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ARTIGO

Trabalhos de campo na disciplina


de Geologia Introdutória: a saída
autônoma e seu papel didático
Adalberto Scortegagna
Departamento de Geografia da Faculdade de
Ciências Humanas e Sociais de Curitiba – FACIAUSO e
Centro de Estudos e Pesquisas (CEP), Colégio Bom Jesus
ascort@uol.com.br
Oscar Braz Mendonza Negrão
Departamento de Geociências Aplicadas ao Ensino
Instituto de Geociências – UNICAMP
oscar@ige.unicamp.br

RESUMO São relatados diversos tipos de trabalhos de campo e seus


papéis didáticos, relacionando-os com a disciplina de Geologia Introdutória aplicada ao
curso de Geografia. Os tipos de trabalhos de campo relatados são: as saídas de campo
Ilustrativa, Indutiva, Motivadora, Treinadora e Investigativa. Sugere-se uma nova
proposta de trabalho de campo, a saída de campo Autônoma, na qual os alunos reali-
zam trabalhos sem a presença do professor em campo. Esta nova proposta de trabalho
favorece atividades investigativas constantes ao longo da disciplina, pois a partir dos
temas que vão sendo abordados em sala de aula, os alunos têm a possibilidade de fazer
a inter-relação entre a teoria e sua aplicação no cotidiano. Outro aspecto importante
refere-se ao fato de permitir a participação total da turma, pois os horários de ida ao
campo são agendados pelos próprios grupos de estudo, em especial turmas do período
noturno, que tradicionalmente participam menos de saídas de campo realizadas em
finais de semana.

ABSTRACT The article describes diverse types of field works and its didactic
roles, relating them with a discipline of applied Introductory Geology for the course of
Geography. The types of fieldworks are: the Illustrative, Inductive field, Motivator,
* Este documento deve ser
Trainer and Investigative. It is here suggested types a new proposal of fieldwork, the
referido como segue: Authonomous field activity, when pupils carry through works without the presence of
Scortegagna, A.; Negrão, the professor in the field. This new work proposal favors to continuous investigative
O.B.M. 2005. Trabalhos de
campo na disciplina de activities a long the disciplines, therefore from the subjects that are approached on
Geologia Introdutória: a classroom, pupils have the possibility of make relationships between the theory and its
saída autônoma e seu
papel didático.Terræ application in the daily one. Another important aspect is to allow the total participation
Didatica, 1(1):36-43. of the group, therefore the schedules of field trips are set by appointments from the proper
<http://
www.ige.unicamp.br/
study groups. This is of a special interest for groups of the nocturnal period, that shows
terraedidatica/> less participation in fieldwork on weekends.

TERRÆ DIDATICA 1(1):36-43, 2005


TERRÆ DIDATICA 1(1):36-43, 2005 Scortegagna, A., Negrão, O.B.M.

