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- Rua Luciano Cordeiro. inc1uindo fotocópia e xerocópia. sem prévia autorização do Editor. Lisboa EDIÇÕES 70.oes 70 J .. Aubyn Capa de Edições 70 Depósito legal n. qualquer que seja o modo utilizado.97244-0113-8 Todos os direitos reservados para a língua portuguesa PORTUGAL por Edições 70. L. 73 171/93 ISBN .-IOOO LISBOA Telefs. Paris. no todo ou em parte.". 3158752/3158753 Fax: 3158429 Esta obra está protegida pela Lei.. Qualquer transgressão à Lei dos Direitos de Autor será passível de procedimento judicia1. Não pode ser reproduzi da. 1984 Tradução de Isabel St. LDA.~ edk..PIERRE GRIMAL A CIVILIZAÇÃO ROMANA Título original: La Civilisation Romaine @ Les Éditions Arthaud. Esq. . 123-2.

quando as discip]inas se tornam menos estJ. Entre todos os milagres que contribuíram para fazer de Roma o que ela foi. C. isso só nos permitiria avaliar melhor o papel imenso que desempenhou na história do pensamento humano. quando a fala do rústico Lácio. privado do seu guia. Os pretorianos são o exército da Cidade. Mas os exércitos das províncias usam do mesmo direito. I'lIjn voz é legítimo ouvir. se encaminhava para o fim. Restava o exército que. etruscos.rido no interior da cidade romana. encontrará finalmente alguma estabilidade na tirania militar de um Diocleciano. pode ser tentador sonhar com um mundo do qual Roma estivesse ausente mas. CAPíTULO VI A VIDA E AS ARTES O Império de Roma não teria passado de uma conquista efémera se se tivesse limitrldo a impor ao mundo.ricada tradição romana que seis séculos de oligarquia não tinham conseguido abolir. privado de forças vivas. permitiu que os tesouros da espiritualidade e da arte helénica sobrevivessem e conservassem a sua virtude fecundante.tas. pela força.o que recusou mil filcilidades oferecidas pela língua falada. itálicos. dividido. mostrara que. no Oriente. recorda os costumes macedónicos. Curiosamente (mas será por acaso?) a aclamação do chefe pelos soldados. esse. n:10 é idêntica à que os Romanos falavam todos os dias: as regras e a própria estética do latim litenh. que esta por vezes conservou e que surgem novamente nos textos tardios. possuía pelo menos a força e afides. muitas páginas nos escapam. Uma das primeiras tarefas dos escritores latinos consistiu em atinl. deixando de enar em busca de um princípio do poder. que o elegem como rei. O paciente trabalho dos fi1ólogos - esses arqueólogos da linguagem - restituiu-nos algu- mas delas e sabemos hoje que a língua latina. de um trabalho vo]untáJ.e continua a ser . já não possuía a sua antiga auctoritas.o cedant arma togae (<<queas armas se apaguem perante a toga»).o resultam de uma escolha consciente. e talvez outros mais. se tornaram clássicos.e o Império. envelhecido. 134 135 .. ta] como a escreviam Cícero e VirgI1io.1"/1 aclamações são capazes de conferir a investidura imperial: o povo e o Senado . no seu lugar surl. Foi ele que. o mais surpreendente talvez tenha sido aquele que permitiu que a língua dos camponeses latinos se tornasse. é o resultado de uma longa evolução iniciada há milénios no próprio seio da comunidade indo-europeia. cada um deles proclama o seu próprio general e surge de novo a guerra civi1. O Senado. imposta pela lÓl. por este meio. para nós. Desta história da língua latina. Venha o momento em que o exército tome consciência da sua unidade . a dos autores que. diminuíra ainda mais de importância depois das reformas de Augusto. Roma regressava à antiga moda da colação do poder. perpetuados pelas monarquias he]enísticas.mas também o exército. já reduzida à insignificância no tempo da república oligárquica. A assembleia popular. Nem poderia ser de outro mocio. Aconteceu já tarde. A sua verdadeira grandeza talvez resida mais naquilo que foi .riu uma democracia militar.('11. em poucos séculos.à custa de longas crises . de osci1ar entre uma monarquia esc]arecida estoicizante e uma teocracia de inspiração semítica. o imperator que aclamam tem mais possibilidades de se impor do que qualquer outro. O velho mito republicano . no Ocidente. mas que se viu bruscamente acelerada entre o século VI e o século 11 a. onde se tinham misturado elementos de diversas origens.rios da democracia civil.rir uma clareza perfeita e uma notável precisão do enunciado.como na República . o princeps. abriu imensas regiões a todas as formas de cultura e do pensamento e que. leitnwtiv da teoria ciceriana da cidade não resistiu à prova dos factos. quando o Império. é diante das coortes pretorianas q\H' Ga]ba apresenta o filho adoptivo. recebeu a incumbência de exprimir as concepções de toda a espécie que lentamente tinham surl. Seja como for. vendo bem. Por fim.o esplendor espiritua1. um dos instrumentos de pensamento mais eficazes e mais duradouros que a humanidade jamais conheceu. Também sabemos que a língua escrita. uma organização política e até mesmo leis. O principado augustano destruíra todos os vestíl. Por vezes.

de um aeto ou de uma situação. Nessa altura. nessa Itália em que as raças se misturavam. o valor de uma afirmação. nos seus humildes primórdios. Mas. também é preciso indicar em que medida aquele que fala assume esse enunciado. e de ritmo . submeter-se a repetições de palavras ou mesmo simplesmente sonoridades. de termos técnicos trazidos pelos navegadores.0exemplo de Catão o Censor. Simultaneamente. a língua cultural ainda não é o latim. cedendo ao grego os domínios do pensamento abstracto. A forma do verbo utilizado mudará consoante os casos. descobrir o ritmo da língua. pelos soldados. por um longo J~eríodo durante o qual prosseguiu a helenização das elites romanas.adores e filósofos helénicos. a fim de definir as noções.ma resistência desespemda: Catão sabia grego. o enunciado oral que pretende ser memorável deve obedecer a leis. o modo «potencial» (quando a possibilidade é concedida como pura visão do espírito).a história da redacção das Doze Tábuas mostra-o . mas o resultado de um trabalho de análise que tem a ambição de não deixar nada na sombra e que. como dissemos.de precisão total. que objectiva o enunciado tornando-o um objecto subordinado ao verbo introdutor.que o primeiro trabalho incidiu sobre o enunciado oral. depois das guerras púnicas. em breve escravos trazidos para o Lácio depois da conquista dos países gregos ou helenizados. Os filósofos vindos em embaixada. cujo teatro se destinava ao público popular. Aquilo que.) introduzidos pelo primeiro sujeito. em poucas gerações. a tendências próprias do latim. O que os gramáticos do século anterior consideravam helenismos pertence.em grego. depois. só um século mais tarde solucionado. mediata ou imediata) introduziram-se assim nomes de moedas. «dança» da linguagem. Abundam em Plauto. depois sinais de classificação que afectam os diferentes momentos da exposição. desmentido pela realidade). Nesta evolução sintáctica. os escritores romanos conseguiram. a sublinhar fortemente as articulações da frase. Haverá também todo o sistema do estilo indirecto. E significativo que a primeira obra histórica consabrrada a Roma tenha sido escrita . mesmo na rima. depois da conquista da Macedónia. sem dúvida porque a lei foi o primeiro domínio em que se sentiu necessidade de assegurar a permanência da palavra e da frase. mostra-nos bem que se tratava de u. por desconfiança em relação às definições abstractas e às fórmulas gerais. para não deixar escapar nada dessa realidade que se pretende abranger.por um senador romano . que a frase justapõe num leque de matizes. inicialmente simples cavilhas servindo de sutura. não é na língua latina uma exuberância gratuita. se lhe quer conferir uma objectividade plena e total. mas o Pl'ÓP1. se apresenta apenas como porta-voz de outro ou se se limita a evocar uma simples possibilidade. hoje. desligando-se do 136 sujeito que fala. o mais ardente adversário do helenismo.~ não dando lugar a qualquer contestação. em 155 a. Os helenismos de sintaxe surgem muito tarde. desde o século VI.a prosa não tarda a disciplinar-se. se apresenta aos jovens latinistas como um dédalo inextricável. A primeira prosa latina. Existiu. aquele cujas palavras são transmitidas. E verdade que algumas famílias. ligação sonora que encerra o real. por fim verdadeiros instrumentos de subordinação que permitem construir frases complexas e hierarquizadas. A riqueza do vocabulário. com todas as peças: não basta enunciar um facto.não hesita- _ 137 . Neste esforço para apontar. ou. mas o grego. fora preparada. até o lia. criam-se palavras novas. Por muito profundamente que penetremos na língua latina. se. encontramos sempre essa preocupação com a fórmula encantatória (que não é necessariamente mágica) em que o pensamento se encerra segundo um ritmo monótono e se apoia simultaneamente na aliteração e na assonância. a prosa literária latina nasceu muito tempo depois de ter começado a poesia nacional. Em Roma. Todos estes elementos foram rapidamente assimilados. um «sabir» italo-helénico que marcou a história do latim. pelos comerciantes. Ora. que Cícero usará amplamente. A chegada a Roma dos filósofos. Por via popular (oral. incorporados profundamente na língua. modais. distinguiram um grande número de categorias: por exemplo. sem equívoco. surgiria um novo problema. Os gramáticos. Não acontece o mesmo com o vocabulário que desde muito cedo admitiu termos vindos do grego. o grego estava presente em toda a parte: comerciantes. viajantes vindos da Itália meridional. Mas também é verdade . É surpreendente que os textos mais antigos que conservamos sejam fórmulas juridicas. não tiveram qualquer dificuldade em se fazer compreender por um vasto público ao qual falavam em grego e podia parecer que a litemtura latina estava condenada a contentar-se com a expressão poética. cl. o modo «irreal» (quando o que é teoricamente possível se encontra. falava-o. pelo contrário. o exemplo das construções gregas não parece ter exercido uma influência apreciável. na maior parte das vezes. de facto. aproxima-se muito da poesia espontânea a que os Romanos chamavam carmen e que é. Apoiando-se nas conquistas já realizadas em particular as da língua política moldada pela redacção dos textos jurídicos e dos relatórios das sessões do Senado . etc. por vezes gesto ritual de oferenda.ar uma prosa latina capaz de rivalizar com a dos histOl. opusemm uma séria resistência à invasão do pensamento grego. repetição sedutora. quando a língua clássica atingira já a plena maturidade. enumera tanto quanto possível todos os aspectos de um objecto. a língua monta uma maquinaria delicada. salvaguardando a possibilidade de exprimir os diferentes aspectos (temporais. o vocabulário enriquece-se. dá provas de um maravilhoso instrumento de análise capaz de descobrir inflexões que escapam a muitas línguas modernas e impondo ao espírito distinções que o obrigam a pensar melhor. por vezes. do ponto de vista daquele que fala. de utensflios domésticos. na mesma época em que Plauto compunha as suas comédias. de tradição rústica. o modo «real». Apesar deste sério handicap. Entre estas duas necessidades . sendo a fórmula apresentada à memória antes de ser gravada na madeira ou no bronze. C.

