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Alexandria


Primavera,
Verão,
Outono,
Inverno.
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Alexandria – Primavera, Verão, Outono, Inverno.
Copyright© Diego Aurélio Cotrim Ramires
Todos os Direitos Reservados
diego.ramires.usp@gmail.com

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SUMÁRIO
Alexandria
013 Alexandria
Canto I
017 Régia Lei
Festa da Colheita
023 Oração
Primavera
029 Primavera
030 Eco
031 Os Deveres Dos Amantes
033 Artemisa
034 Orion
035 Ambrosia
036 Monção
037 Oceano
038 Fluido
039 Esmeralda
040 Brave Prince
041 Cancioneiro
042 Quem
043 Nômade
044 Fauno
045 A Berengário
046 Anseio
047 Enlace
048 Sentidos
049 Don Quijote
Verão
053 Alvorada
054 Horizonte
055 Vôo
056 Amigo
057 Magno
058 Duplo
059 Morfeu
060 Eros
061 Venus
062 Espelho de Minerva
063 Morgana
064 Receita
065 Grata, Electra, Latina

5
066 Daniel e Prometeu
067 Carpe
068 Nightsight
069 Fantasia
070 Pandora
071 Derme
072 Lamentação Ingênua
073 Ilusionismo Prosaico
074 Hollow Abyss
Outono
079 Névoa e Fuligem
080 Humanicídio
081 Apoplexia
082 Acrópole
083 Diana e Apolo
084 Ícaro
085 A Queda
086 Epíteto
087 Alcova
088 Silêncio
089 Lilly Pond
090 Shine of Dawning Glory
091 Silêncio
092 Delusion
093 Lume
094 Charco
096 Aurora
097 O Paço
099 Bolsão de Apostas
100 Parole
101 O Menestrel
102 Tango
103 Retrato
104 Mirror
105 Ribombo
106 Fera Distância
107 Discurso ao Pai
108 Tão Só
109 Socorro
110 O Ébrio
111 Transparência
112 Quijote
113 Limbo

6
114 Ocaso
116 Harmonia
117 Medéia
118 Selene e Apolo
119 Angústia
120 N`est Pas
121 Renad, Adde Luc
122 Slapstick Romance
123 Willows Run
124 Repouso
125 Vendese
Inverno
129 The Hero
130 Selva de Pedra
131 A Longa Marcha
133 Circo do Sol
135 A Garota dos Fósforos
137 Brutus
138 Matrimônio
139 Confessionário
141 João
143 Pandora
144 Oráculo
145 Afrodisíaco
146 A Theos
147 Cânula
148 A Meu Filho
150 Ao Natimorto
151 Morte de Cupido
152 Morte de Amor
153 Hermes
154 Vício
155 Sangue
156 Cruz
158 Sonata em Ré Menor
159 Pausa
160 Água
161 Respira
163 Banco Central
165 A Máquina
167 Metais
168 Pecúlio
169 Theatro

7
171 Inconsequência
172 Animália
173 Final Irresoluto
174 Mulher Cretina
175 Lagar
176 Fruto
177 Colheita
178 Resígnio
179 Coerência
180 Confinamento
181 Eixo
182 Filosofia
183 Elipse
184 Tríade
185 Chronos
186 Perséfone
187 Cérbero
188 Farewell
189 Final Repouso Sobre o Descampado

8
Ao outro Eu meu
, ainda perdido em meio a este vasto
mundo.

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10
Alexandria

11

guó

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Alexandria

Invejo os muros de teu porto, Alexandria!,


Teus seculares céus de Capital antiga,
Tua etérea chama à vista amiga e inimiga,
A alumiar os grandes mares noite e dia!

Invejo eu o secular fulgor da Pira,


O brilho fúlgido que emana de teus olhos...
O canto doutros tempos glórios e inglórios,
Louvado há tempos por teu verso, prosa e lira!

Porém amanheceste triste, Alexandria!...


Ao triste e bárbaro incêndio criminoso,
Ao mar, precipitouse então tua grande tocha!

Com ele, consumiu tua grã sabedoria...


E, sobre o incerto e branco solo arenoso,
Prostrouse eterna tua ruína pétrea e róchea!

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Canto I

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7


yáo

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Régia Lei

Estão escritas ao Destino as Régias Leis que regem Tudo:


Onde reside o acalanto há de por mais ser perdurado;
Onde habita o que é sincero, háde ser ele mais louvado;
Onde há Ordem há portanto de quedarse ao Caos o Mundo.

Migramse ao ar à Primavera as duas mais perfeitas aves


A planarem, tãoperfeitas, ao acaso aos horizontes:
Teem alvas suas planas plumas, estão elas tão distantes;
Há brilho às suas penugens, a refletir raios solares.

Eis que planaram, solitárias, pelos ares deste Mundo,


Unas iamse aos penhascos rumo ao pleno azul profundo;
São distantes, já por anos rumo à vaga, não seguiam
Tinham não uma à outra, pois que 'inda não se conheciam.

Outro pássaro, porém, ao que então havia ao ninho,


Ríspido Cuco, vil, esguio, vingador e reprovável,
Interte, egoísta, arrogante, traidor, ingrato e inapto,
Noutros tempos tudo o fora; está há muito arrependido.

Hoje há ao peito a vergonha e humilhação,


O horror por sua inconsequente traição!

Ai!, como queima e a mim inflama toda a Dor de meu passado!


Ai!, porquanto seguem as feridas sem seu sangue estancado!

Ah! Cuco e andorinhas, conhecera ele a elas


Rumando em tempos onde a Paz não existia,
Ri!, lá onde ao Cuco nada havia de errado;
Um certo dia avistara ele pássaro mui raro
Disse ele "Adeus!" e se apartou do Plumas Belas
A planar rumo ao Acaso À Vergonha! Ao Errado!

Caía ao Cuco ao pleno peito a agonia:


Ah!, puro Mal, o pleno fruto da Libido,
Reles paixão carnal em forma de amor proibido.
Vãs foram as dissuasões e os conselhos,
Ao que estava o Cuco cego por furor;
Logrou a si e àquele que por tanto amava
Ha!, parecia que o Cuco disto não lembrava:
Ouviu apenas sua cobiça vã e plena de calor.

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Vive ao Vil tudo que logo ao Vil habita,
Infâmia, cobiça, avareza ou presunção;
Largouse ao livrevoo e, como unção,
Sobre o corpo traz em si tal mácula maldita,
Oh!, dia a dia por suas veias emplumadas
Nutrem, fervem, incham suas veias rubras
Bestiais lembrares pois dos tempos de penumbras:
A rever à mente as faltas vis e desgraçadas!

Riase ele quando então noutras medidas,


Chorava então nos outros tempos em seguida;
Inflama ao Cuco hoje sua vergonhosa vida.

Ai!, como queima e a mim inflama toda a Dor em meu presente!


Ai!, porquanto vãose as feridas a verter sangue ardente!

Daqueles tempos apartado de seu ninho,


Imerso ao acaso avistara em acaso puro
Ele o Cuco a outr'Andorinha em seu rumo
Gracioso e, ao longe, ainda sem destino.

O abutre Cuco, vil e traiçoeiro,


Ainda ao Acaso antes conhecera
Um'outra ave em plumas mais doiradas,
Roto porém seu interior, cheio de nada.

E alimentara ele a ela com esperança:


Lia ele aos pensamentos não amála,
Inda porém mantinha ele a boca cala;
Olhoua fundo aos olhos, disse nada.

Continha então o Cuco ao peito dois novos sentires


Onde cada um por si o é tão diferente e igual
Tal gêmeos em seu cerne variado e natural
Rumando um ao chão e o outro, ao arcoíris:

Imaginava então o Cuco do ocaso ao poente


Milhares de pensares desiguais e divergentes.
Ruiuse o Tempo sobre a Vida, como sempre o empreende:
Amigo é o Tempo do Acaso, Amor, Paixão e Agrura;
Mirou perder o Cuco as Andorinhas alvas, doces,
Imaginouse então ao auge da plena Loucura.

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Repleto em sua vergonha, rumo a seu ninho foise
E implorou de volta o amor à sua candura.

Silente, lá se ia ao longe a outra Andorinha à Lua.

Pois ascendeu ela aos Céus e, por benesse, alumiava


Ao seu reflexo às penas pois a luz da Plena Lua;
Ia ela, a Andorinha Branca, graciosa e indômita
Xântica ao Sol rumo à tãolongínqua Andrômeda.

Ali, onde por sempre desejara ela estar,


Oh!, quedouse para talvez nunca mais voltar

Ao que retornou a Ave ao Mundo e sobre o manto de suas plumas


Moravam todas as esplêndidas poeiras de estrelas em milhares;
Ouro e prata e outros tantos reluziam como véu às brumas.
Resultouse ela Graciosa ao Lar, onde então selaram pazes.

Ai!, como queima e me inflama não o saber eu do Futuro!


Ai!, porquanto estão as andorinhas em seu voo belo e puro!

Estão escritas ao Destino as Régias Leis que regem Tudo:


Onde reside o acalanto há de por mais ser perdurado;
Onde habita o que é sincero, háde ser ele mais louvado;
Onde há Ordem há portanto de quedarse ao Caos o Mundo.

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20
Oração

21

dǎo

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Oração

Amém bendigo eu aos mais diversos padres,


Bispos, arcebispos, pastores, maomés;
Aleluia por rezarem às santas Sés
Em benefício de comadres e compadres.

Misericordioso, ouví a esta prece


De quem, aqui na Terra, nunca vos esquece.

Amém a todos santos, pontífices Papas,


Representantes unos do Supremo Altar;
Aleluia, me vendei indulto e lugar
Nos mais altos redutos e santas escarpas.

Misericordioso, ouví os prantos mudos


De quem, aqui na Terra, tem os pés desnudos.

Amém às benzedeiras, aos candombleístas,


Espíritas e outros, de fés tão diversas;
Aleluia aos holocaustos tantos, em festas,
Que fazem, em Teu nome, os povos divinistas.

Misericordioso, ouví a este rogo


De quem, aqui na Terra, prostrase no fogo.

Amém ao homempúblico, ao ser político,


Munido de canetas e salvoscondutos;
Aleluia e glória por termos prostitutos
Que matam por dinheiro e ordenam por rabiscos.

Misericordioso, ouví voz uniforme


De quem, aqui na Terra, mata em teu nome.

Amém aos rígidos preceitos de moral,


Tradição, Família e Propriedade;
Aleluia, e vida eterna à iniquidade,
De nossas bases o conceito principal.

Misericordioso, ouví ao nosso apelo


De quem, aqui na Terra, é lobo em cordeiro.

Por fim, meu Deus, amaldiçoa ao povo pobre,

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Que nos sustenta com dourado e vil metal;
Bem sei que o castigo é dom natural
Deste Deus bíblico que ao rico mais socorre.

Misericordioso, ouví o rogo meu


De quem, aqui na Terra, é rico e mais: ateu.

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Primavera

27


chūn tiān

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Primavera

Ao anunicarse, vindoura primavera


Aconchegada ao dourar ensolarante,
Faz sim brotar por entre campos verdejantes
Mais rica flora a qual, sem mais, és tu quem espera.

Ao lupanar de novas eras eu saludo,


Enebriado incontinenti ao brisaneio
Em maravilhas, namorando ao devaneio
De um carnal nirvana eterno, irresoluto.

Pois sim, que cá eu já dissera o pensamento


Infinitesimal perante o julgamento;
À jovem à qual dedico toda esta flor.

Possui o tempo um descomunal tormento


Avizinhado a somente um desejo:
Embriagarme ante às rosas deste amor!...

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Eco

À têz repousa a côr do pálido rosáceo


Como botão ainda em flôr ao solo lácio:
Narciso então do lago às margens lá ressona
Tal como o mais divino fruto de Pomona!

Enamorou-se dele Eco; adentro à mata,


Sozinha imprecava à musa Sorte: "Ingrata!...
Amor jamais tocara o busto de Narciso
- Tampouco o meu, que ao ventre aguarda o teu sorriso!...

Ainda nascerá alguém qual o seduza?


Sussurrarei eternamente aquele nome...
Do seio meu aplaca a insaciável fome!"

Compadeceu-se dela a benvindoura musa:


Senão dos ventos segue a saciar sua fome
- Vagante à Eternidade a ecoar seu nome!

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Os Deveres dos Amantes
Cantiga tradicional europeia
Cânone

HOMEM

Podes fazerme uma camisa de cambraia


(Salsa, sálvia, alecrim, e tomilho)
Sem costura nem bordado algum?
(E então serás meu verdadeiro amor.)

Podes lavála em um distante poço,


(Salsa, sálvia, alecrim, e tomilho,)
De onde nunca brotou água, nem chovera?
(E então serás meu verdadeiro amor.)

Podes secála em distante espinheiro


(Salsa, sálvia, alecrim, e tomilho,)
Que nunca floresceu desde o nascer de Adão?
(E então serás meu verdadeiro amor.)

MULHER

Perguntasteme agora três questões,


(Salsa, sálvia, alecrim, e tomilho.)
Espero cá que tu respondas mesmo tanto,
(E então serás meu verdadeiro amor.)

Podes encontrar a mim acre de terra


(Salsa, sálvia, alecrim, e tomilho.)
Entre a água salgada e a costa do mar?
(E então serás meu verdadeiro amor.)

Podes arálo com cornos de carneiro


(Salsa, sálvia, alecrim, e tomilho.)
E com pimenta em grão, apenas, semeálo?
(E então serás meu verdadeiro amor.)

Podes ceifálo com foice feita em couro


(Salsa, sálvia, alecrim, e tomilho.)
E, bemunidos por pena de pavão, atálos?
(E então serás meu verdadeiro amor.)

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Tãologo tenhas por completo teu trabalho,
(Salsa, sálvia, alecrim, e tomilho.)
Vem então a mim por tua camisa de cambraia
(E então serás meu verdadeiro amor.)

32
Artemisa

Inumeráveis são os Sóis do Firmamento;


Imensuráveis são Seus corpos cintilantes...
- Inestimável Teu calor, tal como ungüento
Indispensável ao bornal dos viajantes!

Emigratório, vai-se o Pássaro Vermelho


Em trajetória vacilante ao horizonte...
- Indecifrável é o Teu olhar selênio,
Inenarrável é o sorriso de Tua fronte!

Inconsolável, rogo então à Artemisa:


- Incontestável é o que sinto junto ao peito;
Insuportável é a solidão sombria...

A Helenística Donzela, em arte à mira,


Pousou o mítico animal frente ao meu leito...
- Fulgurantíssimo, me aquece a alma fria!

33
Orion

Dentre a penumbra em meio ao Érebo maldito


Vislumbra o Herói à terra em seio ao Infinito...
Tênue é o halo em meio ao negro Firmamento
Às musas concedendo cândido alimento!

