onde). Para completar, bancos
substrato biológico, a urgência do digitais (quem faz o que) cruzam
corpo que sofre, para deter o que inumeráveis arquivos de dados
fragiliza a vida. Via o conceito de cotidianos e ordinários, formando
segurança humana, Gros analisa que a assim uma memória indestrutível e
biossegurança redefine a noção clássica apartada de homens e coisas, possível
de soberania: no plano internacional, de ser acessada a qualquer momento.
a responsabilidade de proteger passa a Com a produção de duplos digitais
legitimar “intervenções” nos Estados de tudo, a segurança exige fluidez,
considerados incapazes de proteger seleção e transparência, tendo no
suas populações vulneráveis, e, no rastreamento sua tática. Nos fluxos
plano individual, o cidadão portador identifica-se, localiza-se e obtém-se
de direitos fundamentais sai de cena trajetórias: a segurança desloca-se do
para ser substituído pela vítima frágil confinamento para o rastreamento.
a ser protegida: “O respeito cede A regulação, a última das
lugar à compaixão” (p.193). características da segurança dos
Não há acompanhamento dos fluxos destacada por Gros, emerge da
fluxos, sem controle. É no pensamento constatação de que a vida e a população,
de Gilles Deleuze que Gros se apoia enquanto dados biológicos, não podem
para examinar a segunda característica ser conduzidas, mas apenas reguladas.
da biossegurança. Antes de tudo, Baseado nas análises de Foucault
alerta, não se tratar mais da vigilância sobre os dispositivos de segurança e
disciplinar, pois na biossegurança a a governamentalidade (neo)liberal, o
securitização dos fluxos se dá de autor discute a utopia de autoregularão
forma mais democrática, participativa securitizante dos governos neoliberais
e compartilhada a cargo de uma que investem na expansão da forma
“comunidade de voyeurs”. mercado para acionar mecanismos de
A biossegurança pressupõe poder que prescindem da necessidade
tecnologias (câmeras de vigilância, de subjugação, do consentimento
chips, GPS, bancos de dados digitais, e da normalização para se obter
celulares inteligentes, pesquisas na obediência. São mecanismos de poder
internet e biometria) que permitam de que funcionam mais pelo ordenamento
forma rápida e automática identificar do meio, do ambiente e do fluxo,
(quem é quem) e localizar (quem sobre realidades ou naturalidades.

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A organização do meio determina o autor, na contemporaneidade todos
reações dos indivíduos e isto é o que se tornam ativos financeiros, suportes
interessa à regulação. para a especulação, submetidos a
Os liberais pregavam que a não intermináveis processos de avaliação
interferência humana é a mais que não visam definir preços, mas
eficaz das seguranças. Hoje, este antecipar curvas de valorização. “No
pensamento ganha ainda mais força endividamento – no sentido em que
com o neoliberalismo que faz do se fala do endividamento das famílias
mercado livre e da concorrência os e mesmo dos Estados – o presente
grandes produtores de verdades, e, confina o futuro. Ele só se mantém
consequentemente, de segurança. às custa da sua obstrução. Se eu
Esta crença dogmática em uma posso viver hoje (me abrigar, me
segurança imanente à autorregulação equipar e ter lazeres) é hipotecando
não se aplica obviamente apenas às o futuro” (p. 236).
mercadorias, mas invade o campo da O futuro, se não for completamente
justiça, da educação, da saúde e a “delapidado” no hoje, exigirá, segundo
própria existência do humano. Gros, mais dispositivos securitários
Dentre os efeitos desastrosos do para corrigir os efeitos colaterais dos
dogma da infalibilidade do mercado, mercados supostamente autorregulados.
Gros cita o crescimento exponencial Diante da explosão da miséria e dos
das desigualdades sociais e a destruição endividados, o autor avalia que só
dos recursos naturais e inclui neste resta aos regimes neoliberais tornarem-
rol de efeitos o que denomina de se Estados policiais. Catástrofe? A
actionnarisation de l’existance1. Para pergunta é do próprio Gros.
Após este esforço genealógico,
ele ensaia definir a segurança na
1
Optou-se por manter a expressão uti-
lizada por Gros na língua original, pois atualidade: é “permanecer à beira do
o termo “actionnarisation” não existe desastre” (p. 237). Não há para onde
em francês. O neologismo “actionna-
risation” pode ser compreendido como correr, pois a catástrofe insiste. Se
a ação de transformar algo em ações ficar, ela não desiste. Segurança e
financeiras. No mercado financeiro, uti-
liza-se a expressão “abertura de capi-
tal” para se referir à operação em que expressão para designar uma operação
uma empresa transforma seus ativos em em que a própria existência é transfor-
ações a serem negociadas em bolsas de mada em um ativo financeiro, o pro-
valores. Portanto, o autor emprega a cesso de “abertura de capital” da vida.