Para tal. os Romanos empregaram um termo de acção que designa o poder do homem no seu esforço sobre si mesmo. a necessidade de persuadir. que serviu para traduzir o conceito grego de virtude. mas a sua cópia latina. ao mesmo tempo. de conversar demoradamente com os filósofos brregos que recebiam de boa vontade em suas casas. assim. o que era «palavra» passou a ser «cálculo» - e o contraste não está apenas nas pa- lavras. ainda muito próximas do concreto. gerador de um pensamento orif:. recorre a um equivalente já utilizado por Enio. Compreende-se a importância. O abstracto era-lhe praticamente estranho.rrega. como traduzir na língua nacional os jogos dialécticos dos filósofos f:. C. a grauitas (a seriedade) e o número. em Roma. por Névio(*) e Enio(*). em outras ocasiões. de perfeição. que é. quando se tornava necessário agir sobre a massa popular reunida diante dos Rostros ou ainda quando o orador devia defender uma causa no tribunal e persuadir um júri. conservamos escassos fragmentos desta prosa latina do século H a. mas com variações importantes - e o curso da história determinou que o pensamento ocidental herdasse não directamente os arquétipos helénicos. Na verdade. devesse muito à Guerra Púnica do primeiro e aos Anais do segundo. Cíce'l'"o 138 serve-se. mas que julgavam mais apto a efectuar a necessária transposição para desenvolver um pensamento verdadeiramente romano. escrito pelo próprio Catão em latim. por vezes. Contudo. por vezes. as suas ligações semânticas. o que não deixava de apresentar b>Tavesdificuldades. Nestas condições.rinal. associações que não podiam cair subitamente e que inflectiam o pensamento. a sua própria monotonia contém força e grandeza. e escreve sapientia - que já possui um significado na língua e não pode aplicar-se à especulação filosófica senão por uma transposição de sentido. a partir do modelo dos Gregos. O desabafo de Lucrécio(*). a sua própria rigidez. É verdade que ainda apresenta uma certa rigidez. Dir-me-ão que se trata mais do efeito de uma incompreensão da raça romana. não comporta a eloquência nem os benefícios de um relato vivamente conduzido. Infelizmente. as proposições justapõem-se paralelamente umas às outras em séries intermináveis. no fim do século IH. A sapientia continuou sempre a ser a ciência de regulação dos costumes. Nesta prosa eloquente já se unem as duas qualidades da frase ciceriana.rmentos dos discursos de Catão que conhecemos.rinalidade . Os dois processos foram utilizados simultaneamente.Não só a O1. um peso. m~s. as palavras assim solicitadas mantinham a sua utilização habitual. mas quando pretende designar a técnica em . Sapientia. resumind~ depois numa breve formula susceptível de se gravar profundamente no espírito. cortante como uma fórmula de lei. ratio. incapaz de se guindar até ao pensamento puro. todo um arsenal de conceitos. está também na atitude intelectual que simbolizam. mas uma qualidade muito mais terra-a-terra. não era a dialéctica em busca de verdade. recorriam. da palavra philosophia. quando se exprimiam em latim.O levar a língua a exprimir o abstracto.si. A língua traiu assim a inflexi'io imposta ao pensamento helénico. para um romano. Toda a literatura da época dominada pela figura de Cícero(*) testemunha este trabalho sobre a língua. a do homem cheio de bom senso habituado a seguir pelo caminho mais curto. não podemos negar que os escritores. puramente técnica. capazes de pensar e compor até mesmo tratados filosóficos em grego. ficou célebre. que a prosa latina já adquiriu uma maturidade notável. O que não deixou de ter grandes consequências no futuro.que implica uma ideia de excelência. * As condições em que se fundou a língua literária bastam para mostrar que a sua literatura não foi dos Romanos nem podia ser - - um simples decalque da literatura 139 f:. ou alterando-a. mas com intenções e contextos diferentes. E muito provável que o livro das Origens. começando por apresentar aos auditores todos os aspectos de um pensamento. outras observações. contribui para dar uma impressão de autoridade: no tempo de Catão. queixando-se da pobreza da sua língua materna. Era preciso criar um dialecto novo copiando a própria forma dos vocábulos gregos. para os quais o vocabulário tradicional era suficiente e que podiam beneficiar dos exemplos dados pela!> epopei~s nacionais compostas.ram em começar por redigir relatos históricos. A própria noção de filosofia não respondia a nenhuma palavra da língua. No entanto. as exigências da vida política impunham aos homens de Estado a obrigação de falar em público: por ocasião dos complicados debates que se desenrolavam no Senado. a palavra do apE't 11. a frase é muitas vezes breve. do que do resultado de um trabalho consciente sobre o vocabulário.f:. o latim tornou-se verdadeiramente uma língua digna dos conquistadores do mundo. mais subtis. antes de ser arte de pensar. adivinha-se nesse mesmo texto e nos fraf:. de Cícero e de Séneca sucedem-se ao poeta que decidira tornar acessível a um público latino o pensamento de Epicuro e de Demócrito. O único texto de Catão que está completo é o livro Sobre a Agricultura: a exposição. Enquanto os Gregos se serviam de um termo infinitamente mais intelectual. O logos grego tornou-se. Faltava anexar à prosa latina o domínio da especulação pura. a um vocabulário cujas insuficiências e traições não ignoravam. Outro exemplo não menos extraordinário é a história da palavra uirtus. era necessál. aquilo a que nós chamamos sabedoria.>Tegos? s primeiO ros escritores que tentaram fazê-I o estiveram prestes a renunciar. para o próprio futuro da filosofia romana. semelhante à das estátuas arcaicas da arte helénica. O latim possuía todo um jogo de sufixos herdados do sistema indo-europeu. Ao mesmo tempo. A herança rítmica do carmen juntam-se as conquistas realizadas pela arte oratória. mas usava-os com moderação e geralmente para designar qualidades Ülcilmente entendíveis. desta transposição inicial. Criou-se. mas mais na sua conduta do que nos caminhos do conhecimento.

cenas de mimo. Foi Quintiliano que. comédias gregas pertencentes ao mesmo repertório . a toda a romanidade. vemos Cícero(*) resignar-se contrariado a fazer campanha na Sicília como procônsul. a eloquência aperfeiçoou-se. segundo as suas preferências. Enquanto Terêncio é mais sensível aos problemas morais suscitados pelo tema (problemas da educação infantil.dos autores latinos e o seu temperamento próprio tendiam a criar obras diferentes das dos antecessores. que se tornou o mestre deste género cerca de 130 a. que é a sátira horaciana. mas é evidente que a perfeição formal de Demóstenes. Um século mais tarde. as obras em prosa e versos. Este exemplo preciso mostra-nos que a influência da literatura grega não impediu de modo algum os autores romanos de cliarom obras Oliginais e capazes de exprimir as ideias e as tendências do seu tempo e da sua raç~. a subtileza dos seus raciocínios. foi um discípulo remoto de Cícero. Plauto utiliza as intrigas forneci das pela comédia grega para defender a velha moral tradicional de Roma . se faz referência às considerações trocadas entre Cipião Emiliano e os amigos nas horas de lazer. C. a necessidade de recusar as tentações da vida grega. a eloquência apresentava-se como o melhor meio de servir a pátria. São assim chamadas.mas impregnando-os de uma cultura verdadeira. a formação do orador torna-se o objecto quase único da educação romana. C. encontra-se sempre o antigo realismo italiano. Nestas sátiras. o representante mais ilustre destes mestres da juventude. no entanto. enquanto as actividades puramente literárias . compuseram. No seu modelo. para além da morte.o da Nova Comédia -. Na verdade. tal como o vê Terêncio.. no entanto. Quintiliano(*). era costume propor aos jovens a comparação de Cícero com Demóstenes. embora também tenha provocado a formação de uma estética oratória e de uma pedagogia cuja influência ainda se faz sentir no nosso ensino. do papel do amor na vida dos jovens. o que teve certamente como consequência torná-Ia mais eficaz. e também durante as veladas de armas em Numância.torná-Ia a expressão mais alta e mais fecunda da humanidade. mesmo quando as tomavam por modelos. Agora que os exércitos eram permanentes. assim. pelo menos tanto como para os da guerra. havia de tudo: récitas.. de lhe indicar a via do bom senso.o perigo da liberdade. reflexões morais. que a caITeira militar parecia aberta sobretudo a alguns especialistas encarregados de manter a ordem nas províncias e a segurança nas fronteiras. colocar o Discurso sobre a Coroa acima das Catilinárias. ávidos de se suplantarem uns aos outros. sem lhes fornecer um certo número de receitas puramente formais . a história. atribuir um prémio a um ou a outro. É para realizar este programa que livros como Orator ou De Oratore tentam elevar a concepção já tradicional da eloquência e. E também com as Oligens populares e itálicas que devemos relacionar a invenção de um género que os Gregos ignoram por completo e que conheceu um enorme sucesso. até onde Lucílio acompanhara o seu protector. encenavam-nos num estilo muito particular. páginas de crítica literária. escolhiam aquilo que podia adaptar-se às condições do teatro nacional e desprezavam o resto. no tempo de Vespasiano.buído. para acelerar a decadência das letras latinas combatendo com todas as forças tudo o que pudesse contribuir com a mais leve renovação. da liberdade de cada um viver a existência que quiser). Depois de Cícero. muito mais próximo das origens populares dos jogos cénicos do que as obras gregas. com meio século de distância. respondendo às objecções platónicas .o que constitui um traço tipicamente romano . mas consagrar longas horas à redacção de tratados sobre a arte oratória. Assim. estes de métlica tão diversa quanto o desejasse a imabrinação do poeta. a partir do século II a. Horácio apoderar-se-á da sátira e confelir-Ihe-á um estilo diferente. Seria impossível conceber teses mais opostas . o poder da sua indignação não têm o mesmo peso. Perante esta emulação. a sátira. ataques pessoais. Veremos mais adiante quais foram as origens do teatro romano. Talvez cada um possa. os oradores reflectiram sobre a sua arte. na história da cultura humana. Parece-lhe ser o melhor meio de abrir o espírito dos jovens para a vida do pensamento. beneficiando das conquistas mais nobres da filosofia. peças que apresentam entre si diferenças consideráveis: Menandro adaptado por Plauta só de muito longe se assemelha a Menandro. Era como uma conversa livremente desenvolvida e é verdade que nas sátiras de Lucílio(*). assim como a importância crescente dos debates parlamentares no Senado. 141 . ContJibuiu fortemente para manter o ensino do mestre numa época em que novas preferências corriam o risco de arrastar a literatura para fora do classicismo - e talvez tenha con- tl. apesar de tudo. como o instrumento de que se serviam os arrastava para novos caminhos.a poesia. a eloquência romana se desenvolveu: as condições da vida pública ft!'140 ziam da arte oratória uma necessidade quotidiana. o peso cada vez maior da opinião popular nos últimos anos da República provocaram o aparecimento de numerosos oradores. Outrora. que ficou a dever ao poder da sua palavra os sucessos da sua caITeira política. Mesmo quando os autores pediam temas a Menandro ou Eurípides.que a consideravam apenas como a arte das aparências . que a doutrina coerente da eloquência como instrumento de pensamento que Cícero sdube elaborar e impor. e .e.eram suspeitas aos olhos dos romanos devido à sua própria gratuidade. carregado de elementos vindos da tradição itálica. nesta conversa sensata. A multiplicação dos processos políticos. Também já dissemos como. Foi assim que Plauto(*) e Terêncio(*). parecia natural formar a juventude para os combates do forum. a composição de obras filosóficas .como faziam os retóricos gregos . tendo imitado. no século II antes da nossa era. o sentido da vida por vezes levado até à caricatura. mais preocupada com a perfeição formal.a vontade de instruir o leitor. a matéria da comédia é a mesma. por exemplo.