Cercado à umbra, ao Caçador é inaudito


Local por qual por Artemisa é interdito
A Orion, o Caçador: desde a Pangeia
Ao antro antigo onde residem as Três Greias!...

- Eterna Deusa em abundância eterna em graça!,


Comigo caça em esta noite tão escura...
Comigo deita em leito aos Céus às vestes nua!

Sorriu-lhe a Deusa e, por amor ou por desgraça,


Alçou três flechas quais aos Céus os dois içaram
- De onde então jamais dos Astros regressaram!

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Ambrosia

Como em vôo, a planarem do alto Elíseo,


Circundam Gólgota, Urais e os Normandios
Lendários pássaros em vôo belo e esguio,
A divagar por dentre o morno vento alíseo.

Renunciar o que há pouco é já distante,


Ao que tão doce mel às bocas flui ambrósio
E enfim precipitarse em queda ao solo ardósio
É atirarse em rota vaga, incerta e errante!

É, antes, demonstrar que, deste novo afeto,


Há pouco ou muito ainda brotará aquilo
Que em toda Vida sua vida anseia e espera...

...encerra ao peito em vôo ainda o que, desperto,


Ao frio solo pousará – e, ao sentilo,
Jamais desejará fugir de sua terra!

35
Monção

Retorna tudo um certo dia a seu caminho,


À sua senda inabalável e certeira;
Retorna toda ave logo a seu ninho,
Ao irse aos ares pela rota verdadeira.

Regressa todo animal, desde o imperfeito


Ao mais recente e ao mais evoluído,
Senão ao berço, então ao derradeiro leito
A encontrar a si somente ali abrigo!...

Antigo é o desejo de, por terra ou ares,


Seja acima ou em fundo a densos vales,
Seja a singrar e a sangrar por amplos mares:

Por esta vida prosseguirmos junto aos pares,


E juntos superarmos nós todos os males
E ao coração de outrém tecermos nossos lares!...

36
Oceano

Perene segue quem insiste ao que, fortuito,


Guardara desde os tenros anos junto ao peito;
Consigo avista além dos Tempos puro alento,
Em si e a si havendo não outro intuito.

Lançouse à sorte tudo que está já feito


Em seu compasso e cadência a passo lento;
Oscila o pêndulo das Eras já há muito
Cintilam pérolas ao fundo do azul leito!...

Navega o viajante às águas ano a ano;


À via singra ele por demais cansado,
E à vista avista a nova vida a virse perto.

Sereno, ser e mar se vão ao Oceano;


Senão saudoso é como assisto meu passado,
Como se aos sonhos já estivesse eu desperto!...

37
Fluido

Fluentes, seguem pelo sulco logo à relva


Por estes longos anos todos esculpido,
Veios do fluido mais vital ao ser mais vivo,
Unguento pronto a sanar em plena selva;

É transparente e frio o líquido: evoca


Em paladar antigo gosto; antepassado
É como o sinto aos quentes lábios junto à boca
E ao paladar 'inda pertence ao passado!...

Cadente, singra em contraste ao negro manto


A orbe celeste, desprendida de seu cerne,
Mui solitária, a entoar surda canção;

Ao que tocou o fluido ao ventre, por encanto


Fluiume novamente o quente sangue à carne
'Inda resiste vivo o pétreo coração!...

38
Esmeralda

Ri, que de um riso vale


A vida; já que, curta sendo
Ela, não vale a pena se só
Esmera o ouro derribado.

Jade, berilo que


Minero, ferro bruto,
De carvão em brasa:
Daime o fogo e vento em asa!

Ai, que agora só me fico,


Já que foste, em desafio,
Ao sono, fel desmargurado.

Dou o mais letal dos aglutínios


Em mortal golpe desferido:
Amarte, oh cristal tão raro!...

39
Brave Prince

Quite afar from me town it is told there to be


Such a nameless beast I`ve had never to see:
Bold warriors, strong warriors are all panicstricken;
Theyr souls are so even out of them ridden.
Is it said that it guards a fantastic treasure
Beyound all of dream and of measure.
But for me, alas!, had I just heard of such beast
Knew I then it was fated to its merciless doom;
Afar at its heart's beats would it live, but least
Ought to battle it also a nameless groom.
Rode I just alone to the ominous beast's lair
Having just my blind boldness against all despair:
Grew it its nest where there had quite no mould,
In a place of pure silence and dire, blue cold.
Where hidest thou now, oh!, such devious devil?
By me hands willst thou wither, o! Ominous feeble!
As for then went on battle, nay loser, nay winner,
And for day and for night, from dew till the dusk;
All me pack of provisions grew evenly meager,
And, by then, bashed mine weapon with its very tusk.
Despair and sore doom went as it show`d its jaws;
A shadow arose then behind its huge claws.
Who is he, Nameless Shadow?, cry loud over meadows
All sapient childlings for eons and eons.
Deserves nay but Hell, o! such heathen!
Comst thy help but from Almighty Heaven!
At glance came that shadow nearby:
Pure trance enveloped mine core.
Found me then a great man an ally
Since forth yore of pure vigour and lore.
Fell I then over knees and as vow
Tore I mine only sleeve, of late white.
Told I then mine origin past site,
Felt I thine burning eyes over snow.
Late be nay! Late be nay! O brave prince!
Thine be later mine heart ever since!

40
Cancioneiro

O sol, que no horizonte é poente


Crepúsculo de anoitecer, esbaldar,
É a lua alta, pálida luzente:
Vão assim, junto a mim, sem teu amar.

Ah!, cruel... és a cobiça de tantos...


Há tantos homens que a ti declaram...
Cara dama, desmancho aqui em prantos
Que, de reais que são, nunca cessaram!...

Brindo eu a ti por tantos que se foram,


Pois viram que o teu amor é cego:
És tu tão rara que aos olhos meus renego.

Amor meu cego, que a ti somente velo


Tolo que sou, pois que amo a ti enfim.
O meu amor por ti verá jamais seu fim!

41
Quem

Responde quem por sentimentos tantos,


Por verbos ‘inda não sentenciados,
Senão Cupido – o qual, imerso em prantos,
Suspira pelo que já foi findado?

Oculta à mente quem Cupido, afoito,


Aos devaneios pleno, imerso e crasso,
A divagar ser seu sentir já morto,
Agora uno a Amor, tal ferro ao aço?

Desfaça Amor o seu mais ledo engano!


Desminta Ele, Anteros, o que em anos
Desculpa alguma justifica o norte.

Desmente a Lua, Amor!, e faz da Sorte


À mente, consequente, seus mil planos
Somente diz a Ele que vos amo!

42
Nômade

Nômade sem rumo, sem destino,


Afixado em campos, foge ao prumo;
Incerto é teu caminho, é teu rumo
Do qual apenas tem o Céu atino!

Quê?, morrer em leito e em gôzo pleno


Às veredas a seguir te invejo,
Oh!, imortal Ser!, pois que antevejo
Seguro, calmo porto em mar ameno!

Fulgura doce, pleno, em campo elíseo,


A vagar, sem rumo certo, ao vento
Enevoado e intenso, apenas;

Deixa eu soprar em ti tal vento alísio,


A esquecer as chagas, torpe Tempo!,
E a agitarte, aos ares, tuas melenas.

43
Fauno

É incerto o fardo que às costas leva o homem;


Incerto o é também seu cerne, amalgamado
Há anos pelo ciclo há muito condenado;
São grandes fardos que à mente pois consomem.

Certo é porém o coração do Etéreo Fauno:


Em si, Virtude o tem aos altos Céus içado
E, por sua música, faz como enfeitiçado
O que escuta o som de seu sério diaulo.

Oh!, Etéreo Fauno!, deixas tudo tão mais claro!


Pelas veredas que, há muito, cego o sigo
Sem nunca, nunca antes tervos em juízo!

Oh, Etéreo Fauno!, leva a mim, ao filho áureo!


Ao doce Elíseo segue tu sem mais comigo!
Eterno Fauno, leva a nós ao Paraíso!

44
A Berengário
Dedicado a Umberto Eco

A ajoelharse sobre o genuflexório,


Sincero em casto voto, brando e puro,
Medita o franciscano, em seu pesar inglório,
Sobre o pesar das almas deste e do outro mundo.

Silente, expia. Por murmúrios de seus lábios,


Recita os dísticos de sua pétrea tábula...
Tenta esquecerse desta sua férrea mácula
A de nutrir, dentro de si, desejos laivos...

Escravo é o Homem, não importa o credo,


À mor volúpia, à qual se chama por desejo;
Sentir Amor é privilégio ao ser humano!

Se diz do Errado que há muito inspira medo,


A punição por desejar proibido beijo:
Se apaixonou por seu decano o franciscano!...

45
Anseio

Bastantes são os líricos desejos,


Anseios de oníricos sonhares?
Reside em outro ser o que antevejo
Apenas em meu ser como vontades?

Gratificantes são meus afligires,


Lamentos de meu coração opaco?
Ingênuos são meus prantos e sentires,
Ainda ao cerne meu tão nus e fracos?

Existe em ti tal devaneio antigo,


Umedecido em puro e casto pranto?
Feliz o sou, a caminhar sozinho?...

Remete a indagação, oh! caro amigo!,


Àquilo que a mim é alento e encanto?...
...não nega a mim seguir por teu caminho!

46
Enlace

A covardia humana é o mal que me motiva;


Meus pensamentos sãos, inconscientes, reinam
Miraculosamente em liberdade infinda
Ao meio a um revolto mar de incertezas.

Seria eu capaz de um cento de proezas


Cujo eu talvez quando lembrar muito duvide:
Entre uma alma turbulenta o amor reside
Avizinhado entre o pudor e o lamento.

Há de curarme apenas o infinito tempo


Sim, estou cônscio já não há mais paciência
Em minha parte de viver na solidão.

É o maná de teu amor o alimento


Ver teu sorriso se aproxima da ciência,
Padeço ao ter o teu semblante ao coração.

47
Sentidos

Ao peito, estranha dor cá dentro a mim consome:


Ao que perene então parece, me devora;
Ao que silente nunca mais se vai embora,
Ao que jamais saciará a minha fome:

Desejo eu tocar teu corpo em mim desnudo


E sussurrarte eternas juras aos ouvidos...
Parte de mim conserva em si e assim, contudo,
Desperta eufórico em mim cinco sentidos:

À vista avisto tenros traços da mãe Terra,


Ao som de pássaros flutuo em pleno ar
E logo à boca verto eu teu doce mar;

Ao longe sinto teu aroma, oh! mansa fera!,


E ao sonhos sonho então poder em ti tocar
A isto chamase senão sentirse a amar!...

48
Don Quijote
Dedicado a D. Quijote
, Cavaleiro da Triste Figura

Quis a ventura, em sorte


Algoz, cerrarte os olhos na penumbra;
Por véu, lúcido em tumba,
Pregando última burla, a tua morte.

Sábio foste, andante


Cavaleiro, pois deste a alma a Deus,
Negando aos semelhantes
A lucidez de cada feito teu.

Teus feitos nunca terão fim, criança


Em alma feita casta e graciosa;
Foste tão sábio quanto louco, Sancho Pança!

Dulcinéia é viva, é desditosa,


Grita ela tanto, que ao fel desmancha:
"És imortal, oh Don Quijote de La Mancha!"

49
50
Verão

51


xià tiān

52
Alvorada

Oh! bela musa, que a mim só observa,


Explora a chaga, que em mim arde de penúria;
Destino, une esta minha alma de lamúria,
Beleza esta que na carne se assoberba.

Poente sol, ao que a beleza se assemelha,


Desiste a dama de fazer o seu intento;
Se rende ela ao belprazer do aconchego
E com o olhar me acende o fogo em centelha.

Sei que a vergonha é o mal que te devora,


E o padecer de minha alma ao que parece
É que, ao sair da tua vista, tu me esqueces.

Beleza rara, que a mim só mais consome!


Brindo a você, e assim mato minha sede
Eu te contemplo, e assim sacio a minha fome.

53
Horizonte

É quem o outro que observo à minha frente?...


Não o sei e quem o sabe? Se há alguém,
É certamente ele mesmo, e mais ninguém
" Sei eu quem sou; conheço a mim, e tãosomente.

À terra repousei por anos em semente,


Enamorada ante ao seu calor silente;
Há muito então adormeci... `inda dormente,
Agora abro os olhos ante ao Sol nascente!..."

À plena luz pude então ver seu teso couro,


Seu pleno porte ao horizonte já vindouro,
Em silhueta a tracejar altivo touro.

Virginal pois detém à Arte em pleno louro;


Descobri eu haver em vida tal tesouro
Haver em vida bem mais valioso ao ouro!...

54
Vôo

Em meio ao mundo segue, andarilho!,


Sem rumo, sem parada e sem destino...
De teu trajeto há somente atino
A alta Estrela a refletir teu brilho!

Segue! e vai, por todo teu caminho,


Às sebes e às campinas!... e, andante,
Flutua como pássaro errante
Eternamente a procurar seu ninho!...

Idílio amor ao seio nu emana,


De meu latente peito, como em chama;
Silente, sente o vento vai, revoa!...

Graciosa ave, pelos ares plana


E, solitário eu! diz que me ama!
Este silêncio todo me atordoa!...

55
Amigo

Antigos mestres!... tendes vós mais plena láurea,


Dentre ao ventre desde há muito concebida...
Da mente, ao verbo transferir o que, da vida,
É respeitada como a lei mais régia e áurea!...

Imerso aos devaneios líricos, desejo


Ao que há muito anseiam deuses mais antigos...
Aos plenos poros afluir, por seus sentidos,
O que Amor nunca considerou proibido!...

Libido sente então o ser, já embebido


E expressado por inexplicável verbo,
Inebriado já há muito em seu retiro...

Amor!, sussurra aos Mestres vozes de Cupido,


A Vênus concebido como etéreo servo
A ti, amigo, quero há muito aqui comigo!

56
Magno

Não é maior e intenso em vívido desejo,


Anseio lívido crescente, claro e denso,
O alento plácido que ao seio trago e penso
Dos mais Elíseos novos tempos que antevejo?

Não causa ele em mim sentir mais novo e intenso?


Não me desperta ele o corpo meu dormente?
Não é mais tentador que o fogo mais ardente?
Não possui ele a sapiência como berço?

Tem consciência ele deste meu lamento?


Permitirá tua boca à minha, como encanto?
Cessarmeá o solitário e amaro pranto?

Trarmeá ele à mente e ao corpo pleno alento?


Jamais a mim aos lábios cessará seu canto?
Senão por teus tão vários tons vos quero tanto!

57
Duplo

É à duplicidade de meu ser que culpo


Toda dor que em mim passa neste instante,
Cujo sofrer, oh dor!, faz, do restante
Deste bravio mar em pranto eterno julgo.

Sou, pois, a cúmplice de um casal alado


Simples, doce porém incompleto é tudo
O eterno sono de Cupido que, ora mudo,
Tem, pelo etereal Noturno, enfim, velado.