Introdução Classificação de trabalhos de campo


Os trabalhos de campo são de fundamental im- Compiani & Carneiro (1993:90) classificam as
portância no aprendizado de Geologia e Geogra- excursões geológicas1 , de acordo com seu papel
fia. É no campo que o aluno poderá perceber e apre- didático. Os autores definem os papéis didáticos
ender os vários aspectos que envolvem o seu estu- como “funções que determinada atividade assume
do, tanto naturais quanto sociais. dentro do processo de ensino-aprendizagem, de-
Vários autores desenvolveram trabalhos valo- cididas de maneira deliberada ou não, que exer-
rizando as atividades de campo no aprendizado do cem algum significado para o alcance de objetivos
aluno, destacando-se Brañas et al (1981), Anguita didáticos”.
& Ancochea (1981), Paschoale (1984), Spencer Os parâmetros utilizados pelos autores para essa
(1990), Compiani (1991), Brusi (1992), Compiani classificação são os seguintes:
& Carneiro (1993), Morcillo et al. (1998), Fantinel l objetivos pretendidos
(2000), entre outros. l visão de ensino presente no processo didático;
l emprego/questionamento dos modelos cien-
“As atividades de campo, eminentemente práticas e
tíficos existentes;
investigativas, devem direcionar o aluno para a aqui-
sição de uma metodologia de campo, que propicie um l método de ensino, e relação docente-aluno;
conhecimento globalizado de uma área de estudo e l lógica predominante no processo de apren-
aquisição de uma visão abrangente da Geologia, não dizagem.
devendo consistir em uma mera exposição de proces-
sos e fenômenos geológicos”. Compiani (1991:4) Esses parâmetros são por eles definidos con-
forme segue:
Morcillo et al. (1998) acredita que os trabalhos l Objetivos pretendidos: O pequeno diagra-
de campo são especiais no ensino das ciências na- ma explicativo na Figura 1 (Objetivo das Ati-
turais, algo aparentemente impossível de suprir vidades) busca sintetizar os principais objeti-
com atividades em sala de aula e no laboratório. vos das práticas de campo. Apresenta os objeti-
Paschoale (1984) destaca o campo como “ce- vos gerais dessas atividades, focalizando a par-
nário de geração, problematização e crítica do co- ticipação e o desempenho específico dos alu-
nhecimento, onde o conflito entre o real e as idéi- nos. Nas excursões, tais objetivos podem ser
as ocorre com toda a intensidade”. Sem dúvida, os explicitados conforme segue:
trabalhos de campo em Geografia e Geologia são
l Aproveitar os conhecimentos geológicos pré-
imprescindíveis, pois permitem ao aluno se
vios de cada um.
posicionar perante o saber teórico e a realidade vi-
gente, desmitificando a ciência e construindo um l Adquirir representações e/ou exemplificar
saber mais próximo do seu cotidiano. feições ou fenômenos da natureza.
Particularmente em Geografia, as práticas de l Sugerir problemas e permitir uma primeira
campo apresentam infinitas possibilidades de pes- elaboração de dúvidas e questões.
quisa e investigação, pois é na ciência geográfica l Desenvolver e exercitar habilidades.
que aspectos físicos e humanos se tornam objetos l Estruturar hipóteses, resolver problemas e
de estudo concomitantes. elaborar sínteses.
Os trabalhos de campo são fundamentais para l Desenvolver novas atitudes e valores.
o aluno observar e interpretar a região onde vive e
trabalha, produzindo seu próprio conhecimento, A influência exercida pelos objetivos, nos dife-
adquirindo competência para tornar-se um agente rentes tipos de excursão, pode ser analisada segun-
transformador em seu meio. Compiani (1991) des- do as categorias “ausente”, “fraca”, “forte” e “mui-
taca que, por meio das observações e interpreta- to forte”, compondo as associações gerais assinala-
ções da região, o aluno mostra-se capaz de formu- das na Figura 1.
lar noções da geologia local, suas interações com o
1
meio ambiente e problemas sociais. O aluno passa Compiani & Carneiro usam a expressão excursões geológicas
(EG), neste artigo substituído por trabalhos, atividades ou
a ser um investigador e, no futuro, poderá estimu- saídas de campo, sem prejuízo do significado proposto por
lar seus próprios alunos à prática da investigação. tais autores.

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Scortegagna, A., Negrão, O.B.M. TERRÆ DIDATICA 1(1):36-43, 2005

