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Rádio e memória: uma reflexão sobre a primeira FM no Rio Grande do Norte

Silvio Henrique Felipe RIBEIRO – Graduado em Comunicação Social – UFRN –


Aluno Especial do Mestrado (PPGEM-UFRN)
Luciano Ferreira OSEAS – Graduado em Comunicação Social – UFRN – Aluno Especial
do Mestrado (PPGEM-UFRN)

Resumo: Este artigo se propõe a resgatar a memória da primeira Rádio FM do Estado do Rio
Grande do Norte, a 96 FM – Rádio Reis Magos, e refletir como suas experimentações, erros e
acertos contribuíram para o desenvolvimento do rádio FM local e delimitaram um espaço
referencial que se firmou como meio técnico-informacional no mercado radiofônico potiguar.
O presente trabalho propõe-se a fazer uma análise e identificação das linguagens específicas
usadas pela Rádio 96 FM como articuladoras de processos de vínculos identitários. Para tanto,
recorremos ao Estudo de Caso como metodologia para análise do recorte temporal que
compreende os últimos 29 anos (1981-2010), valendo-se, entre outras formas de abordagem
do objeto de pesquisa, da História Oral como procedimento para coleta de dados, uma vez que
não existem documentos que abordem a história da emissora em baila.

Palavras-chave: rádio; 96 FM; história; memória; espaço referencial

Este artigo trabalha com lembranças e a memória de profissionais que atuam ou


atuaram na 96 FM – Rádio Reis Magos de Natal – RN desde sua fundação até os dias atuais.
Para trabalharmos este Estudo de Caso, é pertinente, em primeiro plano, considerar questões
1
relacionadas à memória. Halbwachs desenvolve uma teoria envolvendo memória apoiada
nas relações que a memória estabelece com o meio social do individuo, na necessidade deste
de viver em sociedade, extraindo da relação individuo/sociedade as bases para se pensar
memória. O referido autor acrescenta um dado abstrato na construção da memória: estamos

1 - HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Ed. Vértice/Editora Revista dos Tribunais, 1990.
sendo permeados por pontos de vista e idéias dos indivíduos com os quais nos relacionamos
em grupo.

O rádio é um meio de comunicação à distância. Ao mesmo tempo em que alcança


multidões, ele imprime em cada ouvinte a clara percepção de que é o interlocutor
privilegiado da comunicação. É como se houvesse a identificação, no meio da massa
de ouvintes, de um individuo em particular – cada ouvinte pode se sentir único no
meio da multidão (Piovesan, 2004, p.41)

Se há uma personificação do ouvinte, pode-se, nesse sentido, entender o rádio como


“um individuo” que estabelece uma relação de contato entre percepções de um “grupo” que se
caracteriza por emissora/ouvinte. Partindo do pressuposto de que uma emissora de rádio ouve
seu ouvinte, ou seja, molda sua programação a partir desta interação, outras percepções do
mundo participam e constrói novas percepções, na emissora e no próprio ouvinte.
Para podermos compreender melhor esse processo de interação no âmbito da 96 FM, é
pertinente considerar o resgate da memória para construção de uma possível história do FM
potiguar. Para tanto, o uso da História Oral relaciona-se diretamente com o objeto em questão
uma vez que ela recorre à memória como fonte histórica espaço-temporal. Diante da ausência
de títulos que abordem a história do Rádio FM no Rio Grande do Norte e, especificamente, a
história da Rádio Reis Magos (96 FM) de Natal, utilizamos a História Oral como
procedimento para coleta de dados.

Fenômeno individual e psicológico (cf. soma/psiche), a memória liga-se também à


vida social (cf. sociedade). Esta varia em função da presença ou da ausência da
escrita (cf. oral/escrito) e é objeto da atenção do Estado que, para conservar os
traços de qualquer acontecimento do passado (passado/presente), produz diversos
tipos de documento/monumento, faz escrever a história (ef. filologia), acumular
objetos (cf. coleção/objeto). A apreensão da memória depende deste modo do
ambiente social (cf. espaço social) e político (cf. política): trata-se da aquisição de
regras de retórica e também da posse de imagens e textos (cf. imaginação social,
imagem, texto) que falam do passado, em suma, de um certo modo de apropriação
do tempo (cf. ciclo, gerações, tempo/temporalidade).(LE GOFF, 1990:483)