Mistérios plenos sondamme, oh chaga, purga!


Expurga deste corpo este veneno intravenal,
Suga deste ser os males que, em mim, copulo.

Etéreos Sóis que rondamme, oh chama!, a culpa


Em tão sofrer ao vil metal, ao Eu, meu mal
Reside em mim, todo em você e, sim, meu duplo.

58
Morfeu

Ao horizonte tímidos, vindouros,


Ao rosto sopram delicados ares
Empíreos – ventos espetaculares
A enregelar da espinha ao pleno couro;

Em outros tempos, e em lugares outros,


A encrespar as dunas dos desertos,
Traz, do profundo sono então desperto,
Um cristalino ser, brilhante e vítreo:

Morfeu, então sereno à humana raça,


Esquecese da infâmia e da tristeza
E à mente encerra os olhos mais tristonhos...

Sê meu!, oh fruto da mais plena graça!


Oh deus!, deita comigo em névoa espessa
Por todas noites, dorme em meus sonhos!

59
Eros

Retorna tudo um dia ao seu regresso:


Alude em pranto aos Céus, sentido e crasso;
Fulgura ao Firmamento como laço
A ornar, em seu repouso, ardor pregresso:

Repousa solitário o arcanjo Eros;


Assim então ressona o infante augusto.
Fenece aos poucos meu desejo frustro
- Amanhecer aos braços de Anteros!

É tenro o véu da Noite... pelo escuro


Reluzem, a guiar-me em pleno encanto,
Melífluos teus lábios aos meus beijos...

...indago a ele o nome e dele escuto


Ter ele nome qual aguardo há tanto
- Amor é o nome meu - e o teu, Desejo!

60
Venus

Foretold it is from old and ancient Past:


Rainwaters bliss unhospitable grounds,
Aeolian winds doth kiss uncharted bounds,
Neptune's abysses thus spread deep vast!

Behold!, is morrow near as fearful Death


Above Thy silent Night! O!, Elysean serf!
Rose up Almighty Venus through Twilight
- Arose above all Men, Thine shine abright!

Golden fields surround all rivers grey


Lo!, molden silt at ground but bare and dry
Is nay but woundrous gravel - Heavens' cry
Above all sight of Men from Night till Day!

61
Espelho de Minerva

Vagante do solstício ao equinócio,


Almeja o que é oculto há muitos anos...
Remonta desde os úmbrios, os beócios,
O intenso afã dos Césares romanos:

É dito haver, nalgum lugar distante,


Etéreos acúmulos – tesouros
Apoderados pelo Hierofante
CalifaMor de todos os Reis mouros!

O Acaso o trouxe à fúlgida caverna...


À sombra de um lume em fogo inflexo,
Avista espelho côncavo e convexo.

E, ao mirarse ao espelho de Minerva,


Balbuciou, confuso e perplexo:
– Enamorado estou por meu reflexo!...

62
Morgana

Branca, a Noite;
O uivo, agudo;
Os lábios, rubros;
Frio, o açoite.

Distantes, juntos, choram.


Jesus Rex Iudeorum.
Ocre, o Dia;
Amaro, o pranto.

É ingrato e branco
Amor e Agonia;
Confia em mim, qual vos conduz!
Non Draco sit mihi Dux!

Em prantos, repletos;
Alvura e beleza,
Pureza e destreza
E, em todo, incompletos:

Aceito a ti, meu cavaleiro, berço e cruz!


Aï Draco sit mihi Lux!

63
Receita

Dos doces pratos és o toque apimentado,


Leve, sutil, porém de corporal teor
Capaz de porme em vôo, ao mel, sabor
Destes teus lábios rubros, mui adocicados.

Do Sol um singular, notório, iluminado


Raio, quedase a teus pés, em glória;
Faz abrigo em teus olhos; na memória
Insiste em esculpir teu corpo, delicado.

Iluminai, Oh Deus, esta cabeça insana!,


Por febre muito ardente confesso padecer
Ao risco findarse o espetáculo, o ensejo.

Beijai meus lábios, sê minha apenas, dama!,


Pois sinto, em teu calor, minha paixão arder
Por têla apenas em meu ser, meu bel`desejo.

64
Grata, Electra, Latina

Se sentir dor dentro deste teu peito,


Tens, como portos contra toda mágoa,
Meus olhos, ralos como poços secos
E mareados, como rasos d'água.

Se entreter, por entre todos cantos,


Nesta jornada este sentir mais pleno,
Seu pensamento, vais ter, como alento,
O vasto fértil de meus róseos campos.

É por calar, no mudo de meus lábios,


Que, de temer, por medo me inconformo
Em partir sim, a contragosto, cedo.

É de falar que, muito, fico rouco;


E, por saber, me amarro, como louco
Por sentir, de tua boca, meu sustento.

65
Daniel e Prometeu

Reacendeu! Reacendeu a antes chama


Falecida e esquecida em pira fria!
Reacendeulhe a antes fria tocha; ardia
Em rubro fogo a empírea pira, em céus mundana.

Reaqueceu! O ardente lábaro, anúvio


Em sangue cálido, azul, fez seu caminho!
Avisa! Avisa os Anjos e os Arautos, filhos
Por Vênus e Vulcano concebidos no Vesúvio!

Resplandeceu! Feliz o homem que, da Luz


Que o Pai ao fiel Filho, como Daniel
Em covil, de feras tantas, mansas domou.

Reviveu! bateme o peito faz o jus


De Hera e Cupido o doce olor do mel
Que, aos lábios doce, jáme há muito arrebatou!...

66
Carpe

Renunciar aos laços apertados,


Renunciar aos cabos tão tristonhos,
Reivindicar espaços aclamados,
Resplandecer perante etéreos sonhos

Mais: perecer, em modo desejoso,


Ao coração, em grossas curvilinhas,
De tão distarnos em longínquas milhas,
E, mesmo assim, ter vínculo estreitoso...

Qual é o químico que compreende,


Qual farmaceuta que, por bula, indica
Remédio findo a esta moléstia estranha
Que me, por dentro, róime, às entranhas,

Como em meu corpo instalase em semente?


E então, por fim, brota em planta, somente
Raízes sólidas, de instalação
E alimento às veias, coração

É bom... latejame esta videira


Em cardos frutos, tal néctar ambrósio
Que, em fartos brotos, nutre e me mata...
Me apaixona, me domina, me arrebata.

67
Nightsight

As tender blossoms over prairies grow,


all fields are green
The Almighty sun shines over melting snow
as never seen.

But dim became Its light. It had begone.


Over the clouds,
Unveiled Night its gentle sight!... now but alone
and all aloud
Weep deep Its humble core, as bitter mourn
nay felt before.

O Grief!, cast ye thy grievous pelt forth younder!


Be mine thy virgin kiss as strong as thunder!

68
Fantasia

Fantasia se absorve, me alitera,


Vai: suprime deste homem a matéria
Química, cirúrgica epopéia,
Monstra, demoníaca quimera!

Corrói, falange, a vida deixame maluco,


Infesta sim, consome minha erva
Minerva mata a tua fome, me enerva
Devorandome a carne verde, o muco!

Descende a laringe, queima o caminho


Tortuoso sim, estou eu vivo carne em dor
E sentindote em meu corpo, me comendo.

Atinge o coração e faz teu ninho


Pavoroso etéreo, eterno no mais, a tendo
Ácida alojada, interior isto se chama amor!...

69
Pandora

Dos males todos que em terra


Assolam, dois olhos surgem secos,
Me devoram; se alimentam cega
O espólio, draga, drena gestos vesgos.

Ah! boca, chaga, oh linda fera


Indominável virgem, ímpia, fogo,
Acendeste secamente, oh pantera,
A uma alma, enfadonha, em jogo!

Morfina, droga, líriobranco, ventobrisa,


Me atiça mesmo, vai acabame a vida
Já caótica e mui pirofagênica.

Epigênese satânica, um anjo poetisa


Realidade em fuga, vai: me suga, me trucida,
Torceme em palavras desconexas, oh Pandora alucinônica!

70
Derme

Em quê adiantam dois sadios olhos


E ouvidos apurados e atentos
Se escutam eles versos quais, inglórios,
Às vistas trazem tantos ferimentos?

A quê preciso eu de tais mãos fortes,


Dois rijos braços e teu teso dorso,
Se não os posso ver, tocar...! ao osso
Mil calafrios sinto em meio aos cortes!...

Por quê ao peito trago eu tal mácula,


Tal fístula a furarme a carne crua,
Qual junta a mim sozinha ao léu caminha?

Aninha em mim teu cerne – e como em fábula


Faz eu sentir em mim tua derme nua
E fazme una a tua boca à minha!

71
Lamentação ingênua

A perfeição em carne Deus fizera,


Não mortalmente repetindo a forma
Que em raridade é única, e conforma
Dentro de si a flor da Humanidade.

Em toda a tua sapiência impera


A consciência plena do juízo
Que teus critérios são o benefício
Dos virtuosos, justos e oprimidos.

A plenitude de uma unidade


Unida à alma o amor e a vontade
Criara em ti tamanha perfeição.

Excluso é teu mundo da maldade:


Apaixoneime pela liberdade
De um libertário e casto coração.

72
Ilusionismo prosaico

A quem se culpa o atraso? O acaso


Qual via foge do ensino? O destino
Quem traz inconformável dor? O amor
O culpado das mil chagas, sim senhor,
Reside no acaso, no destino e no amor.

Qual caminho traz acalanto, alento? O tempo


Corre tudo por qual vereda, centro? O vento
Porém quem sustenta tais ciências? A paciência
São instrumentos, linimentos, oh vivência,
Os ensinos do tempo, vento e paciência.

Da vida, a essência, onde habita? Na bebida


Num enlace, o julgo, onde reside? No revide
Desta forma qual o fim, o mote? A Morte.
Concluise que, dos males destes tempos,
São placebos a bebida, o tempo e acaso;

Pelo vento do destino revidamos


E, pela espera de um amor, morremos.

73
Hollow Abyss

It is wellsaid, a younger brisk comes forth as new


To wake at full what my desire asks me to:
As deep as may, nay have to say what is fro true
What veils inside me pale kind as mild as dew.

Thus why is from yer mind and word so cold of will?


Mayst thou thus guide me cooled mind and heart as stew
Which from below ascends to grow?... nay know, but still
Is hope a neverending bond bound to be sewn.

O ye!, Guide me through such a treacherous, narrow path!


Be ye, o Grace!, mine vessel over shallow wharf
Fulfill with dreams this old of me so hollow heart!

74
75
76
Outono

77


qiū tiān

78
Névoa e Fuligem

Há idos muitos, mil quimeras me afligem.


Me aguardam repousar, sonhar... e em riste brandem
Suas mandíbulas fatais; os dentes rangem
E, podres, rasgamme cobertos de fuligem.

Suas peçonhas tão mortais, letais, abrangem


Dos capilares à raiz... em mim, restringem
Os músculos vitais; ao cérebro, vertigem;
Aos olhos, pregam dissabores em miragem.

A envolverme em candura fria e nua


E a percorrerme o corpo inteiro em pleno beijo,
A opaca névoa revoa em cãs escuras...

Meu ferimento sangra ao vento e à carne crua.


Enganos torpes são senão do vão desejo,
O alimento à mais plena das loucuras!

79
Humanicídio

As casas já não são as mesmas,


As ruas já não estão retas,
Algo precisa ser refeito.
Tem mais floresta nos desejos,
E há menos desejos nas mentes dos homens.

Algo precisa ser refeito.

Os nossos mares são os mesmos,


Porém as águas já não correm.
Elas pararam. Estagnaram.
Aqueles nomes nunca são mudados,
Mas as pessoas nunca são as mesmas.

Os animais jamais viveram; são dejetos


Como sempre, o ser humano os domina.
O ser humano, sim, domina mas
Vegeta perde sua alma, fortaleza,
Ao negar à sua própria mãe a vida à Natureza.

80
Apoplexia

Estou cansado deste mundo amargo,


Acometido por forças ocultas
Vestais malignas e impolutas
Vendando ao povo os olhos do espetáculo.

Produzme gosto ruim tão aziago


Qual o sabor desta tal vida seja
O obscurantismo dos cigarros
Nas fumaças das fábricas de guerra.

A paz é ilusória mas a guerra


De todo o amor contra o ódio reinante
Foi feita de interesse e nunca cessa.

Estou cansado deste mundo amargo,


Sou nesta vida um passageiro errante
E já canseime de viver calado.

81
Acrópole

Tenho medo do frio da Acrópole


. sua neblina é opaca. o ar
é cinza.
Neandertais empregam utensílios
. moem conchas. Seu ouro é escasso.
Os céus não olham por eles
- não olham por ninguém.

Sirenes berram verdades


. silêncios.
ecoam pelas bocas das vestais
em transe. em êxtase

tenho medo do frio da Metrópole


. seu cheiro de fuligem
preta. escura
como noite sem lua
sem estrelas
sem brilho
sem nada.

- o que será de mim?


, perguntou o Herói.

Dormem para sempre as meninas


de seus olhos. em sangue.
em fúria
, pássaros devoram fígados.

Tenho medo do frio da Necrópole.


repouso em teus lábios vermelhos.
- deleito-me, pleno

. ressono.

Diego Aurélio

82
Diana e Apolo

Me indagou então Apolo um certo dia


Ao regressar em sua incandescente biga:
"Descende ardente o Sol dos Céus - Seu lume ardia
Luminescentemente sobre a ruína antiga

Do que restou da velha Acrópole, ruída


Ainda aos tempos, do passado tão inglórios...
Ainda ali, enquanto Troia era invadida,
Ardia a mítica Donzela em pranto aos olhos?"

Mnemosyne sussurrou-me ao meu ouvido:


"Persiste ainda em Helena a brasa rubra
Do que não arrefecerá em leito olvido..."

E respondi a Apolo, àquela noite fria:


"Banhou Selene Helena em Troia - da penumbra
Vislumbra a antiga chama - a qual Amor nutria!"

83
Ícaro

Alíseos ventos divagantes pelos ares


Impulsionam naus vagantes pelos mares:
Insuflam velas, pelas gáveas sobre as frontes,
Desde o estuário ao coração dos horizontes!...

Elísio campo tão distante... pelo mar


Derriba lágrimas de angústia pelo ar:
Avista o pássaro sem asas no horizonte
- Lamenta pelo pranto àquele à flor em fronte!...

Do alvo azul dos Céus ao negro azul dos mares


Precipitou-se, esvaídas suas asas
Pelo fulgor de Apolo em seus raios solares...

"Adeus!, oh Pai!, de minha vida resta nada


Senão ao lúgubre abismo arremessar-me
E enfim legar-me à posídona morada!..."