l Visão de ensino: Em geral, qualquer discussão (P/A) devem ser analisados. Assim, os méto-
sobre a produção de conhecimento, vista sob dos de ensino são caracterizados como dirigi-
perspectiva educacional, pode ser estruturada dos, semidirigidos e não-dirigidos (Brusi 1992)
a partir de dois enfoques: o informativo e o for- e a relação P/A pode ser centrada no professor,
mativo. O ensino tradicional, de modo geral, é centrada no aluno ou de equilíbrio. A condi-
mecânico e pouco eficiente quanto a propor- ção de equilíbrio entre o docente e o aluno,
cionar uma reflexão independente e autôno- embora desejável em alguns casos, sofre deslo-
ma dos alunos na aprendizagem; predomina camentos para um lado ou outro, dependendo
um trabalho informativo, ou seja, que prioriza dos objetivos didáticos pré-estabelecidos. A
a aquisição e memorização dos dados e infor- centralização do processo de ensino-aprendi-
mações. Em contrapartida, o ensino formativo zagem, desse modo, compõe uma forma váli-
é interativo e crítico, propiciando uma partici- da de classificar as excursões geológicas.
pação ativa do aluno na aprendizagem. Em
Em uma excursão dirigida, o protagonista cen-
Geologia, o ensino informativo, mais tradicio-
tral é o professor: tudo se desenrola segundo as idéias
nal, busca oferecer um repertório de informa-
deste e os alunos desempenham um papel orienta-
ções sobre conceitos (minerais, rochas, fósseis,
do, no sentido de redescobrir paulatinamente os con-
estruturas, etc.), descrições e explicações sobre
ceitos e fatos que o professor pretendia enfatizar
processos, além de pretender treinar habilida-
desde o início. Seu contraponto é a atividade não-
des e técnicas importantes para a prática cientí-
dirigida, na qual os alunos são estimulados a uma
fica do geólogo. O segundo, formativo, preocu-
investigação autônoma: são desconhecidos, a priori,
pa-se com o método de produção científica his-
os resultados que podem ser atingidos. Na condi-
toricamente contextualizada; o repertório cien-
ção de equilíbrio, o aluno é protagonista da redesco-
tífico é visto como algo em permanente cons-
berta, orientado pelo professor, mas este não define
trução a partir da interação sujeito/meio (obje-
previamente as conclusões que devam ser obtidas.
to de investigação).
l Lógica predominante no processo: O títu-
l Emprego e/ou questionamento de mode-
lo genérico de lógica da ciência engloba referen-
los científicos: O questionamento ou a pre-
ciais de conteúdo e esquemas de raciocínio,
servação dos modelos científicos existentes à
inclusive operações mentais complexas, que se
época em que os trabalhos de campo são reali-
fazem presentes no chamado método científico.
zados é um critério importante, embora mui-
Normalmente predominam operações imbuí-
tas vezes a organização de uma excursão não
das da lógica científica, nas excursões que bus-
leve isso em conta, talvez pelo limitado alcan-
cam enfatizar aspectos teóricos, habilitar o estu-
ce dos objetivos das atividades.
dante ao uso de certas técnicas, transmitir con-
Para uma excursão, a sua independência face aos ceitos ou simplesmente ilustrar feições citadas
modelos existentes significa que estes não interfe- em salas de aula.
rem no processo didático pretendido. Outras excur-
A lógica do aprendiz pode se constituir em algo
sões limitam-se a recuperá-los, transmiti-los e valo-
muito diverso, já que tem origem na postura natu-
rizá-los, de modo que estes são aceitos e preservados,
ral do estudante frente a situações inéditas. É admi-
em graus variáveis. Finalmente, existem excursões
tida a aplicação de uma forma de raciocínio pró-
em que os modelos são aceitos, mas questionados
pria, sem censurar eventuais imperfeições que a ló-
durante o processo de aprendizagem, à medida que
gica científica poderia identificar. Nesse caso, ou-
surgem problemas e dúvidas que remetem para no-
tros fatores interferem na elaboração do conheci-
vas e novas investigações bibliográficas, de campo
mento, e o alcance das metas didáticas dependerá
ou de laboratório. O resultado final do processo po-
da influência dos demais fatores acima referidos.
de ser tanto a reformulação como a própria aceitação
A partir destes parâmetros, Compiani & Car-
dos conteúdos em foco, porém num outro nível
neiro (1993) classificam as excursões geológicas de
de compreensão das teorias e modelos existentes.
acordo com seu papel didático em atividades de
l Método de ensino e relação docente-alu- campo Ilustrativas, Indutivas, Motivadoras, Trei-
no: Para cada tipo de excursão, os métodos de nadoras e Investigativas. Os autores definem em
ensino e a interdependência professor-aluno detalhe cada uma delas.

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TERRÆ DIDATICA 1(1):36-43, 2005 Scortegagna, A., Negrão, O.B.M.

Fonte: Compiani & Carneiro (1993) com acréscimos do autor


CATEGORIA OBJETIVO DAS MODELOS RELAÇÃO
VISÃO DE LÓGICA
CIENTÍFICOS DE ENSINO/
PAPEL ATIVIDADES ENSINO EXISTENTES APRENDIZAGEM PREDOMINANTE
Professor
São aceitos e
Ilustrativa Informativa é o centro Da ciência
preservados
Ensino dirigido

Aluno é o centro
Formativa/ São aceitos e Da ciência e
Indutiva Ensino dirigido/
Informativa preservados do aprendiz
semi-dirigido

São aceitos e Aluno é o centro


Motivadora Formativa preservados, em Ensino Do aprendiz
grau variável não-dirigido

Equilíbrio Da ciência e
Formativa/ São aceitos e
Treinadora Ensino às vezes
Informativa preservados
semi-dirigido do aprendiz

Aluno é o centro
São aceitos, mas Da ciência e
Investigativa Formativa Ensino
questionados do aprendiz
não-dirigido

Aluno é o centro
São aceitos, mas Da ciência e
Autônoma Formativa Ensino
questionados do aprendiz
não-dirigido