Devemos atentar para o pensamento do historiador Jacques Le Goff (1990:37) quando


diz também que “tal como o passado não é a história, mas o seu objeto, também a memória
não é a história, mas um dos seus objetos e simultaneamente um nível elementar de
elaboração histórica”. Por isso, não pretendemos construir, por meio dos depoimentos, uma
verdade absoluta, mas abrir um canal para que indivíduos anônimos que vivenciaram a
história da 96 FM resgatem e divulguem acontecimentos que possam amenizar a carência de
informações sobre o objeto em questão. Esse resgate e registro de memória se deram a partir
de entrevistas com aqueles que ajudaram a construir os discursos que compõe este artigo.
Memórias de escutas e de vivências de inúmeros fatos e ações ocorridos nos últimos vinte e
nove anos no rádio FM natalense.
Nosso FM começa oficialmente em 28 de dezembro de 1981 em um contexto de
expansão das FMs ainda influenciado pelo regime militar. Como afirma Nélia Rodrigues Del
2
Bianco “[...] a FM servia à meta de dotar as cidades de uma estação. Desta forma, o governo
esperava cobrir, em parte, as áreas de silêncio não atingidas pelas AM que possuíam potência
de 1 quilowatt”. Naquele ano, cidades do interior da Paraíba, como Campina Grande, já
operavam em freqüência modulada (a rádio Campina FM de Campina Grande foi fundada em
3
21 de outubro de 1978) . Das capitais, Natal foi a última cidade do país a ter um canal de
rádio FM. Diante dessa realidade, reuniram-se sete influentes homens potiguares em torno do
um único objetivo: conseguir uma concessão de rádio FM para Natal.

Eu era adolescente, mas lembro bem. Esses homens, entre eles meu pai, se reuniam
e só falavam em conseguir uma rádio. Eram eles: Silvino Sinedino de Oliveira,
diretor administrativo do Diário de Natal; Afonso Laurentino Ramos, Aurino
Suassuna, e Gilson Felipe de Souza, ambos do Grupo Marpas – importante
concessionária de automóveis na época; Jairo Procópio de Moura, cartório do 1°
ofício de notas da Natal, Luiz Maria Alves, superintendente do Diário de Natal e
4
Expedito Mendes de Rezende, que chegou a trabalhar na rádio.

2 FM no Brasil 1970-1979: crescimento incentivado pelo regime militar. Comunicação & sociedade, São
Bernardo do Campo: Instituto Metodista de Ensino Superior, ano 12, n.20, p 144, dez. 1993.
3 Disponível em HTTP://www.campinafm.com.br.
4 SINEDINO, Michelle. Entrevista concedida a Silvio Henrique Felipe Ribeiro. Natal. 2010. Não publicado.
Após a liberação por parte do Ministério das Comunicações, no dia 28 de dezembro de
1981 entra no ar a primeira emissora FM do Rio Grande do Norte: a Natal Reis Magos, na
frequência de 96,7 MHz. Praticamente sem nenhuma estrutura física, a Reis Magos era
dividida em duas partes: a estrutura de transmissão, ou seja, o estúdio “A” e o estúdio de
gravação, que funcionavam ao lado dos estúdios da antiga Rádio Poti, no prédio dos Diários
Associados – e a estrutura de produção, que funcionava em uma sala do Edifício Cidade do
Natal, na Avenida João Pessoa.
A primeira equipe era formada por dois noticiaristas, Liênio Trigueiro (já falecido) e
Josenildo Caldas (ainda hoje na 96), e dois sonoplastas, Marco Araújo e Gilvan dos Santos.
Nos meses seguintes, Tim Kawasaki e José Eudo – ambos vindos do rádio AM natalense –
foram os primeiros locutores/apresentadores. Liênio Trigueiro e Josenildo Caldas passaram a
apresentadores em um segundo momento. Inicialmente, a programação musical, toda
comprada à Rádio Caetés de Recife – PE, era veiculada em fitas 1/4". Em 1983, Epitácio
Faustino e Passos Júnior são contratados pela Reis Magos para gravar, em rolos, a
programação produzida por Stênio Dantas e Ênio Sinedino, que larga o tráfego, dedica-se à
parte musical da rádio e insere as primeiras experimentações de programação local.