é esse o seu ofício . Certas tendências profundas da raça: o gosto pelo realismo. desespera mas. um mosaico. conduz a uma persuasão duradoura. adormecida. ao sair da adolescência. tendia naturalmente para assumir o valor de uma revelação. de quem era compatriota (Mântua não é muito longe de Sírmio).mas.o Pai Enio(*). Acord. se não foi sensível sobretudo às imagens estéticas e pitorescas que lhe permitia criar. formou-se. A filha de Minos. sem dúvida. se treinava em compor as suas próprias obras. nas praias do Naxos. sem dúvida. cantando as núpcias míticas de Tétis e Peleu. a pátria . Cícero e Quintiliano sabem que só o pensamento justo e sincero. retrata em versos admiráveis a filosofia epicurista. comparando os ornamentos poéticos com o mel com que os médicos untam os bordos da taça em que as crianças bebem poções amargas.começou a ministrar um ensino oficial. alegando a utilidade de apresentar de forma af:. para tal. representara o mito de Ariana. seu protector e amigo. mas se recusava a exercer a tirania. o da poesia.'Tatuitas. identificando-se com o outro. pretendeu-se recentemente . Aparentemente. ele também parece ter preferido começar por abordar temas de pura mitologia. Seria. mesmo admitindo que não há mais nada neste epitálamo do que pura investigação estética. uma função na OJodemdo mundo: Lucrécio é poeta.a no momento em que a vela de um barco que devia levá-Ia para a Atica desaparece no horizonte. de resto. * As origens itálicas da literatura latina nunca serão renegadas. A escola dos jovens poetas teve a glória de incluir VirgI1io(*) entre os seus. alimenta a sua seiva no pensamento de Cícero desejoso de equilibrar. puro ornamento como podia ser. Só é possível persuadir e instruir dentro de uma total clareza. que inspirou muitos séculos mais tarde os teóricos dos estudos literários.rá calma e serenidade à alma humana. surge no céu o cortejo de Dionisos. Parece nunca ter tomado plena consciência de que a sua poesia emana directamente da intuição metafísica. a uma filosofia que confEH.como Tito Lívio(*). é abandonada. fruto das suas reflexões de professor. Infelizmente. é então a imagem da alma que voará. essa cidade universal com que os filósofos sonhavam. como nos diz o poeta. humanamente. não há dúvida de que os fiéis de Dionisos - que eram numerosos - encontravam nele o eco da sua fé. de que a beleza. O orador deve agir sobre os homens . ou um desses preciosos relevos com que se enfeitavam as residências. Quer instruir. reclamando-se de Alexandrinoso Quiseram dotar Roma de um luxo novo. como lhe chamaram os poetas que se lhe seguiram - e ao seu poema sobre a Gastronomia (Hedyphagetica). um quadro. também a poesia. do humano. Seja como for. Esta beleza tem. justificadas unicamente pela beleza. A maior parte do poema é dedicada à descrição de uma tapeçaria em que uma mão divina. Aquelas que os manuscritos nos apresentam como sendo da autoria de Virgl1io talvez não sejam todas autênticas. o nosso ensino literário tem por carácter essencial formar os espíritos para a compreensão recíproca: o orador deve compreender os auditores.'Tadável uma filosofia árdua. no sono que a prepara para a apoteose. Por seu intermédio. a tensão da forma épica pertencem à essência dessa experiência em parte inefiível. a perfeição formal e as exigências da verdade. indubitavelmente. ébria de Dionisos. servir a cidade. desde o Renascimento até à época de Rollin. que redif:. prever as suas reacções. sem dúvida. tudo está carregado de símbolos morais. a vários níveis.e com alguma razão que este poema encerrava um sentido misterioso: o mito de Ariana não se encontra frequentemente nos relevos dos sarcófagos. ignoramos se Catulo quis dar esta interpretação do mito. Todos querem. mesmo antes do seu pleno desenvolvimento. Depois da magnífica exuberância de talentos que marcara o reinado de Ne1'0. é perfeitamente claro. Mas a poesia latina. no tempo de Cícero e de Césal'. Sem remontar ao próprio Enio . reencontrando numa série de intuições geniais a força profunda de um sistema que se tornou o corpo do seu próprio pensamento. para a imortalidade astra1. tudo isso se encontra em todas as épocas nos autores romanos. Todos pretendem igualmente demonstrar: são raras as obras f:. converter Mémio. Tal como Catulo. o poema (relativamente longo para um discípulo daqueles que afirmavam desprezar os longos poemas) escrito por Catu10(*). quando se pensou que Roma podia ser a pátria de todos os homens. Assim como. pago pelo Imperador. a lição mais duradoura de uma eloquência que se sabia rainha da cidade. esquecer-se de si mesmo e. Mas. onde reveste. e devemos-lhe uma obra. levá-Io a pensar como ele. mesmo pelos mais aberrantes. anteriores às Buc6licas. mesmo nas obras aparentemente mais gratuitas. e também o desejo de instruir os homens. lhante calor apostólico. não ignorava as vo}úpias da arte pela arte. uma escola de poetas «novos" (foram eles próprios que assim se chamaram).ou. a curiosidade por todos os aspectos. a obra mais típica desta estética é. Na verdade. tudo é gratuito neste poema. se tivermos como 143 142 I . No entanto. inedutível a um simples encadeamento de conceitos. Talvez por ter origem na retórica. o gosto pela beleza. quando. um significado religioso? Ariana adormecida. de os tornar melhores.riua sua História para glorificar o povo-rei . existem receitas. nessa época.'rega seme- que mais não é do que uma obra de puro virtuosismo feita a partir do modelo dos mais decadentes gracejos helenísticos (mas ainda com intenções didácticas). pacientemente amadurecido. difícil encontrar em toda a poesia f:. É esta. encontram-se envolvidas em nebulosas. muito diferente de qualquer diletantismo estético. o nosso ensino tradicional mergulha as raízes em plena romanidade. que a atrai para núpcias divinas. mas sente necessidade de justificar este recurso à métrica. raptada por Teseu. estas primeiras obras de VirgI1io. subitamente. em Roma. coube-lhe a tarefa de restaurar o velho ideal ciceriano.