INFLUÊNCIA
OBJETIVOS DAS ATIVIDADES
DOS OBJETIVOS

Aproveitar os Reconhecer feições


conhecimentos e fenômenos Ausente
geológicos prévios da natureza

Elaborar dúvidas
Desenvolver e Fraca
exercitar
e questões
habilidades
Forte
Estruturar hipóteses/ Desenvolver
sínteses e criar atitudes e
conhecimento valores Muito
Forte

Figura 1 – Objetivos de ensino/aprendizagem nas excursões geológicas

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Scortegagna, A., Negrão, O.B.M. TERRÆ DIDATICA 1(1):36-43, 2005

l Atividade de Campo Ilustrativa: é conside- estruturar a seqüência de observação e interpre-


rada a mais tradicional das saídas de campo, pois tação; decidir as estratégias para validá-las, inclu-
reafirma o conhecimento como produto acaba- sive avaliando a necessidade de recorrer à litera-
do. Serve para mostrar ou reforçar os concei- tura; discutir entre si as reflexões e conclusões.
tos já vistos em sala de aula. É centrada no pro- Na atividade de campo investigativa o papel do
fessor que se utiliza da lógica da ciência para re- professor é o de um orientador que resolve as dú-
forçar o conteúdo no campo. O aluno faz o pa- vidas dos alunos quando solicitado, além de incen-
pel do espectador com a caderneta de campo tivá-los, dando o suporte necessário para que os
repleta de anotações repassadas pelo professor. mesmos não se dispersem no assunto a ser traba-
l Atividade de Campo Indutiva: este tipo de lhado. O professor pode propor um problema para
saída de campo visa “guiar seqüencialmente os ser solucionado o que direciona a atenção dos alu-
processos de observação e interpretação, para nos para o conteúdo. A saída é centrada no aluno e
que os alunos resolvam um problema dado”. valoriza seus conhecimentos prévios, não se im-
O papel do professor é de conduzir os alunos portando muito com a lógica da ciência, pois aqui
ou fazer com que eles sigam um determinado o professor considera o aluno capaz de desenvol-
roteiro de atividades, geralmente acompanha- ver habilidades no campo teórico.
do por questionário envolvendo questões teó- Newerla (1997) concebe a saída “Treinadora”
ricas com conceitos previamente estabelecidos. como uma variante do trabalho de campo Indutivo,
O ensino é dirigido, podendo chegar a semidi- ao assinalar que são raras as atividades de campo
rigido, mas é delimitado pelo professor que dedicadas exclusivamente ao treino e ao exercício
define o ritmo dos trabalhos. Segundo os au- de habilidades. Não obstante, nos cursos de Geo-
tores “o processo de aprendizagem valoriza os grafia há algumas saídas exclusivamente treinado-
métodos científicos e o raciocínio lógico dos ras, como por exemplo nas disciplinas de Carto-
alunos, sem preocupar-se com os conhecimen- grafia e Topografia, em que os alunos dirigem-se
tos geológicos prévios”. ao campo exclusivamente para coletar dados a se-
rem, posteriormente, trabalhados em sala de aula.
l Atividade de Campo Motivadora: Este tipo
Morcillo et al. (1998) levanta questões sobre as
de saída de campo tem como objetivo desper-
características distintivas do trabalho de campo, no
tar o interesse dos alunos para um dado pro-
ensino das ciências naturais, e sobre a importância
blema ou aspecto a ser estudado. Este tipo de
e necessidade do campo. Afirma que essas ques-
trabalho é, geralmente, realizado com alunos
tões são pouco discutidas e que as propostas de tra-
desprovidos de conhecimentos geológicos an-
balho de campo dos professores estão muito liga-
teriores, porque valorizam-se aspectos mais ge-
das à sua própria experiência autodidata.
néricos, como a paisagem, o senso comum e a
Propõe-se aqui outro tipo de trabalho de cam-
afetividade com o meio. O objetivo é despertar
po, a saída de campo autônoma.
a curiosidade e o interesse do aluno para a disci-
Antes de descrever a saída autônoma, cabe res-
plina ou curso. A saída de campo é centrada no
saltar um tipo de atividade de campo comum nos
aluno, valorizando a experiência de cada um e
cursos de Geografia, não incluída na classificação
os seus questionamentos.
porque não apresenta objetivos educacionais cla-
l Atividade de Campo Treinadora: Este tipo ros. São excursões cujo principal objetivo é conhe-
de saída de campo visa treinar habilidades, ge- cer uma determinada região, possivelmente ainda
ralmente com o uso de aparelhos, instrumen- não visitada pela maioria dos alunos e professores.
tos ou aparatos científicos. Exige conhecimen- Não há o comprometimento dos professores em
tos prévios por parte do aluno que fará anota- acompanhar os alunos, sendo, muitas vezes, optativa
ções, medições ou coleta de amostras. As ativi- a participação destes. O trabalho de campo, neste
dades são direcionadas pelo professor, caben- caso, fica em segundo plano. Este tipo de saída apre-
do ao aluno seguir as recomendações e treinar senta um aspecto motivador, que não é, porém, o
a técnica ou procedimento. principal objetivo do professor, uma vez que tais
l Atividade de Campo Investigativa: Esse ti- excursões realizam-se geralmente no final do ano
po de saída de campo propicia ao aluno resol- letivo, tendo caráter finalístico. Scortegagna (2001)
ver determinados problemas no campo. Os alu- constatou este tipo de saída de campo em uma ins-
nos podem elaborar hipóteses a ser pesquisadas; tituição de ensino no Estado do Paraná.