A rádio não produzia uma programação local. Nós recebíamos as fitas da Rádio
Caetés de Recife – PE. Minha primeira função foi tráfego. Eu buscava essas fitas
nos Correios e levava para a produção tocá-las alternadamente. Lembro-me que,
nessa programação da Caetés, algumas músicas eram conhecidas, mas outras
absolutamente desconhecidas. E isso gerava uma vontade de tocar músicas
conhecidas do público natalense, como o forró. Outro fator determinante para a
rádio produzir uma programação local é que eu observava que quando tocava
músicas de discoteca nas boates de Natal, um ou dois casais estavam dançando, mas
quando tocava forró o dancing enchia rapidamente. Eu pensei, e no rádio FM, será
que o forró também não será ‘reconhecido’? Foi ai que inserimos forró na
5
programação.

Os primeiros anos da década de 1980, no que diz respeito ao rádio FM natalense, podem
ser considerados conservadores. Veiculava-se uma programação à base de música popular

5 SINEDINO, Ênio. Entrevista concedida a Silvio Henrique Felipe Ribeiro. Natal. 2010. Não publicado.
brasileira, música internacional e até música instrumental que remetia às primeiras
programações de rádio FM dos grandes centros do país. Segundo o programador Epitácio
Faustino, um dos mais antigos funcionários da emissora, os primeiros programas da 96 FM
foram “Isto é Samba, Isto é Nosso”, veiculado das 06:00 às 07:00h; “Estério Espetacular” (um
programa só com músicas instrumentais), veiculado das 12:00 às 13:00h e “MPB Especial”,
no ar das 17:00 às 18:00h. Os nomes desses programas denotam como era a postura do nosso
FM naqueles anos. Cabe lembrar que o momento inicial da freqüência modulada no Brasil
trazia consigo um rótulo de “rádio dos ricos”. A revista Veja, em dezembro de 1970,
exemplifica bem como era, nos primeiros anos, o FM brasileiro.

Só existem dois sons tão caros e tão bons: o do melhor gravador estereofônico e da
Difusora Frequência Modulada. Pelo tipo de ouvinte da Difusora, 10 milhões por
um bom gravador não é muito, afinal. Mas deixar o ponteiro nos 98,5 da Difusora
FM é bem mais fácil. A Difusora FM opera numa faixa onde não há concorrência.
As músicas são selecionadas para pessoas ricas e inteligentes. Os espaços
comerciais foram vendidos somente a 20 clientes: aqueles que têm o que dialogar
6
com pessoas desse tipo. Sintonize a Difusora FM. Não custa um tostão.

É fato que, até 1986, a Reis Magos era a única emissora FM de Natal. O pioneirismo da
rádio, por si só, introduz naturalmente um conceito de referência em FM na capital potiguar.
Foram cinco anos ditando “o que se deveria fazer em frequência modulada” na cidade de
Natal. Somente em 1° de dezembro desse ano é que surge a segunda emissora FM, a Rádio
Cidade do Sol (94,3 MHz). Após seu surgimento, alguns profissionais da 96 FM, dois
locutores e um programador musical, são contratados pela a Rádio Cidade e aplicam suas
experiências adquiridas na nova emissora.

É neste mesmo ano que a Reis Magos transfere-se para um prédio próprio, na Avenida
Deodoro da Fonseca, no bairro de Petrópolis. Também é a partir daí que a rádio decide
produzir toda a programação em Natal. Ênio Sinedino, assume a direção artística, passa a ser
programador musical e ajuda a estruturar uma nova equipe. A rádio investe em equipamentos
de estúdio, amplia a discoteca e reformula a equipe de locutores. Passam a fazer parte da

6 A RÁDIO DOS ricos. Revista Veja, São Paulo: Abril, ano 3, n. 118, p.84-5, 9 dez. 1970.
grade de locução: Ricardo Motta, Fran Silveira, Gibson Melo, Neuzinha Farache, Flávio
Leandro, Jorge Luiz e Rô Medeiros, além de Josenildo Caldas e Tim Kawasaki, esses desde o
início da rádio.

