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PESQUISA QUALITATIVA EM

SAÚDE:
Algumas reflexões
Prof.ª Dr.ª Luciana Morais Silva
(Departamento de Medicina Social)
FONTE: www.mec.gov.mz/eueosida/media/duvida%5B1%5D.jpg
FONTE: nexus.futuro.usp.br/blog/~anamarysa/1627
DEFINIÇÃO:
Os métodos qualitativos de pesquisa não têm qualquer
utilidade na mensuração de fenômenos em grandes grupos, sendo
basicamente úteis para quem busca entender o contexto onde
algum fenômeno ocorre;

Permitem a observação de vários elementos simultaneamente


em um pequeno grupo;

A abordagem é capaz de propiciar um conhecimento


aprofundado de um evento, possibilitando a explicação de
comportamentos.

(VÍCTORIA; KNAUTH; HASSEN, 2000)


EXEMPLOS DE TEMAS PARA ESTUDOS
QUALITATIVOS

FONTE: saudementalpsicob.blogspot.com

• Estudo sobre como os indivíduos representam a doença e o corpo para si


próprios e sobre as especificidades que atribuem a essa representação em
relação ao seu status social ou gênero;
(VÍCTORIA; KNAUTH; HASSEN, 2000)
EXEMPLOS DE TEMAS PARA ESTUDOS
QUALITATIVOS

Investigação das lógicas


dos sistemas
etiológicos-
terapêuticos em
determinadas situações.
(VÍCTORIA; KNAUTH; HASSEN, 2000)

FONTE: benzedeirasdecuritiba.blogspot.com
EXEMPLOS DE TEMAS PARA ESTUDOS QUALITATIVOS
FONTE: floripanews.com.br FONTE: bibliotecavirtual.sp.gov.br FONTE: pedrocolombro.blogspot.com

Investigações das
representações
sociais da doença em relação
aos
diferentes recursos de cura
disponíveis na sociedade.

FONTE: hsm.min-saude.pt FONTE: ojornalweb.com FONTE: feal.com.br


CARACTERÍSTICAS DA PESQUISA QUALITATIVA

São formuladas para fornecerem uma visão de dentro do grupo


pesquisado (visão êmica);

Trabalha-se com elevado número de questões em um grupo


pequeno de pessoas selecionadas segundo critérios
previamente definidos, conforme os objetivos do estudo;

A coleta de dados depende do estabelecimento de uma relação


entre o pesquisador e o pesquisado (snowball/bola de neve);

A análise dos dados assume as características de uma


interpretação dos eventos pesquisados.

(VÍCTORIA; KNAUTH; HASSEN, 2000)


POTENCIALIDADES

• As técnicas utilizadas permitem o registro do


comportamento não verbal e o recebimento de
informações não esperadas em razão de não se
prender a um roteiro fechado;

• Novos dados, não previstos anteriormente,


podem ser coletados e analisados para a
compreensão do objeto.

(VÍCTORIA; KNAUTH; HASSEN, 2000)


LIMITAÇÕES

• Aplicação de questionários a um número


expressivo de pessoas oriundas de diferentes
camadas sócio-culturais;

• Investimento no fator tempo;

• Pesquisadores devem ser bem treinados para ter


capacidade em campo, devendo compreender a
metodologia qualitativa como um todo.

(VÍCTORIA; KNAUTH; HASSEN, 2000)


PESQUISA QUALI E QUANTI: complementaridade

• Do quantitativo ao qualitativo:

– O levantamento da prevalência de uma doença em


dada população constata uma prevalência
diferenciada entre os diferentes grupos sócio-
econômico-culturais;
• Ex.: como se dá a combinação de fatores sociais,
econômicos e culturais que podem estar predispondo
à disseminação da doença entre a população?

(VÍCTORIA; KNAUTH; HASSEN, 2000)

FONTE: blogdofavre.ig.com.br
AS TÉCNICAS DE PESQUISA

• TÉCNICAS DE COLETA DE DADOS;

• TÉCNICAS DE REGISTRO;

• TÉCNICAS DE ANÁLISE/INTERPRETAÇÃO
DE DADOS
TÉCNICAS DE COLETA DE DADOS

• Observação participante;

• Entrevista;

• Grupo focal;

• História de vida;

• Rede de relações;

• Elaboração de desenhos;
OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE

“Observar, na pesquisa qualitativa, significa


‘examinar’ com todos os sentidos de um evento, um
grupo de pessoas, um indivíduo dentro de um
contexto, com o objetivo de descrevê-lo.”

(VÍCTORIA; KNAUTH; HASSEN, 2000)


OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE

 Características:
• envolvimento do pesquisador com o objeto de pesquisa (distante e
próximo da observação);
• Vive conforme o grupo com o objetivo de compreender melhor o
fenômeno nvestigado;

 Vantagens:
• Riqueza da coleta de dados (quantidade de informações);

 Desvantagens:
• Fazer da observação-participante uma participação-observante.