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TERRÆ DIDATICA 1(1):36-43, 2005 Scortegagna, A., Negrão, O.B.M.

Saída de campo autônoma indigentes que os utilizavam para edificar suas mo-
radias, gerando grave problema urbano. Além dis-
Esta saída objetiva despertar no aluno o seu es-
so, provocavam sério problema ambiental, pois es-
pírito investigativo e prepará-lo para a sua realida-
tes locais são áreas de proteção aos mananciais, o
de profissional futura. É realizada, preferencialmen-
que evidenciou, também, falha do poder público.
te, na região onde os alunos se encontram, em áreas
Em nenhum momento houve hesitação dos alu-
escolhidas por eles e sem a presença do professor.
nos em analisar tanto o bem mineral em explota-
A investigação é constante, cabendo ao professor o
ção quanto a ação antrópica e suas conseqüências.
papel de orientador. Os alunos retornam ao cam-
Percebeu-se que a análise, não só do bem mineral
po quantas vezes forem necessárias. A relação pro-
estudado, mas também do local de extração e a
fessor-aluno e aluno-aluno é ampliada pelas con-
observação dos problemas ambientais gerados é que
tínuas discussões e trocas de experiências.
Compiani (1991:14) considera que o campo permitiram aos alunos a realização de um trabalho
pode ser um fio condutor para uma disciplina, pro- enriquecedor. Assim, a saída ao campo e a pesquisa
piciando, a partir de uma área de estudo, o enten- de um recurso mineral constituíram o fio condu-
dimento dos principais processos e conceitos desta tor do trabalho.
e o melhor desenvolvimento das peculiaridades da Seguindo os parâmetros adotados por Com-
prática científica geológica, e dos respectivos pro- piani & Carneiro (1993) e buscando-se enquadrá-
cedimentos mentais. O autor considera que “o la nesta classificação, observa-se que a saída de cam-
campo pode ser gerador de problemas, isto é, uma po autônoma, de acordo com os objetivos pretendi-
ótima situação de ensino problematizadora e, tam- dos, apresenta como características marcantes o
bém, pode ser agente integrador da Geologia e ou- aproveitamento dos conhecimentos geológicos
tras Ciências na construção de uma visão abran- prévios do aluno; a elaboração de dúvidas e ques-
gente de natureza”. tões; a estruturação de hipóteses e criação de co-
Como exemplo desse processo gerador de pro- nhecimento; reconhecimento de feições e fenôme-
blemas, pode-se relatar uma das atividades de cam- nos da natureza, além de desenvolvimento e exercí-
po autônomas realizadas por um dos autores na disci- cio de habilidades.
plina de Geologia Introdutória, em que atua como A visão de ensino observada é a formativa, pois
docente2 . O trabalho é realizado no curso de Geo- permite ao aluno interagir com o meio e vislum-
grafia, no 1o. ano de Licenciatura Plena. Os alunos brar a possibilidade de aquisição de novos conheci-
são divididos em grupos, cabendo a cada grupo o mentos. Com referência ao emprego e/ou questiona-
estudo de um bem mineral em processo de explo- mento de modelos científicos, percebe-se que estes não
tação na região metropolitana de Curitiba3 . Esse interferem no processo didático pretendido, pois
estudo exige a realização de trabalhos de campo, não há controle por parte do professor; assim os
durante os quais os alunos percebem vários aspec- alunos podem seguí-los ou questioná-los. O méto-
tos, desde os ligados exclusivamente ao bem mine- do de ensino pode ser caracterizado como não-diri-
ral escolhido até aqueles relacionados ao impacto gido, sendo o aluno o centro do processo, pois é
ambiental, bem como a influência sobre as popu- quem irá resolver problemas, definindo, ele mes-
lações circunvizinhas. Um exemplo desta ativida- mo, os passos da investigação.
de refere-se à equipe que, em 1999, pesquisou ex- O professor poderá orientá-lo ao longo do pro-
tração de areia. cesso, quando há retorno ao campo, ou no final,
Ao visitar alguns locais de extração, a equipe em sala de aula, quando o aluno perceberá os erros
observou que, após a exaustão de alguns depósitos, e acertos de seu trabalho, sob a ótica científica.
estes eram abandonados pelas empresas concessi- Quanto à lógica predominante no processo, perce-
onárias e, posteriormente, ocupados por grupos de be-se o predomínio da lógica do aprendiz, pois
“tem origem na postura natural do estudante fren-
te a situações inéditas” Compiani & Carneiro
2 Adalberto Scortegagna (1993:94).
3 Esta proposta de atividade teve início em 1998 no curso de A saída de campo autônoma destaca-se pelo fato
Especialização em Ensino de Geociências no Instituto de do aluno ir ao campo sem a presença do professor,
geociências da UNICAMP. Desde então este trabalho é reali-
zado com os alunos da disciplina de Geologia Introdutória,
trazendo suas anotações, amostras e imagens que
no curso de Geografia da FACIAUSO. serão trabalhadas em sala de aula. Além disso, apre-