Kawasaki, que já tinha inserido a freqüência da rádio em um nome de programa,


Paradão 96, ouvia emissoras de outras cidades através de fitas K-7 e enxergava uma
tendência em se usar a freqüência da rádio em detrimento ao nome. “Eu achava ‘96 ’ mais
7
radiofônico do que ‘Reis Magos’ . Com isso, Reis Magos entra em contagem regressiva e, ao
mesmo tempo, começa a surgir a 96 FM. Também nesse ano, Luiz Maria Alves, inicialmente
sócio, decide vender sua parte da rádio a Silvino e Ênio Sinedino. Com novo fôlego, tio e
sobrinho começam a viajar para cidades como Rio de Janeiro e São Paulo com intuito de
ampliar a discoteca e observar o que se vazia em rádio nas principais praças do Brasil.
Naquele momento, a 96 FM trabalhava com um leque de programação musical bastante
aberto. Com a intenção de se aproximar de todas as classes sociais, a rádio veiculava, por
exemplo, Paralamas do Sucesso, Madonna, Ultraje à Rigor, Maria Betânia, Guilherme
Arantes, José Augusto, Michael Jackson, entre outros, já esboçando uma aproximação ao que
se chamaríamos de rádio popular.

Em uma dessas viagens ao sudeste, Ênio conhece Antonio Augusto Amaral de Carvalho
Filho, conhecido como Tutinha, dono e diretor da Rádio Jovem Pan de São Paulo. Com o
contato estabelecido, as influências do chamado rádio jovem inevitavelmente chegam a 96
FM. A partir de então, as vinhetas – em sua maioria cantada, os temas, a locução, as
promoções, tudo na rádio ganha um roupagem mais jovem. Mas as “falas” dos locutores e a
programação musical continuam direcionadas para todas as classes sociais. A 96 FM continua
falando para todos, mas, a partir de agora, de uma maneira mais jovem. É ai que surge o
primeiro slogan: “96 FM, Jovem Como Você”.

7 KAWASAKI, Tim. Entrevista concedida a Silvio Henrique Felipe Ribeiro. Natal. 2010. Não publicado.
Com uma produção musical focada no popular, mas com influências do rádio pop nas
vinhetas e na locução, a 96 FM estabelece uma nova definição artística a ser trabalhada na
emissora: um rádio popular com uma essência bastante jovem. Se, até então, rádio popular e
rádio pop estavam em extremos distantes, ou seja, tais modalidades caracterizando uma
dicotomia de segmentos radiofônicos específicos bem definidos, a 96 FM aproxima e mescla
esses conceitos gerando uma nova postura artística bastante aceita pelo mercado potiguar,
tendo em vista os bons índices de audiência conseguidos pela rádio durante toda sua
existência.

A terceira emissora FM de Natal, a FM Tropical (103,9 MHz), entra no ar em novembro


de 1987. Nesse momento, das três FMs que atuavam em Natal, apenas a 96 usava a
freqüência para identificação junto aos ouvintes. As outras, Cidade e Tropical, usavam o
nome para o mesmo fim. Percebendo isso, a rádio desenvolveu uma campanha para vincular
mais fortemente o termo “FM” a 96. Intitulada “96, a FM”, a campanha estabelece os
primeiros vínculos identitários entre o ouvinte e a 96. Passando a identificar a 96 com “a
FM”, o ouvinte passa a entendê-la de uma maneira “diferenciada”. É como se “ser FM” fosse
algo superior, ou melhor. Com isso, mercado e ouvintes começam a assimilar que FM é 96.
As demais seriam ‘apenas rádios’.

