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UM PASTOR SAUDÁVEL PARA UMA IGREJA SAUDÁVEL

No último semestre, em algumas das tantas viagens que fiz através de um


aplicativo, encontrei três motoristas os quais me falaram que eram pastores e que haviam
abandonado a vocação cansados de tanta demanda e cobrança e, agora, buscavam sustentar
suas famílias através de um trabalho secular. Desconheço algum estudo sobre os ministros
brasileiros ou mesmo estatísticas sobre quantos de nós abandonaram a vocação alegando
cansaço. Que há, há e muitos! Quando um de nós desiste, escreveu Eugene Peterson, todos
nós perdemos.

Como é sabido, a vocação pastoral requer considerável esforço de nossa parte.


Não bastasse o devido cuidado com a nossa saúde, conjugando atividades recreativas ou
mesmo esportivas, em nosso dia a dia somos cobrados a exercemos os mais diversos papéis
dentro e fora de nossas comunidades. O não cumprimento de um desses papéis ou a
sobreposição de um sobre o outro, pode gerar um efeito dominó sobre nossa vida e
vocação. Por isso, é preciso saber equilibrar bem nossa agenda pessoal para que isso não
aconteça. O pastor tem de estabelecer prioridades e ele mesmo tem de aprender a lutar para
que os papéis que deve cumprir sejam feitos de forma saudável, sem terceirizar as
responsabilidades que são dele. Destaco três papeis que exercemos: cristão, esposo e
ministro.

O cristão – antes de tudo o pastor é um discípulo e testemunha de Cristo, sendo


essa a única base para que os outros papéis possam ser vividos de maneira adequada. O
exercício pastoral pode trazer, dentre tantos perigos, o de achar que a negligência dos
exercícios espirituais pessoais pode entrar em pauta em nossa vida. John Jowett denominou
essa ameaça como a falsa intimidade com o sublime, isto é, nossas visitas, gabinetes e
sermões não substituem a leitura da Bíblia e a oração diárias. Saber preservar sua vida
devocional em meio a tantos afazeres e cobrança é algo que deve ser inegociável ao pastor.
Nossa primeira cobrança, onde estivermos, é de nosso papel como cristãos.

O esposo – a seguir o pastor tem, caso seja casado, como prioridade sua
família. Deve dar a atenção devida à esposa e o acompanhamento espiritual e responsável
dos filhos. Conheci e tenho muitos amigos os quais, mesmo sendo filhos de pastor, não
suportam frequentar uma igreja evangélica; outros ainda que tomaram uma opção até
beligerante contra a instituição. Em vários casos a queixa de ter sido trocados pela igreja ou
cobrados em demasia é uma constante. O fato é que não adianta salvar vidas em nosso
bairro ou no mundo e perder nossos filhos em casa. Essa ameaça, sutil, muitas vezes
imperceptível, mas extremamente danosa de substituir a nossa família pela igreja, é uma
sombra que paira sobre a vida de todos nós que, hoje, exercemos o ministério. Paulo
escrevendo aos candidatos ao episcopado fala do cuidado que devem ter com sua própria
casa (1Tm 3.4). Tal cuidado se faz por meio de um diálogo franco e cuidado com o cônjuge
e, também, do reconhecimento de que a família pastoral não é uma superfamília e, por isso,
isenta de defeitos.

O ministro – por fim, temos a questão do pastorado em si. Talvez para alguns
seja estranho que esse papel apareça em último, mas é exatamente seguindo a
recomendação paulina (1Tm 4.16) sobre o cuidar primeiro de si e depois da doutrina. Após
lutar por sua vida devocional e cuidar de sua casa, o ministro deve lembrar, para um
saudável exercício pastoral, que ele não faz nada sozinho, compartilhando seu trabalho com
aqueles que podem ajudá-lo. Também deve manter seu programa pessoal de estudo, como
forma de se capacitar ao trabalho e oxigenar seus estudos e pregações. Ainda sobre leitura,
Martin Loyd-Jones fala em pelo menos três tipos de leituras que devem constar na vida do
ministro: a devocional, a teológica e aquela sobre assuntos que ele goste (particularmente
gosto de ler literatura, algo que aparentemente não tem nada com meu universo pastoral ou
do direito). O benefício da leitura para a mente é conhecido (para ver sobre os benefícios
acesse: https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2016/12/7-provas-de-que-ler-faz-
bem-para-sua-saude.html )

É aconselhável ao pastor, ainda em seu papel de ministro, procurar um outro,


mais experiente e de confiança para se aconselhar ou desabafar, sempre que for preciso.
Assim, preservamos nossa família de ser depositária de nossas impressões ou frustrações.
Quem não ouve conselho, dificilmente acerta. Uma vez, julgando-me sem vocação pastoral,
ouvi de um pastor experiente que meu problema mesmo era falta de descanso.

Para concluir, podemos fazer, a partir do que escrevemos, duas afirmações: 1)


que a procura de exercer bem cada papel que nos cabe é um dever nosso, diário, não
permitindo que eles entrem em desarmonia; 2) que ao permanecermos no caminho e no
exercício de nossa vocação, podemos nos lembrar que o fazemos pela manifestação da
graça de Deus, tal como também escreveu o apóstolo Paulo, contudo não eu, mas a graça
de Deus comigo (1Co 15.10)

Pedro Silva – Pastor da IEC Ibura, Recife (PE), presidente da Associação


Koinonia e doutorando em ciências da religião pela UNICAP