pois VirgI1io. da secura. se tornou a Bíblia da nova Roma. procura sarar os ferimentos causados pelas guerras civis. Não trabalha para o sucesso de um partido.problemas urgentes da terra italiana são evocados por VirgI1io. uma obra de «propaganda» destinada a restituir aos Romanos o gosto pela vida rústica. da qual o poeta já tivera a intuição ao escrever aIV Écloga anunciadora da idade do ouro. oeste num campo gelado tém de mistério divino. procurou exprimir sentimentos que. não querer colaborar. ainda não a terminara e pedira em testamento que fosse destruída). os tormentos e os prazeres do amor. O terceiro grau desta evolução da arte virgiliana encontra-se na Eneida. seja qual for o problema pessoal de VirgI1io. à custa dos proprietários provinciais. mais rica que os cantos do velho aedo. Horácio(*) também contribuiu para a obra de renovação empreendida por Augusto. Para recompensar os veteranos que os tinham ajudado. a sua poesia ultrapassa-o e retrata. das cigarras de Teócrito. A Eneida teve a ambição de revelar a lei secreta das coisas e de mostrar que o Império era o resultado necessário de uma dialéctica universal. rica e pitoresca. está ao serviço de toda a ideia romana. expressão de uma filosofia da natureza e do homem na natureza. irrigados por canais artificiais. com a alegoria de Títi1'0 e Melibeia. o que exigiu transposições delicadas. não sendo. para tal. no seio da cidade. o artista puro é ultrapassado pelo sentido romano da cidade. Não cantam a mesma natureza. Como Vir[. que muito deve ao epicurismo professado por Mecenas. cujo tema foi pelo menos sugerido a VirgI1io por Mecenas.'11io. pois não contêm nada que possa evocar as pastoras adornadas de fitas e os pacíficos carneiros de outros tempos). e talvez tanto mais eficazmente quanto pareceu. entre todas as actividades humanas. munido deste instrumento. É possível que VirgI1io também tenha sofrido com esta espoliação e que tenha ficado a dever a Octávio a obtenção de uma recompensa. criou de raiz uma poesia lírica directamente inspirada nos poemas eólios. representam. As Bucólicas. pro[. finalmente.'1'ama . sem dúvida.'1'edo dos deuses: foi por a raça romana ter sUJo f fundada por um herói justo e piedoso que Roma recebeu o império do mundo. em que VirgI1io imitava simultaneamente Homero e também. E em breve esta sabedoria. aos problemas da pátria. tão bela. Mas VirgI1io não quis escrever um poema de propaganda política. a base espiritual desta epopeia. outro poeta italiano. Animado por uma fé intensa no destino da pátria. foi ajudado pelos esforços dos seus antecessores. cantos de boieiros. C. fase última dessa lenta ascensão para o Bem. cuja plenitude desabrocha em contemplação mística. é o próprio problema de Roma que está em causa. Octávio e António atribuem-lhes terras. Mas a intenção profunda do poema não impediu Virgílio de criar uma obra. Em primeiro lugar. quando morreu em 19 a. E sabido que a primeira colectânea encena o drama que então se vivia um pouco por toda a parte em Itália. vai-se libertando desta poesia do quotidiano uma filosofia concreta. Assim. as mais leves impressões sentidas ao longo dos dias e das estações . Em vez do céu ardente. até então. durante muito tempo. Desta vez. mas que não tardou a superá-lo. são uma imitação dos Idílios de Teócrito. pois partira da Sic11ia grega para conquistar o mundo literário de Alexandria. tão profundamente humana. fiel à estética dos <~ovens poetas». Mas. um santuário em ruínas. Horácio exige apenas ao espectáculo do mundo - um rebanho de cabras na encosta de uma colina. que tinham tentado fazê-lo com algum sucesso. de ternura e grandeza. A história é muito obscura mas. vemos em VirgI1io os prados húmidos da Gália cisalpina bordados de salgueiros. Toda a história de VirgI1io o poeta cabe nesta evolução: a cada vez maior importância atlíbuída. recentemente publicada (por ordem expressa de Augusto. que VirgI1io iniciou a sua carreira como discípulo dos poetas alexandrinos. uma tentativa para restaurar os velhos valores morais venerados na sociedade rural e para mostrar que o ritmo «dos trabalhos e dos dias» é. esses cantos de pastores (ou antes. Catulo em particular. a felicidade. não tinham expressão na literatura de Roma: aquilo que os poetas alexandrinos tinham confiado ao epi[.'1'essivamente. Mais uma vez. o que melhor se insere na harmonia universal. No entanto. As odes nacionais emprestam uma voz eloquente a esta revalori145 - as primeiras rajadas de con- a revelação do que o universo 144 . As Geórgicas. Roma encontrara. vento a frescura de uma nascente.a alegria de viver. Avesso a todas as dialécticas e a todas as demonstrações abstractas. as Argonáuticas do alexandrino Apolónio de Rodes. mas de revelar ao escol bem pensante a eminente dignidade de uma classe social ameaçada. A poesia das Geórgicas. descobrimos rapidamente subtis transposições. a sua llíada. no entanto. autoriza o poeta a fazer-se intérprete da vida religiosa romana.. De resto.tudo isto fornece a Horácio temas para as suas Odes. como tantas vezes se tem dito. É esta. os sofi'imentos provocados pelas guerras civis aos pequenos proprietários. assim. Não se tratava de arrancar os ociosos da plebe urbana aos jogos do circo. de descobrir o sentido profundo da missão destinada pelos deuses ao filho adoptivo de César. comparando as duas obras. Nem o mesmo ambiente humano: os .vemo-Io cantar a permanência das grandes virtudes da raça encarnadas em Augusto. e também mais própria para despertar nos leitores a consciência da continuidade nacional e a dos valores morais e religiosos que constituíam a alma profunda de Roma. julgou descobrir o se[. Contemporâneo de VirgI1io e seu mais íntimo no círculo de Mecenas(*). na sua obra. Em seguida. Desejando «acrescentar uma corda à lira latina». Nas paredes das cidades antigas ainda se vêem graffiti em que figuram um ou mais versos do poema. não surpreende que a Eneida. Trata-se de assegurar o fundamento espiritual do regime nascente e. foi necessário adaptar a métrica dos seus modelos gregos ao ritmo da língua latina.referência as Bucólicas. contribui para restaurar a ordem e a paz nos espíritos e colabora. na revolução augustana.

a ideia de que o universo está em perpétua transformação e não fixado. se não para criar. com a qual relaciona. A poesia é considerada um meio de expressão acessível ao «homem honesto». menos sensíveis à verosimilhança científica do que ao simbolismo intenso que julgavam adivinhar. acabou os dias em Tomes. Talvez tenha havido alguns excelentes.'o. como nas de Tibulo.ação de encadeamentos de palavras que o pensamento. saberá manter um coração puro: figura exemplar oferecida à imitação dos cidadãos. E. A bem dizer. manterá a moderação. consagrando o regresso da paz com os deuses.escrevendo sempre. morreu o último representante da poesia augustana. assim. Sabemos apenas que !.'1. C.'inação dos artistas e escritores da Idade Média. centro da relibrião augustana. que foi um estilista precioso. manter-se-á até ao fim do Impél. mas composições mais duradouras. lega-nos nas suas Metamorfoses uma verdadeira súmula da mitologia grega.a.'assava a metromania. está praticamente demonstrado que estes modelos mais narrativos e mitológicos do que verdadeiramente líricos não exerceram uma influência decisiva na formação do género. tumultuoso. mas também se encontram obras consideráveis: epopeias. Pela mesma altura. incansavelmente. mais do que aqueles. como era para Virgt1io. na maior parte das vezes. C. Os historiadores da literatura antiga procuraram saber. deixa de ser verdadeiramente sél. pelo menos para desenvolver um género novo.-I . durante muito tempo. o teatro literál. São peças fugazes que recordam a antolo!. tragédias destinadas à leitura - na verdade. Horácio. seu contemporâneo.porque fora afinada pela harmonia secreta do mundo -. sem dúvida para sempre. uma exploração sistemática das invenções de Tibulo e Propércio. exilado por Augusto por um crime misterioso (talvez por ter participado numa sessão de adivinhação). de uma vez para sempre. a poesia parece ter descido definitivamente do céu e não se preocupar com a defesa da cidade. Versificador fertil e fácil. com ou sem razão. O tema geral deste poema foi estranham ente escolhido: Ovídio quis desenhar um imenso fresco representando as transformações sofridas ao longo dos tempos pelas coisas e pelos seres. Mas. em 8 a. Horácio ou Propércio. No entanto. não devemos esquecer que nunca deixou de perseguir a ima/. Mas as que Ovídio nos deixou.o. numa ordem imutável. neste imenso bestiário. não faltavam poetas. tanto Tibulo como Propércio incluíram nas suas obras mais íntimas poemas em que cantam os !. uma concepção resultante da filosofia pitagórica. embora não sejam desprovidas de valor e interesse. o da elegia. no meio do desencadeamento das paixões. Propércio convida-nos. Em certos aspectos. Propércio. Nas suas mãos. a seguir as peripécias do seu romance. como que permite que se lhe alTanque uma verdade mais secreta.zação do velho ideal que as guerras civis pareciam ter comprometido para sempre.'Tandes acontecimentos contemporâneos. o sentido dos valores eternos. em Roma. novas obras. cujas receitas conhece admiravelmente bem. dando lugar ao mimo. 146 147 . as velhas lendas relacionadas com determinados locais da cidade. dirá que só ele. com uma dama bastante volúvel a quem chama Cíntia e que ora o procura ora o abandona para seguir protectores mais afortunados. ajudava os homens a construir as ci- dades e a manter a lei. fiel imitador da poesia alexandrina.. representam apenas. semelhante aos heróis lendários. contando as suas penas longe da pátria e satisfazendo a sua paixão de versificador ao compor poemas na língua b{u'bara que se falava à sua volta. foi Horácio quem compôs o hino oficial cantado no Capitólio por um coro de rapazes e raparigas. O terceiro poeta do círculo de Mecenas . Orfeu ou o tebano Anfião cuja lira encantava os animais e as plantas .o de- * O extraordinário desenvolvimento da literatura augustana não sobreviveu ao desaparecimento daqueles que tinham sido os seus artífices. parecem ter esgotado toda a seiva. é certo. esta impressão deve-se sobretudo ao facto de não possuirmos qualquer das obras escritas pelos contemporâneos dos últimos anos de Augusto: só o nome de Ovídio(*) nos sugere que se continuavam a escrever.ria grega. cantos de vitória como talvez desejassem Mecenas e Augusto quando os exércitos do Império apagaram a recordação da derrota sofrida em Canes ou pacificaram as fronteiras da Germfmia. nas mãos dos antecessores de Propércio.dos únicos cuja obra se conserva -. a elegia assemelha-se a um diário íntimo e encerra confidências amorosas. também contribuiu. Ovídio mostra-se. por ocasião dos Jogos Seculares de 17 a. quais podiam ter sido os modelos gregos da elegia romana. escolhendo as que assumiam um significado particularmente importante na perspectiva das reformas religiosas e políticas de Augusto. Depois da morte de Horácio. Os fragmentos que sobreviveram deixam adivinhar tentativas curiosas. Ovídio. Com ele. Desta vez. faz-se poesia como jogo de salão e elobriam-se «as obras mais belas». Propércio(*). Ao julgarmos esta singular epopeia. a grande reconciliação da cidade com os imortais. Hoje. na sua maior parte. consagradas à vida moral da cidade. Foi em Roma. na costa do mar Neb'1. de Galo(*) (mas as suas obras desapareceram) e de Tibulo que os poemas em dísticos elegíacos aprenderam a exprimir os tormentos e as aleb'Tias do amor. mas a sua recordação esfumou-se.. as letras latinas sapareceu quase definitivamente. como pano de fundo destes quadros pitorescos. É possível que esta poesia latina desconhecida tenha tido alguma beleza. Tibulo celebrou o santuário de Apolo Palatino. que não deixou marcas. o legendário romano. Não são. como por exemplo os pequenos poemas de Mecenas(*).. reflectindo sobre o papel do poeta na cidade. Contudo. torturado. melhor ou pior. grande apreciador de imagens surpreendentes e hábil na cl.