84
A queda

Venta. Acima vejo o céu limpo, estrelado


Com talvez mil outros céus; eu, cabisbaixo,
Microscópico ao Infinito, observo, abaixo,
Ao intransponível chão: concreto armado
Duro, pétreo. Não hesito: grito
A dor de tantos anos sufocados.

Será tão forte a dor que, ao grito agudo,


Faz desistirme de, ao sabor da Morte, tudo?
Calo aos olhos. Sinto, mudo, ao ar escuto
Vozes que não mais são minhas; a mim, minto,
Solitário, ser feliz não sou e omito
Sentimentos que não tenho. Irresoluto
Cedo ao negro destas vistas: é sinal,
Cerrado ao vasto horizonte, meu final.

Será, então, do Amor a fonte, oh Deus!,


O amargo gosto deste último adeus?
71Adeus, oh sim!, findarse a rubra tinta, cor
Generosa noutros outros tempos e que, à hora,
Misturase ao púrpura da aurora,
Fundindose em nostálgico esplendor.

É fim. Me aproxima ao beiral agora


Também sou infinito.
Sou covarde.
Desertor.
Está à Paixão, então, Tanatos vizinhado;
Agora, calo võo, enfim, ao chão.
Concreto, armado.

85
Epíteto

Repouso os olhos meus sobre o Passado,


Inerte e completamente absorto
Em pensamentos e, neles envolto,
Assustome perante o triste fado:

Amar!, Amor!, o ínfimo desígnio


Ao reles pó mortal ao qual evoco!
Expurgome do Mal; sozinho, toco
As chagas quentes de um tal Eu maligno!

Vasculho, em outro Eu, alguém vazio,


Oco, inconsequente e equivocado
Amor!, por quem ainda mais procuro.

Orgulho tem o Eu de hoje, frio


Como lago ao Inverno congelado,
Em não ver, sequer prever a si Futuro.

86
Alcova

Teus negros olhos taciturnos, tão profundos,


O cheiro brando e o lume vacilar das velas
Chamam por mim, a cada um de meus segundos,
Em fragorosas gotas, soltas das janelas.

Escorrem veios, de meus olhos cristalinos,


Iluminados pelos raios de Teu brilho
Rolamme o rosto e atingem, sem ruído,
Teu grande ventre de gigante adormecido:

Escorrem rios que, há tanto represados,


Carrego triste, pesaroso, cá comigo...
Vislumbro a Ti, Sepulcro amargo, um caro amigo!...

Teus negros olhos taciturnos, espaçados,


O cheiro brando e o lume vacilar da alcova
Chamam por mim, e só por mim, à pétrea cova!

87
Silêncio

Aonde, a que lugar, a que destino,


Por qual vereda plana e oculta se encaminha?
Se esconde onde o Sol, inda menino,
À plena Abóboda Celeste se aninha?

Aceso este teu corpo à alma minha,


Arrefeceuse o fogo que mantinha!

Ao longe, o cando lume da Aurora,


Em seu austral fulgor aos Céus alumiada,
Por muito então brilhou foi ofuscada
E, ao chorar, resignouse e foise embora!

Arrefeceuse o fogo que mantinha


Aceso este teu corpo à alma minha!

88
Lilly Pond

As blue as placid ponds so deep and still


Thus casting from above Moonlight anew,
So pale and frail hangs Its shine alight:
To cast upon Mankind nay dark nay bright.

All lillies' blossoms' buds flourish anew


Through Phoebe's cast delight upon dim dew.
As flourishing desires doth forth waned,
Grows deep new bounded Light, by Love pertained.

Nay morrow's fateful might is bold as moored,


Shall mournful blue teardrops nay more be poured.
Thus is my passion's plight, at deepest core
As lonesome and ill of loneness sore!

89
Shine of Dawning Glory

Emanate, the Sun, star of greater power,


Far from eyesight, warm as lighter dew,
A new delight, a crackling, steam’d seal
Which, as newlyopen’d, had all me dreams conceal’d.

Enchaunted, O delighted, brighter moon,


And sooner than the dusk , than ye lighter tin,
As dim as crackling mirrors at ground, is thin
The blinking, newest ‘eart of me, jolly fool.

Cellestial connection, amidst planetary sins,


Singularly plac’d, me mind, me ‘eart as one
Joins, with joy, me eternal and cruel life.

Love, that is a planet I’ve never been.


The desire of living is for little some:
Feelings tangl’d as bolts, wit as sharp as knives.

90
Silêncio

Não gosto do silêncio sepulcral


da catedral sem sinos,
do cheiro e do lume de suas velas.

Ergo as vistas ao seu alto campanário sem janelas.


E sintome aprisionado, como pássaro em pétrea jaula.

Não gosto do barulho de teu silêncio.


Remete ao sopro amargo de minhas lembranças
sussurrandome palavras lascivas aos ouvidos surdos
calandome a boca. Secandome o fluido
que já não mais escorre de meus olhos vazios,
tampouco brota de teus lábios mudos.

Não gosto do teu doce silêncio de menino,


tampouco da incerteza corrosiva do vazio
o qual comigo agora ainda muito intenso sinto.

Não quero teu silêncio de cristal.


Ainda à nave, miro o alto redentor em sua cruz
e compadeçome do silente mártir sobre o altar
repleto de castiçais com suas chamas amarelas e contínuas.

Em par, abremse as portas e adentra à nave o vento.


Em silêncio, extinguem as chamas. Mas não meu pensamento.

91
Delusion

Right now fills me a rashling, crumbling thunder


Which under trembling feet grows asunder.
Can Men, o! wretched race, o! spoil'd child,
Never to cease its warring state and rest aside?

For now lays it in peace,


For now stay we for plead,
For sighing our last, sour mourning
From very Night until the cruel morning.

Be me, oh woe! the last uncharted Feind


And rest, upon me side,
a very bird in cage confin'd.

92
Lume

Tem tudo início, fim e meio que lhe cabe;


Tem seu princípio como que se derradeiro,
Certeiro e fulminante como ao Mundo inteiro,
Sendo infinito até o dia em que se acabe.

Pois quanto dura este tal tempo? Ninguém sabe;


Perdura ele desde a luz alvorecida,
A adormecer por dentre a luz anoitecida,
A permitir que do Equilíbrio outrém desabe.

É um sentir que, tenro, ao tempo se perdura


Alumiado pela xante luz mais pura,
Acarinhado pela fértil luz mais nua;

Porém o faz o Tempo à Alma como escura,


Em sua estéril superfície, opaca e dura.
Namoro eu o Sol; namora o outro a Lua.

93
Charco

Na busca íntima de um Eu profano


Reside a lástima do herói calado:
Incide o insípido luar gelado,
Insiste em lágrima o convulso estanho.

Quê é amor? É insolubilíssimo!


É ter calor e frio! Não é crível!
Resposta mais uníssona é impossível,
Pergunta ao coração amarantíssimo!

Os sóis já não trouxeram mais que um dia,


As luas sãome açoites nesta noite.
Amor é verme em si desentranhado
A navegarme os veios, poluindo
Artérias e entranhas sem sentido,
Vapores quentes neste mar gelado.

Amor é terse, desapropriado,


Aos átrios e ventrículos errados.

Amar é como chaga patológica


E incurável; é como a adaga branca
De Brutus ao pai César! Não estanca
A punhalada fraternal e ilógica.
É dor sem dor e sem sintoma físico...
É como o cranco nestes dedos tísicos.

Os sóis já não trouxeram mais que um dia,


As luas sãome açoites nesta noite.

Mas como pode, então, tal dor perene


Ser, por vontade própria, tão buscada?
É mister já saber o amor ser nada
E, tudo, serme a dor cá tão solene.

Quem sou? Não mais o sei busco ainda


Em Plínio, em Catulo, Pirro, César,
Machado, Poe, dos Anjos, Carlos, Eça,
Resposta a esta busca tão infinda.

Os sóis já não trouxeram mais que um dia,

94
As luas sãome açoites nesta noite.

Quem sois? Em tais, alguém não há saída.


Procuro Amor em naus tãosó vazantes,
Velejo em mares Letes tão errantes
E morro sem saber do Amor em vida.

São dois o Sol e a Lua eu não sentira


A lágrima mais quente quente ou fria.

Na busca íntima de um Eu profano


Reside a lástima do herói calado:
Incide o insípido luar gelado,
Insiste em lágrima o convulso estanho.

95
Aurora

Projeta a Lua sobre o negro véu celeste


Iluminuras pelas nuvens que alumia
Brancas ranhuras sulcas pela alquimia
E em arte antiga e ancestral em cor rupestre:

Ao centro é alvo, intenso o brilho que emana;


Às margens são azuis, violetas, roxas, rubras.
Encanta, oh Lua!, já há muito muitas turbas...
Inspira e toca há tempos toda a raça humana!...

O austral outono segue enquanto dorme o dia,


Acompanhado por sua companheira fria
A suspirar seus ventos gélidos aos ares;

Se dispersaram pela noite: não se via


Agora nuvem, cor ou outra alegria
Restou somente a Lua e seus raios lunares!...

96
O Paço

É sempre engano recorrer ao paço,


Mister o nunca que, sempre que posso,
Olho aos Céus e, para Deus, eu peço
Coisas mil que eu vi, e jamais eu faço.

Nunca digo nada, não tudo meço


E acaba, enfim, tudo ao fracasso
Está ali ao horizonte o paço,
Está ali, caminho do fracasso.

Persisto sempre e, tudo que posso,


Quando tento, sempre sempre eu meço.
Novamente rogo aos céus e, ai!, peço
Que eu não tente aquilo que eu faço.

Vive comigo em meu sonho o paço,


Vive comigo em tudo que eu faço.
Persiste aqui junto ao meu fracasso,
Por mais que, aos Deuses, ajuda os peço.

Não alcanço o que mais quero, mas posso


85Tentar obter os recursos que meço.
Reside ao longe a imagem do meu paço,
Reside, esconde e, ao horizonte, meço.

Não há mais nada de certo que faço,


Não há mais nada a fazer que posso.
Escondo o rosto ao braço do fracasso,
Clemência e perdão a ti te peço.

Nasci, cresci mirando a este paço


E, portanto, clemência eu vos peço.
E já aviso, não esforços meço
Nem que eu beire esforços ao fracasso.

Pois que eu servo teu a ti te faço


Pois que eu te quero sei, não posso.
Nasci, cresci mirando a este paço,
Nasci, vivi, morri a ti não posso

Amar; e só o amor o que eu te peço.

97
Já não o sei mais eu quê digo e faço,
Já não o sei viver; e o tempo meço,
Em preces, a lutar contra o fracasso.

98
Bolsão de Apostas

São Judas
e, logo ao lado,
um copinho com flores murchas de biscuit
na lotérica da Cerqueira.

Há filas para aposta,


no grande bolão da Copa pelo sexto canecão
dourado.

Dourado é o desejo,
Opaca a razão.

Logo acima de São Judas, aviso preso,


Informa e consola, até, à pobre gente:
"por favor, aguarde na corrente."

99
Parole

Palavras são, dos Homens, o refúgio


Oculto em falas, versos, orações
O verbo ao cujo falta, ao refluxo
Inato, desconexo às ações.

Contento, parcas lavras, de instante


Apercebido às alvas dos Destinos,
Ver e ouvir sentir, enfim, sentido,
Ao limiar d'aurora no horizonte.

E é, por entre o sol apoentado,


Aconchegado, neste outono lado,
O sentimento que, à mente, engana.

Até!, Adeus!, causoume mui enfado.


Palavras são sentir aprisionado,
Sentires são da natureza humana.

100
O Menestrel

Toca o menestrel seu triste alaúde,


Ressoando, pelos ares, notas sós
De alentejano fado, entoado, amiúde,
Como chôro e pranto a mim, a ti e a vós.

Sibila o som ao ar, tal qual papel


A oscilar, sem mais destino, errante;
Sibila o alaúde, sussurrante,
Dos pés de meus ouvidos rumo aos céus.

Devo ao compasso tortuoso o engano;


Devo também, muito porém, ao resquício
Dos sentires que nutri fatal desculpa.

Nego a mim mesmo o som do fado alentejano.


Relevo até o mais arguto dos suplícios
Mas faço surdo a mim, ai!, afogado em culpa.

101
Tango

O mundo é um tango malfeito


como um soneto quebrado,
Relógio sem nenhum ponteiro,
Orquestra de desafinados.

Do engano há o sorriso, enquanto


Um verbo sem par adequado.
Canta esta noite triste fado,
Sem ter um par por si; no entanto...

...no entanto canto, em pensamento


Tanto irrisório e solitário
Prantos que não sei eu se tenho...

...enquanto houver, no firmamento,


Brilho de um tango libertário,
canto eu tão só! , aqui, lamento.

102
Retrato

Á plana luz da juventude em nós reside,


Por qual mistério insondável e primevo,
Ébrio desejo inexplicável e longevo
Que, ocultamente, à nossa mente incide:

É plena a noite e escuro azul, seu véu cerrado;


Nossos dois corpos emoldura, tal retrato
A retratar amor profundo e tão ingrato
A exalar o doce aroma do pecado!...

Embala o ar daquela noite o ledo prumo,


O incasto ardor dos dois amantes!... celebramos,
Ainda apaixonados, nossa elegia...

Mas ai!, tomou a vida seu distinto rumo;


Mas, longe ou perto que ao Sempre estejamos,
Resistirá ao Sempre a nossa poesia.

103
Mirror

Illusion devours desire devours illusion.

Plight seduces lust seduces plight.


Fire lighten shadows lighten fire
Might conduces Love conduces Might
Dire is thus so cold so thus is dire.

Bare is fore thus old thus fore is bare.


Lair is nay but cove but nay is lair
Nights darken meadows darken nights
Blight imposes hush imposes blight.

Conclusion is nay thing nay is conclusion.

Blight imposes hush imposes blight.


Nights darken meadows darken nights
Lair is nay but cove but nay is lair
Bare is fore thus old thus fore is bare.

Dire is thus so cold so thus is dire.


Might conduces Love conduces Might
Fire lighten shadows lighten fire
Plight seduces lust seduces plight.

Illusion devours desire devours illusion.

104
Ribombo

Carece de razão o sentimento


Oriundo de meu ser e, talvez, noutro
Farão ao Céu, profundo firmamento,
Cratera etereal, veios em ouro.

Esquece que, senão, talvez, barulho


Houvera em pavor, já tão mundano,
Como ribombo d'alma, em desengano,
Ao oceano interno em um mergulho.

Aquece, Homem, chama que acende,


Esquenta e não queima; fogo falso
Onde me aquece, por favor, concede!

Se ergue, ao centro de meu só compasso,


Um esqueleto de aço purpúreo
Perdido em meio ao rosáceo espaço.

105
Fera distância

Solidão, ingênuo lamento,


Insano desengano romântico,
Entoado como mantra; cântico
A expressar a dor, neste momento!

Pela distância, agravante algoz,


Morre, inerte, meu vão desejo
De beijarte e, como o mais feroz
Felino, possuirte inteiro!