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catástrofe são o mesmo: “é quando como se observou no Iraque e,
tudo continua como antes” (p. 238). mais recentemente, na Líbia. No seu
limite, as estratégias humanitárias da
Segurança e ecopolítica biossegurança talvez nem necessitem
O recente livro de Gros não mais de Estados soberanos: apenas
traz segurança. Ao contrário, uma simples autoridade política
provoca inquietações que conversam legítima, como defende Mary Kaldor,
com o estudo da ecopolítica. Os dê conta de restabelecer a ordem em
deslocamentos promovidos pela territórios devastados pela guerra ou
noção de segurança humana, tanto no pela miséria (p. 188).
âmbito individual com a suplantação Sob esta perspectiva, torna-se mais
dos direitos fundamentais, quanto enfática a preocupação de Gros com
no das relações internacionais, na o futuro, na qual arrisca prever que
qual desdobra-se no conceito de do neoliberalismo emerjam Estados
“responsabilidade de proteger”, policiais voltados para a contenção
tiveram como efeito a emergência das desigualdades e a proliferação
de uma “comunidade global das dos miseráveis, enquanto o mercado
vítimas”. Para Gros, a condição de se ocupe dos endividados, suportes
vítima sofredora é o que passa a para os fluxos de especulação.
ser o nexo que cria vínculos sociais, Os miseráveis, por sua vez, serão
que cria a comunidade (p.193). Mais alvos de mais e mais dispositivos
um importante deslocamento: com a securitários enquanto comunidades
biossegurança, a comunidade funda- frágeis que demandam por “proteção”
se no humanitário e não mais na (leia-se, intervenções). É importante
humanidade. notar como está lógica empregada
Talvez possamos evidenciar no contexto internacional, na qual
neste novo nexo que reorganiza a a segurança militar acopla-se à
sociedade uma das estratégias que a segurança policial, também possui
ecopolítica apoia-se para criar novas suas versões nacionais: “as selvas
institucionalizações baseadas agora urbanas são as novas colônias que
na “comunidade vulnerável”, que se seria necessário se reconquistar, os
tornou uma espécie de “substrato delinquentes, os novos insurgentes
biológico da população” passível de que trazem a necessidade de se
sofrer as mais diversas intervenções infiltrar e neutralizar, as periferias,

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os territórios que se deve pacificar” homens eles mesmos. Trata-se da
(p. 230). Embora não mencione, esta nova utopia da era da segurança
afirmação nos remete diretamente digital, na qual os fluxos circularão
para o caso das favelas do Rio de sem entraves, harmoniosamente.
Janeiro: intervenções para pacificar Como se pode notar, as análises de
comunidades vulneráveis. Gros sobre a biossegurança convergem
Paralelamente ao crescimento para algo que interessa ao estudo da
das comunidade de vulneráveis ecopolítica: o caráter transterritorial
miseráveis e endividados, aumentam que as estratégias securitárias
as comunidades de voyeurs que assumem na contemporaneidade.
democraticamente participarão Elas não se restringem a territórios,
do acompanhamento do fluxo como ocorria com a biopolítica,
informático da internet, no qual tendo doravante como alvo político
ações quotidianas e sem importância o corpo do planeta e seus fluxos de
adquirem uma exposição planetária coisas (que incluem o humano).
e a possibilidade securitária de Embora venham mais catástrofes –
rastreamento a qualquer momento. certas para Gros devido à irreversível
“Controla-se para se proteger e degradação do meio ambiente
protege-se para se controlar”, diz. – e venham mais dispositivos de
Além da internet, outros dispositivos segurança, os mitos de uma “sociedade
como GPS, chips de rádio frequência, reflexiva” e de uma “modernidade
leitores de dados dispostos por toda esclarecida”, impotentes perante o
a superfície do planeta insinuam dogma da segurança do mercado,
uma recodificação do milenarismo não conseguirão frear a pilhagem
em termos técnicos: a segurança está sem limites do planeta. Ao contrário,
na regulação automática das relações contribuirão para que o mesmo
entre homens e coisas e entre os permaneça.

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