inicia-se com um hino a Nero singular. C. com a idade. pelos simulacros que emanam dos seus corpos gloriosos. Vê-se também a que ponto a poesia latina está impregnada de religião. Lucano tenha adquirido uma consciência cada vez mais nítida das consequências políticas do ideal estóico. tão profundamente marcada pela 6'1'avidade estóica. O pai. obscuro. sem dúvida. contra todos aqueles que acusam Roma de decadência e de corrupção irremediável. frementes de indignação.do pelo Imperador. mas não deixou de lhes reconhecer um papel essencial. conheceu uma «ante-estação» poética mais madura. Mas a morte interrompeu esta obra. a personalidade de Catão da Útica(*) ~ 148 . utilizam-no como virtuoses e. C. em particular uma tragédia. as formas mais elevadas do pensamento romano conduzem à meditação e à oração. Tendo adoecido no momento em que deveria 149 - isto é. ensanguentou Roma e da qual resultou o regime imperial. Os acontecientos desmentiram o sonho do poeta.). ainda muito recente. vê-se que a epopeia romana..É preciso esperar pelo reinado de Nero para encontrar novamente obras que tenham sobrevivido até aos nossos dias.:1 * Da literatura claudiana. da influência crescente de Popeia e. Com eles. A mesma crítica tem sido muitas vezes feita a Lucano.. desde a adolescência. compôs um grande número de poemas de toda a espécie. da retórica escolar. Diz-se também que Lucano. Em sua opinião. representa admiravelmente a evolução literária e espilitual deste século do qual Pérsio e Lucano nos mostraram o resultado final. hostil ao Império. sobretudo. No debate instituído entre as velhas formas republicanas e o novo mundo cuja gestão nos relata. é a ele que pede inspiração. progressivamente. Catão desempenha o papel de árbitro. Mas também se sentiu atraído. C. tenso.aquela que quase resultou do ano dos «três Imperadores» . nos acontecimentos da história. para os quais a eloquência era o objectivo supremo da vida. também ele um <<jovempoeta». Inelutavelmente. O primeiro.gosto. no seu desenvolvimento. Admiravelmente dotado. a vantagem do Destino e a acção de uma Providência. nas suas mãos. é A Guerra Civil). se a Fortuna não tivesse vindo contrariar o cumplimento dos votos que lhe eram dirigidos. teria provavelmente. suscitou pelo seu talento a inveja daquele que o considerava um lival mais dotado. não deixa de ref1ectir a evoluç1'io dos sentimentos do autor.A Farsália poderia ter-se tornado a Eneida . i. introduziu-o desde muito cedo nos meios literários. Apesar das diferenças. A segunda metade do século I d.). a Virgílio e a Lucano. a poesia permite-se todas as audácias. tornam-se mais densas pela influência. Lucano ambicionou opor à Eneida. no tempo de Nero. que o autor concebera como uma imensa «crónica» da revolução que. como os deuses no destino do mundo. Séneca(*). reveladoras de um verdadeiro temperamento de poeta. C. pois foi uma criança prodígio e morreu aos 26 anos. no início do poema. Morreu com 28 anos (em 62 d. Tendo começado a escrever aos 15 anos. para escrever algumas sátiras. que fora discípulo atento dos grandes retóricos que ensinavam no fim do reinado de Augusto. uma epopeia de inspiração senatoria1 susceptível de exprimir o pensamento político dos meios estóicos. Ao escrevê-Ia. Lucrécio procurou subestimar a importância dos deuses no mundo. quando se acentuou a má-vontade contra Séneca (de quem Lucano era sobrinho). e talvez também mais hábil. se mantém fiel à sua vocação: pensar os grandes problemas da cidade e do mundo. Só passou a sê-Io quando se produziu o divórcio entre o re{. mas o poema manteve-se para sempre fonte inspiração moral e testemunho da 6'1'andeza romana. é uma das páginas mais comoventes do litismo religioso. A virtude de Catão eleva-o acima dos outros homens. que A Farsália tenha sido originariamente um manifesto da oposição oligárquica. Na verdade. de Enio a Lucrécio. durante a sua curta vida. Compreende-se que. Pérsio(*) e Lucano(*) representam. só teve tempo. o de transmitirem aos homens. do regime senatOlial restaurado. da morte de Burrus. Este filho de um romano de Espanha. a imagem do soberano Bem. deixando uma obra em que se exprimem as convicções políticas e morais da aristocracia senatorial que momentaneamente julgara poder apoiar-se em Nero mas não tardara a desiludir-se. Lucano também baniu de A Farsália o maravilhoso tradicional. a personalidade mais eminente é. pelos filósofos. cedido aos costumes e percorrido com distinção a carreira das honras. epopeia juliana baseada num misticismo conformista. uma tentativa de passar para a poesia as especulações do estoicismo. mas foi para distinguir melhor. mente entusiasta e que não é uma página aduladora. E inexacto pretender. executado por ordem de Nero por ter participado na revolta de Pisão (65 d. Numa Roma renovada . das variações de . mas só chegou até nós a epopeia A Farsália (o seu verdadeiro título. aquele que Lucano lhe deu. como fi'equentemente se afirma. mas devemos acreditar que as razões pessoais que Lucano podia ter para se afastar de Nero desempenharam um papel menos importante do que a mudança de clima verificada em Roma depois do assassínio de Agripina. e o hino a Vénus.. Os autores aprenderam o oficio. entre 49 e 31 a. por vezes bem. reunindo numa mesma admiração o estoicismo de Átalo ou dos dois Sextii e o pitagorismo místico de Sotião. tal como faziam Séneca e os outros estóicos que morreram vítimas do tirano infiel ao ideal dos seus plimeiros anos. cujos dez cantos estão completos. nascido em Córdova no início da era cristã. E é verdade que a obra. praticado como amador os géneros literários mais diversos. das oposições de princípios. aprendeu a desprezar os valores «vulgares» e a não se contentar com as pretensas verdades admitidas pela opinião pública.'ime de Nero e os senadores estóicos - tão celebrada por Séneca - ganha em importância. inicialmente prote6. que os sucessos do grande florescimento augustano. Estas raras páginas.

Só passou a sê-Io quando se produziu o divórcio entre o re6rime de Nero e os senadores estóicos .al restaurado. a imagem do soberano Bem. mas só chegou até nós a epopeia A Farsália (o seu verdadeiro título. pelos filósofos. tornam-se mais densas pela influência. e talvez também mais hábil. é A Guerra Civil). frementes de indignação. só teve tempo. Morreu com 28 anos (em 62 d. praticado como amador os géneros literários mais diversos. deixando uma obra em que se exprimem as convicções políticas e morais da aristocracia senatotial que momentaneamente julgara poder apoiar-se em Nero mas não tardara a desiludir-se. O ptimeiro.aquela que quase resultou do ano dos «três Imperadores» - A Farsália poderia ter-se tornado a Eneida do regime senatOl.isto é.tual deste século do qual Pérsio e Lucano nos mostraram o resultado final. uma epopeia de inspiração senatorial" susceptível de exprimir o pensamento político dos meios estóicos. o de transmitirem aos homens. nascido em Córdova no início da era cristã. Vê-se também a que ponto a poesia latina está impregnada de religião. introduziu-o desde muito cedo nos meios literários. Tendo começado a escrever aos 15 anos. inicia-se com um hino a Nem singularmente entusiasta e que não é uma página aduladora.val mais dotado. Compreende-se que.. epopeia juliana baseada num misticismo conformista. que fora discípulo atento dos grandes retóricos que ensinavam no fim do reinado de Augusto. mas o poema manteve-se para sempre fonte inspiração moral e testemunho da 6'Tandeza romana. Mas também se sentiu atraído.É preciso esperar pelo reinado de Nero para encontrar novamente obras que tenham sobrevivido até aos nossos dias. ainda muito recente. Catão desempenha o papel de árbitro. hostil ao Impél. * Da literatura claudiana. C. em particular uma tragédia. não deixa de reflectir a evolução dos sentimentos do autor. pois foi uma criança prodígio e morreu aos 26 anos. A mesma clitica tem sido muitas vezes feita a Lucano. A segunda metade do século I d. Lucano tenha adqui1. ensanguentou Roma e da qual resultou o regime imperial. Ao escrevê-Ia. da morte de Burrus. A virtude de Catão eleva-o acima dos outros homens. Lucrécio procurou subestimar a importância dos deuses no mundo. teria provavelmente. das variações de gosto. no seu desenvolvimento. quando se acentuou a má-vontade contra Séneca (de quem Lucano era sobrinho). C. se a Fortuna não tivesse vindo contrariar o cumpl. no início do poema. se mantém fiel à sua vocação: pensar os grandes problemas da cidade e do mundo. de Énio a Lucrécio. No debate instituído entre as velhas formas republicanas e o novo mundo cuja gestão nos relata. as formas mais elevadas do pensamento romano conduzem à meditação e à oração. Na verdade. mas foi para distinguir melhor.o. Mas a morte intenompeu esta obra.). Numa Roma renovada . Lucano ambicionou opor à Eneida. entre 49 e 31 a. a personalidade mais eminente é. sobretudo. Diz-se também que Lucano. Lucano também baniu de A Farsália o maravilhoso tradicional. a personalidade de Catão da Útica(*) - tão celebrada por Séneca - ganha em importância. nos acontecimentos da história.). cujos dez cantos estão completos. vê-se que a epopeia romana. Pérsio(*) e Lucano(*) representam. representa admiravelmente a evolução literária e espi1. da retórica escolar. E inexacto pretender. é a ele que pede inspiração. Os acontecientos desmentiram o sonho do poeta. Séneca(*). que o autor concebera como uma imensa «crónica» da revolução que. pelos simulacros que emanam dos seus corpos gloriosos. sem dúvida. das oposições de ptincípios. com a idade. que A Farsália tenha sido originariamente um manifesto da oposição oligárquica. mas devemos acreditar que as razões pessoais que Lucano podia ter para se afastar de Nero desempenharam um papel menos importante do que a mudança de clima verificada em Roma depois do assassínio de Agripina. compôs um 6'Tande número de poemas de toda a espécie. desde a adolescência. a vantagem do Destino e a acção de uma Providência. tão profundamente marcada pela 6'Tavidade estóica. E é verdade que a obra. para escrever algumas sátiras. contra todos aqueles que acusam Roma de decadência e de corrupção irremediável. Tendo adoecido no momento em que deveria 149 148 . Este filho de um romano de Espanha. durante a sua curta vida. reunindo numa mesma admiração o estoicismo de Átalo ou dos dois Sextii e o pitagorismo místico de Sotião.mento dos votos que lhe eram dirigidos. C. tal como faziam Séneca e os outros estóicos que morreram vítimas do tirano infiel ao ideal dos seus ptimeiros anos. Os autores aprenderam o ofIcio. suscitou pelo seu talento a inveja daquele que o considerava um l. da influência crescente de Popeia e. tenso. como frequentemente se afirma. obscuro. conheceu uma «ante-estação" poética mais madura. aquele que Lucano lhe deu. Admiravelmente dotado.do uma consciência cada vez mais nítida das consequências políticas do ideal estóico. aprendeu a desprezar os valores «vulgares» e a não se contentar com as pretensas verdades admitidas pela opinião pública. progressivamente. cedido aos costumes e percorrido com distinção a carreira das honras. C. que os sucessos do grande fIorescimento augustano. Apesar das diferenças. Em sua opinião. por vezes bem. e o hino a Vénus. Inelutavelmente. nas suas mãos. inicialmente Prote6rido pelo Imperador. como os deuses no destino do mundo. a Virgílio e a Lucano. no tempo de Nero. O pai. a poesia permite-se todas as audácias. executado por ordem de Nero por ter participado na revolta de Pisão (65 d. Com eles. utilizam-no como virtuoses e. também ele um '00vem poeta». para os quais a eloquência era o objectivo supremo da vida. uma tentativa de passar para a poesia as especulações do estoicismo. Estas raras páginas. reveladoras de um verdadeiro temperamento de poeta. é uma das páginas mais comoventes do litismo religioso. mas não deixou de lhes reconhecer um papel essencial.