Assim, então, correm nestas veias


Reveses e tristezas regradas
Nesta vida corrida, parcial...

Não são belas; são, sim, muito feias


Estas torpes garras desgraçadas,
Que vão tirarme o amor mais imortal!...

106
Discurso ao Pai

Há tempos, Pai, quero dizervos o que, ao peito,


Durante anos junto ao coração vos nutro;
O que, diante ao triste teu Destino frustro,
Junto convosco sempre seguirá ao leito:

À vida busca o Homem qual medalha ou glória,


A ele conferido às guerras combatidas,
Senão o recordar há tempos, à Memória,
Aquilo que tem de mais precioso à vida?...

Sujeito o Homem como o é à Natureza,


Está sujeito a cometer mil falhos atos
E a arrependerse do que já fizera antes;

Carrego, oh Pai!, meu ser imerso por tristeza!


Foramse os Tempos cá conosco tão ingratos...
Tempo, retorna aos tempos como o eram dantes!...

107
Tão só

Sinto saudade de outros tempos que não voltam,


Agostos quentes que vontade! De instante
Contaminado em gosto ardente são, e foram
Meras quimeras que sonhei, já tão distante.

Sinto vontade de em teus lábios recostarme,


Por sábios toques, tenros beijos, derreterme
Enamorado sêlo seu; e, carne à carne,
Amalgamarmonos, amantes, cerne e cerne.

Sinto que a parte de meu Ser não mais existe


Fôra arrancada deste Eu, fragilizado,
A divagar em custo lento e tanto acinte.

Sinto que aqui, bem aqui dentro, algo resiste.


Sinto saudade de um futuro sem passado,
Vivo a seguir, eterna dor!, tão só e triste.

108
Socorro

É um grito oco, surdo e sem sentido,


Um bicharoco irremediado
No sufocar mais que desesperado
O toque cego, rouco e desvalido
Nesta prisão à qual muito resido.

Sentir, da corda, o laço apertando


Meu nodular pescoço rechonchudo
E navalharme a um homem morimbundo,
E, ainda assim, sangrarme a tenra carne,
Até singrar nestes vermelhos mares
Dói muito mais nesta singela larva
Podarlhe o verbo, cortarlhe a palavra!...

L´amour, toujours l´amour, Voltaire diria


Pois mando às favas estas ironias.
Corrói a alma, o verbo, o pensamento,
Viver em meio a fadas, devaneios.

Jaz, bem aqui, o mais racionalista


Idealista e mórbido escritor.
Nasce, porém, mais um devaneísta
Devido às místicas infindas do amor.

109
O Ébrio

Dáme um cigarro?, perguntoume o ébrio


Inebriado por vapores tóxicos
E, acossado a tal pedir tão sóbrio,
Cedi meu fumo ao vagante obnóxio.

Dáme um conselho?, perguntei ao trôpego


E, sem ao menos aguardar resposta,
Tomei suas mãos... e, como em um só fôlego,
Fiei a ele a minha sina imposta:

Me abandonou tudo que possuía,


Tão breve quanto em noite fazse o dia...
Quê farei eu, agora então sem nada?

E respondeume, àquela noite fria,


Que é o aguardente o fogo que o mantinha,
E é a fumaça sua eterna amada!...

110
Transparência

Em estado morto, estando morto eu fico


Rijo, imóvel, duro, quieto, calado,
Amigo; já que, não falando, eu só consinto
Em tudo: embora só calado, não sou surdo.

Tivera eu mil silêncios ou mil noites frias


Como eu as jogo fora e as desperdiço;
Mil então gestos para ti eu só teria,
Beijos de um rijo, duro, imóvel, só, quieto.

Complacência esta, que então só me amorfina,


Guardame o silêncio e a dor a sete chaves,
Já que tive a flecha do amor atravessada.
Mil são mistérios que o Universo guarda,

Silêncios frios, duros, pairam neste mundo:


Te achava ser o nada, mas enfim és tudo;
Te achava ser o tudo mas enfim és nada.

111
Quijote

Foi do Altar que Dom João pediu


Dois baldes de tintas
Pra pintar, com balas de fuzil,
As almas famintas.

Do Livro lêra Sir Antônio,


Notório rufião,
Que aos pobres serve o Demônio
E, aos ricos, serve o pão.

Montado em Rocinante, ao longe vai São George,


Dantesca figura...
Antando em busca de moinhos de bigodes,
Brilhante, reluzente estrela em seu cangote,
Por tortuosos negros pátios se aventura.

E, alto, longe desta pândega pilhéria,


Oculto em seu lugar que sol não chega,
Ri Ele, em barbas farfalhantes, da comédia
Da infinita busca humana por tragédia.

112
Limbo

Ao homem que tudo vê e nada enxerga,


Ao Salvador, encantador desde Perón,
Dedico inteiro um verso, bem coeso,
Ao Nestor, mi presidente vesgo!

Na Terra poucos falam, muitos temem


E acreditam numa praga mui fatal:
Reeleger el presidiente Menem,
Um dinossauro internacional!

De dinossauro, aliás, é o mundo cheio


Dominado da mais total inércia
Persiste, ecoante, um nome
Quércia!,

O caradecavalo nacional do turf:


Só perdendo posição pro jumento do Maluf!

Do limbo do Inferno, enfim, seu moço,


No cenário mundial, persiste um nome collorido:
Um narigudo de voz doce e saco roxo
Que deixou este País MAIS QUE FODIDO!

113
Ocaso

Tic tac tic tac blém


No relógio da oficina
Meio dia no sol quente
Sente, bate, toca o sino

Tempo corre, vai depressa


Some a vista, gente vem,
Gente vai, sobe no trem,
Apressa e sobe, via expressa

É vento ventando
É nuvem voando
O tempo correndo
As gentes olhando
Relógio agitado
Correndo, gritando
Sem hora, assistindo
Senhoras sentando

"Não não, vou descer,


Não preciso sentar,
Obrigado". É ver
Chocolate, chiclé,
Já na Luz, lá na Sé,
Não comprar, mais vender

"Olha a água, pessoal,


Vai de um, só um real!"

O menininho sentado no vagão, no chão, sujinho


Segurando uma caixinha branca, de quatro furinhos
com um porquinhodaíndia lá dentro.
Faz um calorzinho de fundir a cuca, muita gente,
gentinha.
E o coitadinho do porquinho, tão peludinho,
suaaaava.
Joãzinho, "ai, que dózinha!", pensava toda hora,
toda horinha
no sofrimento do porquinhodaindia

E tomou fôlego, e soprou dentro do furinho

114
um sopro, só unzinho,
pra refrescar o pobre do porquinho.

Ninguém olha, ninguém viu.


Apita a estação; desembarcados
Correm os homens em desenfreio
Na cadeia sem correntes dos soldados
De fivelas no pescoço. Acorrentados
Zumbificam e engrossam as fileiras

Plenamente

Atarefados.
Corridos, espremidos,
Hipnotizados.

Tic tac tic tac blém


Some a vista, gente vem,
Meio dia no sol quente
Gente vai, sobe no trem,
Sente, bate, toca o sino.
Já chegou a Presidente,
Presidente, desço, Altino.

115
Harmonia

Liguei um dia o rádio


E ouvi, com muito encanto,
A melodia harmoniosa
Duma égua relinchando...

Pergunteime, então, de pronto:


"Que soberbo som divino
Produz som tão saboroso?"
Pusme então, assim, ouvindo
A uma puta em pleno gozo!...

Estes sons são deste tonto


Animal e sua comparsa:
E, pra acabar com esta farsa,
Mando eu tomar no cu e pronto!

116
Medeia

Por Medeia tem feitiço,


Praga, dada sua herdade
Má, insana; é a idade
Um quebranto quebradiço.

É saber que, do chão duro,


É o pranto oriundo
Em lamento, antes puro,
Tal agora tão profundo.

Tens, pela alquimia, filhos


Oh Medeia, bruxa insana,
Em rubro sangue sentimos.

Saem, de teu mel, os brilhos


Entiçando à mente humana
Aos mais profundos abismos.

117
Selene e Apolo

Ao pleno véu da madrugada se eleva,


Ainda pálida a brilhar por sobre a relva,
A carruagem de Apolo!... e, sobre a treva,
O limiar do Horizonte então revela!

...amanhece!

A despertar por sua rota então evoca


Os mais oníricos delírios... provoca
Por sobre os Homens seus instintos; claro, invoca
Ao peito o grito que a boca assim sufoca!

...entardece!

Severa em sua intensidade, eterna e austera...


Ferina fera, cede então à luz selene!
Serena, dorme então ao seio da mãe Terra
- esfera fúlgida, ressona em breu solene...

...anoitece!

Cálidos, sopram ventos sobre a noite fria...


...a ressonar Selene, se alumia o dia!

118
Angústia

Ao padecer a alma, sofre, moribunda,


A eterna e lancinante dor da Angústia –
Perene, irradiante, mórbida, rotunda,
Preenche os vazios campos de almas imundas.

Por ser sincero o Amor – burrice plena! –


Aliena a realidade em todos inserida.
Oh Deus!, quisera eu ter na alma, incontida,
A solidão ingênua da Morte, apenas!...

É hoje o romantismo mais um feto morto,


Foi ontem a Paixão mais um desejo torpe
De um desejo torto, de mais um tolo feliz.

Dói muito a realidade, o mais voraz que seja –


Almeja a solidão – quem sabe ainda brote
De uma torta muda o pranto epidêmico.

119
N'est pas?

A covardia, n'alma do soldado,


Por muitas é, será a garantia
De um futuro vivo é valentia
À face deste Mundo ocultado.

A covardia, presa ao ser alado


Em seu corcel, em flores, tal em trovas,
Transforma o sentir em verso; prosas
Que, dum pincel, colore ao descarnado.

Porém ao falso ser à covardia


Por certo está o mais letal dos homens
Vem cá, tal, hoje, à guisa da escusa.

Mas, ao covarde que ilude, foge!,


Desaparece!, pois que, doce, engana
Dá Sentimentos, emoções, às chamas.

120
Renad, Adde Luc

Da emoção o vento, em faces minhas


Metamorfas, serenas, brutecidas,
Soprame a tez, delicado, entumescida
Pelo suor frio que escorreme à espinha

Meu ápice talvez, portanto,


Tivera seu tempo de encanto.

Aberto, inerte, os olhos, me espanto


E, de pavor tomado, sobressalto
Contemplando a este cenário, arauto
Incólume, final, em negro manto.

Ao pico deste dito, porventura,


Reside ácido gosto de aventura.

Rentes pés; à frente, o abismal,


Imprevisível, mágico, profundo
Precipício, findose em chão duro.

Quanto ao presente, já tenho final:


Solucionar este problema, oriundo
De não dispor das chaves do Futuro.

121
Slapstick Romance
Dedicado a Kurt Vonnegut

Had Time its wheels for very long spinn'd


For good, for bad for what? To meddle!
In bowels of mistresses is cert'nly weav'd
Still a thick tickle of a cynical's craddle!

For why is the sound of a gruesome cry


Yet to forget all me sinful, last past?
'Tis forth a last breath of a minimal lie
Which lays deep inside to eclode as one blast.

Alas!, for the men that I used to meet


In the core, deepest core, that I wrongly call 'heart';
Behold all of them; such a crafty art
Must not just by thy joy be confined into me.

122
Willows Run

Above known Willows Run


over the mist
A hollow, empty Sun
shines full amidst.
Its light is cold and dim,
so bright and rot
As all me pastful sins
I do see not.

Nay life is to be seen, just grey and sore;


Its land is dirt and bare, and nay thing more.

Below known Willows Spring


under the clouds
Lays now a poison sting
and gruesome sounds
Of mournful, sorrow path
as fire new
Consuming me till death
as dark as dew.

All willows weep as blows the wind so mild


Thus shredding me apart as deathful child

123
Repouso

Em toda hora sexta então seguia,


Em todo seu afã, ao sexto dia,
À frente ao brando lume que luzia
A alumiarme os átrios como guia:

Por seu augusto facho, esclarecia


Em retilíneos, fúlgidos brilhares...
Porém sopraram ventos tão polares,
E o que era claro então escurecia.

Não mais há lua neste escuro céu:


Ao solo, correm lágrimas de sal;
Ao peito, dorme o que arrefeceu;

À boca, o amaro gosto de teu fel.


Me resta enfim à cura deste mal
Buscar consolo aos braços de Morfeu!...

124
Vendese

Vendo a baixo custo, por motivo de mudança,


Duas libras de tutano bempesado à balança
Bemverdade o antigo dono, por descuido,
Em estado dúbio deixa este produto:
Que bom proveito faça ao pensador arguto,
Tenha ele duas bocas ou um ouvido surdo!

Vendo também porém muito mais caro


Dois glóbulos perfeitos, em perfeito estado,
(é bem verdade, ligeiramente estrábicos)
Descritos em garrafais cifros arábicos:
Oito mil libras, doze pence e um xelim
(bagatela, enfim) por estarem p'ra fora do eixo;
Vendo como estão, e não abaixo o preço
Pois olham para fora, e não p'ra dentro
Mas, à guisa, só lhes vendo à vista!

De resto, não vos vendo, sinto muito (só alugo),


Visto que braços, pernas, rins e intestino
Já estão de posse às Moiras do Destino;
Por estarem no estado em que estão, eu julgo
Mensais catorze pence no produto,
Preço justo. Motivo de mudança, cheque nominal,
Visto que, hoje mesmo, inda abandono a esta nau!...

125
126
Inverno

127


dōng tiān

128
The Hero

Never is too soon to flowers' blossom


To bloom well deep inside the Hero's bosom;
Nay is far too late his fate anew
Which is to pertain what he lost and still
Until his end of Life pursuits anon.
To find his love and love everichon.

Fewer but are Moon's so pale beams


To cast upon Mankind Her gentle gleams.
Nay be said a word; nay need be spoken
Whan Sun Almighty's glows as iron molten
All through surface and deep illuminate
The Hero's core - before it is too late.

129
Selva de pedra

Procriam pássaros malditos em plena selva de pedra


seus roncos movem as engrenagens dos cães selvagens
nas altas colinas. Salivam pus e gangrena.

Não há azul nem amarelo nem acima nem abaixo


é tudo apenas cinza.

Desapercebido, ressurge tímido o amanhã


igual ao ontem e tanto quanto ao sempre.
Seu brilho pálido trespassa as folhas sem vida
ilumina os troncos ressequidos
e desperta os negros pássaros de seu repouso plácido.

Seus roncos movem as engrenagens dos cães selvagens


sedentos por ossos, sangue e carniça.

Mandíbulas ferozes estraçalham as gargantas nuas


tenazes mordidas arrancam suas asas.
Jazem suas podres carcaças ressequidas.
Ao longe, cintilam os olhos do açougueiro e seu cutelo
como luas de cristal e diamante.