(LAKATOS; ANDRADE, 2007)


OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE: elementos para
uma observação
Ambientes internos e externos;
» Relação das pessoas com o espaço;
» Distância com relação ao pesquisador;

Comportamentos das pessoas no grupo;


» Postura corporal;
» Normas de condutas implícitas e explícitas;

Linguagem;
» Verbal e não verbal, tom de voz e vocabulário êmico;

Relacionamentos;
Tempo em que ocorreram os processos observados
(LAKATOS; ANDRADE, 2007)
ENTREVISTAS

A entrevista não é uma simples conversa. É conversa orientada para um


objetivo definido: recolher, por meio do interrogatório do
informante, dados para a pesquisa.” (CERVO; BERVIAN, 2002, p. 46)
Critérios:
 Planejar a entrevista focando o objetivo a ser alcançado
 Obter antecipadamente um conhecimento prévio sobre o
entrevistado
 Marcar com antecedência hora e local para a entrevista
 Selecionar os entrevistados segundo a relevância do objeto a ser
estudado
 Aplicar um maior número possível de entrevistas

(LAKATOS; ANDRADE, 2007)


Entrevista dirigida ou diretiva

Elabora-se um certo número de questões objetivas e toda a entrevista


pauta-se única e exclusivamente nas questões previamente
estabelecidas.

 Vantagens
rápida e objetiva

 Desvantagens
• Não permite que informações importantes sejam levantadas no
momento da entrevista, em razão do rol de questões já estar
fechada
• Relação entrevistador/entrevista é assimétrica

(LAKATOS; ANDRADE, 2007)


Entrevista semi-dirigida ou semi-
diretiva
Elabora-se um roteiro de assuntos que envolvem o objeto de estudo.

 Vantagens
• Relação entrevistador/entrevistado é mais simétrica
• O estabelecimento de roteiro e não de questões fechadas
permite a formulação de perguntas que possibilitam ao
pesquisador coletar informações não pensadas anteriormente

 Desvantagens
Demanda um pouco mais de tempo para ser realizada

(LAKATOS; ANDRADE, 2007)


Entrevista Livre ou História de vida

É inexistente a elaboração de roteiro ou questões fechadas. É definida


como autobiografia onde o entrevistado é quem determina quais
informações gostaria de relatar. (Histórias de vida)

 Vantagens
• Riqueza da coleta de dados (quantidade de informações)
• Definida pelo olhar do entrevistado

 Desvantagens
Demanda muito tempo
São necessárias mais de uma entrevista com a mesma pessoa
É assimétrica (monólogo)
(LAKATOS; ANDRADE, 2007)
HISTÓRIA DE VIDA

• Busca compreender o desenvolvimento da vida do


sujeito investigado e traçar com ele uma biografia que
descreva sua trajetória até o momento atual.

• Ex.: História de vida com pessoas portadoras de HIV com o


objetivo de focar a rede de relações de que essas pessoas
participam.

(VÍCTORIA; KNAUTH; HASSEN, 2000)


GRUPO FOCAL

• Tema específico: captar as diferentes visões sobre


o mesmo.
• Ex.: verificar, junto a um programa de prevenção de
Aids, a necessidade de compreender as representações
de pessoas de diferentes idades e sexos sobre o uso de
preservativo.

(VÍCTORIA; KNAUTH; HASSEN, 2000)


GRUPO FOCAL

• Um grupo: captar sua visão de mundo ou


determinados temas.
– Ex.:para elaborar um programa de promoção e proteção
da saúde do idoso, pesquisa-se um grupo de terceira
idade a respeito de temas relativos a sua vida, com o
intuito de obter indicadores de qualidade de vida.

(VÍCTORIA; KNAUTH; HASSEN, 2000)


GRUPO FOCAL

• Ambos (tema e grupo): quando se pretender


entender em profundidade um comportamento
dentro de um grupo determinado.
– Ex.: a partir da detecção de um elevado número de
casos de gravidez entre adolescentes em uma certa área,
entrevista-se um grupo de jovens que tiveram filhos no
período da adolescência.

VÍCTORIA; KNAUTH; HASSEN, 2000)


REDE DE RELAÇÕES

• Rede de relações sociais:


– Conjunto específico de vínculos entre um conjunto
específico de pessoas; as características desse conjunto
podem ser usadas para interpretar o comportamento
social das pessoas envolvidas.

– Ao pesquisador interessa:
• A organização das redes;
• Os intercâmbios realizados (formais, informais, implícitos ou
explícitos);
• Formas de trocas socialmente aceitáveis
(VÍCTORIA; KNAUTH; HASSEN, 2000)
REDE DE RELAÇÕES: o que observar
nesse tipo de estudo

• O que é trocado? = conteúdo dos vínculos


– Ex.: drogas, bens materiais, favores sexuais, relações de
amizade, cumplicidade, hostilidade;

• Com quem é trocado?