são caricaturas. às quais se manteve fiel. Veremos uma atitude seme1hante a1guns anos mais tarde. foi também um poeta consideráve1. E. no tempo de Vespasiano. pe10 menos aparentemente. porque são permanentemente confrontadas com uma experiência espiritua1 de particu1ar acuidade. fora do comum. testemunham a mesma riqueza de pensamento que as obras morais. As suas aná1ises. Certo de deter a verdade. fina1mente. adivinha-se um espírito 1ivre contemp1ando o espectácu10 do mundo. para e1es bana1. A seiva parece ter secado apesar da exuberância da forma. único meio de que o homem dispõe para atinl. Séneca abordou prob1emas científicos nas suas Questc3es Naturais. e todo um povo que frequenta as praças púb1icas. um sírio rico e tão vaidoso como ingenuamente cortês. mas a ser 1idas ou recitadas em púb1ico. suscitam a adesão. parte da sua obra não chegou até nós . Comprometido na revolta de Pisão. Contemporâneo de Marcia1. da grande prosa c1ássica. Com a riqueza criativa do tempo de Nero. Nero. dirigidos a um amigo ou a um parente . constituíra a sua vida. O ve1ho rea1ismo 1atino afirma-se com rara fe1icidade. Quinti1iano foi encarregado de reencaminhar a juventude para o respeito pe10s bons princípios e de restaurar um c1assicismo que. Pe1a primeira vez nas 1etras antigas. Séneca tinha enorme prestígio. Mas não pôde recusar à sua protectora o pape1 de responsáve1 pe1a formação mora1 do jovem Domitius Ahenobarbus . - que em breve reinaria com o nome de Nero. O esti10 de Séneca . as suas hesitações. cortou as veias. apenas 1he sendo atribuídas as oQjecções necessárias ao desenv01vimento do raciocínio. ofica1mente estóico. quando foi chamado por Agripina. Se outrora a 1iteratura 1atina começara 151 150 j . Para e1es. São figuras da sociedade contemporânea: dois jovens que abandonaram a escola e vagueiam pe1a Itá1ia meridiona1 vivendo de expedientes. Espírito enciclopédico. depois de esta ter substituído Messa1ina junto de C1áudio. as velhas fórmulas da Esc01a renas- cem. mas apenas com a verdade.um eXl1ioao qua1 teve muita dificu1dade em se adaptar -. E foi como director da juventude do Príncipe que exerceu até à morte de Cláudio uma espécie de regência. feitas em anotações dispersas. na maior parte das vezes concebidos como diá10gos. foi-se 1ibertando 1entamente de tudo o que. cujos Epigramas nos convidam também para o espectácu10 da Roma dos Flavianos.sempre com a intenção de descobrir a ordem profunda do mundo e o p1ano da criação. em idade de reinar. rea1idade actuante. Aquilo que. Prosador empo1gante. que se encontra em Lucano. 1evou-o a compor tratados morais. parecem destinadas não a ser representadas em teatro. Este desejo de converter. os pórticos e os a1bergues de Nápoles a Tarento. no si1êncio do eX11io. contrastando com a rude tensão de Pérsio. Séneca. enfrentando os mais graves prob1emas de política externa. Juvena1(*) reencontra a violência de Pérsio. Juvena1 gostaria de que Roma continuasse a ser. Séneca pretende não se preocupar com a perfeição literária. que ju1ga depender de uma Providência. de ta1 maneira que. Este destino. mu1heres perversas ou amorosas.é simu1taneamente um método de pensamento e uma forma de escrita. administI'ando o Império em nome do discípu10. um autor conta em prosa as aventuras de personagens que não pertencem à 1enda nem à história.mas o autor representa o pape1 principa1 e o inter10cutor nunca toma a pa1avra de forma directa. De regresso a Roma. Também estudou problemas de geografia . quando Cláudio foi coroado imperador. sugerindo medidas administrativas e 1eis que fizeram dos cinco primeiros anos de reinado um 1ongo idl1io entre o jovem Príncipe e o povo. com Marcia1(*). esse Satiricon que 1amentave1mente chegou até nós num estado de muti1ação ta1 que nos impede de conhecer a sua composição de conjunto.mas esta. forneceu a Séneca uma ocasião de experimentar os princípios estóicos.abordar seriamente as primeiras magistraturas. ou ainda saborosas anedotas cujo interesse documenta1 sobre os costumes da Roma contemporânea permanece inesgotáve1. que esperara rea1izar o ve1ho sonho de Platão - c010car a fi1osofia à cabeça da cida- de -. é demasiado natura1mente artista para que a expressão do seu pensamento não assuma em si mesma uma forma e10quente. então atravessados por diversas correntes re1igiosas e fi10sóficas e que aprofundaram a sua cultura.tão diferente do esti10 periódico de Cícero . Mas em breve. com o desejo de não ceder às aparências e desprezando as convenções. arde em desejo de convencer os outros e de os e1evar à sua sabedoria. teve de se confessar derrotado. Mas estes <<instantâneos» não possuem a extensão do romance de Petrónio. com e1e e por meio de1e. apesar de tudo. É verdade que o jovem Nero também foi seduzido por esta extraordinária faci1idade e este sentido da grandeza. a influência de Messa1ina destelTou-o para a Córsega. Escreveu SáÜras mas. o que fora no reinado de Augusto. teve de passar vários anos no EI. Compreende-se que. fora um jogo da Esc01a. Na rea1idade. As obras que nos deixou testemunham o seu percurso espiritua1. devemos re1acionar o romance de Petrónio(*). abandonou os princípios do mestre e Séneca. no tempo de Trajano e de Adriano. As tragédias que nos 1egou e que. mas também as suas certezas profundas. mas que ta1vez tenham sido encenadas e foram com certeza pensadas como ta1. ou frágeis estatuetas. precederá de perto a decadência das 1etras 1atinas. imiscuiu-se nas intrigas da corte. juntamente com a formação oratória que Séneca recebera. Aí. o ve1ho género naciona1 aparece mais carregado de retórica e não é compensado pe1a 1iberdade soberana de que Horácio dera mostras.. se tenha formado uma esc01a de jovens ávidos de renovação e revoltados contra a estética. ganhou fama de grande e10quência. antes de1e. e aos nossos 01hos de modernos.>ipto. renunciara sinceramente a tudo o que não fosse o estudo e a prática da fi1osofia. Escritos em versos fáceis. nas suas mãos.rir a fe1icidade. apoiava-se nos estóicos do Senado. tornou-se. até então. à sua v01ta. onde entrou em contacto com os meios a1exandrinos. Mas a esc01a 1iterária de Séneca não duraria muito.