Calase o único pássaro alado. Covarde, revoa


procrastinando a morte.

130
A Longa Marcha

badalos frementes retumbam


de Leste a Oeste,
de Norte a Sul. Chega o Dia.
- é grandioso e auspicioso o Tempo,
finalmente.

Clangem sinos. Rufam tambores.


É dado início à Longa Marcha.

Leões metálicos engrossam as fileiras


do grande pelotão em marcha única.
túnicas de aço revestem seus falos
Púrpura pólvora adoça seus desejos
Lascívia e orgasmo se revolvem em seus canos
Perfídia e espasmo fremem seus corpos.

Não se calam as aves que repetem


repetem
repetem
repetem
canções antigas de um programa de tevê
qualquer. É irrelevante.
Revoam em bandos. jamais sozinhas.
Toxinas se desprendem de suas línguas
escuras. roxas de fuligem.

O solo é branco como o cal,


os céus são negros como o piche.
Canibais travestem-se de anjo.
de negro. abotoaduras douradas.

Vorazes, estraçalham fetos


em suas tumbas seculares de pedra.
violam seus corpos. estupram seus ventres.

destroçam sua carne. devoram seu cerne.


Céleros, cospem seus ossos. Expelem
suas pequenas vísceras.

Não prestam mais. Prossegue a marcha.

131
Um pequeno chinês amarelo pergunta
- o que não está correto?

Nada. É o que sai de minha boca.

132
Circo do Sol

Um pássaro ferido cai em meio à avenida


Champs-Éliseés. Pára o tráfego.
suas penas são incolores. suas patas
quebraram-se em cacos. as asas
também. Não voa mais.

Vem o circo em meio à Cidade Luz


O grande Circo do Sol.

A banda toca.

Altos arautos proclamam nova harmonia


declamam em verso. Prosas antigas.
Palhaços aplaudem
e seus bufões os seguem com seus narizes vermelhos
malabarismos e grandes sapatos. Bicudos.
De frente torta. De língua
preta. de cor
escura.

Assentadas em suas alvas montarias,


as meretrizes de Dionísio
as prostitutas francesas
as putas vadias e velhas
ostentam decote prendado,
rendado brilhante
(chinesa é a seda, a bem da verdade - eles estão em tudo).

Relincham as éguas, arreganhando seus dentes tortos


cheios de osso
cheios de carne
cheios de sangue
de besta mansa e ruminante que mastiga e regurgita
o dia todo. E nunca cansa.

Estúpido. Pirofagistas arremessam malabares para o alto


a multidão aplaude. Ofega e vibra
ovaciona o grande Circo do Sol
e o povo é grande, e o Arc de Triomph
está cheio.

133
Liberdade
Igualdade
Fraternidade
mãe da volúpia
mãe do cinismo
mãe do adultério.

Mães do desejo, afinal.

o pássaro agoniza em meio à avenida Champs-Élisées.


a multidão pára. o mundo cessa.
um trino escapa. como um suspiro.
e fecha os olhos.
e enfim fenece.

134
A garota dos fósforos
Dedicado a Hans Christian Andersen

Na cálida e gélida noite de inverno,


A pobre garota vagava na rua;
Esquálida e tétrica, treme de frio
De frio que estava, não soltava um pio.

Descalça gelada com os pés sobre o chão,


Pedia ela a todos por compaixão;
Despida encolhida tremia de frio,
E a todos clamava um pedaço de pão.

Entre suas mãos calejadas de dor,


Jazia em descanso uma caixa de fósforo
Presente da mãe que jazia no além
Vendia em pranto seu último bem.

"Mas fósforo, fósforo, quem vaite comprar?",


Dizia a garota para dentro de si
"Carrego a ti nessa rua escura,
Seguro a ti em minhas mãos frias, duras!..."

Então resolveu acender só um deles,


Tentando em vão aquecer a seu corpo;
Tentando lembrarse da mão que o acendia,
Tentando pedir à sua mãe um socorro...

Ela vê, dentro da pequena chama,


A face dourada da querida mãe
Concreto e cimento cercavam a dama,
A cândida e pura que tanto a ama.

Ela tenta agarrarse à face da mãe,


Esquece o frio, a dor e a fome
E grita "Me leva daqui minha mãe!"
E, ao que toca na chama, a face se some.

Em êxtase acende mais outro fósforo


Esperança de ver novamente sua mãe...
A face da mãe é rala e some
Na dança do vento iminente da morte.

135
Desespero estremece a pequena dama,
Acende a caixa de fósforo inteira...
Vê a sua mãe em uma grande chama,
Vê um grande clarão a embalando na cama...

E a Mãe, a Mãe de todos os pobres,


De todos os Filhos de nossa Nação,
Envolve a garota em panos Ela a cobre,
Aquecendo a sua alma e seu coração.

Então tudo some, a garota em riso,


Está ela na rua, corpo roxo de frio.
Ela deita no chão, e ela jaze em paz,
E a cidade retoma o seu triste destino.

136
Brutus

Por tanto amar por tempo quem a ti desgosta,


Tanto jurar aos céus promessas sem razão,
Sofri! e, agora, entendo a Farsa, Enganação,
Ter um punhal à mão e uma adaga, às costas!

Por todas as palavras que expeli, maldito!,


Tanto esperar, de tua voz, suave alento,
Recebi eu somente escárnio e sorriso ,
Ter um punhal à mão e uma adaga, ao peito!

Por tudo que jurei, maldigo! e cuspo em ti,


Maldito algoz, inconsequente instrumento
Ungido finalmente aos místeres da Morte;

Por tudo aquilo que te amei, sofri senti!,


E, agora o sei, foi minha carne teu sustento
Ter um punhal à mão e tua adaga, à glote!

137
Matrimônio

É noite. O sorumbático errante,


Simpático apóstata ignaro,
Sufoca a glote em paladar amaro,
Inala olores tantos repugnantes.

O cão, ao pressentir a frágil presa,


Espreita pelas frestas de seus olhos.
Fareja o homem, seu medíocre espólio,
E o que restou de si, à mor crueza!...

O lance é resoluto. Num segundo,


Avança rumo ao podre maltrapilho
A arreganhar suas presas salivantes...

...destroça sua garganta e aspira o fumo,


Vapores de amores – o andarilho
Deitouse, a Morte e ele como amantes!

138
Confessionário

nos degraus, negros e brancos


dormem. não há marquise.
Figuras alvas descendem do céu
ao chão. Mãe. Filho
; despertam pálidos perante a imagem crua

- cadáveres vagantes. insepultos.


Apodrece. desmancha-se a carniça
. em
. fa
. re
. lo
.

: dizem
- Vinde a mim as crianças
, pois delas será o Reino
dos Céus.

Lambem as carnes dos beiços laivosos.


velhas gengivas. não há arcadas.
Sentadas. pelo ar.
planam pela nuvem de seus sonhos
grandiosos. dourados.

Agarram-os, brancos e negros.


Somem. como nunca existissem.
centúrias calvas. sementes de Jó.

Serpentes.
esmagam seus sólidos crânios.
extraem seus frágeis miolos.

: e dizem
- Não
nos deixeis
cair em tentação.
mas livrai-nos.
de todo o Mal

. Além. alguém escuta gritos.

139
gemidos.
sussurros.
suspiros.
deliciosas árias aos ouvidos

. surdos. É como seguem


os uivos mudos que ecoam pelos quadros.
relicários. pelas paredes.
- pela Cruz.

Rubro. de negro. recua.


arreganha seus dentes amarelos
e ocres. e podres.

Deliciam-se.

Ainda rijo permanece o membro


. infante. imberbe. Ofegante
, sorri
seu alvo amante.
em fúria. luxúria
. em gôzo
, soou o sino.

Retorna ao claustro.

"Dorme, coração de ninguém"


: sussurrei-lhe. Cerrei sua porta.

140
João

Ao nascer João um estúpido infante


Tanto que em pleno parto o médico dissera:
Escuta, mãe, aborta este demônio errante
O mundo, democrático, o acolhera.

Singular, sim pois o João nunca aprendera


Em escola nenhuma o ato do respeito,
Crescera escolado meio a putas, restos
Recobertos de uma escória do Universo.

Ai, João desdém recobre a tua carne


Contorcida por mais mil lágrimas de sangue!

Cegas são as mães pois a de João dizia:


Filho, sai desta malograda vida torpe,
E trata logo de escolarte, oh peste!,
Antes que os ventos duros deste tempo agreste
Tratem é logo de vir cá ceifarte a sorte!

Acreditava fortemente em tal idade


Precoce e cruelmente em João percebida
Que logo aos onze anos o jogara à vida
Alienante, nua e pobre da cidade.

Ai, João desdém recobre este teu cerne


Contorcido por mais de mil promessas cegas!

Tratou a urbana vida de acolher o homem


Tal como a todo homem sempre acolhera.
Não cobra a estadia apenas se apodera
De toda a vida inteira e inteira a consome.

João não é o primeiro e, nem tampouco, o único


Petisco do animal a Sociedade Urbana
Antes do mais, vivera ele pobre e sujo
Por custear a uma burguesia insana.

Ai, João além da morte a qual te cabe,


Malogra não tua vida, mas dos que te regem!

João é mais um desses perecíveis seres

141
Não sou eu quem o diz, mas sim a Sociedade
Que, ah por sim, está errada em toda base:
Havemos de acordar para problemas estes!

João é mais um destes que Tu acolheste,


Deulhe o Nome, soberano: Liberdade.
Porém, ao nascer pobre, resta a vontade
De, revoltado, perguntarse: Que País é Este?...

142
Pandora

Fôra aberta Pandora,


Negra ânfora, cheia
Talvez de uma centelha
Que me falha agora.

Oh Senhora, perdoa
Fugaz língua imunda
Que, em frases, inunda
O meu Mundo de dores.

Digo, sim, fui tocado


Sem nem ter ensinado
O segredo da sorte.

Imortal, é meu pranto.


Cobrirá, com teu manto,
O negrume da Morte.

143
Oráculo

Se oculta à mente um vasto pensamento,


Um devaneio; um gesto vago de loucura:
É, já desperto, destro, o arrependimento
Arrefecer de minha mente, casa escura.

Iluminura antiga, fúnebre, nefasta!,


Arremeteis a mim tal julgo imperioso,
Jogais, a mim, de mim, clarão misterioso
Impondome a infinda sina de Jocasta!

Razão. Os mares de loucuras acalmaram,


Esqueceram. Calaram, em divino leito,
Feito, fato que eu jogara à própria sorte.

Norte. Os frios pálidos em mim cessaram


E sorriome não um cálido deleito,
E, sim, um último arrepio: vem, oh Morte!

144
Afrodisíaco

Por meio de teus vítreos olhos de oceano,


Em pranto quedase o Ser e, num segundo,
Do solo brota teu sentir... então, fecundo,
Semeia alento ao outro e, a mim, semeia engano!...

Por vil, teu pétreo coração não mais padece:


És tu feliz, em teu delírio belo e lírico!
Ao Letes joga tua nau! Oh, amor cínico,
Ao que singrares logo ao porto, Amor te esquece!

Por meio de teus vítreos olhos de cinismo,


Por tua boca a exalar falso lirismo,
Ao cerne ages por teu ego demoníaco:

Sorri, infante! E, em teu sonhar paradisíaco,


Enxergais vós meu corpo nu o afrodisíaco
Aos vossos olhos de enxofre e de amoníaco!...

145
A Theos

Sei bem, oh Pai!, que os erros já passados


Já enterrados são em seu jazigo:
Visitoos nos dias de Finados;
Visitoos e soulhes, ora!, amigo!...

Amor que amarga flecha, a de Cupido!


Qual egoísta intuito anima à alma,
Qual meretriz qual puta! tira a calma
Do que tínhamos antes por abrigo?...

Tramar, nos tenros idos de meu berço,


Cingirvos todo em si, tal ferro ao aço!
É sina, em vossa prole, o erro crasso!

Pois: refletirme em ti faz caro preço:


Se espelho meu futuro em teu fracasso,
Sei bem ser curto o tempo e escasso, o espaço.

146
Cânula

Vejo, nos sonhos, numerosos verbos


Extremamente, muito indesejados...
Pratos exóticos e indigestos
Por mais rotos temperos temperados.

Por pontos, bem ao longe alumiados,


Vagos, bruxúleos dentro da penumbra,
Nuvens marejamme, anuviado –
E, quando acordo, vejo coisa alguma.

Meu deus, que é este borrão nefasto,


Caramanchão negro e flutuante
Que cede e concede travessia?

É pão, é trigo, é vasto chão; é pasto


Tão devorado por cordeiro errante,
Ser dominante, ignorante, dominado.

147
A meu filho

Se erguem ao som das baionetas


Celestiais trompetes rubros
Dos fulgurantes mil cometas
O meu espanto é oriundo:
Eriçamme os espinhos de uma dor profunda
Saber ser de uma raça mesquinha, imunda.

Doce, o aroma da manhã,


Naturalmente enebriante,
Emana, em certa forma, vã
Fragrância de calmar constante:
Respiro hoje e, me surpreendo engasgo
Talvez com restos de humanos decepados.

Ao som de arcanjos em batéis divinas,


Pífanos pulsam palpitosamente
Rajadas petalares excelentes
Em notas fragorosas, decididas:
"Somos um só, somos um Deus, somos seu Rei
E da Mentira, como bastião, a Lei!"

No infinito mar que em céu fizeram


Banhando de luar, de esperança,
Reflete o olhar de mil crianças
Plácidos de uma compaixão sincera:
Rondam as almas, perambulam pela Terra
Esfaqueadas pelo aço desta guerra.

Acordo ao silêncio de uma manhã fria


Ao irromper o trino mais concomitante
Dum animal de ferro, de tal gelosia
Imperativa, esquálida tetrificante:
Solta golfadas vermelhificantes,
E ainda arrota uma arrogância infame!...

Isto tudo impressionava


Até ao mais cego deste mundo
Mera ilusão! Homem estúpido,
Acaba de uma vez com tudo!
Ria bastante, oh folião obtuso
Destas mil mortes que estão em uso!

148
Faltame a voz, chega a rouquidão
De gritos meus, sim, nunca mais falados...
Perco esta voz, morro na solidão,
Mas eu não peco por viver calado!

Ao som das balas, dos tímpanos agudos,


Cretinos brindam, riem, elocubram
A desgraça deste mundo torto
No cadáver de um tudo morto.

A tal cenário fica então bem registrado


O meu sincero cumprimento mais profundo.
Qiue morra de petróleo o verme engasgado
Que está tingindo de vermelho todo o mundo!

149
Ao Natimorto

À fria noite, fuime eu ao necrotério...


Oh, lugar plácido!... é onde enfim ressona:
É onde o Sol enfim se põe – e a Lua sonha
A alimentar a chama azul do cemitério!