– Ex.: relações horizontais (dentro de uma mesma geração
ou pessoas do mesmo grupo) e relações verticais (ex.:
pais e filhos)

• Quanto é trocado? = densidade dos vínculos


– Ex.: estreitos, fluidos, contínuos ou eventuais
(VÍCTORIA; KNAUTH; HASSEN, 2000)
ELABORAÇÃO DE DESENHOS

• Objetivo da técnica:
– propor aos pesquisados que representem uma determinada
situação ou concepção. A partir do desenho, pesquisador e
pesquisado iniciam um diálogo apoiado nos elementos surgidos
no desenho;

Obs.:
– A técnica é propriada nos casos em que a comunicação oral não
se mostra eficiente;
– Esta técnica é sempre usada como forma complementar a outras.

(VÍCTORIA; KNAUTH; HASSEN, 2000)


ANÁLISE DE DOCUMENTOS

• Trata-se de pesquisa documental:


– Documentos oficiais (leis, regulamentos, decretos,
estatutos);

– Documentos pessoais (cartas, diários e autobiografias);

– Documentos públicos (livros, jornais, revistas,


discursos,etc)

(VÍCTORIA; KNAUTH; HASSEN, 2000)


TÉCNICAS DE REGISTRO DE DADOS

• DIÁRIO DE CAMPO:
– Instrumento mais básico de registro de dados do
pesquisador;

– Descrição de todas as observações, experiências,


sentimentos.

(VÍCTORIA; KNAUTH; HASSEN, 2000)


O PROCESSO DA PESQUISA QUALITATIVA
1- Formulação do 2 - Formulação dos 3 - Formulação dos
objetivo da objetivos específicos conceitos
pesquisa da pesquisa norteadores

6 - Avaliação e 5 - Seleção do método e 4 - Seleção da


reformulação de técnicas de pesquisa realidade empírica.
questões específicas apropriados Definição do locus de
da pesquisa estudo

7 - Coleta de dados 8 - Avaliação e 9 - Análise dos dados


reformulação das questões
específicas

11 - Formulação das 10 - Generalização e


descobertas avaliação das análises

FLICK, 2009
TIPO DE PESQUISA TÉCNICA DE TÉCNICA DE TÉCNICAS DE
PESQUISA COLETA DE DADOS REGISTRO DE
DADOS

Pesquisa Exploratória: Técnica de coleta de observação Diário de campo


Conhecer; dados
Identificar;
Levantar;
Descobrir

Pesquisa Descritiva: Técnica de registro Entrevistas Etnografia


Caracterizar;
Descrever;
Traçar;
Determinar
Pesquisa Explicativa: Grupo focal
Analisar;
Avaliar;
Verificar;
Explicar
História de vida

Rede de relações
ÉTICA NA PESQUISA QUALITATIVA
• Relação pesquisador e colaborador ou interlocutor:
– Método e ética convergem na pesquisa participante (as diferenças
não deve consolidar posições hierárquicas);

– Busca de interlocução e diálogo, visando compreender o sentido


e os significados da experiência do outro;

– Distribuição democrática de lugares de escuta, fala e decisão


entre os pesquisadores e interlocutores;

– Empenho no esclarecimento, fidelidade, respeito e solidariedade


às formas de viver dos colaboradores;

– Assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido


conforme estabelecido na Resolução 196/96;

– Cuidado com suas transposição para o texto;


(GUERREIRO; SCHMIDT; ZICKER, 2008)
ÉTICA NA PESQUISA QUALITATIVA

• Relação pesquisador e colaborador ou interlocutor:


– Antevisão e preocupação com eventuais efeitos
políticos e ideológicos nocivos à imagem pessoal e
social de interlocutores individuais e coletivos;

– Revisar, sempre que possível, as transcrições dos relatos


orais e de observações e os textos interpretativos com os
colaboradores;

– Atribuição dos créditos aos interlocutores; discussão


sobre o sigilo e as formas de divulgação dos resultados.
(GUERREIRO; SCHMIDT; ZICKER, 2008)
Referências
BECKER, S. H. Métodos de Pesquisa em Ciências Sociais. São Paulo: Hucitec, 1994,
p. 104-105.

FLICK, Uwe. Introdução à pesquisa qualitativa. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2009.

GUERREIRO, Iara Coelho Zito; SCHMIDT, Maria Luisa Sandoval; ZICKER, Fábio
(Orgs.) Ética nas pesquisas em ciências humanas e sociais na saúde. SP: Aderaldo &
Rothschild, 2008.

LAKATOS, E. M.; ANDRADE, MARINA. Metodologia Científica. 5ª edição. SP: Atlas,


2007.

VÍCTORIA, Ceres Gomes; KNAUTH, Daniela Ríva; HAUSSEN, Maria de Nazareth


Agra. Pesquisa Qualitativa em Saúde: uma introdução. Porto Alegre: Tomo Editorial
Ltda, 2000.