anacrónica. A sua crítica do principado julio-claudiano é tanto mais violenta quanto se opõe a um re/. E. mas muitas vezes o pensamento. Defende os valores «republicanos». que não aparecia no modelo. retóricos. da «segunda sofística»). infringindo a proibição que lhe foi feita. o desejo de servir o Estado. os administradores. conduzidos por homens cujas intenções Tácito analisa. soube-a através de um certo Lúcio de Patras (se é que era este o seu nome!). aberta às influências do Oriente. Uma única obra. das quais está ausente uma verdadeira vida. hospeda-se por acaso em casa de uma feiticeira. Roma está cada vez mais dependente da influência do Oriente. filósofos. Juvenal não difere em nada de um Tácito ou de um Plínio o Moço. conhecida por muitos povos. com todas as limitações e mesquinhez que a situação comporta. testemunha ainda alguma vitalidade. descobre a verdadeira natureza do marido. preferindo. no golfo de Corinto. Sente-se muito pouco a extensão dos verdadeiros problemas.. provinciais (como Juvenal. embora saiba que o regime imperial é uma necessidade. graças ao poder de Eras. em meados do século lI. decide corrrer mundo para se instruir sobre as coisas da magia. um pensamento romano autónomo. Apuleio não inventou esta história. a literatura latina estiola-se. Com Apuleio. a brigas. Posição intelectualmente confortável. que se transforma em pássaro. Neste aspecto. desconcerta os escritores. nesta simbiose do Oriente e do Ocidente. os magistrados.rresso à praia de Corinto. aprendera a falar e a escrever as duas línguas de cultura.a. sem dúvida. É com Platiío e. mas é um bom exemplo desse pensamento sincrético que reúne em si especulações de origens muito diversas e prepara o advento do cristianismo. aos movimentos mais fugazes de uma sensibilidade que utilizou 153 J .'''Íme remoto. com a tradição órfica que se prende esta concepção do Amor como princípio cósmico. quando se lhe apresentam várias soluções possíveis. Os governadores de províncias. /. um jovem aristocrata grego originário da região de Patras. O conto de Psiqué. em grande parte. inicia-se nos mistérios da deusa. fazendo intervir Isis. obra de um adulto. As Metamorfoses. engana-se no unguento e ei-Io metamorfoseado em burro.'1'egotambém o mundo onde se desenrolam as aventuras contadas. Começam então mil aventuras. a que menos honra a natureza humana. morre para nós a literatura latina da Roma pagã. como por exemplo a história de Amor e Psiqué) e conferiu-lhe também uma conclusão religiosa. a literatura de expressão latina apresenta-se como secundária. sobretudo em sarcófagos. sem dúvida. Ao chegar a Tessália. a sua posição política é. Em contraste com a renovação então experimentada pela expressão da língua grega. um tema familiar aos escultores contemporâneos de Apuleio. Os acrescentos de Apuleio não são ornamentos gratuitos. o meio espiritual. reconhecido. de re/. Tácito aplica à história da dinastia julio-claudiana as velhas categorias válidas quando Roma era uma pequena cidade entregue a rivalidades entre facções. Antigos escravos de origem oriental ocupam cargos de grande responsabilidade. Apuleio. o campaniano de Aquino). a alianças entre grandes famílias. implora à deusa Ísis que ponha termo aos seus tormentos. da Bela e o Monstro) para construir um mito filosófico em que se exprime o seu espiritualismo. por compreender. A sua filosofia não é. os comerciantes têm familiares sofistas (é a época. exprime-o mesmo nos seus contrastes e paradoxos. Não há dúvida de que tentou conferir um sentido simbólico a um tema tradicional. pretendendo imitar a feiticeira. no par Eros e Psiqué (a Alma).. Mas acrescentou-lhe novos episódios. cuja visão do mundo nos parece singularmente estreita. À medida que o Império excede a cidade romana. 152 Conhecemos o tema geral: Lúcio. muito original. retomando incansavelmente as mesmas formas. paralelamente ao pensamento grego . Psiqué. por outro. O conjunto forma um drama no qual se confrontam os representantes da aristocracia senatorial e da corte dos Príncipes. expõem a história dos reinados que se sucederam de Tibério a Nero [a história de Suetónio(*) vai de César a Domiciano] e fazem-no sem qualquer simpatia: os acontecimentos processam-se. artistas. hoje em dia. habilmente inserido no centro da obra. reencontra finalmente a pátria celeste. filha de rei. esclarece-nos quanto às preocupações do pensamento romano.há apenas sobrevivências moribundas. as maneiras de sentir denotam os hábitos romanos. agora é o contrário que se produz: Roma imperial. que se apresenta como platónico. a inveja e a cupidez. o latim e o grego. este foge e ela é obrigada a percorrer o mundo para encontrar aquele que lhe inspirou uma paixão invencível. Lúcio reencontra a sua forma humana e.- por ser itálica e por ultrapassar ligeiramente os limites da cidade romana. une-se sem o saber ao deus Amor: no momento em que. utilizou um velho conto folclórico (a histól. na infância. Reconhece-se. Fruto desse meio espiritual complexo. Já não existe. * A literatura latina. Ísis mostra-se tranquilizadora. um extraordinário romance picaresco que só termina no dia em que Lúcio. O título. Os Anais de Tácito(*). Neste aspecto. que também são italianos. o peso das províncias no Império tudo aquilo que os historiadores modernos se esforçam. as intrigas da corte esmiuçadas com complacência. para além de O Fedro e O Banquete. Trata-se do singular romance escrito pelo africano Apuleio(*) que. verdadeiramente. é evidentemente um símbolo de inspiração platónica: é a odisseia da alma humana precipitada num corpo de carne e que. Os autores que se seguem não fazem mais do que repetir as ideias antigas. que o reproduziam frequentemente.. pela sua variedade e também pelos seus contrastes. é grego. Por um lado. no Oriente. já oficialmente condenado pela doutrina política dos Antoninos. cujo romance deu origem a outra adaptação que nos chegou como pertencente a Luciano.

construindo-Ihes santuários dignos dos Imortais. que foi construída em 16 a. A coluna romana nunca atingiu a perfeição das que vemos no Partenon. Ao dórico primitivo seguiu-se uma interpretação mais ornamentada desta ordem. por atingirem uma largura menor que o pórtico frontal. Com o Império. E verdade que imitou a Grécia.dificilmente se deixam interpretar e a cronologia das reconstruções está longe de ser clara. Nesta evolução. Na verdade. de praças públicas. nos capitéis coríntios. características da civilização romana.numa delas encontram-se esculpidos motivos litúrb>icos. géneros literários e todo um material técnico originários dos países gregos. os Sátiros. Constroem-se então templos que se assemelham muito aos templos gregos. como bucrânios. que não se confundem com as formas gregas. Às volutas características vieram juntar-se. segundo consta. começaram a multiplicar-se monumentos puramente civis que. Durante este período arcaico. Sabemos apenas que se envidaram esforços para conservar durante tanto tempo quanto possível a antiga simplicidade. C. cuja influência continuará a fazer-se sentir na posterior evolução da arquitectura sagrada no mundo romano. o santuário é sempre construído num telTaço elevado (podium). a pedra só é utilizada nas colunas e na base do que não se confundem coI)1as formas gregas. mais acima. Existe uma forma itálica de templos. Mas em breve a ornamentação começará a complicar-se. surb>iram em Roma os primeiros templos revestidos de m1írmore e. o de Castor no Fórum. no fim do século VI a. assistiu-se ao triunfo da ordem coríntia. a civilização romana. Esta arquitectura deriva visivelmente de modelos OJientais.soube criar tipos arquitecturais à medida das suas necessidades. óvanos. A delicadeza do friso contribui muito para a impressão de elegância que caracteriza os templos desta época. Os motivos da decoração são inspirados em imagens helénicas. C. uma real beleza. para aligeirar a linha do fuste. por exemplo o fiiso de Nimes com a arquitrave do templo de Vespasiano. na maior parte das vezes. Um bom exemplo deste coríntio «augustano» é a Casa Quadrada de Nimes. mas que diferem em pormenores importantes. mas também possui as suas próprias tradições. vasos e instrumentos destinados ao sacrif1cio e. a 155 154 1 . Podemos comparar. pelo seu plano geral. enquanto o Partenon se destina a ser observado de todos os ângulos. Este conservantismo impediu investigações tão subtis como as dos arquitectos da Grécia clássica. Aqueles que nos foram revelados pelas escavações - por exemplo. revelando. em Roma. por exemplo. que contribui tão b'Tandemente para a harmonia das colunatas clássicas.certamente. Mas quando se desenvolveu a ornamentação dos capitéis e quando. O estilo da decoração assemelha-se à arte jónica. assim como uma tendência. como se pode ver.. ou por serem substítuídos por colunas mais leves ou simples pilastras. visivelmente. por vezes para uma extrema delicadeza. É verdade que os primeiros edifícios da cidade cuja recordação chegou até nós são templos mas. sem dúvida de um dórico arcaico. e que os Romanos se orgulhavam dos seus templos ornados de relevos e de estátuas de telTacota. por vezes. o templo romano é sobretudo uma fachada. Muitas vezes. variedade e magnificência. mas que também soube apresentar criações originais. sobretudo. ao gual se ascende por uma escada construída à frente da fachada. motivos florais que Jllongam o cesto e se inspiram. quando é períptero. páteras. sobretudo. apesar de todas as tentações. que contrastava com o mármore e o ouro dos templos gregos. enquanto as cidades helmadeira. possuidor da sua perfeição própria. Quando começamos a entrever a existência de uma arquitectura no Lácio. uma notável predilecção pelos motivos dionisíacos. se recorreu às caneluras. C. o de Júpiter no Capitólio. C. enfim todo um conjunto de palmas que não podem deixar de recordar os motivos ÜlVoritos da ornamentação arcaica. no templo dórico de Cori. mas os capitéis deste tipo não apresentam um tipo puro. o edificío em si é construído de forma muito b'TOsseira.. O templo é mais decoração da via pública do que um edifício em si. só raramente conheceram o entasis. Destina-se a inteb'Tar-Se num forum ou numa área sagrada. e também pelas formas vegetais. a colunata reduz-se a um pórtico anterior ou então. a área sagrada do Largo Argentina . conhecemos muito maIos ediflcios da Roma republicana. os templos são revestidos de telTacota. Mas. E provável que esta disposição característica se explique pela crença segundo a qual a divindade só exerce uma protecção eficaz na medida em que o seu olhar descobre efectivamente o homem ou o objecto sobre os quais deve incidir a sua bênção. predomina a influência etrusca. a partir do século 11a. onde se sobrepõem várias zonas . ao mesmo tempo. E. consolas. dentículos. para se exprimir. E para uma ornamentação cada vez maior que evolui a arquitectura romana na arte sacra. enquanto as cidades helénicas se tinham preocupado quase exclusivamente com a exaltação dos deuses. embora esta decoração atinja. não tardaram a constituir o essencial da decoração urbana. fi'equentada por multidões e constantemente ao alcance dos mortais. E. que então reinava em toda a bacia ocidental do Mediterrâneo. as colunas conservaram uma certa rigidez. tratadas com profundidade e leveza. os pórticos laterais tendem a apagar-se. não obstante os contributos mais recentes vindos da Grécia clássica e do Oriente helenizado. à medida que os operários italianos e ocidentais se tornam mais hábeis a trabalhar o mármore. Assim. Civilização urbana. Um inquérito sobre a arte romana fornece-nos a mesma conclusão. que remonta ao início do século I a. com ornamentos em relevo e pintados de cores vivas. o de Ceres junto do Aventino. E assim que devemos imaginar os mais antigos templos de Roma. pelo seu número. Roma não esqueceu o conforto nem o prazer dos vivos. as Bacantes. A ordem jónica não está ausente. Além disso.