É como bálsamo ao peito... flui, errante,


Vertendo como infinita água em fonte
O triste pranto que escorre pela fronte
Da mãe ao ver seu natimorto filho infante!

Em um instante, recuei... – horror! À frente


Repousa sobre a fria laje, inerte, um corpo
A me fitar, com seus dois olhos como em flor...

Sufoco assim de minha boca um grito ardente,


A me prostrar então tal qual demente e louco,
Por descobrir senão assassinado Amor!

150
A Morte de Cupido

Alado infante de baliste em riste


E julgo da eterna inocência,
O Amor, em suas flechas, coexiste.

Se voa, belo, voa em cadência


Una ao elemento, à Natureza
Cedendo candos atos de decência.

Pois sagrase Cupido de avareza,


Dizse a dama triste e malamada
Donde ao rosto esboçase a crueza.

E diz também o homem que tem Nada


Em forma de Amor acalentado
Ser o Cupido alma desgraçada.

Pois que Cupido, ser mais desgraçado


A alvejar a esmo, sem destino,
Põese a brincar de um anjo alado.

Põese ele a alvejar, num desatino,


A Inês, Catulo, Horácio; a Virgílio
Morde, antimorde, em fel canino.

Amor consome sempre o solar brilho


Cego, infindo, incompreendido.
Amor, a todos triste andarilho:

Pois sofre de Amar, de ter pedido


Amor eterno, etéreo e absoluto,
O Homem, em si só, no mais, perdido.

Pois mesmo que Cupido, irresoluto,


Escolha ao Homem flecha torta, turva,
Devota ele, a vós, amor augusto.

O cego de Cupido, triste e morto,


Fazse ao jus; e, aos pés do nobre errante

Ou de Aquiles, tem eterno Porto:


Posto que, em mim, morreu o infante.

151
Morte de Amor

Morreu o anjo Amor, apóstolo invalido...


Ah Deus!, pois nunca têlo e, pior, deixado;
Por sempre e sempre a mim cupido ter negado
A flecha etereal e, o verbo, nunca tido.

Morreu o Anjo à tua lápide o atiro...


Ah!, teus murmúrios póstumos retumbam; claro
Pelo pesar que sinto em, vivo, enterrálo,
Pelo morrer que, afirmo, junto, me retiro.

Morreu à trilha de teu sangue é deixado


De meus sofreres um véu pardo, amargo, azedo
Por têlo, cri errado, e, certo, já perdido.

O Anjo Amor morreu, ajuda! Não! Ilhado


Deixa o feto morto; parílo é engano lêdo.
Morreu Amor Adeus! sem nunca ter nascido!...

152
Hermes

perseguem-me os olhos malditos...


vigiam-me; à noite, as luas
embalam os sonhos e, nuas,
seduzem o corpo faminto!

devora o célere verme!


silente defunto... aos berros,
porém, surge o espectro de Eros!
...aos mandos do célebre Hermes

perseguem-me à noite as luas;


vigiam-me os sonhos e, nuas,
embalam os olhos famintos,
seduzem-me o corpo maldito!

devora o defunto... aos berros,


silente, o espectro de Anteros!...
porém, surge o célere Hermes
aos mandos do célebre verme!

153
Vício

Trapilho estrambólico,
Magrelo esquelético,
Don Juan metódico,
Homem patético;
Acabamse as sílabas,
Mas não a fonética
Do ser tão simbólico
De sorte incrédula.

Nasce aqui no pórtico,


De família riquíssima,
Escolas empíricas,
Romances pasmódicos;
Mas, como de súbito,
O ser já tão lívido,
Sem menor senso púdico,
Num dia fatídico,
Perde seu todo escrúpulo –
Trai seu amigo.

Em mil metonímias,
Derrete em pilhérias;
Que, elas tão únicas,
Soam como bela música
Que encanta e seduz minha musa.

Ela, ingênua,
Tão fraca, romântica,
Cai em seu tom tão químico;
E, tal como o cínico,
Tem título próprio:

Ele, o ridículo,
Ela, seu ópio;
E portanto meu vício.

154
Sangue

Me corrompe a sua falta, a sua derme


(não a tenho, mas a sinto); é frio...
Dóime, à falta de amor, o brio
Dos lábios que deixei em fronte ao cerne.

Minhas volúpias, ora sim, não o sentem


Neste cálido inverno que, ora, chega;
Nesta cancra carne ronda a chaga
E expurga, deste antro, todo o ventre.

Enlameiome, enfim, ao sujo manto


(sujo de ar, de vento, terra, sangue e carnes)
E espero sendo, enfim, o tempo amorfo.

Cobriume a doce chaga, o doce cancro


Vindo a mim e, em mim, pleno, a enlamearme
Dizendo: vem!, e não o vou e, assim, sangro.

155
Cruz

Seis corpos se desprendem de seu chão


de suas ideias. rumo ao vazio.
Numa lareira, o fogo estrala
crepita, lânguido e obsceno
Chamame com sua língua.

Noutras casas, não brilha


e nem aquece mais.
Há tempos
e tempos
aqui.

Escuro. Como todo passado


oculto abaixo dos olhos do presente.

dorme numa noite sem estrelas.


, disseme. E apagouse a chama.
Oculto. E nada transparece
em lugar algum, nem nunca.

A bile negra move suas máquinas de sal e moenda


O sal da terra é muito, poucos consomem.
Fartamse outros poucos. Parece sempre justo.

Pequenas cápsulas destroçam vísceras humanas


ao longe. não te preocupes.
Crescentes, cruzes degladiamse
a arena é cheia, o Imperador sorri
e, da tribuna, antigos mitos ressonam pelo peso das
eras.

Pés atados
Mãos atadas
rentes à vigamestra de meu querido leito.

Ergueuse minha cruz.

Perfeito
, disse o carrasco a seu novo aprendiz.
Sou minha cruz. Pergunto a Jó
se é do avaro o direito à vida eterna.

156
Será dos mortos a terra,
tudo que dela nasça,
tudo que nela viva,
tudo que nela pereça.

Seis corpos se desprendem de seu chão


, rumo ao vazio.

157
Sonata em ré menor

Ao som do cravo chora a linda rosa


Sendo tardio o arrependimento,
Ao menos sana com o linimento
Do chôro a ferida de sua alma.

Jubilo a consciência em vingança


Mui vil e demoníaca, confesso:
Teu padecer é meu sorriso expresso
E meu desejo é verte em ruína.

Papéis inverto nesta trama, sina


Podre encarno a minha veia sádica
Desejo louco que espalho em prosa.

Teu dissabor em vida me fascina,


Assim tocando eu sonata trágica
Ao som do cravo chora a linda rosa.

158
Pausa

Uma ambulância grita em frente ao forum e à adega


carros roncam detrás da passarela de pedestres
listrada em branco e piche.

O vermelho do chão reflete o verde dos semáforos


e das ideias. Perseguemnas as crianças fardadas
que brincam de guerra e ainda ecoam longe

da passarela, a gorda suspira


e recorre aos balsâmicos amuletos seculares que carrega
consigo

em vão. Mas disso ela não sabe, é segredo.


Se entrelaçam restos de entranhas e metal
ainda fumegante sobre a pista.

Sobre a faixa, uma carcaça humana.


Sobre a calçada, devoramna os olhos famintos.

159
Água

Nuvens negras poluem os céus azuis


agora de amianto. é escuro. não chove.

Secaramse as águas.

lá embaixo, lá no fundo,
porém,
não sei por quê parecia brilhar.
um poço.

olhos azuis me cruzam o olhar


me olham. me perguntam.
o que há de errado?

e eu os respondo com meus olhos


a plenos pulmões mudos:
nada. E tudo.

160
Respira

O tempo sem tempo te apressa


Com pressa, e corre depressa!
Atrasa, em casa, na rua
É minha, é nossa, só tua
É tempo; n'aguento, sem essa!
Acolhe, escolhe, socorre
A seca, a guerra, a fome!
E corre que o tempo se acaba!...
Girando, as horas, minutos e dias
Tardias, que se podem;
Um bode, um bezerro, uma cabra,
E corre que o tempo se acaba!
Sem tempo sem tempo sem tempo
Correndo e remando contra a maré
Progresso em sempre a marcharé!
Não fique nervoso se acalme
A ordem agora é jogar napalm;
Se corro não chego a tempo,
E se paro ei sem[re me atraso!
Convento cimento jumento rebento!
Corre senão não me aguento!
Maltido pedinte marrom,
Café! Chocolate! Bombom!
Buzina só com vitamina,
Farol e buzina e fomfom;
Olha que eu te atropelo
Moleque, seu pédechinelo!
Rotina rotina rotina
Retina retina retina
Até a menina de meus olhos se cansa...
O calmante, laxante é cafeína,
Alucina alucina alucina!
E olha que o tempo se vai,
Olha pro chão senão você cai,
Caindo, rodando no chão
Todo dia lutando por pão
E roendo uma simples migalha...
Até que por fim só te resta a fornalha!
Agora pra ti o tempo se foi
E eu tentei te avisar de antemão;
Ordena, cadeia, rodeia

161
Que por fim o tempo parou
E tua vida aqui acabou.
Logo após terminar o sermão,
Te abençõo e tampo o caixão!...

162
Banco Central

O patrimônio do Banco Central


precisa de novosgerentes. É imperativo:
a vida não existe sem água,
as engrenagens do Grande Mecanismo necessitam de
seu fluido

etéreo. Eterno. Esterco


fertiliza as amplas planícies de terras revoltas.

Inverno. À frente do Banco Central,


soldados marcham com suas ondas telepáticas
sorumbáticas
à lateral da ampla Avenida Central.

suas floreiras, murcharamse as flores


e morreram. Removeramnas, e pronto.

Sobre o frio solo de concreto,


um papelão suporta o peso de um homem
barbado. Ele tem câncer no cérebro
e um branco véu celeste opaca o lume do Sol
e a luz da Lua da menina de seus olhos.

ele não tem dinheiro


nem nada. Nem cão.

Um patrimônio móvel do Banco Central


vestido de preto
vestido de luto
trajando seu berro cingido na cintura
ao lado do membro viril.
Também é pobre, mas não miserável
tem esposa, dois filhos e três televisões

e outras coisas. E o membro viril


e o berro.

Sorrisos e escárnios à parte, soldados marchavam


Ensimesmados em marcha única
Em duas vias. Não há outro caminho.
Não é possível. Não é viável. Não é concreto

163
como o frio e duro solo sobre o qual o papelão trabalha.

No Banco Central não pode,


disse um para o outro,
suas mãos falam com o ombro do outro
e nenhum outro falou mais nada.
Estavam ocupados marchando, afinal.

164
A Máquina

engrenagens incessantes rangem pelas Eras.


contínuas. ininterruptas.

Dentes.
Dentes.
Dentes.

movem-se.
encaixam-se.
preenchem suas cavidades. lubrificam
Orifícios.

transpiram lascívia e ocre diesel resinoso.

Pressões internas revolvem caldeiras


- alimentam-nas ventos,
Palavras
. Alumiam em fulgor
a grande
Pira.
- , suas centelhas incendeiam pelos ares.

Geme o Alarme Central.


Há incêndio
nos porões de arquivos. mortos
já há muito. Mas persistem.

Resistem polias e gonzos.


labaredas fumegantes. lambem seus rostos
de cerâmica e cinza vulcânica. - É fato.
jamais retorna ao fogo
o que há muito apartou
- Se. em mil diversas partes.
ao despencar do alto ao baixo.
haste fumegante. cordas de cânhamo.

resistiria a estrutura ao grande incêndio?

- Não
, disse categoricamente o Diretor
da Brigada de Incêndio. inoperante.

165
Imperativo. cerrou as entradas.
lacrou as saídas.

Operários agonizam sufocados por enxofre


dióxido. Tóxico
, dizia o Manual. Alertava
- é perigoso. Tem cautela.

Ácidos corroem toda carne


ainda fresca. ainda viva.
Ainda escorrem fétidos e negros
pelas grutas ocultas das engrenagens.

Cessaram as sirenes. o fogo extinguiu


- Se. houve alarde algum,
ninguém mais soube.

Silêncio.

Irrompe pela Máquina um grande estalo


metálico. frio.
mecânico.
Lumes do alto projetam duas sombras nuas
pelo soalho do saguão. sobre os cadáveres.

É meia-noite. Silêncio.
Ressonam juntos os ponteiros.

166
Metais

Invejo a gana humana por estado


social, pseudohumano elevado; julgo
O vil poder que tal metal dourado
(seja em bruto ou em refinado estado)
O sutil mel à boca dos malgrados
E mais vil cancro à expensa dos fidalgos.

Invejo as bocas, pernas, pés e mãos


E digo, invejo o puro e sólido ensejo
Que leva à busca do homemmédio à prata,
(não sem ser tal vassalo imperial)
Ao porte, ao prelo, à prole, enfim, à Pátria
É ignorante e estúpido o animal.

Invejo ao homem todo ilharga e sabre,


Ressinto em dolo ao homem cujo sobre
À nobre e nova causa nada sabe
E, mesmo assim, mata e vive pelo cobre;
É pelo opaco brilho que lhe ofusca
Às vistas; custa que lhe a fúria aplaque.

Permite que meu cerne e meus achaques


Nada infiram em tal cadeia, etereal.
Mas crerá quem, enfim, em mundos martes
Enquanto já em cá é hospício infernal?

Dóime; e, eu sinto, falta algo aos ociosos,


Registro evoco e não em tal premissa erro:
Por vã cobiça, oh animais!, irão sentir ao
Ferro, ao Aço e aos secos fetos mortos.

167
Pecúlio

Onde te escondes, companheiro de infortúnio?


Será talvez que estás oculto em canto imundo?
...ou estarás quiçá legado ao outro mundo,
A deleitarse em esbanjar do teu pecúlio?

Oh companheiro de infortúnio, onde te escondes?


Será que estás onde repousa o encanto lêdo,
A ressonar e a anoitecer?... enquanto é cedo,
Será que estás a balouçar por trás das frondes?

À angústia impelido e por temor tomado,


Em vão prossigo a perseguir teus gritos surdos
E, em desespero, ao peito urro o teu vão nome...

Domado, avisto o rijo tronco horror! , formado


Por tuas vísceras suspensas... e dois turdos,
A exalar enxofre, ao alto te consomem!

168
Theatro

Malotes.

Papéis escandalosamente valiosos


. variados. viciados
. preenchem fardos de linho.
Carregam-nos escravos de luto
. escolta. armada.

Um homem escuro de preto


suspeito
aguarda do lado de fora
do carro. oculto
, é negro
o véu da noite.

Olhos amarelos espreitam a presa


ao longe. solitário. silêncio

: seus lábios fremem


, sua boca saliva
, seus olhos perfuram
. devoram vorazmente o predador
, os bandos de chacais famintos
. seguem em bando. jamais sozinhos

- pois são covardes


, berrou primeiro o cano. baque
. calou-se. fumegante
, o chumbo penetra a carne tenra e rubra
. sem figura. esfacelo.