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Scortegagna, A., Negrão, O.B.M. TERRÆ DIDATICA 1(1):36-43, 2005

senta, em relação à saída do tipo investigativa, maior definir qual atividade de campo melhor se adapta
influência na elaboração de dúvidas e questões e no de- as suas condições. Observa-se, porém, a necessi-
senvolvimento e exercício de habilidades4 . dade de repensar o papel do professor e do aluno
A partir do conjunto de informações trazidas nas atividades práticas. Scortegagna (2001) cons-
pelos alunos, as discussões se tornam enriquecidas tatou a preocupação dos professores da disciplina
e eles percebem que o seu conhecimento prévio, de Geologia Introdutória, nos cursos de Geografia
valorizado pelo professor, é utilizado na constru- no Estado do Paraná, em preservar o aluno do im-
ção da própria prática científica. pacto do novo, mediante distribuição prévia de ro-
teiros de campo detalhados. O autor observou tam-
“[...] é fundamental para o estudante essa noção de bém que a maioria dos professores entrevistados
conhecimento como um construto da prática científica, preocupava-se em reproduzir no campo o conteú-
do ir e vir à fonte de informações, de testar, reformular, do visto em sala de aula, limitando assim as pos-
elaborar e adquirir a noção dos limites da produção sibilidades dos alunos construírem seus próprios
científica; tudo isso contribui para desmitificar o co- conhecimentos.
nhecimento científico e o cientista”. (Compiani
A categoria de campo autônoma proposta neste
1991:13)
artigo teve origem em várias experiências, entre elas
o trabalho realizado pelos autores no Curso de Es-
A saída de campo autônoma não pode servir
pecialização em Ensino de Geociências da Uni-
como pretexto para o professor se ausentar do cam-
camp em 1998, além da necessidade de criar alter-
po. Os trabalhos de campo com a presença e ori-
nativas de campo para turmas noturnas, com gran-
entação do professor são importantes, pois o con-
des dificuldades em acompanhar as saídas nos fi-
tato direto com o objeto a ser investigado e os de-
nais de semana. Em acréscimo a um trabalho
safios que surgem, ao longo do trabalho, são enri-
investigativo, esta atividade permite aos alunos ela-
quecidos com sua presença.
borar dúvidas e questões, conferindo-lhes maior
A saída autônoma tem por objetivo promover
independência no campo.
constante investigação ao longo do curso, permitin-
do que os alunos, a partir dos temas que vão sendo
abordados em sala de aula, tenham a possibilidade Referências
de fazer a inter-relação entre a teoria e sua aplica-
ção no cotidiano de forma mais independente. Anguita, F. & Ancochea, E. 1981. Práticas de campo:
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TERRÆ DIDATICA 1(1):36-43, 2005 Scortegagna, A., Negrão, O.B.M.

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