permitia toda a espécie de audácias. ou mesmo num simples reboco. importa opor à exuberância dos templos a severidade dos outros ediflcios. esta arquitectura que não tinha outro fim para além da eficácia da função. as velhas escolas helenísticas continuaram a produzir obras que satisfaziam as suas tendências nacionais. mas o irmão. os sacerdotes. que elevaram as bancadas sem recorrer a nenhuma colina ou acrópole cujo declive tel. as arquitraves. numa pedra de mármore. segundo o gosto antigo herdado dos Etruscos. num ediflcio de pedra talhada. A partir daí. o carácter monumental dos edifícios imperiais. em grande parte. mas também houve oficinas que. Os escultores helenísticos já tinham cl. pelos atritos e pelas forças. de inspiração jónica. forneci das por oficinas etruscas. 156 * A evolução das outras artes plásticas não apresenta inovações tão revolucionárias. muito curiosamente. que são indubitavelmente ediflcios de inspiração romana. enquanto uma adolescente o convida. A estatuária augustana não é indigna do relevo. Por outro lado. após escavações extremamente delicadas. nada mais facil: uma armação grosseira na qual se introduzia a massa líquida bastava para erigir as abóbadas mais ousadas. mas também é possível antever o desenvolvimento de tendências nacionais que as impediu de degenerar num simples trabalho de cópia. mas de um núcleo central.:'1otino. como as termas. Imortaliza. mostram o virtuosismo e também a sobrecarga que esta arte romana oriental atingiu. Até mesmo no caso dos filhos da fmm1ia imperial . se generalizou o trabalho em mármore. um vigor e uma fecundidade renovados. que se destina unicamente à ornamentação. destinadas a acolher multidões imensas. e utilizaram os meios que ela lhes proporcionou. que são criações puramente romanas. formando uma procissão de sacriflcio aos deuses. sobretudo.o de Virgílio e Horácio. a do «cascalho». em mánnore.mónia da consagração. A bem dizer. tal como se encontra actualmente reconstruí do.entre os quais Caio e Lúcio César . coberto. Aí se desenvolveram tendências que não eram desconhecidas da arte helénica. o mais velho. consistir. o friso contínuo. tão fecunda para os arquitectos modernos. Podia ser t. de tijolo). tão dominada pelo dramático e pelas investigações pitorescas. não é a arquitectura sacra que constitui o domínio mais característico nem mais rico e. até ao fim da República. mais ainda. a mostrar-se mais ajuizado. fonnado por uma mistura de cal. mas a vida nem por isso é interrompida. relevo e pintura mantêm uma dependência muito maior em relação aos modelos helénicos. sOlTindo. Foi também assim que se tornou possível a construção das longas filas de arcos sobre as quais os aquedutos romanos ainda hoje atravessam os campos de Roma. que Augusto dedicou a Roma. mostra a quão elevada beleza podia aspirar. Nele tiguram o Imperador.influência dos edifícios orientais predominou com certeza. os frisos jél não desempenham qualquer função orgânica e servem apenas para criar ritmos sensíveis ao olhar. exigia uma mão-de-obra muito menos especializada do que a técnica tradicional e. com esta transplantação. e os anfiteatros. no fim da República. As paredes já não são inteiramente feitas de blocos justapostos. generaliza-se e desenvolve-se uma técnica nova. Assim se explica. Nas províncias asiáticas. Com o cascalho. Os traços das personagens são tão precisos que é possível reconhecê-Ios. transfonnou-se. sem !. destinado a receber uma pintura. por exemplo.:'1s não são mais do que ornamentos importados. os templos eram construídos segundo a técnica tradicional da pedra. Com o advento do Império. como dissemos. Daí resulta também que o arquitecto se encontra praticamente livre dos constrangimentos impostos.am de acompanhar. a partir de Augusto. desenvolveu-se e conduziu à criação do relevo «pitoresco» que triunfa na coluna Trajano. a escultura monumental romana manteve-se arcaica durante muito tempo. mas que adquiriram bruscamente. As primeiras estátuas que ornamentaram os templos foram. cúpulas. paralelamente ao classicismo literál.quanto se desejasse. em 9 a. os templos f'oram decorados com placas de telTacota. Com pedras talhadas é muito difícil contruir abóbadas e. os generais conquistadores estudaram profundamente os imensos museus que as cidades gregas constituíam. Tem-se afirmado que um ediflcio romano construído segundo esta técnica nãq é mais do que um imenso rochedo artificial dentro do qual o arquitecto ordena à sua vontade os espaços cheios e vazios. conforme as estátuas e as moedas contemporâneas. a cel. Os templos de Baalbeck na Síria.'Tande esforço. dos dois lados. Este tipo de construção era rápido e económico. Mais tarde. Mas quando. um pouco mais afastado. caminha gravemente. C. desde muito cedo. o Senado. imbuído da importância da cel. encontrou em Roma uma tena de eleição. No entanto. a constituição da mística imperial traduz-se pela formação de uma arte que sabe exprimir simultaneamente a personalidade do Príncipe e o carácter divino da sua missão. Ora. surge-nos em toda a sua grandeza. com a fam11ia. de uma arte do relevo que aliava realismo e graça e cuja obra-prima é o altar da Paz. A ponte do Gard. se estabeleceram na própria Roma e onde trabalharam artistas vindos de todas as regiões do Mediterrâneo para satisfazer o público romano. Herdados do helenismo. Escultura.mónia.ado tipos «reais» para representar Alexan157 J . Os arquitectos romanos aperceberam-se desta libertação. O friso do altar da Paz.que se encontram presentes. assistiu-se ao desenvolvimento. construída provavelmente por engenheiros militares. como é óbvio. as colunat. É um momento solene da religião. areia e materiais mais duros (fragmentos de pedra. os magistrados. por um acabamento final. Foi assim que a arte de Pérgamo. dá indícios de alguma distracção.

Ü. amplamente desenvolvido. os traços do rosto. Com o prosseguimento da evolução. f1àmulas. foram descobertas no século XVI e os artistas sentiram-se encantados com essas figuras graciosas. por Roma.. A lembrança desta iconografia. Os motivos desta pintura pertencem a um repertório formado por elementos complexos. Não é raro. pavilhões de sonho Jimitando o campo 158 decorativo. colunas com esti1óbatas. trata-se de trabalhos vulgares de marmoreiros. cujas curvas harmoniosas se coordenam com elementos arquitecturais fantc1sticos: colunas irreais. Os escultores partiram de um rosto real e não se Jimitaram a exprimir uma abstracção. Inicialmente. que tratava a parede como uma superfície. O teatro forneceu esquemas de composição. que a parede seja concebida como uma fachada de slzéné evocando um átrio de palácio. a que chamaram grotescos por aparecerem no fundo de grutas obscuras. através das quais apresentaram composições O1.teve muitos adeptos no século I antes da nossa era. numa perspectiva fugaz. completavam. esse universo de ficção que. uma paisagem de pequenas dimensões ou. no entanto.meiro esti1o). com todas as imp1icações políticas e religiosas. conhecemo-lo sobretudo pelas casas de Pompeia e alguns exemplos conservados na própria Roma. que é a da apoteose. nas paredes das suas casas. Quando se tratc'1va de representar simples mortais. o movimento dos cabelos e a expressão do olhar compõem um retrato verdadeiro. eram raros os Romanos que não pretendiam juntar a sua efígie ao túmulo e é por essa razão que os nossos museus possuem colecções muito variadas de bustos onde sobrevivem burgueses e grandes senhores de Roma e das cidades provinciais. para os Romanos. colunatas e arquitecturas fantásticas.a. desenhados com precisão. profundamente enterradas nas Termas de Tito (com as quais era então confundida). C. Começaram mais cedo a pendurar. rea1izaram-se apenas incrustações de mármores de cor (foi aqui10 a que se chamou o pl. quando as escavações dos reis de Nápoles revelaram os frescos de Herculano e.ginais. Paralelamente a este esti10 arquitectural desenvolveu-se um outro. assim. mais frequentemente. A lembrança dos ediflcios reais teatros romanos dos quais possuímos vários exemplos muito bem conservados. os arqueólogos distinguiram um terceiro e um quarto esti1o. recebia. C. paira sobre as representações dos primeiros Imperadores romanos: a mesma vontade de ideaJizar os traços de uma eterna juventude. A natureza irrompia. próprias para receber uma decoração pintada. Segundo a maior ou menor importância atribuída à composição arquitectural. Foi aí que Rafael foi buscar os temas dos seus «grotescos»: as ruínas da Casa de Ouro. A partir do início do Império. os pintores decidiram desenhar janelas em trompe-l'reil. com as suas portas e. se perpetuaram. embelezar o real. Muitas vezes. mas. a pintura romana ainda exerceria uma grande inf1uência na arte moderna.dre e os Diádocos. entre as colunas. melhor ou pior. mas. assim. seguindo-se todo um conjunto arquitectural. em breve. de tal mqdo que as grandes tradições nascidas nas oficinas da Atica ou da Asia a partir do século V a. quadros dos mestres gregos. A parede foi toda dividida em znas que receberam decorações diferentes. como veremos. a sua formaç~o. Com o desenvolvimento do luxo. a ideia do Príncipe em si. uma figura graciosa. os de Pompeia(*). A criação deste esti10 decorativo prova a importc-'tncia que revestia. mas o virtuosismo não é raro.catura. ao meio. Dois séculos mais tarde. a arte da estatuária procurou cada vez mais o rea1ismo e mostrou-se desejosa de transmitir as particularidades do modelo. sobretudo em África. Os elementos puramente decorativos parecem ser produto de uma evolução mais recente e inspirada. em vez de tentar aboli-la. reproduzindo por vezes encenações trágicas. Cada painel. Os operários treinavam-se na reprodução das estátuas !. na vida quotidiana. um Arimaspo. - esses 159 ~ . em Sabrata ou em Dougga alia-se assim às fantasias de artistas libertos dos constrangimentos da gravidade. na maior parte das vezes paisagens inspiradas na arte dos jardins.'Tegas célebres. rodear a vida quotidiana de maravilha e fantasia. Este esti10 arquitectural . a partir do século I a. Não faltavam c1ientes aos artistas. em particular no quarto esti1o. criou-se um novo esti10 favorecido pela técnica do cascalho que permitia criar vastas superfícies Jisas. que sem dúvida muito se inspirou na arte helenística. inspiradas em quadros célebres. grandes composições de tema mitológico. em parte. Os «quadros» derivam directamente das megalografias caras aos pintores gregos. é também característico das seus espectáculos: fazer com que as coisas sejam diferentes do que são.. A Casa de Ouro de Nero foi ornamentada com pinturas e estuques em relevo inspirados na decoração do terceiro estiJos. e não príncipes.precisão raiava frequentemente a cm. até ao fim do Império.sos e.chamado segundo esti10 da pintura romana . cenas pintadas. os Romanos aprenderam a apreciar a pintura decorativa. uma Amazona. Este sentido do retrato é um dos caracteres mais originais da escultura romana.