Seguem-no outros.
. baque
. baque
. baque.
Cessam os berros.

Calam-se todos. cadáveres


sem víscera. sem rosto
, cascatas vermelhas escorrem dos degraus
, de ardósia opaca rumo ao piso

169
. de carrara. escorrem
, bueiro abaixo
. vitoriosos. vítimas
, vivas. vítimas
, mortas.

Brilhos alvos reluzem


de seus dentes. do malote
, picotes de tecido em mosaico
salpicam as poças de sangue.

Hoje
, vence a presa.
Amanhã
, não se sabe.

170
Inconseqüência

Num ato inconseqüente, talvez não pensado,


Inesperadamente é preparado o bote
E não tão somente é ele posto à sorte
À deriva, consciente, em mar gelado.

Que a luzidia luz do Sol não seque as tripas,


Nem que a mais esguia fé por Deus! te escape
Reza a burguesia, dubiamente, como mantra,
Nesta moradia enclausurada. Humana
É a filosofia, um dia, de resgate
A, talvez, mais fraternia e quentes mares.

Do peregrino, ao porte, o estandarte,


Ensino diferente, a fome move
O sino, é o combustível que consome,
Nos acordes, hinos, toda a carne.

Num demente destino a vida é ciclo


Segue a fidalguia, quente, em mar de gelo:
Explora a miséria em finos elos,
Lhes move o grito árido, badalo dos famintos

171
Animália

Na peçonha venal da nulidade,


Ocultase, por meio de artifícios
Rasteja, liberando seus resquícios,
A chacoalhante Naja Falsidade.

Se embrenha, em pântanos alagadiços,


E, a bem dizer, rondando a pureza
Um ocre visco, nome Avareza,
Sanguessuga enlameado, roliço.

Se, ao fugir, não tardará, meu caro,


Ao LouvaDeus das Falsas Profecias
Mestrarlhe os Atos de um Novo Messias
A desviarlhe ao caminho errado!...

Por fim, em bando, o Grilo da Mentira


Não tardará, em âmbito voraz,
Por digerir tudo que é capaz,
E vomitar, por fim, mil utopias.

Ah, não Senhor!, não errarei no Julgamento


Que, mui criterioso, faço dos Humanos.
São muitos esguios, venenosos, traiçoeiros
Quero distância de quem suga meu maná.

Por fim, imundos porcos são os Homens,


Assim, na culpa do pecado em toda a Carne.

Se existe um Deus, acaso, neste mundo,


Da Natureza o Criador, sobreHumano,
Fizera ele o mais lêdo engano
Ao ter soprado o Barro demiurgo.

Devia é ter aniquilado a Raça Humana,


A Criadora da mais vil fauna urbana.

172
Final irresoluto

Naturalmente, pois, há de cessar um dia


O eterno inferno inferior reduto
Aos mais criminosos atos de uma mente
Cujo pudor da sociedade, inconsequente,
Fizera do pensar um ato irresoluto
Do qual o Demo faz eterna moradia.

A terminal micose desta halopatia


Untada a bases seculares, recedidas
Por tradições morais de uma eucaristia
Já em concepção fundada em hipocrisia
Mantém fiel em tolas formas mil feridas
Capazes de tais alcançar cem mil sangrias.

Nao é de um poeta o falar mais claro


Esperado, com certeza, à multidão.

Não cabe a mim, o escritor, narrar os fatos


Mais mentirosos ou eternas fantasias.
Antes de tudo, cabe é ao mais sonhador
Correr, gritar arfar por mundo mais clemente.

Ao fel mais sufocante, à vida, ao amargor,


Defenestramse os inconformes mais dementes.

173
Mulher cretina

Antes tivesses tu morrido, oh mícrona,


Porca seria a imagem do descanso
Donde a vida cessará a morte, a peste, o cancro
Serão teus companheiros, já que até os vermes
regugitam
na.

Antes tivesses tu morrido, oh feto,


Ao fato de mais um ano teres completado;
Nasceu és lama, és ínfimo escarro
Que a vagina podre de tua mãe havia vomitado.

Cadáver esculpido, donde o mofo faz abrigo,


Demônio de mulher, com tua ruína me alimento
Resto fecal, antes tivesses tu morrido
Que te deixasse a mãe nascido, oh excremento!

174
Lagar

Assumir, de fato, ser a Poesia um fardo


Nesta vida enfadada sim, aquiesço;
Respiro neste ar o aroma abrilhantado
E, portanto, inspiro e, ao expirar, esqueço.

Portanto adoeço grave é a moléstia,


Em prenderse nos meandros inconformes
Destas rimas, quadras chatas, indisformes,
Sufocantes, claustrofóbicas e fétidas!

Melancólica, a vida do escritor, poeta


Amargurar por sempre, sempre escrever
Comer, beber da Inspiração, rio virtuoso.

Tem por certo, em sua sina, sua meta,


Embriagarse em cântaros, sem ver,
Que, ao morrer, numa canção bóia seu corpo.

175
Fruto

Um brinde ao cálice sagrado que, divino,


Aos lábios verte o véu amargo e acre em gosto
Brindemos nós por toda a noite! e, ao desgosto,
Choremos nós em pranto puro e cristalino!

Convido eu a ti, meu mais fiel amigo,


Tomado já pelos vapores mais constantes,
A um brinde em meio à grande Terra como errantes,
Seremos uno! Vem, e brinda aqui comigo!

Um brinde! Ao alto ergo a mais ferina taça


E em azáfama a verto dentro ao peito,
A antever ante a meu ser mais plena graça:

Que o veneno intravenal então desfaça


Aquilo que há muito já está desfeito:
Te cala morto, oh! fruto podre da desgraça!...

176
Colheita

Se assim penso, que enfim a foice tolhe


A mortalha negra, negrume enfindado,
Cessame logo a vida e, como confinado,
Em paletó de mogno meu corpo se recolhe.

Quedarse em pensamento pleno, uniforme,


(embora temporário, este linimento)
Emplasta à ferida, em sangramento,
Assim expondo à mente, demente, em fome.

E ao buscar, desesperado, por fonte, alimento,


Sem muito indagar o donde, o quando,
Nem o santo mais profano, sim, te salva.

Ao viver um dia, vivese um momento


Que, em tempo, é o agora o mando
De um futuro que, amanhã, se acaba.

177
Resígnio

Passo pela cova de um defunto


E me passa um pensamento bem vago:
De que quando eu estiver um moribundo
Acabarei em um buraco bem profundo.

Quando a hora de minha morte chegar,


Espero que ela ceife logo a mim;
Não quero que minha vida leve um fim
Doloroso, demorado, devagar.

O coveiro, meu último guia,


Conduzme a minha mais nova moradia,
A profunda e escura cova dura.

Me cobrem de terra,
Em traje de guerra
Em minha derradeira formatura.

178
Coerência

Intravenal, este anabólico sufrágio


Navega aqui, inconsciente, em mil artérias
E, empiricamente, tomame aos átrios
Antes vazios ante à abismal matéria.

Cohabitante, és metabólico partindo


Tantos preceitos infinitos, dogmáticos
Que, em tom etéreo, absoluto, pragmático
Transpora por meus poros, vaise esvaindo.

Por sorte digo que, assim, propaga algo


Infundado, mui incoerente, hipnótico,
Acompanhandome até meu epitáfio.

Ciência e Saber, mas que pesado fardo!,


Instigandome a ações, sentidos psicóticos –
Livraime desta droga, maldito Esculápio!

179
Confinamento

Dormente, oh inconfundível diplomata


Apoderarase tua mente de teu todo;
(entorpecera em pensamentos neuropatas
a fantasia anunciada de teu sonho.)
Mantém refém da inteligência a tua alma,
Detém, além do inconsciente, um ser morto:

Aborto, feto deste sentimento. (Alguém


eternamente confinado, sou ninguém.)

Avista o homem pelo céu quadriculado


(mais do que nunca, desejando ser um sonho)
O horizonte, nunca dantes alcançado
Pelo que cá chamo de olhos, tão tristonhos.

(simplesmente é infinito, vasto, inacabado...


tamanho é o espanto que então me ponho
sentado ao chão batido, a pensar, constante,
e pondome a voar em mar tão navegante.)

De Liberdade os roucos gritos meus são mudos


Neste Universo já tornouse como sina
Ter aos lábios costurados e, aos ouvidos, surdos.

180
Eixo

De quê importa a mim se, lesto ou lento,


Em meio ao eixo ainda gira o Mundo?
Quê importa isso se, a cada segundo,
Não mais à face soprame teu vento?...

De quê interessam, quentes e distantes,


Os teus já mornos beijos?... em momento,
Senão alentos frios por instantes
À minha alma sanam como unguento!...

Ascendo então ao cume mais agudo,


A desejar voar, tal como um turdo,
A arremessar ao chão meu grande ego;

Ao mundo façome silente; e, mudo,


A meus ouvidos cerro e, assim surdo,
Atirome ao abismo feito cego!

181
Filosofia

Viver – palavra mais que relativa


É tênue, vulgar em absoluto;
Lagar, corrói o tempo, onipresente,
Mantenedor de nossa forma: Tudo.

Saber – ciência plena do indivíduo


Que, sendo humano, é consciente.
Ávaro, de um pensamento promíscuo,
Prostituia, a sua própria mente.

Crer – filosofia vã e abstrata,


Aclamada em recantos suburbanos,
Arcaica, sim, e muito ultrapassada.

Orar – um mal arcaico, rescisório


À Razão de séculos infindos:
Viver por Deus, o Nada!

182
Elipse

Sou como cobra em escaldar deserto,


Eurastejante, como quem suplica
Não do pesar de ter alguém por perto,
Mas de morrer por se ser quem aplica.

Sou como rato em labirinto imerso,


Triste é o Universo, estepes curvas;
Não do pecado ainda réu confesso,
Mas já em mar, por terme às vistas turvas.

Sou como aranha em teia inextrincável,


Emaranhada, grossa, pegajosa;
Tal é a união inexplicável
Em existir em trama mui viscosa.

Sou como mosca em pútrido dejeto,


Donde, à morada, olor pior não há.
Assim aspiro eu a ser objeto
Marionete único, sem par.

Sou como larva em corpo morto infecto,


Tal humilhante éme a nau hospício
Dos vapores, dos calores; dejetos
De bases corroídas ao princípio.

Sou eu como o nada microscópico,


Parasita, ameba, câncer, bactéria
Dotado em qualidade ser amórfico,
Moldado ao necessário da matéria.

Não!, é mui pior que isto; sou humano,


Sou nômade, carente, pecador, volúvel,
Louco, invisível, indizível insolúvel.
É à natureza humana a mais vil mestra em desenganos.

183
Tríade

Ao déspota carnívoro e assassino,


Tirano que, em Tríade, distorce
Calendas milenares de assassínios
E outros tantos feitos tais retorce
Pois que, em pleno trono em Teu exílio
Das nuvens Tu negaste o próprio filho!

Sufoca e morre, oh Semideus pirrônico,


Em teu letal composto gás carbônico!

Oh! Monstro eterno, monge demoníaco,


Califa dos mais fortes, abastados
Mandriões, és Tu o escarro bastardo,
És fruto do enxofre e do amoníaco!

Pois que Sócrates, Platão e outros Teus


Morreram ao chamarTe, um dia, Ah!, Theos!

184
Chronos

Neverending nights without skylights


how sad and still!
Silence remains above all plains
nay sod but till!
Graciousness above is fairly gone
nay bird nay game!
Nay shall shine abright so fulgid Light...
- Am lone again!...

Lore is shed among the old and new


so told it were!
Gore is bled and still is mere a few
Through Night spured!
Love!, O! reddish ore!, so pure and rare
depleted raw!
Roves alone all through the damp and bare
Saturnian maw!

185
Perséfone

Sombrias éfiges espreitam pelo átrio:


Aguardam pela Deusa, pacientemente;
A deslizar à laje, lenientemente
Transpassa à tênue fronteira o solo pátrio...

Aonde foste, Oh!, delicada flor do Lácio?


Onde resides: será nEste ou nOutros Mundos?
Esconde ao âmago sentires tão profundos,
Responde a Quem ao cerne em Teu botão rosáceo?

"Sou de Ninguém; sequer alguém tomou-Me o Lar


Cá dentro ao peito, onde Amor não mais abriga;
Anoiteceu em Minha alma Amor, sem par...

De Zeus e Hera, desde ao ventre concebida,


Do Hermes célere Meu Eu jamais olvida...
- E ao Hades célero pertence a Minha vida!"

186
Cérbero

Ferais mandíbulas insurgem-se do escuro


Interior de seu covil... iluminado,
Sombrias sombras sobre o solo sem futuro
Projetam pálidas pinturas do passado!...

Bestas carnívoras desprendem-se do claustro:


Devoram ferozmente a carne deletéria
Ao segregarem dentre toda tua matéria
A primogênese de todo horror infausto!

Sussurros cálidos serão senão seus uivos


A ecoar por dentre a câmara profunda...
À presa o pânico completo então inunda
Como cascata a desprender-se em veios laivos:

Farejam ávidos suas vítimas - devoram


Lenta e penosamente os corpos... inestanques,
Suas melífulas bocarras vertem sangue
- Horror!, o odor senão do Inferno então exalam!

Navego, lívido!... à frente, uma carcaça


- Senão tuas vísceras ocultas pelo Érebo
Já destroçadas pelo hadeano Cérbero
Aos mandos de Caronte ao longe em sua barcaça!

187
Farewell

Fearful knights surround ye through all night


Restless knives abound me core abright;
Awful plights unleash all sorts of lore
- Nay but all me flesh as sound as gore!

Neverending nights do never glow;


All surrounds are damp as molten snow.
Emptiness ashore is sore – but now
Glims as waning Suns without Its claws!

Thy lips are but from Lust as lustful gnaw


As sinful bloody dust from first Eve’s dawn.
Do rest, alas! in thy twilighty grove
- Nay light so glimful dead shall bring me love!

188
Final Repouso Sobre o Descampado

Silente, tomo a ti em punho, cabisbaixo;


Ao solo, rijo e duro, deita o orvalho frio.
É o céu escuro e opaco e apenas luze o brilho ,
Sobre a terra, de tua lâmina de aço.

Amiga!, amparame, amargo, nesta via


Tortuosa, insalubre e muito amarga!
Sê tu, formosa!, instrumento a ferir chaga
Sobre este leito que, há muito, não vê dia!

Num brusco impulso, deito a ti sobre o relvado


E tu e eu, em pleno frenesi, cantamos,
A arremessar, por sobre os ombros, parca prova.

Ao brilho escuro do luar, ao descampado,


Perfuro eu contigo, amada!, e então choramos
Ao repousarmos, finalmente, em funda cova.

189


yuán fèn

190

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