Paralelo a isso, conceitos de juventude, alegria, patriotismo, entre outros, foram inseridos
nas falas para produzir certos efeitos junto ao ouvinte e causar vínculos identitários.
Observam-se aplicações nesse sentido em, por exemplo, temas produzidos pela 96 FM. O
tema da copa do mundo de 2006, com duração de um minuto e nove segundos, diz na letra
“Vai meu Brasil com fome de bola, com muita raça e muita emoção, com toda ginga, com
todo riso que existe dentro do coração. Vai meu Brasil com muita alegria, esse caneco ta na
mão. Vai meu Brasil com peito, com garra, arrebenta seleção. Mostra essa força tão brasileira,
vai com coragem e decisão. Copa do mundo é na 96 FM”. Ao cantar esse tema, e isso é bem
provável – já que algo desse tipo é veiculado em média seis vezes ao dia durante os trinta dias
que antecedem o evento – o ouvinte “se insere” no clima do mundial de futebol e passa a
enxergar a possibilidade de uma boa campanha por parte da seleção brasileira de futebol. O
termo “meu Brasil” cantado no tema passa a ser entendido como o “Brasil” de cada ouvinte
específico. Havendo personificação da mensagem, é a seleção brasileira “de João”, “de
Lucas”, “de Maria”, etc. que vai à copa, e não somente a seleção do país ou a seleção “da 96”.

Outros vínculos identitários foram estabelecidos a partir do uso de vinhetas por parte
dos locutores da 96 FM. O precursor foi o locutor Flávio Leandro, que, em 1986, recebeu um
presente de seu pai, o escritor e publicitário Nei Leandro de Castro: uma vinheta gravada na
produtora de áudio Tape Spot do Rio de Janeiro, que cantava “Flávio Leandro – A Voz do
Som Maior”. Logo os demais locutores também produziram suas vinhetas e, com o uso
sistemático, passaram a ser mais facilmente reconhecidos pelo público ouvinte.

Os depoimentos que ajudaram a construir os três parágrafos anteriores mostram que,


ao mesmo tempo em que investia em tecnologia e inovações mercadológicas, a emissora
passou a se preocupar com a linguagem trabalhada na rádio, mesmo que, até certo ponto, de
maneira inconsciente, experimental. Levando em consideração o impacto que as palavras
podem provocar na audiência, apostando na comunicação dialógica persuasiva como
diferencial de exploração e ampliação de vínculos emocionais e identitários com o público
visando à manutenção da liderança no mercado.

Para compreendermos melhor o destaque da 96 FM frente às outras emissoras no


tocante a forma de se relacionar com o público, recorremos à Teoria dos Atos de Fala, tendo
por base os estudos do filósofo inglês John L. Autin8 que defendia que há uma relação direta
entre o que se diz e o que se faz, ou seja, quando alguém fala algo além de passar informações
realiza ações, pois o ato de dizer algo resulta em produção de sentido.

Na defesa dos Atos de Fala, Austin faz uma distinção entre enunciados performativos,
como sendo aqueles que realizam ações porque são ditos, e os enunciados constativos, que
realizam uma afirmação, confirmam algo. Dando seqüência a sua defesa dos Atos de Fala,

8 Austin, J.L. Quando dizer é fazer – palavras e ações. Porto Alegre, Artes Médicas, 1990
Austin propõe separar os níveis de ação lingüística por meio dos enunciados surgindo assim
os atos locucionários que consistem em enunciar cada elemento lingüístico presente na frase;
os atos ilocucionários são aqueles que se realizam na frase, ou seja, refletem o
posicionamento do locutor em relação ao que foi dito; e por último, os atos perlocucionários
que por sua vez não se realizam na frase em si, mas pela frase, no caso, são os efeitos
causados pela mensagem.

Diante do exposto, vimos que dirigir ao público mensagens como “96, a FM” (afirma
que a única FM é a 96) e “96 FM, Jovem Como Você” (afirma que as outras rádios não
atendem ao seu perfil e/ou estado de espírito de ser jovem) caracterizam a presença dos atos
ilocucionário e perlocucionários agindo simultaneamente, pois essas mensagens não só
informam o nome da rádio com intuito de fixar a freqüência na memória do ouvinte como
também agem sobre o ouvinte provocando-o a permanecer na programação de maior
audiência porque teria uma identidade jovem.

Com a chegada da segmentação ao rádio FM natalense, introduzida pela Rádio Cidade


– que inicialmente fazia uma programação à base de música popular brasileira e clássicos da
música mundial, e em 1988, influenciada pela homônima do Rio de Janeiro, passa a produzir
uma programação pop-rock – a 96 FM, sentindo-se ameaçada pelo crescimento da
concorrente resolve segmentar-se definitivamente. Insere músicas de grande apelo popular na
programação, entre elas “Tico-Tico”, com Sandro Becker e “Meu Mel”, com Marquinhos
Moura e assume uma postura completamente popular. É a partir daí que a 96 FM consegue
um dos maiores feitos de sua história: a maior audiência de rádio FM do Brasil. Segundo Ênio
Sinedino citando pesquisa da Sony/CBS, a 96 FM alcançou 75% de audiência dos aparelhos
de rádio ligados. Tal fato, além de reconhecimento nacional, rendeu-lhe disco de platina.

Com altíssimos índices de audiência, a 96 FM atrai grande fatia do mercado publicitário


e, paralelamente, envolve-se com os maiores eventos artístico-culturais da cidade de Natal,
entre eles o Carnatal, considerado o maior carnaval fora de época do país, em uma parceria
desde a sua primeira edição, em 1991. A audiência da rádio atrai os eventos e esses eventos,
com sorteio de ingressos, ajudam a fidelizar a audiência. Em 2010, treze emissoras operam
em frequência modulada na grande-natal: Universitária FM (88,9 MHz), 89 FM (89,9 MHz),
Rádio Cidade (94,3 MHz), 95 FM (95,9 MHz), 96 FM (96,7MHz), Clube FM (97,9 MHz),
Rádio 98, (98,9 MHz), Rádio União (102,1 MHz), Rádio Paraíso FM (102,9 MHz), Mix FM
9
(103,9 MHz), 104 FM (104, 7 MHz), Rádio Senado FM (106,9 MHz). Segundo o IBOPE ,
em pesquisa divulgada em dezembro de 2009, a 96 é a rádio mais ouvida no chamado horário
nobre, das 07:00 às 14:00 h.

Durante a execução deste trabalho, foi possível presenciar o início de um novo desafio
para a 96 e para o rádio FM potiguar. “Nós já estamos com um transmissor digital no ar desde
10
os primeiros dias de maio. Agora são ajustes e esperar a digitalização” .

Apesar de o rádio ser preterido nos inúmeros estudos acadêmicos, as informações


levantadas no presente trabalho sugerem a ampliação e aprofundamento desse objeto, uma
vez que tal veiculo, e mais especificamente o FM – embora historicamente entendido como
novo – tem passado por transformações conceituais e tecnológicas importantes nos últimos
anos. A implementação da chamada digitalização no rádio brasileiro, já parcialmente presente
no FM potiguar por meio da 96, não deve se consolidar como algo “isoladamente novo”. É
preciso enxergar e reconhecer todo um processo desenvolvido no rádio do Rio Grande do
Norte durante quase trinta anos que fundamentou a atual forma de se produzir em freqüência
modulada. A 96 tem muito para acrescentar nesse processo uma vez que, embora o “bolo” da
audiência, em função de crescente número de emissoras FM nos dias atuais, esteja dividido
em “mais fatias”, ainda observa-se sua hegemonia no rádio FM natalense. A FM pioneira no
estado delimitou um espaço referencial a partir de bons resultados em suas experimentações,

9 Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística. Pesquisa realizada na cidade de Natal/RN, entre os dias
09 e 16 novembro de 2009.
10 Boy, Bill. Entrevista concedida a Silvio Henrique Felipe Ribeiro. Natal. 2010. Não publicado.
tanto no campo técnico como no campo da linguagem. Experimentações que se legitimaram
como uma forma vencedora de se fazer rádio em freqüência modulada.

REFERÊNCIAS

AUSTIN, J L.Quando dizer é fazer – palavras e ações. Porto Alegre, Artes Médicas, 1990

BARBOSA FILHO, André (Org.); PIOVESAN, Angelo (Org.); BENETON, Rosana (Org.).
Rádio: sintonia do futuro. São Paulo: Paulinas, 2004

BIANCO, N. R. (Org.) ; MOREIRA, S. V. (Org.) . Rádio no Brasil: tendências e perspectivas.


1. ed. Rio de Janeiro: Eduerj, 1999.

FERRARETTO, Luiz Artur. Rádio. O veículo, a história e a técnica. Porto Alegre-RS.


Editora Sagra Luzzatto. 2000.

HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo. Vértice editora. 1990.

LE GOFF, Jacques, História e memória; tradução Bernardo Leitão ... [et al.] -- Campinas, SP
Editora da UNICAMP, 1990